Textos e outros conteúdos académicos sobre música

Vítor Sousa

O Conservatório de Música do Porto

Vítor Sousa

A Escola Artística – Conservatório de Música do Porto (CMP) integra a rede pública de Ensino Artístico Especializado da Música (EAEM), sendo uma das sete escolas públicas no mesmo plano. Foi criado pela Câmara Municipal do Porto em 1917, tendo inicialmente como casa o Palacete dos Viscondes de Vilarinho de S. Romão.

Funcionou como escola municipal até 1972, ano em que passou para a tutela do Ministério da Educação Nacional.

Em 13 de Março de 1975, passou a usufruir das instalações do palacete Pinto Leite, também propriedade da Câmara Municipal. Em Setembro de 2008, impulsionado pelo Programa de Requalificação e Modernização das Escolas, mudou de instalações, passando a ocupar uma parte do antigo Liceu D. Manuel II (Escola Rodrigues de Freitas) e um edifício construído para o efeito, “onde se situam os auditórios, a biblioteca, salas de 1º Ciclo, estúdio de gravação e outros equipamentos de apoio, imprescindíveis a este tipo de ensino” (projeto educativo CMP, 2014, pág. 9).

Ao longo da existência do CMP pode observar-se um vasto leque de professores e antigos alunos, que se assumiram e assumem como importantes figuras nas variadas áreas da música portuguesa como composição, direção de orquestra, interpretes solistas, professores, entre outros. Também os conselhos diretivos desta instituição foram sofrendo alterações ao longo da sua existência, tendo sido presididos por um total de sete diretores.

Neste momento, o CMP é dirigido pelo Diretor António Moreira Jorge. (…)

O ensino artístico vocacional, tal como está estruturado neste momento, tem como objetivo principal a formação de músicos profissionais. Contudo, a realidade que se observa é que a maior parte dos alunos que frequentam o ensino especializado da música não tem como objetivo futuro seguir uma carreira profissional na área mas, sim, apenas aprender um instrumento musical como passatempo, ou como um melhoramento pessoal e social. Neste sentido, é vital que as instituições de ensino e os docentes reflitam e tenham a liberdade de adequar os programas curriculares, de modo a ir de encontro aos objetivos que dos alunos, que na maior parte dos casos não passa por um percurso musical profissional.

Exige-se uma reflexão de modo a que se vejam os interesses do aluno como ponto principal na relação entre Professor – Programa – Aluno. Tendo tido a oportunidade, ao longo da duração deste mestrado, de observar diferentes contextos educativos, foi-me permitido ver diferenças substanciais nas diferentes realidades – Publico, Profissional, Particular.

É justo concluir que, apesar de ter a convicção que todos dão o máximo em prol do melhor funcionamento dos respetivos cursos, é aceitável que os resultados não sejam os mesmos nos diferentes contextos educativos. Há uma diferença qualitativa entre os alunos e isso é, em parte, explicado pelas condições físicas que estão ao dispor mas, também, pelo tempo de lecionação a que os alunos têm direito nas instituições públicas, que é o dobro do tempo no Ensino Particular.

A implementação da utilização das tecnologias da informação como complemento ao estudo de violino por Vítor André Vidal Castro de Sousa, Mestrado em Ensino da Música, Porto: ESMAE 2016.

Leia AQUI o relatório completo.

Vítor Sousa
violinista Vítor Sousa
Adácio Pestana, trompista e compositor

A Fundação Calouste Gulbenkian: o papel do seu Serviço de Música no âmbito do apoio às bandas

Bruno Madureira

Desde os seus primeiros anos de existência, em meados da década de 1950, até meados da década de 90, que a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) apoiou direta ou indiretamente bandas de música amadoras, quer através da concessão de subsídios e instrumentos, quer no âmbito da formação de elementos e promoção do trabalho artístico destes agrupamentos musicais.

Apoiado, em grande medida, nos relatórios de contas da FCG, este artigo pretende analisar e dar a conhecer o contributo da FCG, em particular do seu Serviço de Música, às bandas de música amadoras ao longo de cerca de quatro décadas.

Podemos considerar relevante a contribuição desta instituição para a manutenção e desenvolvimento de muitos destes agrupamentos, não só ao nível dos apoios monetários e materiais, mas também no que diz respeito à formação de maestros e executantes, e ainda à promoção destes agrupamentos musicais.

O papel da FCG foi ainda mais valioso se tivermos em conta que a maioria desses apoios foi efetuada num período particularmente crítico para as bandas de música. Contudo merece também realce a discrepância entre os apoios monetários atribuídos a esses agrupamentos amadores – em média apenas cerca de cinco por cento do total dos subsídios atribuídos – e aqueles que eram dirigidos a outros agrupamentos, projetos ou atividades.

A Fundação Calouste Gulbenkian: o papel do seu Serviço de Música no âmbito do apoio às bandas de música (1955-1995), por Bruno Madureira, ERAS 2014.

Leia AQUI o artigo completo.

Adácio Pestana, trompista e compositor
Adácio Pestana, trompista e compositor
Matilde Margalho

Avaliação em Música

(…) O ensino da música tem um papel activo na educação e no desenvolvimento das crianças. Desta forma, este é inserido no processo regular da educação escolar de todos os alunos, com carácter obrigatório.

Devido à importância da música no desenvolvimento do ser humano como ser cultural, intelectual e artístico, existe uma vertente mais particularizada e especializada no ensino e aprendizagem da música. Assim, surge o ensino vocacional, não obrigatório.

Vários

É uma vertente de ensino que possibilita uma aprendizagem individualizada e mais aprofundada desta arte. Tal como em todas as áreas académicas, a música carece, também, do processo de avaliação, independentemente do seu carácter: teórico, prático, individual ou em conjunto.

Avaliação em Música no Ensino Regular e no Ensino Vocacional, artigo desenvolvido no âmbito da Unidade Curricular de Diagnóstico e Avaliação em Educação Musical, na Escola Superior de Educação do Instituto Piaget de Viseu, com docência e coordenação científica de Levi Leonido (UTAD), por Inês Mendes – Conservatório de Música de Coimbra, Nancy Brito – Conservatório Regional de Música Dr. Azeredo Perdigão (Viseu) | Conservatório de Música e Artes do Dão (Santa Comba Dão), Rui Ferreira e Tânia Ferreira.

Leia AQUI o artigo completo.

Orquestra Geração

A Aprendizagem de um Instrumento Musical

Vânia Moreira

A importância que a prática instrumental assume na vida atual e futura da criança será fomentada pela valorização atribuída a essa atividade no meio social onde a criança está inserida.

Vânia Moreira

A aprendizagem de um instrumento musical em contexto individual e em contexto de grupo, por Vânia Filipa Tavares Moreira – Mestrado em Ensino de Música – Instrumento e Música de Conjunto – Orientadora Doutora Maria Luísa Faria de Sousa Cerqueira Correia Castilho, Coorientadora Especialista Catherine Strynckx. Instituto Politécnico de Castelo Branco, Escola Superior de Artes Aplicadas, janeiro de 2015

Nos casos em que alguns membros da família tocam um instrumento musical e a criança cresce tendo instrumentos musicais ao seu redor, em princípio essa criança tenderá a sentir que tocar um instrumento é uma atividade perfeitamente comum e, tendencialmente, sentirá vontade em explorar os instrumentos e em aprender a tocar um instrumento musical. Contudo, mesmo nas famílias em que ninguém tem experiência musical, a importância atribuída à música pode ser perfeita e naturalmente transmitida à criança.

Na infância, a opinião dos pais é extremamente valorizada pela criança, pelo que, quão mais os pais valorizarem a aprendizagem e o desempenho musical da criança, maior será a sua motivação para se envolver ativamente na prática instrumental. A valorização por parte dos pais será tão mais eficaz quão maior for a sua envolvência no processo de aprendizagem musical dos filhos. Nesse sentido, será extremamente importante para a criança que os pais se empenhem também no que envolve todo este processo – como, por exemplo, assegurar o transporte para as aulas, assistir às aulas para que em casa possa acompanhar e ajudar na prática do instrumento e orientar o estudo. Este apoio e encorajamento por parte dos pais, sobretudo numa fase inicial da aprendizagem de um instrumento musical, serão cruciais para que a criança desenvolva em si, progressivamente, uma valorização pessoal relativamente a esta aprendizagem e autonomia.

O envolvimento parental na aprendizagem musical das crianças tem sido destacado por variadíssimos autores como sendo o fator mais importante e influente na realização musical. Portanto, este será o primeiro passo para que, a partir de fatores externos, a criança desenvolva progressivamente em si uma motivação intrínseca relativamente à aprendizagem musical.

Vânia Moreira

Leia AQUI toda a dissertação, se o desejar.

Autista brincando

A aplicação da Musicoterapia numa Criança com Espectro de Autismo

Juliana Janela Azevedo

A música, cujo efeito sobre a mente é inegável, e é muito utilizada em técnicas de relaxamento, apresenta a vantagem de ser muito apreciada pelas crianças com perturbação do espectro do autismo e por isso a musicoterapia é uma técnica de aproximação a estas crianças. As experiências musicais que permitem uma participação activa (ver, ouvir, tocar) favorecem o desenvolvimento dos sentidos das crianças.

Ao trabalhar com os sons, ela desenvolve acuidade auditiva; ao acompanhar gestos ou dançar, ela trabalha a coordenação motora, o ritmo e a atenção; ao cantar ou imitar sons, ela descobre as suas capacidades e estabelece relações com o ambiente em que vive.

Juliana Janela Azevedo

As crianças com perturbação do espectro do autismo apresentam-se “desconectadas”, ausentes na sua presença, rítmicas nos seus rituais e nas suas estereotipias, melódicas nas suas ecolálias e nos seus gritos, harmónicas nas suas desarmonias.

Desde há vários anos que se utiliza a música como instrumento terapêutico e preventivo em medicina e a sua importância manifesta-se através de um grande número de artigos de investigação e no interesse próprio dos médicos e psicólogos no tratamento de pacientes críticos. É considerada como um meio de expressão não verbal, é um tipo de linguagem que facilita a comunicação e a exteriorização de sentimentos, permitindo às pessoas descobrir o que há no seu interior e partilhá-lo com os seus pares.

A musicoterapia é uma disciplina funcional e sistemática que requer métodos e técnicas específicas para manter ou reabilitar a saúde dos doentes. Neste processo sistemático, a relação e a experiência musical atuam como forças dinâmicas de mudança, facilitando a expressão emocional do sujeito, o seu desenvolvimento comunicativo e a adaptação e integração à sua nova realidade social. É importante assinalar que a musicoterapia só deve ser aplicada por terapeutas com formação nesta área. Existem circunstâncias nas quais a terapia musical pode ter efeitos negativos, particularmente se não se pratica correctamente.

As crianças com perturbação do espectro do autismo, especialmente nas primeiras etapas, podem recusar ou ignorar qualquer tipo de contacto com outra pessoa, inclusive com o terapeuta. No entanto, um instrumento musical pode servir de intermediário efectivo entre o paciente e o terapeuta, oferecendo-lhe um ponto de contacto inicial. Por outro lado, descreveu-se que a música e a musicoterapia podem ser muito efectivas em reforçar e mudar o comportamento social da criança com perturbação do espectro do autismo.

Na área da comunicação, a musicoterapia facilita o desenvolvimento global da criança, ou seja, o processo da fala e vocalização, estimulando o processo mental relativamente a aspectos como conceptualização, simbolismo e compreensão. Adicionalmente, regula o comportamento sensitivo e motor, o qual está frequentemente alterado na criança com perturbação do espectro do autismo. Neste sentido, a música como actividade rítmica é efetiva em reduzir comportamentos estereotipados. Por último, a musicoterapia facilita a criatividade e promove a satisfação emocional. Este aspecto leva-se a cabo através da liberdade do paciente no uso de um instrumento musical, à margem do tipo de sons que podem sair dele.

As fontes de conhecimento da criança são as situações que ela tem oportunidade de experimentar no dia-a-dia. Dessa forma, quanto maior a riqueza de estímulos que ela receber melhor será o seu desenvolvimento intelectual. Nesse sentido, as experiências rítmico-musicais que permitem uma participação activa (vendo, ouvindo, tocando) favorecem o desenvolvimento dos sentidos das crianças.

Ao trabalhar com os sons, ela desenvolve a sua acuidade auditiva; ao acompanhar gestos ou dançar, ela trabalha a coordenação motora, o ritmo e a atenção; ao cantar ou imitar sons ela descobre as suas capacidades e estabelece relações com o ambiente em que vive.

Juliana Janela Azevedo

A abordagem pedagógica da criança autista depende muito do pragmatismo, espírito de criatividade, experiência e bom senso do educador, e deve ser complementada com o auxílio de recursos diversos como imagens, desenhos, pinturas, música, jogos, brinquedos especiais, actividades artísticas, manipulação com massas e, ultimamente, trabalhos com computador. O importante é estimular a criança, dar-lhe actividades, tanto físicas quanto mentais, e não deixá-la isolar-se e afundar-se nas estereotipias, que acabarão por dominá-la, atrofiando ainda mais o seu sistema cognitivo, caso não haja uma estimulação permanente.

As técnicas educacionais como o ABA (Applied Behavior Analysis), o método TEACCH (Treatment and Education of Autistic and related Communicationhandicapped Children), e o PECS (Picture Exchange Communication System) vêm-se expandindo com relativo sucesso, nestas ultimas décadas. O tratamento comportamental analítico (ABA) da perturbação do espectro do autismo visa ensinar à criança comportamentos que ela não possui, através da introdução destes por etapas. Cada comportamento é ensinado, em geral, num esquema individual, inicialmente apresentando-o associado a uma indicação ou instrução. A resposta adequada da criança tem como consequência a ocorrência de algo agradável para ela, o que na prática é uma recompensa; quando a recompensa é utilizada de forma consistente, a criança tende a repetir a mesma resposta.

O método TEACCH já referido anteriormente, desenvolvido nos anos 60, baseia-se na organização do ambiente físico através de rotinas e sistemas de trabalho, de forma a adaptar o ambiente para tornar mais fácil para a criança compreendê-lo, assim como compreender o que se espera dela; através da organização do ambiente e das tarefas da criança, o TEACCH visa desenvolver a independência da criança. O sistema de comunicação através da troca de figuras (PECS) foi desenvolvido para ajudar crianças e adultos com perturbação do espectro do autismo e com outras alterações do desenvolvimento a adquirirem comportamentos de comunicação; visa ajudar a criança a perceber que através da comunicação ela pode conseguir muito mais rapidamente as coisas que deseja, estimulando-a assim a comunicar-se e a diminuir os problemas de comportamento.

Como recurso terapêutico complementar de grande importância, salienta-se a musicoterapia. A música, cujo efeito sobre a mente é inegável, e é muito utilizada em técnicas de relaxamento, apresenta a vantagem de ser muito apreciada pelas crianças com perturbação do espectro do autismo. A musicoterapia é a primeira técnica de aproximação com estas crianças. Pode considerar-se que elas são uma espécie de feto que se defende contra os medos de um mundo externo desconhecido e contra as sensações das deficiências do seu mundo interior. Portanto, é importante trabalhar em etapas com elementos de regressão, ou seja, musicoterapia passiva ou receptiva (o paciente é submetido ao som sem instruções prévias), de comunicação e de integração.

As actividades com música, por exemplo, servem como estímulo à realização e ao controlo de movimentos específicos, contribuem para a organização do pensamento, enquanto as actividades em grupo favorecem a cooperação e a comunicação. Além disso, a criança fica envolvida numa actividade cujo objetivo é ela mesma, onde o importante é o fazer, participar, em que não existe cobrança de rendimento, a sua forma de expressão é respeitada, a sua ação é valorizada e, através do sentimento de realização, ela desenvolve a auto-estima. As necessidades educativas das pessoas com perturbação do espectro do autismo devem ser determinadas individualmente.

As actividades musicais favorecem a inclusão de crianças com perturbação do espectro do autismo. Pelo seu carácter lúdico e de livre expressão, não apresentam pressões nem cobranças de resultados, são uma forma de aliviar e relaxar a criança, auxiliando-a na desinibição contribuindo para o envolvimento social, despertando noções de respeito e consideração pelo outro e abrindo espaço para outras aprendizagens.

Juliana Janela Azevedo

As actividades técnicas que incorporam a música de uma forma interactiva, podem ser de muito valor para as terapias de crianças com perturbação do espectro do autismo. As técnicas de terapia musical podem ajudar estas crianças a serem mais espontâneas na comunicação, a romperem o seu padrão de isolamento, a reduzirem a sua ecolália, a socializarem-se e a compreenderem mais a linguagem.

Devido às diferenças entre indivíduos com perturbação do espectro do autismo, não existem regras universais sobre como se deve aplicar a terapia musical. Umas crianças podem reagir positivamente a certa técnica, enquanto outras podem fazê-lo negativamente. A música pode ser um instrumento muito poderoso para romper padrões de isolamento ao prover um estímulo externo. Mas, por outro lado, a terapia musical pode criar uma sobrecarga no sistema nervoso de algumas pessoas com perturbação do espectro do autismo, e aumentar as reações de auto-estimulação.

Alguns investigadores mencionam que a terapia musical em crianças com perturbação do espectro do autismo pode:

romper com os padrões de isolamento e abandono social e contribuir para o desenvolvimento sócio-emocional: o isolamento social é reconhecido como uma das principais características da perturbação do espectro do autismo desde há muitos anos. Romper este padrão de isolamento e introduzir a criança com esta perturbação em actividades externas, em vez de internas, é importante para combater os seus problemas cognitivos e perceptivos. As crianças com perturbação do espectro do autismo, especialmente nas etapas iniciais do estabelecimento de relações, usualmente rejeitam e ignoram as tentativas de contacto social iniciadas por outras pessoas.

A terapia musical pode fornecer alternativamente, um objecto de interesse mútuo através de um instrumento musical. Em vez de ele ser ameaçador, a forma, o som e o tacto do instrumento podem fascinar a criança com perturbação do espectro do autismo. O instrumento pode converter-se num inter-médio entre o paciente e o terapeuta, provendo um ponto inicial de contacto. Ao mesmo tempo, um terapeuta com experiência pode estruturar a experiência desde o princípio da terapia para minimizar efeitos negativos tais como sobrecarga sensorial e rituais auto-estimulantes. O som do instrumento, assim como o seu aspecto visual e táctil, podem ajudar a criança a compreender que outra pessoa o está a criar.

A música e as outras experiências musicais podem ser fonte de quantidades inumeráveis de tipo de relações. Uma vez que a barreira tenha sido ultrapassada, o terapeuta musical continua com uma série de experiências estruturadas que podem aumentar a atenção destas crianças e libertá-las do seu mundo. Apesar do processo poder ser lento e árduo, a terapia musical é um instrumento inusual e prazenteiro que pode adaptar-se para chegar às necessidades do paciente. Para além do progresso individual e do começo de relações, a terapia musical é também uma forma efectiva de ensinar comportamentos sociais. Deve ser estruturada para garantir uma melhoria nas crianças com perturbação do espectro do autismo. Apesar das interações verbais poderem ser limitadas, as interações sociais podem aumentar quando os pacientes aprendem num ambiente estruturado e adaptado a eles.

Facilitar a comunicação verbal e não-verbal: a dificuldade na comunicação funcional das crianças com perturbação do espectro do autismo pode depender fundamentalmente da sua inabilidade para manipular símbolos e representações simbólicas; por outras palavras, a criança não pode “ver” ou “escutar” mentalmente algo que não está representado no ambiente. A linguagem, um sistema simbólico verbal, é difícil de entender para elas. A “linguagem autista” está sempre acompanhada por mudez, ecolália ou iniciativa de comunicação limitada. A terapia musical na área de comunicação, incentiva a verbalização e estimula os processos mentais em relação à conceptualização, ao simbolismo e à compreensão.

Ao nível mais básico, a terapia musical trabalha para facilitar e suportar o desejo ou necessidade de comunicação. Acompanhamentos improvisados, durante as expressões habituais do paciente, podem demonstrar uma relação de comunicação entre o comportamento do mesmo e as notas musicais; as crianças com perturbação do espectro do autismo podem perceber estas notas mais facilmente que aproximações verbais. Mesmo que estas crianças comecem a mostrar intenções comunicativas (verbais e não-verbais), a música pode usar-se para motivar a vocalização.

Aprender a tocar um instrumento de sopro é, de alguma forma, equivalente a aprender a vocalizar e também ajuda a utilizar os lábios, a língua, o maxilar e os dentes. O uso de padrões melódicos e rítmicos fortes durante as instruções verbais também se demonstrou benéfico, ao manter a atenção e melhorar a compreensão da linguagem falada. A terapia musical pode em algumas instâncias reduzir as vocalizações não comunicativas que impedem o progresso durante a aprendizagem da linguagem.

Reduzir os comportamentos consequentes de problemas de percepção e de funcionamento motor e melhorar o desenvolvimento nestas áreas: as crianças com perturbação do espectro do autismo, usualmente, mostram uma marcada ausência de respostas afectivas ao estímulo e isto contribui para que exista algum defeito no processamento destes estímulos. Muitas destas crianças respondem favoravelmente ao estímulo musical. As suas respostas afectivas positivas podem melhorar a participação noutras actividades desenhadas para promover a linguagem e a socialização. Além disso, a música pode fornecer um contexto muito útil para incentivar o desenvolvimento da curiosidade e do interesse exploratório dos estímulos.

As crianças com perturbação do espectro do autismo têm comportamentos “musicais” que são indicativos de como a música pode ser importante para fazê-las emergir do seu mundo. Alguns exemplos destes comportamentos são a repetição de segmentos de canções escutadas, o ritmo espontâneo, a atração por certos sons, timbres ou fontes sonoras e o movimento espontâneo a certo tipo de música. As actividades musicais terapêuticas propostas são:

Canto: as canções podem ser adaptadas a todos os níveis de funcionamento. São uma fonte de segurança emocional e estabilidade, fonte de estimulação em todas as áreas de funcionamento e uma via para a comunicação verbal.

Tocar instrumentos: é um comportamento musical tangível e estruturado. Oferece a oportunidade de fazer música desde um nível simples até a um complexo, aumenta a participação na actividade musical, estimula a libertação de emoções e dá à criança uma sensação de vitória. Para além disto, aumenta a coesão do grupo, as habilidades sociais e a atenção, melhora a coordenação motora, fina e grossa, e a coordenação óculo-manual, melhora a percepção auditiva, visual e táctil e redirige o comportamento não adaptativo. Algumas crianças tocam instrumentos de maneira adequada, enquanto para outros os instrumentos se tornam uma via de expressão; mas as duas situações são igualmente satisfatórias desde o ponto de vista terapêutico.

Movimento com a música: compreende a actividade motora grossa rítmica, locomoção básica, movimentos psicomotores livres e estruturados, actividades perceptíveis-motoras, dança e movimento criativo, baile social, movimento combinado com canto ou toque conjunto de instrumentos. A criança com perturbação do espectro do autismo é arrítmica por natureza. A aplicação do aspecto rítmico da música à psicologia desta perturbação baseia-se no princípio lógico de reabilitação, compensa-se a pessoa com os desenvolvimentos/comportamentos que não possui. O conceito “ritmo” deve ser estruturado, generalizado, de maneira que os ajude a tomar consciência esquematizada da sua própria realidade exterior.

A criança com perturbação do espectro do autismo centra-se numa actividade dinâmica-motora que o diverte e, sem se dar conta, é levado progressivamente a uma consciência de ser actor voluntário. No caso de dificuldades motoras a níveis mais baixos, o terapeuta percute ritmicamente o corpo da criança, executa movimentos pausados sincronizados, experimenta sensações visíveis de bem-estar, estimulantes e relaxantes, e vai arquivando comportamentos rítmicos naturais. O som é a matéria constitutiva da música. Em musicoterapia, utiliza-se o som e não o ruído.

O som pode-se aplicar como terapia utilizando as diferentes formas em que se apresenta e em todas as variantes e componentes. É importante que o terapeuta conheça e saiba definir conceitos como som, música, melodia, harmonia, música instrumental, vocal, sons agudos, graves, voz, sopranos, tenor, formas musicais, entre outros. Todas estas variantes e formas de som têm um valor terapêutico muito especial.

Das qualidades do som, o timbre tem o papel terapêutico mais importante. A concordância da música com o estado de ânimo do individuo deve estender-se ao timbre preferido (corda, sopro, precursão…), ao instrumento preferido, à voz/coro favorito ou à combinação instrumental-voz eleita. A tarefa de averiguar a identidade sonora de cada indivíduo é essencial em musicoterapia.

A voz é o instrumento mais próximo e terapêutico de que o terapeuta musical dispõe. A utilização da voz como elemento dinâmico supõe uma forma de contacto directa e próxima com a criança com perturbação do espectro do autismo. A capacidade do terapeuta para projectá-la, modulá-la e regulá-la, é um elemento chave para os ganhos que se pretendem. As alterações, intensidades e diversidade de sons que a voz pode permitir abarcam o cúmulo de possibilidades rítmicas e as qualidades de altura tonal, intensidade, duração e timbre. O musicoterapeuta deve ser um artista da voz.

A altura tonal, juntamente com a intensidade (outras qualidades do som), situa a criança com perturbação do espectro do autismo no limite da fronteira entre a ansiedade, o nervosismo, a angústia, a serenidade e o recolhimento. Não se devem utilizar tons agudos durante a terapia. A criança com esta perturbação, ao ouvir os tons agudos, tapa os ouvidos e isola-se. Uma tonalidade média, a preferida, corresponde a 300-400 vibrações por segundo. As intensidades devem regular-se de modo a que em nenhum caso excedem os 30-40 decibéis. Gritar para uma criança com perturbação do espectro do autismo é um erro grave, que deve ser evitado.

Durante a terapia musical deve reservar-se um tempo para o jogo, para as canções específicas e pessoais com o nome da criança e o seu envolvimento afectivo familiar, para uma improvisação ordenada e dirigida tanto por parte do terapeuta como de quem assiste às sessões. Deve planificar-se uma experiência tímbrica sonora, com o piano por exemplo, onde a criança contacte com o teclado cada vez que o terapeuta mude registos e timbres instrumentais.

Alguns autores sugerem o uso de material sonoro-musical durante a gestação, como método preventivo da perturbação do espectro do autismo. A terapia musical não é só um processo no qual se utilizam as fortalezas do indivíduo para melhorar as suas debilidades, mas também um processo para refinar e melhorar estas fortalezas.

A Aplicação da Musicoterapia numa Criança com Espectro do Autismo, Estudo de Caso, por Juliana Janela Azevedo, II Ciclo em Ciências da Educação – Educação Especial, Sob orientação do Professor Doutor José Carlos de Miranda. UCP – Centro Regional de Braga, Faculdade de Ciências Sociais, 2012. Excerto.

Leia AQUI a dissertação completa, se o desejar.

Autista brincando
Peixe-leão

“Carnaval dos Peixes” é um poema e canção de António José Ferreira. Destina-se a um projeto de Carnaval sobre o mar, e está incluído na coletânea “Poemas que tocam” destinada ao 1º Ciclo.

Neste tempo todos querem
ser aquilo que não são:
há quem faça de sardinha
e quem seja tubarão.

Peixes há que têm veneno,
o goraz, o peixe-aranha.
(Quando fores ao Brasil
tem cuidado co’a piranha.)

Tu que pescas no oceano
fica longe da sereia
e evita as dentadas
do siluro e da moreia.

Se escolhesse ser um peixe,
eu era um peixe-palhaço
porque sendo eu quem sou,
palhaçada já eu faço.

Há no mar muitos perigos,
peixe-pedra e ratão.
Mas o que é mais perigoso
é haver poluição.

António José Ferreira (2020)

Peixe-leão
Peixe-leão
Ave Mundi Luminar de Rodrigo Leão

O conhecimento do Latim continua a ter uma importância incontornável em áreas como a música, as ciências da natureza, a literatura, a religião. No 4º ano de escolaridade as crianças estudam a romanização. Seria pertinente fazer com as crianças, nessa aproximação, apresentar audiovisuais e textos que ajudem as crianças a gostar de línguas e a respeitar o grandíssimo património que nos foi legado pela Roma antiga. Este artigo aparece na sequência de um desafio feito por uma professora do 1º Ciclo a apresentar algo à sua turma. Uma das atividades será um jogo rítmico com palavras latinas muito parecidas com palavras portuguesas.

Em seguida, lembrei-me álbum “Ave Mundi Luminar“, do compositor “Rodrigo Leão”, editado em 1993 pela Sony Music. Além do tema Ave Mundi, o álbum inclui outros que remetem para a influência latina, com objetivos de universalidade: Carpe Diem, Amatorius, Mysterium, In Excelsis.

Quer através da escuta, quer através da leitura, facilmente (ou com ajuda do professor) as crianças vão descobrir palavras portuguesas com origem no Latim a partir da canção (Ave, generosa, mundo, rosa, feliz, sagrada ou sacra, Virgem, Maria, Espírito, Santo, preciosa, gema, íntimo, sob, cordial, custódia, crucifixo, vulnerável, iluminar.

Rodrigo Leão juntou “a nobreza das vozes que se faziam ouvir em latim” a uma “subtil modernidade” nos arranjos de modo a alcançar uma visão do mundo “mais universalista” do que a dos Madredeus. A influência latina em Rodrigo Leão encontra-se também nos álbuns Alma Mater e Theatrum com temas como Solitarium, Locus Secretus, Contra Mundum e Solve Me Lucto.

Ave generosa Mundi Rosa
Felix et sacra Virgo Maria
Spiritus Sanctus laudamos te
(Ave, ave Gemma Preciosa)
Spiritus Sanctus laudamos te
(Sub intimo cordis in custodia)
Cruxificie vulnerati
Ave Mundi Luminar
Cruxificie vulnerati
Ave Mundi Luminar

Ave generosa Mundi Rosa
Felix et sacra Virgo Maria
Spiritus Sanctus laudamos te
(Ave, Ave Gemma Preciosa)
Spiritus Sanctus laudamos Te
(Sub intimo cordis in custodia)
Cruxificie vulnerati

Ave Mundi Luminar
Cruxificie vulnerati
Ave Mundi Luminar
Cruxificie vulnerati
Ave Mundi Luminar
Cruxificie vulnerati
Ave Mundi Luminar

A estreia a solo de Rodrigo Leão – escudado com o Vox Ensemble – aconteceu quando a carreira dos Madredeus estava em pleno ascendente. Com «Ave Mundi Luminar», Rodrigo estabeleceu o seu próprio universo, juntando a nobreza das vozes que se faziam ouvir em latim a arranjos de uma subtil modernidade que ambicionavam uma vibração mais universal do que a que animava os Madredeus. Temas como «Ave Mundi» e «Carpe Diem» traduziam uma nova maneira de olhar o mundo que Rodrigo ainda não tinha explorado nos Madredeus ou na Sétima Legião, talvez mais universalista. E certamente mais pessoal.

Rodrigo Leão
Ave Mundi Luminar de Rodrigo Leão
Ave Mundi Luminar de Rodrigo Leão
Hervé Platel

Tão universal como a linguagem, presente desde a noite dos tempos, a música desenvolve as nossas capacidades intelectuais e ajuda a lutar contra a Doença de Alzheimer.

Gwendoline Dos Santos

Artigo da autoria de Gwendoline Dos Santos, publicado no jornal Le Point (30/10/2015), traduzido por António José Ferreira a 21 de janeiro de 2020 e publicado na Meloteca

A música não nos protege nem do frito nem do calor, nem do vento, nem do sol, nem dos predadores ou dos micróbios. Não se pode comê-la nem bebê-la. Quanto à ideia de se unir a ela, trabalho perdido. Numa primeira abordagem, é difícil compreender o que ela nos traz de um ponto de vista evolutivo, nada, de qualquer modo, que pareça garantir a sobrevivência da espécie. E contudo, ela é tão universal como a linguagem, está presente em todas as sociedades desde a noite dos tempos. Os primeiros instrumentos musicais descobertos pelos arqueólogos, as flautas talhadas em ossos de animais, têm 35000, talvez 40000 anos. Não deixando fósseis as melodias cantadas, o canto deve ter aparecido bem antes desta época pré-histórica. Que faz então a música ao nosso cérebro para lhe agradar tanto?

Toda a gente vibrou já com uma ária da Callas ou o “Don’t Stop Me Now”, dos Queen. Basta ver o transe em que entra Alex DeLarge, o sociopata ultraviolento de “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrik, desde as primeiras notas da 9ª sinfonia de Beethoven. A escuta da música pode gerar um ligeiro suor e uma modificação dos ritmos respiratório e cardíaco, um fenómeno fisiologicamente comparável ao orgasmo. Tal como a alimentação, o sexo ou as drogas, a música solicita o circuito da recompensa no cérebro do ouvinte. Este velho sistema posto em prática pela seleção natural para favorecer a satisfação das nossas necessidades fundamentais aumenta a libertação de dopamina, o neurotransmissor do prazer, responsável por este “arrepio musical”. É o que revelou, em 2011, uma equipa canadiana da universidade McGill na revista Nature Science, utilizando técnicas de imageologia cerebral (IRM e TEP). Eis o que nos estimula a renovar a experiência, podendo a música gerar um certo vício… perfeitamente inofensivo. Além de que ela não se contenta de provocar uma onda emocional, ela deixa nos cérebros traços duradoiros, seja no músico ou no simples ouvinte.

Um cérebro sob a influência da música

Hervé Platel, cujos trabalhos são mundialmente conhecidos, é um dos primeiros investigadores, nos anos 90, a a ter observado o cérebro sob a influência da música graças à imageologia por ressonância magnética. Com a sua equipa, este professor de neurofisiologia do Inserm, exercendo na universidade de Caen, conseguiu destacar as redes do cérebro implicadas na perceção e na memória musicais. Até então, pensava-se que os dois hemisférios do cérebro desempenhavam um papel complementar, o esquerdo intervindo na lógica e na linguagem, o direito na parte artística. “Ora a música compromete o cérebro na sua globalidade, ela solicita-o nas zonas que têm funções muito mais vastas”, explica o investigador. Escutar uma obra musical cria no cérebro uma verdadeira “sinfonia neuronal” pondo em jogo os quatro lóbulos cerebrais, o cerebelo e ainda o hipocampo, conhecido sobretudo pelo seu papel na memória. Foi aliás no hipocampo que, com a sua equipa, Hervé Platel descobriu, em 2010, que a mais atividade cerebral nos músicos do que nos não-músicos e que a quantidade de neurónios aumenta em função do número de anos de prática e de intensidade desta. É que o nosso cérebro tem plasticidade.

À medida que se aprende a fazer malabarismo ou a falar russo, a aprendizagem desenvolve zonas do cérebro – é uma das propriedades fundamentais deste último. Em função dos exercícios que pratica e dos estímulos que recebe, ele cria novos neurónios (a neurogénese) mas, sobretudo, multiplica conexões (sinapses) para otimizar os desempenhos: é a famosa plasticidade cerebral.

O mesmo sucede quando alguém se inicia na música. Mesmo se aprende muito tarde a tocar um instrumento, o cérebro modifica-se: a música “muscula-o” e enriquece-o com uma larga paleta de capacidades cognitivas. Este treino neuronal beneficia sobretudo os jovens músicos. “Antes da adolescência, sendo o cérebro ainda imaturo, cada nova aprendizagem desafia a sua estrutura”, explica Hervé Platel, que fará parte dos quarenta peritos do cérebro reunidos pelo Le Point em Nice pela primeira edição de Neuroplanète.

As propriedades terapêuticas da música

Para além das zonas da audição, a prática de um instrumento desenvolve as regiões que tratam das informações motoras – que aliás não serão as mesmas num pianista e num violinista -, mas também em larga medida as da linguagem, com a qual ela partilha diversas áreas comuns, além da memória e do prazer. O músico criança obtém assim melhores desempenhos motores, adquire um vocabulário mais rico, desenvolve uma maior facilidade em ler, escrever, aprender línguas, compreender as matemáticas, aperfeiçoar o raciocínio, tornar-se lógico… até se revelar melhor nos testes de QI do que os colegas não-músicos. A música torna a criança mais inteligente? “Evidentemente, seria redutor! Mas ir ao conservatório, é como ir duas vezes à escola! Aprender solfejo, dominar um instrumento, obrigar-se a sincronizar com os outros músicos são atividades extremamente exigentes que vão estimular numerosas partes do cérebro, desenvolvê-las e treinar quantidade de benefícios que manterá toda a sua vida, mesmo se mais tarde deixa de fazer música”, nota o especialista.

A música não só tem um impacto sobre o funcionamento do nosso cérebro e as nossas competências intelectuais, mas também propriedades terapêuticas espantosas. As oficinas de música multiplicam-se para ajudar os doentes de Alzheimer, acalmar a sua ansiedade, melhorar o seu humor. Facto completamente inesperado: “Nos doentes de Alzheimer, a memória musical resiste, mesmo numa fase muito severa. O seu cérebro continua a codificar informações”, entusiasma-se Platel, que trabalha com doenças neurodegenerativas.

Se fazemos ouvir melodias novas a pessoas que apresentam amnésias maiores, elas são capazes, vários meses mais tarde, de as trautear. Mesmo com o seu seu hipocampo degradado, a memória persiste na sua cabeça. De facto, a memória solicita outro caminho, menos vulnerável à lesões cerebrais. “Nós estamos prestes a lançar um estudo que vai permitir observar o cérebro de pessoas muito atentas para compreender o percurso desta memória inconsciente”, confia o neurofisiólogo.

Novos campos terapêuticos são permanentemente descobertos. A musicoterapia encontra o seu lugar em tratamentos de stress, dor, dislexia, serviços de psiquiatria… Por vezes, ela parece agir miraculosamente. A aprendizagem do piano ajuda as vítimas de um AVC a reencontrar as suas capacidades motoras, o canto, a palavra. Uma música com ritmo adaptado assegura e uniformiza a marcha dos pacientes que tinham uma atividade motora desordenada por causa da doença de Parkinson. “A música abranda os costumes”, diz o provérbio. Provado pelas neurociências. Música, maestro!

Hervé Platel
Hervé Platel
Monumento a Ludwig van Beethoven perto da Koncerthaus em Viena

Ludwig Van Beethoven (1770-2020)

Comemorações dos 250 anos

Quando à noite contemplo extasiado os céus a enorme quantidade de astros que permanentemente bailam em suas órbitas, os chamados sóis e terras, o meu espírito voa para além dessas estrelas distantes, até à Fonte Primordial, que deu origem a todas as formas e que há-de criar tudo o que será criado.

Ludwig van Beethoven

Beethoven é um dos maiores génios da Humanidade, senão o maior.

Quem como ele foi capaz de subir até à Harpa Celestial, fazendo-a descer até aos corações dos seres humanos?

A Música é a arte suprema, o Som Criador Divino que nos dá paz, alegria, esperança, amor, liberdade.

Quem como Beethoven criou composições geniais, verdadeiros hinos de fraternidade, de liberdade, de harmonia que nos eleva à nossa verdadeira pátria, que nos liberta dos elos que nos escravizam a este mundo cheio de ilusões?

Quem como ele sofreu numerosas amarguras, ingratidões, subindo nas asas do perdão, da música até Deus que muito amava.

A sua surdez física deu-lhe provas muito dolorosas, todavia, será que não possuía capacidades superiores auditivas?

John Russel teve a oportunidade de o ouvir tocar no seu piano, concluindo que entre Beethoven e o piano havia uma íntima união, uma estreita audição, estranha, que levava a que os sons se reflectiam em seu rosto, a sua alma estava muito acima deste mundo físico.

Quando lemos o seu pensamento que serviu de introdução, concluímos que tinha poderes espirituais, que o elevavam muito acima do comum dos mortais. Ele era um filósofo cosmocrata.

Um dia passeava com a minha querida esposa numa zona verde, em Viena, capital da Música, onde viveu, quando nos surge um “grandioso” monumento em sua honra.

Parámos.

Monumento a Ludwig van Beethoven perto da Konzerthaus em Viena
Monumento a Ludwig van Beethoven perto da Konzerthaus em Viena

Começámos por admirar todo o conjunto, depois acercámo-nos, investigámos cada estatueta que tinha sido esculpida na sua base. Eram nove, alegorias das nove sinfonias. Absorvidos nesta obra maravilhosa, estávamos esquecendo de almoçar! Uma delas era um cisne. Esta alvinitente ave, símbolo do Iniciado, capaz de voar até às alturas como de mergulhar nas águas, indicava o seu nível evolutivo.

Cisne do Monumento a Ludwig van Beethoven perto da Konzerthaus em Viena
Cisne do Monumento a Ludwig van Beethoven perto da Konzerthaus em Viena

Como sabemos a Nona Sinfonia é o Hino da União Europeia. Foi uma escolha perfeita, falta seguir os elevados ideais contidos nessa obra magistral.

Muito mais havia que falar sobre o seu legado incomensurável, temos de terminar, com as sábias palavras doutro génio, o último enciclopedista, Goethe:

“Nunca conheci um artista que tivesse uma tão profunda concentração espiritual aliada a uma enorme grandeza de coração. Por isso, entendo, perfeitamente, que lhe seja dificílimo adaptar-se a este Mundo e às suas convenções.”

Goethe

Delmar Domingos de Carvalho

Galochas

Não te faça mal a chuva,
seja fraca ou seja forte
e segura o teu chapéu,
não o leve o vento Norte.

Veste roupa adequada,
não te faça mal o sol.
Se há neve ou geada
usa sempre cachecol.

Não te faça mal o frio,
não te faça mal o vento.
Se a casa está gelada,
liga o aquecimento.

Não te faça mal a água
quando molhas os teus pés.
Usas botas ou galochas?
Que prudente que tu és!

António José Ferreira

Galochas

Galochas

Inverno Encantado é uma edição musical com partitura e texto para momentos ao longo do 2º Período no 1º Ciclo no Ensino Básico. Articula de forma lúdica o Ensino da Música com a interesse pela Língua, a integração das literaturas de tradição oral, o desenvolvimento global, o conhecimento das diversas áreas do Currículo, a dimensão intercultural em canções e métodos e o respeito pelo ambiente.

Adquira na Loja Meloteca