O poemário do cancioneiro português (incluindo fado, música tradicional e ligeira) pretende fomentar o gosto da poesia como parceira da música e a divulgação dos poetas cuja importância nem sempre é justamente reconhecida. Fontes: Blogue A Nossa Rádio, Álvaro José Ferreira.

São João

Olha o balão

Olha o balão, na noite de São João
Para poder dançar bastante com quem tenho à minha espera
Ó-I-ó-ai, pedi licença ao meu Pai, e corri com o meu estudante
Que ficou como uma fera

Ó-I-ó-ai, fui comprar um manjerico
Ó-I-ó-ai, vou daqui pró bailarico
E tenho um gaiato aqui dependurado
Que é mesmo o retrato do meu namorado

E tenho um gaiato aqui dependurado
Que é mesmo o retrato do meu namorado

Toca o fungagá, toca o Sol e Dó
Vamos lá, nesta marcha a fulambó
Toca o fungagá, toca o Sol e Dó
Vamos lá, nesta marcha a um fulambó

Olha o balão, na noite de São João
Para não andar maçado da pequena me livrei
Ó-I-ó-ai, não sei com quem ela vai, cá para mim estou governado
Com uma outra que eu cá sei

Ó-I-ó-ai, fui comprar um manjerico
Ó-I-ó-ai, vou daqui pró bailarico
Tenho uma gaiata aqui dependurada
Que tem mesmo a lata, lá da namorada

Tenho uma gaiata aqui dependurada
Que tem mesmo a lata, lá da namorada

Toca o fungagá, toca o Sol e Dó
Vamos lá, nesta marcha a um fulambó
Toca o fungagá, toca o Sol e Dó
Vamos lá, nesta marcha a um fulambó

Intérprete: Beatriz Costa

São João santo bonito

[ São João Bonito ]

Marcha Popular

São João santo bonito, bem bonito que ele é
Bem bonito que ele é
Com os seus caracóis de oiro, e o seu cordeirinho ao pé
E o seu cordeirinho ao pé
Não há nenhum assim, pelo menos para mim
Nem mesmo São José

Santo António já se acabou
O São Pedro está-se acabar
São João, São João
Dá cá um balão
Para eu brincar

São João vem ver as moças, que bonitas que elas são
Que bonitas que elas são
São ainda mais bonitas, na noite de S. João
Na noite de S. João
Não escapa um só rapaz
O que é que o Santo lhes faz
Vai tudo no balão.

Santo António já se acabou
O São Pedro está-se acabar
São João, São João
Dá cá um balão
Para eu brincar

São João santo bonito, dos milagres sem igual
Dos milagres sem igual
Conserva a santa alegria, da gente de Portugal
Da gente de Portugal
Ouve a nossa canção, e livrai de todo o mal
Meu rico São João

Santo António já se acabou
O São Pedro está-se acabar
São João, São João
Dá cá um balão
Para eu brincar

Intérprete: Lenita Gentil, Voz à Solta

São João

São João

Trovante, Terra Firme

Noite de Verão

Quando é no Verão das noites claras
e faz calor dentro da gente,
…aquela menina casadoira,
que mora junto ao largo,
vem à varanda ver a Lua.

Roçando o corpo, devagar,
descem por ela as mãos da noite:
sente-se nua.
Sente-se nua, na varanda,
já tão senhora do seu destino,
sem medo às estrelas nem às mãos da noite
— mas baixa os olhos se algum homem passa…

Sente-se nua
— mas baixa os olhos se algum homem passa…
Sente-se nua.

Quando é no Verão das noites claras
e faz calor dentro da gente,
…aquela menina casadoira,
que mora junto ao largo,
vem à varanda ver a Lua.

Roçando o corpo, devagar,
descem por ela as mãos da noite:
sente-se nua.
Sente-se nua, na varanda,
já tão senhora do seu destino,
sem medo às estrelas nem às mãos da noite
— mas baixa os olhos se algum homem passa…

Sente-se nua
— mas baixa os olhos se algum homem passa…
Sente-se nua.
Sente-se nua.
Sente-se nua.
Sente-se nua.

Poema: Manuel da Fonseca (ligeiramente adaptado) [texto original abaixo]
Música: João Gil
Arranjo: Trovante
Intérprete: Trovante* (in LP “Terra Firme”, EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1989; CD “O Melhor dos Trovante”, EMI Music Portugal, 2010; “Trovante: Grandes Êxitos”, EMI Music Portugal, 2013)

* Trovante:
Artur Costa – saxofone
Fernando Júdice – baixo
João Gil – guitarras e coros
José Martins – sintetizador
José Salgueiro – bateria, percussão e coros
Luís Represas – voz
Manuel Faria – piano e sintetizador
Produção – Manuel Faria e Artur Costa
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d’Arcos, em Agosto, Setembro e Outubro de 1987
Engenheiro de som – Paulo Neves
Misturas – Paulo Neves, Manuel Faria e Artur Costa

NOITE DE VERÃO

(Manuel da Fonseca, in “Planície”, Coimbra: Novo Cancioneiro, 1941; “Poemas Completos”, Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958; “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 2.ª edição, Lisboa: Portugália Editora, 1963 – p. 109; “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 5.ª edição, Lisboa: Forja, 1975 – p. 120)

Quando é no Verão das noites claras
e faz calor dentro da gente,
…aquela menina casadoira,
que mora junto ao largo,
vem à varanda ver a Lua.

Roçando o corpo, devagar,
descem por ela as mãos da noite:
sente-se nua.
Sente-se nua, na varanda,
já tão senhora do seu destino,
sem medo às estrelas nem às mãos da noite
— mas baixa os olhos se algum homem passa…

[ Fonte: A Nossa Rádio ]

Manuel da Fonseca, poeta

Manuel da Fonseca, poeta

José Saramago, escritor e poeta

Dia Não

De paisagens mentirosas
De luar e alvoradas
De perfumes e de rosas
De vertigens disfarçadas

Que o poema se desnude
De tais roupas emprestadas
Seja seco, seja rude
Como pedras calcinadas

Que não fale em coração
Nem de coisas delicadas
Que diga não quando não
Que não finja mascaradas

De vergonha se recolha
Se as faces tiver molhadas
Para seus gritos escolha
As orelhas mais tapadas

E quando falar de mim
Em palavras amargadas
Que o poema seja assim
Portas e ruas fechadas

Ah! que saudades do sim
Nestas quadras desoladas!

Poema: José Saramago (in “Os Poemas Possíveis”, Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 24-25)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília* (in LP “La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1”, Moshé-Naïm, 1967; CD “La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours”, EMEN, 1996)

* Luís Cília – voz e guitarra
Marc Vic – guitarra
François Rabbath – contrabaixo
Produção – Moshé Naïm
Gravado nos Studios Europa-Sonor, Paris

Versão de Manuel Freire

Poema: José Saramago (in “Os Poemas Possíveis”, Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 24-25)
Música: Luís Cília
Intérprete: Manuel Freire* (in LP “Devolta”, Diapasão/Lamiré, 1978)

* [Créditos gerais do disco:]
Manuel Freire – voz
Luís Cília – guitarra, coros
Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa
Celso de Carvalho – viola baixo
Vasco Pimentel – sintetizador ARP Omni, piano
Arranjos e direcção musical – Luís Cília
Produção – Lamiré
Gravado nos Estúdios Musicorde, Lisboa

José Saramago, escritor e poeta

José Saramago, escritor e poeta

Senhor Santo Cristo dos Milagres

1º Hino do Senhor Santo Cristo

Santo Cristo! Esperança Divina,
Horizonte de Eterna Vitória.
Quero a vida na Vossa Doutrina
E na morte o Reino da Glória

Santo Cristo, O! Estrela Brilhante,
Ó ! Farol que guiais ao abrigo;
A minh´alma navega errante,
Glória a Cristo na hora do perigo.

Coro

Glória a Cristo no céu e na Terra,
Glória a Cristo no Vinho e no Pão,
Glória a Cristo no Mar e na Serra,
Glória a Cristo no meu coração.

II

Santo Cristo! Essa Chama Celeste,
Que irradia do Vosso Olhar,
É a Paz que ao Mundo trouxeste,
E o Mundo recusa aceitar.

Coro

Santo Cristo! Esperança Bendita!
Do Cristão que Vos ama e adora,
A min’alma vagueia aflita
Glória a Cristo na última hora

Glória a Cristo no céu e na Terra,
Glória a Cristo no Vinho e no Pão,
Glória a Cristo no Mar e na Serra,
Glória a Cristo no meu coração.

Angra, 1 de maio de 1944

Atual Hino do Senhor Santo Cristo

Glória a Cristo, Jesus, glória eterna,
Nosso Rei, nossa firme esperança,
Soberano que os mundos governa
E as nações recebem por herança.

Com o manto e o ceptro irrisório,
Sois de espinhos cruéis coroado,
Rei da dor, uma vez, no Pretório,
Rei de amor, para sempre adorado.

Combatendo, por vossa Bandeira
Que, no peito, trazemos erguida,
Alcançamos a paz verdadeira
E a vitória nas lutas da vida.

Só a vós, com inteira obediência
Serviremos com firme vontade,
Porque em Vós há justiça e clemência
Porque em Vós resplandece a verdade.

Concedei-nos, por graça divina,
Que sejamos um povo de eleitos,
Firmes crentes na Vossa doutrina,
Cumpridores dos Vossos preceitos

José da Costa

O texto do hino, é da autoria do escritor, poeta e professor, José da Costa.

José de Sousa da Costa, nasceu em Ponta Garça, Concelho de Vila Franca do Campo, ilha de S. Miguel, em 19.08.1882, e baptizado em 27.08.1882 na Igreja de Nossa Senhora da Piedade, Ponta Garça, e faleceu em Ponta Delgada, no dia 10.5.1963.

Após a instrução primária, ingressou no Seminário de Angra, onde frequentou cerca de três anos, e por motivos pessoais, regressou a S. Miguel, onde frequentou o Colégio Sena Freitas em Ponta Delgada, tendo aí completado toda a sua formação Académica e Magistério Primário, tendo exercido funções em diversas localidades na área de Ponta Delgada, Relva, Livramento e S. Roque.

Foi director da Escola Ernesto do Canto, nº 38-42, com direito a residência domiciliária na mesma instalação escolar, “edifício, pertença dos serviços de televisão”.* Poeta e latinista, fundou e dirigiu a revista angrense Arquipélago, surgida em 1931. Professor da instrução primária e um dos intelectuais micaelenses mais eruditos do seu tempo, venerou a língua pátria e o latim, ensinando aos estudantes liceais que o procuravam para explicações. Verteu para o português composições poéticas e hinos latinos, como o Stabat Mater, de Jacopone da Todi, e alguns originais de S. Bernardo. Além do que publicou em livro, havendo dele um número considerável de dispersos na imprensa açoriana. Os seus escritos, revelam ter sido um homem possuído de pensamento e sentido religioso artístico profundo, crente em testemunho de fé, conhecedor consciente da palavra de Deus.

Como cristão crente e orante, dominava os hinos e salmos do saltério, escritos em língua latina. No plano humano e à época, foi uma personagem culta, dotado no campo do saber das artes plásticas, pintor miniaturista na reconstituição de imagens, desenhou os muitos motivos Heráldicos dos Açores, e brasões de famílias nobres e ilustres da ilha de S. Miguel e dos Açores. Na qualidade de professor, foi um pedagogo que soube conjugar as letras e as palavras, onde transmitiu às gerações do tempo, os seus vastos conhecimentos no ensino das línguas clássicas, e de forma especial, o Latim.

Além do que publicou em livro, há dele um número considerável de dispersos na imprensa açoriana, nomeadamente poesia, que cultivou segundo os moldes clássicos da Arte Poética, maioritariamente voltada para assuntos elevados, patrióticos, metafísicos e religiosos, com predomínio da exaltação crística e mariana, como o provam os seus Acordes Místicos (1962) e o póstumo Relicário Poético (1965).

Compôs hinos devotos, com música, colocados à apreciação do músico violinista, Manuel Macedo, entre outros, do maestro Pe. Tomaz Borba, e exercitou ainda a poesia humorística, cujo exemplo está no poema heróico-cómico Saltapíada ou a Casula Negra (1949), o ensaio, o teatro e a arte de pintor miniaturista. Ainda em vida, fez um estudo sobre Maria Madalena, manuscrito este submetido e enviado ao prelado Diocesano para estudo e reflexão, e posteriormente ser enviado à Santa Sé, para a permissão de publicação.

Notas: *

As informações acima citadas, e sobre a sua formação académica, foram verbalizadas pela filha, Maria Angelina Vieira Costa Schandler, aquando da entrevista em 11-05-2016.

Trabalho de investigação de José Manuel Graça Teixeira Gaipo, gentilmente cedido ao Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres

Senhor Santo Cristo dos Milagres

Senhor Santo Cristo dos Milagres

Terra

Luz que actua

[ Gaia de Saia ]

Luz que actua, Lua cheia em ti, faz querer viver mais
Expões o corpo receptivo à noite, dons de fértil musa

Iluminar põe o clima a subir, noite de clara Lua
Numa dança de saia rodada a sorrir, que essa tua vida é tua

Mãe dos homens que gera vida e luz
Gaia Deusa, musa, Mulher nua
Não se tomba, não se deixa cair
Que essa tua, que essa tua vida, que essa tua vida é tua

Mãos de força vergam o tempo a teimar, a lutar sem desistir
Tais direitos nem se devem questionar, direito a se expressar

Ser um ventre e um colo protector, e voluntária na sua dor
Ser mulher é existir entre os iguais, é resistir muito mais

Mãe dos homens que gera vida e luz
Gaia Deusa, musa, Mulher nua
Não se tomba, nem se deixa cair
Que essa tua vida é tua, vida é tua

Mãe dos homens que gera vida e luz
Gaia Deusa, Mulher nua
Não se tomba, nem se deixa cair
Que essa tua, que essa tua vida, que essa tua vida é tua

Letra e música: Luís Pucarinho
Intérprete: Luís Pucarinho* (in CD “SaiArodada”, Luís Pucarinho/Alain Vachier Music Editions, 2018)

Quero ver o que a terra me dá

[ Cantiga da Terra ]

Quero ver o que a terra me dá
ao romper desta manhã:
o poejo, o milho e o araçá,
a videira e a maçã.

Ó mãe-d’água, ó mãe de chuvas mil,
já não quero teu aguaceiro;
quero ver a luz do mês de Abril
e a folia ao terreiro.

E vou colher inhames e limões,
hortelã e alecrim;
e vou cantar charambas e canções,
p’ra te ver ao pé de mim.

E os requebros deste teu bailar,
quero ser o cantador;
e vou saudar a várzea desse olhar,
ao compasso do tambor.

E vou colher inhames e limões,
hortelã e alecrim;
e vou cantar charambas e canções,
p’ra te ver ao pé de mim.

E os requebros deste teu bailar,
quero ser o cantador;
e vou saudar a várzea desse olhar,
ao compasso do tambor.

Letra e música: José Medeiros (1988 – para a série ficcional “O Barco e o Sonho”, RTP-Açores, 1989)
Intérprete: Musica Nostra* (in CD “Cantos da Terra”, Açor/Emiliano Toste, 2009)
Versão original: José Medeiros (in 2LP “O Barco e o Sonho | Balada do Atlântico | Xailes Negros”: LP 2, Philips/Polygram, 1989; CD “7 Anos de Música”, 2.ª edição, DisRego, 1992) [>> YouTube]

Janita Salomé

Envio-lhe esta missiva

[ Vozes do Sul – Carta à Senhora Dona Europa ]

Envio-lhe esta missiva
De profundo desagrado
Por vê-la assim cativa
De usurários encartados

Sujeita a novos tormentos
Subvertidas são as leis
Vampiros a sugam sedentos
Ceptro na mão velhos reis

As contas dos euro-réis
Somam mentiras e medos
Já nos tiraram os anéis
Mas não nos levam os dedos

Cantando ao sol e à lua
Vozes do Sul
Já ao fundo da rua
Vozes do Sul

As contas dos euro-réis
Somam mentiras e medos
Já nos tiraram os anéis
Mas não nos levam os dedos

Cantando ao sol e à lua
Vozes do Sul
Já ao fundo da rua
Vozes do Sul

Poema e música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé
Versão original: Janita Salomé (in CD “Valsa dos Poetas”, Cantar ao Sol/Ponto Zurca, 2018)

São João

Hoje há festa na rua

[ Balão ]

Hoje há festa na rua, as fitas já estão penduradas
A noite é longa, as sardinhas já estão assadas
Escrevi no meu balão, antes de o lançar,
Uma quadra de S. João só p’ra te falar

Ai, que o Santo António não se zangue
Mas eu hoje peço ao S. João
Que me traga o meu amor
Que o escrevi no meu balão

Tê-lo longe é bem mais duro que alho-porro no nariz
Ele anda por aí no mundo e nada me diz
O baile começou e eu sem par para dançar
O João Maria veio lampeiro com um manjerico p’ra me dar

Mas eu não quis
Ai, fado infeliz!

Ai, que o Santo António não se zangue
Mas eu hoje peço ao S. João
Que me traga o meu amor
Que o escrevi no meu balão

Há quadras, há festa, há bailes p’ra dançar
Há vinho do Porto e foguetes no ar
Mas meu amor não vai voltar
Ali vai meu coração na esperança de te encontrar

Na esperança de te encontrar…

Letra e música: Vânia Couto
Intérprete: Pensão Flor*
Versão original: Pensão Flor (in CD “O Caso da Pensão Flor”, Pensão Flor/Brandit Music, 2013)

Pardal

Ao som de uma caixa de música

[ Caixinha de Música ]

Ao som de uma caixa de música, acordou João
Ao lado do berço um corpo caído, desilusão
A casa vazia e no ar um cheiro a solidão
Para lá da janela uma visão tão estranha
O que terá acontecido?

Como um pássaro que saiu do ninho e esvoaçou
João deu a medo alguns passos pelo quarto e sem querer
Debruçou o corpo sobre o chão morno e adormeceu
Talvez p’ra dormir o seu último sono
E o que fica a dizer de…?

João, mais uma vítima nuclear numa casa no meio da cidade
Onde só se contavam histórias de mal e de bem
João, mais uma vítima nuclear numa casa no meio da cidade
Onde só se contavam histórias de realidade

Uma brisa estranha chegou de repente, com sabor a fim
E uma noite fria caiu sobre os restos do auge do poder
Entre o tudo e o nada ficou uma sombra, uma recordação
Talvez algum dia alguém venha a perguntar:
“O que terá acontecido?”

Um manto de fumo cobriu a cidade, em forma de adeus
Talvez p’ra apagar a última imagem guardada da Terra
A tocar no meio do deserto plantado a caixinha ficou
Testemunha ingénua das glórias já findas
E das marcas da vida

João, mais uma vítima nuclear numa casa no meio da cidade
Onde só se contavam histórias de mal e de bem
João, mais uma vítima nuclear numa casa no meio da cidade
Onde só se contavam histórias de realidade

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha* (ao vivo no Estúdio 3 da Rádio e Televisão de Portugal, Lisboa)
Versão discográfica anterior: Sebastião Antunes & Quadrilha com João Pedro Pais (in CD “Perguntei ao Tempo”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2019)
Versão original: Peace Makers (in single “Caixinha de Música / Recordação de Hiroshima”,
Victória Records, 1988)
Outra versão: Quadrilha (in CD “Deixa Que Aconteça: Ao Vivo”, Vachier & Associados/Ovação, 2006)

Cheiro bom

[ Há Vida no Bairro ]

Cheiro bom
Risos e gente a conversar

No jardim
homens que sabem o que jogar

Há mais um
vizinho novo para cantar

A canção
marcha que o Bairro há-de ganhar

E tu quem és? De donde vens?
Porque não te chegas mais?
Vem cá ver, acreditar
que as pessoas são bens reais!

Ser feliz
é nunca mais voltar
a estar só

No jardim
falta uma peça
ao dominó

Sê mais um
para mostrar como se canta
em dó

Aprender
como se dança
sem levantar pó

O que é meu é p’ra dar
Deus não quer tralha no Céu
Não há nada p’ra guardar
Viver já é um troféu

O que é meu é p’ra dar
Deus não quer tralha no Céu
Não há nada p’ra guardar
Viver já é um troféu

Ser feliz
é nunca mais voltar
a estar só

No jardim
falta uma peça
ao dominó

Sê mais um
para mostrar como se canta
em dó

Aprender
como se dança
sem levantar pó

Letra: Eugénia Ávila Ramos
Música: Tiago Oliveira
Intérprete: Rua da Lua* (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)

Pássaros voam livres

[ Pássaros da Cidade ]

Pássaros voam livres
Num impulso de asas
Planando em anéis invisíveis
Asfixiados pelas nuvens.
Pelas nuvens…

Pássaros pairando
Em tudo constantes
Com gestos de arestas vivas
Que se levantam da cidade,
Da cidade…
E nos refreiam as pulsações,
As pulsões, corações.

Cidade, labirinto de esquinas
E grades intangíveis.
Cidade, labirinto de esquinas
E grades intangíveis.

Pássaros voam livres
Num impulso de asas
Planando em anéis invisíveis
Pássaros voam livres
Num impulso de asas…

Letra: Joana Lopes
Música: António Pedro
Intérprete: Musicalbi*
Versão original: Musicalbi (in CD “Solidão e Xisto”, Musicalbi, 2019)

Sérgio Godinho

A música é tamanha

[ Mão na Música ]

A música é tamanha,
cabe em qualquer medida.

Da sua mão sobe o ar ao infinito, de lá treme. A música, por um lado, vê-se; por outro, não se vê. Nada da música se improvisa por acaso. A música corre nas gargantas e pode ser tocada com um só dedo. A música mostra-se feia para os seus pares e bela para os seus ímpares. A música emudece, por vezes, os cantores e deixa-os a sós nos camarins à espera do amigo do carrasco. A música não é a mesma quando ouvida de longe ou quando ouvida de perto. A música não tem explicações a dar a si mesma: isso explica tudo. A música dá asas a quem voa: a quem tem asas para voar. A música faz aos poemas aquilo que os poemas quiseram fazer dela: render-se. E aos outros propõem: rendam-se! Tréguas e batalhas sem ordem de aviso.

A música é tamanha,
cabe em qualquer medida.

A música referenda a liberdade? Sim ou não? A música depende dum botão da liberdade e desunha-se a mostrar os efeitos de num dedo a voz humana. A música faz orelhas moucas. A música não se esquece no silêncio: por isso, nos lembramos dela. Permanece em mais que um som. A música vai, por vezes, mais alto e duma torre afunda o eco no centro da terra. A música aguenta-se de pé, dorme sentada, dança e escorrega na cama. A música pausa e pausa, faz das malas a viagem mas se acena, já de longe… A música atira os seus poemas ao mar e recebe-os nas ondas do dia seguinte, nas garrafas outro povo. A música perdeu muitos bons poemas no vento contrário, quem sabe eram bons? A música é uma cópia duma cópia, de cara aberta vai ao fundo e vem à tona por respiração. A música é uma revolução de estilos, é do passarinho herdeira órfã. A música é órfã. Quando nasceu, os seus pais tinham morrido há pouco. É órfã.

A música é tamanha,
cabe em qualquer medida.

A música esfrega os dedos em tudo o que der som. A música nunca teve, em si mesma, uma moral; pensa que não pensa e que não perdura. Diz-se que faz muito bem ouvi-la; alguém que pense e que perdure por ela. A música não tem barreiras, mas o amor por ela sim. A música prepara-se, destroçada mas vaidosa, para confessar tudo ao cair do sol. A música chora e ri ao mesmo tempo: uma criança por razões não exactamente compreensíveis. A música quer ser perfeita, sempre que por escolha é imperfeita. Por talento, dá-se a todas: a bondade, a presunção, ressentimento e, mais não fosse, a quatro tempos. A música de repente é a mesma nota repetida e outras vezes. A música mede-se com caneta e gravador. É maior e é menor. A música quando se encontra já lá está. A música nasceu antes de nós termos nascido com ela. A música segue a sua sombra e pela sombra é fácil, não há espelho. Ou é ritmo ou é pausa. Ambos dúbios mas reconhecíveis.

A música é tamanha,
cabe em qualquer medida.

A música é feita à janela e aberta vê-se da rua. A música eriça-se ao menor vento, arranha-se a si mesma, ladra ao ar, risca a terra. Gosta mesmo. A música quando a chuva cai com barulho de entre as nuvens, vê-se o mar em dia de acalmia, o que não é explicável nem por norma nem por excepção dos deuses: digamos que são os sons em dia de ofertório. A música vai de rio e desagua: aquece a água doce, rebenta no mar salgado, larga os seus bichos no mar. A música tem duas mãos, é tocada com um só peito e um só dedo. Da música sobe o ar ao infinito. A música tem um só dedo e um só dedo. A música tem um só dedo e um só dedo. Nada da música se improvisa por acaso.

A música é tamanha,
cabe em qualquer medida.

Letra e música: Sérgio Godinho
Intérprete: Sérgio Godinho* (in CD “Mútuo Consentimento”, Universal Music, 2011)

* Sérgio Godinho – voz
Manuela Azevedo – coros
Produção e direcção musical – Nuno Rafael
Produção executiva – Paulo Salgado / Vachier & Associados
Gravado por Hélder Gonçalves
Misturado por Nelson Carvalho, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d’Arcos
Masterizado por Andy Vandette (Masterdisk)

A Música

[ A Música Inventa o Lume ]

A música está coberta
com um manto. E dessa névoa
sai um uivo que poisa na água
e inventa o lume.

É a voz das fragas e o riso,
uma mulher que bate num cântaro
para afastar os pássaros dos lagares.
De uma cordilheira levanta-se
um corvo. A planície, a seu lado,
transforma-se num imenso rio onde
nascem os limões e a tarde cai
como se fosse um toldo de marfim.

A música está coberta
com um manto. E dessa névoa
sai um uivo que poisa na água
e inventa o lume.

É a voz das fragas e o riso,
uma mulher que bate num cântaro
para afastar os pássaros dos lagares.
De uma cordilheira levanta-se
um corvo. A planície, a seu lado,
transforma-se num imenso rio onde
nascem os limões e a tarde cai
como se fosse um toldo de marfim.

O lume arde nesta paisagem
reencontrada e todos os objectos
se viram de repente, em êxtase,
anunciando o vinho.

O lume arde nesta paisagem
reencontrada e todos os objectos
se viram de repente, em êxtase,
anunciando o vinho.

Poema: Jaime Rocha
Música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé (ao vivo no Estúdio 3 da Rádio e Televisão de Portugal, Lisboa)
Versão original: Janita Salomé com Luanda Cozetti (in CD “Valsa dos Poetas”, Cantar ao Sol/Ponto Zurca, 2018)

Baile

Acertando o passo

[ Bulia o Baile ]

Acertando o passo ou nem tanto
escorregavam do lamento ao canto;
Sorrindo ao pisar e às estrelas
as promessas ateavam alvas velas.

Ardentias do amor anunciadas
vindouras dores eram semeadas;
No céu, o néon, luzem pregões,
desditas eram. Pintavam corações.

Bulia o baile,
buliam as raparigas
se levadas nas cantigas
e repetidos o par.

Bulia o baile,
buliam as raparigas
se levadas nas cantigas
e repetidos o par.

Eram olhares repetidos,
eram perfumes sentidos
misturados com o arfar.

Veredas de barro e de fel,
aço entrançado, favos de mel,
desejos jurados sem hesitar,
barca dos sonhos a navegar.

As canções meladas ao ouvido
eram cruzadas, no seu sentido;
e os passos que davam a saber
era o amor louco a acontecer.

Bulia o baile,
buliam as raparigas
se levadas nas cantigas
e repetidos o par.

Bulia o baile,
buliam as raparigas
se levadas nas cantigas
e repetidos o par.

Eram olhares repetidos,
eram perfumes sentidos
misturados com o arfar.

Letra e música: Lindolfo Paiva
Intérprete: Dialecto* (in CD “Aromas”, Dialecto/Cloudnoise, 2011)

Sorvem-me o sangue

[ Trocaram-me a Dança! ]

Sorvem-me o sangue,
Deixam-me exangue,
Ceifam-me a vida na terra prometida.

Tolhem-me a esperança,
Trocam-me a dança,
Solta-se o grito na raiva incontida.

Sorvem-me o sangue,
Deixam-me exangue,
Ceifam-me a vida na terra prometida.

Tolhem-me a esperança,
Trocam-me a dança,
Solta-se o grito na raiva incontida.

Na dança da vida com o passo trocado,
Na dança das fitas estou no filme errado;
Destroços de sonhos errantes na serra
Espezinham-me a flor…, tenho a Primavera.

Cercam-me o tempo,
Varrem-me o alento,
Ferem-me o voo, a paixão e o sustento.

Lanço a semente,
Rasgo o silêncio,
Cerro a decência, declino ser inocente.

Na dança da vida com o passo trocado,
Na dança das fitas estou no filme errado;
Destroços de sonhos errantes na serra
Espezinham-me a flor…, tenho a Primavera.

Cercam-me o tempo,
Varrem-me o alento,
Ferem-me o voo, a paixão e o sustento.

Letra e música: Álvaro M. B. Amaro
Intérprete: Dialecto* (in CD “Aromas”, Dialecto/Cloudnoise, 2011)