O poemário do cancioneiro português (incluindo fado, música tradicional e ligeira) pretende fomentar o gosto da poesia como parceira da música e a divulgação dos poetas cuja importância nem sempre é justamente reconhecida.

Retrato de Fernando Pessoa por Almada Negreiros

Há uma música do povo,
Nem sei dizer se é um fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado…

Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser…
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver…

Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção …
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração …

Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido…
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!

Intérprete: Mariza
Letra: Fernando Pessoa
Música: Mário Pacheco

Retrato de Fernando Pessoa por Almada Negreiros
Retrato de Fernando Pessoa por Almada Negreiros

Part(Ida)

Vou
para um outro mundo
que não tenha fim
ou uma barca a mais

Vou para um outro dia
que não tenha sombra
sou sabor a sol

Vou para um outro sonho
que não tenha aves
ou palmas de mãos

(PART)IDA – Lectio X [satb (ssaatb)]
Música: Alfredo Teixeira
Poema: Daniel Faria*
Intérprete:
Coro Ricercare
Dir. Pedro Teixeira
Solistas: Raquel Pedra, Ana Baptista

Festival Antena 2, 15 -02-2020, no Salão Nobre do Teatro Nacional de São Carlos

*Daniel Faria, Das madrugadas, in Poesia, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2009.

Daniel Faria, poeta
Daniel Faria, poeta

Galo

Ó Ana, Vem Ver

Ó Ana, vem ver! Ó Ana, vem ver!
Há fogo no mar e os peixes a arder!
La ri lo lela! Ó Ana, vem ver!

Oh alto e oh alto, oh alto, piu piu!
Passarinho novo da mão me fugiu!
La ri lo lela, oh alto, piu piu!

Senhora Maria, senhora Maria,
O seu galo canta e o meu assobia!
La ri lo lela, senhora Maria!

Oh alto e oh alto, oh alto e oh alto!
Quanto mais acima maior é o salto!
La ri lo lela, oh alto e oh alto!

Ó Ana, vem ver! Ó Ana, vem ver!
Há fogo no mar e os peixes a arder!
La ri lo lela! Ó Ana, vem ver!

Senhora Maria, senhora Maria,
O seu galo canta e o meu assobia!
La ri lo lela, senhora Maria!

Oh alto e oh alto, oh alto, piu piu!
Passarinho novo da mão me fugiu!
La ri lo lela, oh alto, piu piu!

Eu quero, eu quero, eu quero, eu queria
Dormir uma noite contigo, Maria!
La ri lo lela, eu quero, eu queria!…

Letra e música: Tradicional (Beira Interior)
Intérprete: Real Companhia* (in CD “Orgulhosamente Nós!”, Lusogram, 2000)

Galo
Galo
Danças Ocultas

O Teu Olhar

Um amor feliz
Pode não brilhar
Porque não ouviu
O segredo mais bonito que ele pode revelar
Na voz do coração
Que bateu em mim
Ou em ti, não sei

Foi no teu olhar
Que aprendi a ver
O amor é só
O segredo mais bonito que alguém me pode contar
E só se vai cumprir
Quando o meu olhar
Encontrar o teu

Vou contá-lo ao céu
Vou dizê-lo ao mar
Não o conto a mais ninguém
Depois vou dormir
P’ra poder lembrar
Os segredos mais bonitos que o teu nome tem

Vou contá-lo ao céu
Vou dizê-lo ao mar
Não o conto a mais ninguém
Depois vou dormir
P’ra poder lembrar
Os segredos mais bonitos que o teu nome tem

Sei que viajar
Não é só partir
É também saber
O segredo mais bonito que eu te poderei contar
Em mim se vai cumprir
Quando o teu olhar
Encontrar o meu

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Danças Ocultas
Intérprete: Danças Ocultas* com Carminho (in CD “Dentro Desse Mar”, Danças Ocultas/Sony Music, 2018)

*Danças Ocultas:
Artur Fernandes – acordeão diatónico (melodias)
Filipe Cal – acordeão diatónico (acordes e ritmo harmónico)
Filipe Ricardo – acordeão diatónico (baixos)
Francisco Miguel – acordeão diatónico (contrapontos: respostas às melodias)
Músicos convidados:
Carminho – voz
Jaques Morelenbaum – violoncelo
Lula Galvão – violão

Danças Ocultas
Danças Ocultas
Mazagão/Jadida, Marrocos

Mazagão

Cidade de El Jadida,
antiga Mazagão,
foste cidade perdida
sem nunca perder o chão.

És cidade sem tempo,
és o povo que te fez
de um caminhar muito lento
feito de muita altivez.

Mazagão foste, El Jadida és,
cisterna de belo encanto.
Procurei-te de lés-a-lés,
águas calmas do meu pranto.

Não há ninguém como tu

Letra e música: José Barros
Arranjo: José Barros
Intérprete: José Barros e Navegante
Versão original: José Barros e Navegante (in CD “À’Baladiça”, Tradisom, 2018)

Catarina Moura – voz
Ariel Ninas – sanfona, sinos, harmónica, chocalhos, adufe e voz
César Prata – guitarras, dulcimer, adufe, harmónio, mbira, beat root e voz
Gravado por César Prata, no estúdio RequeRec (Trancoso)
Misturas e masterização – César Prata

Mazagão/Jadida, Marrocos
Mazagão/Jadida, Marrocos
José Barros e Navegante, À'Baladiça

Músicos, Cravos e Rosas

É pela música
que encantas os sentidos,
apurados pelos sonhos
mais antigos
de entender a emoção
e a alegria,
provocado o coração,
em agonia.
Vais levado pelo vento,
pelos sons do pensamento.

Cravos
são livres, são bravos.
Rosas
são belas, são prosas.

É pelo som do mar
no canto das sereias,
que te vão contar
compassos e colcheias,
mas tu és o tempo forte
e o agasalho.
Tempo fraco não é sorte,
é trabalho.
Vais levado pelo vento,
pelos sons do pensamento.

Cravos
são livres, são bravos.
Rosas
são belas, são prosas.

Quem te compra
cria garras de encantar.
Vendes a alma?
Essa não se pode comprar.
Na viagem pelos sons
desta braguesa
ouço histórias
de uma canção portuguesa.
É uma luta contra o vento,
não se vende o pensamento.

Cravos
são livres, são bravos.
Rosas
são belas, são prosas.

Cravos e rosas.

Letra e música: José Barros
Arranjo: José Barros
Intérprete: José Barros e Navegante
Versão original: José Barros e Navegante (in CD “À’Baladiça”, Tradisom, 2018)

José Barros e Navegante, À'Baladiça
José Barros e Navegante, À’Baladiça
Alpalhão, Nisa

São João de Alpalhão

Oh meu São João Baptista!
Oh meu Baptista João!
Vamos ir à água nova
Na noite de São João!

São João baptiza Cristo,
Cristo baptiza João:
Ambos foram baptizados
Lá no rio do Jordão.

São João p’ra ver as moças
Fez uma fonte de prata;
As moças não vão a ela,
São João todo se mata.

Meu divino São João
Que na mão tem a bandeira!
Vamos ir ao rosmaninho
P’ra fazermos a fogueira!

Letra e música: Tradicional (Alpalhão, Nisa, Alto Alentejo)
Recolha: Michel Giacometti (in série documental “Povo Que Canta”, ep. “O S. João na Tradição Musical Popular”, RTP-1, 04 Set. 1972)
Intérprete: Segue-me à Capela (in Livro/CD “San’Joanices, Paganices e Outras Coisas de Mulher”, Segue-me à Capela/Fundação GDA/Tradisom, 2015)

Alpalhão, Nisa
Alpalhão, Nisa
Estorãos, Ponte de Lima

São João perdeu

São João perdeu, perdeu…
Ai São João que perderia?
Perdeu o lenço da mão
Ai, ai à vinda da romaria.

São João, se bem soubera
Ai quando era o seu dia,
Descia do Céu à Terra
Ai com prazer e alegria.

Letra e música: Tradicional (Estorãos, Ponte de Lima, Minho)
Recolha: Michel Giacometti (in série documental “Povo Que Canta”, ep. “Cantos do Trabalho em Estorãos”, RTP-1, 13 Dez. 1973)
Intérprete: Segue-me à Capela (in Livro/CD “San’Joanices, Paganices e Outras Coisas de Mulher”, Segue-me à Capela/Fundação GDA/Tradisom, 2015)

Estorãos, Ponte de Lima
Estorãos, Ponte de Lima
Ilha de Santa Maria, Açores

Cântico dos Foliões

Ai São João foi baptizado
Ai lá no rio de Jordão;
Ai ele é sempre estimado
Ai p’ra fazer uma função.

Ai São João se bem soubesse
Ai quando era o seu dia,
Ai descia do Céu à Terra
Ai com prazer e alegria.

Ai nós somos todas mulheres
Ai e temos bom coração,
Ai e temos esta lembrança
Ai de cantar a São João.

Letra e música: Tradicional (Ilha de Santa Maria, Açores)
Informantes: Gualter Eusébio Figueiredo Coelho (11 anos), José da Trindade Fontes Correia (9 anos) e José Manuel de Sousa Medeiros (11 anos) (canto, tambor e címbalos)
Recolha: Artur Santos (campanha de 1958) (“Cântico de Foliões”, do Império chamado ‘das crianças’ ou ‘dos inocentes’ em dia de S. João, in 12EP “O Folclore Musical nas Ilhas dos Açores: Antologia Sonora da Ilha de Santa Maria”, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1963; 2CD “O Folclore Musical nas Ilhas dos Açores: Antologia Sonora da Ilha de Santa Maria”: CD 2, faixa 7, Açor/Emiliano Toste, 2002)
Adaptação: Segue-me à Capela
Intérprete: Segue-me à Capela (in Livro/CD “San’Joanices, Paganices e Outras Coisas de Mulher”, Segue-me à Capela/Fundação GDA/Tradisom, 2015)

Ilha de Santa Maria, Açores
Ilha de Santa Maria, Açores
Brigada Victor Jara, Monte Formoso

Ó Meu Amor

Meu amor, meu amor,
Se tu fores,
Leva meu ser!
Meu ser, amor!

Ó meu amor, se tu fores,
Leva-me, podendo ser!
Eu quero ir acabar
Onde tu fores morrer.

Eu hei-de morrer cantando,
Já que chorando nasci,
Já que as glórias deste mundo
Se acabaram p’ra mim.

Letra e música: Tradicional (Fundão, Beira Baixa)
Arranjo: José Manuel David
Intérprete: Segue-me à Capela (in Livro/CD “San’Joanices, Paganices e Outras Coisas de Mulher”, Segue-me à Capela/Fundação GDA/Tradisom, 2015)
Primeira versão: Brigada Victor Jara – “Tosquia” (in LP “Monte Formoso”, MBP, 1989, reed. Farol Música, 1996; Livro/11CD “Ó Brigada!: Discografia Completa da Brigada Victor Jara – 40 Anos”: CD “Monte Formoso”, Tradisom, 2015)

Brigada Victor Jara, Monte Formoso
Brigada Victor Jara, Monte Formoso