Artigos académicos ou de divulgação sobre música

Olha os meus dois grandes amigos, história real de Vítor Rua

Os meus dois grandes amigos

Um dia, tinha eu uns 3 ou 4 anos, os meus pais foram para Paris com os meus tios, e eu fiquei na casa de praia com as minhas tias, tios, primas, primos e irmãos.

Fiquei “doente”, tipo gripe, e ligaram aos meus pais, que regressaram preocupados. Quando chegaram e foram ao meu quarto eu acordei, olhei para eles e exclamei:

“Olha os meus dois grandes amigos!”

Eles choraram os dois; e eu fiquei logo bom…

Vítor Rua

Olha os meus dois grandes amigos, história real de Vítor Rua

Ilustração de Ilda Teresa Castro

Música e cérebro

O que faz a música ao nosso cérebro?

“Somos o que somos com a música e pela música”, argumenta o autor, neurológico e neurocientista.

Facundo Manes, El País, Neurociencia, 14 de setembro de 2015

Os seres humanos convivemos com a música a toda a hora. É uma arte que nos faz desfrutar de momentos de prazer, nos estimula a recordar acontecimentos do passado, nos leva a partilhar emoções em canções em grupo, concertos ou espetáculos desportivas. Mas o que acontece de forma tão natural produz-se através de complexos e surpreendentes mecanismos neuronais. É por isso que a partir das neurociências nos colocamos muitas vezes este pergunta: que faz a música ao nosso cérebro?

A música parece ter um passado extenso, tanto ou mais do que a linguagem verbal. Prova disso são as descobertas arqueológicas de flautas feitas de osso de ave, cuja antiguidade se estima de 6000 a 8000 anos, ou mais ainda de outros instrumentos que poderiam anteceder o homo sapiens. Existem diversas teorias sobre a coexistência íntima com a música na evolução. Algumas destas deram-se porque ao estudar a resposta do cérebro à música, as áreas chave que estão envolvidas são as do controlo e da execução de movimentos. Uma das hipóteses postula que esta é a razão pela qual se desenvolve a música: para ajudar-nos a todos a mover-nos juntos. E a razão pela qual isto teria um benefício evolutivo é que quando a gente se move em uníssono tende a atuar de forma mais altruísta e estar mais unida. Alguns cientistas, por sua vez, sugerem que a influência da música sobre nós pode ter surgido de um acontecimento fortuito, pela capacidade que ela tem de sequestrar sistemas cerebrais construídos para outros fins, tais como a linguagem, a emoção e o movimento.

Ouvimos música desde o berço ou, inclusive, no período de gestação. Os bebés, nos primeiros meses de vida, têm a capacidade de responder a melodias antes que a uma comunicação verbal dos seus pais. Os sons musicais suaves relaxam-nos. Sabe-se, por exemplo, que os bebés prematuros que não podem dormir são beneficiados pelo pulsar do coração da mãe ou sons que os imitam.

A música está incluída entre os elementos que dão mais prazer na vida. Liberta dopamina no cérebro como também o fazem a comida, o sexo e as drogas. Todos eles são estímulos que dependem de um circuito cerebral subcortical no sistema límbico, quer dizer, aquele sistema formado por estruturas cerebrais que gerem respostas fisiológicas a estímulos emocionais; particularmente, o núcleo caudado e o núcleo accumbens e as suas conexões com a área pré-frontal. Os estudos que mostram ativação ante estímulos mencionados revelam uma importante imbricação entre as áreas, o que sugere que todos ativam um sistema em comum.

Um dos fundadores do laboratório de investigação Brain, Music and Sound [Cérebro, Música e Som], no Canadá, o cientista Robert Zatorre, descreve assim os mecanismos neuronais de perceção musical: uma vez que os sons têm impacto no ouvido, transmitem-se ao tronco cerebral e daí ao cortex auditivo primário; estes impulsos viajam através de redes distribuídas pelo cérebro importantes para a perceção musical, mas também para o armazenamento da música já ouvida; a resposta cerebral aos sons está condicionada pelo que se ouviu anteriormente, visto que o cérebro tem uma base de dados armazenada e proporcionada por todas as melodias conhecidas.

Estas memórias foram a base para uma original investigação, liderada por Agustín Ibáñez e Lucía Amoruso, que realizou o Instituto de Neurociências Cognitivas (INECO) sobre mecanismos cerebrais que permitem antecipar ações. O nosso cérebro constantemente trata de antecipar o que vai acontecer. Para analisar isto, mostraram a bailarinos profissionais de tango vídeos nos quais, segundo o nível de experiência, poderiam prever (ou não) quando outros bailarinos cometeriam um erro. Enquanto eles observavam, registou-se a ativação de certas regiões do cérebro com eletroencefalograma de alta densidade. Esta investigação revelou que só nos profissionais, 400 milissegundos antes de se iniciar a sequência, a atividade cerebral já antecipava que ia acontecer um erro. Existem circuitos no cortex cerebral envolvidos na perceção, codificação, armazenamento e na construção dos esquemas abstratos que representam as regularidades extraídas das nossas experiências musicais prévias. A construção de expetativas e a sua possível violação é chave para uma resposta emocional.

A relação da música com a linguagem também é objeto de estudo. O processamento da linguagem é uma função mais ligada ao lado esquerdo do cérebro que ao lado direito em pessoas dextras, ainda que as funções desempenhadas pelos dois lados do cérebro no processamento de diferentes aspetos da linguagem ainda não estejam claros. A música também é processada pelos hemisférios direito e esquerdo. Evidência recente sugere um processamento partilhado entre a linguagem e a música a nível conceptual. Mas a música parece oferecer um novo método de comunicação enraizada em emoções em lugar do significado tal como o entende o signo linguístico. Investigações mostram que o que sentimos quando escutamos uma peça musical é muito semelhante ao que o resto das pessoas no mesmo lugar experimenta. Por isso as melodias, em muitos casos, podem trabalhar em nosso benefício a nível individual, ao modular o estado de ânimo e inclusive a fisiologia humana, de modo mais eficaz do que as palavras. A ativação simultânea de diversos circuitos cerebrais produzidos pela música parece gerar alguns efeitos notáveis: em vez de facilitar um diálogo em grande medida semântico, como faz a linguagem, a melodia parece mediar um diálogo mais emocional.

A área da saúde socorre-se da música com o fim de melhorar, manter ou tentar recuperar o funcionamento cognitivo, físico, emocional e social, e ajudar a abrandar o avanço de distintas condições médicas. A musicoterapia, através da utilização clínica da música, procura ativar processos fisiológicos e emocionais que permitem estimular funções diminuídas ou deterioradas, e reforçar tratamentos convencionais. Observaram-se resultados importantes em pacientes com transtornos do movimento, dificuldade na fala produto de um acidente cerebrovascular, demências, transtornos neurológicos e em crianças com capacidades especiais, entre outros.

A música pode ser uma ferramenta poderosa no tratamento de transtornos cerebrais e lesões adquiridas ajudando os pacientes a recuperar competências linguísticas e motoras, dado que ativa todas as regiões do cérebro. Estudos de neuroimagem mostram que tanto ao escutar como ao fazer música se estimulam conexões numa ampla franja de regiões cerebrais normalmente envolvidas na emoção, a recompensa, a cognição, a sensação e o movimento.

As novas terapias baseadas na música podem favorecer a neuroplasticidade – novas conexões e circuitos – que em parte compensam as deficiências nas regiões danificadas do cérebro. A música é física e anima as pessoas a moverem-se com o ritmo. Quanto mais destacado é o ritmo, mais radical e contundente é o movimento do corpo. O exercício físico pode ajudar a melhorar a circulação, a proteger o cérebro e facilitar a função motora. A música induz estados emocionais a facilitar mudanças na distribuição de substâncias químicas que pode conduzir a estados de alma positivos e aumento da excitação o que, por sua vez, pode ajudar à reabilitação.

Emoção, expressão, competências sociais, teoria da mente, competências linguísticas e matemáticas, competências visoespaciais e motoras, atenção, memória, funções executivas, tomada de decisões, autonomia, criatividade, flexibilidade emocional e cognitiva, tudo conflui de forma simultânea na experiência musical partilhada.

As pessoas cantam e bailam juntas em todas as culturas. Sabemos que o fazemos hoje e continuaremos a fazer no futuro. Podemos imaginar que o faziam também os nossos antepassados, à volta da fogueira, há milhares de anos. Somos o que somos com a música e pela música, nem mais nem menos.

Facundo Manes é neurólogo e neurocientista (PhD in Sciences, Cambridge University). É presidente da World Federation of Neurology Research Group on Aphasia, Dementia and Cognitive Disorders e professor de Neurologia e Neurociências Cognitivas na Universidad Favaloro (Argentina), University of California, San Francisco, University of South Carolina (USA), Macquarie University (Australia).

[ Tradução de António José Ferreira e publicação na Meloteca a 27 de junho de 2019 ]

Música e cérebro

Música e cérebro

A música melhora o desenvolvimento cerebral dos bebés prematuros

A música melhora o desenvolvimento cerebral dos bebés prematuros

Um estudo elaborado na Suiça é o primeiro no mundo a descobrir que ouvir melodias produz mudanças nas conexões neuronais.

Nas unidades de cuidados intensivos neonatais há muito ruído: portas que se fecham e se abrem, pessoas falando, aparelhos de ar condicionado, entre outros. Um ruído, que pode afetar os bebés prematuros que estão a recuperar ou a desenvolver-se nas incubadoras. Os mais afetados por estas circunstâncias são os grandes prematuros, aqueles que nascem antes da semana 32, o que significa que não se desenvolveram totalmente nem física nem cognitivamente.
Embora a evidência científica assegure que os avanços médicos melhoraram muito a sua sobrevivência, estes pequeninos são mais sensíveis e estão mais sujeitos a dificuldades no seu desenvolvimento neuronal. E para que este melhore, especialistas e professores de Genebra (Suiça) decidiram confiar na música, escrita especialmente para eles. Na Suiça, segundo explicam, há cerca de 800 bebés prematuros por ano, o que representa 1% dos nascimentos no país. Em Espanha, nascem por ano cerca de 500 bebés prematuros por ano.

“Nascer entre as semanas 24 e 32 de gestação quer dizer que restariam entre dois a quatro meses para uma gravidez até ao fim, significa que o seu cérebro está menos desenvolvido”, asseguram os autores em comunicado.

“A sua maneira de desenvolvê-lo, continuam, é uma incubadora, com condições diferentes das que teriam se estivessem na barriga da mãe. Juntando a imaturidade do cérebro e o ambiente que sensorialmente não é adequado, poderia ser uma das explicações do porquê as conexões neuronais não se desenvolvem normalmente”, acrescentam.

A ideia da qual partiram os investigadores é como fazer para que o ambiente dos pequeninos na UCI melhorasse. E sabiam que a música era uma opção, mas qual? “Fomos muito afortunados porque contamos com o compositor Andreas Vollenweider, com experiência em projetos musicais com população vulnerável e que mostrou muito interesse em compor música para os grandes prematuros. O compositor contou com a ajuda de uma enfermeira especializada em cuidados intensivos”, segundo os autores.

A melodia tinha de estar adaptada a eles e acompanhá-los quando acordam, quando vão dormir, e que tocasse durante as fases sono-vigília. Os instrumentos finalmente escolhidos foram a flauta encantadora de serpentes (punji) – o que melhor funcionou -, a harpa, e bocados de sino. O compositor escreveu três peças de oito minutos de duração. O estudo baseou-se em diferenciar dois grupos de bebés, uns ouviram música cinco vezes por semana, e os outros, nada. As ressonâncias que fizeram na experiência mostraram “diferenças nas conexões neuronais no cérebro dos bebés”.

A investigação, publicada em Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), teve conclusões surpreendentes para os autores: “Os resultados revelam que as redes neuronais dos bebés prematuros que ouviram esta música, e em particular relativamente às funções sensoriais e cognitivas, desenvolvem-se muito melhor”. “E foi incrível”, relatam, “os bebés mais excitados conseguiram acalmar-se”. E mais, “incrementaram-se as conexões entre a rede cerebral de proeminência (aquela que permite discernir a importância dos estímulos) e as redes auditivas, sensoriomotoras, frontal, tálamo e pre-cúneo (uma parte do cérebro que permite relacionar a informação exterior com as dos sentidos). De tal modo que a organização das redes neuronais era muito similar à dos bebés nascidos no termo da gravidez”, explicam. Os primeiros bebés que participaram no projeto têm agora 6 anos, a idade em que os problemas cognitivos começam a ser detetáveis. Com os resultados, os autores terão agora que avaliá-los de novo.

“Este estudo tem uma conclusão muito inovadora porque é a primeira vez no mundo que se investiga o efeito da música em prematuros com ressonâncias magnéticas e se demonstra que existe uma mudança no cérebro”, explica Juan Arnáez, neonatólogo e diretor da Fundação NeNe, organização sem fins lucrativos cujo principal objetivo é a formação, investigação e divulgação dos problemas neurológicos do recém nascido. “Sabíamos que a música era benéfica para o cérebro em qualquer idade, mas não como acontecia. Não conhecíamos que mudanças se produzem realmente num cérebro em desenvolvimento”, realça o perito.

“É um avanço muito importante porque o ruído, ou como evitá-lo, nas UCI neonatais é algo a que se dedica muito tempo. Os grandes prematuros caracterizam-se,  entre outras coisas, porque têm imaturidade nas conexões neuronais e mais risco de sofrer hemorragia pela fragilidade dos seus vasos sanguíneos”, continua Arnáez. Ao nascer, “e passar do seio materno – onde o ruído é amortecido pelo líquido amniótico – para uma incubadora pode ser algo muito brusco para o bebé. E solucionar esta contaminação sonora nas unidades é fundamental”, explica. “O que deve continuar a ser investigado é que efeito real tem a música a longo prazo”.

Segundo expõe o especialista, em Espanha há hospitais que põem música nas suas UCI neonatais, mas não é algo generalizado: “O que se está fazendo é: reduzir a luz, tapando a incubadora; permitir às famílias que possam estar na unidade as 24 horas; que os prematuros possam tomar leite das suas mães desde o minuto zero e que existam mecanismos que meçam os decibéis para controlar o ruído”. “Definitivamente, há que garantir o mais possível bem estar destes pequeninos”, conclui.

(…)

Carolina García, El País, De mamas y de papas, 01 de junho de 2019, tradução de António José Ferreira a 13 de junho de 2019

A música melhora o desenvolvimento cerebral dos bebés prematuros

Bebé prematuro

Criança com autismo dedilhando guitarra, créditos Pixabay

As aulas de música geram novas conexões cerebrais em crianças

Estudar esta arte favorece o neurodesenvolvimento. Os especialistas acreditam que ajuda também ao tratamento de menores com TEA ou TDAH.

A música pode ajudar a tratar os transtornos do espetro autista (TEA) e os transtornos por défice de atenção e hiperatividade (TDAH) em crianças, conclui a Sociedade Norteamericana de Radiologia (RSNA, sigla em Inglês). Segundo estes peritos, que os mais jovens recebam aulas de música incrementa e cria novas conexões cerebrais e “pode facilitar os tratamentos em crianças com estes transtornos”.

“Já era sabido que a música era benéfica, mas este estudo oferece um melhor entendimento sobre o que está a acontecer no cérebro e onde se produzem estas mudanças”, assegura Pilar Dies-Suárez, chefe de radiologia no Hospital Infantil de México Federico Gómez, num comunicado. “Experimentar a música numa idade precoce pode contribuir para um melhor desenvolvimento do cérebro, para a otimização da criação e o estabelecimento de redes neuronais e a estimulação das vias existentes do cérebro”, acrescenta a perita.

Estudos anteriores já referiam os benefícios da música no desenvolvimento cerebral. Por exemplo, um elaborado pelo Institudo de Aprendizagem e Neurologia da Universidade de Washington (Seattle, EUA) e publicado pela National Academy of Sciences concluiu que “certas melodias melhoram o processamento cerebral de bebés de nove meses, tanto no que se refere à música como a novos sons da fala”. A investigação sugeria que “experimentar padrões rítmicos musicais melhora a habilidade de detetar e pressagiar padrões rítmicos da fala. Isto significa que ouvir música em idades precoces pode ter um efeito global nas habilidades cognitivas dos bebés”, asseguraram os autores.

A importância das conexões cerebrais

Esta última investigação da RSNA consistiu na análise de 23 crianças entre cinco e seis anos, todos livres de transtornos sensoriais, de perceção ou neurológicos. Além disso, nenhuma tinha assistido anteriormente a aulas de música. Os sujeitos foram submetidos a uma avaliação, prévia e posterior, com uma técnica de ressonância magnética avançada – uma tractografia -, o que lhes permitiu identificar as mudanças microestruturais na matéria branca do cérebro. Esta última contém milhões de fibras nervosas – os axões – que trabalham como cabos de comunicação entre distintas áreas do cérebro. O resultado pôde medir o movimento das moléculas de água extracelulares ao largo destes axões. Do ponto de vista de saúde, tudo é normal quando estas células de água se movem de modo uniforme; em contrapartida, quando o fazem de forma aleatória, sugere que existe algo anormal.

Depois de nove meses de estudo com aulas de música, os resultados mostraram o incremento das conexões e da longitude dos axões em determinadas áreas cerebrais, sobretudo “e de maneira mais notória nas fibras que conectam os lóbulos frontais e que em conjunto constituem o chamado fórceps menor”.

“Ao longo da vida”, prossegue a especialista, “a maturação das conexões cerebrais entre as regiões motoras, auditivas e outras zonas permitem o desenvolvimento de um grande número de habilidades cognitivas, entre elas, as habilidades musicais”.

“Quando uma criança recebe aulas de música, o seu cérebro prepara-se para responder a certas solicitações, estas incluem habilidades motoras, auditivas, cognitivas, emocionais e sociais”, acrescenta Dies-Suárez. “Cremos que o aumento é devido à necessidade de criar mais conexões entre ambos os hemisférios cerebrais quando ouves música”, conclui.

Ajudar as crianças com TEA e TDAH

Os investigadores também crêem que “os resultadosdo estudo podem servir para incidir com mais precisão nas estratégias de tratamento em crianças com TEA ou TDAH”. Transtornos que afetam muitas crianças no mundo. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 21 em cada 10 000 crianças que nascem no planeta padecem de autismo, estatísticas que levaram em 2008 a declarar 2 de abril como Dia Mundial do Autismo. Estes transtornos afetam o neurodesenvolvimento e manifestam-se habitualmente nos primeiros três anos de vida. Os bebés com o transtorno perdem o contacto visual, em certas ocasiões parece que não ouvem e têm algumas hipersensibilidades ou fazem birras excessivamente fortes. Uma conduta muito característica das crianças com este transtorno são os comportamentos repetitivos.

O TDAH é um transtorno crónico e começa a revelar-se antes dos sete anos. Estima-se que mais de 80% das crianças continuarão a apresentar problemas na adolescência, e entre 30-65%, na idade adulta. Os rapazes são propensos que as meninas a padecer de TDAH, em proporções que variam de quatro a um.

Carolina García, El País, De mamas y de papas, 24 de novembro de 2016, tradução de António José Ferreira a 12 de junho de 2019.

Criança com autismo dedilhando guitarra, créditos Pixabay

Criança com autismo dedilhando guitarra, créditos Pixabay

Cantar nutre o cérebro
,

Cantar nutre o cérebro infantil

Cantar nutre o cérebro infantil. A voz, o primeiro instrumento musical

Parece que os adultos precisamos sempre de argumentos sobre a utilidade das coisas para dar valor ao que, em si mesmo, é valioso. Mas, porque estamos imersos num mundo tão rápido e que vai descartando o que desde sempre nutriu o rico mundo infantil (os jogos, os contos, as canções…), vale a pena conhecer o que diz a ciência sobre os efeitos de cantar nas crianças mais pequenas.

A ciência descobriu que a música (tanto escutá-la como fazê-la) é um dos estímulos mais poderosos e complexos-completos para o desenvolvimento das crianças e jovens (e dos adultos!). Mas, e quando as crianças são demasiado pequenas para aprender a tocar um instrumento? A resposta é simples: a voz.

Por alguma razão as canções infantis são uma parte importante da tradição cultural infantil. Se todas as culturas têm o seu próprio folclore infantil é porque responde a uma necessidade universal, agora cientificamente estudada numa investigação realizada na Universidade de Münster (Alemanha), por Thomas Blank e Karl Adamek. O estudo realizou-se em 500 jardins de infância, com a colaboração do Departamento de Saúde Pública, verificando-se que 88% das crianças que cantavam com frequência estavam preparadas para a escolarização normal, em contraste com os 44% apenas daquelas em cuja escola se cantava menos.

O estudo demonstrou que cantar e jogar cantando estimula o desenvolvimento físico, mental e social das crianças numa medida que se subestimou, e que se reflete numa melhor maturação cerebral e no desenvolvimento da fala, a inteligência social e o controlo da agressão.

Cantar beneficia todas as crianças, mas de um modo muito especial os que vivem em situações de desvantagem social (violência familiar, escassez de recursos, imigração recente…). É difícil medir os incontáveis benefícios de uma atividade que põe em jogo o corpo, as emoções e a mente, mas uma possível explicação parcial dão-na os estudos neurobiológicos e fisiológicos que mostram que cantar produz hormonas de bem estar e reduz as que desencadeiam reações de agressão.

Do mesmo modo, é fácil deduzir que as canções infantis que implicam jogos, rodas, palmas etc, a determinado ritmo, pelo facto de serem de execução mais complexa e conterem tantas habilidades diferentes de forma sincronizada, potenciam ainda mais as conexões neuronais e a maturação de estruturas cerebrais básicas.

Faltaria mais investigação sobre o efeito nos mais pequeninos de substituir as canções infantis tradicionais, todas elas compostas na escala pentatónica  (segundo a pedagogia Waldorf mais próxima da fase evolutiva dos mais novos), por canções que escutem jovens e adultos, todas elas compostas em escala heptatónica. Isto sem mencionar outros aspetos como as letras, o efeito sensorial sobre as as crianças mais pequenas de muitas canções modernas ou a perda cultural da riqueza do folclore tradicional infantil que vai caindo no esquecimento.

Citando

(…) cantar e jogar cantando estimula o desenvolvimento físico, mental e social das crianças numa medida que se subestimou, e que se reflete numa melhor maturação cerebral e no desenvolvimento da fala, a inteligência social e o controlo da agressão.

Isabel F. del Castillo, Terra Mater, tradução de António José Ferreira, a 08 de junho de 2019

Cantar nutre o cérebro

Menino cantando

Sophia de Mello Breyner Andresen

Citações de Música na Poesia

MÚSICA NA POESIA

Citações musicais e poemas

[ Simónides 
(Séc. VI-V a.C.)

Inúmeras, as aves voavam
sobre a sua cabeça
e os peixes, em pé, saltavam das águas de anil do mar,
ao som do seu belo canto. ]

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[ Da epopeia dos Nibelungos 
(c. 1200)

Quando soam as cordas
do seu instrumento,
doces e suaves,
então dissolvem-se as dores de quem sofre. ]

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[ Al-Kutayyir 
(séc. XIII)

O que me dá prazer não é o vinho, não!
Nem tão pouco a música, nem sequer o canto.
Apenas os livros são o meu encanto
e a pena: a espada que tenho sempre à mão. ]

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[ Luís de Camões 
(n. Lisboa? 1524/1525; m. Lisboa 10 Junho 1580)

Nos salgueiros pendurei
os órgãos com que cantava.
Aquele instrumento ledo
deixei da vida passada,
dizendo: – Música amada,
deixo-te neste arvoredo,
à memória consagrada.
Frauta minha que, tangendo,
os montes fazíeis vir
p’ra onde estáveis correndo,
e as águas, que iam descendo,
tornavam logo a subir. ]

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[ Collecão de Sonetos
(1786)

À morte de José António Carlos Seixas, famoso cravista

Por perpétuo silencio a Parca dura
Do Luso Orféo à doce melodia,
Já se vê os assombros da harmonia
Clauzurados no horror da Sepultura.

Na destreza feliz, na ideia pura
Do impulso humano as forças excedia,
E invejando-lhe a morte a idolatria
Provar-lhe o culto em lágrimas porfia.

Se deve à Pátria o seu merecimento
Glória imortal em vida transitória
Seja igual à jactância hoje o lamento[,]

Porém[,] de tanta perda na memória,
Aonde irá parar o sentimento[,]
Se serve a pena a proporção da glória.

(Soneto presente na “Collecão de Sonetos, serios, que se não achão impressos, extrahidos dos ms. antigos e modernos [Lisboa?], 1786, p. 437. Lisboa: Biblioteca Nacional, Cod. 8610) ]

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[ Fernando Pessoa
(Lisboa, 13 de Junho de 1888 – Lisboa, 30 de Novembro de 1935)
Chuva Oblíqua (VI parte)

O maestro sacode a batuta,
A lânguida e triste a música rompe …

Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal
Atirando-lhe com, uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo …

Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo…

Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão verde tornando-se jockey amarelo…
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos…)

Atiro-a de encontra à minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo. e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal… E a música atira com bolas
À minha infância… E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos …

Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo…

E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há árvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde a comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância…

E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo… ]

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[ Fernando Pessoa
(Lisboa, 13 de Junho de 1888 – Lisboa, 30 de Novembro de 1935)
Chuva Oblíqua (IV parte)

Que pandeiretas o silêncio deste quarto!.
As paredes estão na Andaluzia.
Há danças sensuais no brilho fixo da luz.
De repente todo o espaço pára.
Pára, escorrega, desembrulha-se,
E num canto do tecto, muito mais longe do que ele está,
Abrem mãos brancas janelas secretas
E há ramos de violetas caindo
De haver uma noite de Primavera lá fora
Sobre o eu estar de olhos fechados. ]

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[ T. S. Eliot 
(n. St. Louis, 1888; m. London 1965)

Naquele canto decadente no meio das montanhas
Sob o pálido luar, a erva canta
Sobre as tumbas caídas, em volta da capela.
A capela está vazia, apenas refúgio do vento.
Não tem janelas e a porta bate,
Ossos secos não fazem mal a ninguém.
Sobre o telhado apenas um galo
Cocoricó, cocoricó,
Sob a luz do relâmpago. ]

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[ Alfredo Pedro Guisado 
(n. 1891; m. 1975)

Sinto-as tanger ainda os violinos velhos,
Onde os dedos saltando em cordas de oiro, à tarde,
Te cegaram de som. ]

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[ António Aleixo 
(n. Vila Real de Santo António 1899; m. 1949)

Tem a música o poder
de tornar o homem f’liz
nem há quem saiba dizer
tanto quanto ela nos diz. ]

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[ Florbela Espanca 
(n. Vila Viçosa 1894 – m. Matosinhos 1930)

Não se acende hoje a luz… Todo o luar
Fique lá fora. Bem aparecidas
As estrelas miudinhas, dando no ar
As voltas dum cordão de margaridas!

Entram falenas meio entontecidas…
Lusco-fusco… Um morcego, a palpitar,
Passa… torna a passar… torna a passar…
As coisas têm o ar de adormecidas…

Mansinho… Roça os dedos plo teclado,
No vago arfar que tudo alteia e doira,
Alma, Sacrário de Almas, meu Amado!

E, enquanto o piano a doce queixa exala,
Divina e triste, a grande sombra loira
Vem para mim da escuridão da sala… ]

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[ Florbela Espanca 
(n. Vila Viçosa 1894 – m. Matosinhos 1930)

Só Schumann, meu Amor! Serenidade…
Não assustes os sonhos… Ah! não varras
As quimeras… Amor, senão esbarras
Na minha vaga imaterialidade…

Liszt, agora, o brilhante; o piano arde…
Beijos alados… ecos de fanfarras…
Pétalas dos teus dedos feitos garras…
Como cai em pó de oiro o ar da tarde!

Eu olhava para ti… «É lindo! Ideal!»
Gemeram nossas vozes confundidas.
– Havia rosas cor-de-rosa aos molhos –

Falavas de Liszt e eu… da musical
Harmonia das pálpebras descidas,
Do ritmo dos teus cílios sobre os olhos… ]

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[ José Gomes Ferreira 
(n. Porto 1900, m. Lisboa 1985)

Sofres?
Respira.
Não há outra lira. ]

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[ Leopold Senghor 
(n. Joal, Dacar 1906; m. França 2001)

Quando fiz a primeira comunhão, aos dez anos, pensava que no céu a maior felicidade era cantar, dançando. ]

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[ Vinayak Krishna Gokak 
(n. Índia 1909; m. 1992)

Com que canção deverei cantar-te, minha mãe?
Perguntei.
Deverei cantar
Os Himalaias com os seus cumes nascidos da neve,
Os três mares que banham a palma da tua mão?
Deverei cantar
A aurora clara com os seus raios de ouro puro?
Disse a Mãe imperturbável, calma:
Canta o mendigo e o leproso
Que enchem as minhas ruas. ]

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[ Dorothy Livesay 
(n. Canadá 1909; m. 1996)

Tem de lançar-se alto e mais alto ainda
De galáxia em galáxia,
Arrancar às estrelas as suas notas momentâneas
Roubar música à lua. ]

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[ Elizabeth Bishop 
(n. EUA 1911; m. 1979)

O seu canto ecoava de uma ponta à outra
da escuridão sob uma árvore batida pelo vento
onde reluziam as asas de pequenos insectos.
O seu canto fendeu o céu em dois. ]

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[ Jorge de Sena 
(1971) (n. Lisboa 1919; m. Santa Bárbara, Califórnia 1978)

Vulgar, ligeira, música sem nome,
adoecida num rascante falso
de orquestração pedante e requebrada,
tão apelante para o sentimento
e a fácil lágrima pi-rí-pi-rí-
mas em momentos de abandono é como
lubrificante cuspo que, secreto,
faz deslizante n’alma até ao fundo
o membro imenso de aturar-se a vida.
Depois, mesmo sem música, já está,
e a fêmea humana de aceitar-se a dor
até que as pernas junta de prazer
lembrando a melodia oleante e fluida,
vulgar, ligeira, música sem nome. ]

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[ Sophia de Mello Breyner Andresen
(n. Porto 1919; m. Lisboa 2004)

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Musa ensina-me o canto
Venerável e antigo
O canto para todos
Por todos entendido

Musa ensina-me o canto
O justo irmão das coisas
Incendiador da noite
E na tarde secreto

Musa ensina-me o canto
Em que eu mesma regresso
Sem demora e sem pressa
Tornada planta ou pedra

Ou tornada parede
Da casa primitiva
Ou tornada o murmúrio
Do mar que a cercava

(Eu me lembro do chão
De madeira lavada
E do seu perfume
Que atravessava)

Musa ensina-me o canto
Onde o mar respira
Coberto de brilhos
Musa ensina-me o canto
Da janela quadrada
E do quarto branco

Que eu possa dizer como
A tarde ali tocava
Na mesa e na porta
No espelho e no corpo
E como os rodeava

Pois o tempo me corta
O tempo me divide
O tempo me atravessa
E me separa viva
Do chão e da parede
Da casa primitiva

Musa ensina-me o canto
Venerável e antigo
para prender o brilho
Dessa manhã polida
Que poisava na duna
Docemente os seus dedos
E caiava as paredes
Da casa limpa e branca

Musa ensina-me o canto
Que me corta a garganta

|||

O Piano sílaba por sílaba
Viaja através do silêncio
Transpõe um por um
Os múltiplos murais do silêncio
Entre luz e penumbra joga
E de terra em terra persegue
A nostalgia até ao seu último reduto

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[ Jorge de Sena 
(n. Lisboa 1919; m. Santa Bárbara, Califórnia 1978)

A música é, diz-se, o indizível
por ser de inexprimível sentimento
da consciência, ou um estado de alma,
ou uma amargura tão extrema e lúcida
que passa das palavras para ser
apenas o ritmo e os sons e os timbres
só pelos músicos cientes de harmonia
e de composição imaginados. Mas,
se assim fosse, eles só dos homens
saberiam mover-se nos espaços
que a humanidade abandonada encontra
nos desertos de si. Começariam
onde a expressão verbal não se articula
por impossível. Viveriam sempre
na fímbria estreita à beira da maldade
e do absurdo, como que suspensos
na solidão da morte sem palavras.
Não é, portanto, a música o limite
ilimitado dos limites da linguagem,
para dizer-se o que não é dizível.
Mas, se não é, que dizem lancinantes,
neste discreto passeio pelo tempo,
os quatro instrumentos semelhantes
no seu modo de criarem som?
Tão terrível. Sufocante. Doce
ou agridoce desconcerto harmónico.
Que diz? Que diz? Neste contínuo
de temas e andamentos, de tonalidades,
o que se justifica? Que discutem eles?
A sua mesma natureza de instrumentos
e as combinações até ao infinito
de um mecanismo abstracto do imaginar?
Como pode uma coisa que sentimos tão medonha,
tão visionariamente séria e pensativa,
ser irresponsável?
Será que nos diz do aquém, do abaixo,
do infra, do primário, do barbárico,
do animal sem alma e sem razão?
Será que todo este rigor tão belo
é como que a estrutura prévia
de que existimos ao pensar as coisas?
E não a quintessência depurada
de uma estrutura que se consentiu
todo o significar a que as palavras vieram
da analogia nominal e mágica
até à consciência dos universais?
Não há tristeza alguma nesta
vida transformada em puro som,
em homogénea outra realidade?
Não é de angústia este rasgar melódico
da consciência antes de criar-se humana?
De que, portanto, vem este triunfo
que se precipita, contraditório, nas arcadas
dos instrumentos conversando essências?
É simples convenção? É artifício?
Silêncio irresponsável?
Se há mistério na grandeza ignota,
e se há grandeza em se criar mistério,
esta música existe para perguntá-lo.
E porque se interroga e não a nós,
ela se justifica e justifica
o próprio interrogar com que se afirma
não quintessência ela, mas raiz profunda
daquilo que será provável ou possível
como consciência, quando houver palavras
ou quando puramente inúteis forem. ]

|||

[ Jorge de Sena 
(n. Lisboa 1919; m. Santa Bárbara, Califórnia 1978)

Ouço-te, ó música, subir aguda
à convergente solidão gelada.
Ouço-te, ó música, chegar desnuda
ao vácuo centro, aonde, sustentada
e da esférica treva rodeada,
tu resplandeces e cintilas muda
como o silente gesto, a mão espalmada
por sobre a solidão que amante exsuda
e lacrimosa corre pelo espaço
além de que só luz grita o pavor.
Ouço-te lá pousada, equidistante
desse clarão cuja doçura é de aço
como do frágil mas potente amor
que em teu ouvir-te queda esvoaçante.

Ó música da morte, ó vozes tantas
e tão agudas que o estertor se cala.
Ó música da carne amargurada
de tanto ter perdido que ora esquece.
Ó música da morte, ah quantas, quantas
mortes gritaram no que em ti não fala.
Ó música da mente espedaçada
de tanto ter sonhado o que entretece,
sem cor e sem sentido, no frevor
de sublimar-se nesse além que és tu.
Ó vida feita uma detida morte.
Ó morte feita um inocente amor.
Amor que as asas sobre o corpo nu
fechas tranquilas no possuir da sorte. ]

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[ Sophia de Mello Breyner Andresen
(n. Porto 1919; m. Lisboa 2004)

Na voz de oiro e de sombra da guitarra
Algo de mim a si próprio renuncia. ]

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[ Rosemary Dobson 
(n. Austrália 1920)

Estava feito. Enrolando as mangas
Pegou na flauta
E ao caminhar para o local da execução
Tocou uma nova melodia. ]

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[ José Saramago, Os Poemas Possíveis 1966
(n. 1922)

Venham leis e homens de balanças,
mandamentos d’aquém e d’além mundo.
Venham ordens, decretos e vinganças,
desça em nós o juízo até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade
a luz vermelha brilhe inquisidora,
risquem no chão os dentes da vaidade
e mandem que os lavemos à vassoura.

A quantas mãos existam peçam dedos
para sujar nas fichas dos arquivos.
Não respeitem mistérios nem segredos
que é natural os homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte,
relógios a marcar a hora exacta.
Não aceitem nem queiram outra arte
que a prosa de registo, o verso acta.

Mas quando nos julgarem bem seguros,
cercados de bastões e fortalezas,
hão-de ruir em estrondo os altos muros
e chegará o dia das surpresas. ]

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[ Eugénio de Andrade 
(n. Póvoa da Atalaia, Fundão 1923)

Canto porque sou homem.
se não cantasse seria
o mesmo bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinho. ]

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[ Ernesto Cardenal 
(n. 1925)

Junto aos rios de Babilónia
Estamos sentados e choramos
Ao lembrar-nos de Sião.
Ao olhar o arranha-céus de Babilónia
e as luzes reflectidas no rio
as luzes dos night-clubs e dos bares de Babilónia
e ao ouvir suas músicas
E choramos
Nos salgueiros da margem
Penduramos nossas cítaras
Dos salgueiros chorosos
E choramos. ]

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[ Gilberto Mendonça Teles 
(Brasil, n. 1931-)

Um dia descobriu que a mão esquerda
era mais emotiva e mais ausente:
dedilhava por dentro o que era perda
e sondava por fora o inexistente.

E descobriu que quanto mais isento
o acorde se tornava, e delicado,
tanto mais se ordenava o movimento
da música de fundo no teclado.

E viu-se de repente entretecido
no mais difícil, no desvão do espaço,
quando as notas colhiam seu sentido
nas formas invisíveis do compasso.

Sentiu-se solidário na partida
e chorou solitário na aventura,
como se em cada coisa a própria vida
se lhe escapasse numa partitura.

E foi aí que se sentiu restrito,
que se fez de silêncio e de resvalo:
a mão esquerda desdobrava o mito
e dedilhava as sombras do intervalo. ]

|||

[ Adelina Caravana Rigaud

Se perguntares à música
que tem para dizer,
imagens ou prodígios
a emoção mais real,
viverás bem no fundo
com o ser todo inteiro
o consolo, as respostas.
Viverás muitas vidas
ricas como tesouros.

E então, dentro de ti
Com alimento e cor
dirás um obrigado
mesmo que seja à dor. ]

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[ Georges Dor 
(n. Drummondville 1931; m. 2001)

Quando canto, torno-me canção,
quando escrevo torno-me poema,
quando vos digo: amo-vos,
torno-me o verbo amar
em todos os tempos. ]

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[ Manuel Alegre 
(n. Águeda, 1936)

De Deus não sei. Mas quase creio
que Deus poisou nas mãos cheias de terra
de um jovem camponês de Sotto il Monte.
Por isso mando à Praça de São Pedro
não uma prece
mas a minha canção fraterna e livre
esta canção
que vai pedir-te a humana bênção
João XXIII: avô do século. ]

Jorge de Sena, foto Fernando Lemos 1949

Jorge de Sena, foto Fernando Lemos 1949

Heródoto

Citações de Música na História

CITAÇÕES MUSICAIS

Música na História

Heródoto 
(n. Halicarnasso 484 a. C.; m. Túrio 420)

Ciro ouviu-lhes as propostas e, no fim, contou-lhes esta história: Um tocador de flauta, começou ele, viu os peixes no mar e pôs-se a tocar, convencido de que eles iam saltar para terra. Mas quando viu gorada a sua expectativa, pegou na rede, apanhou uma grande quantidade de peixes e tirou-os da água. Ao vê-los debaterem-se, disse: ‘Acabem-me com essas danças que, quando eu estava a tocar flauta, não quiseram vocês saltar cá para fora e dançar’. ]

|||

Escrito grego 
(90 a. C.)

Praz à Boa Fortuna que seja feito o elogio de Antipatros, filho de Breucos, de Eleuternes, tocador de órgão hidráulico, pela sua reverência e a sua piedade em relação a Deus, pela predilecção que manifesta pela sua arte e pela sua benevolência para com a nossa cidade. ]

|||

Plínio o jovem 
(112)

Têm por costume, em dias marcados, reunir-se antes de raiar o sol e cantar, em coros alternados, um hino a Cristo como a Deus. ]

|||

Ateneu 
(Séc. II)

Ouviu-se nas redondezas o som de um hidraulo, tão agradável e tão encantador que nos fez voltar, fascinados pela harmonia. Então Ulpiano, voltando o olhar para o músico Alcides, disse: – Entendes tu, o maior músico dos homens, esta bela sinfonia que nos fez voltar, deslumbrados?… ]

|||

Jullius Pollux 
(séc. II)

O hidraulo parece uma siringe invertida; os seus tubos são de bronze e soprados por baixo. O mais pequeno destes instrumentos é alimentado por foles; no maior, é a água que comprime o vento. O segundo dispõe de múltiplos sons e a voz dos seus tubos de bronze é muito brilhante. ]

|||

Texto árabe 
(séc. IX)

Um dia, Ismail ibn al-Hâdi entrou em casa de Al-Mamun, quando ouviu uma música que lhe chamou a atenção. Quando Al-Mamun lhe perguntou: – Que tem?, ele respondeu: – Ouvi qualquer coisa que me comoveu. Fui o mais arrebatado a negar o facto que o órgão bizantino fazia morrer de prazer; mas agora posso afirmar que é verdade. ]

|||

Harun Bem-Jahra 
(867)

Em seguida, introduz-se uma coisa chamada al-urgana; é um objecto de madeira, em forma quadrada, tendo o aspecto de uma prensa de azeite; esta prensa está revestida de um couro muito forte e suporta sessenta tubos de cobre. A parte dos tubos situada por cima do couro é revestida a ouro, mas só se vê uma pequena parte, pois cada tudo pouca diferença faz, em comprimento, do seu vizinho. De cada lado do objecto quadrado, há um buraco: lá se encontram foles semelhantes aos dos ferreiros. Dois homens começam então a manobrá-los; depois, chega o organista, que faz cantar os tubos. Cada tubo dá um som proporcional à sua altura e celebra o Imperador, enquanto todo o povo está sentado à mesa. ]

|||

D. Diogo de Sousa 
(1505)

Todos aqueles que quiserem ser sacerdotes, ou haver benefícios, saibam ler bem, cantar, e gramática, e vivam bem e honestamente. ]

Heródoto

Heródoto

 

Santo Agostinho de Hipona

Citações de Música na Filosofia

CITAÇÕES MUSICAIS

Música na Filosofia

[ Confúcio
(n. China 551 – 479 a.C.)

Minhas crianças, por que é que não aprendem canções? Elas são capazes de vos dar encorajamento e estímulo; elas podem ensinar-vos a observar e a preservar as coisas; podem ensinar-vos a associar, a compreender com profundidade; são capazes de apagar a vossa raiva; elas ensinam-vos a ouvir o vosso pai, que conhece todas as regras que regem a vossa longa caminhada; elas ensinam-vos os nomes dos pássaros, dos animais, das árvores. ]

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[ Santo Agostinho de Hipona
(n. Tagaste 354; m. 430)

Confesso que ainda agora encontro algum descanso nos cânticos que as vossas palavras vivificam, quando são entoados com suavidade e arte… Quando oiço cantar essas vossas palavras com mais piedade e ardor, sinto que o meu espírito também vibra com devoção mais religiosa e ardente, do que se fossem cantadas de outro modo. Sinto que todos os afectos da minha alma encontram na voz e no canto, segundo a diversidade de cada um, as suas próprias modulações, vibrando em razão de um parentesco oculto, para mim desconhecido, que entre eles existe. ]

|||

[ Boécio
(n. Roma c. 480-m.524)

Nada é mais característico da natureza humana do que ser acalmado pelos modos doces e excitado pelos seus opostos. Crianças, jovens e adultos estão tão naturalmente ligados aos modos por uma espécie de sentimento espontâneo que não há quem se não delicie com as canções doces. ]

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[ Jean Jacques Rousseau
(n. Genève 1712; m. 1778)

Mesmo que toda a natureza esteja adormecida, o que a contempla não dorme, e a arte do músico consiste em substituir a imagem insensível do objecto pela dos movimentos que a sua presença excita no coração do contemplador: não só ele agitará o mar, animará a chama de um fogo, fará correr os ribeiros, cair a chuva e aumentar as torrentes, como pintará o horror de um deserto medonho, denegrirá os muros de uma prisão subterrânea, acalmará a tempestade, tornará tranquilo e sereno o ar e da orquestra espargirá nova frescura sobre os bosques…

|||

[ Friedrich Nietzsche
(n. Rocken 1844; m. Weimar 1900)

Que o teatro não acabe por dominar todas as outras artes;
que o comediante não acabe por subornar os puros;
que a música não se torne uma arte de mentir. ]

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[ Theodor Wiesengrund Adorno
(n. Francoforte 1903; m. Suiça 1969)

Toda a música tem por Ideia a forma do Nome divino. Oração desmitificada, liberta da magia do efeito, a música representa a tentativa humana, por mais vâ que ela seja, de enunciar o próprio Nome em vez de comunicar significações. ]

Santo Agostinho de Hipona

Santo Agostinho de Hipona

Gregório de Nazianzo

Citações de Música nos Santos

MÚSICA NOS SANTOS DA IGREJA

O vosso presbitério, tão justamente reputado e tão digno de Deus, está ligado ao bispo como as cordas estão unidas à cítara. Assim, no acorde dos vossos sentimentos e na harmonia do vosso amor, vós cantais Jesus Cristo. Que cada um de vós se torne membro deste coro. Então, no uníssono das vozes nascerá o canto que agrada a Deus e de uma só boca, elevareis ao Pai, por Jesus Cristo, os vossos hinos. Ele vos escutará, e na beleza das vossas obras reconhecerá que fazeis parte do coro do seu Filho.

Santo Inácio de Antioquia (n. c. 50; m. c. 110)

Toda a nossa vida cristã é um dia de festa e por isso trabalhamos nos campos cantando hinos e entoamos cantos de louvor enquanto navegamos.

São Clemente de Alexandria (séc. II-III)

Tens o canto do salmo, tens a profecia, os preceitos do evangelho, as pregações dos apóstolos. A língua cante e a mente trate de conhecer o sentido das palavras cantadas, para cantares com o espírito e também com a tua mente.

São Basílio de Cesareia (n. Cesareia c. 329; m. 379)

Tu estás para lá de tudo.
Que outra coisa sobre Ti poderá dizer o canto?
De que servem palavras diante de Ti
se palavra alguma Te narra?

São Gregório de Nazianzo (séc. IV)

Alguns consideram que seduzi o povo com o encanto melódico dos meus hinos. Obviamente, não me vou defender. Há neles, sem dúvida, um encanto poderoso. Há algo mais poderoso do que a confissão da Trindade renovada, cada dia, pela confissão de todo o povo?

Santo Ambrósio de Milão (n. Trèves c. 335; m. 397)

Não podeis objectar nem a pobreza, nem a falta de tempo, nem a lentidão do vosso espírito. Sois pobres, e por isso não podeis fruir dos livros; ou então tendes livros, mas não tendes tempo para ler. A satisfação de meditar os versos dos salmos que aqui cantastes não uma, nem duas, nem três vezes, mas em muitas circunstâncias vos dará abundante matéria de consolação.

São João Crisóstomo (n. Antioquia 344; m. 407)

A Deus não há que cantar com a voz, mas com o coração, nem é necessário tratar a garganta com doces remédios, como fazem os actores de teatro, para depois fazer ouvir no templo modulações próprias de um teatro; é antes necessário cantar a Deus com o temor, com as boas obras e com o conhecimento das escrituras. Mesmo que alguém seja desafinado, desde que tenha boas obras, para Deus é bom cantor.

São Jerónimo (n. Estridon c. 347; m. 420?)

Cantar bem a Deus é cantar com júbilo. O que quer dizer cantar: cantar com júbilo? Entender, não poder explicar com palavras o que se canta no coração. Pois aqueles que cantan na colheita, na vinha, em algum trabalho pesado, começando a exultar de alegria por meio das palavras dos cânticos e estando repletos de tanta alegria que não podem exprimi-la, deixam as sílabas das palavras e emitem sons jubilosos. O júbilo é som significativo de que o coração está concebendo o indizível. E diante de quem é conveniente tal júbilo senão diante do Deus inefável? Inefável aquilo de quem é impossível falar. E se não podes falar e não deves calar, o que resta senão jubilar? O coração rejubila sem palavras e a imensidão da alegria não se limita a sílabas.

Santo Agostinho de Hipona (n. Tagaste 354; m. 430)

O som é produzido por tubos no órgão, por cordas na cítara. Esta dupla imagem evoca, por um lado, as boas obras e, por outro, a pregação sagrada. Comparar a boca dos pregadores a tubos de órgão, e o desejo de bem viver a cordas da cítara, é paralelismo que aceitamos com naturalidade. Este desejo de bem viver, por exemplo, sempre em tensão para a outra vida graças à ascese do corpo é como uma corda bem esticada: soa afinado e provoca admiração nos que a ouvem.

São Gregório Magno (n. Roma c. 540; m. 604)

Há um cântico que, pela sua singular dignidade e doçura, merecidamente supera todos os cânticos… E chamar-lhe-ei, com todo o direito, o Cântico dos Cânticos, porque ele é o fruto de todos os outros. Tal cântico, só a unção do Espírito no-lo ensina, só a experiência no-lo mostra. Que o reconheçam aqueles que o experimentaram; os que não têm esta experiência, que ardam de desejo, não tanto de conhecer mas, sobretudo, de o experimentar. Não é um murmúrio saído da boca mas júbilo do coração, nem um som produzido pelos lábios mas um movimento de alegria, um recital das vontades e não das vozes. Não se ouve exteriormente, porque não ressoa em público. Só o escutam aquela que o canta e aquele a quem é cantado, isto é, o Esposo e a Esposa. É um verdadeiro cântico nupcial, que exprime os castos e alegres abraços das almas, a harmonia dos costumes, o amor recíproco no acorde dos sentimentos.

São Bernardo de Claraval (n. 1091; m. 1153)

Quando o Diabo enganador soube que o homem, sob a inspiração de Deus, começara a cantar e, desse modo, lembrava a doçura dos cânticos da pátria celeste, vendo que as maquinações da sua manha tinham ficado reduzidas a nada, ficou apavorado e atormentado. E começou a reflectir e a procurar entre os múltiplos recursos da sua maldade, o modo de multiplicar más sugestões e pensamentos imundos ou distracções diversas, não só no coração do homem mas no próprio coração da Igreja, onde fosse possível para, através de contendas e escândalos ou ordens injustas perturbar ou impedir a celebração e a beleza do louvor divino e dos hinos espirituais.

Santa Hildegarda de Bingen (n. 1098; m. 1179)

Dias antes da sua morte, São Francisco estava enfermo em Assis, na casa episcopal, com alguns dos seus companheiros; e apesar de todas as suas enfermidades, cantava muitas vezes louvores a Cristo. Um dos companheiros disse-lhe: Pai, sabes que esta população te considera um santo homem e, por isso podem pensar que, se és realmente o que eles julgam, deverias, na tua doença, pensar na morte e chorar em vez de cantar, uma vez que tens doença grave; concordarás que o teu canto e o que nos fazes cantar são ouvidos por muitas pessoas, dentro e fora do palácio.

Considerações sobre os estigmas de São Francisco de Assis (1182; m. 1226)

Se cantamos apenas pelo prazer de cantar, a alma distrai-se e não dá atenção às palavras. Se, pelo contrário, cantamos por devoção, meditamos com mais atenção no que dizemos.

São Tomás de Aquino (n. 1228; m. 1274)

Mais do que os instrumentos, deve ouvir-se nos templos a voz humana.

São Pio X (n. Riese 1835; m. Roma 1914)

Gregório de Nazianzo

são Gregório de Nazianzo

Citações Musicais na Bíblia

MÚSICA NA BÍBLIA

Moisés e os filhos de Israel cantaram ao Senhor o seguinte cântico:
Cantemos ao Senhor, que é solenemente grande;
Precipitou no mar o cavalo e o cavaleiro.
O Senhor é a minha força e a minha glória,
Foi Ele quem me salvou.

Ex 15, 1-2 (Livro do Êxodo)

Sete sacerdotes, tocando sete trombetas, irão à frente da arca. No sétimo dia, dareis sete vezes a volta à cidade, com os sacerdotes a tocar a trombeta. À medida que o som da trombeta for crescendo, e a sua voz se tornar mais penetrante, todo o povo irromperá num grande clamor e a muralha da cidade desabará.

Jos 6, 4-5 (Livro de Josué)

Naquele dia, Débora e Barac, filho de Abinoam, entoaram o seguinte cântico: Louvai o Senhor! Pois em Israel os chefes comandam e o povo espontaneamente se ofereceu. Ouvi-me, ó reis; prestai-me ouvidos, ó príncipes, que eu vou cantar ao Senhor, o Senhor, Deus de Israel celebrarei.”

Jz 5, 5,1

Quando Jefté regressou a sua casa em Mispá, eis que sua filha saiu para o vitoriar, dançando e tocando tamborim; ela era filha única.

Jz 11, 34

Ana orou, cantando este cântico: “Exulta o meu coração de júbilo no Senhor. Nele se ergue a minha fronte, a minha boca desafia os meus adversários, porque me alegro na tua salvação.”

1Sm 2, 1

Mande nosso senhor e os servos que te assistem irão buscar um homem que saiba dedilhar a lira e, quando o mau espírito da parte de Deus te atormentar,ele tocará e tu te sentirás melhor. Então Saúl disse aos servos: Procurai pois um homem que toque bem e trazei-mo. Um dos seus servos pediu para falar e disse: Tenho visto um filho de Jessé, o belemita, que sabe tocar e é um valente guerreiro, fala bem, é de bela aparência e Iahweh está com ele. Saul despachou logo mensageiros a Jessé com esta ordem: Manda-me o teu filho David (que está com o rebanho).

1 Sam 16, 16 (1º Livro de Samuel)

Os levitas cantores, Asaf, Heman, Idutun e os seus filhos e irmãos, vestidos de linho fino, colocados a leste do altar, tocavam címbalos, cítaras e harpas, acompanhados por cento e vinte sacerdotes que tocavam trombetas. Todos os tocadores de trombeta e os cantores se uniam para entoar, numa mesma sinfonia, o louvor do Senhor, entre o ressoar das trombetas, dos címbalos e dos outros instrumentos musicais; e cantavam: Louvor ao Senhor porque é bom e a sua misericórdia é eterna.

2 Cron 5, 13 (2º Livro das Crónicas)

Disse Judite:
‘Entoai um cântico ao meu Deus com tamborins,
cantai ao meu Deus com címbalos,
cantai-lhe um salmo novo,
exaltai-O e invocai o seu nome.

Jdt 13, 16, 1 (Livro de Judite)

Ao director do coro. Salmo de David. Com instrumentos de corda.

Ouve, Senhor, as minhas palavras
e atende a minha súplica.

Sl 5, 1-2 (Livro dos Salmos)

Ao director do coro. Para instrumentos de oito cordas. Salmo de David.

Senhor, não me repreendas na tua ira,
nem me castigues com o teu furor.

Sl 6, 1-2

Ao director do coro. Sobre a Lira de Gat. Salmo de David.

Ó Senhor, nosso Deus,
como é admirável o teu nome em toda a terra!

Sl 8, 1-2

Ao director do coro. Com voz de soprano. Salmo de David.

Quero louvar-Te, Senhor, com todo o coração,
e narrar todas as tuas maravilhas.

Sl 9, 1-1

Ao director do coro. Pela melodia “A corça pela aurora”. Salmo de David.

Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?

Sl 22(21), 1

Salmo. Cântico da dedicação do templo. De David.

Senhor, eu Te enalteço, porque me salvaste
e não permitiste que os inimigos se rissem de mim.”

Sl 30(29), 1

Louvai o Senhor com a cítara,
cantai-Lhe salmos com a harpa de dez cordas.
Cantai-Lhe um cântico novo,
tocai com arte por entre aclamações.

Sl 33(32), 2-3

Ao director do coro. Segundo a melodia “Os lírios”. Poema dos Filhos de Coré. Cântico de amor.

O meu coração vibra com belas palavras;
vou recitar ao rei o meu poema!

Sl 45(44), 1-2

Ao director do coro. Pela melodia “a pomba dos terebintos longínquos”. Elegia. De David, quando os filisteus se apoderaram dele, em Gat.

Tem compaixão de mim, ó Deus,
pois há quem me queira destruir
oprimindo-me e fazendo-me guerra todo o dia.

Sl 56(55), 1-2

Ao director do coro. Sobre a lira de Gat. De Asaf.

Alegrai-vos em Deus, nossa força,
aclamai o Deus de Jacob.
Cantai ao som do tamborim,
da cítara harmoniosa e da lira.
Tocai a trombeta na festa da Lua-nova
e na Lua-cheia, dia da nossa festa.

Sl 81(80), 1-4

Salmo. Cântico. Para do dia de sábado.

É bom louvar-Te, Senhor
e cantar salmos ao teu nome, ó Altíssimo,
proclamar pela manhã a tua bondade
e durante a noite a tua fidelidade,
ao som da da lira e da cítara
e com as melodias da harpa.

Sl 92(91), 1-4

O Senhor escreverá no registo dos povos,
anotando: “Este nasceu em Sião.”

E eles dirão, cantando e dançando:
“A minha única fonte está em ti.”

Sl 87(86), 6-7

Cantai ao Senhor um cântico novo,
cantai ao Senhor, terra inteira!
Cantai ao Senhor bendizei o seu nome,
proclamai, dia após dia, a sua salvação.

Sl 96(95), 1-2

Cantai ao Senhor um cântico novo,
porque Ele fez maravilhas!

Aclamai o Senhor, terra inteira,
exultai de alegria e cantai!
Cantai hinos ao Senhor ao som da harpa,
ao som da lira e da cítara;
ao som de cornetins e trombetas,
aclamai o nosso rei e senhor.

Batam palmas os rios,
e as montanhas, em coro, gritem de alegria.

Sl 98(97), 1, 4-6, 8

Cântico. Salmo de David.

Ó Deus, meu coração está firme;
quero cantar e salmodiar, ó minha glória!
Despertai, lira e cítara!
Quero acordar a aurora!
Louvar-Te-ei, Senhor, entre os povos,
cantar-Te-ei entre as nações.

Sl 108(107), 1-4

Junto aos rios de Babilónia nos sentámos a chorar,
com saudades de Sião.
Nos salgueiros das suas margens
pendurámos as nossas harpas.
Os que nos levaram para ali cativos
queriam ouvir os nossos cânticos
e os nossos opressores, uma canção de alegria:
“Cantai-nos um cântico de Sião”.
Como poderíamos nós cantar um cântico do Senhor
estando numa terra estranha?

Sl 137 (136), 1-4

Aleluia!
Louvai ao Senhor, porque é bom cantar!
É agradável e justo louvar o nosso Deus.

Cantai ao Senhor com gratidão;
cantai ao nosso Deus ao som da harpa.

Sl 147(146), 1, 7

Aleluia!
Cantai ao Senhor um cântico novo;
louvai-o na assembleia dos fiéis!

Louvem o seu nome com danças;
cantem-Lhe ao som de harpas e tambores!

Sl 149, 1, 3

Aleluia!
Louvai-O ao som da trombeta,
louvai-O com a harpa e a cítara!
Louvai-O com tambores e danças,
Louvai-O com instrumentos de corda e flautas!
Louvai-O com címbalos sonoros,
Louvai-O com címbalos retumbantes!
Tudo quanto respira louve ao Senhor!
Aleluia!

Sl 150, 3-6

Rei David, por Gerard van Honthorst