Caravela Vera Cruz

A MEMÓRIA

[ Futuras Instalações ]

A memória faz de ti um povo
Que sabe o que quer.

Esta casa já foi casa
E casa inda vai ser:
As paredes são de pedra,
As janelas p’ra te ver.

Casa velha, bem antiga:
Já foi dos nossos avós;
Muita gente cá viveu
E agora estamos cá nós.

Casa velha, casa nova
Com gente para viver:
Nesta casa e nesta terra
Temos o sol a nascer.

Esta casa há-de ser casa
E casa inda vai ser:
Abram portas e janelas!
Há tanto p’ra fazer!

Casa velha, casa nova,
Casa que gosta de ser:
Vem de um tempo sem idade,
Tem tempo p’ra crescer.

Casa velha, casa nova
Com gente para viver:
Nesta casa e nesta terra
Temos o sol a nascer.

Esta casa há-de ser casa
E casa inda vai ser:
Abram portas e janelas!
Há tanto p’ra fazer!

Casa velha, casa nova,
Casa que gosta de ser:
Vem de um tempo sem idade,
Tem tempo para crescer.

Esta casa há-de ser casa
E casa inda vai ser:
Abram portas e janelas!
Há tanto p’ra fazer!

A memória faz de ti um povo
Que sabe o que quer.

Letra e música: César Prata
Intérprete: César Prata (in CD “Futuras Instalações”, César Prata/RequeRec, 2014)

ADEUS, MARIA

— «Adeus, Maria, até quando,
Eu até quando não sei…
Cá ando no Ultramar, a pensar
No dia em que voltarei.
Espera por mim, se quiseres…
Faz o que tu entenderes;
Acho que deves pensar em casar,
Eu posso por cá morrer.
Ninguém o pode saber,
É uma carta fechada…
E depois te chamarão, pois então,
Viúva sem seres casada.»

— «Ó António, Deus te guie
Nos campos do Ultramar!
Eu penso em ti, cá solteira, há quem queira
Se tu nunca mais voltares.
Espero por ti, meu amor!
Eu d’outro não quero ser!
Nunca mais me casarei, que eu bem sei,
Serei tua até morrer!
A carta que me mandaste
Com um conselho imprudente…
Meu amor, para contigo eu te digo:
‘Inda fiquei mais ardente.»
Meu amor, para contigo eu te digo:
‘Inda fiquei mais ardente.»

Letra: António Pardelha
Música: Monda
Intérprete: Monda com Katia Guerreiro (in CD “Monda”, Monda/Tánaforja, 2016)

ALDEIA DE MEIA-PRAIA

[ Os Índios da Meia-Praia ]

Aldeia da Meia-Praia
Ali mesmo ao pé de Lagos
Vou fazer-te uma cantiga
Da melhor que sei e faço

De Monte Gordo vieram
Alguns por seu próprio pé
Um chegou de bicicleta
Outro foi de marcha à ré

Quando os teus olhos tropeçam
No voo duma gaivota
Em vez de peixe vê peças
De ouro caindo na lota

Quem aqui vier morar
Não traga mesa nem cama
Com sete palmos de terra
Se constrói uma cabana

Tu trabalhas todo o ano
Na lota deixam-te mudo
Chupam-te até ao tutano
Levam-te o couro cabeludo

Quem dera que a gente tenha
De Agostinho a valentia
Para alimentar a sanha
De esganar a burguesia

Adeus disse a Monte Gordo
(Nada o prende ao mal passado)
Mas nada o prende ao presente
Se só ele é o enganado

Oito mil horas contadas
Laboraram a preceito
Até que veio o primeiro
Documento autenticado

Eram mulheres e crianças
Cada um com o seu tijolo
Isto aqui era uma orquestra
Quem diz o contrário é tolo

E se a má língua não cessa
Eu daqui vivo não saia
Pois nada apaga a nobreza
Dos índios da Meia-Praia

Foi sempre a tua figura
Tubarão de mil aparas
Deixas tudo à dependura
Quando na presa reparas

Das eleições acabadas
Do resultado previsto
Saiu o que tendes visto
Muitas obras embargadas

Mas não por vontade própria
Porque a luta continua
Pois é dele a sua história
E o povo saiu à rua

Mandadores de alta finança
Fazem tudo andar pra trás
Dizem que o mundo só anda
Tendo à frente um capataz

Eram mulheres e crianças
Cada um com o seu tijolo
Isto aqui era uma orquestra
Quem diz o contrário é tolo

E toca de papelada
No vaivém dos ministérios
Mas hão-de fugir aos berros
Inda a banda vai na estrada

Letra e música: José Afonso
Intérprete: José Afonso (in “Com as Minhas Tamanquinhas”, Orfeu, 1976, reed. Movieplay, 1987, 1996)
Outras versões: Vozes da Rádio (in CD “Filhos da Madrugada Cantam José Afonso”, MG Ariola, 1994); Dulce Pontes (in CD “Lágrimas”, Movieplay, 1993); Paula Oliveira e Bernardo Moreira (in CD “Fado Roubado”, Universal, 2007)

CHEGUEI A MEIO DA VIDA

[ Caravelas ]

Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi!
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!

Se eu sempre fui assim este Mar morto:
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram!

Caravelas doiradas a bailar…
Ai quem me dera as que eu deitei ao Mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!…

Poema: Florbela Espanca (in Livro de Soror Saudade, 1923)
Música: Tiago Machado
Intérprete: Mariza (in CD “Fado Curvo”, Virgin/EMI-VC, 2003)

DE LONGE SE FAZ MAIS PERTO

[ Vou Falar Contigo ]

Do longe se faz mais perto
Se perto eu quero estar;
P’ra te ver vou ao deserto,
Volto a tempo do jantar.

Faço como a cotovia
Que canta e vai e vem;
Fico a inventar-te o dia:
Pensas de mim mal ou bem?

No verde do teu perfume,
Nos aromas da lareira,
Vou a salto e não regresso:
Dou um pulo à ribeira.

Vou falar contigo
Do mundo azul,
Nas ondas do mar;
Num cantar de amigo
Invento histórias
P’ra te contar.

Ouvi as canções do mundo
E algumas que fiz p’ra ti:
Mandei-tas pela saudade
De te ver ao pé de mim.

A ouvir o passar do vento
Que traz notas e luas,
Vamos ao saber do tempo
Cantar as notícias tuas.

Vou falar contigo
Do mundo azul,
Nas ondas do mar;
Num cantar de amigo
Invento histórias
P’ra te contar.

Galiza, quem te inventou?
Foram cravos, foram rosas…
Ou o poeta com prosas,
Ou o Zeca já cantou.

Um campo verde passei,
Há muito que te não via…
E acho que te encontrei
Nos versos de Rosalía.

Vou falar contigo
Do mundo azul,
Nas ondas do mar;
Num cantar de amigo
Invento histórias
P’ra te contar.

Vou falar contigo
Num cantar de amigo.

Letra e música: José Barros
Arranjo: José Barros e José Manuel David
Intérprete: Navegante com João Afonso & Amélia Muge (in CD “Meu Bem, Meu Mal”, Tradisom, 2008)

EA, JUDIOS

Ea, judios,
A enfardelar,
Que mandam los reys
Que passeis la mar!

[Meirinho:]

— Manda El-Rei, nosso Senhor:
[Judeu:]
— Bueno!
[Meirinho:]
— Que se lhe dê:
[Judeu:]
— Mejor!
[Meirinho:]
— Duzentos…
[Judeu:]
— Mil gracias.
[Meirinho:]
— Açoites!
[Judeu:]
— Vá El-Rei a la mierda!

Ea, judios,
A enfardelar,
Que mandam los reys
Que passeis la mar!

— Vá El-Rei a la mierda!

Ea, judios,
A enfardelar,
Que mandam los reys
Que passeis la mar!

Ea, judios,
A enfardelar,
Que mandam los reys
Que passeis la mar!

Letra e música: Popular
Informante: Judith da Silveira Pinto
Recolha: César da Neves e Gualdino de Campos (“A Expulsão dos Judeus”, in “Cancioneiro de Músicas Populares”, Vol. III, Porto: Empresa Editora César, Campos & C.ª, 1898 – p. 49)
Arranjo coral: Brigada Victor Jara, com a colaboração do maestro Virgílio Caseiro
Intérprete: Brigada Victor Jara (in LP “Contraluz”, CBS, 1984, reed. Sony Música, 1994; Livro/11CD “Ó Brigada!: Discografia Completa da Brigada Victor Jara – 40 Anos”: CD “Contraluz”, Tradisom, 2015)

DESFEITOS UM POR UM

[ Ilha de Moçambique ]

Desfeitos um por um os nós sombrios,
Anulada a distancia entre o desejo
E o sonho coincidente como um beijo,
Exalei mapas que exalaram rios.

Terra secreta, continentes frios,
Ardei à luz dum sol que é rumorejo
Para lá do que eu sou, do que eu invejo
Aos elementos, aos altos navios!

Trouxe de longe o palácio sepulto,
A cobra semimorta, a bandarilha,
E esqueci poços, prossegui oculto.

Desdém que envolve por completo a quilha,
Sou bem o rei saudoso do seu vulto,
Vulto que existe infante numa ilha.

Alberto de Lacerda (1928-2007)

EUROPA

[ Europa, Querida Europa ]

Europa nascida na Ásia profunda
Ó filha do Rei Fenício Agenor.
Que Zeus entranhado no corpo de um touro
levou-te p’ra Creta, cativo de amor.
Europa é de Homero,
de helénicas formas,
do fórum romano e da cruz.
De tantas nações, ariana e semita,
ventre das descobertas da luz.
Do diverso sistema, do modo diferente,
da era da guerra e agora da paz…
És assim, querida Europa.

Vem que eu te quero toda do mar à montanha,
vem que eu quero muito mais bela que o mar.
Vem vencendo cizânias que os povos sem feudos,
sempre se amaram brilhantes em todo o lugar.
O teu chão não é traste de meros mercados
de pauta aduaneira ou cifrão.
É um terrunho de almas,
uma ideia, um desejo,
de uma nova maneira em fusão.
Desfazendo complexos de mapas cor-de-rosa,
sem a má consciência no verso e na prosa…
Só por ti, querida Europa.

Para que sejas tu mesma a decidir o teu uso
Para que sejas tu mesma ainda mais natural
Não me toques o “beat” à americana,
que esse já nós conhecemos na versão original.
Aguenta-te firme, livre de imitações
espera só mais um pouco, já vai.
O que resta e o que sobra
aquela mesma saudade
toda a imaginação, ainda mais.
Não sentes um vago, um suave cheiro a sardinhas
a algazarra nas ruas e o troar dos tambores…
Somos nós, querida Europa.

Letra e música: Fausto Bordalo Dias
Intérprete: Fausto Bordalo Dias (in “Para Além das Cordilheiras”, CBS, 1987; “Atrás dos Tempos Vêm Tempos”, Sony, 1996)

FOI NO SULCO DA VIAGEM

[ Canto dos Torna-Viagem ]

Foi no sulco da viagem
Já sem armas nem bagagem
Nem os brazões da equipagem
Foi ao voltar

Pátria moratória
No coração da História
Que consumiste a glória
Num jantar

Foi como se Portugal
P’ra seu bem e p’ra seu mal
Andasse em busca dum final
P’ra começar

Ávida violência
Reverso de inocência
Sal da inconsciência
Que há no mar

Império tão pequenino
De portulano caprino
Bolsos de sina e de sino
Em cada mão

Pátria imaginária
De consistência vária
Afirmação diária
Do teu não

As malas dos portugueses
São como os olhos das rezes
Que se mastigam três vezes
Em cada chão

Cândida ignorância
Grande desimportância
Os frutos da errância
Já lá vão

Ai Senhora dos Navegantes me valei
De África, do sal e do mar só eu sobrei
Foi p’ra me encontrar que amanhã já me perdi
Longe vai o tempo em que eu já não estou aqui

Ai Senhora dos Talvez-Muitos-Mais-Sinais
Socorrei estes desperdícios coloniais
Foi na noite fria que o dia me cegou
Inda agora fui, inda agora cá não estou

Ai Senhora dos Esquecidos me lembrai
O caminho que p’ra lá vem e p’ra cá vai
Etecetra e tal, Portugal é nós no mar
Inda agora vim e estou longe de chegar

Ai Senhora dos Meus Iguais que eu subtraí
Foi pataca a mim e não foi pataca a ti
Se é tão grande a alma na palma do meu ser
Algum dia eu vou finalmente acontecer

Porque não tentar outro ponto de vista
A história dos outros, quem a contará
Se qualquer colónia sem colonialista
São os que já estavam lá

Tentemos então ver a coisa ao contrário
Do ponto de vista de quem não chegou
Pois se eu fosse um preto chamado Zé Mário
Eu não era quem eu sou

Os navegadores chegaram cá a casa
E foi tudo novo p’ra eles e p’ra mim
A cruz e a espada e os olhos em brasa
Porque me trataste assim?

Não é culpa nossa se quem p’ra cá veio
Não se incomodou ao saber do horror
A História não olha a quem fica no meio
E o que foi é de quem for

Letra e música: José Mário Branco
Intérprete: José Mário Branco e Fausto Bordalo Dias (in CD “Resistir é Vencer”, EMI, 2004)

PARTISTES À TARDINHA

[ Natália Rosa ]

Partistes à tardinha
«Adeus, ó ilha da Culatra!»
Num dia de Outono
Uma aventura
De sonho e paixão

Seguiste viagem
Meteste proa rumo a sul
Chegaste a Agadir
Depois a Dakar
Até ao Brasil

Heróica a Travessia
Ó Gente da terra
Da vila de Olhão

Foram dias e noites
Rotas por mares a navegar
Seguiste as estrelas
Ventos, vendavais
Alísios tropicais

Tormenta maior
Ao largo do mar de Marrocos
Dias sem comer
Dois homens, uma mulher
Sem nada a temer

A remo e à vela
Fizeste a mais bela
História de amor

“Natália Rosa”
Andas bem, lanchinha
Foste a mais linda
A mais formosa
Barca de amor

“Natália Rosa”
A remo e à vela
Foste a mais bela
A mais formosa
História de amor

“Natália Rosa”
Andas bem, lanchinha
Foste a mais linda
A mais formosa
Barca de amor

“Natália Rosa”
A remo e à vela
Foste a mais bela
A mais formosa
História de amor

Letra: José Francisco Vieira
Música: Ana Figueiras e José Francisco Vieira
Intérprete: Flor de Sal (in CD “Flor de Sal”, José Francisco Vieira & Ana Figueiras/Alain Vachier Music Editions, 2016)

PERGUNTEI AO VENTO

[ Queda do Império ]

Perguntei ao vento
Onde foi encontrar
Mago sopro encanto
Nau da vela em cruz

Foi nas ondas do mar
De mundo inteiro
Terras da perdição
Parco império, mil almas
Por pau de canela e Mazagão

Pata de negreiro
Tira e foge à morte
Que a sorte é de quem
A terra amou
E no peito guardou
Cheiro da mata eterna
Laranja, Luanda sempre em flor

Pata de negreiro
Tira e foge à morte
Que a sorte é de quem
A terra amou
E no peito guardou
Cheiro da mata eterna
Laranja, Luanda sempre em flor

Perguntei ao vento
Onde foi encontrar
Mago sopro encanto
Nau da vela em cruz

Foi nas ondas do mar
De mundo inteiro
Terras da perdição
Parco império, mil almas
Por pau de canela e Mazagão

Pata de negreiro
Tira e foge à morte
Que a sorte é de quem
A terra amou
E no peito guardou
Cheiro da mata eterna
Laranja, Luanda sempre em flor

Letra e música: Vitorino Salomé
Intérprete: Vitorino (in “Flor de la Mar”, EMI-VC, 1983; reed. EMI-VC, 1992; CD “As Mais Bonitas”, EMI-VC, 1993; CD “Tudo”, EMI-VC, 2006)
Outra versão de Vitorino (in “Sul”, EMI-VC, 1985; reed. EMI-VC, 1994)

Pergunto ao tempo que passa

[ Trova do Vento Que Passa ]

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça,
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça:
há sempre alguém que semeia
canções ao vento que passa.

Mesmo na noite mais triste,
em tempo de servidão,
há sempre alguém que resiste,
há sempre alguém que diz não.

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça,
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça:
há sempre alguém que semeia
canções ao vento que passa.

Mesmo na noite mais triste,
em tempo de servidão,
há sempre alguém que resiste,
há sempre alguém que diz não.

Poema: Manuel Alegre (excerto)
Música: António Portugal
Intérprete: Senhor Vadio* (in CD “Cartas de um Marinheiro”, José Flávio Martins/iPlay, 2013)
Versão original: Adriano Correia de Oliveira (in EP “Trova do Vento Que Passa”, Orfeu, 1963; LP “Memória de Adriano”, Orfeu, 1983, reed. Movieplay, 1992; 7CD “Obra Completa”: CD “Trova do Vento Que Passa: Adriano canta Manuel Alegre I”, Movieplay, 1994, Movieplay/Público, 2007; CD “Vinte Anos de Canções”, Movieplay, 2001)

TROVA DO VENTO QUE PASSA

(Manuel Alegre, in “Praça da Canção”, Coimbra: Cancioneiro Vértice, 1965 – p. 90-92)

Ao António Portugal

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que eu morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
porque vai de olhos no chão.
Silêncio – é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo

POR ESTE RIO ACIMA

Por este rio acima
Deixando para trás
A côncava funda
Da casa do fumo
Cheguei perto do sonho
Flutuando nas águas
Dos rios dos céus
Escorre o gengibre e o mel
Sedas, porcelanas
Pimenta e canela
Recebendo ofertas
De músicas suaves
Em nossas orelhas
Leve como o ar
A terra a navegar
Meu bem como eu vou
Por este rio acima

Por este rio acima
Os barcos vão pintados
De muitas pinturas
Descrevem varandas
E os cabelos de Inês
Desenham memórias
Ao longo da água
Bosques enfeitiçados
Soutos, laranjeiras
Campinas de trigos
Amores repartidos
Afagam as dores
Quando são sentidos
Monstros adormecidos
Na esfera do fogo
Como nasce a paz
Por este rio acima

Meu sonho
Quanto eu te quero
Eu nem sei
Eu nem sei
Fica um bocadinho mais
Que eu também
Que eu também
Meu bem

Por este rio acima
Isto que é de uns
Também é de outros
Não é mais nem menos
Nascidos foram todos
Do suor da fêmea
Do calor do macho
Aquilo que uns tratam
Não hão-de tratar
Outros de outra coisa
Pois o que vende o fresco
Não vende o salgado
Nem também o seco
Na terra em harmonia
Perfeita e suave
Das margens do rio
Por este rio acima

Meu sonho
Quanto eu te quero
Eu nem sei
Eu nem sei
Fica um bocadinho mais
Que eu também
Que eu também
Meu bem

Por este rio acima
Deixando para trás
A côncava funda
Da casa do fumo
Cheguei perto do sonho
Flutuando nas águas
Dos rios dos céus
Escorre o gengibre e o mel
Sedas, porcelanas
Pimenta e canela
Recebendo ofertas
De músicas suaves
Em nossas orelhas
Leve como o ar
A terra a navegar
Meu bem como eu vou
Por este rio acima
Por este rio acima

Letra e música: Fausto Bordalo Dias
Intérprete: Fausto Bordalo Dias (in “Por Este Rio Acima”, Sassetti, 1982; CBS, 1984; “Grande, Grande é a Viagem (ao vivo)”, Sony, 1999)

TRISTEMENTE EMBARCADOS

[ Peregrinações ]

«Peregrinos, somos nós, que andamos sempre a navegar com sérios riscos de irmos ao fundo! » A.Q.

I
Tristemente embarcados
com rumo sem rota
velejando no ar
com grande medo levados
em formosa frota
de casco a abanar
rebentam as ondas gigantes
coisas alucinantes
quebra-mar, quebra-mar
uma prece na garganta
Nossa Senhora Santa
almiranta
a vomitar, a vomitar
procurando novos mercados
em nome de Deus
vai el-rei engordar
como por nossos pecados
desatinados às cegas
no escuro do mar
salta um mostrengo barbudo
c’o peito peludo
a arrotar, a arrotar
nós senhores do barlavento
ao leme gemendo
tremendo
ai! quem soubera nadar

E com a pressa que podíamos
nos fizemos de volta
esquecendo mercês
se à vista daquilo que víamos
nos tremiam as carnes
nos dava a gaguez
ao serviço de Deus Nosso Senhor
regressa assim teu esposo
neste vento bonançoso
meu lindo e ditoso amor
confiado nesta promessa
enganado nesta esperança

neste vento bonançoso
meu lindo e ditoso amor
confiado nesta promessa
enganado nesta esperança

II
Mas o avarento agiota
depressa nos manda
de novo embarcar
banqueteados com muitos açoites
ao longo da costa
quem se há-de salvar
tragam pimenta
a fazenda
a prata sangrenta
a rezar, a rezar
metam o turco a tormento
fede a Mafamede
que fale
onde fica o bazar
e assim fomos de atropelo
sobre gente que não tinha
em boa conta
o nosso apogeu
nos merecia a latina cólera
por zelo
da honra de Deus
vivos lançados ao mar
com um grande penedo
ao pescoço
a afundar
ouvem-se as gritas
apupos
dos turcos malucos
eunucos
a atacar, a atacar

E foram tantas as pedras
os zargunchos, as lanças
e as chuças
de arremesso sobre nós
que fugíamos assaz
com a pressa que podíamos
depois de tanto pelejar
ao serviço de El-Rei
Nosso Senhor
regressa assim teu esposo
neste vento bonançoso
meu lindo e ditoso amor
confiado nesta promessa
enganado nesta esperança

neste vento bonançoso
meu lindo e ditoso amor
confiado nesta promessa
enganado nesta esperança

III
Foi-se o tempo passando
da nau ao paquete
lá vai Portugal
leva gente do arado
peões e joguetes
em calção colonial
negro trabalha canalha
que a tua mortalha
é este ultramar
colhe matumbo o café
que a gente tem fé
chimpanzé
de lucrar e lucrar
fomos misturando guitarras
ao som do batuque
bebendo maruvo
e num sentimento bizarro
casando com a negra
depois de viúvo
estoira uma força gigante
vermelha negra vibrante
a lutar, a queimar
liberta um povo oprimido
e perde o diamante
purgante
quem nos andou a mandar
e desmanchámos as casas
tornámos de volta
pobres numa muleta
balbuciando estranhas palavras
aka! que maka!!
acabou-se a teta
ao serviço de grandes senhores
regressa de vez teu esposo
neste vento bonançoso
meu lindo e ditoso amor
confiado nesta promessa
enganado nesta esperança

neste vento bonançoso
meu lindo e ditoso amor
confiado nesta promessa
enganado nesta esperança

Letra e música: Fausto Bordalo Dias (inspirado na obra “Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto)
Intérprete: Fausto Bordalo Dias (in “Histórias de Viageiros”, Orfeu, 1979; reed. Movieplay, 1991, 1999; filme “Acto dos Feitos da Guiné”, de Fernando Matos Silva, 1980)

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