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Orblua, Retratos Cinéticos
Cancioneiro

Canções do tempo

Canções do tempo

Letras

Chorava por te não ver

[ Fado das Horas ]

Chorava por te não ver,
Por te ver eu choro agora;
Mas choro só por querer,
Querer ver-te a toda a hora.

Passa o tempo de corrida,
Quando falas e eu te escuto;
Nas horas da nossa vida
Cada hora é um minuto.

Quando estás ao pé de mim
Sinto-me dona do mundo;
Mas o tempo é tão ruim,
Tem cada hora um segundo.

Deixa-te estar a meu lado
E não mais te vás embora,
P’ra o meu coração, coitado,
Viver na vida uma hora.

Deixa-te estar a meu lado
E não mais te vás embora,
P’ra o meu coração, coitado,
Viver na vida uma hora.

Letra: António Sabrosa
Música: Maria Teresa de Noronha

Gosto de te ouvir cantar

[ Chuva nos Beirados ]

Gosto de te ouvir cantar,
Ó chuva, nos beirados,
Trauteando músicas de encantar,
Tornando os dias molhados:
É o Inverno a chegar.
Gosto de te ouvir cair,
Ó chuva, nos telhados,
Sussurrando melodias calmas;
O teu gotejo sincopado,
De sinfonia abstracta,
É como a amizade
Quando o amor nos falta!

Gosto de te ouvir cantar,
Ó chuva, nos beirados,
Trauteando músicas de encantar,
Tornando os dias molhados:
É o Inverno a chegar.
Gosto de te ouvir cair,
Ó chuva, nos telhados,
Sussurrando melodias calmas;
O teu gotejo sincopado,
De sinfonia abstracta,
É como a amizade
Quando o amor nos falta!
É como a amizade
Quando o amor nos falta!

Letra: Rogério Perrolas
Música e arranjo: Rogério Charraz
Intérprete: Rogério Charraz com António Caixeiro, Buba Espinho e Eduardo Espinho (in CD “Não Tenhas Medo do Escuro”, Rogério Charraz/Compact Records, 2016)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Já chove

[ As Nuvens Que Andam no Ar ]

[Cantiga primeira:]

Já chove, já está chovendo;
Já correm os barranquinhos;
Já o campo está alegre;
Já cantam os passarinhos.

[Moda:]

As nuvens que andam no ar,
Arrastadas pelo vento,
Vão buscar a água ao mar
P’ra regar em qualquer tempo.

P’ra regar em qualquer tempo,
Em qualquer tempo regar,
Arrastadas pelo vento
As nuvens que andam no ar.

[Cantiga segunda:]

Ó água que vais correndo
Mansamente, vagarosa,
Passa lá ao meu jardim!
Rega-me lá uma rosa!

[Moda:]

As nuvens que andam no ar,
Arrastadas pelo vento,
Vão buscar a água ao mar
P’ra regar em qualquer tempo.

P’ra regar em qualquer tempo,
Em qualquer tempo regar,
Arrastadas pelo vento
As nuvens que andam no ar.

Letra e música: Popular (Baixo Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” com Luiz Avellar (in CD “As Nuvens Que Andam no Ar”, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2015)

Nesses dias em que as horas

[ Ondulações ]

Nesses dias em que as horas
se fazem dias sem fim,
já não sou eu quem acorda,
há alguém que dorme em mim.

Era mar ainda agora,
fiz-me rio sem saber
que o céu que em mim demora
é só foz e anoitecer.

Sou pedra em fogo lento
vaga sem lua nem vez,
conto em riso e lamento,
quanto o tempo desfez.

E quando um barco pressente
dessa noite o marulhar,
dou o peito à corrente,
sou um rio feito mar.

Era mar ainda agora
fiz-me rio sem saber
que o céu que em mim demora
é só foz e anoitecer.

Se me deres uma vez mais
a maré do teu olhar,
eu serei somente um cais
onde possas aportar.

Letra: Helena Carvalho
Música: Fernando Dias Marques
Arranjo: Fernando Marques
Intérprete: Fernando Marques Ensemble (in CD “(des)Encontros”, Fernando Marques Ensemble, 2016)

No mês de Janeiro

[ Calendário ]

No mês de Janeiro
Vem a chuva e vem o vento,
Enquanto em Fevereiro
Chega ao fim o meu tormento.

Nos idos de Março
Faço as malas e abalo;
Abril, o que faço?
Canto sempre e não me calo.

E no mês de Maio
Tiro a roupa e vou ao mar;
E nessa não caio:
De em Junho me calar.

No calor de Julho
Ainda mais canto com gosto,
E logo mergulho
O corpo no mês de Agosto.

Quando em Setembro
Eu finalmente descubro
Que ainda me lembro
Dos teus anos em Outubro.

E assim em Novembro,
Se eu agora não me engano,
Cheira-me a Dezembro,
Chega ao fim o fim do ano.

De novo em Janeiro…
Ainda algum tempo me sobra
Para em Fevereiro
Deitar enfim mãos à obra.

Fica tudo pronto
Lá para finais de Março;
Em Abril eu conto
Encontrar-te num abraço.

Em Maio de flores
Espero que a chuva não caia;
E em Junho, se fores ao mar,
Vês-me lá na praia.

O levante em Julho
Chega mesmo a meu gosto:
Dou mais um mergulho,
Faço anos em Agosto.

Partem em Setembro,
Rumo a sul, as andorinhas;
De Outubro a Dezembro
Ficam sem folhas as vinhas.

E assim terminamos
Mais um ano nesta lida:
Canção que acabamos
No seu ponto de partida.

Letra e música: Sérgio Mestre
Intérprete: OrBlua com Janita Salomé (in Livro/CD “Retratos Cinéticos”, Fungo Azul/Ocarina, 2015)

Nos dias de hoje

Nos dias de hoje,
Ninguém sabe a quantas anda:
Manda quem pode,
Pode quem manda.
Nos dias de hoje,
Não sentimos confiança:
Salva-se a música
E siga a dança!
Nos dias de hoje,
Ninguém sabe o que o espera,
Se é inverno ou primavera,
Indiferença ou compaixão.
Nos dias de hoje,
A justiça não impera,
A igualdade desespera,
É confusa a confusão.

Salva-se o amor,
Salva-se a esperança,
Salvam-se os olhos duma criança;
Salva-se a honra,
Salva-se a paz,
Salvam-se os beijos que tu me dás!

Nos dias de hoje,
Ninguém sabe o de amanhã,
E fazer planos
É coisa vã.
Nos dias de hoje,
Já não há motivação
Para dar às balas
O coração.
Nos dias de hoje,
Ninguém sabe o que o espera,
Se é um sonho ou uma quimera
Ter saudades do futuro.
Nos dias de hoje,
Ninguém põe as mãos no fogo
Por um amanhã mais novo,
Por um amanhã mais puro.

Salva-se o amor,
Salva-se a esperança,
Salvam-se os olhos duma criança;
Salva-se a honra,
Salva-se a paz,
Salvam-se os beijos que tu me dás!

Salva-se o amor,
Salva-se a esperança,
Salvam-se os olhos duma criança;
Salva-se a honra,
Salva-se a paz,
Salvam-se os beijos que tu me dás!

Salva-se a honra,
Salva-se a paz,
Salvam-se os beijos que tu me dás!

Letra e música: Tozé Brito
Intérprete: Ricardo Ribeiro (in CD “Hoje É Assim, Amanhã Não Sei”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2016)

O tempo perguntou ao tempo

[ Charanga do Tempo ]

O tempo perguntou ao tempo
Quanto tempo o tempo tem;
O tempo respondeu ao tempo
Que o tempo tem tanto tempo
Quanto tempo o tempo tem.
Tempo que parece Deus
E Deus que parece a Vida;
Vida que pareço eu
Entre o riso e o pranto
Numa busca sem medida.

O tempo perguntou ao tempo
Quanto tempo o tempo tem;
O tempo respondeu ao tempo
Que o tempo tem tanto tempo
Quanto tempo o tempo tem.
Sobre o tempo ninguém sabe,
Talvez ele saiba de nós;
Não se vende, não se rende,
Tantas vezes não se entende
E quase sempre manda em nós!

O tempo perguntou ao tempo
Quanto tempo o tempo tem;
O tempo respondeu ao tempo
Que o tempo tem tanto tempo
Quanto tempo o tempo tem.
Mas sei qu’ele sabe o que faz
Sem se dar a entender;
Na verdade que trouxer
Venha o tempo que vier,
Hei-de ser tempo de paz.

O tempo perguntou ao tempo…
Sobre o tempo ninguém sabe…
O tempo perguntou ao tempo…
Talvez ele saiba de nós…
O tempo perguntou ao tempo…
O tempo, o tempo, o tempo…
O tempo, o tempo, o tempo, o tempo…
O tempo perguntou ao tempo
Quanto tempo o tempo tem.

Letra: Popular (refrão) e Ana Laíns
Música: Carlos Lopes
Intérprete: Ana Laíns
Versão original: Ana Laíns com Mafalda Arnauth (in CD “Portucalis”, Ana Laíns/Seven Muses, 2017)

São tempos

São tempos acesos
e os dias correndo,
e quanto mais corres
menos vais vivendo.

Os olhos são tristes,
os cravos murcharam,
a esperança ainda existe,
mas as vozes calaram.

Os campos são amplos,
a vida é às voltas,
mas, às páginas tantas,
eu morro em revoltas.

São tempos gritantes
e as horas passando,
e quantas mais passam
mais vais naufragando.

Nos teus olhos há sonhos
que a sombra encobriu.
Há restos da esperança
que um Abril floriu.

Os campos são amplos,
a vida é às voltas,
mas, às páginas tantas,
eu morro em revoltas.

São tempos de fúria
por servidões encoberta,
quando mais te enfureças
mais o meu canto desperta.

Nos nossos olhos há sonhos
que vão florescer,
na certeza que um dia
Abril vai romper.

Os campos são amplos,
a vida é às voltas,
mas, às páginas tantas,
eu morro em revoltas.

Letra: Joana Lopes
Música: António Pedro
Intérprete: Musicalbi
Versão original: Musicalbi (in CD “Solidão e Xisto”, Musicalbi, 2019)

Se o tempo não chega a ser

[ O Fado do Tempo Morto ]

Se o tempo não chega a ser
Mais que as horas a passar,
Talvez o mal de o perder
Me deixe um dia ganhar.

Das mil voltas que já dei
Ao mundo que já foi meu,
Fica-me o tempo em que amei
Todo o mundo que era teu.

Talvez de mim me perdesse
E me esquecesse de ti…
E então o tempo dos dois
Seria o que não vivi.

Não sei bem se inda te quero,
Ou se é sina que Deus me deu…
Meu amor, se não te espero
É porque o tempo morreu…

Letra: Carlos Leitão
Música: Popular (Fado Menor)
Intérprete: Ana Laíns
Versão original: Ana Laíns (in CD “Portucalis”, Ana Laíns/Seven Muses, 2017)

Sei quantas luas

[ Dias Cruzados ]

Sei quantas luas tu dormiste,
Neste teu mundo tão triste,
Neste teu encanto puro!

Foi uma vida sem história,
Quatro ventos sem memória,
Numa onda sem retorno!

E… cruzam-se os dias,
Mesmo… sem ter seu rumo próprio…
Nome… cada letra é teu gosto…
Cada gosto em teu luar, devagar!

Vem, nesse pensamento vago,
Onde choro e não me encontro,
Onde canto ao longe o Fado…

Traz esses dias que se cruzam,
Em redor de noites brancas,
Ao sabor de luas calmas.

E… cruzam-se os dias,
Mesmo… sem ter seu rumo próprio…
Nome… cada letra é teu gosto…
Cada gosto em teu luar, devagar!

Os dias cruzados, amados,
Vencidos, perdidos…
Enganados!

Amantes das luas,
Das noites cruzadas,
Amadas sentidas… Rotinas!…
Fugindo…

Os dias cruzados, amados,
Vencidos, perdidos…
Enganados!

Amantes das luas,
Das noites cruzadas,
Amadas sentidas… Rotinas!…
Fugindo, ouvindo o mar do dia!…

Os dias cruzados, amados,
Vencidos, perdidos…
Enganados!

Amantes das luas,
Das noites cruzadas,
Amadas sentidas… Rotinas!…
Fugindo…

Os dias cruzados, amados,
Vencidos, perdidos…
Enganados!

Amantes das luas,
Das noites cruzadas,
Amadas sentidas… Rotinas!…
Fugindo, ouvindo o mar do dia!…

Letra: José Flávio Martins
Música: António Pedro
Intérprete: Musicalbi
Versão original: Musicalbi (in CD “Solidão e Xisto”, Musicalbi, 2019)

Vamos embora, é tarde

[ Passam Horas, Passam Dias ]

Vamos embora, é tarde, tão tarde,
nem demos porque o tempo já passou.
Alguma coisa em nós se vai perdendo,
alguma coisa em nós se encontrou.
Vamos contar que há amanhã
p’ra tudo o que ainda não foi dito,
até ver, vamos lá viver.

Passam horas, passam dias,
horas nossas que lá vão,
uns passam, outros ficam.
Não vão.

Quem está? Quem foi embora?
No abrir e fechar da hora,
quem faz connosco a vida
não demora.

O que devemos ao tempo, vivendo,
que resgatamos à morte, no fim.
Uma andorinha cantando,
cantando à vida,
poisada no beiral da cantiga
e é este canto maior
que faz do tempo uma voz,
tecendo os dias em nós.

Passam horas, passam dias,
horas nossas que lá vão,
uns passam, outros ficam.
Não vão.

Quem está? Quem foi embora?
No abrir e fechar da hora,
quem faz connosco a vida
não demora.

Passam horas, passam dias,
horas nossas que lá vão,
uns passam, outros ficam.
Não vão.

Quem está? Quem foi embora?
No abrir e fechar da hora,
quem faz connosco a vida
não demora.

Letra: Amélia Muge
Música: José Barros
Arranjo: José Barros e Miguel Tapadas
Intérprete: José Barros e Navegante
Versão original: José Barros e Navegante (in CD “À’Baladiça”, Tradisom, 2018)

Orblua, Retratos Cinéticos

Orblua, Retratos Cinéticos

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/05/orblua_retratos-cineticos.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-07 06:33:472025-06-19 19:45:03Canções do tempo
Santa Bárbara
Religião

Canções religiosas

Canções religiosas

Letras

Acorda, cristão

[ Encomendação das Almas ]

Acorda, cristão, que és terra!
Lembra-te que hás-de…
Lembra-te que hás-de morrer!
Hás-de dar estreitas contas
Do teu bom e mau…
Do teu bom e mau viver!

Não sei que p’ra ali ouvi
Para os lados do…
Para os lados do Nascente;
Eram as benditas almas,
Estão no fogo…
Estão no fogo ardente.

Acorda, cristão, acorda
Desse sono em…
Desse sono em que estais!
Lembra-te das benditas almas
Que elas clamam…
Que elas clamam e dão ais!

Acorda, cristão, acorda
Desse sono tão…
Desse sono tão profundo!
Lembra-te das benditas almas
Que já estão no…
Que já estão no outro mundo!

Rezemos um padre-nosso
Com uma ave…
Com uma ave-maria!
Seja por o amor de Deus.

Acorda, cristão, acorda!

Letra e música: Tradicional (S. Miguel, Guarda, Beira Alta)
Intérpretes: César Prata e Sara Vidal (in CD “Cantos da Quaresma”, Sons Vadios, 2018)

À porta das almas santas

[ Devoção das Almas ]

À porta das almas santas
Bate Deus a toda a hora.
As almas responderam:
«— Ó meu Deus, que quereis agora?»
«— Queremos que deixais o mundo;
Vinde já para a Glória!»
Ajoelhemos nós em terra,
Já não somos os primeiros.
Em nossa companhia anda
Jesus Cristo verdadeiro.
Ó Virgem da Piedade,
À devoção nos obriga;
Rezemos às almas santas,
Rezemos com alegria.
Atormenta a dor e dor
Do contínuo padecente.
Assim são as benditas almas
No Purgatório ardente.
Ouvi homens e mulheres
Deste povo auditório,
Dai esmola se pudéreis
Às almas do Purgatório.
Dai esmola se pudéreis,
Se com devoção a dais;
Já lá tendes vossas mães,
Vossos filhos e vossos pais.
Esses bens que possuirdes
Reparti-os em vossa vida;
Lá os achareis na Glória
Quando fordes na partida.
Aqui estamos de joelhos
A rezar a oração:
Ou nos venham dar a esmola
Ou de Deus venha o perdão.

Letra e música: Tradicional (Oliveirinha, Aveiro, Beira Litoral)
Recolha: Michel Giacometti (in LP “Beira Alta, Beira Baixa, Beira Litoral”, série “Antologia da Música Regional Portuguesa”, Arquivos Sonoros Portugueses/Michel Giacometti, 1970; 5CD “Portuguese Folk Music”: CD 3 – Beiras, Strauss, 1998; 6CD “Música Regional Portuguesa”: CD 4 – Beiras, col. Portugal Som, Numérica, 2008)
Intérpretes: César Prata e Sara Vidal (in CD “Cantos da Quaresma”, Sons Vadios, 2018)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

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António José Ferreira
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Ai lá em cima

[ Martírios do Senhor ]

Ai lá em cima ao Calvário
Ai está um craveiro à Cruz;
Ai a água com que se rega
Ai é o sangue de Jesus.

Ai ó almas que tendes sede,
Ai vir ao Calvário a beber!
Ai que estão lá as cinco fontes
Ai todas cinco a correr.

Ai a Senhora chora, chora,
Ai chora que se ouve no adro,
Ai de ver o seu Filho morto,
Ai no caixão amortalhado.

Ai a Senhora chora, chora,
Ai chora que se ouve na rua,
Ai de ver o seu Filho morto,
Ai deitado na sepultura.

Ai a Senhora está de luto
Ai por estas sete semanas,
Ai que lhe morreu o seu Filho,
Ai filho das suas entranhas.

Letra e música: Tradicional (Zebreira, Idanha-a-Nova, Beira Baixa)
Intérpretes: César Prata e Sara Vidal* (in CD “Cantos da Quaresma”, Sons Vadios, 2018)

Com o Grande Peso da Cruz

Com o grande peso da Cruz
Quis Deus ser enfraquecido;
E com ela aqui caído
Jaz em terra o bom Jesus.

Procuraram levantar
Pela corda Lhe tirando;
Em se Ele levantando
Parece querer expirar.

Glória seja ao Pai!
Glória ao Filho juntamente!
Glória ao Espírito Santo
Que de ambos é procedente!

Letra e música: Tradicional (Proença-a-Velha, Idanha-a-Nova, Beira Baixa)
Intérpretes: César Prata e Sara Vidal (in CD “Cantos da Quaresma”, Sons Vadios, 2018)

E à porta das almas santas

[ Encomendação das Almas ]

E à porta das almas santas
Bate Deus a toda a hora,
Deus a toda a hora.

E as almas de lá respondem:
«— E ó meu Deus, que quereis agora?
Meu Deus, agora?»

«— Quero que venhais comigo
Para a minha eterna Glória!
Minha eterna Glória!

P’ra a companhia dos anjos
Mais a Virgem que Me adora!
Virgem que Me adora!»

E acordai se estais dormindo
Nesse sono tão profundo!
Sono tão profundo!

Rezemos um padre-nosso
Às almas do outro mundo!
Do outro mundo!

Letra e música: Tradicional (Idanha-a-Nova, Beira Baixa)
Intérpretes: César Prata e Sara Vidal (in CD “Cantos da Quaresma”, Sons Vadios, 2018)

Já Apareceu a Aleluia

[ Aleluia da Festa das Rosas ]

Já apareceu a Aleluia.
Quem a achou? Quem a acharia?
Achou-a o senhor vigário
No sacrário de Maria.

Desde a porta da igreja
Até à torre do sino
Vamos dar as boas-festas
Ao sacramento divino!

Desde a porta da igreja
Até à da sacristia
Vamos dar as boas-festas
À Virgem Santa Maria!

Aleluia! Aleluia!
Aleluia! Já é festa.
Alegrai-vos, Mãe de Deus:
Nossa alegria é esta!

Não há Senhora mais linda
Do que é a do Almurtão:
Tem o seu amado Filho
Ao lado do coração.

Eu hei-de ir à festa,
Hei-de lá ficar:
Tenho uma promessa,
Quero-la pagar.
Eu hei-de ir à festa,
Hei-de lá dormir:
Tenho uma promessa,
Quero-la cumprir.

Letra e música: Tradicional (“Aleluia da Festa das Rosas” – Monsanto, Idanha-a-Nova, Beira Baixa / “Já Apareceu a Aleluia” – Idanha-a-Nova, Beira Baixa)
Intérpretes: César Prata e Sara Vidal* (in CD “Cantos da Quaresma”, Sons Vadios, 2018)

* César Prata – voz, guitarra, kalimba, sanfona, hangdrum, ponteiro, adufe, matracas, percussões, shruti box, programações
Sara Vidal – voz, harpa celta, adufe
Arranjos – César Prata e Sara Vidal
Produção musical – César Prata e Sara Vidal
Gravado no estúdio RequeRec, Trancoso, em Novembro de 2017
Gravação, mistura e masterização – César Prata

Já pedem nas almas santas

[ As Excelências da Virgem ]

Já pedem nas almas santas
Que uma excelência lhe havemos de rezar,
À Senhora do Rosário,
Ao seu Santo Saclário.
Saclário já está aberto:
O Senhor saiu fora
Acompanhar uma alma
Que vai p’ra a Glória.

Já pedem nas almas santas
Que duas excelências lhe havemos de rezar,
À Senhora do Rosário,
Ao seu Santo Saclário.
Saclário já está aberto:
O Senhor saiu fora
Acompanhar uma alma
Que vai p’ra a Glória.

Já pedem nas almas santas
Que três excelências lhe havemos de rezar,
À Senhora do Rosário,
Ao seu Santo Saclário.
Saclário já está aberto:
O Senhor saiu fora
Acompanhar uma alma
Que vai p’ra a Glória.

Já pedem nas almas santas
Que quatro excelências lhe havemos de rezar,
À Senhora do Rosário,
Ao seu Santo Saclário.
Saclário já está aberto:
O Senhor saiu fora
Acompanhar uma alma
Que vai p’ra a Glória.

Já pedem nas almas santas
Que cinco excelências lhe havemos de rezar,
À Senhora do Rosário,
Ao seu Santo Saclário.
Saclário já está aberto:
O Senhor saiu fora
Acompanhar uma alma
Que vai p’ra a Glória.
Que vai p’ra a Glória,
Que vai p’ra a Glória,
Que vai p’ra a Glória.

Letra e música: Tradicional (Alcoutim, Algarve)
Recolha: Michel Giacometti (in LP “Algarve”, série “Antologia da Música Regional Portuguesa”, Arquivos Sonoros Portugueses/Michel Giacometti, 1962; 5CD “Portuguese Folk Music”: CD 5 – Algarve, Strauss, 1998; 6CD “Música Regional Portuguesa”: CD 6 – Algarve, col. Portugal Som, Numérica, 2008)
Intérpretes: César Prata e Sara Vidal (in CD “Cantos da Quaresma”, Sons Vadios, 2018)

Louvado no Sisso

Louvado no Sisso, meu Senhor Jesus Cristo,
Bendita seja a Vossa vinda!
Paixão e morte,
Bendito seja o Vosso sangue
(Que) Por nós derramásteis,
Pelo Vosso santo pé direito!

Louvado no Sisso, meu Senhor Jesus Cristo,
Bendita seja a Vossa vinda!
Paixão e morte,
Bendito seja o Vosso sangue
(Que) Por nós derramásteis,
Pelo Vosso santo pé esquerdo!

Louvado no Sisso, meu Senhor Jesus Cristo,
Bendita seja a Vossa vinda!
Paixão e morte,
Bendito seja o Vosso sangue
(Que) Por nós derramásteis,
Pelo Vosso santo joelho direito!

Louvado no Sisso, meu Senhor Jesus Cristo,
Bendita seja a Vossa vinda!
Paixão e morte,
Bendito seja o Vosso sangue
(Que) Por nós derramásteis,
Pelo Vosso santo joelho esquerdo!

Louvado no Sisso, meu Senhor, Jesus Cristo,
Bendita seja a Vossa vinda!
Paixão e morte,
Bendito seja o Vosso sangue
(Que) Por nós derramásteis,
Pela Vossa santa mão direita!

Louvado no Sisso, meu Senhor, Jesus Cristo,
Bendita seja a Vossa vinda!
Paixão e morte,
Bendito seja o Vosso sangue
(Que) Por nós derramásteis,
Pela Vossa santa mão esquerda!

Estais Senhor fruto
Do ventre sagrado
Da Virgem Puríssima
Santa Maria!

Letra e música: Tradicional (Penha Garcia, Idanha-a-Nova, Beira Baixa)
Intérpretes: César Prata e Sara Vidal* (in CD “Cantos da Quaresma”, Sons Vadios, 2018)

Lua benta

[ Benzedura da Lua ]

Lua benta, por aqui passaste
E a cor de Maria levaste,
E a tua por aqui deixaste,
E a tua por aqui deixaste.

Lua benta, torna a passar!
E a tua cor hás-de levar,
E a de Maria deves deixar.
E a de Maria deves deixar.

Lua benta, por aqui passaste
E a cor de Maria levaste
E a tua por aqui deixaste,
E a tua por aqui deixaste.

Lua benta, torna a passar!
E a tua cor hás-de levar
E a de Maria deves deixar,
E a de Maria deves deixar!

Letra: Oração tradicional
Música: César Prata
Arranjo: César Prata e Vânia Couto
Intérprete: César Prata e Vânia Couto
Versão original: César Prata e Vânia Couto (in CD “Rezas, Benzeduras e Outras Cantigas”, Sons Vadios, 2019)

Nome de Maria

Nome de Maria,
Que tão lindo é:
Salvai a minh’alma
Que ela Vossa é!

Que ela Vossa é,
Sempre o há-de ser!
Salvai a minh’alma
Quando eu morrer!

Quando eu morrer,
Quando eu acabar
Salvai a minh’alma
Para um bom lugar!

Para um bom lugar,
Dia de Juízo,
Salvai a minh’alma
Para o Paraíso!

Para o Paraíso,
Senhora das Dores,
Rainha dos anjos,
Mãe dos pecadores!

Mãe dos pecadores,
Numa boa hora
Salvai a minh’alma
P’ra o Reino da Glória!

Letra e música: Tradicional (Zebreira, Idanha-a-Nova, Beira Baixa)
Intérpretes: César Prata e Sara Vidal (in CD “Cantos da Quaresma”, Sons Vadios, 2018)

Ó Virgem dos Altos Céus

[ Dança das Oito Virgens ]

[Dança das oito virgens em honra

de Nossa Senhora dos Altos Céus:]

Ó Virgem dos Altos Céus,
Mãe do meu amparo, bem,
Conservai na vossa graça
Quem aqui visitar-vos vem!

Quem aqui visitar-vos vem
Com silêncio há-de vir;
Nós estamos aos vossos pés
Prontas para vos servir.

Prontas para vos servir
Do íntimo do coração;
Se não estamos purificadas,
Ó Virgem, dai-nos perdão!

Ó Virgem, dai-nos perdão
Ao nosso povo primeiro!
Sois Mãe de Misericórdia,
Perdoai ao mundo inteiro!

Perdoai ao mundo inteiro,
A toda a família em geral!
Fazei que em todo o mundo
Tenham o vosso sinal!

Tenham o vosso sinal;
Mãe da Glória, Imperatriz,
Conservai na vossa graça
Este nosso juiz!

Este nosso juiz
E todo o mundo inteiro;
Conservai na vossa graça
Este nosso tesoureiro!

Este nosso tesoureiro
E todo o fiel cristão;
Conservai na vossa graça
Este nosso escrivão!

Este nosso escrivão
E quem for do nosso partido;
Nós queremos continuar
Com o nosso uso antigo.

Com o nosso uso antigo
Pela graça do Senhor,
Vivam as oito donzelas
E o nosso tocador!

[Dança das oito virgens em honra

de Nossa Senhora dos Altos Céus:]

Ó Virgem dos Altos Céus,
Mãe do meu amparo, bem,
Conservai na vossa graça
Quem aqui visitar-vos vem!

Quem aqui visitar-vos vem
Com silêncio há-de vir;
Nós estamos aos vossos pés
Prontas para vos servir.

Prontas para vos servir
Do íntimo do coração;
Se não estamos purificadas,
Ó Virgem, dai-nos perdão!

Ó Virgem, dai-nos perdão
Ao nosso povo primeiro!
Sóis Mãe de Misericórdia,
Perdoai ao mundo inteiro!

Perdoai ao mundo inteiro,
A toda a família em geral!
Fazei que em todo o mundo
Tenham o vosso sinal!

Tenham o vosso sinal;
Mãe da Glória, Imperatriz,
Conservai na vossa graça
Este nosso juiz!

Este nosso juiz
E todo o mundo inteiro;
Conservai na vossa graça
Este nosso tesoureiro!

Este nosso tesoureiro
E todo o fiel cristão;
Conservai na vossa graça
Este nosso escrivão!

Este nosso escrivão
E quem for do nosso partido;
Nós queremos continuar
Com o nosso uso antigo.

Com o nosso uso antigo
Pela graça do Senhor,
Vivam as oito donzelas
E o nosso tocador!

Letra e música: Tradicional (Lousa, Castelo Branco, Beira Baixa)
Recolha: Ernesto Veiga de Oliveira / GEFAC
Intérprete: Macadame* (in Livro/CD “Firmamento”, Macadame, 2016)

Recordai, nobres senhores

[ Encomendação das Almas ]

— Recordai, nobres senhores,
Nesse sono tão profundo!
— Ouvirás vozes e clamores
Das almas do outro mundo.
— Cristandade tão unida
Ouvindo gritos e ais…
— Lá tem Deus na outra vida
Nossas mães e nossos pais.
— Tenham dó e compaixão
Daquela sentida voz!
— De repente para nós
As almas que em pena estão
Dos nossos pais e avós…
— ‘Tão rogando a vossos pais
Toda a noite e todo o dia;
— ‘Tão postos em agonia
Vendo que lhe não rezais
Sequer uma ave-maria.

— Ó tão tristes pecadores
Ouvindo tristes gemidos…
— Das almas estão em clamores
Dando gritos tão sentidos;
— Gritam contra os seus herdeiros
Pelos bens que lhes deixaram;
— Gritam contra os seus amigos
Que cá deixaram no mundo,
— Pois foi tal o seu descuido
Sendo vivos mas não dizendo,
Dá-me a mão que eu vos ajudo.
— Muito mal faz que(m) (d)esperdiça
Das almas a divação,
— Sendo das almas irmãos
Vamos-lhe ouvir uma missa,
Dou-lhe esta consolação.
— Desta sorte se consolam
As almas dos nossos pais;
— Uma missa que lhe ouvimos
E um pouco que lhe rezais;
— Fazes uma grande esmola
Porque vós nem meia dais.

Letra e música: Tradicional (Monte de Cabaços, Alcoutim, Algarve)
Recolha: Michel Giacometti (“Oração das Almas”, in LP “Algarve”, série “Antologia da Música Regional Portuguesa”, Arquivos Sonoros Portugueses/Michel Giacometti, 1962; LP “Cantos Religiosos Tradicionais Portugueses”, Philips, 1971; 5CD “Portuguese Folk Music”: CD 5 – Algarve, Strauss, 1998; 6CD “Música Regional Portuguesa”: CD 6 – Algarve, col. Portugal Som, Numérica, 2008)
Intérpretes: César Prata e Sara Vidal (in CD “Cantos da Quaresma”, Sons Vadios, 2018)

Santa Bárbara bendita

[ Oração a Santa Bárbara ]

Santa Bárbara bendita,
Que no céu estás escrita
Com papel e água benta,
Abrandai esta tormenta!

Que não haja pão, nem vinho,
Nem flor de rosmaninho,
Nem galo que cante,
Nem galinha que cacareje!

Santa Bárbara bendita,
Que no céu estás escrita
Com papel e água benta,
Abrandai esta tormenta!

Que não haja pão, nem vinho,
Nem flor de rosmaninho,
Nem galo que cante,
Nem galinha que cacareje!

Santa Bárbara bendita,
Que no céu estás escrita
Com papel e água benta,
Abrandai esta tormenta!

Santa Bárbara!
Santa Bárbara!
Santa Bárbara!
Santa Bárbara!
Santa Bárbara!

Santa Bárbara bendita,
Que no céu estás escrita
Com papel e água benta,
Abrandai esta tormenta!

Que não haja pão, nem vinho,
Nem flor de rosmaninho,
Nem galo que cante,
Nem galinha que cacareje!

Letra: Oração tradicional
Música: César Prata
Arranjo: César Prata e Vânia Couto
Intérprete: César Prata e Vânia Couto
Versão original: César Prata e Vânia Couto (in CD “Rezas, Benzeduras e Outras Cantigas”, Sons Vadios, 2019)

Santa Barburinha bendita

[ Bendito e Louvado das Trovoadas ]

— «Santa Barburinha bendita,
Livrai-nos das trovoadas!
Lev’as p’ra bem longe!

Santa Barburinha bendita,
Com um ramo de água benta
Arramai esta tormenta.»

Santa Bárbara pequenina
Se vestiu e se calçou,
Bordão na mão tomou.

— «Onde vais, Santa Barburinha,
Que no céu estais escrita?»
— «Eu vou p’ra bem longe!

Vou correr esta trovoada
Onde não há pão e vinho,
Nem bafo de menino!

Só a serpente e as sete filhas
Bebem leite de maldição
E água de trovão.»

Letra e música: Tradicional (Penha Garcia, Idanha-a-Nova, Beira Baixa)
Recolha: Ernesto Veiga de Oliveira
Intérprete: Segue-me à Capela
Primeira versão de Segue-me à Capela (in Livro/CD “San’Joanices, Paganices e Outras Coisas de Mulher”, Segue-me à Capela/Fundação GDA/Tradisom, 2015)

Santo António milagroso

[ Responso a Santo António ]

Santo António milagroso,
Filho de Deus poderoso,
Pelos hábitos que vestiste,
Pelos cordões que existem,
Pelos rosários que rezaste,
Pelos sagrados caminhos andaste,
Com Jesus Cristo te encontraste.
Jesus Cristo vos disse:
— «Beato Santo António, onde vais?»
— «Com Jesus quero ir.»
— «Comigo não virás. Na Terra ficarás.
E as coisinhas perdidas
Todas tu encontrarás.
Não morrerá mulher de parto,
Nem boizinho do arado,
Nem cavalo da estrebaria,
Quem disser esta oração:
Um pai-nosso e ave-maria.

E as coisinhas perdidas
Todas tu encontrarás.
Não morrerá mulher de parto,
Nem boizinho do arado,
Nem cavalo da estrebaria,
Quem disser esta oração:
Um pai-nosso e ave-maria.

Letra: Oração tradicional
Música: César Prata
Arranjo: César Prata e Vânia Couto
Intérprete: César Prata e Vânia Couto
Versão original: César Prata e Vânia Couto (in CD “Rezas, Benzeduras e Outras Cantigas”, Sons Vadios, 2019)

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/11/santa-barbara.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-07 06:29:262024-11-02 06:28:46Canções religiosas
Gileno Santana
Cancioneiro

Canções com histórias

Canções com histórias

Letras

A grande nau Catrineta

[ Cantiga de levantar ferro ]

A grande nau Catrineta
Tem os seus mastros de pinho.
Ai lé, ai lé,
Marujinho, bate o pé.
O ladrão do despenseiro
Furtou a ração do vinho.
Ai lé, ai lé,
Marinheiro, vira à ré.

Antes de caçar as gáveas,
Põe-se o ferro sempre a pique.
Ai lé, ai lé,
Cada qual mostra o que é.
Para a nau ficar a nado
Abrem-se as portas ao dique.
Ai lé, ai lé,
Chega tudo cá p’rá ré.

Quando as gáveas vão aos rizes,
A maruja talha o lais.
Ai lé, ai lé,
Quem é moiro não tem fé.
Sobem dois a impunir,
A rizar sobem os mais.
Ai lé, ai lé,
Tu com tu, e cré com cré.

Quando o barco faz cabeça,
Ala braços, iça a giba.
Ai lé, ai lé,
Vai de longo que é maré.
Quando ele arranca o ferro,
Vira então de leva arriba.
Ai lé, ai lé,
Vira mar e San José.

E de usança, ao quarto d’alva,
Matar na coberta o bicho.
Ai lé, ai lé,
Deixa a maca, põe a pé.
Antes da baldeação,
Varre o moço, apanha o lixo.
Ai lé, ai lé,
Peito à barra, finca o pé.

Todo o barco que anda a corso
Caça outro que se veja.
Ai lé, ai lé,
Muito cafre tem Guiné.
E todo o moço do convés
Caça a isca na bandeja.
Ai lé, ai lé,
Mazagão não é Salé.

Letra: Autor desconhecido (possivelmente do séc. XVII)
Música: Francisco Pimenta
Intérprete: O Baú com Sebastião Antunes (in CD “Achega-te”, O Baú, 2012)

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A história que a gente vos quer contar

[ Travessa do Poço dos Negros ]

A história que a gente vos quer contar
Aconteceu um dia em Lisboa
Aonde o tempo corre devagar

Chegámos era cedo à ribeira
Ainda todo o peixe respirava
E a outra carga aos poucos definhava

O gemido do cordame das amarras
Juntava-se ao lamento dos porões
E o que nos chega fora são canções

A gente viu sair uma outra gente que dançava
Um estranho bailado em tom dolente
Marcado pelo bater das correntes

Anda linda
Vamos p’ra ver se é verdade
Que lá se pode ouvir cantar
Anda linda
Vamos ao poço dos negros
P’ra ver quem pode lá morar

Mais tarde fomos ter àquela parte da cidade
Que é mais profunda do que a maré baixa
E a Lua só visita por vaidade

De novo a estranha moda se dançava
Agora com suspiros de saudade
Agora com bater de corações

Anda linda
Vamos p’ra ver se é verdade
Que lá se pode ouvir cantar
Anda linda
Vamos ao poço dos negros
P’ra ver quem pode lá morar

Batiam com as barrigas e roçavam-se nas coxas
Os corpos já dourados de suor
E as bocas já vermelhas dos amores

Quisemos nós saber qual era o nome desta moda
Respondeu-nos um velho já mirrado:
Lundum, mas se quiserem chamem Fado

Anda linda
Vamos p’ra ver se é verdade
Que lá se pode ouvir cantar
Anda linda
Vamos ao poço dos negros
P’ra ver quem pode lá morar

Letra: Luís Represas
Música: João Gil
Intérprete: Trovante (in “Trovante 84”, EMI-VC, 1984; reed. 1988)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Ai apertem os cintos

[ Corpo Inteiro ]

Ai apertem os cintos, vamos começar
Vou contar uma história de desencantar
Eram quatro donzelas a olhar o Sol
Cada qual em busca do amor
Procurando saber o que arde sem se ver
Se é a dor ou se é o prazer

A primeira caiu num sono fatal
À espera que um sapo a salvasse do mal
A segunda abalou nas ondas do mar
Nunca mais veio p’ra contar
A terceira, devota subiu aos céus
Uma voz que fugiu do lugar

Vou contar uma história de desencantar
Eram quatro donzelas presas pelo olhar
Já três delas se foram por causa do amor
Como carne que estilhaçou
Se o que arde não cura e o desejo é fartura
Só a quarta é que se salvou

Vou contar uma história de desencantar
Vi a quarta donzela que olhava p’ra o mar
De improviso cantava para o último sol
A mais doce feitiçaria
Quatro flores cortadas e ela não murchou
E das febres fez alegria

Letra: Miguel Cardina
Música: Pedro Damasceno e Julieta Silva
Arranjo: Diabo a Sete e Julieta Silva
Intérprete: Diabo a Sete (in CD “Figura de Gente”, Sons Vadios, 2016)

Alguém viu a sereia

[ Canto de Embalar ]

Alguém ouviu a sereia,
Ouviu de noite cantar:
Andava à noite à candeia,
Andava à noite no mar.

Eu fui contigo ao inferno,
Fomos ao fundo do mar;
Oh, meu amor que eu mais amo,
Deixa-me eu te embalar!

Uma, duas ou três…
Tantas não sei contar;
Eu sei lá quantas vezes
Sai um barco p’ra o mar!
Mas à noite há segredos,
Deixa-me eu te embalar.

Uma, duas ou três…
Tantas não sei contar;
Eu sei lá quantas vezes
Sai um barco p’ra o mar!
Mas à noite há segredos,
Deixa-me eu te embalar.

Letra: Pedro Ayres Magalhães
Música: Carlos Paredes
Intérprete: Mariana Abrunheiro (in livro/CD “Cantar Paredes”, Mariana Abrunheiro/BOCA – Palavras Que Alimentam, 2015)

Beatriz foi à praça

[ Beatriz e João ]

Beatriz foi à praça para comprar o pão,
Pela manhã se arregaça, para a vida vencer
E, na cama deitado de ressaca, o João
Chegou embriagado, deitou tudo a perder

Beatriz sai porta fora, o João fica a chorar
Diz que se vai embora se isto continuar

Mulher feliz namora e não quer chorar
Não deixes ir embora quem te quer namorar!

O João volta a casa e promete mudar
Beatriz desconfia, tentando acreditar
Dedicou-se à mulher, entregou-se a valer
Mas ela sabe o que quer e não se quer perder

João sai porta fora, Beatriz fica a chorar
Diz que se vai embora se isto continuar

Homem feliz namora e não quer chorar
Não deixes ir embora quem te quer namorar!

Beatriz chama o João, com tanto p’ra discutir
Quis ouvir olhando nos olhos o João dizendo que não vai repetir
O João prometeu, pediu-lhe para acreditar
Beatriz respondeu: “Tudo bem, mas vou-me embora se isto continuar…”

Mulher feliz namora e não quer chorar
Não deixes ir embora quem te quer namorar!

Homem feliz namora e não quer chorar
Não deixes ir embora quem te quer namorar!

Letra e música: Luís Pucarinho
Intérprete: Luís Pucarinho* (in CD “SaiArodada”, Luís Pucarinho/Alain Vachier Music Editions, 2018)

De um trapo velho

[ Cinco Vidas ]

De um trapo velho fiz
cinco saias que querem rodar
Num pano branco cosi
cinco bolsos para te levar

De saco às costas parti
sem saber se ia voltar
Cabeça erguida
e olhos de quem quer olhar

Pus-te na minha mão
cinco dedos para me escapar
O mundo deu-me então
cinco vidas para me curar

E lá do bolso de trás
perguntaste se ainda podias falar
Cabeça erguida, respondi:
tanto me faz

Pela estrada andei
quantas voltas eu dei
sem encontrar
um motivo para voltar

De um trapo velho fiz
cinco saias que querem rodar
Num pano branco cosi
cinco bolsos para te levar

E lá do bolso de trás
perguntaste quando ia parar
Cabeça erguida, respondi:
até ter paz

Pela estrada andei
quantas voltas eu dei
sem encontrar
um motivo para voltar

tanto me faz
até ter paz

Letra: Eugénia Ávila Ramos
Música: Tiago Oliveira
Intérprete: Rua da Lua* (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)

Deram-me uma burra

[ Cantiga da Burra ]

Deram-me uma burra que era mansa
Que era brava
Toda bem-parecida
Mas a burra não andava
A burra não andava
Nem p’rá frente nem p’ra trás
Muito eu lhe ralhava
Mas eu não era capaz
Eu não era capaz de fazer a burra andar
Passava do meio-dia e eu a desesperar
E eu a desesperar
Ai que desespero o meu
Falei-lhe num burrico
E a burra até correu

Deram-me uma burra que era mansa
Que era brava
Toda bem-parecida
Mas a burra não andava
A burra não andava
Nem p’rá frente nem p’ra trás
Muito eu lhe ralhava
Mas eu não era capaz
Eu não era capaz de fazer a burra andar
Passava do meio-dia e eu a desesperar
E eu a desesperar
Ai que desespero o meu
Falei-lhe num burrico
E a burra até correu

Letra e música: Sebastião Antunes, Manuel Meirinhos, Paulo Meirinhos, Alexandre Meirinhos e Paulo Preto
Arranjo: Luís Peixoto
Intérprete: Sebastião Antunes e a Quadrilha com Galandum Galundaina (in CD “Com Um Abraço”, Vachier & Associados, 2012)

Deu-se agora

[ Casório Divertido ]

Deu-se agora, há pouco tempo,
Um casório divertido:
A noiva mais que danada,
Lá pela noite adiantada,
Arrancou o nariz ao marido.

É o que acontece aos velhos
Que procuram mocidade…
Quando se despiu deitou
E o nariz lhe arrancou
Por não fazer a vontade.

Procuraram-lhe as vizinhas:
— «Que fizeste ao teu Viriato?»
— «Dormir com homem e ter frio,
Dormir com homem e ter frio,
Vale mais dormir com gato!»

Foi consultar o doutor,
Disse-lhe que não tinha cura;
E agora, por qualquer lado,
A chorar o desgraçado,
Faz uma triste figura.

Letra e música: Tradicional (Aldeia do Bispo, Guarda, Beira Alta)
Informante: Júlia Costa Fonseca
Recolha: Américo Rodrigues
Intérpretes: Ariel Ninas & César Prata (in CD “Cantos de Cego da Galiza e Portugal”, aCentral Folque, 2016)

Ele vinha sem muita conversa

[ Minha História ]

Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar
Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar
Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
Minha mãe se entregou a esse homem perdidamente

Ele assim como veio partiu não se sabe p’ra onde
E deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe
Esperando, parada, pregada na pedra do porto
Com seu o único velho vestido cada dia mais curto

Quando enfim eu nasci, minha mãe embrulhou-me num manto
Me vestiu como se eu fosse assim uma espécie de santo
Mas por não se lembrar de acalantos, a pobre mulher
Me ninava cantando cantigas de cabaré

Minha mãe não tardou a alertar toda a vizinhança
A mostrar que ali estava bem mais que uma simples criança
E não sei bem se por ironia ou se por amor
Resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor

Minha história é esse nome que ainda carrego comigo
Quando vou bar em bar, viro a mesa, berro, bebo e brigo
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de Menino Jesus

Letra: Chico Buarque, a partir da letra original de Paola Pallotino para a canção “4 marzo 1943”
Música: Lucio Dala
Intérprete: Pensão Flor
Versão discográfica de Pensão Flor (in CD “O Caso da Pensão Flor”, Pensão Flor/Brandit Music, 2013)
Primeira versão de Chico Buarque (in LP “Construção”, Philips, 1971, reed. Philips, 1988, Universal Music, 2017)
Versão original: Lucio Dala (in LP “Storie di Casa Mia”, RCA Italiana, 1971, reed. RCA/BMG Ricordi, 1996)

Estava difícil combinar um café

[ Sabes? Eu Também ]

Estava difícil combinar um café, mas desta vez lá foi
Talvez possamos falar do que já lá vai, que às vezes ainda dói
Da coragem esquecida que já se perdeu
Quem deixou por dizer: foste tu ou fui eu?
Da lembrança guardada num canto qualquer
Da palavra apagada por não se entender
E dizer-te num gesto mais enternecido:
“Sabes? Eu também… ando um bocado perdido.”

Vou preparar-te um jantar. Com certeza, vou ser original
E vou escolher-te um bom vinho. Tu sabes, nunca me saí mal
E falar-te das voltas que a vida trocou
Das verdades que o tempo já entrelaçou
Entre sonhos queimados lançados ao vento
Entre a cor de um sorriso e o tom de um lamento
E dizer-te de um sopro empurrado pela sorte:
“Sabes? Eu também… ando um bocado sem norte.”

Olha, não fiz sobremesa. Deixa lá, fica p’ra a outra vez
Vamos deixar mais um copo ao falar dos quês e dos porquês
Uma história que nos apeteça lembrar
Um episódio que nunca nos deu p’ra contar
Um segredo guardado p’lo cair do pano
Um encontro marcado no cais de um engano
E dizer-te na hora em que a voz fraquejar:
“Sabes? Eu também… me apetece chorar.”

E vou chamar um táxi. É hora p’ra te levar a casa
Era suposto um de nós nesta altura ficar com a alma em brasa
Mas a vida é assim, não aconteceu
Pouco importa dizer: foste tu ou fui eu?
O que importa é o abraço que estava por dar
Há-de haver uma próxima e mais um jantar
E dizer-te a sorrir: “Já passa das três,
Dorme bem! E, quem sabe?, um dia talvez…”

Um dia talvez…
Um dia talvez…
Um dia talvez…

Letra e música: Sebastião Antunes
Arranjo: Miguel Veras
Intérprete: Sebastião Antunes (in CD “Singular”, Sebastião Antunes & Quadrilha/Alain Vachier Music Editions, 2017)
Versão original: Sebastião Antunes (in CD “Cá Dentro”, Vachier & Associados, 2009)

Estavam todas juntas

[ Ronda das Mafarricas ]

Estavam todas juntas
Quatrocentas bruxas
À espera, à espera
À espera da lua cheia

Estavam todas juntas
Veio um chibo velho
Dançar no adro
Alguém morreu

Arlindo coveiro
Com a tua marreca
Leva-me primeiro
Para a cova aberta

Arlindo, Arlindo
Bailador das fadas
Vai ao pé coxinho
Cava-me a morada

Arlindo coveiro
Cava-me a morada
Fecha-me o jazigo
Quero campa rasa

Arlindo, Arlindo
Bailador das fadas
Vai ao pé coxinho
Cava-me a morada

Letra: António Quadros (pintor)
Música: José Afonso
Intérprete: José Afonso (in “Cantigas do Maio”, Orfeu, 1971, reed. Movieplay, 1987)

Eu que me comovo

[ Bolero do Coronel Sensível Que Fez Amor em Monsanto ]

Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: “fiz serão”
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada

Letra: António Lobo Antunes
Música: Vitorino
Intérprete: Vitorino (in CD “Eu Que me Comovo por Tudo e por Nada”, EMI-VC, 1992)

Façam roda

[ Conto do Bicho Papão ]

Façam roda a ver quem vai ao meio
cada um com seu par, tira a pedrinha
ciruma, acabei eu primeiro
ficas tu a tapar, não dá madrinha
já ninguém te pergunta quantos queres
já não ouves ninguém contar: um, dó, li, tá
afinal qual é o dedo que preferes
quem está livre, livre está

Ninguém fala do homem do saco
ninguém espreita por baixo do colchão
já ninguém acredita na côca
nem no bicho papão

Salta à corda, joga à barra do lenço
adivinha o que eu penso, dá a partida
falua, quem acerta na malha
danada da canalha está fugida
salta ao eixo a fugir à cabra cega
olha o meu pião, mas eu não to dou não
onde é que anda a viuvinha que não chega?
E a sardinha a dar na mão

Ninguém fala do homem do saco
ninguém espreita por baixo do colchão
já ninguém acredita na côca
nem no bicho papão

Ai se eu pudesse habitar
um jogo electrónico
voltava a ser falado,
voltava a assustar
imaginem lá qual não era a sensação
de uma consola
com o jogo do regresso do papão

Ninguém fala do homem do saco
ninguém espreita por baixo do colchão
já ninguém acredita na côca
nem no bicho papão

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Quadrilha (in CD “Entre Luas”, Ovação, 1997)

Não sei se tinha chegado

[ Rapariga da Estação ]

Não sei se tinha chegado,
Se porventura partia…
Mas tinha um lugar sentado
E reparei no que lia.

Cabelos negros caídos
– Longos, lisos, deprimidos –
Escondem o decote ousado
Do seu cinzento vestido.

Não consegui dizer nada,
Preferi que fosse assim:
Antes só que acompanhada
Mesmo que seja por mim.

Condição de quem resiste:
Abandono, solidão…
Tão inspiradora e triste
Rapariga da estação.

Não consegui dizer nada,
Preferi que fosse assim:
Antes só que acompanhada
Mesmo que seja por mim.

Condição de quem resiste:
Abandono, solidão…
Tão inspiradora e triste
Rapariga da estação.

Letra e música: Duarte
Intérprete: Duarte* (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018)

Ia eu pelo concelho de Caminha

[ Coro das Velhas ]

Ia eu pelo concelho de Caminha
quando vi sentada ao sol uma velhinha
curioso, uma conversa entabulei
como se diz nuns romances que eu cá sei

Chamo-me Adozinha, disse, e tenho já
os meus 84 anos, feitos há
mês e meio, se a memória não me falha
mas inda vou durar uns anos, Deus me valha

Com esta da austeridade, meu senhor
nem sequer dá para ir desta pra melhor
os funerais estão por um preço do outro mundo
dá pra desistir de ser um moribundo

Rabugenta, eu? Não senhor
eu hei-de ir desta pra melhor
mas falo pelos que eu cá deixo
não é por mim que eu me queixo
não é por mim que eu me queixo

Ó Felisbela, ó Felismina
ó Adelaide, ó Amelinha
ó Maria Berta, ó Zulmirinha
vamos cantar o coro das velhas?
Vamos!

Cá se vai andando
co’a cabeça entre as orelhas

Não sei ler nem escrever mas não me ralo
alguns há que até a caneta lhes faz calo
é só assinar despachos e decretos
p’ra nos dar a ler a nós, analfabetos

E saúde tenho p’ra dar e vender
não preciso de um ministro para ter
tudo o que ele anda a ver se me pode dar
pode ir ele para o hospital em meu lugar

E quanto a apertar cinto, sinto muito
filosofem os que sabem lá do assunto
mas com esta cinturinha tão delgada
inda posso ser de muitos namorada

Rabugenta, eu? Não senhor
eu hei-de ir desta pra melhor
mas falo pelos que eu cá deixo
não é por mim que eu me queixo
não é por mim que eu me queixo

Ó Felisbela, ó Felismina
ó Adelaide, ó Amelinha
ó Maria Berta, ó Zulmirinha
vamos cantar o coro das velhas?
Vamos!

Cá se vai andando
co’a cabeça entre as orelhas

E se a morte mafarrica, mesmo assim
me apartar das outras velhas, logo a mim
digo ao Diabo, “não te temo, ó camafeu
conheci piores infernos do que o teu”

Rabugenta, eu? Não senhor
eu hei-de ir desta pra melhor
mas falo pelos que eu cá deixo
não é por mim que eu me queixo
não é por mim que eu me queixo

Ó Felisbela, ó Felismina
ó Adelaide, ó Amelinha
ó Maria Berta, ó Zulmirinha
vamos cantar o coro das velhas?
Vamos!

Cá se vai andando
co’a cabeça entre as orelhas

Letra e música: Sérgio Godinho
Intérprete: Sérgio Godinho (in “Salão de Festas”, Philips/Polygram, 1984; “Era Uma Vez Um Rapaz”, Philips/Polygram, 1985; “Noites Passadas: O Melhor de Sérgio Godinho (ao vivo)”, EMI-VC, 1995)

No centro da Avenida

[ Teresa Torga ]

No centro da Avenida,
No cruzamento da rua,
Às quatro em ponto, perdida
Dançava uma mulher nua.

A gente que via a cena
Correu para junto dela
No intuito de vesti-la,
Mas surge António Capela

Que aproveitando a barbuda
Só pensa em fotografá-la.
Mulher na democracia
Não é biombo de sala.

Dizem que se chama Teresa,
Seu nome é Teresa Torga;
Muda o pick-up em Benfica
E atura a malta da borga.

Aluga quartos de casa
Mas já foi primeira estrela;
Agora é modelo à força
Que o diga António Capela.

T’resa Torga, T’resa Torga
Vencida numa fornalha!
Não há bandeira sem luta,
Não há luta sem batalha!

T’resa Torga, T’resa Torga
Vencida numa fornalha!
Não há bandeira sem luta,
Não há luta sem batalha!

Letra e música: José Afonso
Intérprete: Ana Laíns
Versão discográfica de Ana Laíns (in CD “Portucalis”, Ana Laíns/Seven Muses, 2017)
Versão original: José Afonso (in LP “Com as Minhas Tamanquinhas”, Orfeu, 1976, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art’Orfeu Media, 2012)

No mercado da Ribeira

[ O Namorico da Rita ]

No mercado da Ribeira
há um romance de amor
entre a Rita que é peixeira
e o Chico que é pescador

Sabem todos os que lá vão
que a Rita gosta do Chico
só a mãe dela é que não
consente no namorico

Quando ele passa por ela
ela sorri descarada
porém, o Chico à cautela
não dá trela nem diz nada

Que a mãe dela quando calha
ao ver que o Chico se abeira
por dá cá aquela palha
faz tremer toda a Ribeira

Namoram de manhãzinha
e da forma mais diversa
dois caixotes de sardinha
dão dois dedos de conversa

E há quem diga à boca cheia
que depois de tanta fita
o Chico de volta e meia
prega dois beijos na Rita

Quando ele passa por ela
ela sorri descarada
porém o Chico à cautela
não dá trela nem diz nada

Que a mãe dela quando calha
ao ver que o Chico se abeira
por dá cá aquela palha
faz tremer toda a Ribeira

Letra: Artur Ribeiro
Música: António Mestre
Intérprete: Amália Rodrigues (1946; 1958) (in CD “Fado Amália”, Movieplay, 1998)

No Sábado eu fui

[ O café da Sãozinha ]

No Sábado eu fui
beber o meu fino
ali ao café da Sãozinha
e lá a conversa por mais quieta
chega sempre à cozinha

O prato do dia
junto trazia o caso de uma senhora
Que disse ter visto a Zaida
sair de mão dada
com o Zé do Candal

E o morcão do homem dela
de barba à janela
A ler o jornal
E por entre tintos e brancos
Bagaços sandes de presunto
Como àgua a correr
de mesa pra mesa rodava o assunto

Sem se fazer caso
era vê-lo crescer
O irmão do barbudo
até então mudo
deixa sair uma posta
que a gaja é uma sostra
não faz nenhum
e sabe bem do que gosta
O Rui dos Guindais
que conhece os pais
chegou-se mais ao balcão
E de mão em concha confessa
que ele é uma peça
e não tem posição
que estoura o guito no casino
e em casa o menino
alimenta-se a pão
E por entre tintos e brancos
Bagaços sandes de presunto
Como água a correr
de mesa pra mesa
rodava o assunto
Sem se fazer caso
era vê-lo crescer
O homem da São
conhece a canção
e tira da manga a manilha
saca da raquete
e atira o filete
prós ouvidos da filha
eu sempre te disse
desta família
não há um que se aproveite
esquece o Candal ó Tininhas
e não queres ver
a madeira a queimar
se um anda perdido no jogo
o outro há de ter fogo
para a gente apagar
E por entre tintos e brancos
Bagaços sandes de presunto
Como água a correr
de mesa pra mesa
rodava o assunto

Sem se fazer caso
era vê-lo crescer
O Gusto do talho
pai da Zaidinha
chega e pede um cimbalino
E o Tó do café
faz conversa a ré
e encosta o pente fino
A São que sabia que na cantoria
não tinha sido a primeira
falou afiando as facas
O que há mais é vacas
E bois a pastar

O António estava como a cal
implorando a Jesus
para a São se calar

E por entre tintos e brancos
Bagaços sandes de presunto
Como água a correr
de mesa p’ra mesa
rodava o assunto
Sem se fazer caso
era vê-lo crescer

Letra: Manel Cruz
Música: Gileno Santana
Voz: Vitorino Salomé

Nem Sequer Dei por Isso

Pelo fim da tarde tu sais do emprego
E eu não sei porque é que aqui vim parar
É assim um desassossego
Tento ir sempre onde possas estar

Por sorte tu até sorris
E nem sequer me vens com muitos ‘porquês’
E dizes com um certo ar feliz:
“Com que então, por aqui outra vez?”

Num parque ao domingo
P’lo meio da cidade
Ou num café ao entardecer

Será que é mentira?
Será que é verdade?
Mas o que é que me está acontecer?

Já sei! Não há explicação
A cabeça está num reboliço
Se calhar apaixonei-me por ti
E nem sequer dei por isso

Ao virar da esquina, em qualquer transporte
Acabamos sempre por nos cruzar
E eu acho um caso de sorte
Cada vez que te posso encontrar

Está-me a correr bem, já ganhei o dia
Só porque me dissestes um “olá!”
E gosto da tua ironia
Se perguntas mais uma vez: “Por cá?”

Mensagem trocada, gesto embaraçado
Lá vou eu outra vez a planar
Desculpa, desculpa! Foi número errado
Mas ficamos uma hora a falar

Já sei! Não há explicação
A cabeça está num reboliço
Se calhar apaixonei-me por ti
E nem sequer dei por isso

Tanto melhor quando não se espera
E era bom que fosse como imaginei

Já sei! Não há explicação
A cabeça está num reboliço
Se calhar apaixonei-me por ti
E nem sequer dei por isso

Já sei! Não há explicação
A cabeça está num reboliço
Se calhar apaixonei-me por ti
E nem sequer dei por isso

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha (in CD “Perguntei ao Tempo”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2019)

Sebastião Antunes, TV Sintra

Sebastião Antunes, TV Sintra

P’lo artigo cento e tal

[ Fado Jurídico-Criminal ]

P’lo artigo cento e tal
Da regra dos bons costumes,
A maçã do senhor Nunes
É um bem celestial.

Estão a postos os jurados,
Numa sala as testemunhas;
O arguido rói as unhas,
Os juízes descansados.

«Não fui eu, foi a Serpente!
Não sei mais o que lhes diga!»
«Isso é história muito antiga
Contada por toda a gente».

«Comi por ter muita fome»,
Suplicou o acusado,
«Sou órfão de pai e mãe
E estou desempregado.»

«Quantos anos, p’ra que constem?»,
Perguntou o presidente;
«Oitenta feitos ontem»,
O meirinho diligente.

«O senhor não tem vergonha
De ter fome àquela hora?
Mas que vício ou que peçonha
O não deixou vir embora?»

«Já me custa muito a andar
E o que eu quero já me esquece…
Fui vítima de maus tratos
E não tinha GPS!»

«Não pense que nos engana,
É suprema esta questão:
A maçã que aqui se trata
É a Civilização!

E que sorte tem o senhor
Demandado nesta liça,
Que tem pago defensor,
Que a tremer pediu justiça.

«Vai o réu, pois, condenado
À pena mais capital!»
Disse o último jurado:
«Esconjurado está o mal!»

Tudo está no seu lugar:
A maçã dos bons costumes,
A árvore que é do Nunes,
Os polícias a acenar.

O arguido p’rá cadeia,
A cadeia a transbordar;
O meirinho p’ró IKEA,
Os juízes a jantar.

O meirinho p’ró IKEA,
Os juízes a jantar.

Letra: João Gigante-Ferreira
Música: André Teixeira
Intérprete: Helena Sarmento
Versão original: Helena Sarmento (in CD “Lonjura”, Helena Sarmento, 2018)

Quando entrei no restaurante

Quando entrei no restaurante
Que muitas vezes frequento
Testemunhei sem querer
O que em seguida comento

Estava à mesa uma família
Todos muito bem vestidos
Quando veio o empregado
P’ra recolher os pedidos

Notou-se um amor profundo
Bonito de apreciar
Mostrava-se ali ao mundo
Uma família exemplar

A decisão foi veloz
O menu nem foi olhado
Duas pizzas e um hamburguer
E foi o caso encerrado

E sem mais tempo perder
Os adultos e o fedelho
Com enorme agilidade
Sacaram do aparelho

Nota-se um amor profundo
Não há nada p’ra falar
Cada qual está no seu mundo
É uma família exemplar

O pai no seu telemóvel
Vê novidades da bola
E o filho entusiasmado
Mata zombies na consola

A mãe no motor de busca
Procura com precisão
A novelinha patusca
Que vai curtir ao serão

Nota-se um amor profundo
Que há harmonia no lar
Cada qual está no seu mundo
É uma família exemplar

No afã nos polegares
Num repasto a bom teclar
Nem uma simples palavra
Lograram articular

Por fim a pensar fiquei
Sem deixar de me afligir
Que raio de sociedade
Estamos nós a construir?

Notou-se um amor profundo
Que há-de frutificar
Com cada um no seu mundo
Temos um mundo exemplar

Aníbal Raposo, Forum Elos – Diálogos, 25 de junho de 2021

“(Acabado de fazer. Vou musicar)”

Uma velha, muito velha

[ Diabo da Velha ]

Uma velha, muito velha,
Veio aqui à minha aldeia
Com um saco pelas costas
Para fazer uma venda;
E o povo lá pedia…
Mas comprava o que não queria.

Foi para o largo apregoar:
«– Quem quer, quem quer?
Quem quer vir cá comprar
Belas coisas que aqui trago
Neste saco abençoado?
Venham que eu vendo barato!»

Fui lá ver o que ela tinha,
Queria eu uma sardinha;
Disse-me ela que não tinha
Mas que antes me vendia
Uma tampa de panela,
Ai o diabo da velha!

«– Oiça lá, ó menina,
P’ra que quer uma sardinha
Que até traz uma espinha
Que lhe pode fazer mal?
Antes disso leve a tampa
Que foi de nobre panela!
Pode confiar na velha,
Faço preço especial!»

Fui comprar eu a tampa:
Para que serve sem panela?!
Fui enganada, que tola!,
Pelo diabo da velha.

Uma velha, muito velha,
Veio aqui à minha aldeia
Com um saco pelas costas
Para fazer uma venda;
E o povo lá pedia…
Mas comprava o que não queria.

Foi para o largo apregoar:
«– Quem quer, quem quer?
Quem quer vir cá comprar
Belas coisas que aqui trago
Neste saco abençoado?
Venham que eu vendo barato!»

Voltei eu àquela venda:
Desta vez não caio, não!
Queria eu uma saia
Mas fez ela promoção:
Comprei quatro colchões,
Ai que bela ocasião!

«– Oiça lá, ó menina,
P’ra que quer uma saia
Que lhe dá ventos debaixo?
Ainda fica constipada…
Pela cara está cansada,
Deve andar a dormir mal…
Precisa de um colchão novo:
Vendo quatro ao preço de um.»

Fui comprar que era barato,
Lá caí eu na esparrela:
Vivo só, bastava-me um…
Fui enganada pela velha!

Uma velha, muito velha,
Veio aqui à minha aldeia
Com um saco pelas costas
Para fazer uma venda;
E o povo lá pedia…
Mas comprava o que não queria.

Foi para o largo apregoar:
«– Quem quer, quem quer?
Quem quer vir cá comprar
Belas coisas que aqui trago
Neste saco abençoado?
Venham que eu vendo barato!»

Eu também fui à venda,
Queria eu um serrote;
Vendeu-me ela um cavalo,
Sem saber andar a trote…
Ai o diabo da velha
E a minha triste sorte!

«– Oiça lá, belo moço,
P’ra que quer um serrote
Que sem dentes afiados
Não fazem nem um corte?!
Antes disso, um cavalo
Que sem dentes também corre
P’ra chamar a donzela
Que por certo trará sorte!»

Fui comprar aquele cavalo:
Para que serve sem a sela?!
Ainda nem uma donzela…
Fui enganado pela velha!

Uma velha, muito velha,
Veio aqui à minha aldeia
Com um saco pelas costas
Para fazer uma venda;
E o povo lá pedia…
Mas comprava o que não queria.

Letra e música: Carlos Norton
Intérprete: OrBlua (in Livro/CD “Retratos Cinéticos”, Fungo Azul/Ocarina, 2015)

Vivia num mundo próprio

[ O Músico Que Perdeu os Sapatos ]

Vivia num mundo próprio
onde não entra quem quer;
E se estava ou não sóbrio?
Se era homem ou mulher?
Não tinha que ser assim:
explicar porque aqui vim.

Musica è forma di vita
senza forma stabilita,
senza nessuno che decide
che non sai mai dire no,
senza nessuno che decide
che non sai mai dire no.

De andar sempre à procura,
há quem lhe decida a vida,
que esta coisa de Cultura
já de banal é esquecida.
E se chega a vida dura,
logo parte à despedida.

Lo spettacolo era un viaggio
e una bela fattoria,
naturale era il paesaggio
bela gente finta allegria
una nuvola de estate
tutto quanto poi bagnò.

Sapatos muito molhados
não dá jeito a carregar;
O calor dá pés descalços,
logo os venho aqui buscar.
E não estavam lá, partiram:
e nunca mais já se viram.

Si può perdere il controllo,
anche con la leggerezza,
si può perdere le scarpe
con una certa timidezza.
Ma musicista non ha età
mai perde la dignità.

Perso la notte, perso il dia,
Perso le scarpe e l’allegria.
Perso la notte, perso il dia,
Perso le scarpe e l’allegria.

Perdeu a noite, perdeu o dia,
Perdeu os sapatos e a alegria.
Perdeu a noite, perdeu o dia,
Perdeu os sapatos e a alegria.

Letra: José Barros
Música: José Barros e Mimmo Epifani
Intérpretes: José Barros & Mimmo Epifani*
Versão original: José Barros & Mimmo Epifani (in CD “Mar da Lua”, José Barros/Tradisom, 2015)

Vou falar-vos dum curioso personagem

[ Jeremias, o Fora-da-Lei ]

Vou falar-vos dum curioso personagem, Jeremias, o fora-da-lei
descendente por linha travessa do famigerado Zé do Telhado
Jeremias dedicou-se desde tenra idade ao fabrico da bomba caseira
cuja eloquência sempre o deixou maravilhado

Para Jeremias nada se assemelha à magia da dinamite
a não ser, talvez, o rugir apaixonado das mais profundas entranhas da Terra
e só quando as fachadas dos edifícios públicos explodirem numa gargalhada
será realmente pública a lei que as leis encerram

Há quem veja em Jeremias apenas mais uma vítima da sociedade
muito embora ele tenha a esse respeito uma opinião bem particular
é que enquanto um criminoso tem uma certa tendência natural para ser vitimado
Jeremias nunca encontrou razões p’ra se culpar

Porque nunca foi a ambição nem a vingança o que o levou a desprezar a lei
e jamais lhe passou pela cabeça tentar alterar a Constituição
como um poeta ele desarranja o pesadelo para lá dos limites legais
foragido por amor ao que é belo e por vocação

Jeremias gosta do guarda-roupa negro e dos mitos do fora-da-lei
gosta do calor da aguardente e de seguir remando contra a maré
gosta da maneira como os homens respeitáveis se engasgam quando falam dele
e da forma como as mulheres murmuram: o fora-da-lei

Gosta de tesouros e mapas, sobretudo daqueles que o tempo mais maltratou
gosta de brincar com o destino e nem o próprio inferno o apavora
não estando disposto a esperar que a Humanidade venha alguma vez a ser melhor
Jeremias escolheu o seu lugar do lado de fora

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/07/gileno-santana-direcao-de-arte-de-telmo-moreira-15052018.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-07 06:22:082025-06-07 21:46:12Canções com histórias
Caravela Vera Cruz
Cancioneiro

Canções com História

Canções com História

Letras

A flor traz saiinha branca

[ Ai, Flores ]

A flor traz saiinha branca
E amarela chapelinha
A flor traz saiinha branca
E amarela chapelinha
Se a saia, se a saia cair ao chão
Fica a flor mais pobrezinha

Fica a flor mais pobrezinha
Grande é a contradição
Fica a flor mais pobrezinha
Grande é a contradição
Uma coroa, coroa de rainha
Com o reino pelo chão
Uma coroa, coroa de rainha
Com o reino pelo chão

Com o reino pelo chão
Lá se foi quem já não é
Com o reino pelo chão
Lá se foi quem já não é
Lá dançam, lá dançam no terreiro
Os que ficaram de pé

Os que ficaram de pé
São a esperança da monção
Os que ficaram de pé
São a esperança da monção
Lá andam, lá andam na base da coroa
Inventam nova união
Lá andam, lá andam na base da coroa
Inventam nova união

Letra e música: Amélia Muge
Arranjo: António José Martins
Melodia incidental: José Mário Branco
Intérprete: Amélia Muge (in CD “Taco a Taco”, Mercury/Polygram, 1998)

A memória

[ Futuras Instalações ]

A memória faz de ti um povo
Que sabe o que quer.

Esta casa já foi casa
E casa inda vai ser:
As paredes são de pedra,
As janelas p’ra te ver.

Casa velha, bem antiga:
Já foi dos nossos avós;
Muita gente cá viveu
E agora estamos cá nós.

Casa velha, casa nova
Com gente para viver:
Nesta casa e nesta terra
Temos o sol a nascer.

Esta casa há-de ser casa
E casa inda vai ser:
Abram portas e janelas!
Há tanto p’ra fazer!

Casa velha, casa nova,
Casa que gosta de ser:
Vem de um tempo sem idade,
Tem tempo p’ra crescer.

Casa velha, casa nova
Com gente para viver:
Nesta casa e nesta terra
Temos o sol a nascer.

Esta casa há-de ser casa
E casa inda vai ser:
Abram portas e janelas!
Há tanto p’ra fazer!

Casa velha, casa nova,
Casa que gosta de ser:
Vem de um tempo sem idade,
Tem tempo para crescer.

Esta casa há-de ser casa
E casa inda vai ser:
Abram portas e janelas!
Há tanto p’ra fazer!

A memória faz de ti um povo
Que sabe o que quer.

Letra e música: César Prata
Intérprete: César Prata (in CD “Futuras Instalações”, César Prata/RequeRec, 2014)

Acorda, D. João III

[ Postal para D. João III ]

Ao Zeca Afonso

Acorda, João III!
Querem-te roubar a fama:
Um cardeal interesseiro
Pelo Santo Ofício chama.

Diz que vem p’ra nos salvar
Da tentação de Mafoma;
Metido numa redoma,
Jura que é inofensivo.

Traz baú de ordenações,
Cadafalso e sambenito;
Cara de corpo-delito,
Volta o polé p’ràs funções.

Eu, por mim, faço um manguito
Às amas do cardeal!
Vou-te mandar um postal
Com novas dos teus filhotes.

De todos a mais notada,
Com pergaminho d’elite,
Essa bastarda Judite,
Tens-lhe a alma confiada.

Bate-me à porta de noite,
Diz que sou um excomungado:
Mil heresias, culpado,
Carbonário, contumaz,

Diabo, anarquista negro,
Blasfémia não controlada…
Quer saber qual o segredo
Da alma duma granada.

Eu, por mim, faço um manguito…

Letra e música: Vitorino Salomé
Intérprete: Vitorino (in LP “Leitaria Garrett”, EMI/Vecemi, 1984, reed. EMI-VC, 1993; CD “As Mais Bonitas 2: Ao Alcance da Mão”, EMI-VC, 2002, EMI Music Portugal, 2012; 3CD “Tudo”: CD 2 – “Lisboa”, EMI Music Portugal, 2005)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Adeus, Maria

— «Adeus, Maria, até quando,
Eu até quando não sei…
Cá ando no Ultramar, a pensar
No dia em que voltarei.
Espera por mim, se quiseres…
Faz o que tu entenderes;
Acho que deves pensar em casar,
Eu posso por cá morrer.
Ninguém o pode saber,
É uma carta fechada…
E depois te chamarão, pois então,
Viúva sem seres casada.»

— «Ó António, Deus te guie
Nos campos do Ultramar!
Eu penso em ti, cá solteira, há quem queira
Se tu nunca mais voltares.
Espero por ti, meu amor!
Eu d’outro não quero ser!
Nunca mais me casarei, que eu bem sei,
Serei tua até morrer!
A carta que me mandaste
Com um conselho imprudente…
Meu amor, para contigo eu te digo:
‘Inda fiquei mais ardente.»
Meu amor, para contigo eu te digo:
‘Inda fiquei mais ardente.»

Letra: António Pardelha
Música: Monda
Intérprete: Monda com Katia Guerreiro (in CD “Monda”, Monda/Tánaforja, 2016)

Aldeia da Meia-Praia

[ Os Índios da Meia-Praia ]

Aldeia da Meia-Praia
Ali mesmo ao pé de Lagos
Vou fazer-te uma cantiga
Da melhor que sei e faço

De Monte Gordo vieram
Alguns por seu próprio pé
Um chegou de bicicleta
Outro foi de marcha à ré

Quando os teus olhos tropeçam
No voo duma gaivota
Em vez de peixe vê peças
De ouro caindo na lota

Quem aqui vier morar
Não traga mesa nem cama
Com sete palmos de terra
Se constrói uma cabana

Tu trabalhas todo o ano
Na lota deixam-te mudo
Chupam-te até ao tutano
Levam-te o couro cabeludo

Quem dera que a gente tenha
De Agostinho a valentia
Para alimentar a sanha
De esganar a burguesia

Adeus disse a Monte Gordo
(Nada o prende ao mal passado)
Mas nada o prende ao presente
Se só ele é o enganado

Oito mil horas contadas
Laboraram a preceito
Até que veio o primeiro
Documento autenticado

Eram mulheres e crianças
Cada um com o seu tijolo
Isto aqui era uma orquestra
Quem diz o contrário é tolo

E se a má língua não cessa
Eu daqui vivo não saia
Pois nada apaga a nobreza
Dos índios da Meia-Praia

Foi sempre a tua figura
Tubarão de mil aparas
Deixas tudo à dependura
Quando na presa reparas

Das eleições acabadas
Do resultado previsto
Saiu o que tendes visto
Muitas obras embargadas

Mas não por vontade própria
Porque a luta continua
Pois é dele a sua história
E o povo saiu à rua

Mandadores de alta finança
Fazem tudo andar pra trás
Dizem que o mundo só anda
Tendo à frente um capataz

Eram mulheres e crianças
Cada um com o seu tijolo
Isto aqui era uma orquestra
Quem diz o contrário é tolo

E toca de papelada
No vaivém dos ministérios
Mas hão-de fugir aos berros
Inda a banda vai na estrada

Letra e música: José Afonso
Intérprete: José Afonso (in “Com as Minhas Tamanquinhas”, Orfeu, 1976, reed. Movieplay, 1987, 1996)
Outras versões: Vozes da Rádio (in CD “Filhos da Madrugada Cantam José Afonso”, MG Ariola, 1994); Dulce Pontes (in CD “Lágrimas”, Movieplay, 1993); Paula Oliveira e Bernardo Moreira (in CD “Fado Roubado”, Universal, 2007)

Aqui, na Terra

[ Fala do Velho do Restelo ao Astronauta ]

Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza
Ou talvez da pobreza, e da fome outra vez,
E pusemos em ti nem eu sei que desejo
De mais alto que nós, e melhor, e mais puro.
No jornal soletramos, de olhos tensos,
Maravilhas de espaço e de vertigem:
Salgados oceanos que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
(E as bombas de napalme são brinquedos),
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome.

Poema: José Saramago (Do ciclo “Poema a Boca Fechada”, in “Os Poemas Possíveis”, Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 76; “Poesia Completa”, Lisboa: Assírio & Alvim, 2022)
Música: Manuel Freire
Intérprete: Manuel Freire (in CD “As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago”, Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)

Brites de Almeida

Brites de Almeida,
Mulher sem rumo nem rota,
Guerreira nas horas vagas,
Padeira de Aljubarrota.

Nasceu em Faro
De família pobrezinha
Mas a fama que ela tinha
Era de ser bicho raro.

Ao desamparo,
Gostava de andar à briga,
Dos homens era inimiga:
Varria-os à bordoada.

À cabeçada,
Era forte como um touro;
Tinha um coração de ouro,
Tão temida como amada.

Quando um soldado
Por ela se apaixonou,
Sincero se declarou:
Queria ser seu namorado.

Apaixonado,
Aceitou-lhe as condições:
Lutarem como leões
P’ra ver quem era mais forte;

Mas quis a sorte
Ser o mancebo o mais fraco;
Ela fez dele um cavaco
E o pobre entregou-se à morte.

Brites de Almeida,
Mulher sem rumo nem rota,
Guerreira nas horas vagas,
Padeira de Aljubarrota.

Conta um jogral
Que abalou para Castela,
Embarcou num barco à vela
Para fugir ao Tribunal;

Mas, sem aviso,
Vieram piratas mouros,
Levaram gente e tesouros,
Foi escrava de improviso;

Foi prisioneira,
Mas num gesto triunfal
Fugiu para Portugal,
Acostou à Ericeira;

E caminheira
Partiu sem rumo nem rota,
Foi parar a Aljubarrota,
Teve ofício de padeira.

Mesmo sem querer
Heroína dos enganos:
Foi guerreira sem saber,
Martírio dos castelhanos,

Nuestros hermanos
Levaram com a pá do forno
E partiram sem retorno
Da terra dos Lusitanos.

Brites de Almeida,
Mulher sem rumo nem rota,
Guerreira nas horas vagas,
Padeira de Aljubarrota.

Brites de Almeida,
Seja História ou seja lenda,
Revelou-se na contenda
Modelo de liberdade.

Fazia pão,
Broa de milho e bolos;
Não sabia marcar golos,
Não foi para o Panteão.

Letra: Carlos Guerreiro
Música: Carlos Guerreiro e Sebastião Antunes
Arranjo: Carlos Guerreiro
Intérprete: Gaiteiros de Lisboa
Versão original: Gaiteiros de Lisboa (in CD “Bestiário”, Uguru, 2019)

Brites de Almeida, padeira de Aljubarrota
Brites de Almeida, padeira de Aljubarrota

Cheguei a meio da vida já cansada

[ Caravelas ]

Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi!
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!

Se eu sempre fui assim este Mar morto:
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram!

Caravelas doiradas a bailar…
Ai quem me dera as que eu deitei ao Mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!…

Poema: Florbela Espanca (in Livro de Soror Saudade, 1923)
Música: Tiago Machado
Intérprete: Mariza (in CD “Fado Curvo”, Virgin/EMI-VC, 2003)

Cidade de El Jadida

[ Mazagão ]

Cidade de El Jadida,
antiga Mazagão,
foste cidade perdida
sem nunca perder o chão.

És cidade sem tempo,
és o povo que te fez
de um caminhar muito lento
feito de muita altivez.

Mazagão foste, El Jadida és,
cisterna de belo encanto.
Procurei-te de lés-a-lés,
águas calmas do meu pranto.

Não há ninguém como tu

Letra e música: José Barros
Arranjo: José Barros
Intérprete: José Barros e Navegante
Versão original: José Barros e Navegante (in CD “À’Baladiça”, Tradisom, 2018)

Mazagão/Jadida, Marrocos
Mazagão/Jadida, Marrocos

Do longe se faz mais perto

[ Vou Falar Contigo ]

Do longe se faz mais perto
Se perto eu quero estar;
P’ra te ver vou ao deserto,
Volto a tempo do jantar.

Faço como a cotovia
Que canta e vai e vem;
Fico a inventar-te o dia:
Pensas de mim mal ou bem?

No verde do teu perfume,
Nos aromas da lareira,
Vou a salto e não regresso:
Dou um pulo à ribeira.

Vou falar contigo
Do mundo azul,
Nas ondas do mar;
Num cantar de amigo
Invento histórias
P’ra te contar.

Ouvi as canções do mundo
E algumas que fiz p’ra ti:
Mandei-tas pela saudade
De te ver ao pé de mim.

A ouvir o passar do vento
Que traz notas e luas,
Vamos ao saber do tempo
Cantar as notícias tuas.

Vou falar contigo
Do mundo azul,
Nas ondas do mar;
Num cantar de amigo
Invento histórias
P’ra te contar.

Galiza, quem te inventou?
Foram cravos, foram rosas…
Ou o poeta com prosas,
Ou o Zeca já cantou.

Um campo verde passei,
Há muito que te não via…
E acho que te encontrei
Nos versos de Rosalía.

Vou falar contigo
Do mundo azul,
Nas ondas do mar;
Num cantar de amigo
Invento histórias
P’ra te contar.

Vou falar contigo
Num cantar de amigo.

Letra e música: José Barros
Arranjo: José Barros e José Manuel David
Intérprete: Navegante com João Afonso & Amélia Muge (in CD “Meu Bem, Meu Mal”, Tradisom, 2008)

Ea, Judios

Ea, judios,
A enfardelar,
Que mandam los reys
Que passeis la mar!

[Meirinho:]

— Manda El-Rei, nosso Senhor:
[Judeu:]
— Bueno!
[Meirinho:]
— Que se lhe dê:
[Judeu:]
— Mejor!
[Meirinho:]
— Duzentos…
[Judeu:]
— Mil gracias.
[Meirinho:]
— Açoites!
[Judeu:]
— Vá El-Rei a la mierda!

Ea, judios,
A enfardelar,
Que mandam los reys
Que passeis la mar!

— Vá El-Rei a la mierda!

Ea, judios,
A enfardelar,
Que mandam los reys
Que passeis la mar!

Ea, judios,
A enfardelar,
Que mandam los reys
Que passeis la mar!

Letra e música: Popular
Informante: Judith da Silveira Pinto
Recolha: César da Neves e Gualdino de Campos (“A Expulsão dos Judeus”, in “Cancioneiro de Músicas Populares”, Vol. III, Porto: Empresa Editora César, Campos & C.ª, 1898 – p. 49)
Arranjo coral: Brigada Victor Jara, com a colaboração do maestro Virgílio Caseiro
Intérprete: Brigada Victor Jara (in LP “Contraluz”, CBS, 1984, reed. Sony Música, 1994; Livro/11CD “Ó Brigada!: Discografia Completa da Brigada Victor Jara – 40 Anos”: CD “Contraluz”, Tradisom, 2015)

Desfeitos um por um

[ Ilha de Moçambique ]

Desfeitos um por um os nós sombrios,
Anulada a distancia entre o desejo
E o sonho coincidente como um beijo,
Exalei mapas que exalaram rios.

Terra secreta, continentes frios,
Ardei à luz dum sol que é rumorejo
Para lá do que eu sou, do que eu invejo
Aos elementos, aos altos navios!

Trouxe de longe o palácio sepulto,
A cobra semimorta, a bandarilha,
E esqueci poços, prossegui oculto.

Desdém que envolve por completo a quilha,
Sou bem o rei saudoso do seu vulto,
Vulto que existe infante numa ilha.

Alberto de Lacerda (1928-2007)

Em Alcácer eram verdes

[ Alcácer Que Vier ]

Em Alcácer eram verdes as aves do pensamento
Eram tão leves tão leves como as lanternas do vento
Em Alcácer eram verdes os cavalos encarnados
Eram tão fortes tão negros como os punhos decepados

Em Alcácer eram verdes as armas que eu inventei
Eram tão leves tão leves tão leves que nem eu sei
Em Alcácer eram verdes os homens que não voltaram
Eram tão verdes tão verdes como os campos que deixaram

Em Alcácer eram verdes as maçãs feitas de lume
Eram tão frias tão frias como as dobras do ciúme
Em Alcácer eram verdes estas palavras que agora
são tão caladas tão cernes tão feitas desta demora

Em Alcácer eram verdes as flores da sepultura
Eram tão verdes tão verdes tão verdes como a loucura
Em Alcácer era verde meu amor o teu olhar
Era tão verde tão verde quase à beira de cegar

Em Alcácer eram verdes os lençóis onde morri
Eram tão frios tão verdes como os campos que eu não vi
Em Alcácer eram verdes as feridas do meu país
Eram tão fundas tão verdes como este mal de raiz

Em Alcácer era verde meu amor o teu olhar
Era tão verde tão verde quase à beira de cegar

Em Alcácer eram verdes os lençóis onde morri
Eram tão frios tão verdes como os campos que eu não vi
Em Alcácer eram verdes as feridas do meu país
Eram tão fundas tão verdes como este mal de raiz

Europa

[ Europa, Querida Europa ]

Europa nascida na Ásia profunda
Ó filha do Rei Fenício Agenor.
Que Zeus entranhado no corpo de um touro
levou-te p’ra Creta, cativo de amor.
Europa é de Homero,
de helénicas formas,
do fórum romano e da cruz.
De tantas nações, ariana e semita,
ventre das descobertas da luz.
Do diverso sistema, do modo diferente,
da era da guerra e agora da paz…
És assim, querida Europa.

Vem que eu te quero toda do mar à montanha,
vem que eu quero muito mais bela que o mar.
Vem vencendo cizânias que os povos sem feudos,
sempre se amaram brilhantes em todo o lugar.
O teu chão não é traste de meros mercados
de pauta aduaneira ou cifrão.
É um terrunho de almas,
uma ideia, um desejo,
de uma nova maneira em fusão.
Desfazendo complexos de mapas cor-de-rosa,
sem a má consciência no verso e na prosa…
Só por ti, querida Europa.

Para que sejas tu mesma a decidir o teu uso
Para que sejas tu mesma ainda mais natural
Não me toques o “beat” à americana,
que esse já nós conhecemos na versão original.
Aguenta-te firme, livre de imitações
espera só mais um pouco, já vai.
O que resta e o que sobra
aquela mesma saudade
toda a imaginação, ainda mais.
Não sentes um vago, um suave cheiro a sardinhas
a algazarra nas ruas e o troar dos tambores…
Somos nós, querida Europa.

Letra e música: Fausto Bordalo Dias
Intérprete: Fausto Bordalo Dias (in “Para Além das Cordilheiras”, CBS, 1987; “Atrás dos Tempos Vêm Tempos”, Sony, 1996)

Foi no sulco da viagem

[ Canto dos Torna-Viagem ]

Foi no sulco da viagem
Já sem armas nem bagagem
Nem os brazões da equipagem
Foi ao voltar

Pátria moratória
No coração da História
Que consumiste a glória
Num jantar

Foi como se Portugal
P’ra seu bem e p’ra seu mal
Andasse em busca dum final
P’ra começar

Ávida violência
Reverso de inocência
Sal da inconsciência
Que há no mar

Império tão pequenino
De portulano caprino
Bolsos de sina e de sino
Em cada mão

Pátria imaginária
De consistência vária
Afirmação diária
Do teu não

As malas dos portugueses
São como os olhos das rezes
Que se mastigam três vezes
Em cada chão

Cândida ignorância
Grande desimportância
Os frutos da errância
Já lá vão

Ai Senhora dos Navegantes me valei
De África, do sal e do mar só eu sobrei
Foi p’ra me encontrar que amanhã já me perdi
Longe vai o tempo em que eu já não estou aqui

Ai Senhora dos Talvez-Muitos-Mais-Sinais
Socorrei estes desperdícios coloniais
Foi na noite fria que o dia me cegou
Inda agora fui, inda agora cá não estou

Ai Senhora dos Esquecidos me lembrai
O caminho que p’ra lá vem e p’ra cá vai
Etecetra e tal, Portugal é nós no mar
Inda agora vim e estou longe de chegar

Ai Senhora dos Meus Iguais que eu subtraí
Foi pataca a mim e não foi pataca a ti
Se é tão grande a alma na palma do meu ser
Algum dia eu vou finalmente acontecer

Porque não tentar outro ponto de vista
A história dos outros, quem a contará
Se qualquer colónia sem colonialista
São os que já estavam lá

Tentemos então ver a coisa ao contrário
Do ponto de vista de quem não chegou
Pois se eu fosse um preto chamado Zé Mário
Eu não era quem eu sou

Os navegadores chegaram cá a casa
E foi tudo novo p’ra eles e p’ra mim
A cruz e a espada e os olhos em brasa
Porque me trataste assim?

Não é culpa nossa se quem p’ra cá veio
Não se incomodou ao saber do horror
A História não olha a quem fica no meio
E o que foi é de quem for

Letra e música: José Mário Branco
Intérprete: José Mário Branco e Fausto Bordalo Dias (in CD “Resistir é Vencer”, EMI, 2004)

Partistes à tardinha

[ Natália Rosa ]

Partistes à tardinha
«Adeus, ó ilha da Culatra!»
Num dia de Outono
Uma aventura
De sonho e paixão

Seguiste viagem
Meteste proa rumo a sul
Chegaste a Agadir
Depois a Dakar
Até ao Brasil

Heróica a Travessia
Ó Gente da terra
Da vila de Olhão

Foram dias e noites
Rotas por mares a navegar
Seguiste as estrelas
Ventos, vendavais
Alísios tropicais

Tormenta maior
Ao largo do mar de Marrocos
Dias sem comer
Dois homens, uma mulher
Sem nada a temer

A remo e à vela
Fizeste a mais bela
História de amor

“Natália Rosa”
Andas bem, lanchinha
Foste a mais linda
A mais formosa
Barca de amor

“Natália Rosa”
A remo e à vela
Foste a mais bela
A mais formosa
História de amor

“Natália Rosa”
Andas bem, lanchinha
Foste a mais linda
A mais formosa
Barca de amor

“Natália Rosa”
A remo e à vela
Foste a mais bela
A mais formosa
História de amor

Letra: José Francisco Vieira
Música: Ana Figueiras e José Francisco Vieira
Intérprete: Flor de Sal (in CD “Flor de Sal”, José Francisco Vieira & Ana Figueiras/Alain Vachier Music Editions, 2016)

Perguntei ao vento

[ Queda do Império ]

Perguntei ao vento
Onde foi encontrar
Mago sopro encanto
Nau da vela em cruz

Foi nas ondas do mar
De mundo inteiro
Terras da perdição
Parco império, mil almas
Por pau de canela e Mazagão

Pata de negreiro
Tira e foge à morte
Que a sorte é de quem
A terra amou
E no peito guardou
Cheiro da mata eterna
Laranja, Luanda sempre em flor

Pata de negreiro
Tira e foge à morte
Que a sorte é de quem
A terra amou
E no peito guardou
Cheiro da mata eterna
Laranja, Luanda sempre em flor

Perguntei ao vento
Onde foi encontrar
Mago sopro encanto
Nau da vela em cruz

Foi nas ondas do mar
De mundo inteiro
Terras da perdição
Parco império, mil almas
Por pau de canela e Mazagão

Pata de negreiro
Tira e foge à morte
Que a sorte é de quem
A terra amou
E no peito guardou
Cheiro da mata eterna
Laranja, Luanda sempre em flor

Letra e música: Vitorino Salomé
Intérprete: Vitorino (in “Flor de la Mar”, EMI-VC, 1983; reed. EMI-VC, 1992; CD “As Mais Bonitas”, EMI-VC, 1993; CD “Tudo”, EMI-VC, 2006)
Outra versão de Vitorino (in “Sul”, EMI-VC, 1985; reed. EMI-VC, 1994)

Pergunto ao tempo que passa

[ Trova do Vento Que Passa ]

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça,
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça:
há sempre alguém que semeia
canções ao vento que passa.

Mesmo na noite mais triste,
em tempo de servidão,
há sempre alguém que resiste,
há sempre alguém que diz não.

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça,
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça:
há sempre alguém que semeia
canções ao vento que passa.

Mesmo na noite mais triste,
em tempo de servidão,
há sempre alguém que resiste,
há sempre alguém que diz não.

Poema: Manuel Alegre (excerto)
Música: António Portugal
Intérprete: Senhor Vadio* (in CD “Cartas de um Marinheiro”, José Flávio Martins/iPlay, 2013)
Versão original: Adriano Correia de Oliveira (in EP “Trova do Vento Que Passa”, Orfeu, 1963; LP “Memória de Adriano”, Orfeu, 1983, reed. Movieplay, 1992; 7CD “Obra Completa”: CD “Trova do Vento Que Passa: Adriano canta Manuel Alegre I”, Movieplay, 1994, Movieplay/Público, 2007; CD “Vinte Anos de Canções”, Movieplay, 2001)

TROVA DO VENTO QUE PASSA

(Manuel Alegre, in “Praça da Canção”, Coimbra: cancioneiro Vértice, 1965 – p. 90-92)

Ao António Portugal

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que eu morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
porque vai de olhos no chão.
Silêncio – é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo

Por este rio acima

Por este rio acima
Deixando para trás
A côncava funda
Da casa do fumo
Cheguei perto do sonho
Flutuando nas águas
Dos rios dos céus
Escorre o gengibre e o mel
Sedas, porcelanas
Pimenta e canela
Recebendo ofertas
De músicas suaves
Em nossas orelhas
Leve como o ar
A terra a navegar
Meu bem como eu vou
Por este rio acima

Por este rio acima
Os barcos vão pintados
De muitas pinturas
Descrevem varandas
E os cabelos de Inês
Desenham memórias
Ao longo da água
Bosques enfeitiçados
Soutos, laranjeiras
Campinas de trigos
Amores repartidos
Afagam as dores
Quando são sentidos
Monstros adormecidos
Na esfera do fogo
Como nasce a paz
Por este rio acima

Meu sonho
Quanto eu te quero
Eu nem sei
Eu nem sei
Fica um bocadinho mais
Que eu também
Que eu também
Meu bem

Por este rio acima
Isto que é de uns
Também é de outros
Não é mais nem menos
Nascidos foram todos
Do suor da fêmea
Do calor do macho
Aquilo que uns tratam
Não hão-de tratar
Outros de outra coisa
Pois o que vende o fresco
Não vende o salgado
Nem também o seco
Na terra em harmonia
Perfeita e suave
Das margens do rio
Por este rio acima

Meu sonho
Quanto eu te quero
Eu nem sei
Eu nem sei
Fica um bocadinho mais
Que eu também
Que eu também
Meu bem

Por este rio acima
Deixando para trás
A côncava funda
Da casa do fumo
Cheguei perto do sonho
Flutuando nas águas
Dos rios dos céus
Escorre o gengibre e o mel
Sedas, porcelanas
Pimenta e canela
Recebendo ofertas
De músicas suaves
Em nossas orelhas
Leve como o ar
A terra a navegar
Meu bem como eu vou
Por este rio acima
Por este rio acima

Letra e música: Fausto Bordalo Dias
Intérprete: Fausto Bordalo Dias (in “Por Este Rio Acima”, Sassetti, 1982; CBS, 1984; “Grande, Grande é a Viagem (ao vivo)”, Sony, 1999)

Tristemente embarcados

[ Peregrinações ]

«Peregrinos, somos nós, que andamos sempre a navegar com sérios riscos de irmos ao fundo! » A.Q.

I
Tristemente embarcados
com rumo sem rota
velejando no ar
com grande medo levados
em formosa frota
de casco a abanar
rebentam as ondas gigantes
coisas alucinantes
quebra-mar, quebra-mar
uma prece na garganta
Nossa Senhora Santa
almiranta
a vomitar, a vomitar
procurando novos mercados
em nome de Deus
vai el-rei engordar
como por nossos pecados
desatinados às cegas
no escuro do mar
salta um mostrengo barbudo
c’o peito peludo
a arrotar, a arrotar
nós senhores do barlavento
ao leme gemendo
tremendo
ai! quem soubera nadar

E com a pressa que podíamos
nos fizemos de volta
esquecendo mercês
se à vista daquilo que víamos
nos tremiam as carnes
nos dava a gaguez
ao serviço de Deus Nosso Senhor
regressa assim teu esposo
neste vento bonançoso
meu lindo e ditoso amor
confiado nesta promessa
enganado nesta esperança

neste vento bonançoso
meu lindo e ditoso amor
confiado nesta promessa
enganado nesta esperança

II
Mas o avarento agiota
depressa nos manda
de novo embarcar
banqueteados com muitos açoites
ao longo da costa
quem se há-de salvar
tragam pimenta
a fazenda
a prata sangrenta
a rezar, a rezar
metam o turco a tormento
fede a Mafamede
que fale
onde fica o bazar
e assim fomos de atropelo
sobre gente que não tinha
em boa conta
o nosso apogeu
nos merecia a latina cólera
por zelo
da honra de Deus
vivos lançados ao mar
com um grande penedo
ao pescoço
a afundar
ouvem-se as gritas
apupos
dos turcos malucos
eunucos
a atacar, a atacar

E foram tantas as pedras
os zargunchos, as lanças
e as chuças
de arremesso sobre nós
que fugíamos assaz
com a pressa que podíamos
depois de tanto pelejar
ao serviço de El-Rei
Nosso Senhor
regressa assim teu esposo
neste vento bonançoso
meu lindo e ditoso amor
confiado nesta promessa
enganado nesta esperança

neste vento bonançoso
meu lindo e ditoso amor
confiado nesta promessa
enganado nesta esperança

III
Foi-se o tempo passando
da nau ao paquete
lá vai Portugal
leva gente do arado
peões e joguetes
em calção colonial
negro trabalha canalha
que a tua mortalha
é este ultramar
colhe matumbo o café
que a gente tem fé
chimpanzé
de lucrar e lucrar
fomos misturando guitarras
ao som do batuque
bebendo maruvo
e num sentimento bizarro
casando com a negra
depois de viúvo
estoira uma força gigante
vermelha negra vibrante
a lutar, a queimar
liberta um povo oprimido
e perde o diamante
purgante
quem nos andou a mandar
e desmanchámos as casas
tornámos de volta
pobres numa muleta
balbuciando estranhas palavras
aka! que maka!!
acabou-se a teta
ao serviço de grandes senhores
regressa de vez teu esposo
neste vento bonançoso
meu lindo e ditoso amor
confiado nesta promessa
enganado nesta esperança

neste vento bonançoso
meu lindo e ditoso amor
confiado nesta promessa
enganado nesta esperança

Letra e música: Fausto Bordalo Dias (inspirado na obra “Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto)
Intérprete: Fausto Bordalo Dias (in “Histórias de Viageiros”, Orfeu, 1979; reed. Movieplay, 1991, 1999; filme “Acto dos Feitos da Guiné”, de Fernando Matos Silva, 1980)

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/09/caravela-vera-cruz_historia.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-07 06:17:182025-06-09 17:45:01Canções com História
Teresa Tarouca
Cancioneiro

Canções sobre instrumentos

Canções sobre instrumentos

Letras

A sono solto dormia

[ Águias Perdidas ]

A sono solto dormia há muito a cidade
e eu procurava como louca rua em rua
a tua sombra entre essas ruas da saudade
onde uma noite sobre nós raiara a lua

Na minha grande amargura de águia perdida
que começou com a tua ausência eu queria ser
ao encontrar-te a perfumada flor da vida
ou ser de novo uma alegria por viver

Mas fui tão pouco ao teu olhar desencantado
e o nosso abraço uma tristeza tão profunda
que entre o silêncio o amor com lágrimas quebrado
abandonou-se nas estranhas mãos da lua

Ergueu-se ao longe a sinfonia das guitarras
perdida a voz, quebrado o amor nada entendemos
beijei-te a fronte e assim sem mágoa nem palavras
serenamente unidos, meu amor, morremos

Letra: Manuel Lima Brummon
Música: Bernardo Lino Teixeira (Fado Ginguinha)
Intérprete: Tereza Tarouca (in LP “Portugal Triste”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD “Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006)

Teresa Tarouca
Teresa Tarouca

Campaniça do despique

Campaniça do despique,
Na venda e bailes de roda:
Dedilhando o improviso
Ou trauteando uma moda.

Na rua do velho monte,
Com as moças a bailar
Os passos simples duma dança
E a viola a dedilhar.

Nas feiras e romarias,
Na serra e no alambique,
Na venda e bailes de roda:
Campaniça do despique.

O tocador da viola
É feio mas toca bem;
Se não casar por a prenda,
Formosura não a tem!

Campaniça do despique,
Na venda e bailes de roda:
Dedilhando o improviso,
Ou trauteando uma moda.

Na rua do velho monte,
Com as moças a bailar
Os passos simples duma dança
E a viola a dedilhar.

Nas feiras e romarias,
Na serra e no alambique,
Na venda e bailes de roda:
Campaniça do despique.

Letra e música: Pedro Mestre
Intérprete: Pedro Mestre (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015)
Outra versão de Pedro Mestre (in DVD “No CCB: Pedro Mestre & Convidados”, Pedro Mestre, 2017)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Roncos do Diabo

Com três paus faz-se um bordão,
Com mais um faz-se um ponteiro:
O Demo anima a função
Encarnado num gaiteiro.

O Diabo já é velho
Mas é grande folião:
Na festa mete o bedelho
P’ra animar a bailação.

P’ra aquecer o bailarico
Abre a torneira ao tonel;
O cura dá-lhe um fanico,
Lá se vai o hidromel.

Essa bebida dos anjos
Que agrada tanto ao Demónio
Já tentou S. Cipriano,
S. João e Santo António.

Santo António milagreiro
Fez um pacto com o Demónio:
O Diabo era gaiteiro
E o santo tocava harmónio.

S. João tocava caixa
Com dois paus de marmeleiro;
Mas o delírio das moças
Era a gaita do gaiteiro.

Guinchava como um leitão
Quando se lhe puxa o rabo;
Pela copa do bordão
Jorravam roncos do Diabo.

Era a gaita do Demónio
Que soava endiabrada,
Afinava com o harmónio
Mas não estava homologada.

Estava fora das medidas,
Saía da convenção,
Tinha veias no ponteiro
E dois papos no bordão.

Criação de Belzebu,
Diabólica magia:
Nas voltas da contradança
Quem dançava enlouquecia.

E nas voltas da loucura,
As almas em desatino
Saltavam de corpo em corpo
Errando do seu destino.

O gaiteiro as reunia
Como se junta um rebanho:
Fê-las descer ao Inferno,
No fogo tomaram banho.

E já os corpos em brasa
Iam fazendo das suas,
As vestes esfarrapadas
Mostravam as carnes nuas.

Indulgencia absolutionem
et remitionem peccatorum
tribut ad nobis Dominum.

Com três paus faz-se um bordão,
Com mais um faz-se um ponteiro:
O Demo anima a função
Encarnado num gaiteiro.

As fêmeas eram lascivas:
Ondulantes de paixão,
Corroídas p’lo desejo
Contorciam-se no chão.

No terreiro da função
Os corpos se confundiam:
Seguidores de Belzebu
Das almas santas se serviam.

Foram pela noite fora
Perdidos no bacanal,
Ao som desta banda louca
Até ao Juízo Final.

Indulgencia absolutionem
et remitionem peccatorum
tribut ad nobis Dominum.

Letra e música: Carlos Guerreiro
Arranjo: Carlos Guerreiro
Intérprete: Gaiteiros de Lisboa
Versão original: Gaiteiros de Lisboa (in CD “A História”, Uguru, 2017; CD “Bestiário”, Uguru, 2019)

Gaiteiros de Lisboa, Roncos do Diabo
Gaiteiros de Lisboa, Roncos do Diabo

Ó sino da minha aldeia

Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Letra: Fernando Pessoa (ligeiramente adaptado)
Música: Uxía Senlle e Sérgio Tannus
Arranjo: Quiné Teles
Intérprete: Ela Vaz, com Rui Oliveira (in CD “Eu”, Micaela Vaz, 2017)

O tambor a tocar

[ O Primeiro Canto (dedicado a José Afonso) ]

O tambor a tocar sem parar,
um lugar onde a gente se entrega,
o suor do teu corpo a lavar a terra.
O tambor a tocar sem parar,
o batuque que o ar reverbera,
o suor do teu rosto a lavrar a terra.

Logo de manhãzinha, subindo a ladeira já,
já vai a caminho a Maria Faia…

Azinheiras de ardente paixão
soltam folhas, suaves, na calma
do teu fogo brilhando a escrever na alma.

Estas fontes da nossa utopia
são sementes, são rostos sem véus,
o teu sonho profundo a espreitar dos céus!

Logo de manhãzinha, subindo a ladeira já,
já vai a caminho a Maria Faia,
desenhando o peito moreno, um raminho de hortelã
na frescura dos passos, a eterna paz do Poeta.

Uma pena ilumina o viver
de outras penas de esperança perdida,
o teu rosto sereno a cantar a vida.

Mil promessas de amor verdadeiro
vão bordando o teu manto guerreiro,
hoje e sempre serás o primeiro canto!

Ai, o meu amor era um pastor, o meu amor,
ai, ninguém lhe conheceu a dor.
Ai, o meu amor era um pastor Lusitano,
ai, que mais ninguém lhe faça dano.
Ai, o meu amor era um pastor verdadeiro,
ai, o meu amor foi o primeiro.

Estas fontes da nossa utopia
são sementes, são rostos sem véus,
o teu sonho profundo a espreitar dos céus!

Mil promessas de amor verdadeiro
vão bordando o teu manto guerreiro,
hoje e sempre serás o primeiro canto!

Letra: João Mendonça, Dulce Pontes e António Pinheiro da Silva
Música: Dulce Pontes e Leonardo Amuedo
Intérprete: Dulce Pontes (in CD “O Primeiro Canto”, Polydor B.V. The Netherlands/Universal, 1999)

Quando uma guitarra trina

[ Guitarra ]

Quando uma guitarra trina
Nas mãos de um bom tocador
A própria guitarra ensina
A cantar seja quem for

Eu quero que o meu caixão
Tenha uma forma bizarra
A forma de um coração
A forma de uma guitarra

Guitarra, guitarra querida
Eu venho chorar contigo
Sinto mais suave a vida
Quando tu choras comigo

Letra dos poetas do fado (Popular)
Música: Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão
Intérprete: Madredeus (in CD “Ainda”, EMI-VC, 1995)

As Tuas Mãos, Guitarrista

São tuas mãos, guitarrista,
Que as cordas fazem vibrar,
Que me fizeram fadista
E não deixam que resista
Ao desejo de cantar.

A guitarra quere-te tanto,
Tem por ti tal afeição
Que te deu consentimento
P’ra desvendares o tormento
Que guardo no coração.

Em teu peito tem guarida,
Em tuas mãos seu penar;
Se tu não lhe desses vida
Ficava p’ra ali esquecida
E não voltava a trinar.

 

E se a tens abandonado
Não seria mais fadista;
Mesmo que fosse cantado,
Morria com ela o fado
Sem tuas mãos, guitarrista.

Letra: Maria Manuel Cid
Música: Joaquim Campos (Fado Tango)
Intérprete: Tereza Tarouca (in EP “Passeio à Mouraria”, RCA Victor, 1964; 2LP “Álbum de Recordações”: LP 2, Polydor/PolyGram, 1985; CD “Temas de Ouro da Música Portuguesa”, Polydor/PolyGram, 1992)

Teresa Tarouca
fadista Teresa Tarouca
https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/03/teresa-tarouca-fadista.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-07 06:12:552024-11-02 06:31:47Canções sobre instrumentos
Amores Perdidos
Amor

Canções do amor terminado

Canções do amor terminado

Letras

Fui de viagem

[ Volta ao mundo ]

Fui de viagem para me esquecer de ti
Porque de mim já me esquecera e nem vi
Mas não havia rua, praça nem jardim
Que não trouxesse a tua imagem, ai de mim!

Cheguei a ver-te noutro mundo, outro lugar
Aonde não havia nada pra esperar
Nos mares longe onde não tinha mais ninguém
Dentro de mim ouvia a tua voz também

Em todo o lado, meu amor
Toda a viagem, meu amor
Trago no peito a tua imagem junto a mim

Vivo em saudade meu amor
E tudo diz ao meu redor
Que a nossa história não é feita deste fim

Mas no regresso volto à vida e tu não estás… para mim.

Letra: Cátia Oliveira
Música: Catarina Rocha
Intérprete: Catarina Rocha

Não queiras

[ Fado Passado ]

Não queiras
Versos lindos de cantar
Nem rosas
Como dias por abrir
O nosso amor passou, amor
O nosso amor não basta
Não basta…

Não digas
Quantas horas foram poucas
Que noites
Duas sombras a alongar
Agora é só sonhar, amor
O nosso amor não canta
Não canta…

Dou voltas
Numa rua que foi nossa
À espera
De uma casa onde morar
A gente vai vivendo, amor
E o nosso amor não passa
Não passa…

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

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https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/11/amores-perdidos.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-07 06:04:302024-11-02 06:32:42Canções do amor terminado
Folhas caídas do Outono
Natureza

Canções de Outono

A luz revela as cores da manhã

[ O Outono e a Cidade ]

A luz revela as cores da manhã
e o rio espelha a sombra da cidade.
O Outono vai roubando, pouco a pouco,
a claridade.
Desprendem-se as folhas
bailando no ar, ao sabor da brisa.
Um cheiro a castanhas perfuma a praça,
o voo das pombas seduz quem passa.
Ao longe há um cromatismo, de cores
que vai vestindo de amarelo os plátanos.
Junto à margem dissipa-se a neblina,
é mais um dia frio de Novembro.
Há no Outono suaves melodias,
há uma voz aconchegando os dias,
há palavras… rasgando as madrugadas.

Letra e música: Fernando Dias Marques
Arranjo: Fernando Marques, Steve Fernandes e Jorge Correia
Intérprete: Fernando Marques Ensemble (in CD “(des)Encontros”, Fernando Marques Ensemble, 2016)

Reciclanda

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Águas passadas do rio

[ Balada do Outono ]

Águas passadas do rio
Meu sono vazio
Não vão acordar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Águas do rio correndo
Poentes morrendo
P’rás bandas do mar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Letra e música: José Afonso
Intérprete: José Afonso (in “Fados de Coimbra e Outras Canções”, Orfeu, 1981, reed. Movieplay, 1987)
Versão original: José Afonso (in EP “Balada do Outono”, Rapsódia, 1960; CD “Os Vampiros”, Edisco, 1987)
Versão instrumental: Rui Pato – viola (in “Baladas e Canções”, de José Afonso, Ofir, 1967; reed. EMI-VC, 1997)

As folhas dançam desvairadas no ar

[ Valsa do Outono em Novembro ]

As folhas dançam desvairadas no ar
Bailado ao vento, canção de embalar
Valsinha triste num coreto vazio
Regresso à infância e começo
A ter frio, a ter frio…

Ainda me lembro do baloiço do jardim
Da chuva no Outono que caía só p’ra mim
Que céus de Novembro?
Que lugares obscuros corrompem
A esperança nos dias futuros?

Bem sei que ando no meio do temporal
À espera da paz prometida do Natal!
Bem sei que ando no meio do temporal
À espera da paz prometida do Natal!

Memórias dispersas, vertigens, fragmentos
Estilhaços da vida nos meus pensamentos
Que céus de Novembro?
Que lugares obscuros corrompem
A esperança nos dias futuros?

Bem sei que ando no meio do temporal
À espera da paz prometida do Natal!

Que céus de Novembro?
Que lugares obscuros corrompem
A esperança nos dias futuros?

Bem sei que ando no meio do temporal
À espera da paz prometida do Natal!

Da paz prometida do Natal!
Da paz prometida do Natal!
Da paz prometida do Natal!
Da paz prometida do Natal!
Da paz prometida do Natal!
Da paz prometida do Natal!
Da paz prometida do Natal!
Da paz prometida do Natal!

Letra e música: Paulo Ribeiro
Intérprete: Paulo Ribeiro (in CD “No Silêncio das Casas”, Heaven Sound, 2012)

Chegou bem devagarinho

[ A Chegada de Maria ]

Chegou bem devagarinho
Pé-ante-pé de mansinho
Mas de vez.
Entre beijos e afagos
Nem dei conta dos estragos
Que ela fez.
Do beco fez avenida
Deu um cheiro à minha vida
De jasmim.
Foi o melro na janela
Já não sei viver sem ela
E dou por mim,
Cantando assim:

Agora que a luz do Outono
Já chegou
E um par de olhos por um outro
Se encantou
Corre, meu coração, corre
À desfilada
Que eu não creio que tu corras
Para nada
Que eu não creio que tu corras
Para nada

Sem agravo nem apelo
Assaltou o meu castelo
E o tomou.
Chegou-se p’rá minha beira
Com olhos de feiticeira
Me encantou.
Seus lábios, minha alegria
Sua pele tão macia
De cetim.
Não há coisa mais amada
E numa doce toada
Eu dou por mim,
Cantando assim:

Agora que a luz do Outono
Já chegou
E um par de olhos por um outro
Se encantou
Corre, meu coração, corre
À desfilada
Que eu sei bem que tu não corres
Para nada
Que eu sei bem que tu não corres
Para nada

Sem agravo nem apelo
Assaltou o meu castelo
E o tomou.
Chegou-se p’rá minha beira
Com olhos de feiticeira
Me encantou.
Seus lábios, minha alegria
Sua pele tão macia
De cetim.
Não há coisa mais amada
E numa doce toada
Eu dou por mim,
Cantando assim:

Agora que a luz do Outono
Já chegou
E um par de olhos por um outro
Se encantou
Corre, meu coração, corre
À desfilada
Que eu sei bem que tu não corres
Para nada
Que eu sei bem que tu não corres
Para nada

Agora que a luz do Outono
Já chegou
E um par de olhos por um outro
Se encantou
Corre, meu coração, corre
À desfilada
Que eu sei bem que tu não corres
Para nada
Que eu sei bem que tu não corres
Para nada

Letra e música: Aníbal Raposo (Dezembro de 2001)
Intérprete: Aníbal Raposo
Versão original: Aníbal Raposo (in CD “A Palavra e o Canto”, Açor/Emiliano Toste, 2005)

Foi numa tarde de Outono

[ Tarde de Outono ]

Foi numa tarde de Outono,
Soprava o vento do sul
Nessa praia ao abandono
Numa imensidão de azul.

Nuvens negras como breu
Cobriram o céu,
Escureceram o mar;
Vento forte, solidão,
Ondas turbilhão,
Nasce o temporal.

Barcos que cedem ao vento,
Gritos dispersos, lamentos;
Foi sinfonia
Que o vento inventou,
Na praia vazia
Nem um ser ficou.

Quando te vi, eu pensei
Que era uma visão
Perdida do Além;
Era, porém, uma estrela
Rasgando horizontes,
Criando outro céu.

Barcos que cedem ao vento,
Gritos dispersos, lamentos;
Foi sinfonia
Que o vento inventou,
Na praia vazia
Nem um ser ficou.

Letra e música: Paco Bandeira (Francisco Veredas Bandeiras)
Arranjo: Jorge Machado
Intérprete: Maria da Glória (in single “Tarde de Outono”, Decca/VC, 1972; reed. digital: Edições Valentim de Carvalho, 2021)

Poema ao Vento

[ Balada de Outono ]

Poema ao vento
Com as crinas delirantes!
Outono lento
Com os sonhos bem distantes!
Meu Sol sangrando
em agonia,
Meu corpo amando
Um farrapo de poesia.

Folhas de Outubro
Sobre Setembro:
– Mãos que descubro
Sem saber do que me lembro…
Meu barco atado
Ao cais da vida;
Lenço bordado
Que aceno em despedida.

Tudo sereno
Neste mar em maresia:
Um cheiro a feno
Vai na onda da poesia
Nas mãos da tarde
– Em concha pura
Um corpo arde
De espanto e de ternura.

Eis o Outono
Correndo à chuva!
Com ar de sono
E seu pranto de viúva…
Tudo cinzento.
Mágoa levada
No movimento
Desta garça abandonada.

Longo tormento
Que Novembro acarreta:
Poema dentro
Da barriga do poeta.
Minha placenta,
Sem ter idade,
Que não rebenta
Este grito de saudade.

Que parto ameno
De mim deriva?
– Meu filho pleno,
Meu amor em carne viva;
Meu sangue e carne,
Criado e dono;
Folha da tarde
Que caiu no meu Outono.

Poema: Álamo de Oliveira
Música: Aníbal Raposo
Intérprete: Aníbal Raposo* (in CD “A Palavra e o Canto”, Açor/Emiliano Toste, 2006)

Vento que traz nostalgia

[ Outono na Cidade ]

Vento que traz nostalgia
D’um amor perdido
Nas ruas da vida,
Sombras e melancolia,
Um adeus sentido
De mulher esquecida.
Nas folhas da esperança
Caídas sem dono,
Há passos de criança:
É Outono!

Outono na cidade
Tem gosto de saudade:
É terna despedida que não esquece,
É doce melodia
Que vem no fim do dia
Que o Sol – bom e doirado – ainda aquece.

Cai a folha – folha nua –,
Chuva d’oiro molhando a rua:
Outono na cidade,
Que fria claridade!
Sorriso que desce da Lua!

Gente que corre apressada
Na manhã brumosa,
Sonolenta e fria;
Vida que sonha acordada
A canção formosa,
Luz do meio-dia.
No azul infindo
O povo bem sente
O teu adeus, tão lindo,
Sol poente!

Cai a folha – folha nua –,
Chuva d’oiro molhando a rua:
Outono na cidade,
Que fria claridade!
Sorriso que desce da Lua!

Letra: Ferro Rodrigues e Fernando Santos
Música: Carlos Dias
Intérprete: Max (in EP “Tingo Lingo Lingo”, Decca/VC, 1962; CD “O Melhor de Max: Vol. 2”, EMI-VC, 1993; CD “Max: Essencial”, Edições Valentim de Carvalho/CNM, 2014)

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/09/outono.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-07 06:00:472024-11-13 04:32:00Canções de Outono
Primavera
Estações

Canções de Primavera

Canções sobre a Primavera

Letras

Ai, cerejeira

[ Cerejeira das cerejas pretas miúdas ]

Ai, cerejeira
das cerejas
pretas miúdas

esqueçamos
tudo
e tudo:

As intrincadas
veredas
de Verão

e as cabras
do poeta
Eugénio.

Ai, cerejeira
das cerejas
pretas miúdas

esqueçamos
tudo
e tudo:

O sonho
de livros
amorosamente
penteados
e despenteados

o sonho
de versos
escritos
em piões

as cadeiras
de vidro
no meio do mar

Ai, cerejeira
das cerejas
pretas miúdas

sem paciência
o Mundo
não dura

e o castelo
de Noudar
lá está:

sem terra
casa ou
leite.

Ai, cerejeira,
o amor
é uma luta?

Poema: Carlos Mota de Oliveira
Música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé (in CD “Tão Pouco e Tanto”, Capella/AudioPro, 2003)

Encontrei a Primavera

Encontrei a Primavera
Ali em baixo no jardim
Ai como vai ai como vai a Primavera
Vai assim assim assim.

Refrão

Perguntei à Primavera
Quando é que vinha o Verão
Ai a 25 de Março
A Primavera está na mão.

Refrão

Encontrei a Primavera
Ali em baixo no lombinho
Ai sentado numa cadeira
Falar com um rapazinho.

Tradicional da Madeira

Maio, maduro Maio

Maio, maduro Maio, quem te pintou?
Quem te quebrou o encanto nunca te amou.
Raiava o sol já no Sul.
E uma falua vinha lá de Istambul.

Sempre depois da sesta chamando as flores.
Era o dia da festa, Maio de amores.
Era o dia de cantar.
E uma falua andava ao longe a varar.

Maio com meu amigo quem dera já.
Sempre no mês do trigo se cantará.
Qu’importa a fúria do mar.
Que a voz não te esmoreça, vamos lutar.

Numa rua comprida El-Rei pastor.
Vende o soro da vida que mata a dor.
Anda ver, Maio nasceu.
Que a voz não te esmoreça, a turba rompeu.

Letra e música: José Afonso
Intérprete: Madredeus (in CD “Ainda”, EMI-VC, 1995)
Versão original: José Afonso (in “Cantigas do Maio”, Orfeu, 1971; reed. Movieplay, 1987, 1996)
Outras versões: Naná Sousa Dias (in “Ousadias”, Polygram, 1986); José Mário Branco, Amélia Muge e João Afonso (in CD “Maio, Maduro Maio”, Columbia/Sony, 1995); Couple Coffee (in CD “Co’as Tamanquinhas do Zeca”, Transformadores, 2007); Cristina Branco (CD “Abril”, Universal, 2007)

Reciclanda

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O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

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Passo os meus dias

[ Andorinhas ]

Passo os meus dias em longas filas
Em aldeias, vilas e cidades
As andorinhas é que são rainhas
A voar as linhas da liberdade

Eu quero tirar os pés do chão
Quero voar daqui p’ra fora e ir embora de avião
E só voltar um dia
Vou pôr a mala no porão
Saborear a primavera numa espera e na estação

Um dia disse uma andorinha
Filha, o mundo gira, usa a brisa a teu favor
A vida diz mentiras
Mas o sol avisa antes de se pôr

Eu quero tirar os pés do chão
Quero voar daqui p’ra fora e ir embora de avião
E só voltar um dia
Vou pôr a mala no porão
Saborear a primavera numa espera e na estação

Já a minha mãe dizia
Solta as asas, volta as costas
Sê forte, avança p’ra o mar
Sobe encostas, faz apostas
Na sorte e não no azar

Intérprete: Ana Moura

Plantei um cravo à janela

Plantei um cravo à janela
Para dar ao meu amor;
Inventei a Primavera
Ao redor daquela flor.

Dei-lhe um pouco de ternura
E muito duma saudade;
À janela da loucura
Inventei a felicidade.

Fiquei à espera da bruma
Nas praias do coração;
À janela da loucura
Inventei uma paixão.

Plantei um cravo à janela,
Descobri a Primavera,
Para dar ao meu amor
Que já estava à minha espera.

Letra: Hélder Moutinho
Música: José Fontes Rocha (Fado Joana)
Intérprete: Joana Amendoeira (in CD “Amor Mais Perfeito: Tributo a José Fontes Rocha”, CNM, 2012)
Versão original: Joana Amendoeira (in CD “À Flor da Pele”, HM Música, 2006)
Outra versão de Joana Amendoeira (in CD/DVD “Joana Amendoeira & Mar Ensemble: Ao Vivo no Castelo de São Jorge”, HM Música, 2008)

Hélder Moutinho

Hélder Moutinho, créditos Jorge Gonçalves

Primavera

Intérprete: Celina da Piedade

Primavera passada

[ Canção amoroso-pastoril ]

Ai lé lé lai lé lá,
Ai lé lé lai ló:
Foi a primeira cantiga
Que me ensinou minha avó.

A Primavera passada
Foi o meu divertimento:
Tomei amores mui cedo,
Logrei-os mui pouco tempo.

Primavera, Primavera,
Tempo de tomar amores;
Não há tempo mais alegre
Que Maio com suas flores.

Primavera, Primavera,
Primavera dos boieiros;
Coitadinhos dos pastores
Que dormem pelos chiqueiros.

Ai lé lé lai lé lá,
Ai lé lé lai ló:
Foi a primeira cantiga
Que me ensinou minha avó.

Ai lé lé lai lé lá,
Ai lé lé lai ló:
Foi a primeira cantiga
Que me ensinou minha avó.

Letra e música: Popular (Paradela, Miranda do Douro, Trás-os-Montes e Alto Douro)
Recolha: Fernando Lopes Graça (in livro “A Canção Popular Portuguesa”, Publicações Europa-América, 1953; 3.ª edição, col. Saber, Publicações Europa-América, s/d. – p. 75)
Intérprete: Cantos d’Aurora (in CD “Sabores”, Cantos d’Aurora, 1996)

Rompe a aurora

[ Primavera Alentejana ]

Rompe a aurora, nasce o dia
Iluminando o montado;
Como um hino à alegria
Houve-se balir o gado.

Roxo, verde e amarelo –
Olho à volta – é o que vejo;
Não há nada assim tão belo,
Ó meu querido Alentejo!

Lindos campos verdejantes
Matizados de papoilas,
Já não são como eram antes
Mondados pelas moçoilas.

Já não são como eram antes
Mondados pelas moçoilas,
Lindos campos verdejantes
Matizados de papoilas.

Perfumados de poejo
Os campos de solidão:
É assim o Alentejo
Que trago no coração.

O melro canta no silvado,
O grilo num buraquinho;
E eu por ti apaixonada,
Alentejo, meu cantinho!

Lindos campos verdejantes
Matizados de papoilas,
Já não são como eram antes
Mondados pelas moçoilas.

Já não são como eram antes
Mondados pelas moçoilas,
Lindos campos verdejantes
Matizados de papoilas.

Poema: Hermínia Gaidão Costa (em memória de Margarida Gaidão)
Música: Hermínia Gaidão Costa e Roda Pé
Arranjo: Roda Pé e Celina da Piedade
Intérprete: Roda Pé (in CD “Escarpados Caminhos”, Public-Art, 2004)

Santo Aleixo és tão nobre

[ É Lindo na Primavera ]

[1.ª cantiga:]
Santo Aleixo és tão nobre,
Tão sincero, hospitaleiro…
És terra de gente pobre,
És terra de gente pobre,
Mas a virtude é dinheiro!

[Moda:]
É lindo na Primavera
A gente viver no campo:
Olhar e ver as flores,
Bonitas de várias cores,
Tão lindas é um encanto!

Ouvir as aves cantar,
Ver a vida à nossa espera,
Ver os ribeiros mandar
Água clara p’ra o mar:
É tão linda a Primavera!

[2.ª cantiga:]
Quem quer bem dorme na rua
À porta do seu amor:
Faz das pedras cabeceira,
Faz das pedras cabeceira,
Das estrelas cobertor.

[Moda:]
É lindo na Primavera
A gente viver no campo:
Olhar e ver as flores,
Bonitas de várias cores,
Tão lindas é um encanto!

Ouvir as aves cantar,
Ver a vida à nossa espera,
Ver os ribeiros mandar
Água clara p’ra o mar:
É tão linda a Primavera!

Letra: Bento Figueira
Música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral da Casa do Povo de Santo Aleixo da Restauração (in 2CD “O ‘Cante’ Alentejano”: CD 1, Public-Art, 1998)

Se deixaste de ser minha

[ Por morrer uma andorinha ]

Se deixaste de ser minha
Não deixei de ser quem era
Por morrer uma andorinha
Não acaba a Primavera
Por morrer uma andorinha
Não acaba a Primavera

Como vês não estou mudado
E nem sequer descontente
Conservo o mesmo presente
E guardo o mesmo passado
Conservo o mesmo presente
E guardo o mesmo passado

Eu já estava habituado
A que não fosses sincera
Por isso eu não fico à espera
De uma ilusão que não tinha
Se deixaste de ser minha
Não deixei de ser quem era
Se deixaste de ser minha
Não deixei de ser quem era

Vivo a vida como dantes
Não tenho menos nem mais
E os dias passam iguais
Aos dias que vão distantes
E os dias passam iguais
Aos dias que vão distantes

Horas, minutos, instantes
Seguem a ordem austera
Ninguém se agarra à quimera
Do que o destino encaminha
Pois por morrer uma andorinha
Não acaba a Primavera
Por morrer uma andorinha
Não acaba a Primavera

Letra: Frederico de Brito
Música: Francisco Viana
Intérprete: Carlos do Carmo (in “Por Morrer Uma Andorinha”, Philips/Polygram, s/d; “A Arte e a Música de Carlos do Carmo”, Philips/Polygram, 1982; CD/DVD “Carlos do Carmo ao vivo: Coliseu dos Recreios de Lisboa”, Universal, 2004)

Se o fim é um começo

[ Primavera ]

Se o fim é um começo
Voltamos sempre a lutar:
Já lá vem outro Abril,
É tempo de semear!

Da espera faz-se a luz
Da primavera a nascer:
Um fruto é como um filho
Do querer!

Dois, três, e…

A tudo o que aprendemos,
Beijado ao calor do Verão,
Esquecemos neste Inverno…
Faltou-nos uma canção!

Cantar p’ra não esquecer
Que unidos não estamos sós!
Que temos liberdade
Na voz!

É Primavera quando chegas!
Sou andorinha p’ra te ver
E as flores que trazes são vermelhas:
Há sempre esperança a renascer!

É Primavera quando chegas!
Sou andorinha p’ra te ver
E as flores que trazes são vermelhas:
Há sempre esperança a renascer!

É Primavera quando chegas!
Sou andorinha p’ra te ver
E as flores que trazes são vermelhas:
Há sempre esperança a renascer!

Letra e música: Celina da Piedade e Alex Gaspar
Intérprete: Celina da Piedade (in CD “Festival da Canção 2017”, RTP Edições/Sony Music, 2017)

Todo o amor que nos prendera

[ Primavera ]

Todo o amor que nos prendera,
como se fora de cera,
se quebrava e desfazia.
Ai funesta Primavera,
quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia!

E condenaram-me a tanto:
viver comigo o meu pranto,
viver, viver… e sem ti!
Vivendo sem, no entanto,
eu me esquecer desse encanto
que nesse dia perdi…

Pão duro da solidão
é somente o que nos dão,
o que nos dão a comer…
Que importa que o coração
diga que sim ou que não,
se continua a viver?

Todo o amor que nos prendera
se quebrara e desfizera,
em pavor se convertia.
Ninguém fale em Primavera!
Quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia!

Poema: David Mourão-Ferreira
Música: Pedro Rodrigues
Intérprete: Amália Rodrigues (1965, in CD “Segredo”, EMI-VC, 1997; CD “Amália canta David”, Edições Valentim de Carvalho/iPlay, 2011)

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/11/primavera.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-07 05:56:592025-06-09 17:37:00Canções de Primavera
Mares e marés
Natureza

Canções do mar

Canções do mar

Letras

A roupa do marinheiro

A roupa do marinheiro
Não é lavada no rio:
É lavada no mar alto
À sombra do seu navio.
Não é lavada no rio.

Sereias que há no mar longe
Não queiram o meu amor,
Que eu deixei em terra firme
Um peito a chorar de dor.
Não queiram o meu amor.

Penso em ti nos sete mares,
Juntos onde o vento for;
Tu não és como a figueira
Que dá fruto sem dar flor.
Juntos onde o vento for.

Espera por mim que eu volto!
Estão os campos por lavrar
E assim fica a nossa vida
Presa a uma vela no mar.
Estão os campos por lavrar.

Letra e música: Popular (Minho)
Arranjo e orquestração: António Prata
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos com a Orquestra Sinfónica Portuguesa (in CD “Tierra Alantre”, Ocarina, 2014)
Primeira versão [?]: Grupo de Cantares de Manhouce ‎(in LP “Aboio”, EMI-VC, 1984)

Ronda dos Quatro Caminhos
Ronda dos Quatro Caminhos

Aos olhos do mar

Aos olhos do mar
vestido de bruma
se ouve o rumor
da ave a planar

Aos olhos do mar
Aos olhos do mar

Aos olhos do mar
o som da maré
a brisa e o sal
se cruzam no ar

Aos olhos do mar
Aos olhos do mar

Aos olhos do mar
a lua e a noite
afagam nas rochas
a cor do luar

Aos olhos do mar
Aos olhos do mar

Letra e música: Jorge Cravo
Intérprete: Jorge Cravo e o Grupo Presença de Coimbra (in CD “Canções d’Inquietude”, Numérica, 2005)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. 

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Bamo lá ber

Bamo lá ber!
Vamos lá ver!
Bamo lá ber!
Vamos lá ver!…

Vamos lá ver!
Bamo lá ber!
Vamos lá ver!
Bamo lá ber!…

Vinha o barco, lá pela ria;
Acostou com maré vazia.
Vinha o pargo,
Vinha a lula,
Vinha o sargo
E o peixe-lua.

Veio a gente para comprar
O que a rede trouxe do mar.
Trouxe um polvo,
Uma cavala
Mais uma bóia
E uma sandália.

Veio o povo para comprar;
Viu o peixe a saltitar.
Salta o choco
E a faneca
Mais a sarda
Para a água.

Vai o homem nos arraiais,
Que a venda não se faz mais.
Foi-se o peixe,
Foi-se o pão…
Mas que sorte!
Maldição!

Volta p’ró mar, ó pescador!
Sai no barco, com teu labor!
Já não há mais,
Acabou.
Lá se foi,
Que ele esgotou.

Vem para terra, com tua barca!
Vende covos, com tua marca!
Faz um sorriso
P’ra o turista
Que o tempo da faina
acabou!

Letra e música: Carlos Norton
Intérprete: OrBlua (in Livro/CD “Retratos Cinéticos”, Fungo Azul/Ocarina, 2015)

Brota a água

Brota a água da pedra bruta:
Sua luta, labuta,
De tudo dessedentar;
Ganha altura, desmesura,
De tanto querer ser mar.

Corre campos, cria formas
Que nem ousara sonhar;
Dança ritmos, canta trovas
Antes de chegar ao mar.

A ciência que o mar tem
Não tem nada de pasmar:
Não há regato nem rio
Que ao mar não vá parar.

Brota a água da pedra bruta:
Sua luta, labuta,
De tudo dessedentar;
Ganha altura, desmesura,
De tanto querer ser mar.

Corre campos, cria formas
Que nem ousara sonhar;
Dança ritmos, canta trovas
Antes de chegar ao mar.

Brota a água da pedra bruta:
Sua luta, labuta,
De tudo dessedentar;
Ganha altura, desmesura,
De tanto querer ser mar.

Corre campos, cria formas
Que nem ousara sonhar;
Dança ritmos, canta trovas
Antes de chegar ao mar.

Letra e música: Pedro Mestre
Intérprete: Pedro Mestre com Janita Salomé (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015)
Outra versão de Pedro Mestre, com Janita Salomé (in DVD “No CCB: Pedro Mestre & Convidados”, Pedro Mestre, 2017)

Dentro de um búzio

[ Dessa Ilha ]

dentro de um búzio
cabe todo o mar
dentro desse mar
cabem milhares de búzios
muitos desses búzios
servem p’ra jogar
passam na cabeça
cabem num colar
nessa ilha
posso lhe escutar
o som
que faço soar

dentro da cabeça
uma multidão
onde o mar começa
onde acaba o chão
fora de um corpo
cabe todo o ar
respirar um pouco
já é tanto
dessa ilha
posso partilhar só
o som
que canto

Letra: Arnaldo Antunes
Música: Danças Ocultas
Intérprete: Danças Ocultas com Dora Morelenbaum (in CD “Dentro Desse Mar”, Danças Ocultas/Sony Music, 2018)

Em ti a navegar

[ Barca Catraia ]

Em ti a navegar
Na barca, pescador,
Ardentia no mar,
Ancorado amor.

À proa levado
Teu nome escrevi,
Riso afogado
No sal que escorri.

Vento abraçado
Que me leva a voz;
Reverso cantado
O que me traz à foz.

Seja vela alva
A que vai e que vem
E a barca salva
Das tormentas que tem.

Vestida de redes
Por mim adornada,
Desejos e sedes
Na vaga salgada.

Entranhas doridas
E golpes nos dedos;
Amantes queridas,
Rasgados segredos.

Espero, catraia,
Navegando em ti:
Da barca não caia
Nem nos ais que ouvi!

Seja vela alva
A que vai e que vem
E a barca salva
Das tormentas que tem.

Letra e música: Lindolfo Paiva
Intérprete: Dialecto*
Versão original: Dialecto (in CD “Aromas”, Dialecto/Cloudnoise, 2011)

Embarcados

[ Marcha Ingénua ]

Embarcados p’rás tormentas
Com fartura d’incertezas:
Adeus, cais da felicidade!
Lá vão barcas portuguesas…

Oh! Enganadoras luas,
Trópico de Capricórnio,
Madrastas de bode preto,
Enteadas do demónio!

Oh! Império de má memória,
Dos cães de fila da moda!

Voa, vai, negra andorinha!
Pede à minha namorada
Dê notícias de Lisboa,
Das praças livres, dos cravos,
Das saudades que lhe tenho
De vê-la subir a rua…
A cantar a tal cantiga:
Primavera não esquecida!

Voa, vai, negra andorinha!
Pede à minha namorada
Dê notícias de Lisboa,
Das praças livres, dos cravos,
Das saudades que lhe tenho
De vê-la subir a rua…
A cantar a tal cantiga:
Primavera não esquecida!

Das saudades que lhe tenho
De vê-la subir a rua…
A cantar a tal cantiga:
Primavera não esquecida!

Letra e música: Vitorino Salomé
Intérprete: Vitorino (in LP “Flor de la Mar”, EMI-VC, 1983, reed. EMI-VC, 1992, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008; CD “As Mais Bonitas”, EMI-VC, 1993, EMI Music Portugal, 2012; 3CD “Tudo”: CD 2 – “Lisboa”, EMI Music Portugal, 2005)

Eu nasci nalgum lugar

[ O Mar Fala de Ti ]

Intérprete: Mafalda Arnauth

Foi a maré que te trouxe

[ Quando o Mar nos Leva o Fado ]

Foi a maré que te trouxe,
foi o mar que te levou:
o nosso amor afogou-se,
nenhum de nós se salvou.

Só ficou a maresia:
tudo o resto foi levado,
como fica a poesia
quando o mar nos leva o fado.

Nesses instantes de medo,
a Mouraria discreta
guarda a guitarra em segredo
na viela mais secreta.

E nem mesmo a maresia
tem licença p’ra entrar
no bairro da Mouraria
quando alguém está a cantar.

Noutros bairros ribeirinhos,
onde há cheiro de marés,
chegam barcos pobrezinhos:
trazem fados no convés.

O nosso amor afogou-se
de tanto eu o ter chorado:
não sei dizer quem o trouxe,
mas quem o leva é o Fado.

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Alfredo Duarte “Marceneiro” (Fado Bailarico)
Intérprete: Cristina Nóbrega
Versão original: Cristina Nóbrega (in CD “Um Fado para Fred Astaire”, Watch & Listen, 2014)

Cristina Nóbrega
Cristina Nóbrega

Foram-se as cores

[ Canto Trágico dos Corvos de São Vicente ]

Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro…

Madrugada de outono passou rente ao promontório;
Beijou o vento o mar que abraçava o rochedo:
Dia de nascer uma tragédia,
Maldição há muito amaldiçoada;
O casco esventrado solta o monstro
No manto da besta do negrume.

Soprou amargo e revolto, trazido na maré;
Vestia negro e dançava, como seda sobre a água:
Esmaga e volta a atormentar o mar
Nos teus braços da asfixia!
Salta, corvo, da tua barca
Alertar quem te desconhecia!

Já não esvoaçam aromas, só do fumo do negreiro;
Foge o riso do sorriso, fica a alma abandonada:
Fecha portas e portadas!
Lá fora, morte sem canção;
Lenta, espalha a tua calma,
Tenebrosa desolação!

Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro…

Vai lá ver quem se matou, ou se algum ainda sobrou,
Que o negro tudo cobre nessa lenta agonia!
Tempo de partir, abandonar;
Lamentar a grande tentação;
Longa, a negra noite veio
Tudo adormecer.

Letra e música: Carlos Norton
Intérprete: OrBlua (in Livro/CD “Retratos Cinéticos”, Fungo Azul/Ocarina, 2015)

Fui bailar

[ Canção do mar ]

Composição: Frederico de Brito / Ferrer Trindade
Intérprete: Dulce Pontes

Gaivotas em terra

Gaivotas em terra, de asas fechadas;
marujos sem rumo, num banco dum bar;
barcaças dormentes, no cais ancoradas;
meninas morenas que pensam casar…

Preciso é que voem, que batam as asas;
preciso é que deixem as altas janelas;
preciso é que saiam as portas das casas;
preciso é que soltem amarras e velas…

As asas são duas, se acaso uma ave
quiser cortar céu, lançar-se no ar…
A barca só voga, se a brisa suave
quiser, ternamente, casá-la com o mar…

Marujos sozinhos, pensando outro mundo;
meninas em casa, fiando desejo…
Preciso é que cruzem seu olhar profundo;
preciso é que colem as bocas num beijo!

Mãos de marinheiro não temem procelas,
se houver outras mãos, p’ra além vendaval,
rezando por ele e tecendo outras velas
mais brancas, mais belas, do seu enxoval!

Letra: Mascarenhas Barreto
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos (1968) (in CD “O Melhor de António dos Santos”, EMI-VC, 1992)

Mar, espuma

[ Canção do Marinheiro ]

Mar, espuma, céus e nuvens,
Sargaço, peixes, gaivotas…
Eis aqui os agiotas
Que cercam o nosso balcão!
Já vês, portanto – fragata:
Por falta de compradores,
Nem mesmo nossos amores
Nos saem do coração.

Ai menina!… Tu não sabes
Quanto é bom ser marinheiro!
E ficar com um ar trigueiro
Por aventuras no mar!

Mas isso foi até quando
Virei no bordo de terra,
E te avistei e disse – ferra!
Mas era tarde, bati…
Ao choque da pedra dura
Saltou-me do leme a cana;
Perdi logo a tramontana,
O casco só não perdi…

Ai menina!… Tu não sabes
Quanto é bom ser marinheiro!
E ficar com um ar trigueiro
Por aventuras no mar!

Tem pena de mim, sereia!
Já que não posso em teu porto
Achar o mesmo conforto
Que outrora no mar achei…
A nado põe o meu barco,
Que eu logo e logo outro rumo
Só de guindola e sem prumo,
Te juro, demandarei!

Ai menina!… Tu não sabes
Quanto é bom ser marinheiro!
E ficar com um ar trigueiro
Por aventuras no mar!
[bis]

Por aventuras no mar!
Por aventuras no mar!

Letra: Caetano Filgueiras
Música: José Barros
Arranjo: José Manuel David
Intérprete: Navegante (in CD “Meu Bem, Meu Mal”, Tradisom, 2008)

Mar

Mar!
Tinhas um nome que ninguém temia:
Era um campo macio de lavrar
Ou qualquer sugestão que apetecia…

Mar!
Tinhas um choro de quem sofre tanto
Que não pode calar-se, nem gritar,
Nem aumentar nem sufocar o pranto…

Mar!
Fomos então a ti cheios de amor!
E o fingido lameiro, a soluçar,
Afogava o arado e o lavrador!

Mar!
Enganosa sereia rouca e triste!
Foste tu quem nos veio namorar,
E foste tu depois que nos traíste!

Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de nos tentar
O teu encantamento!

Poema: Miguel Torga (in “Poemas Ibéricos – História Trágico-Marítima”, 1965; “Poesia Completa”, 2000)
Música: ?
Intérprete: João Braga (in CD “Fado Fado”, BMG Portugal, 1997)

Meu amor foi marinheiro

[ Novo Mar ]

Meu amor foi marinheiro
Navegou de lés a lés
Enfrentou o mar inteiro
Ventos e marés

Mas um dia desistiu
De embarcar no mar de tanta perdição
E o seu navio
Só cruza agora o meu coração

Meu amor audaz e forte
Resistiu aos temporais
E nunca perdeu o norte
Chegou sempre ao cais

Meu amor correu o mundo
Até esteve em muitas terras de ninguém
Foi vagabundo
Mas já não vive nesse vai e vem

Mil e uma histórias
Que ele tem pra me contar,
E eu dou-lhe memórias
Do futuro, eu sou seu novo mar…

Meu amor foi marinheiro,
Navegou de sol a sol
Enfrentou o mar inteiro
Sem qualquer farol

Ele em cada noite escura
Inventava tantos raios de luar
E agora jura
Sou seu rumo e o seu novo mar

Mantém-se a miragem
E o prazer de navegar
Mas nesta viagem
Eu sou seu rumo….
Eu sou seu novo mar

Letra: Fernando Gomes
Música: Valter Rolo
Intérprete: Catarina Rocha

Meu nome é nome de Mar

[ Nome de Mar ]

Intérprete: Maria Ana Bobone

O fado nasceu um dia

[ Mar Português ]

Intérprete: Sara Correia

O mar a salgar-nos a vida

[ Quem Anda ao Mar ]

O mar a salgar-nos a vida
E a vida sem sal
O vento a empurrar-nos a alma
Contra o temporal
Mas quando o destino
Foi tudo o que herdámos
Dos nossos avós
É tão pouca a sorte
O vento é tão forte
Que há-de ser de nós?

As mãos presas na corrente
O tempo a passar
O mar a gastar-nos os anos
E o medo a ficar
No fundo das águas
Descansam mil mágoas
Do nosso sofrer
A manhã clareia
A rede vem cheia
Que mais posso eu querer?

Quem anda ao mar
Não tem dia, não tem hora
Nunca sabe quando chega
Nem quando se vai embora

Os dias são como as ondas
É o mesmo vai-e-vem
O mar é como a saudade
Não poupa ninguém
No vazio da praia
Esvoaça uma saia
Cor negra a sofrer
Que se a calma vaga
Que a manhã me traga
A alegria de o ver

Quem anda ao mar
Não tem dia, não tem hora
Nunca sabe quando chega
Nem quando se vai embora

Dizem que o mar também chora
E é como um barco sem ter farol
Chora p’la Lua que se foi embora
Como uma louca, atrás do Sol
E às vezes as fúrias são tantas
Que não há ninguém que as possa acalmar
A não ser a alma daqueles que andam ao mar

Quem anda ao mar
Não tem dia, não tem hora
Nunca sabe quando chega
Nem quando se vai embora

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha
Versão discográfica anterior: Sebastião Antunes & Quadrilha com Tim (in CD “Perguntei ao Tempo”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2019)
Versão original: Quadrilha (in CD “Entre Luas”, Ovação, 1997)
Outra versão: Quadrilha (in CD “Deixa Que Aconteça: Ao Vivo”, Vachier & Associados/Ovação, 2006)

O mar não é de ninguém

[ Ninguém É Dono do Mar ]

O mar não é de ninguém
Ninguém é dono do mar
Nem aqueles que lá sabem navegar

Se eu um dia não voltar
Desenha o meu nome no chão
Pede um desejo às ondas do mar
E guarda-o na tua mão

Sempre que a noite vier
Quando não houver luar
Dá o desejo a uma onda qualquer
E pede-lhe p’ra eu voltar

Trago o destino das águas
No aguardar dos rochedos
Dizem que o tempo é que apaga as mágoas
Quem será que apaga os medos?

O mar não é de ninguém
Ninguém é dono do mar
Nem aqueles que lá sabem navegar

E se depois eu vier
Foi porque o mar te escutou
Deixa os sorrisos correrem p’la praia
Que o temporal acabou

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes (in CD “Singular”, Sebastião Antunes & Quadrilha/Alain Vachier Music Editions, 2017)
Versão original: Quadrilha (in CD “Quarto Crescente”, Vachier & Associados/Ovação, 1999)
Outra versão de Quadrilha (in CD “Deixa Que Aconteça: Ao Vivo”, Vachier & Associados/Ovação, 2006)

O mar a salgar-nos a vida

[ Quem anda ao mar ]

O mar a salgar-nos a vida
E a vida sem sal
O vento a empurrar-nos a alma
Contra o temporal
Mas quando o destino
Foi tudo o que herdámos
Dos nossos avós
É tão pouca a sorte
O vento é tão forte
Que há-de ser de nós?

As mãos presas na corrente
O tempo a passar
O mar a gastar-nos os ano
E o medo a ficar
No fundo das águas
Descansam mil mágoas
Do nosso sofrer
A manhã clareia
A rede vem cheia
Que mais posso eu querer?

Quem anda ao mar
Não tem dia, não tem hora
Nunca sabe quando chega
Nem quando se vai embora

Os dias são como as ondas
É o mesmo vai-e-vem
O mar é como a saudade
Não poupa ninguém
No vazio da praia
Esvoaça uma saia
Cor negra a sofrer
Que se a calma vaga
Que a manhã me traga
A alegria de o ver

Quem anda ao mar
Não tem dia, não tem hora
Nunca sabe quando chega
Nem quando se vai embora

Dizem que o mar também chora
E é como um barco sem ter farol
Chora p’la Lua que se foi embora
Como uma louca, atrás do Sol
E às vezes as fúrias são tantas
Que não há ninguém que as possa acalmar
A não ser a alma daqueles que andam ao mar

Quem anda ao mar
Não tem dia, não tem hora
Nunca sabe quando chega
Nem quando se vai embora

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha com Tim (in CD “Perguntei ao Tempo”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2019)
Versão original: Quadrilha (in CD “Entre Luas”, Ovação, 1997)
Outra versão: Quadrilha (in CD “Deixa Que Aconteça: Ao Vivo”, Vachier & Associados/Ovação, 2006)

Sebastião Antunes
Sebastião Antunes

Ó mar

[ Canção do Mar ]

Ó mar
Ó mar
Ó mar profundo
Ó mar
Negro altar
Do fim do mundo

Em ti nasceu
Ó mar
A noite que já morreu
No teu olhar

Ó mar
Ó mar
Ó mar profano
Ó mar
Verde mar
Em que me irmano

Em ti nasceu
Ó mar
A noite que já morreu
No teu olhar

Ó mar
Ó mar
Ó mar profundo
Ó mar
Negro altar
Do fim do mundo

Em ti nasceu
Ó mar
A noite que já morreu
No teu olhar

Ó mar…
Ó mar…
Ó mar…

Letra e música: José Afonso
Arranjos/adaptação: Rui Tinoco
Intérprete: Frei Fado d’El Rei (in livro/CD “Senhor Poeta: Um Tributo a José Afonso”, Bartilotti Produções/Ovação, 2007)
Criação: José Afonso (in EP “Cantares de José Afonso”, Columbia/VC, 1964; LP “Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes”, Columbia/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1992; CD “Luiz Goes/José Afonso/Carlos Paredes: Encontros em Coimbra”, Edições Valentim de Carvalho/iPlay, 2008; CD “Luiz Goes, José Afonso e Carlos Paredes: Essencial”, Edições Valentim de Carvalho/CNM, 2014)

Oh Mar revolto

[ Náufrago (Mar Revolto) ]

Oh Mar revolto,
Levas tanta gente
Que de ti traz paz e sustento!
Levas esperança, medos, vendavais
Trazes a dor distante de um cais

Oh Mar profundo
Das Almas esquecidas
De quem sofre em terra perdas e vidas!
Perder de vista o destino de um lar
Irei p’ra longe, há ir e voltar

Oh Mar sem fim
De sonhos perdidos
De mágoas, de lutas e rumos sofridos!
Noites perdidas e ventos fortes
Noites esquecidas, vidas e mortes

Letra: José Francisco Vieira
Música: José Francisco Vieira, Paulo Machado, João Vieira
Intérprete: Marenostrum (in CD “Rua do Peixe Frito”, Marenostrum/Alain Vachier Music Editions, 2019)

João Frade, Marenostrum

João Frade, Marenostrum

Os búzios soam

[ Segredos do Mar (Mistiká tis Thalassas) ]

Os búzios soam o ritmo das marés
A preia-mar dá à costa uma carta de amor
Da minha janela vejo um navio a passar
Um marinheiro lá bem longe diz adeus

A Lua guarda eternos segredos
Mais profanos da nossa paixão
O Mar liberta e solta os medos
Que se escondem no teu coração

A carta dizia amor vou partir
Oxalá um dia te volte a encontrar
No sorriso da lua vejo o teu coração
Ainda sinto o teu cheiro na brisa do mar

A Lua guarda eternos segredos
Mais profanos da nossa paixão
O Mar liberta e solta os medos
Que se escondem no teu coração

Letra e música: Samuel Lopes
Intérprete: Citânia
Versão original: Citânia com Maria Zogopoulou & Vitorino (in Livro/CD “Segredos do Mar”, Seven Muses, 2011)

Pus o meu sonho num navio

[ Naufrágio ]

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
— depois, abri o mar com as mãos,
com as mãos, para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul, do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, vai morrendo dentro do navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer, para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Poema: Cecília Meireles (excerto ligeiramente adaptado do poema “Canção”)
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues [in LP “Com Que Voz”, Columbia/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1987; 2CD “Com Que Voz” (nova edição): CD 1, Edições Valentim de Carvalho/iPlay, 2010; CD “Com Que Voz (Remastered)”, Edições Valentim de Carvalho, 2019]

Reina grande confusão

[ Os Novos Anjos (ao Zeca Afonso) ]

Reina grande confusão
No céu pelos corredores;
Os anjos querem trocar
Asas por computadores;
Chegam todos aos magotes,
Há já quem fale em reforma;
Estão cansados de voar,
Só querem agenciar.

O Senhor Arcanjo,
No meio do mar,
Fez das asas barco
Para navegar; [bis]
Fez dos braços remos,
Vai correndo mundo;
Bóia, coração,
Que o barco vai ao fundo!
O barco vai ao fundo!

Vêm uns deitá-lo abaixo,
Outros louvar-lhe o passado;
Estivesse morto ou lá perto
Teria um preço mais certo!
Canta o gaio já cansado,
O dia chegou ao fim:
Uns vão p’ra casa dormir,
Outros vão assim, assim!

O Senhor Arcanjo,
No meio do mar,
Fez das asas barco
Para navegar; [bis]
Fez dos braços remos,
Vai correndo mundo;
Bóia, coração,
Que o barco vai ao fundo!
O barco vai ao fundo!

E o Senhor Arcanjo,
No meio do mar,
Fez das asas barco
Para navegar;
Fez dos braços remos,
Vai correndo mundo;
Bóia, coração,
Que o barco vai ao fundo!
O barco vai ao fundo!

Letra e música: Amélia Muge
Intérprete: Amélia Muge (in CD “Todos os Dias”, Columbia/Sony Música, 1994)

Sou Barco

Sou barco abandonado
Na praia ao pé do mar
E os pensamentos são
Meninos a brincar.

Ei-lo que salta bravo
E a onda verde-escura
Desfaz-se em trigo
De raiva e amargura.

Ouço o fragor da vaga
Sempre a bater ao fundo,
Escrevo, leio, penso,
Passeio neste mundo
De seis passos
E o mar a bater ao fundo.

Agora é todo azul,
Com barras de cinzento,
E logo é verde, verde,
Seu brando chamamento.

Ó mar, venha a onda forte
Por cima do areal
E os barcos abandonados
Voltarão a Portugal.

Poema: António Borges Coelho (in “Roseira Verde”, Lisboa: Edição do autor, 1962)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília (in LP “Portugal-Angola: Chants de Lutte”, Le Chant du Monde, 1964)

Tão bonita és

[ Música de Mar ]

Tão bonita és, tão bonita estás,
tão bonita és, como vais?
Paro p’ra te ver para lá do olhar
e param-me as mãos a pensar.

Tão pura, tão simples, tão meiga de ouvir:
canto de embalar e dormir,
eixo ribaldeixo como a cantilena
que tu soletraste em pequena.

Tão bonita és, tão bonita estás,
tão bonita és, como vais?
Quando nos invades, quando nos tormentas,
risos, choros, silêncios inventas.

Música e amante mal te conheci,
três vidas num instante vivi;
música de mar que nas ondas vem
toca-me nos dedos também!

Tão bonita és, tão bonita estás,
tão bonita és, como vais?
Como hei-de compor, como hei-de cantar
tanto qu’inda tens p’ra me dar?

Como uma criança canta a tabuada
e junta três sons encantada,
assim te encontramos a ti, melodia,
nós que cinzentamos o dia.

Tão bonita és, tão bonita estás,
tão bonita és, como vais?
Viril, feminina, velhota ou senhora,
riso de menina e doutora.

Nua te despi, nua te deixei
e entre sol e lua cantei.
Como poderemos nós falar de ti
se andamos tão longe e tu aqui?!

Poema: Pedro Barroso
Música: Imanol (Manuel Eusebio Larzábal Goñi, 1947-2004)
Intérprete: Pedro Barroso (in LP “Pedro Barroso”, Schiu!/Transmédia, 1988)

Tem mil anos uma história

[ Sete Mares ]

Tem mil anos uma história
De viver a navegar
Há mil anos de memórias a contar
Ai, cidade à beira-mar
Azul

Se os mares são só sete
Há mais terra do que mar…
Voltarei amor com a força da maré
Ai, cidade à beira-mar
Ao sul

Hoje
Num vento do norte
Fogo de outra sorte
Sigo para o sul
Sete mares

Foram tantas as tormentas
Que tivemos de enfrentar…
Chegarei amor na volta da maré
Ai, troquei-te por um mar
Ao sul

Hoje
Num vento do norte
Fogo de outra sorte
Sigo para o sul
Sete mares

Letra: Francisco Menezes
Música: Sétima Legião
Intérprete: Sétima Legião (in “Mar d’Outubro”, EMI-VC, 1987; reed. 1988)

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/11/mar.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-07 05:53:362025-06-28 11:34:26Canções do mar
Casal
Amor

Canções de amor

Canções de amor

Letras

A azeitona já está preta

[ Chapéu preto ]

A azeitona já está preta,
Já se pode armar aos tordos,
Diz-me lá, ó cara linda: 
Como vais d’amores novos?
Já se pode armar aos tordos.

É mentira, é mentira,
É mentira, sim, senhor!
Eu nunca roubei um beijo,
Quem mo deu foi meu amor.

Quem me dera ser colete!
Quem me dera ser botão,
Para andar agarradinha 
Juntinho ao teu coração!
Quem me dera ser botão!

É mentira, é mentira,
É mentira, sim, senhor!
Eu nunca roubei um beijo,
Quem mo deu foi meu amor.

Ai, que lindo chapéu preto 
Naquela cabeça vai!
Ai, que lindo rapazinho
Para genro do meu pai!
Naquela cabeça vai!

É mentira, é mentira,
É mentira, sim, senhor!
Eu nunca roubei um beijo,
Quem mo deu foi meu amor.

É mentira, é mentira,
É mentira, é mentira,
É mentira, é mentira…

Letra e música: Arlindo de Carvalho
Intérprete: Celeste Rodrigues* [in EP “Celeste (Chapéu Preto)”, Parlophone/VC, 1959; reed. digital: Edições Valentim de Carvalho, 2019]

A lua nasceu

[ Canção de Embalar ]

A lua nasceu e cresceu no além,
A noite surgiu também.
Faz ó-ó, meu amor,
Porque eu velo por ti!
Só aos anjos a lua sorri.

Tu verás, meu amor,
Como é bom sonhos ter:
Deus te dê os melhores que houver.
Faz ó-ó, meu amor,
Porque eu velo por ti!
Só aos anjos a lua sorri.

E tens, porque eu sei e roguei ao Senhor,
Um sonho de paz e amor.
Meu amor, vai dormir!
Vai dormir e sonhar!
Deixa a lua sorrir lá no ar.

Tu verás, meu amor,
Como é bom sonhos ter:
Deus te dê os melhores que houver.
Faz ó-ó, meu amor
Porque eu velo por ti!
Só aos anjos a lua sorri.

Letra e música: Tradicional
Intérprete: Musica Nostra (in CD “Cantos da Terra”, Açor/Emiliano Toste, 2009)

Ai amor

[ Canção de Ida e Volta ]

Ai amor
O tempo vai e vem
Os meus olhos
Não são de mais ninguém

Quem partiu
Canta o que deixou
Haja alguém
Que mesmo assim cantou

Ai amor
O tempo vai e vem

Estas casas
Não mudarão de cor
São de prata
À hora do Sol-pôr

Corre o vento
Dos lados de Espanha
Ai amor
A ver se me apanha

Estas casas
Não mudarão de cor

Ai amor
O tempo vai e vem
Os meus olhos
Não são de mais ninguém

Volta a rola
Sabe o seu caminho
Volta alguém
Há luz no montinho

Ai amor
O tempo vai e vem

Letra: João Monge
Música: João Gil
Intérprete: Ala dos Namorados / voz de Nuno Guerreiro (in CD “Por Minha Dama”, EMI-VC, 1995)

Amor com amor se paga

Amor com amor se paga.
Porque não pagas, amor?
Olha que Deus não perdoa
A quem é mau pagador!

Amor, não me escrevas cartas,
Que, bem sabes, não sei ler!
Quando sentires saudades,
Perde um dia e vem-me ver!

Amor com amor se paga:
Nunca vi coisa mais justa;
Paga-me contigo mesma,
Meu amor, pouco te custa!

Ainda depois de morto,
Debaixo do frio chão,
Hás-de achar o teu nome
Escrito no meu coração.

Dá-me um beijo, eu dou-te dois!
A minha paga é dobrada:
É o jeito de quem ama,
Pagar e não dever nada.

Amor com amor se paga:
Nunca vi coisa mais justa;
Paga-me contigo mesma,
Meu amor, pouco te custa!

Amor com amor se paga.
Porque não pagas, amor?
Olha que Deus não perdoa
A quem é mau pagador!

Amor, não me escrevas cartas,
Que, bem sabes, não sei ler!
Quando sentires saudades,
Perde um dia e vem-me ver!

Amor com amor se paga:
Nunca vi coisa mais justa;
Paga-me contigo mesma,
Meu amor, pouco te custa!

Letra: Quadras populares
Música: César Prata
Arranjo: César Prata e Vânia Couto
Intérprete: César Prata e Vânia Couto
Versão original: César Prata e Vânia Couto (in CD “Rezas, Benzeduras e Outras Cantigas”, Sons Vadios, 2019)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. 

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Ao meio do quarto

[ Na Volta de um Beijo ]

Ao meio do quarto uma rosa cai no chão
Ao fundo do peito uma letra sem canção
Ao canto da sala guitarras sem bordão
Lá fora do meu peito andas tu e o meu perdão

Sentada cá dentro olho a cruz, está sem pregão
Caiu-me a jarra das mãos, caiu uma rosa de paixão
Fechaste o teu peito, levaste-me o coração
Agora andas tu lá fora, sozinho sem paixão

Chora, chora, e a mim que se me dá!
Chora, chora, e a mim que se me dá!

Eu hei-de ir à romaria pedir a Nossa Senhora
Que me traga o meu amor que anda pelo mundo fora
E assim vê-lo na volta, na volta de um beijo
Eu hei-de vê-lo na volta, na volta de um beijo

Eu hei-de vê-lo na volta, na volta de um beijo
Eu hei-de vê-lo na volta, na volta de um beijo

Eu hei-de vê-lo na volta, na volta de um beijo

Letra: Tradicional e Tiago Curado de Almeida
Música: Tiago Curado de Almeida (com motivo melódico de “Boys Don’t Cry”, da autoria de Robert Smith)
Intérprete: Pensão Flor (in CD “O Caso da Pensão Flor”, Pensão Flor/Brandit Music, 2013)

Ao princípio

[ Nasce Afrodite, amor, nasce o teu corpo ]

Ao princípio, é nada. Um sopro apenas,
Um arrepio de escamas, um perpassar de sombra
Como de nuvem marinha que se esgarça
Nos radiais tentáculos da medusa.
Não se dirá que o mar se comoveu
E que a onda vai formar-se deste frémito.
No embalo da água oscilam peixes
E das algas as hastes serpentinas
À corrente se dobram, como ao vento
As searas da terra e as crinas dos cavalos.
Entre dois infinitos de azul a onda vem,
Toda de sol vestida e rebrilhante,
Líquido corpo de reflexos cegos.
E da terra, o vento corre para ela,
Tal o macho cioso para a fêmea aberta,
Transportando consigo o pólen das flores.
Fecundada, a onda rola agora, trovejando,
Na corrida para o parto que a espera
No leito de negras rochas que, na costa,
Se adorna de mil vidas fervilhantes.
Mais alto ainda as águas se suspendem
No segundo final da gestação imensa.
E quando, num furor de vida que começa,
A onda se despedaça no rochedo,
O envolve, o cinge, o aperta e dilacera,
Da branca espuma, do sol e do vento que soprou,
Dos peixes, das flores e do seu pólen,
Das algas trémulas, do trigo e dos braços da medusa,
E das crinas dos cavalos, do mar, da vida toda,
Nasce Afrodite, amor, nasce o teu corpo.

Chamava-se Nini

[ Nini dos Meus Quinze Anos ]

Letra: Fernando Assis Pacheco
Música: Paulo de Carvalho
Intérprete: Paulo de Carvalho (in LP “Volume I”, 1978; CD “Vida”, Farol, 2006)

Chamava-se Nini
Vestia de organdi
E dançava (dançava)
Dançava só pra mim
Uma dança sem fim
E eu olhava (olhava)

E desde então se lembro o seu olhar
É só pra recordar
Que lá no baile não havia outro igual
E eu ia para o bar
Beber e suspirar
Pensar que tanto amor ainda acabava mal

Batia o coração mais forte que a canção
E eu dançava (dançava)
Sentia uma aflição
Dizer que sim, que não
E eu dançava (dançava)

E desde então se lembro o seu olhar
É só pra recordar
Os quinze anos e o meu primeiro amor
Foi tempo de crescer
Foi tempo de aprender
Toda a ternura que tem o primeiro amor
Foi tempo de crescer
Foi tempo de aprender
Que a vida passa
Mas um homem se recorda, é sempre assim
Nini dançava só pra mim

E desde então se lembro o seu olhar
É só pra recordar
Os quinze anos e o meu primeiro amor
Foi tempo de crescer
Foi tempo de aprender
Toda a ternura que tem o primeiro amor
Foi tempo de crescer
Foi tempo de aprender
Que a vida passa
Mas um homem se recorda, é sempre assim
Nini dançava só pra mim

Chamei-te linda

Chamei-te linda, engraçada
Da graça que Deus te deu
E tu deste uma risada
Quem a não tinha era eu

Que mais eu posso fazer
Fazer eu posso, ai de mim
P’ra um dia te ouvir dizer
Ouvir-te dizer que sim

Deixa-me ao menos a esperança
A derradeira a morrer
“Quem espera sempre alcança”
Foi sempre o que ouvi dizer

És a flor que mais desejo
Das flores do meu roseiral
Quanto, rosa, te não vejo
A vida corre-me mal

Sei que tu és o meu par
Sei que nasceste p’ra mim
Não se devem afastar
Flores do mesmo jardim

Rosa branca, tua cor,
No dia em me quiseres
Farei de ti, meu amor,
A mais feliz das mulheres

És a flor que mais desejo
Das flores do meu roseiral
Quanto, rosa, te não vejo
A vida corre-me mal

Sei que tu és o meu par
Sei que nasceste p’ra mim
Não se devem afastar
Flores do mesmo jardim

Rosa branca, tua cor,
No dia em me quiseres
Farei de ti, meu amor,
A mais feliz das mulheres

Letra e música: Aníbal Raposo (2011-02-13)
Intérprete: Aníbal Raposo (in CD “Rocha da Relva”, Aníbal Raposo/Global Point Music, 2013)

Coração, meu coração

[ Coração Que me Pertence ]

Coração, meu coração
Que sonhavas esta vida,
Por que razão tu paraste?
Não digas que adivinhaste
Na hora da despedida
Desta sublime afeição?

Quantas horas, tantas horas
Esvoaçaste de mansinho
No carinho do meu jeito!
Já nem sabes onde moras,
Descuidado passarinho,
Se no teu se no meu peito.

Fechei meus olhos perdidos,
Não fosse com o desgosto
Rogarem-te alguma praga…
Que os teus hão-de ver, sentidos,
No braseiro do sol-posto
O sangue da minha mágoa.

E no fogo da ambição,
Que ao amor julga que vence,
Queimaste a minha raiz…
Como pode ser feliz
Coração que me pertence
No calor duma outra mão?

Como pode ser feliz
Coração que me pertence
No calor duma outra mão?

Letra e música: Armando Estrela
Intérprete: Tereza Tarouca (in single “O Mangas / Coração Que me Pertence”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1979; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994)

Dei-te um desenho meu

[ Eu gosto de ti ]

Dei-te um desenho meu
Feito com as cores do céu
Pra guardares junto a ti
Sempre que eu for embora

Dei-te um desenho meu (dei-te em desenho meu)
Que não caiu do céu
Com os teus lápis de cor
Juntei o teu amor ao meu

Recordações de belas canções
Contigo, baixinho
Recordações de nós

Sei que o tempo passa, voa
Que eu sinto falta
Mas o caminho é voltar
Sempre
Pra te poder abraçar

Sempre
O meu caminho é voltar pra dizer
Eu gosto de ti
Sim, eu
Eu gosto de
Eu gosto de ti

Dei-te um desenho meu (dei-te em desenho meu)
Feito com as cores do céu
Pra guardares junto a ti sempre que eu for
Embora

Recordações daqueles verões
Contigo, contigo
Recordações de nós

Sei que o tempo passa, voa
Que eu sinto falta
Mas o caminho é voltar
Sempre
Pra poder te abraçar
Sempre

O meu caminho é voltar pra dizer
Eu gosto de ti
Sim, sim eu
Eu gosto de ti
Eu gosto de ti
Sim gosto
Sim, eu
Eu gosto de ti
Eu gosto de ti
Sim, eu
Eu gosto
Eu gosto de ti

Música: Marisa Liz, Tiago Pais Dias
Intérprete: Elas (Áurea, Marisa Liz)

Descobri-te na minha boca

[ Quebranto ]

Descobri-te na minha boca
Na minha pele fria deixada na cama vazia
Encontrei o teu sabor nos meus lábios
Nos lençóis caídos no chão
Na manhã de uma primeira noite
Do teu corpo inundado em mim
Só não estás tu e o meu coração

Saí de casa à vossa procura
Sem eira nem beira
Como vagabunda, sem faro, sem dono
Parei na tua rua onde te encontrei
Pela primeira vez
Entre um copo de vinho e um fado vadio
Só não estás tu e o meu coração

Onde estás, coração?
Esse homem ladrão
Que me fez um quebranto
Canto, suor, engano cigano, um encanto
Coração!
Onde estás, coração?
A vida tropeça nas mãos
Deita-se contigo e foge na madrugada

Perdida, relembro-te à mesa
Entre a neblina do fumo e um sorriso mudo
Como quem pede por mim
Sentei-me, falaste com a guitarra
Primeira vez que te vi
Primeira vez que me dei
Sem pudor nem amor
Até que percebi:
Só não estás tu e o meu coração

E agora só me resta a noite
Sou um corpo dos outros
Sem alma, sem fé nem desdém
Despida de amor
Teu corpo uma canção que não pára
Meu corpo a tua guitarra
Meu fado é um filho perdido
Sozinho nas ruas sem mim
Já não sou eu, perdi o meu coração

Onde estás, coração?
Esse homem ladrão
Que me fez um quebranto
Canto, suor, engano cigano, um encanto
Coração!
Onde estás, coração?
A vida tropeça nas mãos
Deita-se contigo e foge na madrugada

Letra e música: Vânia Couto
Intérprete: Pensão Flor (in CD “O Caso da Pensão Flor”, Pensão Flor/Brandit Music, 2013)

É a tua vida que eu quero bordar

[ A Linha e o Linho ]

É a tua vida que eu quero bordar na minha
Como se eu fosse o pano e tu fosses a linha
E a agulha do real nas mãos da fantasia
Fosse bordando ponto a ponto o nosso dia-a-dia
E fosse aparecendo aos poucos o nosso amor
Os nossos sentimentos loucos, o nosso amor
O zig-zag do tormento, as cores da alegria
A curva generosa da compreensão
Formando a pétala da rosa, da paixão
A tua vida o meu caminho, o nosso amor
Tu és a linha e eu o linho, o nosso amor
A nossa colcha de cama, a nossa toalha de mesa
Reproduzidos no bordado
A casa, a estrada, a correnteza
O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza

A tua vida o meu caminho, o nosso amor
Tu és a linha e eu o linho, o nosso amor
A nossa colcha de cama, a nossa toalha de mesa
Reproduzidos no bordado
A casa, a estrada, a correnteza
O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza

Letra e música: Gilberto Gil
Intérprete: Celina da Piedade
Primeira versão de Celina da Piedade (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)
Versão original: Gilberto Gil (in LP “Extra”, Warner Bros. Records, 1983, reed. WEA Discos, 1995)

Ela tem a boca torta

[ Os embeiçados ]

Ela tem
boca torta
nariz grande
cabelo mal cortado
rói as unhas
usa cunhas
mas eu estou apaixonado

Ele tem
espinhas sardas
pontos negros
e uma boca exagerada
desafina
e desatina
mas eu estou apaixonada

Ela é
ciumenta
rabugenta
embirrenta e tagarela
intriguista
e moralista
mas eu estou louco por ela

Ele faz
cenas gagas
altas fitas
não tem confiança em mim
faz-se caro
faz-me trombas
mas eu gosto dele assim

Diz-se que o amor é cego
deforma tudo a seu jeito
mas eu acho que o amor
descobre o lado melhor
do que parece defeito

Porque eu gosto
gosto dele
e ela gosta
gosta de gostar de mim

Letra: Regina Guimarães
Música: Hélder Gonçalves
Intérprete: Clã

Em tenra laranjeira

[ Fado Laranjeira ]

Em tenra laranjeira, ainda pequenina,
Onde poisava o melro ao declinar do dia,
Depois de te beijar a boca purpurina,
Um nome ali gravei: o teu nome, Maria.

Em volta um coração também com arte e jeito,
Ao circundar teu nome a minha mão gravou:
Esculpi-lhe uma data e o trabalho feito,
Como selo de amor, no tronco lá ficou.

Mas no rugoso tronco eu vejo com saudade
O símbolo do amor que em tempos nos uniu:
Cadeia de ilusões da nossa mocidade
Que o tempo enferrujou e que depois partiu.

E à linda laranjeira, altar pagão do amor,
Que tem a cor da esperança, a cor das esmeraldas,
Vão as noivas colher as simbólicas flores
Para tecer num sonho as virginais grinaldas.

Letra: Júlio César Valente
Música: Alfredo Duarte “Marceneiro” (Fado Alexandrino da Laranjeira)
Arranjo: Filipe Raposo e Marta Pereira da Costa
Intérprete: Marta Pereira da Costa com Camané (in CD “Marta Pereira da Costa”, Marta Pereira da Costa/Parlophone/Warner Music, 2016)
Versão original: Alfredo Marceneiro (in LP “Há Festa na Mouraria”, Columbia/VC, 1965, reed. Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; CD “O Melhor de Alfredo Marceneiro: Vol. 2”, EMI-VC, 1993; CD “Alfredo Marceneiro: Biografias do Fado”, EMI-VC, 1997; CD “Alfredo Marceneiro: Perfil”, Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2010)

Esta noite ao acordar

[ Amor para Dar ]

Esta noite ao acordar
Saltei o muro p’ra ficar por cá
Deixei de ter p’ra ver que ainda há
Amor p’ra dar

Esta noite p’la manhã
Fechei a porta p’ra poder sair
Da cepa torta sem ter p’ra onde ir
E ter de andar

Hoje tive a tentação
De te dizer que sim e porque não
Pedir-te que vás p’ra voltar
Fiquei com a convicção
Que no amor mais vale ser um na mão
Que dois sem amor p’ra dar

No amor p’ra dar tem de haver amor p’ra dar
No amor p’ra dar tem de haver amor p’ra dar

Esta tarde ao clarear
Soltei a corda só p’ra me prender
Gritei bem alto p’ra te adormecer
E acordar

Ontem quando eu regressar
Vou dar-te a mão p’ra te deixar partir
Dar-te a razão só p’ra te ver sorrir
E acreditar

No tempo em que acontecer
É bom saber como é bom não saber
De nada p’ra não te contar
E por falar em querer
Gostar de ti e não querer dizer
P’ra nem te deixar duvidar

No amor p’ra dar tem de haver amor p’ra dar
No amor p’ra dar tem de haver amor p’ra dar

Ouvi dizer que as lembranças
São novas verdades p’ra nos acordar
Ouvi contar que as mudanças
São novas vontades p’ra nos ajudar

No amor p’ra dar tem de haver amor p’ra dar
No amor p’ra dar tem de haver amor p’ra dar

Letra e música: Sebastião Antunes
Arranjo: Gonçalo Pratas
Intérprete: Sebastião Antunes* (in CD “Singular”, Sebastião Antunes & Quadrilha/Alain Vachier Music Editions, 2017)

Esta vida

[ Não Há Dinheiro ]

Esta vida, como vês,
É sempre a ver se chega o fim do mês
Mas por muito que eu não queira
Acaba sempre da mesma maneira

Falta isto, falta aquilo
Eu já nem sei o que é que falta primeiro:
Se é o dinheiro que falta
Ou a falta que me faz ter o dinheiro

A jorna não dá p’ra nada,
E a gente sempre a dizer que tem que dar
Já passaram mais uns dias
E o dinheiro está outra vez a acabar

Não há dinheiro, não há dinheiro!
Andamos nesta conversa o ano inteiro.
Não há dinheiro, não há dinheiro!
É cada um que se amanhe,
Não há dinheiro!

Eu queria falar contigo
Mas não sei como é que te hei-de dizer
Eu fui sempre teu amigo
Não sei se já me estás a perceber

É que a coisa está difícil

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha*
Versão discográfica anterior: Sebastião Antunes & Quadrilha (in CD “Perguntei ao Tempo”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2019)
Versão original: Quadrilha (in CD “Entre Luas”, Ovação, 1997)

Esta voz com que canto

Esta voz com que canto
Vem-me d’alma e o tempo
Ensinou-me o encanto
Do vento.

É a voz de amor
Que vem cá de dentro;
É o grito exterior
Do pensamento.

O meu amor é todo para ti:
Desde que te conheci
Canto os teus olhos, a terra e todo o mundo,
O meu sentimento mais profundo.

O meu amor é todo para ti:
Desde que te conheci
Canto os teus olhos, a terra e todo o mundo,
O meu sentimento mais profundo.

O meu amor é todo para ti:
Desde que te conheci
Canto os teus olhos, a terra e todo o mundo,
O meu sentimento mais profundo.

[ Um Canto de Mim ]

Letra e música: Daniel Pereira
Intérprete: Arrefole (in CD “Veículo Climatizado”, Açor/Emiliano Toste, 2006)

Eu fui, tu foste, ele foi

[ Artes do Futuro ]

Eu fui, tu foste, ele foi
Talvez para sempre
Como é da nossa humana
Condição
Levados todos no acre improviso
Da loucura

Mas tu, diva esquecida
Música que eu faço
e me transcendes
Sentada na berma
do sonho apetecido
voltas a despertar
do vendaval da espera
e regressas ainda hesitante
nos meus dedos

E o amanhã pode já ter acontecido
hoje mesmo aqui, ao fim da tarde

e assim iremos enganando
as artes do futuro

E o amanhã pode já ter acontecido
hoje mesmo aqui, ao fim da tarde

e assim iremos enganando
as artes do futuro

E o amanhã pode já ter acontecido
hoje mesmo aqui, ao fim da tarde

e assim iremos enganando
as artes do futuro

Que o amanhã pode já ter acontecido
hoje mesmo aqui, ao fim da tarde

e assim iremos enganando
as artes do futuro

Letra e música: Pedro Barroso
Intérprete: Pedro Barroso
Versão original: Pedro Barroso (in CD “Artes do Futuro”, Ovação, 2017)

Eu queria unir as pedras desavindas

[ Não Me Mintas ]

Eu queria unir as pedras desavindas
escoras do meu mundo movediço
aquelas duas pedras perfeitas e lindas
das quais eu nasci forte e inteiriço

Eu queria ter amarra nesse cais
para quando o mar ameaçar a minha proa
e queria vencer todos os vendavais
que se erguem quando o diabo se assoa

Tu querias perceber os pássaros
Voar como o Jardel sobre os centrais
Saber por que dão seda os casulos
Mas isso já eram sonhos a mais

Conta-me os teus truques e fintas
Será que os Nikes fazem voar
Diz-me o que sabes não me mintas
ao menos em ti posso confiar

Agora diz-me agora o que aprendeste
De tanto saltar muros e fronteiras
Olha p’ra mim vê como cresceste
Com a força bruta das trepadeiras

Põe aqui a mão e sente o deserto
Tão cheio de culpas que não são minhas
E ainda que nada à volta bata certo
eu juro ganhar o jogo sem espinhas

Tu querias perceber os pássaros
Voar como o Jardel sobre os centrais
Saber por que dão seda os casulos
Mas isso já eram sonhos a mais

Letra: Carlos Tê
Música: Rui Veloso
Intérprete: Rui Veloso (in filme “Jaime”, de António Pedro Vasconcelos, 1999; CD “O Melhor de Rui Veloso”, EMI-VC, 2000)

Eu toquei o Sol

[ Lencinho Azul ]

Eu toquei o Sol, beijei o luar,
Tropecei no céu e caí no chão;
Percorri o mundo e fui encontrar
À beira do mar o meu coração.

Do que eu sou
Dei-lhe o meu melhor,
Oh meu doce amor!
Oh minha paixão!

Tudo o que era meu vinha no bornal,
Dei-lhe o pão e mel, dei-lhe a minha mão,
Um lencinho azul feito em Portugal
E os versos de sal da minha canção.

Do que eu sou
Dei-lhe o meu melhor,
Oh meu doce amor!
Oh minha paixão!

Rainha de mim quando me entreguei,
Os braços me abriu num chi-coração;
Beijinhos me deu, beijinhos lhe dei:
Quantos já nem sei, mais do que um milhão.

Do que eu sou
Dei-lhe o meu melhor,
Oh meu doce amor!
Oh minha paixão!

Não saí dali, era já manhã,
Seus lábios carmim tal qual um tição;
De si me prendeu, deu-me uma maçã,
Ofereci-lhe o céu, não disse que não.

Do que eu sou
Dei-lhe o meu melhor,
Oh meu doce amor!
Oh minha paixão!

Do que eu sou
Dei-lhe o meu melhor,
Oh meu doce amor!
Oh minha paixão!

Letra: José Fanha
Música: Fernando Pereira
Intérprete: Real Companhia (in CD “Serranias”, Tê, 2013)

Façam roda

[ Conto do Bicho Papão ]

Façam roda, a ver quem vai ao meio!
Cada um com o seu par tira a pedrinha!
Sirumba, acabei eu primeiro!
Ficas tu a tapar, não dá madrinha!

Já ninguém te pergunta quantos queres
Já não ouves ninguém contar um-dó-li-tá
Afinal qual é o dedo que preferes?
Quem está livre, livre está!

Ninguém fala do homem do saco
Ninguém espreita por baixo do colchão
Já ninguém acredita na Côca
Nem no bicho papão

Salta à corda, joga à barra do lenço!
Adivinha o que eu penso, dá partida!
Falua, quem acerta na malha?
Danada da canalha está fugida!

Salta ao eixo a fugir à cabra-cega!
Olha o meu pião mas eu não to dou, não!
Onde é que anda a viuvinha que não chega
E a sardinha a dar na mão?

Ninguém fala do homem do saco
Ninguém espreita por baixo do colchão
Já ninguém acredita na Côca
Nem no bicho papão

Ai se eu pudesse habitar um jogo electrónico
Voltava a ser falado, voltava a assustar!
Imaginem lá qual não era a sensação
De uma ‘app’ com o jogo do regresso do papão!

Ninguém fala do homem do saco
Ninguém espreita por baixo do colchão
Já ninguém acredita na Côca
Nem no bicho papão

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha
Versão discográfica anterior: Sebastião Antunes & Quadrilha (in CD “Perguntei ao Tempo”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2019)
Versão original: Quadrilha (in CD “Entre Luas”, Ovação, 1997)

Falei-te

[ Jardim de Poetas ]

Falei-te,
Sem querer, de coisas belas
Como quem abre janelas
P’ra lá do horizonte…

E havia no teu olhar firmamento
Para cem vidas por momento
Ao sabor de um mar de Inverno

E tu,
Sem saber, lá tricotavas
Um romance de palavras
Sem certezas nem futuro

E tu
Sonhavas no areal
Com um jardim de poetas
Superiores e verticais
Que, em rigor, nunca existiu

E tu,
Como se fosse há vinte anos,
Subiste ao alto das rochas
Lá, onde pousam as gaivotas
Subiste ao alto das dunas
Onde o vento, e só o vento te possuiu

Cresceu-te no peito um mar de prata
Como se eu fosse alguma vez exemplo
Como se eu fosse, acaso, alguma vez na vida
A perfeição

Mas quando te contei coisas de mim
Daquelas coisas grandes, que vêm cá de dentro
Caíste em ti do sonho e do jardim
E fiz-te então, amiga, esta canção

E tu
Inda sonhas no areal
Com um jardim de poetas
Superiores e verticais
Que, em rigor, nunca existiu

E tu,
Como se fosse há vinte anos,
Sobes ao alto das rochas
Lá, onde pousam as gaivotas
Sobes ao alto das dunas
Onde o vento te possuiu

E tu
Inda sonhas no areal
Com um jardim de poetas
Superiores e verticais
Que, em rigor, nunca existiu

E tu,
Como se fosse há vinte anos,
Sobes ao alto das rochas
Lá, onde pousam as gaivotas
Sobes ao alto das dunas
Onde o vento, e só o vento te possuiu

Poema e música: Pedro Barroso (Golegã, Novembro de 2000)
Intérprete: Pedro Barroso
Versão original: Pedro Barroso (in CD “Crónicas da Violentíssima Ternura”, Lusogram, 2001)
Outras versões: Pedro Barroso (in CD “De Viva Voz”, Lusogram, 2002); Pedro Barroso (in DVD “40 Anos de Música e Palavras: 1969-2009”, Ovação, 2009) [>> YouTube]; Pedro Barroso (in DVD “Memória do Futuro: Ao vivo no Rivoli”, Ovação, 2013)

Faz-te mar assim

[ Vals’Ilha ]

Faz-te mar assim, calmo!
Abre-me o caminho…
Guia o meu batel!

Ouço alguém chamar longe…
Pudesse eu sair
Para ver Argel!

Quero então dizer-te:
Vou p’ra bem distante,
Valsa então por mim
Aos raios de sol!

Passou tanto tempo
Do tempo que invento…
Toca-me a saudade.

Canta uma gaivota…
Vejo o mar em volta…
Dançarei contigo.

Dança esta vals’ilha
Aos raios de sol!

Letra e música: Jorge Rivotti
Intérprete: Jorge Rivotti
Versão original: Jorge Rivotti (in CD “Canções de Amor Pintadas de Amarelo”, Vachier & Associados, 2010)

Fui ver se um dia te achava

[ Não Sei Nada sobre o Amor ]

Fui ver se um dia te achava no largo, na praça
Quis dizer-te, contar-te e falar-te e de hoje já não passa
Ai, mas quando te vi as palavras fugiram de mim
Parei, sentei, tanto espreitei, só me escondia de ti

Esperei que as palavras voltassem e me levassem até ti
Ai, mas por que raio espero eu aqui?
Foi então que de tanto esperar atrás do largo da praça
Decorei o sorriso mais lindo, já só quero é andar p’ra ti

Ai, mas de tanto tremer, fugiu-me o sorriso de mim
Querem ver que agora até parece que já nem sei dizer
As palavras mais lindas que guardo só por te ver?!
Ai, mas querem lá ver que contigo não sei nada sobre o amor!

Que contigo não sei nada sobre o amor!
Que contigo não sei nada sobre o amor!
Que contigo não sei nada sobre o amor!

Letra e música: Tiago Curado de Almeida
Intérprete: Pensão Flor
Versão original: Pensão Flor (in CD “O Caso da Pensão Flor”, Pensão Flor/Brandit Music, 2013)

Há já demasiados segredos

[ O Cheiro ]

Há já demasiados segredos nos poros
para eu encher a noite
de ti mesma.

E um oceano imenso não chega
para eu contar todas as arribas deste sal.

A maresia parou, para saber coisas de ti
e eu tinha nas mãos apenas as rosas de ontem,

e não sabia nem onde
nem como
navegar-te.

De longe trouxe a fé que nem eu sabia
e deitei-me em teus leitos de alfazema e alecrim.
Recolhi quando a noite mansa já
amanhecia…
E devagar
– porque a vida nunca deixa de nos matar um pouco
em cada dia –
foi no teu regaço
que eu adormeci de mim.

E acordei inteiro por sentir o teu cheiro
na cama
e enrolei-me nos lençóis, mesmo já sem ti
de corpo inteiro.

Não quero saber de mais
nem tenho que explicar.

É este o cheiro.
Eu quero aqui ficar.
Eu quero aqui ficar.
É este o cheiro.

E acordei inteiro por sentir o teu cheiro
na cama
e enrolei-me nos lençóis, mesmo já sem ti
de corpo inteiro.

Não quero saber de mais
nem tenho que explicar.

É este o cheiro.
Eu quero aqui ficar.
Eu quero aqui ficar.
É este o cheiro.

Poema e música: Pedro Barroso
Intérprete: Pedro Barroso
Versão original: Pedro Barroso (in CD “Sensual Idade”, Ovação, 2008)
Outras versões: Pedro Barroso (in DVD “40 Anos de Música e Palavras: 1969-2009”, Ovação, 2009)

Há um caminho inseguro

[ Paixão ]

Música: Jorge Fernando
Intérprete: Mariza

Há voos de pássaros nos teus olhos

[ Poema para o Meu Amor ]

Há voos de pássaros nos teus olhos castanhos de sereia
Batuques africanos no balouçar do teu corpo de gazela
E há frutos maduros na tumidez dos teus pequenos seios
E promessas loucas na humidade dos teus lábios entreabertos

Há como um tango argentino no desafio da tua cintura estreita
Há um doce encanto no urdir das tuas trancinhas de menina
E há estranhos sortilégios escondidos nas tuas mãos de fada
E há rouxinóis magoados, tão magoados de cada vez que cantas

Há ondas de ternura neste teu jeito tão suave
E danças peruanas nas tuas ancas pela alba
Há calor dos trópicos no aperto dos teus braços tão sinceros
E uma paz das ilhas no teu macio leito de princesa

Há druidas, de novo, preparando filtros à sombra de carvalhos
E lagos privados onde nadam altivos cisnes brancos
E há luas de fajãs que riscam no mar trilhos de prata
E nascentes de água que brotam do teu riso cristalino

Letra e música: Aníbal Raposo (Praia Formosa, 2003-08-22)
Intérprete: Aníbal Raposo
Primeira versão discográfica: Aníbal Raposo (in CD “Mar de Capelo”, Açor/Emiliano Toste, 2017)

Hoje o dia foi um dia assim

[ Canção de Nanar ]

Hoje o dia foi um dia assim:
Esta sede e vontade de ti.
Se eu pudesse amar-te mais,
Bem sei que a lua ia dançar também.

Quantas horas faltam p’ra te ver
Nesta espera de aprender a ser?
Mais um som no tom do teu brilhar,
Mais um traço ao sol do teu vibrar.

Vem saber que o que vejo em ti
É sal e sopro e luz dentro de mim;
E a música da terra e ar
Ficam uma só no teu pulsar.

Se ainda não sorris, carmim,
Perdoa a minha falta de cetim!
Nas palavras que não escrevi
Vive o amor que não se escreve.

Se ainda não sorris, carmim,
Perdoa a minha falta de cetim!
Nas palavras que não escrevi
Vive o amor que não se escreve…

Mas está aqui.

Letra e música: Teresa Gentil
Intérprete: Celina da Piedade (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)

Já pensei dar-te uma flor

[ Adivinha o quanto gosto de ti ]

Já pensei dar-te uma flor, com um bilhete, mas nem sei o que escrever.
Sinto as pernas a tremer, quando sorris p’ra mim, quando deixo de te ver.
Vem jogar comigo um jogo, eu por ti e tu por mim.
Fecha os olhos e adivinha, quanto é que eu gosto de ti.

Gosto de ti, desde aqui até à lua.
Gosto de ti, desde a Lua até aqui.
Gosto de ti, simplesmente porque gosto.
E é tão bom viver assim.

Ando a ver se me decido, como te vou dizer, como hei-de te contar.
Até já fiz um avião, com um papel azul, mas voou da minha mão.
Vem jogar comigo um jogo, eu por ti e tu por mim.
Fecha os olhos e adivinha, quanto é que eu gosto de ti.

Gosto de ti, desde aqui até à lua.
Gosto de ti, desde a Lua até aqui.
Gosto de ti, simplesmente porque gosto.
E é tão bom viver assim.

Quantas vezes eu parei à tua porta.
Quantas vezes nem olhaste para mim.
Quantas vezes eu pedi que adivinhasses.
Quanto é que eu gosto de ti.

Gosto de ti, desde aqui até à lua.
Gosto de ti, desde a Lua até aqui.
Gosto de ti, simplesmente porque gosto.
E é tão bom viver assim.

Quantas vezes eu parei à tua porta.
Quantas vezes nem olhaste para mim.
Quantas vezes eu pedi que adivinhasses.
Quanto é que eu gosto de ti.

Gosto de ti, desde aqui até à lua.
Gosto de ti, desde a Lua até aqui.
Gosto de ti, simplesmente porque gosto.
E é tão bom viver assim.

André Sardet

Lá na festa da aldeia

Lá na festa da aldeia,
Debaixo da cameleira,
Convidaste-me a dançar:
Tamanha era a borracheira
Que no adro da igreja
Nos chegámos a casar.

No nariz, sinal de perigo,
Quem dorme contigo
Má sorte vai enfrentar:
Mas na festa da aldeia,
Com as vizinhas na soleira,
Eu fui-me enamorar.

Peço aos dias tempo emprestado
P’ra apagar esta recordação;
Na frase sem predicado
Há vírgulas sem cuidado
Entre o sujeito e o coração.

Entre o sujeito e o coração.

Lá na festa da aldeia,
Debaixo da cameleira,
A saia sempre a rodar:
A tua mão que se esgueira
Debaixo da pregadeira…
Eu vermelha, a corar.

No banco, dívidas, assombros;
Fiado não vais em ombros;
Fim do mês, falta-te o ar;
Debaixo da cameleira
Foi grande a ciumeira,
Começámos a namorar.

Peço aos dias tempo emprestado
P’ra apagar esta recordação;
Na frase sem predicado
Há vírgulas sem cuidado
Entre o sujeito e o coração.

Entre o sujeito e o coração.

Mas na festa da aldeia,
Tu de mão na algibeira,
Nós chegámos a casar:
Porque na festa da aldeia
Debaixo da cameleira
Tu puseste-me a dançar.

Peço aos dias tempo emprestado
P’ra apagar esta recordação;
Na frase sem predicado
Há vírgulas sem cuidado
Entre o sujeito e o coração.

Entre o sujeito e o coração.

Letra: Filipa Martins
Música: Rogério Charraz
Arranjo: João Balão
Intérprete: Rogério Charraz (in CD “Não Tenhas Medo do Escuro”, Rogério Charraz/Compact Records, 2016)

Lindos olhos tem Silvina

[ Ai Silvina, Silvininha ]

Lindos olhos tem Silvina,
lindas mãos Silvina tem,
e a cintura da Silvina
é fina como o azevém.

Em Silvina tudo exala
um cheiro de coisa fina,
mas o que a nada se iguala
é a fala da Silvina.

— Porque não cantas, Silvina?
Se a tua voz é tão doce
talvez cantada que fosse
mais doce que a glicerina.

— Não me apetece cantar
e muito menos p’ra ti.
Eu sou nova, tu és velho,
já não és homem p’ra mim.

— Não me tentes, Silvininha,
que eu já nem te olho a direito.
Sou como um ladrão escondido
na azinhaga do teu peito.

— A azinhaga do meu peito
corre entre duas colinas.
E o ladrão do meu amor
tem pé leve e pernas finas.

— Canta, canta, Silvininha,
como se fosse p’ra mim.
Dar-te-ei um lençol de estrelas
e uma enxerga de alecrim.

— Deixa o teu corpo estendido
à terra que o há-de comer.
A tua cama é de pinho,
teus lençóis de entristecer.

— Canta, canta, Silvininha,
uma canção só p’ra mim.
Dar-te-ei um escorpião de oiro
e um aguilhão de marfim.

— Não quero o teu escorpião,
nem de oiro nem de prata.
Quero o meu amor trigueiro
que é firme e não se desata.

— Pois não cantes, Silvininha,
se essa é a tua vontade.
Canto eu, mesmo assim velho,
que o cantar não tem idade.

Hás-de ser tu morta e fria,
cem anos se passarão,
já de ti ninguém se lembra
nem de quem te pôs a mão.

Mas sempre há-de haver quem canta
os versos desta canção:
Ai Silvina, ai Silvininha,
Amor do meu coração.

Letra: António Gedeão (adaptado)
Música: Alain Oulman
Intérprete: Camané (in 2CD “Camané: O Melhor 1995-2013 (Edição Especial)”: CD 1, EMI, 2013)
Versão original (música de José Barros): José Barros e Navegante com Verónica (in CD “Rimances”, JBN, 2001)
Outra versão de José Barros e Navegante, com Isabel Silvestre (in DVD “Cantares do Povo Português”, Ocarina, 2012)

Menina das tranças negras

[ Os Olhos com que Eu te Vejo ]

Menina das tranças negras
Levanta a cara bonita
Que se o caminho tem pedras
A esperança é infinita
Menina das tranças negras
Ai ai, larai, lai ai

Menina dos meus encantos
Princesa do meu destino
Os meus anseios são tantos
Que o meu fado é um desatino
Menina dos meus encantos
Ai ai, larai, lai ai

Mal-me-quer ou bem-me-quer
Muito, pouco ou nada
Eu só quero tudo
O que o amor quiser
Diga o mundo o que disser
Muito, pouco ou nada
Bem-me-queres tudo
Nada mal-me-quer

Senhora dos olhos tristes
Objecto do meu desejo
Eu sei que nunca te vistes
Nos olhos com que eu te vejo
Menina dos olhos tristes
Ai ai, larai, lai ai

Mal-me-quer ou bem-me-quer
Muito, pouco ou nada
Eu só quero tudo
O que o amor quiser
Diga o mundo o que disser
Muito, pouco ou nada
Bem-me-queres tudo
Nada mal-me-quer
Menina dos olhos tristes
Ai ai, larai, larai, lai ai

Mal-me-quer ou bem-me-quer
Muito, pouco ou nada
Eu só quero tudo
O que o amor quiser
Diga o mundo o que disser
Muito, pouco ou nada
Bem-me-queres tudo
Nada mal-me-quer

Letra: J.J. Galvão (José João Oliveira Galvão)
Música: Rui Filipe Reis
Intérprete: Rosa Negra (in CD “Fado Mutante”, iPlay, 2011)

Meu amor disse que eu tinha

[ Cantiga de Seguir ]

Meu amor disse que eu tinha
Uns olhos como gaivotas
E uma boca onde começa
O mar de todas as rotas.

O mundo dá tanta volta;
Quem dera que fora assim
E que, numa dessas voltas,
Tu viesses para mim.

Sei que ele um dia virá,
Assim muito de repente,
Como se o mar e o vento
Nascessem dentro da gente.

Letra: Manuel Alegre (1.ª e 3.ª quadras) e Francisco Menano
Música: Ricardo Ribeiro e Pedro Caldeira Cabral
Intérprete: Ricardo Ribeiro (in CD “Largo da Memória”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2013)

Meu Amor Eterno

Meu Amor Eterno,
Doce verde olhar,
Ilumina o meu caminho!
Acompanha o meu andar!

Meu Amor Eterno,
Mãos de acarinhar,
Segura no teu menino!
Ajuda-me a continuar!

Meu Amor Eterno,
Fada do meu lar,
Alimenta-me a saudade!
Sacia o meu paladar!

Meu Amor Eterno,
Cordão de umbilicar,
Relembra-me do teu cheiro!
Não me deixes de cantar! [bis]

Ema te fez,
Deus te criou,
Paulo te abriu,
José completou.

“Morrer por morrer!”,
Disseste-o assim;
Da tua coragem
Tiveste-me a mim.

Meu Amor Eterno,
Cordão de umbilicar,
Relembra-me do teu cheiro!
Não me deixes de cantar! [3x]

Letra: Rogério Charraz (dedicada à sua Mãe)
Música: Rogério Charraz e Júlio Resende
Arranjo: Júlio Resende
Intérprete: Rogério Charraz (in CD “Não Tenhas Medo do Escuro”, Rogério Charraz/Compact Records, 2016)

Meu amor, meu amor

[ Ó Meu Amor ]

Meu amor, meu amor,
Se tu fores,
Leva meu ser!
Meu ser, amor!

Ó meu amor, se tu fores,
Leva-me, podendo ser!
Eu quero ir acabar
Onde tu fores morrer.

Eu hei-de morrer cantando,
Já que chorando nasci,
Já que as glórias deste mundo
Se acabaram p’ra mim.

Letra e música: Tradicional (Fundão, Beira Baixa)
Arranjo: José Manuel David
Intérprete: Segue-me à Capela (in Livro/CD “San’Joanices, Paganices e Outras Coisas de Mulher”, Segue-me à Capela/Fundação GDA/Tradisom, 2015)
Primeira versão: Brigada Victor Jara – “Tosquia” (in LP “Monte Formoso”, MBP, 1989, reed. Farol Música, 1996; Livro/11CD “Ó Brigada!: Discografia Completa da Brigada Victor Jara – 40 Anos”: CD “Monte Formoso”, Tradisom, 2015)

Brigada Victor Jara, Monte Formoso
Brigada Victor Jara, Monte Formoso

Na Rua dos Meus Ciúmes

Na rua dos meus ciúmes,
Onde eu morei e tu moras,
Vi-te passar fora de horas
Com a tua nova paixão;
De mim não esperes queixumes
Quer seja desta ou daquela,
Pois sinto só pena dela
E até lhe dou meu perdão…
Na rua dos meus ciúmes
Deixei o meu coração.

Inda que me custe a vida,
Pensarei com ar sereno
Que esse teu ombro moreno
Beijos de amor vão queimar;
Saudades são fé perdida,
São folhas mortas ao vento
Que eu piso sem um lamento
Na tua rua, ao passar…
Inda que me custe a vida,
Não hás-de ver-me chorar.

Na rua dos meus ciúmes
Deixei o meu coração.

Letra: Nelson de Barros (para a revista “A Vida É Bela”, 1960, Teatro Capitólio)
Música: Frederico Valério
Intérprete: Rua da Lua (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)
Versão original: Helena Tavares (in EP “Rua dos Meus Ciúmes”, Alvorada, 1960; CD “Helena Tavares”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 7, Movieplay, 1994; CD “Helena Tavares”, col. Clássicos da Renascença, vol. 51, Movieplay, 2000)

Nas coisas do amor

[ Quando a Lua Voltar a Passar ]

Nas coisas do amor
É melhor nem entender
Não é fácil perceber
O que o amor tem p’ra dar ou não
E pode ser duro
É deixar acontecer

Malmequer de bem-querer
Ninguém pode adivinhar
Eu sei que não
Nem precisa de razão
Não é bem um sim ou não
É uma carta bem fechada

Não há-de ser nada
Vai passar e tu nem vês
É levar a vida
Um dia de cada vez
E se calhar tu já nem te vais lembrar
E vai ser já quando a Lua voltar a passar

Vou acreditar que amanhã vai ser melhor
Eu conheço até de cor
O que o amor vai fazer talvez nem sei
Ainda bem que acreditei
Não faz mal se eu arrisquei
E fui bater à porta errada

Não há-de ser nada
Vai passar e tu nem vês
É levar a vida
Um dia de cada vez
E se calhar tu já nem te vais lembrar
E vai ser já quando a Lua voltar a passar

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha*
Primeira gravação discográfica: Sebastião Antunes & Quadrilha com Rubi Machado & Rão Kyao (in CD “Perguntei ao Tempo”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2019)
Versão original: Rubi Machado

Não encontro o teu perfume

[ À Procura de um Perfume ]

Não encontro o teu perfume
Em jardim algum…
Vou plantá-lo aqui mesmo ao lado,
Juntinho a mim!

Não entendo o caminho
Que chega ao pé de ti…
Só sei que um tal destino
Far-me-á chegar aí.

Caminhando vago,
Na rua aqui ao lado,
Encontrei-te enfim!

Aproximei-me de ti…
“Não adies mais o destino!”,
Pensei eu cá só p’ra mim.

Letra e música: Jorge Rivotti
Intérprete: Jorge Rivotti
Versão original: Jorge Rivotti (in CD “Canções de Amor Pintadas de Amarelo”, Vachier & Associados, 2010)

Não sei por que razão

[ Não Rias ]

Não sei por que razão te quero tanto
E é louco por ti meu coração;
Não sei por que razão este meu pranto
Só riso te provoca, sem razão.

Não rias, meu amor,
Da minha grande dor!
Não rias, por favor, do meu sofrer!
Tem cuidado comigo:
Talvez p’ra teu castigo
A sorte à minha porta vá bater.

Podes passar na vida sem cuidados
E fazer juras a mentir;
Mas olha, meu amor, estás enganada:
A vida não é só levada a rir.

Não rias, meu amor,
Da minha grande dor!
Não rias, por favor, do meu sofrer!
Tem cuidado comigo:
Talvez p’ra teu castigo
A sorte à minha porta vá bater.

Não rias, meu amor,
Da minha grande dor!
Não rias, por favor, do meu sofrer!
Tem cuidado comigo:
Talvez p’ra teu castigo
A sorte à minha porta vá bater.

Letra: Ivete Pessoa
Música: Armando Machado (Fado Tertúlia)
Intérprete: Ricardo Ribeiro (in CD “Largo da Memória”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2013)
Versão original: Ivete Pessoa [?]

Não te ver nos meus braços

[ Beijo ]

Não te ver nos meus braços
Por não te ver nos meus braços, meu amor,
Pedi aos rios do meu pranto
Que te levassem do meu canto

Por não te ver nos meus braços
Por não te ver nos meus braços
Pedi aos rios do meu pranto
Que te levassem do meu canto

Mas as marés do teu jeito
Essas marés do teu beijo
Que me agitam o peito
Que me habitam o leito
Só me desfazem o peito
Com esse teu beijo perfeito

Por não te ver nos meus braços
Por não te ver nos meus braços
Despi o corpo do teu cheiro
Lavei a pele do teu beijo

Mas as marés do meu peito
Essas marés do meu peito
Vestiram-me o teu desejo
Levaram-me ao teu leito
Quero esquecer-te a qualquer jeito
Mas tenho um beijo cravado no peito

Mas as marés do meu peito
Essas marés do meu peito
Vestiram-me o teu desejo
Levaram-me ao teu leito
Quero esquecer-te a qualquer jeito
Mas tenho um beijo cravado no peito

Letra e música: Tiago Curado de Almeida
Intérprete: Pensão Flor
Versão original: Pensão Flor (in CD “O Caso da Pensão Flor”, Pensão Flor/Brandit Music, 2013)

Nos teus braços

Intérprete: Cuca Roseta

Nunca Marta pressentiu

[ Marta Encruzilhada ]

Nunca Marta pressentiu
A reboque bem sentada
Que o trilho que faz um desvio
Fosse dar à sua estrada

Nunca o sol a torriscou
Nunca à chuva foi molhada
Nunca ao vento esteve ao frio
E nunca a pé foi pela estrada

E nunca o bem esteve tão mal
E nunca o mal veio de frente
Não se faz vida do nada
Não se faz do nada gente

E não se faz do nada gente

E nesse trilho com desvio
O seu reboque não passava
E nunca antes Marta sentiu
E nunca a pé foi pela estrada

E nunca o sol a torriscou
E nunca à chuva foi molhada
E nunca ao vento esteve ao frio
E nunca a pé foi pela estrada

E nunca o bem esteve tão mal
E nunca o mal veio de frente
E não se faz vida do nada
E não se faz do nada gente

E não se faz do nada gente
E não se faz…

E nunca o sol a torriscou
Nunca à chuva foi molhada
Nunca ao vento esteve ao frio
E nunca a pé foi pela estrada

E nunca o bem esteve tão mal
E nunca o mal veio de frente
E não se faz vida do nada
E não se faz do nada gente

E nunca o sol a torriscou
Nunca à chuva foi molhada
Nunca ao vento esteve ao frio
E nunca a pé foi pela estrada

E nunca o bem esteve tão mal
E nunca o mal veio de frente
Não se faz vida do nada
E não se faz do nada gente

Letra e música: Luís Pucarinho
Intérprete: Luís Pucarinho* (in CD “SaiArodada”, Luís Pucarinho/Alain Vachier Music Editions, 2018)

Oh meu amor

[ Um Anjo em Meu Lugar ]

Oh meu amor… tu não vás
Que se tu fores já não há
Nem rosas no meu jardim
Nem sonhos dentro de mim

Ai! Minha dor não tem fim
Se o desamor for sempre assim
Por cada dia esperar
Até o Sol se apagar

Olha, olha o meu olhar
E nele hás-de ver
Que eu só canto este fado
Para não esquecer

E se uma noite sem luar
A tua fé quebrar
Espera um pouco que há-de vir
Um anjo em meu lugar

Amor, amor divino
Vai, vai em liberdade
Que o teu breve destino
É ir com a saudade

Olha, olha o meu olhar
E nele hás-de ver
Que eu só canto este fado
Para não esquecer

Letra: J.J. Galvão (José João Oliveira Galvão)
Música: Rui Filipe Reis
Intérprete: Rosa Negra com Cramol (in CD “Fado Mutante”, iPlay, 2011)

Olha, basta uma nota

[ Basta Um Sorriso ]

Olha, basta uma nota
P’ra dizer que te quero
Um compasso sem tempo
P’ra ver o que ainda espero
Sabendo eu que não vens
Sabendo tu que não me tens

Olha, trago uma ferida
A queimar nos meus lábios
Um pedaço sem cor
Uma ferida aberta
Um gosto imenso de ti
Vais dizendo que não queres
Vais fugindo de manhã
E vais mentindo ao dizer…:
São precisas duas mãos
Para se agarrar um coração

Olha, basta uma nota
P’ra dizer que te quero
Um compasso sem tempo
P’ra ver o que ainda espero
Sabendo eu que não vens
Sabendo tu que não me tens

Diz-me: porque me olhas assim
Quando os corpos não se encontram
Porque choras assim
Se o teu corpo só reclama de paixão
Vais dizendo que não queres
Vais fugindo de manhã
E vais mentindo ao dizer…:
Basta um sorriso para não dizer adeus
Meu amor, basta um sorriso para não dizer adeus [bis]

Letra e música: Tiago Curado de Almeida
Intérprete: Pensão Flor
Versão original: Pensão Flor (in CD “O Caso da Pensão Flor”, Pensão Flor/Brandit Music, 2013)

Pedes-me o respeito

[ Tenho Tanto p’ra te Dar ]

Pedes-me o respeito
E eu dou
Pedes-me a coragem
E eu sou
Pedes-me o amor
E eu tenho tanto, tanto p’ra te dar

Pedes-me a confiança
E eu dou
Pedes-me a esperança
E eu sou
Pedes-me o amor
E eu tenho tanto, tanto p’ra te dar

Tenho tanto p’ra te dar
No meu canto de amar
Terei sempre na minha voz
A memória do grande que somos nós

Pedes-me a vontade
E eu dou
Pedes-me a unidade
E eu sou
Pedes-me o amor
E eu tenho tanto, tanto p’ra te dar

Pedes-me a alegria
E eu dou
Pedes-me a harmonia
E eu sou
Pedes-me o amor
E eu tenho tanto, tanto p’ra te dar

Tenho tanto p’ra te dar
No meu canto de amar
Terei sempre na minha voz
A memória do grande que somos nós

Pedes-me a paciência
E eu dou
Pedes-me a consciência
E eu sou
Pedes-me o amor
E eu tenho tanto, tanto p’ra te dar

Letra e música: Luís Galrito
Intérprete: Luís Galrito* com Dino d’ Santiago (in CD “Menino do Sonho Pintado”, Kimahera, 2018)

Pelo fim da tarde

[ Nem Sequer Dei Por Isso ]

Pelo fim da tarde tu sais do emprego
E eu não sei porque é que aqui vim parar
É assim um desassossego
Tento ir sempre onde possas estar

Por sorte tu até sorris
E nem sequer me vens com muitos ‘porquês’
E dizes com um certo ar feliz:
“Com que então, por aqui outra vez?”

Num parque ao domingo
P’lo meio da cidade
Ou num café ao entardecer

Será que é mentira?
Será que é verdade?
Mas o que é que me está acontecer?

Já sei! Não há explicação
A cabeça está num reboliço
Se calhar apaixonei-me por ti
E nem sequer dei por isso

Ao virar da esquina, em qualquer transporte
Acabamos sempre por nos cruzar
E eu acho um caso de sorte
Cada vez que te posso encontrar

Está-me a correr bem, já ganhei o dia
Só porque me dissestes um “olá!”
E gosto da tua ironia
Se perguntas mais uma vez: “Por cá?”

Mensagem trocada, gesto embaraçado
Lá vou eu outra vez a planar
Desculpa, desculpa! Foi número errado
Mas ficamos uma hora a falar

Já sei! Não há explicação
A cabeça está num reboliço
Se calhar apaixonei-me por ti
E nem sequer dei por isso

Tanto melhor quando não se espera
E era bom que fosse como imaginei

Já sei! Não há explicação
A cabeça está num reboliço
Se calhar apaixonei-me por ti
E nem sequer dei por isso

Já sei! Não há explicação
A cabeça está num reboliço
Se calhar apaixonei-me por ti
E nem sequer dei por isso

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha* (ao vivo no Estúdio 3 da Rádio e Televisão de Portugal, Lisboa)
Versão original: Sebastião Antunes & Quadrilha (in CD “Perguntei ao Tempo”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2019)

Por não te ver nos meus braços

[ Beijo ]

Por não te ver nos meus braços
Por não te ver nos meus braços, meu amor,
Pedi aos rios do meu pranto
Que te levassem do meu canto

Por não te ver nos meus braços
Por não te ver nos meus braços
Pedi aos rios do meu pranto
Que te levassem do meu canto

Mas as marés do teu jeito
Essas marés do teu beijo
Que me agitam o peito
Que me habitam o leito
Só me desfazem o peito
Com esse teu beijo perfeito

Por não te ver nos meus braços
Por não te ver nos meus braços
Despi o corpo do teu cheiro
Lavei a pele do teu beijo

Mas as marés do meu peito
Essas marés do meu peito
Vestiram-me o teu desejo
Levaram-me ao teu leito
Quero esquecer-te a qualquer jeito
Mas tenho um beijo cravado no peito

Mas as marés do meu peito
Essas marés do meu peito
Vestiram-me o teu desejo
Levaram-me ao teu leito
Quero esquecer-te a qualquer jeito
Mas tenho um beijo cravado no peito

Letra e música: Tiago Curado de Almeida
Intérprete: Pensão Flor (in CD “O Caso da Pensão Flor”, Pensão Flor/Brandit Music, 2013)

Por que voltas de que lei

Letra: Amália Rodrigues
Música: Mário Pacheco
Intérprete: Maria Ana Bobone

Porque sou o cavaleiro andante

[ Cavaleiro andante ]

Porque sou o cavaleiro andante
Que mora no teu livro de aventuras
Podes vir chorar no meu peito
As mágoas e as desventuras

Sempre que o vento te ralhe
E a chuva de maio te molhe
Sempre que o teu barco encalhe
E a vida passe e não te olhe

Porque sou o cavaleiro andante
Que o teu velho medo inventou
Podes vir chorar no meu peito
Pois sabes sempre onde estou

Sempre que a rádio diga
Que a América roubou a lua
Ou que um louco te persiga
E te chame nomes na rua

Porque sou o que chega e conta
Mentiras que te fazem feliz
E tu vibras com histórias
De viagens que eu nunca fiz

Podes vir chorar no meu peito
Longe de tudo o que é mau
Que eu vou estar sempre ao teu lado
No meu cavalo de pau

Porque teimas nesta dor

Letra: José Luís Gordo
Música: Carlos Gomes
Intérprete: Ana Moura

Que bom dar-te a mão

[ Balada para o Meu Amor ]

Que bom dar-te a mão
e juntos para crer
fazer o coração e a senda
de viver no perdão
e no amor
E ao ver-te chegar
com sonhos p’ra me dar
de calma e silêncio vindo
que seja bem-vindo
o meu amor

Existe e ficou aqui
encostado ao meu ombro
Prometeu cuidar de mim
O meu amor está sempre do meu lado
quando a vida atira e queima
e na luta saio magoado

Porta que teima abriu
do paraíso um ser sorriu
e a Eva no jardim resiste
à culpa do pecado que não existe
Trouxe a luz e eis que ensina
que há um braço que segura
na água mole na pedra dura
no bem e no mal o amor perdura

Existe e ficou aqui
encostado ao meu ombro
Prometeu cuidar de mim
O meu amor está sempre do meu lado
quando a vida atira e queima
e na luta saio magoado

Letra e música: Luís Galrito
Intérprete: Luís Galrito (in CD “Menino do Sonho Pintado”, Kimahera, 2018)

Rasga esses versos

[ Os Meus Versos ]

Rasga esses versos que eu te fiz, Amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada de um momento!
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!…

Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente…

Rasgas os meus versos… Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!…

Poema: Florbela Espanca (in Reliquiae, 1934)
Música: Paulo Valentim
Intérprete: Kátia Guerreiro (in CD “Nas Mãos do Fado”, Ocarina, 2003)

Roubei-te um beijo

Roubei-te um beijo,
Não querias dar;
Estou muito triste,
Mas por ti não vou chorar.

Não vou chorar,
Não vou sofrer;
Estou muito triste,
Mas por ti não vou morrer.

Estou d’abalada,
Vou para terras de Espanha;
Tu não me queres,
Aqui mais ninguém me apanha.

Ninguém me apanha,
Já cá não está quem sofria;
Meu lindo Amor,
Tu hás-de chorar um dia.

Tristes lamúrias
Do rouxinol
Enchem minh’alma
Do nascer ao pôr-do-sol.

Ao pôr-do-sol,
À luz da lua,
Não há no mundo
Cara mais linda que a tua.

Estou d’abalada,
Vou para terras de Espanha;
Tu não me queres,
Aqui mais ninguém me apanha.

Ninguém me apanha,
Já cá não está quem sofria;
Meu lindo Amor,
Tu hás-de chorar um dia.

Roubei-te um beijo,
Foi por paixão;
Vê lá, não digas a ninguém
Que eu sou ladrão!

Que eu sou ladrão
Apaixonado!
Meu lindo amor,
Quero viver a teu lado!

Estou d’abalada,
Vou para terras de Espanha;
Tu não me queres,
Aqui mais ninguém me apanha.

Ninguém me apanha,
Já cá não está quem sofria;
Meu lindo Amor,
Tu hás-de chorar um dia.

Letra e música: Armando Torrão
Intérprete: Celina da Piedade (in 2CD “Em Casa”: CD 2, Celina da Piedade/Melopeia, 2012)

Celina da Piedade
Celina da Piedade, Roubei-te um beijo

Sem ser ainda

[ Portal dos Ventos ]

Sem ser ainda
Um mal que finda,
Portal dos Ventos
De um outro… Amor!

Marés que passam,
Luas que mudam,
E os dias correm
Ao teu… Sabor!

E se o silêncio
Navega calmo,
Mais calmo fica
O teu… Calor!

À luz de agora
Aquece a alma,
E o Vento aperta
O teu… Sabor!

Sei que os teus medos
São raios de seda,
E que os segredos
Não há quem os traga…

Mas, os teus olhos
Não fogem dos meus,
Cantam segredos
À luz de um amor…

De um amor…

Sem ser ainda…
E se o silêncio…
Sei que os teus medos…

Sei que os teus medos
São raios de seda,
E que os segredos
Não há quem os traga…

Mas, os teus olhos
Não fogem dos meus,
Cantam segredos
À luz de um amor…

De um amor…

Letra: José Flávio Martins
Música: António Pedro
Intérprete: Musicalbi
Versão original: Musicalbi (in CD “Solidão e Xisto”, Musicalbi, 2019)

Musicalbi, Solidão e Xisto
Musicalbi, Solidão e Xisto

Subir, Subir

Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir
Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir

Mensageiros de Cupido
Eu ando deprimido
Intercedei por mim ao vosso Deus!
Estou de amores com uma catraia
Que p’ra subir a saia
Exige grandes sacrifícios meus

Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir
Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir

Levantei velas à barca
Mas a brisa era parca
Nem deu para agitar o meu corcel
Assim nunca mais te chego
A ter no aconchego
Tirar-te dessa ilha de papel

Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir
Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir

Fiz consulta a feiticeiros
E santos padroeiros
Deixei bruxeiros de cabeça à toa
Findei o consultamento
E como rendimento
Saíram-me (imaginem!) os Gaiteiros de Lisboa

Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir
Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir

Letra e música: Mário Alves (Vozes da Rádio)
Intérprete: Gaiteiros de Lisboa
Versão discográfica ao vivo dos Gaiteiros de Lisboa, com Vozes da Rádio (in 2CD “Dançachamas: Ao Vivo”: CD 1, Farol Música, 2000)
Versão original: Vozes da Rádio com Gaiteiros de Lisboa (in CD “Mappa do Coração”, Ariola/BMG Portugal, 1997)

Sábado à noite

[ Primavera ]

Sábado à noite não sou tão só
Somente só
A sós contigo assim
E sei dos teus erros
Os meus e os teus
Os teus e os meus amores que não conheci

Parasse a vida
Um passo atrás
Quis-me capaz
Dos erros renascer em ti

E se inventado, o teu sorriso for
Fui inventor
Criei o paraíso assim

Algo me diz que há mais amor aqui
Lá fora só menti
Eu já fui de cool por aí
Somente só, só minto só
Hei-de te amar, ou então hei-de chorar por ti
Mesmo assim, quero ver te sorrir…
E se perder vou tentar esquecer-me de vez, conto até três
Se quiser ser feliz…

Se há tulipas
No teu jardim
Serei o chão e a água que da chuva cai
Para te fazer crescer em flor, tão viva a cor
Meu amor eu sou tudo aqui…

Sábado à noite não sou tão só
Somente só
A sós contigo assim
Não sou tão só, somente só

Intérprete: The Gift

Tenho uma rosa p’ra ti

[ Tangerina dos Algarves ]

Tenho uma rosa p’ra ti
Tenho uma rosa encarnada
Tenho uma rosa no mar
Tenho uma rosa molhada
Circula a noite no tempo
sobre as nossas gargalhadas
Tenho uma rosa p’ra ti
Tenho uma rosa encarnada

Vou sonhar com o teu olhar
oceano de água e mar

Vou fugir com o teu olhar
oceano de água e mar
sobre o mistério

Vou fugir com o teu olhar
oceano de água e mar
sobre o mistério

Em castelos de areia
eu escrevi um nome ao lado
Foi por ti que conheci
a tangerina dos Algarves

Em castelos de areia
eu escrevi um nome ao lado
Foi por ti que conheci
a tangerina dos Algarves

Anda o Sol por trás da serra
Há cheiro a funcho queimado
E este abanão duma vaga
que chega sem avisar

Vinho rubro a navegar
por segredos do Universo
Desfolho a rosa no rio
p’ra te oferecer com um verso

Vou sentir o teu sabor
oceano de água e mar

Vou sentir com o teu sabor
oceano de água e flor
de tangerina

Vou sentir com o teu sabor
oceano de água e flor
de tangerina

Em castelos de areia
eu escrevi um nome ao lado
Foi por ti que conheci
a tangerina dos Algarves

Em castelos de areia
eu escrevi um nome ao lado
Foi por ti que conheci
a tangerina dos Algarves

Letra e música: João Afonso Lima
Intérprete: João Afonso (in CD “Barco Voador”, Mercury/Universal Music Portugal, 1999; CD “João Afonso: A Arte e a Música”, Universal Music Portugal, 2004)

Trago um jardim no sentido

[ Jardim dos Sentidos ]

Trago um jardim no sentido,
Por ter sentido o que sinto:
Amor que não faz sentido
Num coração louco e faminto.

No jardim do meu sentido
Nascem cravos cardinais;
Também eu nasci no mundo
P’ra te querer cada vez mais.

No jardim do rei há rosas,
Também há malvas de cheiro;
Não há luz como a do dia,
Nem amor como o primeiro.

Coração louco e faminto,
Rosa que tenho sentido;
Jardim que anda perdido,
Por ter sentido o que sinto.

No jardim do meu sentido
Nascem cravos cardinais;
Também eu nasci no mundo
P’ra te querer cada vez mais.

No jardim do rei há rosas,
Também há malvas de cheiro;
Não há luz como a do dia,
Nem amor como o primeiro.

Por ter sentido o que sinto,
Amor que não faz sentido
Jardim que anda perdido,
Trago um jardim no sentido.

No jardim do meu sentido
Nascem cravos cardinais;
Também eu nasci no mundo
P’ra te querer cada vez mais.

No jardim do rei há rosas,
Também há malvas de cheiro;
Não há luz como a do dia,
Nem amor como o primeiro.

Trago um jardim no sentido…

Letra e música: Pedro Mestre
Intérprete: Pedro Mestre com António Zambujo (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015)
Outra versão de Pedro Mestre, com António Zambujo (in DVD “No CCB: Pedro Mestre & Convidados”, Pedro Mestre, 2017)

Tu e eu meu amor

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua a mão que segura
outra mão que lhe é dada
nua a suave ternura
na face apaixonada
nua a estrela mais pura
nos olhos da amada
nua a ânsia insegura
de uma boca beijada.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nu o riso e o prazer
como é nua a sentida
lágrima a correr
na face dolorida
nu o corpo do ser
na hora prometida
meu amor que ao nascer
nus viemos à vida.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua nua a verdade
tão forte no criar
adulta humanidade
nu o querer e o lutar
dia a dia pelo que há-de
os homens libertar
amor que a eternidade
é ser livre e amar.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Poema: Manuel da Fonseca (De “Poemas Inéditos”, in “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 5.ª edição, Lisboa: Forja, 1975 – p. 179-180)
Música: Paulo Ribeiro
Intérprete: Paulo Ribeiro com Ana Lúcia Magalhães (in CD “O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis”, Açor/Emiliano Toste, 2017)

Paulo Ribeiro

Paulo Ribeiro

Vem

Vem no vento que envolve a montanha
E lhe esculpe grutas e segredos
Que a cinge e a estreita nas fragas
Vem nas silvas que rasgam os dedos

Como a rocha que na costa aguarda
A tal onda que explode ao morrer
Chicoteando do mar os penhascos
Por mais ásperos que pareçam ser

Vem cantando na verde campina
Terra-mãe de onde nasce o pão
Ondulante seara menina
Como as crinas dos cavalos que vão

Como criança pela mão do avô
Vai para a escola no dia primeiro
Passo a passo alcançar o futuro
Destrinçar o saber verdadeiro

Vem nos braços da rua a cidade
Se for praça de causas perfeitas
E o coração te falar mais verdade
Que as palavras dos outros, tão estreitas

Vem-me aos braços, que eu não me envergonho
Planta o mundo todo qu’inda houver
Traz a alma, que eu trago o meu sonho
E o espanto pode acontecer

Letra e música: Pedro Barroso («Dedicado à minha neta Constança, em nome do Futuro»)
Intérprete: Pedro Barroso*
Versão original: Pedro Barroso (in CD “Artes do Futuro”, Ovação, 2017)

Vem, quero beijar-te o corpo

[ Profano ]

Vem, quero beijar-te o corpo
Quero provar-te o gosto
Quero rasgar-te a pele
Soltar-te o corpo em mim

Que te faço tão profano
Soldado do meu ventre
Que emudece à minha frente
As regras deste amor

Vem pedir-me a preceito
Que te possua em desejo
Que te consuma nesse leito
E desse jeito que é teu

Quando me devoras os sentidos
E me pedes aos ouvidos
Que te amarra, te prenda,
Te bata, te faça assim mulher vulgar

Vem beijar este meu corpo
Vem provar deste meu gosto
Vem rasgar esta pele
E soltar-me o corpo em ti

Que me faço tão profana
Desejo desse teu corpo
Que emudece à tua frente
As regras deste amor

Quero pedir-te a preceito
Que me consumas em desejo
Que me consumas nesse leito
E desse jeito que é teu

Que me devoras os sentidos
Quero pedir-te aos ouvidos
Que me amarres, me prendas,
Me batas, me faças assim mulher vulgar

Letra e música: Tiago Curado de Almeida
Intérprete: Pensão Flor* (in CD “O Caso da Pensão Flor”, Pensão Flor/Brandit Music, 2013)

Vi-te dum vermelho antigo

[ A Minha Cor (Vermelho Antigo) ]

Vi-te dum vermelho antigo,
Trazias a minha cor;
Meus olhos foram contigo
E alguém disse que era amor.

Cor de sangue aveludado,
Cor de seda ou de cetim,
Cor de vinho ou de pecado:
Foi a cor que viste em mim.

De fadista só me viste
Um olhar estranho e sombrio:
Não era ardente nem triste,
Não era vago nem frio.

Tua voz, cor de cantiga,
Espalhava de mãos cheias
Um sabor a raça antiga
Que salta nas minhas veias.

Fosse sede ou fosse amor,
Que importa o que foi, enfim?
Trazias a minha cor,
Nada mais contou p’ra mim.

Letra: Manuel Andrade
Música: Pedro Rodrigues (Fado Pedro Rodrigues de Quadras)
Intérprete: Marta Pereira da Costa* com Hélder Moutinho
Versão discográfica de Hélder Moutinho (com música de Joaquim Campos – Fado Amora) (in CD “Sete Fados e Alguns Cantos”, Ocarina, 1999)
Versão original: João Braga (in EP “Janeiro Proibido”, Aquila, 1968; “Todos os Fados de A a Z: Vol. 12 – Fado Pajem ao Fado Pintadinho”, Movieplay/Visão, 2005; CD “João Braga: Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006)

Volta e meia estou de volta

[ Fado às Voltas ]

Volta e meia estou de volta,
volta e meia já não estou;
quem me quis à rédea solta
foi quem comigo ficou.

Quem, em troca de carinho,
quis prender-me o coração
ficou a falar sozinho
nas voltinhas do Marão.

Quantas voltas dá o mundo
P’ra ensinar que a verdade
é que a vida é um segundo
aos olhos da eternidade?

Vamos lá: é volta e meia
cada qual escolhe o seu par!
Que eu posso mudar de ideia,
antes da volta acabar.

Volta e meia estou de volta,
volta e meia já não estou;
quem me quis à rédea solta
foi quem comigo ficou.

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Alberto Costa (Fado Dois Tons)
Intérprete: Cristina Nóbrega
Versão original: Cristina Nóbrega (in CD “Um Fado para Fred Astaire”, Watch & Listen, 2014)

Cristina Nóbrega
Cristina Nóbrega
https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/05/amor-casal.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-07 05:43:482025-06-19 22:09:12Canções de amor
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