Textos e outros conteúdos académicos sobre música

Créditos Sebastien Monachon (Éveil Musical)

Benefícios da música em bebés

Quais são as vantagens da música para uma criança?

A música permite comunicar o amor.

A música é um bom meio de criar uma ligação positiva com a criança. Quando canta e dança com ela, transmite-lhe o seu amor e afeto. O mesmo acontece quando faz música com o bebé: é uma boa forma de criar bons laços com ele.

A música melhora a capacidade de aprender das crianças

A prática de atividades musicais (cantar, tocar ritmos num tambor, ouvir diferentes músicas) estimula diferentes zonas do cérebro, o que favorece várias aprendizagens. As atividades musicais entre outras a escuta, a memória, a atenção, a organização do pensamento e a capacidade de os pequeninos controlarem certos comportamentos.

As canções e lengalengas desenvolvem a linguagem

As palavras ouvidas nas canções e lengalengas enriquecem o vocabulário do bebé. Ouvi-las e cantá-las levam-na também a fazer sons, dizer palavras e formar frases. Além disso, com as canções e lengalengas, a criança dá-se conta, pouco a pouco, que as palavras são formadas por sílabas e por sons, o que a ajudará mais tarde a ler e escrever.

A música favorece a criatividade

Quando os mais novos se movem livremente ao som de uma música ou descobrem o som de um instrumento, isso favorece a sua expressão artística. A criança desenvolve também a sua imaginação quando inventa palavras para uma canção ou gestos para a acompanhar.

A música facilita ao bebé a descoberta do seu corpo

Quando a criança faz gestos nomeados numa lengalenga, toma consciência do seu corpo. Dançar, saltar, bater palmas e pés ao som de uma música exercem também as habilidades motoras como a coordenação.

Desenvolve o sentido musical

Por os mais pequeninos em contacto com uma variedade de estilos musicais (pop, rock, blues, country, jazz, clássica, tradicional) ajuda a desenvolver o seu sentido da música e os gostos musicais.

Oferece momentos para socializar

Cantar, dançar e fazer jogos musicais com outras crianças permitem desenvolver as competências sociais dos mais pequenos, como cooperar, partilhar instrumentos, respeitar regras e esperar a sua vez.

A música permite descobrir o mundo

Quando a criança ouve músicas de culturas variadas, a criança abre os seus horizontes.

Ajuda a acalmar e a gerir as emoções

Cantar tal como fazer música e ouvi-la favorecem a produção de hormonas associadas ao prazer, ao bem-estar e à confiança. A música tem um efeito calmante que ajudará os mais pequenos a gerir as suas emoções. Um estudo da Universidade de Montréal mostrou que os bebés com saúde permaneciam calmos duas vezes mais tempo quando ouviam uma pessoa a cantar do que uma pessoa a falar.

Se a criança tem algum mal-estar, faz-lhe bem cantar a canção preferida dela. Ela pensará menos na dor se a sua atenção se dirigir para algo de positivo.

Benefícios para os prematuros

A música pode também ter benefícios para os bebés prematuros. Estudos revelaram que quando se canta canções de embalar a bebés prematuros ou quando se faz ouvir músicas que reproduzem o pulsar do coração, o ritmo cardíaco estabiliza. Os bebés respiram mais calmamente, adormecem mais facilmente e dormem bem.

Tradução do Francês por António José Ferreira, de Naitre et grandirLes bienfaits de la musique, a 22 de dezembro de 2019.

Créditos Sebastien Monachon (Éveil Musical)

Créditos Sebastien Monachon (Éveil Musical)

Mãos idosas ao piano

Há um limite de idade para aprender música?

Além de ser uma atividade prazerosa, tocar um instrumento na terceira idade é benéfico a vários níveis quer para principiantes quer para pessoas com conhecimentos e experiência musicais. Com o aumento da idade, é comum a perda de certas habilidades, a memória e a flexibilidade do pensamento. Mas isso pode ser prevenido, evitado ou retardado pelo estudo e a prática da música.

Sendo cada vez maior a esperança de vida, é importante que os idosos aprendam coisas, realizem atividades nos tempos livres e exercitem o cérebro. Aprender a tocar um instrumento é uma realização para muitos adultos e idosos que antes não tiveram tempo, disponibilidade, dinheiro ou espaço em casa. A família e os amigos devem incentivar à realização deste sonho e apoiá-los nesta prática altamente recomendada.

Tocar órgão ou piano age sobre a memória e o movimento das articulações, estimula o cérebro e retarda o envelhecimento. Melhora o bem-estar e a qualidade de vida, reduz a ansiedade, solidão e depressão, e tem benefícios para a convivência social. Idosos que tocam um instrumento são menos suscetíveis a doenças como Alzheimer e esquizofrenia, visto que a prática musical estimula o cérebro e torna os idosos mais criativos.

Será que existe uma idade para além da qual não é possível aprender música?

“Numerosos são os adultos que sempre quiseram aprender música, observa Isabelle Peretz. E vendo as aulas de música das crianças, alguns questionam se não seria a ocasião de o fazerem. A ciência é encorajadora a este respeito. Sim, mesmo em idade avançada, podemos aprender música.”

E a concluir: “Além do facto de que esta aprendizagem tem um efeito protetor sobre o cérebro – o declínio relacionado com a idade tem um efeito menos devastador no músico – aprender música tardiamente melhora a audição no ruído, a atenção e previne os malefícios do isolamento social.”

Cf. Traduzido revista Le Temps (Suiça), excerto, tradução e acrescentos por António José Ferreira

Mãos idosas ao piano

Mãos idosas ao piano

Coro Polifónico de Amarante

Cantar em coro favorece a coesão social

Cantar em coro é uma atividade que traz grandes benefícios artísticos, sociais e pessoais a quem canta, e retarda os efeitos do envelhecimento na comunicação.

Quem canta num coro aprende a dominar o seu instrumento, a voz, escuta as outras vozes, respeita os membros do coro, aprecia a agilidade e o timbre dos outros cantores. Trabalha a postura e reeduca a maneira de respirar.

O coro funciona como um anti-depressivo e melhora o humor. Ajuda a tecer laços mais ou menos fortes, conforme os anos, laços criados nos ensaios, encontros e partilha do palco. Melhora a partilha e as trocas intergeracionais.

Em coro, aprende-se a estar em grupo, a cooperar em projetos que ultrapassam o indivíduo e veiculam valores e mensagens sociais. Ganha-se autoconfiança, desenvolvem-se diversas competências e criam-se oportunidades de expressão. Desenvolve-se o lado direito do cérebro, sede da intuição, da criatividade e das capacidades artísticas.

Melhora o conhecimento da(s) língua(s), a comunicação, a dicção e articulação, o que torna as pessoas idosas mais inteligíveis do que as que não cantam. Estudos comprovam que o coro ajuda a estabilizar a voz: quem canta em coro fala num tom mais variado e controla melhor a voz.

Cantando em coro, a pessoa preserva a qualidade de vida e usufrui de uma vida social mais interessante.

“A música teria um efeito sobre o comportamento social. Assim, cantar em coro aumentaria, segundo diversos estudos, a confiança no outro e favoreceria a cooperação em detrimento da competição. No jogo do dilema do prisioneiro, por exemplo, conhecido por sondar a atitude de entreajuda face à traição, os indivíduos que cantam em coro imediatamente antes manifestam maior confiança no outro e cooperam mais do que aqueles que lêem poesia em grupo ou vêem um filme, ou que ouvem música gravada. (da revista Le Temps, traduzido por António José Ferreira)

Coro Polifónico de Amarante

Coro Polifónico de Amarante

Criança a estudar, foto DN Life

Estudar com música

Nos anos 90 do século XX, especialistas fizeram testes para examinar a influência da música sobre a memória. O estudo revelou que a música podia ter um impacto positivo nas revisões da matéria.

A música pode melhorar o humor reduzindo a pressão arterial e o ritmo cardíaco. Música dos períodos clássico e barroco, em especial, à volta das 60 pulsações por minuto.

Um andamento de 60 pulsações por minuto ativa o hemisfério cerebral direito, enquanto rever a matéria ativa o hemisfério esquerdo.

Com os dois hemisférios ativados, o cérebro pode tratar a informação mais rapidamente.

Apesar dos vantagens que a música pode ter sobre o cérebro e a memória, ela também ser uma causa de distração. Para evitá-lo, há que ouvir:

  • música sem palavras, que poderiam distrair, enquanto a música instrumental melhora a concentração;
  • música lenta ou moderada e nunca rápida;
  • música em volume baixo, em fundo sonoro.

Há que evitar:

  • música com baixos muito fortes, como rock ou metal;
  • músicas novas, que concentrariam o cérebro na música e não nas revisões;

Em resumo, a música pode reforçar as capacidades de memorização. Embora sejam de privilegiar a música clássica e a música barroca, o tipo de música pode variar de indivíduo para indivíduo. Para ter sucesso, cada um deve fazer os seus próprios testes e verificar o que realmente funciona.

Criança a estudar, foto DN Life

Criança a estudar, foto DN Life

Criança feliz a tocar piano

Fazer música facilita a aprendizagem

Para as crianças, fazer música favorece as aprendizagens

O jovem músico brilha em todas as esferas cognitivas que dependem da atenção, como os testes de inteligência, a memória e as aquisições escolares.

Como a aprendizagem da música age sobre o nosso cérebro? Que efeitos tem sobre a curiosidade, a atenção e a memorização? É preciso tornar a aprendizagem da música obrigatória na escola? São algumas das questões colocadas por Isabelle Peretz.

Em Apprendre la musique. Nouvelles des neurosciences, livro editado pelas Editions Odile Jacob, esta investigadora aconselha a fazer música desde a idade de 6 meses. Ela cita um raro estudo em meio natural conduzido por professores da Universidade McMaster em Ontário (Canadá) sobre bebés.

“Os bebés e os seus pais aprendem um repertório de canções marcando o compasso, mexendo e cantando. Seis meses depois, as habilidades musicais dos bebés são testadas.” De modo interessante, a comunicação pais-filhos é mais intensa e o desenvolvimento socio-emotivo (exploração, sorrisos) melhora significativamente nos bebés “músicos”. “Vejo aí as primícias da inteligência”, analisa Isabelle Peretz.

Por volta dos 6 anos, reencontramos efeitos semelhantes. “As crianças de 6 anos que frequentam cursos de piano ou de canto durante um ano obtêm alguns pontos a mais na escala de medida da inteligência. Os cursos de teatro ou a falta às aulas, durante o mesmo período, não proporcionam tal vantagem.” Facto interessante, o ensino dos rudimentos da música a crianças de 8 anos durante seis meses, à média de uma aula por semana, ajuda à aquisição da leitura.

Um bom complemento à educação geral

A vantagem intelectual do jovem músico, que se exprime por resultados académicos superiores, parece manter-se durante toda a sua escolaridade. Assim, um inquérito recente realizado junto de 18 000 alunos confirmou que ao fim do secundário (entre os 16 e 17 anos), os alunos canadianos que participavam numa orquestra de sopros, um coro ou um agrupamento de cordas tinha uma taxa de sucesso mais elevada em todas as matérias avaliadas (Matemática, Biologia, Inglês).

Os que tinham seguido cursos de artes plásticas não mostravam tal vantagem. De notar, contudo, que a vantagem intelectual não se observa em músicos profissionais quando se comparam com profissionais não músicos. “Os estudantes de música não têm um QI superior aos estudantes universitários de outras disciplinas, nota Isabelle Peretz. Dito de outro modo, aprender a fazer música é uma vantagem quando a atividade faz parte da educação geral. Fazer disso uma profissão não assegura uma manutenção intelectual de alto nível.”

A ciência é encorajadora, mesmo em idade avançada pode-se aprender música. Isabelle Peretz

Traduzido por António José Ferreira da revista Le Temps (Suiça) (excerto)

Criança feliz a tocar piano

Foto Best Digital Piano Guides

Harmony Project

A música é benéfica para as crianças

Por que razão a música é benéfica para as crianças?

A aprendizagem da música pode melhorar a aquisição e a compreensão da linguagem nas crianças, estipula estudo por investigadores da Northwestern University de Chicago (Estados Unidos da América).

Com os efeitos da música sobre o cérebro largamente reconhecidos pela ciência, o estudo publicado por uma equipa de investigadores da Escola de Comunicação da Northwestern University de Chicago fornece provas da evolução neurobiológica nos cérebros das crianças iniciadas durante pelo menos dois anos na aprendizagem de música. Este foi o primeiro estudo a analisar in situ a evolução da perceção sonora pelo cérebro das crianças participando durante melo menos dois anos num programa de formação musical.

“As nossas observações comprovam que a aprendizagem da música pode literalmente remodelar o cérebro de uma criança de modo a melhorar a sua receção sonora, o que melhora automaticamente as suas aptidões de aprendizagem da linguagem”, afirma a autora do estudo, Nina Kraus, professora de ciências da comunicação.

Com as suas equipas, Nina Kraus era a primeira a seguir o impacto da aprendizagem musical sobre as aptidões cognitivas das crianças de 3 a 6 anos participando num programa de sensibilização musical existente: o Harmony Project, programa de educação musical gratuito em bairros problemáticos de Los Angeles.

À semelhança de El Sistema venezuelano, o Harmony Project propõe há mais de dez anos oficinas de música destinadas a crianças de famílias desfavorecidas depois da escola. Como o sublinha a fundadora do projeto Margaret Martin, os participantes do Harmony Project vêm muitas vezes de famílias fustigadas pela violência, a criminalidade ou a droga. O Harmony Project oferece-lhes a possibilidade de aprender um instrumento, mas também de participar num projeto coletivo, de se exprimir e de se superar. Observando os seus alunos, Margaret Martin chegou a uma conclusão surpreendente: “Desde 2008, 93% de jovens que fizeram parte do Harmony Project terminaram com sucesso o seu percurso escolar e inscreveram-se na universidade, apesar da taxa de insucesso escolar superior a 50% nos seus bairros.”

Nina Kraus está convencida de que a aprendizagem da música é uma das principais razões desta mudança. Como explica a investigadora, a música e a linguagem são baseadas nos mesmos parâmetros – a altura, o timbre e a duração, e o seu tratamento pelo cérebro é similar. Por conseguinte, expondo o cérebro de uma criança à aprendizagem da música de forma regular, ele é mais estimulado para tratar estes três parâmetros e consegue analisá-los mais rapidamente e com maior precisão.

“Utilizámos testes neurológicos rápidos, mas poderosos, que nos permitiram avaliar o tratamento neurológico dos estímulos com uma nova precisão. Verificámos que as mudanças no cérebro ocorrem ao fim de dois anos de aprendizagem musical”, explica Nina Krauss. Isso prova que a educação musical não pode funcionar acelerando-se, mais se faz parte da educação musical, ela pode ter um impacto duradoiro e muito benéfico sobre as capacidades de escuta e as aptidões para a aprendizagem.”

Coautores do estudo:

Jessica Slater, Elaine C. Thompson, Dana L. Strait, Jane Hornickel, Trent Nicol e Travis White-Schwoch

Traduzido por António José Ferreira de France Musique

Harmony Project

Harmony Project

Contemporary Works for Accordion

Contemporary Works for Accordion

Música contemporânea para um virtuoso do acordeão

Teresa Cascudo

A integração do acordeão no âmbito da música clássica data de pouco mais de um século. Deveu-se, em parte, à casa Hohner, fábrica alemã, que deu um impulso notável ao ensino do instrumento e à composição de música especificamente para ele destinada.

Costuma considerar-se que as Sete novas peças, escritas em 1927 por Hugo Herrmann, protegido de Paul Hindemith, inauguraram o moderno repertório acordeonístico. A história organológica do acordeão explica esta incorporação tardia. Embora tenham existido ao longo da história diversos instrumentos aerófones de palheta, antecedentes, portanto, do acordeão, um instrumento com o nome Akordion só foi patenteado em 1829, em Viena, por um construtor de origem arménia. Era um instrumento de acompanhamento, fácil de tocar, pelo que teve um sucesso imediato. Foi tornando-se um instrumento cada vez mais complexo: a sua evolução deteve-se em 1959, quando uma nova solução técnica permitiu a alternância entre os dois tipos de baixos.

Da mesma forma que os pianistas compositores marcaram durante décadas o caminho para a exploração da sonoridade própria do piano para a criação musical, acordeonistas-compositores como o próprio Paulo Jorge Ferreira têm toda a responsabilidade na ampliação do repertório do acordeão. A sua primeira suite para acordeão, incluída nesta gravação, explora a capacidade técnica do intérprete, testada em muitos momentos. Especialmente nos andamentos 1º, 4º e 8º, existem passagens de execução técnica bastante exigentes, em que se utilizam alguns efeitos técnicos e sonoros típicos da técnica acordeonística, como o bellows shake, ricochete, cluster, gliss ou percussão. Paulo Jorge Ferreira relembra nesta peça a sua lua de mel na vila Maia de Pac-Chen, um projeto de ecoturismo que combina o respeito pela tradição e os costumes com o cuidado da natureza, no ambiente paradisíaco. da Península de Yucatan, no México. Relata, através do uso virtuoso dos diversos sons do instrumento, a chegada a Pac-Chen, o contato fascinante com os descendentes dos Maias que ainda ali moram e os momentos mais destacados da visita. A propósito de Densus, de 2011, o compositor enfatiza o seu caráter essencialmente lírico e o facto do seu título se dever ao tipo de textura sonora “densa” trabalhada. Tal como foi concebida por Paulo Jorge Ferreira, no seu duplo papel de intérprete e compositor, é uma peça essencialmente descritiva. O discurso musical apresentado em cada mão deve ser tocado de forma transparente. Está dividido em quatro secções principais, mas é comum a toda a partitura a sua atmosfera calma e meditativa e a predominância de uma gama de intensidades ao redor do piano. Por isso, o domínio do acordeão nos diferentes níveis de som é muito importante.

Jesper Koch não é acordeonista, mas o seu atracção pelo instrumento aparece em mais de uma peça do seu catálogo. Jabberwocky é uma delas. O título refere-se a um poema incluído por Lewis Caroll em Alice Through the Looking Glass, em que o escritor usa palavras de sua invenção, dando-lhes significados loucos, para a narrar a morte de um monstro fantástico chamado Jabberwock. No resultado de sua peça, Koch transfere para sua partitura a intenção humorística presente no poema de Caroll. Como o sentido de humor é um dos aspetos fundamentais desta peça, Paulo Jorge Ferreira, cuida, na sua interpretação, de lhe dar a abordagem estilística adequada, de modo a transmitir o seu caráter, por assim dizer, caprichoso. Deve-se notar que o domínio da estrutura das suas peças, juntamente com um extraordinário talento para contar histórias através da composição, são dois aspectos do estilo de Koch apreciados nos círculos da música contemporânea em que ele se move, especialmente nos países do norte da Europa.

Este CD também contém duas peças de compositores de origem russa. Arkady Borisovich Tomchin nasceu em 10 de abril de 1947 na cidade de São Petersburgo (então, Leningrado), onde obteve a sua formação musical. Ativo como membro da União dos Compositores Russos desde 1970, é autor de um vasto catálogo de obras para várias combinações instrumentais e também para coros e vozes solistas. Dedicou a Sonata para acordeão, de 1978, ao virtuoso Oleg Sharov, cujo nome constitui uma referência mundial em termos de ensino e interpretação de repertório para o instrumento. É dividida em dois andamentos, nos quais, usando a técnica do tema com variações, são exploradas diferentes texturas puramente acordeonísticas. Apresenta várias passagens de intenso virtuosismo e aborda efeitos sonoros interessantes. Em particular, o segundo movimento começa de uma forma brilhante, com duas páginas de execução em bellows shake, o que constitui um enorme desafio para qualquer acordeonista. Scythians of the XXth Century, de Aleksander Pushkarenko, é, ao contrário, uma obra bastante popular entre os instrumentistas.

Pushkarenko, nascido em 1952 na Ucrânia, estudou no Conservatório de São Petersburgo, onde se formou na especialidade do “bayan”, um tipo de acordeão cromático que teve um desenvolvimento específico na Rússia no início do século XX. Peça regularmente tocada em concursos de acordeão, Scythians of the XXth Century carateriza-se pela sua energia contagiante. O título misterioso da peça refere-se aos domadores de cavalos míticos e guerreiros sanguinários da estepe, os citas. O seu caráter guerreiro é traduzido musicalmente numa escrita quase sempre virtuosística: como nos mostra Paulo Jorge Ferreira nesta gravação, destreza e agilidade são requisitos indispensáveis para uma boa performance desta obra.

Contemporary Works for Accordion

Contemporary Works for Accordion

Olha os meus dois grandes amigos, história real de Vítor Rua

Os meus dois grandes amigos

Um dia, tinha eu uns 3 ou 4 anos, os meus pais foram para Paris com os meus tios, e eu fiquei na casa de praia com as minhas tias, tios, primas, primos e irmãos.

Fiquei “doente”, tipo gripe, e ligaram aos meus pais, que regressaram preocupados. Quando chegaram e foram ao meu quarto eu acordei, olhei para eles e exclamei:

“Olha os meus dois grandes amigos!”

Eles choraram os dois; e eu fiquei logo bom…

Vítor Rua

Olha os meus dois grandes amigos, história real de Vítor Rua

Ilustração de Ilda Teresa Castro

Música e cérebro

O que faz a música ao cérebro?

“Somos o que somos com a música e pela música”, argumenta o autor, neurológico e neurocientista.

Facundo Manes, El País, Neurociencia, 14 de setembro de 2015

Os seres humanos convivemos com a música a toda a hora. É uma arte que nos faz desfrutar de momentos de prazer, nos estimula a recordar acontecimentos do passado, nos leva a partilhar emoções em canções em grupo, concertos ou espetáculos desportivas. Mas o que acontece de forma tão natural produz-se através de complexos e surpreendentes mecanismos neuronais. É por isso que a partir das neurociências nos colocamos muitas vezes este pergunta: que faz a música ao nosso cérebro?

A música parece ter um passado extenso, tanto ou mais do que a linguagem verbal. Prova disso são as descobertas arqueológicas de flautas feitas de osso de ave, cuja antiguidade se estima de 6000 a 8000 anos, ou mais ainda de outros instrumentos que poderiam anteceder o homo sapiens. Existem diversas teorias sobre a coexistência íntima com a música na evolução. Algumas destas deram-se porque ao estudar a resposta do cérebro à música, as áreas chave que estão envolvidas são as do controlo e da execução de movimentos. Uma das hipóteses postula que esta é a razão pela qual se desenvolve a música: para ajudar-nos a todos a mover-nos juntos. E a razão pela qual isto teria um benefício evolutivo é que quando a gente se move em uníssono tende a atuar de forma mais altruísta e estar mais unida. Alguns cientistas, por sua vez, sugerem que a influência da música sobre nós pode ter surgido de um acontecimento fortuito, pela capacidade que ela tem de sequestrar sistemas cerebrais construídos para outros fins, tais como a linguagem, a emoção e o movimento.

Ouvimos música desde o berço ou, inclusive, no período de gestação. Os bebés, nos primeiros meses de vida, têm a capacidade de responder a melodias antes que a uma comunicação verbal dos seus pais. Os sons musicais suaves relaxam-nos. Sabe-se, por exemplo, que os bebés prematuros que não podem dormir são beneficiados pelo pulsar do coração da mãe ou sons que os imitam.

A música está incluída entre os elementos que dão mais prazer na vida. Liberta dopamina no cérebro como também o fazem a comida, o sexo e as drogas. Todos eles são estímulos que dependem de um circuito cerebral subcortical no sistema límbico, quer dizer, aquele sistema formado por estruturas cerebrais que gerem respostas fisiológicas a estímulos emocionais; particularmente, o núcleo caudado e o núcleo accumbens e as suas conexões com a área pré-frontal. Os estudos que mostram ativação ante estímulos mencionados revelam uma importante imbricação entre as áreas, o que sugere que todos ativam um sistema em comum.

Um dos fundadores do laboratório de investigação Brain, Music and Sound [Cérebro, Música e Som], no Canadá, o cientista Robert Zatorre, descreve assim os mecanismos neuronais de perceção musical: uma vez que os sons têm impacto no ouvido, transmitem-se ao tronco cerebral e daí ao cortex auditivo primário; estes impulsos viajam através de redes distribuídas pelo cérebro importantes para a perceção musical, mas também para o armazenamento da música já ouvida; a resposta cerebral aos sons está condicionada pelo que se ouviu anteriormente, visto que o cérebro tem uma base de dados armazenada e proporcionada por todas as melodias conhecidas.

Estas memórias foram a base para uma original investigação, liderada por Agustín Ibáñez e Lucía Amoruso, que realizou o Instituto de Neurociências Cognitivas (INECO) sobre mecanismos cerebrais que permitem antecipar ações. O nosso cérebro constantemente trata de antecipar o que vai acontecer. Para analisar isto, mostraram a bailarinos profissionais de tango vídeos nos quais, segundo o nível de experiência, poderiam prever (ou não) quando outros bailarinos cometeriam um erro. Enquanto eles observavam, registou-se a ativação de certas regiões do cérebro com eletroencefalograma de alta densidade. Esta investigação revelou que só nos profissionais, 400 milissegundos antes de se iniciar a sequência, a atividade cerebral já antecipava que ia acontecer um erro. Existem circuitos no cortex cerebral envolvidos na perceção, codificação, armazenamento e na construção dos esquemas abstratos que representam as regularidades extraídas das nossas experiências musicais prévias. A construção de expetativas e a sua possível violação é chave para uma resposta emocional.

A relação da música com a linguagem também é objeto de estudo. O processamento da linguagem é uma função mais ligada ao lado esquerdo do cérebro que ao lado direito em pessoas dextras, ainda que as funções desempenhadas pelos dois lados do cérebro no processamento de diferentes aspetos da linguagem ainda não estejam claros. A música também é processada pelos hemisférios direito e esquerdo. Evidência recente sugere um processamento partilhado entre a linguagem e a música a nível conceptual. Mas a música parece oferecer um novo método de comunicação enraizada em emoções em lugar do significado tal como o entende o signo linguístico. Investigações mostram que o que sentimos quando escutamos uma peça musical é muito semelhante ao que o resto das pessoas no mesmo lugar experimenta. Por isso as melodias, em muitos casos, podem trabalhar em nosso benefício a nível individual, ao modular o estado de ânimo e inclusive a fisiologia humana, de modo mais eficaz do que as palavras. A ativação simultânea de diversos circuitos cerebrais produzidos pela música parece gerar alguns efeitos notáveis: em vez de facilitar um diálogo em grande medida semântico, como faz a linguagem, a melodia parece mediar um diálogo mais emocional.

A área da saúde socorre-se da música com o fim de melhorar, manter ou tentar recuperar o funcionamento cognitivo, físico, emocional e social, e ajudar a abrandar o avanço de distintas condições médicas. A musicoterapia, através da utilização clínica da música, procura ativar processos fisiológicos e emocionais que permitem estimular funções diminuídas ou deterioradas, e reforçar tratamentos convencionais. Observaram-se resultados importantes em pacientes com transtornos do movimento, dificuldade na fala produto de um acidente cerebrovascular, demências, transtornos neurológicos e em crianças com capacidades especiais, entre outros.

A música pode ser uma ferramenta poderosa no tratamento de transtornos cerebrais e lesões adquiridas ajudando os pacientes a recuperar competências linguísticas e motoras, dado que ativa todas as regiões do cérebro. Estudos de neuroimagem mostram que tanto ao escutar como ao fazer música se estimulam conexões numa ampla franja de regiões cerebrais normalmente envolvidas na emoção, a recompensa, a cognição, a sensação e o movimento.

As novas terapias baseadas na música podem favorecer a neuroplasticidade – novas conexões e circuitos – que em parte compensam as deficiências nas regiões danificadas do cérebro. A música é física e anima as pessoas a moverem-se com o ritmo. Quanto mais destacado é o ritmo, mais radical e contundente é o movimento do corpo. O exercício físico pode ajudar a melhorar a circulação, a proteger o cérebro e facilitar a função motora. A música induz estados emocionais a facilitar mudanças na distribuição de substâncias químicas que pode conduzir a estados de alma positivos e aumento da excitação o que, por sua vez, pode ajudar à reabilitação.

Emoção, expressão, competências sociais, teoria da mente, competências linguísticas e matemáticas, competências visoespaciais e motoras, atenção, memória, funções executivas, tomada de decisões, autonomia, criatividade, flexibilidade emocional e cognitiva, tudo conflui de forma simultânea na experiência musical partilhada.

As pessoas cantam e bailam juntas em todas as culturas. Sabemos que o fazemos hoje e continuaremos a fazer no futuro. Podemos imaginar que o faziam também os nossos antepassados, à volta da fogueira, há milhares de anos. Somos o que somos com a música e pela música, nem mais nem menos.

Facundo Manes é neurólogo e neurocientista (PhD in Sciences, Cambridge University). É presidente da World Federation of Neurology Research Group on Aphasia, Dementia and Cognitive Disorders e professor de Neurologia e Neurociências Cognitivas na Universidad Favaloro (Argentina), University of California, San Francisco, University of South Carolina (USA), Macquarie University (Australia).

[ Tradução de António José Ferreira e publicação na Meloteca a 27 de junho de 2019 ]

Música e cérebro

Música e cérebro

A música melhora o desenvolvimento cerebral dos bebés prematuros

A música melhora o desenvolvimento cerebral dos bebés prematuros

Um estudo elaborado na Suiça é o primeiro no mundo a descobrir que ouvir melodias produz mudanças nas conexões neuronais.

Nas unidades de cuidados intensivos neonatais há muito ruído: portas que se fecham e se abrem, pessoas falando, aparelhos de ar condicionado, entre outros. Um ruído, que pode afetar os bebés prematuros que estão a recuperar ou a desenvolver-se nas incubadoras. Os mais afetados por estas circunstâncias são os grandes prematuros, aqueles que nascem antes da semana 32, o que significa que não se desenvolveram totalmente nem física nem cognitivamente.
Embora a evidência científica assegure que os avanços médicos melhoraram muito a sua sobrevivência, estes pequeninos são mais sensíveis e estão mais sujeitos a dificuldades no seu desenvolvimento neuronal. E para que este melhore, especialistas e professores de Genebra (Suiça) decidiram confiar na música, escrita especialmente para eles. Na Suiça, segundo explicam, há cerca de 800 bebés prematuros por ano, o que representa 1% dos nascimentos no país. Em Espanha, nascem por ano cerca de 500 bebés prematuros por ano.

“Nascer entre as semanas 24 e 32 de gestação quer dizer que restariam entre dois a quatro meses para uma gravidez até ao fim, significa que o seu cérebro está menos desenvolvido”, asseguram os autores em comunicado.

“A sua maneira de desenvolvê-lo, continuam, é uma incubadora, com condições diferentes das que teriam se estivessem na barriga da mãe. Juntando a imaturidade do cérebro e o ambiente que sensorialmente não é adequado, poderia ser uma das explicações do porquê as conexões neuronais não se desenvolvem normalmente”, acrescentam.

A ideia da qual partiram os investigadores é como fazer para que o ambiente dos pequeninos na UCI melhorasse. E sabiam que a música era uma opção, mas qual? “Fomos muito afortunados porque contamos com o compositor Andreas Vollenweider, com experiência em projetos musicais com população vulnerável e que mostrou muito interesse em compor música para os grandes prematuros. O compositor contou com a ajuda de uma enfermeira especializada em cuidados intensivos”, segundo os autores.

A melodia tinha de estar adaptada a eles e acompanhá-los quando acordam, quando vão dormir, e que tocasse durante as fases sono-vigília. Os instrumentos finalmente escolhidos foram a flauta encantadora de serpentes (punji) – o que melhor funcionou -, a harpa, e bocados de sino. O compositor escreveu três peças de oito minutos de duração. O estudo baseou-se em diferenciar dois grupos de bebés, uns ouviram música cinco vezes por semana, e os outros, nada. As ressonâncias que fizeram na experiência mostraram “diferenças nas conexões neuronais no cérebro dos bebés”.

A investigação, publicada em Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), teve conclusões surpreendentes para os autores: “Os resultados revelam que as redes neuronais dos bebés prematuros que ouviram esta música, e em particular relativamente às funções sensoriais e cognitivas, desenvolvem-se muito melhor”. “E foi incrível”, relatam, “os bebés mais excitados conseguiram acalmar-se”. E mais, “incrementaram-se as conexões entre a rede cerebral de proeminência (aquela que permite discernir a importância dos estímulos) e as redes auditivas, sensoriomotoras, frontal, tálamo e pre-cúneo (uma parte do cérebro que permite relacionar a informação exterior com as dos sentidos). De tal modo que a organização das redes neuronais era muito similar à dos bebés nascidos no termo da gravidez”, explicam. Os primeiros bebés que participaram no projeto têm agora 6 anos, a idade em que os problemas cognitivos começam a ser detetáveis. Com os resultados, os autores terão agora que avaliá-los de novo.

“Este estudo tem uma conclusão muito inovadora porque é a primeira vez no mundo que se investiga o efeito da música em prematuros com ressonâncias magnéticas e se demonstra que existe uma mudança no cérebro”, explica Juan Arnáez, neonatólogo e diretor da Fundação NeNe, organização sem fins lucrativos cujo principal objetivo é a formação, investigação e divulgação dos problemas neurológicos do recém nascido. “Sabíamos que a música era benéfica para o cérebro em qualquer idade, mas não como acontecia. Não conhecíamos que mudanças se produzem realmente num cérebro em desenvolvimento”, realça o perito.

“É um avanço muito importante porque o ruído, ou como evitá-lo, nas UCI neonatais é algo a que se dedica muito tempo. Os grandes prematuros caracterizam-se,  entre outras coisas, porque têm imaturidade nas conexões neuronais e mais risco de sofrer hemorragia pela fragilidade dos seus vasos sanguíneos”, continua Arnáez. Ao nascer, “e passar do seio materno – onde o ruído é amortecido pelo líquido amniótico – para uma incubadora pode ser algo muito brusco para o bebé. E solucionar esta contaminação sonora nas unidades é fundamental”, explica. “O que deve continuar a ser investigado é que efeito real tem a música a longo prazo”.

Segundo expõe o especialista, em Espanha há hospitais que põem música nas suas UCI neonatais, mas não é algo generalizado: “O que se está fazendo é: reduzir a luz, tapando a incubadora; permitir às famílias que possam estar na unidade as 24 horas; que os prematuros possam tomar leite das suas mães desde o minuto zero e que existam mecanismos que meçam os decibéis para controlar o ruído”. “Definitivamente, há que garantir o mais possível bem estar destes pequeninos”, conclui.

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Carolina García, El País, De mamas y de papas, 01 de junho de 2019, tradução de António José Ferreira a 13 de junho de 2019

A música melhora o desenvolvimento cerebral dos bebés prematuros

Bebé prematuro