Gileno Santana

A grande nau Catrineta

[ Cantiga de levantar ferro ]

A grande nau Catrineta
Tem os seus mastros de pinho.
Ai lé, ai lé,
Marujinho, bate o pé.
O ladrão do despenseiro
Furtou a ração do vinho.
Ai lé, ai lé,
Marinheiro, vira à ré.

Antes de caçar as gáveas,
Põe-se o ferro sempre a pique.
Ai lé, ai lé,
Cada qual mostra o que é.
Para a nau ficar a nado
Abrem-se as portas ao dique.
Ai lé, ai lé,
Chega tudo cá p’rá ré.

Quando as gáveas vão aos rizes,
A maruja talha o lais.
Ai lé, ai lé,
Quem é moiro não tem fé.
Sobem dois a impunir,
A rizar sobem os mais.
Ai lé, ai lé,
Tu com tu, e cré com cré.

Quando o barco faz cabeça,
Ala braços, iça a giba.
Ai lé, ai lé,
Vai de longo que é maré.
Quando ele arranca o ferro,
Vira então de leva arriba.
Ai lé, ai lé,
Vira mar e San José.

E de usança, ao quarto d’alva,
Matar na coberta o bicho.
Ai lé, ai lé,
Deixa a maca, põe a pé.
Antes da baldeação,
Varre o moço, apanha o lixo.
Ai lé, ai lé,
Peito à barra, finca o pé.

Todo o barco que anda a corso
Caça outro que se veja.
Ai lé, ai lé,
Muito cafre tem Guiné.
E todo o moço do convés
Caça a isca na bandeja.
Ai lé, ai lé,
Mazagão não é Salé.

Letra: Autor desconhecido (possivelmente do séc. XVII)
Música: Francisco Pimenta
Intérprete: O Baú com Sebastião Antunes (in CD “Achega-te”, O Baú, 2012)

A história que a gente vos quer contar

[ Travessa do Poço dos Negros ]

A história que a gente vos quer contar
Aconteceu um dia em Lisboa
Aonde o tempo corre devagar

Chegámos era cedo à ribeira
Ainda todo o peixe respirava
E a outra carga aos poucos definhava

O gemido do cordame das amarras
Juntava-se ao lamento dos porões
E o que nos chega fora são canções

A gente viu sair uma outra gente que dançava
Um estranho bailado em tom dolente
Marcado pelo bater das correntes

Anda linda
Vamos p’ra ver se é verdade
Que lá se pode ouvir cantar
Anda linda
Vamos ao poço dos negros
P’ra ver quem pode lá morar

Mais tarde fomos ter àquela parte da cidade
Que é mais profunda do que a maré baixa
E a Lua só visita por vaidade

De novo a estranha moda se dançava
Agora com suspiros de saudade
Agora com bater de corações

Anda linda
Vamos p’ra ver se é verdade
Que lá se pode ouvir cantar
Anda linda
Vamos ao poço dos negros
P’ra ver quem pode lá morar

Batiam com as barrigas e roçavam-se nas coxas
Os corpos já dourados de suor
E as bocas já vermelhas dos amores

Quisemos nós saber qual era o nome desta moda
Respondeu-nos um velho já mirrado:
Lundum, mas se quiserem chamem Fado

Anda linda
Vamos p’ra ver se é verdade
Que lá se pode ouvir cantar
Anda linda
Vamos ao poço dos negros
P’ra ver quem pode lá morar

Letra: Luís Represas
Música: João Gil
Intérprete: Trovante (in “Trovante 84”, EMI-VC, 1984; reed. 1988)

Ai apertem os cintos

[ Corpo Inteiro ]

Ai apertem os cintos, vamos começar
Vou contar uma história de desencantar
Eram quatro donzelas a olhar o Sol
Cada qual em busca do amor
Procurando saber o que arde sem se ver
Se é a dor ou se é o prazer

A primeira caiu num sono fatal
À espera que um sapo a salvasse do mal
A segunda abalou nas ondas do mar
Nunca mais veio p’ra contar
A terceira, devota subiu aos céus
Uma voz que fugiu do lugar

Vou contar uma história de desencantar
Eram quatro donzelas presas pelo olhar
Já três delas se foram por causa do amor
Como carne que estilhaçou
Se o que arde não cura e o desejo é fartura
Só a quarta é que se salvou

Vou contar uma história de desencantar
Vi a quarta donzela que olhava p’ra o mar
De improviso cantava para o último sol
A mais doce feitiçaria
Quatro flores cortadas e ela não murchou
E das febres fez alegria

Letra: Miguel Cardina
Música: Pedro Damasceno e Julieta Silva
Arranjo: Diabo a Sete e Julieta Silva
Intérprete: Diabo a Sete* (in CD “Figura de Gente”, Sons Vadios, 2016)

Beatriz foi à praça

[ Beatriz e João ]

Beatriz foi à praça para comprar o pão,
Pela manhã se arregaça, para a vida vencer
E, na cama deitado de ressaca, o João
Chegou embriagado, deitou tudo a perder

Beatriz sai porta fora, o João fica a chorar
Diz que se vai embora se isto continuar

Mulher feliz namora e não quer chorar
Não deixes ir embora quem te quer namorar!

O João volta a casa e promete mudar
Beatriz desconfia, tentando acreditar
Dedicou-se à mulher, entregou-se a valer
Mas ela sabe o que quer e não se quer perder

João sai porta fora, Beatriz fica a chorar
Diz que se vai embora se isto continuar

Homem feliz namora e não quer chorar
Não deixes ir embora quem te quer namorar!

Beatriz chama o João, com tanto p’ra discutir
Quis ouvir olhando nos olhos o João dizendo que não vai repetir
O João prometeu, pediu-lhe para acreditar
Beatriz respondeu: “Tudo bem, mas vou-me embora se isto continuar…”

Mulher feliz namora e não quer chorar
Não deixes ir embora quem te quer namorar!

Homem feliz namora e não quer chorar
Não deixes ir embora quem te quer namorar!

Letra e música: Luís Pucarinho
Intérprete: Luís Pucarinho* (in CD “SaiArodada”, Luís Pucarinho/Alain Vachier Music Editions, 2018)

De um trapo velho

[ Cinco Vidas ]

De um trapo velho fiz
cinco saias que querem rodar
Num pano branco cosi
cinco bolsos para te levar

De saco às costas parti
sem saber se ia voltar
Cabeça erguida
e olhos de quem quer olhar

Pus-te na minha mão
cinco dedos para me escapar
O mundo deu-me então
cinco vidas para me curar

E lá do bolso de trás
perguntaste se ainda podias falar
Cabeça erguida, respondi:
tanto me faz

Pela estrada andei
quantas voltas eu dei
sem encontrar
um motivo para voltar

De um trapo velho fiz
cinco saias que querem rodar
Num pano branco cosi
cinco bolsos para te levar

E lá do bolso de trás
perguntaste quando ia parar
Cabeça erguida, respondi:
até ter paz

Pela estrada andei
quantas voltas eu dei
sem encontrar
um motivo para voltar

tanto me faz
até ter paz

Letra: Eugénia Ávila Ramos
Música: Tiago Oliveira
Intérprete: Rua da Lua* (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)

Deram-me uma burra

[ Cantiga da Burra ]

Deram-me uma burra que era mansa
Que era brava
Toda bem-parecida
Mas a burra não andava
A burra não andava
Nem p’rá frente nem p’ra trás
Muito eu lhe ralhava
Mas eu não era capaz
Eu não era capaz de fazer a burra andar
Passava do meio-dia e eu a desesperar
E eu a desesperar
Ai que desespero o meu
Falei-lhe num burrico
E a burra até correu

Deram-me uma burra que era mansa
Que era brava
Toda bem-parecida
Mas a burra não andava
A burra não andava
Nem p’rá frente nem p’ra trás
Muito eu lhe ralhava
Mas eu não era capaz
Eu não era capaz de fazer a burra andar
Passava do meio-dia e eu a desesperar
E eu a desesperar
Ai que desespero o meu
Falei-lhe num burrico
E a burra até correu

Letra e música: Sebastião Antunes, Manuel Meirinhos, Paulo Meirinhos, Alexandre Meirinhos e Paulo Preto
Arranjo: Luís Peixoto
Intérprete: Sebastião Antunes e a Quadrilha com Galandum Galundaina (in CD “Com Um Abraço”, Vachier & Associados, 2012)

Deu-se agora

[ Casório Divertido ]

Deu-se agora, há pouco tempo,
Um casório divertido:
A noiva mais que danada,
Lá pela noite adiantada,
Arrancou o nariz ao marido.

É o que acontece aos velhos
Que procuram mocidade…
Quando se despiu deitou
E o nariz lhe arrancou
Por não fazer a vontade.

Procuraram-lhe as vizinhas:
— «Que fizeste ao teu Viriato?»
— «Dormir com homem e ter frio,
Dormir com homem e ter frio,
Vale mais dormir com gato!»

Foi consultar o doutor,
Disse-lhe que não tinha cura;
E agora, por qualquer lado,
A chorar o desgraçado,
Faz uma triste figura.

Letra e música: Tradicional (Aldeia do Bispo, Guarda, Beira Alta)
Informante: Júlia Costa Fonseca
Recolha: Américo Rodrigues
Intérpretes: Ariel Ninas & César Prata (in CD “Cantos de Cego da Galiza e Portugal”, aCentral Folque, 2016)

Ele vinha sem muita conversa

[ Minha História ]

Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar
Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar
Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
Minha mãe se entregou a esse homem perdidamente

Ele assim como veio partiu não se sabe p’ra onde
E deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe
Esperando, parada, pregada na pedra do porto
Com seu o único velho vestido cada dia mais curto

Quando enfim eu nasci, minha mãe embrulhou-me num manto
Me vestiu como se eu fosse assim uma espécie de santo
Mas por não se lembrar de acalantos, a pobre mulher
Me ninava cantando cantigas de cabaré

Minha mãe não tardou a alertar toda a vizinhança
A mostrar que ali estava bem mais que uma simples criança
E não sei bem se por ironia ou se por amor
Resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor

Minha história é esse nome que ainda carrego comigo
Quando vou bar em bar, viro a mesa, berro, bebo e brigo
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de Menino Jesus

Letra: Chico Buarque, a partir da letra original de Paola Pallotino para a canção “4 marzo 1943”
Música: Lucio Dala
Intérprete: Pensão Flor* (ao vivo no Teatro da Luz, Lisboa)
Versão discográfica de Pensão Flor (in CD “O Caso da Pensão Flor”, Pensão Flor/Brandit Music, 2013)
Primeira versão de Chico Buarque (in LP “Construção”, Philips, 1971, reed. Philips, 1988, Universal Music, 2017)
Versão original: Lucio Dala (in LP “Storie di Casa Mia”, RCA Italiana, 1971, reed. RCA/BMG Ricordi, 1996)

* Pensão Flor:
Vânia Couto – voz
Tiago Curado de Almeida – guitarra clássica, voz
Luís Pedro Madeira – piano, acordeão
Manuel Portugal – guitarra portuguesa
Luís Garção Nunes – cordofones (cordas de aço dedilhadas)
Pedro Lopes – viola de fado
Gonçalo Leonardo – contrabaixo

Estavam todas juntas

[ Ronda das Mafarricas ]

Estavam todas juntas
Quatrocentas bruxas
À espera, à espera
À espera da lua cheia

Estavam todas juntas
Veio um chibo velho
Dançar no adro
Alguém morreu

Arlindo coveiro
Com a tua marreca
Leva-me primeiro
Para a cova aberta

Arlindo, Arlindo
Bailador das fadas
Vai ao pé coxinho
Cava-me a morada

Arlindo coveiro
Cava-me a morada
Fecha-me o jazigo
Quero campa rasa

Arlindo, Arlindo
Bailador das fadas
Vai ao pé coxinho
Cava-me a morada

Letra: António Quadros (pintor)
Música: José Afonso
Intérprete: José Afonso (in “Cantigas do Maio”, Orfeu, 1971, reed. Movieplay, 1987)

Eu que me comovo

[ Bolero do Coronel Sensível Que Fez Amor em Monsanto ]

Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: “fiz serão”
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada

Letra: António Lobo Antunes
Música: Vitorino
Intérprete: Vitorino (in CD “Eu Que me Comovo por Tudo e por Nada”, EMI-VC, 1992)

Façam roda

[ Conto do Bicho Papão ]

Façam roda a ver quem vai ao meio
cada um com seu par, tira a pedrinha
ciruma, acabei eu primeiro
ficas tu a tapar, não dá madrinha
já ninguém te pergunta quantos queres
já não ouves ninguém contar: um, dó, li, tá
afinal qual é o dedo que preferes
quem está livre, livre está

Ninguém fala do homem do saco
ninguém espreita por baixo do colchão
já ninguém acredita na côca
nem no bicho papão

Salta à corda, joga à barra do lenço
adivinha o que eu penso, dá a partida
falua, quem acerta na malha
danada da canalha está fugida
salta ao eixo a fugir à cabra cega
olha o meu pião, mas eu não to dou não
onde é que anda a viuvinha que não chega?
E a sardinha a dar na mão

Ninguém fala do homem do saco
ninguém espreita por baixo do colchão
já ninguém acredita na côca
nem no bicho papão

Ai se eu pudesse habitar
um jogo electrónico
voltava a ser falado,
voltava a assustar
imaginem lá qual não era a sensação
de uma consola
com o jogo do regresso do papão

Ninguém fala do homem do saco
ninguém espreita por baixo do colchão
já ninguém acredita na côca
nem no bicho papão

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Quadrilha (in CD “Entre Luas”, Ovação, 1997)

Não sei se tinha chegado

[ Rapariga da Estação ]

Não sei se tinha chegado,
Se porventura partia…
Mas tinha um lugar sentado
E reparei no que lia.

Cabelos negros caídos
– Longos, lisos, deprimidos –
Escondem o decote ousado
Do seu cinzento vestido.

Não consegui dizer nada,
Preferi que fosse assim:
Antes só que acompanhada
Mesmo que seja por mim.

Condição de quem resiste:
Abandono, solidão…
Tão inspiradora e triste
Rapariga da estação.

Não consegui dizer nada,
Preferi que fosse assim:
Antes só que acompanhada
Mesmo que seja por mim.

Condição de quem resiste:
Abandono, solidão…
Tão inspiradora e triste
Rapariga da estação.

Letra e música: Duarte
Intérprete: Duarte* (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018)

Ia eu pelo concelho de Caminha

[ Coro das Velhas ]

Ia eu pelo concelho de Caminha
quando vi sentada ao sol uma velhinha
curioso, uma conversa entabulei
como se diz nuns romances que eu cá sei

Chamo-me Adozinha, disse, e tenho já
os meus 84 anos, feitos há
mês e meio, se a memória não me falha
mas inda vou durar uns anos, Deus me valha

Com esta da austeridade, meu senhor
nem sequer dá para ir desta pra melhor
os funerais estão por um preço do outro mundo
dá pra desistir de ser um moribundo

Rabugenta, eu? Não senhor
eu hei-de ir desta pra melhor
mas falo pelos que eu cá deixo
não é por mim que eu me queixo
não é por mim que eu me queixo

Ó Felisbela, ó Felismina
ó Adelaide, ó Amelinha
ó Maria Berta, ó Zulmirinha
vamos cantar o coro das velhas?
Vamos!

Cá se vai andando
co’a cabeça entre as orelhas

Não sei ler nem escrever mas não me ralo
alguns há que até a caneta lhes faz calo
é só assinar despachos e decretos
p’ra nos dar a ler a nós, analfabetos

E saúde tenho p’ra dar e vender
não preciso de um ministro para ter
tudo o que ele anda a ver se me pode dar
pode ir ele para o hospital em meu lugar

E quanto a apertar cinto, sinto muito
filosofem os que sabem lá do assunto
mas com esta cinturinha tão delgada
inda posso ser de muitos namorada

Rabugenta, eu? Não senhor
eu hei-de ir desta pra melhor
mas falo pelos que eu cá deixo
não é por mim que eu me queixo
não é por mim que eu me queixo

Ó Felisbela, ó Felismina
ó Adelaide, ó Amelinha
ó Maria Berta, ó Zulmirinha
vamos cantar o coro das velhas?
Vamos!

Cá se vai andando
co’a cabeça entre as orelhas

E se a morte mafarrica, mesmo assim
me apartar das outras velhas, logo a mim
digo ao Diabo, “não te temo, ó camafeu
conheci piores infernos do que o teu”

Rabugenta, eu? Não senhor
eu hei-de ir desta pra melhor
mas falo pelos que eu cá deixo
não é por mim que eu me queixo
não é por mim que eu me queixo

Ó Felisbela, ó Felismina
ó Adelaide, ó Amelinha
ó Maria Berta, ó Zulmirinha
vamos cantar o coro das velhas?
Vamos!

Cá se vai andando
co’a cabeça entre as orelhas

Letra e música: Sérgio Godinho
Intérprete: Sérgio Godinho (in “Salão de Festas”, Philips/Polygram, 1984; “Era Uma Vez Um Rapaz”, Philips/Polygram, 1985; “Noites Passadas: O Melhor de Sérgio Godinho (ao vivo)”, EMI-VC, 1995)

No centro da Avenida

[ Teresa Torga ]

No centro da Avenida,
No cruzamento da rua,
Às quatro em ponto, perdida
Dançava uma mulher nua.

A gente que via a cena
Correu para junto dela
No intuito de vesti-la,
Mas surge António Capela

Que aproveitando a barbuda
Só pensa em fotografá-la.
Mulher na democracia
Não é biombo de sala.

Dizem que se chama Teresa,
Seu nome é Teresa Torga;
Muda o pick-up em Benfica
E atura a malta da borga.

Aluga quartos de casa
Mas já foi primeira estrela;
Agora é modelo à força
Que o diga António Capela.

T’resa Torga, T’resa Torga
Vencida numa fornalha!
Não há bandeira sem luta,
Não há luta sem batalha!

T’resa Torga, T’resa Torga
Vencida numa fornalha!
Não há bandeira sem luta,
Não há luta sem batalha!

Letra e música: José Afonso
Intérprete: Ana Laíns
Versão discográfica de Ana Laíns (in CD “Portucalis”, Ana Laíns/Seven Muses, 2017)
Versão original: José Afonso (in LP “Com as Minhas Tamanquinhas”, Orfeu, 1976, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art’Orfeu Media, 2012)

No mercado da Ribeira

[ O Namorico da Rita ]

No mercado da Ribeira
há um romance de amor
entre a Rita que é peixeira
e o Chico que é pescador

Sabem todos os que lá vão
que a Rita gosta do Chico
só a mãe dela é que não
consente no namorico

Quando ele passa por ela
ela sorri descarada
porém, o Chico à cautela
não dá trela nem diz nada

Que a mãe dela quando calha
ao ver que o Chico se abeira
por dá cá aquela palha
faz tremer toda a Ribeira

Namoram de manhãzinha
e da forma mais diversa
dois caixotes de sardinha
dão dois dedos de conversa

E há quem diga à boca cheia
que depois de tanta fita
o Chico de volta e meia
prega dois beijos na Rita

Quando ele passa por ela
ela sorri descarada
porém o Chico à cautela
não dá trela nem diz nada

Que a mãe dela quando calha
ao ver que o Chico se abeira
por dá cá aquela palha
faz tremer toda a Ribeira

Letra: Artur Ribeiro
Música: António Mestre
Intérprete: Amália Rodrigues (1946; 1958) (in CD “Fado Amália”, Movieplay, 1998)

No Sábado eu fui

[ O café da Sãozinha ] 

No Sábado eu fui
beber o meu fino
ali ao café da Sãozinha
e lá a conversa por mais quieta
chega sempre à cozinha

O prato do dia
junto trazia o caso de uma senhora
Que disse ter visto a Zaida
sair de mão dada
com o Zé do Candal

E o morcão do homem dela
de barba à janela
A ler o jornal 
E por entre tintos e brancos
Bagaços sandes de presunto
Como àgua a correr
de mesa pra mesa rodava o assunto

Sem se fazer caso
era vê-lo crescer 
O irmão do barbudo
até então mudo
deixa sair uma posta
que a gaja é uma sostra
não faz nenhum
e sabe bem do que gosta
O Rui dos Guindais
que conhece os pais
chegou-se mais ao balcão
E de mão em concha confessa
que ele é uma peça
e não tem posição
que estoura o guito no casino
e em casa o menino
alimenta-se a pão 
E por entre tintos e brancos
Bagaços sandes de presunto
Como água a correr
de mesa pra mesa
rodava o assunto
Sem se fazer caso
era vê-lo crescer 
O homem da São
conhece a canção
e tira da manga a manilha
saca da raquete
e atira o filete
prós ouvidos da filha
eu sempre te disse
desta família
não há um que se aproveite
esquece o Candal ó Tininhas
e não queres ver
a madeira a queimar
se um anda perdido no jogo
o outro há de ter fogo
para a gente apagar 
E por entre tintos e brancos
Bagaços sandes de presunto
Como água a correr
de mesa pra mesa
rodava o assunto

Sem se fazer caso
era vê-lo crescer 
O Gusto do talho
pai da Zaidinha
chega e pede um cimbalino
E o Tó do café
faz conversa a ré
e encosta o pente fino
A São que sabia que na cantoria
não tinha sido a primeira
falou afiando as facas
O que há mais é vacas
E bois a pastar

O António estava como a cal
implorando a Jesus
para a São se calar 

E por entre tintos e brancos
Bagaços sandes de presunto
Como água a correr
de mesa p’ra mesa
rodava o assunto
Sem se fazer caso
era vê-lo crescer

Letra: Manel Cruz
Música: Gileno Santana
Voz: Vitorino Salomé
Acordeão: Inês Vaz
Bateria/Percussão: Mário Costa
Produção: João Bessa
Animação: Filipe Meunier

P’lo artigo cento e tal

[ Fado Jurídico-Criminal ]

P’lo artigo cento e tal
Da regra dos bons costumes,
A maçã do senhor Nunes
É um bem celestial.

Estão a postos os jurados,
Numa sala as testemunhas;
O arguido rói as unhas,
Os juízes descansados.

«Não fui eu, foi a Serpente!
Não sei mais o que lhes diga!»
«Isso é história muito antiga
Contada por toda a gente».

«Comi por ter muita fome»,
Suplicou o acusado,
«Sou órfão de pai e mãe
E estou desempregado.»

«Quantos anos, p’ra que constem?»,
Perguntou o presidente;
«Oitenta feitos ontem»,
O meirinho diligente.

«O senhor não tem vergonha
De ter fome àquela hora?
Mas que vício ou que peçonha
O não deixou vir embora?»

«Já me custa muito a andar
E o que eu quero já me esquece…
Fui vítima de maus tratos
E não tinha GPS!»

«Não pense que nos engana,
É suprema esta questão:
A maçã que aqui se trata
É a Civilização!

E que sorte tem o senhor
Demandado nesta liça,
Que tem pago defensor,
Que a tremer pediu justiça.

«Vai o réu, pois, condenado
À pena mais capital!»
Disse o último jurado:
«Esconjurado está o mal!»

Tudo está no seu lugar:
A maçã dos bons costumes,
A árvore que é do Nunes,
Os polícias a acenar.

O arguido p’rá cadeia,
A cadeia a transbordar;
O meirinho p’ró IKEA,
Os juízes a jantar.

O meirinho p’ró IKEA,
Os juízes a jantar.

Letra: João Gigante-Ferreira
Música: André Teixeira
Intérprete: Helena Sarmento*
Versão original: Helena Sarmento (in CD “Lonjura”, Helena Sarmento, 2018)

Uma velha, muito velha

[ Diabo da Velha ]

Uma velha, muito velha,
Veio aqui à minha aldeia
Com um saco pelas costas
Para fazer uma venda;
E o povo lá pedia…
Mas comprava o que não queria.

Foi para o largo apregoar:
«– Quem quer, quem quer?
Quem quer vir cá comprar
Belas coisas que aqui trago
Neste saco abençoado?
Venham que eu vendo barato!»

Fui lá ver o que ela tinha,
Queria eu uma sardinha;
Disse-me ela que não tinha
Mas que antes me vendia
Uma tampa de panela,
Ai o diabo da velha!

«– Oiça lá, ó menina,
P’ra que quer uma sardinha
Que até traz uma espinha
Que lhe pode fazer mal?
Antes disso leve a tampa
Que foi de nobre panela!
Pode confiar na velha,
Faço preço especial!»

Fui comprar eu a tampa:
Para que serve sem panela?!
Fui enganada, que tola!,
Pelo diabo da velha.

Uma velha, muito velha,
Veio aqui à minha aldeia
Com um saco pelas costas
Para fazer uma venda;
E o povo lá pedia…
Mas comprava o que não queria.

Foi para o largo apregoar:
«– Quem quer, quem quer?
Quem quer vir cá comprar
Belas coisas que aqui trago
Neste saco abençoado?
Venham que eu vendo barato!»

Voltei eu àquela venda:
Desta vez não caio, não!
Queria eu uma saia
Mas fez ela promoção:
Comprei quatro colchões,
Ai que bela ocasião!

«– Oiça lá, ó menina,
P’ra que quer uma saia
Que lhe dá ventos debaixo?
Ainda fica constipada…
Pela cara está cansada,
Deve andar a dormir mal…
Precisa de um colchão novo:
Vendo quatro ao preço de um.»

Fui comprar que era barato,
Lá caí eu na esparrela:
Vivo só, bastava-me um…
Fui enganada pela velha!

Uma velha, muito velha,
Veio aqui à minha aldeia
Com um saco pelas costas
Para fazer uma venda;
E o povo lá pedia…
Mas comprava o que não queria.

Foi para o largo apregoar:
«– Quem quer, quem quer?
Quem quer vir cá comprar
Belas coisas que aqui trago
Neste saco abençoado?
Venham que eu vendo barato!»

Eu também fui à venda,
Queria eu um serrote;
Vendeu-me ela um cavalo,
Sem saber andar a trote…
Ai o diabo da velha
E a minha triste sorte!

«– Oiça lá, belo moço,
P’ra que quer um serrote
Que sem dentes afiados
Não fazem nem um corte?!
Antes disso, um cavalo
Que sem dentes também corre
P’ra chamar a donzela
Que por certo trará sorte!»

Fui comprar aquele cavalo:
Para que serve sem a sela?!
Ainda nem uma donzela…
Fui enganado pela velha!

Uma velha, muito velha,
Veio aqui à minha aldeia
Com um saco pelas costas
Para fazer uma venda;
E o povo lá pedia…
Mas comprava o que não queria.

Letra e música: Carlos Norton
Intérprete: OrBlua (in Livro/CD “Retratos Cinéticos”, Fungo Azul/Ocarina, 2015)

Vivia num mundo próprio

[ O Músico Que Perdeu os Sapatos ]

Vivia num mundo próprio
onde não entra quem quer;
E se estava ou não sóbrio?
Se era homem ou mulher?
Não tinha que ser assim:
explicar porque aqui vim.

Musica è forma di vita
senza forma stabilita,
senza nessuno che decide
che non sai mai dire no,
senza nessuno che decide
che non sai mai dire no.

De andar sempre à procura,
há quem lhe decida a vida,
que esta coisa de Cultura
já de banal é esquecida.
E se chega a vida dura,
logo parte à despedida.

Lo spettacolo era un viaggio
e una bela fattoria,
naturale era il paesaggio
bela gente finta allegria
una nuvola de estate
tutto quanto poi bagnò.

Sapatos muito molhados
não dá jeito a carregar;
O calor dá pés descalços,
logo os venho aqui buscar.
E não estavam lá, partiram:
e nunca mais já se viram.

Si può perdere il controllo,
anche con la leggerezza,
si può perdere le scarpe
con una certa timidezza.
Ma musicista non ha età
mai perde la dignità.

Perso la notte, perso il dia,
Perso le scarpe e l’allegria.
Perso la notte, perso il dia,
Perso le scarpe e l’allegria.

Perdeu a noite, perdeu o dia,
Perdeu os sapatos e a alegria.
Perdeu a noite, perdeu o dia,
Perdeu os sapatos e a alegria.

Letra: José Barros
Música: José Barros e Mimmo Epifani
Intérpretes: José Barros & Mimmo Epifani*
Versão original: José Barros & Mimmo Epifani (in CD “Mar da Lua”, José Barros/Tradisom, 2015)

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