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Galo de Barcelos
Cancioneiro

Canções portuguesas

Poemário da Canção Portuguesa

A Senhora está sentada

A Senhora está sentada
Não tem pés, pois muito andou
Já nem na memória há rastos
Do tempo que caminhou

A Senhora está sentada
Numa redoma de luz
E é uma nave perdida
Nenhuma rota a conduz

E a Senhora está sentada
Numa montanha de fel
Rios correm dos seus olhos
E dos seus lábios o mel

E a Senhora está sentada
Tem parado o respirar
Do seu peito saem chamas
Das que não sabem queimar

E a Senhora está sentada
Sobre as dores de cada um
Do seu ventre sai remédio
Que cura como nenhum

E a Senhora está sentada
Numa matéria sem nome
Transformada numa estátua
Que não tem sono nem fome

E a Senhora está sentada
Sobre as suas próprias mãos
E baloiça no vazio
No céu de todos os chãos

Letra e música: Amélia Muge
Intérprete: Amélia Muge (in CD “Todos os Dias”, Columbia/Sony, 1994)

A solidão

[ Nem Mal Que Sempre Dure, Nem Bem Que Nunca se Acabe ]

A solidão espalhada p’los penedos
Embrulha a alma em folhas de saudade
A noite acorda o sabor dos segredos
E traz nos dedos a cor da vontade

E só a voz da Lua é que me amansa
E me adormece ao canto da gaivota
No fim do mundo o tempo quebra a dança
E o vento lança aromas de outra rota

O sol acalma como um grão de areia
E dorme enquanto espera a madrugada
Em cada noite escura há uma candeia
Em cada ceia há uma fome adiada

Em cada grito há uma voz calada
Encruzilhada p’lo meio do caminho
Em cada sono há uma alma acordada
Desnorteada como um burburinho

Ouvi dizer o povo e o povo bem o sabe:
“Nem mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe.”

Mal amanhece o horizonte espreita
Enquanto espera pelo raiar do dia
Já se adivinha o calor que se ajeita
E o chão aceita o fim da noite fria

Rir da tristeza, chorar da alegria
Abrir caminhos como um peregrino
Deixar que a vida traga outro dia
Fazer folia a meias com o destino

Ouvi dizer o povo e o povo bem o sabe:
“Nem mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe.

Ouvi dizer o povo e o povo bem o sabe:
“Nem mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe.”

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha*
Versão discográfica anterior: Sebastião Antunes & Quadrilha com Carlos Moisés (in CD “Perguntei ao Tempo”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2019)
Versão original: Quadrilha (in CD “A Cor da Vontade”, Vachier & Associados, 2003)
Outra versão: Quadrilha (in CD “Deixa Que Aconteça: Ao Vivo”, Vachier & Associados/Ovação, 2006)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. 

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

A verdade vem ao de cima

A verdade vem ao de cima e mostra
O que em baixo tem, que ao de cima não se gosta
A verdade tem algo difícil de atingir
Quando em cima há quem, por baixo vem e te faça distrair

A verdade vem ao de cima e mostra
A verdade vê e ao de cima há-de vir
A verdade vem ao de cima e mostra
A verdade vê e ao de cima há-de vir

Quando de baixo vem, tão hibernado e escondido,
O desejo de ter e conhecer o proibido
Quando a vontade for escorregando a mentir
A verdade vê e ao de cima há-de vir

A verdade vem ao de cima e mostra
A verdade vê e ao de cima há-de vir
A verdade vem ao de cima e mostra
A verdade vê e ao de cima há-de vir

E por mais que tentes dar a volta
A verdade veio sempre e sempre há-de vir
Há-de vir n’outro presente às cambalhotas
Noutro presente há-de vir, noutro presente há-de vir

A verdade vem ao de cima e mostra
A verdade vê e ao de cima há-de vir
A verdade vem ao de cima e mostra
A verdade vê e ao de cima há-de vir
(bis)

Letra e música: Luís Pucarinho
Intérprete: Luís Pucarinho com Duarte (in CD “Orgânica Mente Humana”, Caracol Secreto Associação/Alain Vachier Music Editions, 2015)

Acorda meu sangue preso

[ Cantar para Um Pastor ]

Acorda meu sangue preso
Acorda meu sangue mudo
Se te amo, não te amo
E meu cantar não diz tudo

Meu olhar de madrugada
Pastor da noite comprida
Luz no peito vigiada
Liberdade consentida

Acorda meu sangue preso
Rasga o ventre do meu dia
Se te amo, não te amo
Meu pastor de alegria

Meu pastor de alegria
Meu olhar de madrugada
Se eu piso campos verdes
É sempre noite na estrada

Se te amo, não te amo
Meu olhar de madrugada
Trago uma pomba de espanto
Nesta garganta velada

Poema: Matilde Rosa Araújo
Música: Adriano Correia de Oliveira
Intérprete: Adriano Correia de Oliveira (in “Cantaremos”, Orfeu, 1970, reed. Movieplay, 1999; “Obra Completa”: CD “A Noite dos Poetas “, Movieplay, 1994)

Acredito em pouca coisa

Acredito em pouca coisa
que venha escrita em loiça,
dessa de pôr na parede.

Acredito mais no desempenho
da laranja que apanho,
que como e me mata a sede.

Acredito nas façanhas,
muito menos nas patranhas
de quem faz só porque sim.

Acredito nas crianças,
no meu ventre são esperanças
de um futuro sem fim.

Acredito na loucura
de quem pede mais ternura
e vira costas à guerra.

Acredito na fé dos outros
que às vezes abrem poços
só para encontrar mais terra.

Acredito no Caetano,
no Zambujo que é meu mano,
em todas as vozes calmas.

Acredito na poesia
e também na aletria,
em todos adoçantes de almas.

Acredito na minha mãe,
ela que sofreu bem
para que eu fosse como sou.

Crente nos frutos e flores,
nos mais impossíveis amores,
onde o Sol mais brilhar eu estou.

Letra: Celina da Piedade
Música: Alex Gaspar
Intérprete: Celina da Piedade
Versão original: Celina da Piedade (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)

Agora e na Boa Hora

Agora e na boa hora
Saio de casa p’ra fora;
Quem mal me queira fazer
Deus as queira arrepender.

Tenha pernas e não ande!
Tenha braços e não mande!
Tenha boca e não fale!
Tenha olhos e não veja!

Agora e na boa hora
Saio de casa p’ra fora;
Quem mal me queira fazer
Deus as queira arrepender.

Tenha pernas e não ande!
Tenha braços e não mande!
Tenha boca e não fale!
Tenha olhos e não veja!

Agora e na boa hora
Saio de casa p’ra fora;
Quem mal me queira fazer
Deus as queira arrepender.

Tenha pernas e não ande!
Tenha braços e não mande!
Tenha boca e não fale!
Tenha olhos e não veja!

Agora e na boa hora
Saio de casa p’ra fora;
Quem mal me queira fazer
Deus as queira arrepender.

Tenha pernas e não ande!
Tenha braços e não mande!
Tenha boca e não fale!
Tenha olhos e não veja!

Agora e na boa hora
Saio de casa p’ra fora;
Quem mal me queira fazer
Deus as queira arrepender.

Letra: Oração tradicional
Música e arranjo: César Prata
Intérprete: César Prata e Vânia Couto
Versão original: César Prata e Vânia Couto (in CD “Rezas, Benzeduras e Outras Cantigas”, Sons Vadios, 2019)

Águas claras

[ Canção das Águas Claras ]

Águas claras, águas claras
Que dos rochedos caíam;
Morreram as águas claras
Onde os meus sonhos bebiam.

Era o sol, era a lua,
Era a flor que aparecia;
A solidão da rua
Também toda lá bebia.

Agora a mágoa me acena
Das minhas mãos agitadas.
Quem dera fossem penas
Os rochedos de águas claras!

Águas claras, águas claras
Que dos rochedos caíam;
Morreram as águas claras
Onde os meus sonhos bebiam.

Dessa paisagem não sei,
Nem a saudade precisa;
Coração, eu não parei,
Tira-me a hora indecisa!

Do tempo que era quimera,
Não quero que tenha fim…
Porque é que o tempo não espera,
Nem nunca esperou por mim?

Águas claras, águas claras
Que dos rochedos caíam;
Morreram as águas claras
Onde os meus sonhos bebiam.

Águas claras, águas claras
Que dos rochedos caíam;
Morreram as águas claras
Onde os meus sonhos bebiam.

Letra: Joaquim Pedro Gonçalves
Música: Ricardo Ribeiro
Intérprete: Ricardo Ribeiro
Versão original: Ricardo Ribeiro (in CD “Hoje É Assim, Amanhã Não Sei”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2016)

Ai amigos

[ A Lei dos Sentidos ]

Ai amigos…
Na ilusão ridícula de sermos imortais e querermos acertar
Se inventarmos fugas, ideias e diferenças vão chamar-nos loucos
Se fugirmos à norma e pensarmos longe – somos anormais
Se sonharmos mar, montanhas e vento – vamos ser tão poucos…

E afinal viver é este tempo breve dado para a memória
Uma novela curta que sempre ansiamos de grandes paixões
Mas cada um de nós vale muito pouco para as contas da História
Somos só formigas enchendo o planeta de tantos milhões

Pequenos demais, vagueando aí, sem esperança nem jeito
Buscando a nobreza de um outro sentir, feito de emoções
Buscando impossíveis de amor e beleza num tempo perfeito
Querendo a felicidade e o sucesso inteiro em vinte lições

Deixem-me sonhar que num tempo novo nascerão do caos
O homem completo, a gente bonita, a nação ternura
Sem raivas nem ódios, nem fés de rancores, nem dogmas estreitos
E que um mundo outro, mais belo e mais pleno, nos nasce e perdura

Um mundo onde os poetas não sejam estudados como anormais
E os homens justos e as gentes de estudo sejam distinguidos
E a sabedoria seja infinda e livre e nunca demais
E então se publique, por decreto urgente – a lei dos sentidos!

Letra e música: Pedro Barroso
Intérprete: Pedro Barroso
Versão original: Pedro Barroso (in CD “Artes do Futuro”, Ovação, 2017)

Ai levaram-me os temas

[ Caixinha de Mão ]

Ai levaram-me os temas,
Os meus longos poemas,
As canções de amor

Ai levaram-me os temas,
Os meus longos poemas,
As canções de amor

Foi o meu menino, chamado Paixão,
Que mos levou numa caixinha de mão
Para os guardar e depois cantar
Se o coração deixar

Foi o meu menino, chamado Paixão,
Que mos levou numa caixinha de mão
Para os guardar e depois cantar
Se o coração deixar

Ai, mas se ele voltasse
E ao meu lado se deitasse
Ao meu lado a brincar
Com a caixinha dos temas

Fazia-me os temas
Longas são as histórias de amor
Para as guardar e depois cantar
Se o coração deixar

Letra e música: Tiago Curado de Almeida
Intérprete: Pensão Flor
Versão original: Pensão Flor (in CD “O Caso da Pensão Flor”, Pensão Flor/Brandit Music, 2013)

Ali estavas tu

Ali estavas tu olhando à janela, quando voltei já quase dia
Da boémia, da boémia e do som.
E desceste até à porta, num sorriso maior e num abraço
Num abraço sentido

Colaram-se os corpos numa dança, varrendo tudo pelo chão
Um aceso rebolar sufocante e o suor em crescente pulsação
E a força, o sangue corre num único sentido
Algo em mim se vai e morre e me consome morto e vivo

Como quem sabe de cor, puseste-me um cigarro na boca
E com amor, um brilho nos olhos
Em corpo nu à luz de uma vela, perguntei-te baixinho
“Quando voltas? Quando voltas à janela?”

Colaram-se os corpos numa dança, varrendo tudo pelo chão
Um aceso rebolar sufocante e o suor em crescente pulsação
E a força, o sangue corre num único sentido
Algo em mim se vai e morre e me consome morto e vivo

Ali estavas tu olhando à janela, quando voltei já quase dia
Da boémia, da boémia e do som.
E desceste até à porta, num sorriso maior e num abraço
Num abraço sentido
Ficaste tu olhando à janela…

Letra e música: Luís Pucarinho
Intérprete: Luís Pucarinho (in CD “Orgânica Mente Humana”, Caracol Secreto Associação/Alain Vachier Music Editions, 2015)

Ao correr da queda de água

[ Fraga da Pena ]

Ao correr da queda de água
Fui lavar um sentimento:
Deixei acalmar a mágoa
Enquanto escutava o vento.

A saltar entre os penedos,
As águas vão ensinando
As lembranças e os segredos
Que a serra vai murmurando.

E as penas quem as apaga
Para a alma ficar serena?
Penas grandes como a fraga
São como a Fraga da Pena.

E as penas quem as apaga
Para a alma ficar serena?
Penas grandes como a fraga
São como a Fraga da Pena.

Enquanto a tarde se deita
Nas sombras da penedia,
A água aos poucos ajeita
O raiar do novo dia.

Trigueira de água nos dedos
Desce da serra apressada:
Vem a cantar pelos penedos
Para me saudar à chegada.

Enquanto a noite me afaga,
Enquanto a lua me acena,
Adormeço ao som da fraga:
Ao som da Fraga da Pena.

Enquanto a noite me afaga,
Enquanto a lua me acena,
Adormeço ao som da fraga:
Ao som da Fraga da Pena.

E as penas quem as apaga
Para a alma ficar serena?
Penas grandes como a fraga
São como a Fraga da Pena.

Enquanto a noite me afaga,
Enquanto a lua me acena,
Adormeço ao som da fraga:
Ao som da Fraga da Pena.

Letra: Sebastião Antunes
Música: Fernando Pereira
Intérprete: Real Companhia com Ana Laíns (in CD “Serranias”, Tê, 2013)

Ao som de uma caixa de música

[ Caixinha de Música ]

Ao som de uma caixa de música acordou João
Ao lado do berço um corpo caído, desilusão
A casa vazia e no ar um cheiro a solidão
Para lá da janela uma visão tão estranha
O que terá acontecido?

Como um pássaro que saiu do ninho e esvoaçou
João deu a medo alguns passos pelo quarto e sem querer
Debruçou o corpo sobre o chão morno e adormeceu
Talvez p’ra dormir o seu último sono
E o que fica a dizer de…?

João, mais uma vítima nuclear numa casa no meio da cidade
Onde só se contavam histórias de mal e de bem
João, mais uma vítima nuclear numa casa no meio da cidade
Onde só se contavam histórias de realidade

Uma brisa estranha chegou de repente, com sabor a fim
E uma noite fria caiu sobre os restos do auge do poder
Entre o tudo e o nada ficou uma sombra, uma recordação
Talvez algum dia alguém venha a perguntar:
“O que terá acontecido?”

Um manto de fumo cobriu a cidade, em forma de adeus
Talvez p’ra apagar a última imagem guardada da Terra
A tocar no meio do deserto plantado a caixinha ficou
Testemunha ingénua das glórias já findas
E das marcas da vida

João, mais uma vítima nuclear numa casa no meio da cidade
Onde só se contavam histórias de mal e de bem
João, mais uma vítima nuclear numa casa no meio da cidade
Onde só se contavam histórias de realidade

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha com João Pedro Pais (in CD “Perguntei ao Tempo”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2019)
Versão original: Peace Makers (in single “Caixinha de Música / Recordação de Hiroshima”,
Victória Records, 1988)
Outra versão: Quadrilha (in CD “Deixa Que Aconteça: Ao Vivo”, Vachier & Associados/Ovação, 2006)

Sebastião Antunes & Quadrilha, Perguntei ao Tempo
Sebastião Antunes & Quadrilha, Perguntei ao Tempo

Às vezes

Às vezes, dou por mim quase esquecido
Suspirando, meio-perdido
Sem ninguém p’ra conspirar

Por linhas tortas,
Troco as palavras e abro portas
Invento frases de lamento
Houvesse alguém p’ra duvidar…

Se eu fosse a ti vinha a correr
Não vês que em ti eu posso ser
A sede ardente de um desejo

Se eu fosse a ti vinha a voar
Os pés no ar a querer andar
Sentir o corpo a levitar
Na febre quente de mais um beijo

Às vezes, dou por mim quase rendido
No teu canto preferido
A sorte teima em não passar

Mas sou teimoso
E fico à espera no mesmo lugar
Onde passas sem parar
Houvesse alguém p’ra duvidar…

Se eu fosse a ti vinha a correr
Não vês que em ti eu posso ser
A sede ardente de um desejo

Se eu fosse a ti vinha a voar
Os pés no ar a querer andar
Sentir o corpo a levitar
Na febre quente de mais um beijo

Se eu fosse a ti vinha a correr
Não vês que em ti eu posso ser
A sede ardente de um desejo

Se eu fosse a ti vinha a voar
Os pés no ar a querer andar
Sentir o corpo a levitar
Na febre quente de mais um beijo

Na febre quente de mais um beijo

Letra e música: Jorge Roque
Intérprete: Jorge Roque
Versão original: Jorge Roque (in CD “Às Vezes”, Vidisco, 2013)

Baco quando nasceu

[ O Deus de Todo o Vinho ]

Baco quando nasceu
Pediu à mãe um copinho
E disse: – vou ser deus!
Vou ser deus de todo o vinho!

A mãe ficou intrigada
Com tanta sabedoria;
Baco de cara corada
Sabia bem o que queria.

Abençoado tu sejas,
Ó vinho mosto de surdos!
Diz que dás a vista aos cegos
E também a fala aos mudos.

Em vez de leite, bebia
Uns copos de vinho tinto;
Só chorava de alegria,
Que menino tão distinto!

As fraldas eram de parra,
Os caracóis cheios de curvas;
A chucha uma coisa rara
Toda enfeitada com uvas.

Abençoado tu sejas,
Ó vinho mosto de surdos!
Diz que dás a vista aos cegos
E também a fala aos mudos.

Baco lá foi crescendo
Por entre copos de vinho,
Com os amigos bebendo
Pelas tascas do caminho.

Recordando que ao nascer
Pediu à mãe um copinho
E disse: – vou ser deus!
Vou ser deus de todo o vinho!

Abençoado tu sejas,
Ó vinho mosto de surdos!
Diz que dás a vista aos cegos
E também a fala aos mudos.

Letra: José Luís Gordo
Música: Carlos Alberto Moniz
Intérprete: Carlos Alberto Moniz
Versão original: Carlos Alberto Moniz (in Livro/2CD “O Vinho dos Poetas”: CD 1, Carlos Alberto Moniz/Ovação, 2014)

Caem tordos e pardais

[ Perdidos pela Estrada ]

Caem tordos e pardais das varandas, dos telhados
Caem todos os normais sem asas levantados
Caídos morrem pela rua na tristeza e pela fome
Porque as vidas não são as suas e sem vida tudo morre

Quem por ti pensa e vê e te diz como tudo deve ser?
Quem a ti te encaminha e faz render?
Quem por ti decide, por ti irá viver?

De tão certos e arrumados nas gavetas inventadas
Nas varandas e telhados, sem da vida verem nada
Seguem do formato o trilho, da moral endiabrada
Que se perdem no caminho todos, todos pela mesma estrada

Quem por ti pensa e vê e te diz como tudo deve ser?
Quem a ti te encaminha e faz render?
Quem por ti decide, por ti irá viver?

Quem por ti… por ti irá viver?
E te diz…

Quem por ti decide, por ti irá viver?

Letra e música: Luís Pucarinho
Intérprete: Luís Pucarinho (in CD “Orgânica Mente Humana”, Caracol Secreto Associação/Alain Vachier Music Editions, 2015)

Cantiga de Vir ao Mundo

Já sentes em ti o que vais ser
Já dormiste um sono profundo
Chegou a hora d’amanhecer
Deixar p’ra trás a porta do mundo

Vais repousar na estrela-d’alva
E dançar a dança dormente
Ouro na pele, incenso e salva
Desabraçar o ninho mais quente

Tens o sol riscado nas asas
Um rei sem roque nem patrão
Um deus a quem dei coração
A sombra incerta do amor

Serás acaso, serás fronteira
Sussurrando temporais
Velhas perguntas, luas inteiras
Vencendo a sina dos mortais

Tens o sol riscado nas asas
Um rei sem roque nem patrão
Um deus a quem dei coração
A sombra incerta do amor

Letra: Miguel Cardina
Música: Pedro Damasceno e Sara Vidal
Arranjo: Diabo a Sete e Julieta Silva
Intérprete: Diabo a Sete* (in CD “Figura de Gente”, Sons Vadios, 2016)

Carolina, esta cantiga é para ti

[ Quando Nasceste ]

Carolina, esta cantiga é para ti.
Um dia desvendarás a poesia
que a música esconde.
Amo-te.
Sinto que o amanhã
é ontem e o hoje
é a revelação
do espírito livre
e inquieto.

Música: Ricardo Ribeiro
Intérprete: Ricardo Ribeiro (in CD “Largo da Memória”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2013)

Chega-se a este ponto

Chega-se a este ponto em que se fica à espera
Em que apetece um ombro o pano de um teatro
um passeio de noite a sós de bicicleta
o riso que ninguém reteve num retrato

Folheia-se num bar o horário da Morte
Encomenda-se um gin enquanto ela não chega
Loucura foi não ter incendiado o bosque
Já não sei em que mês se deu aquela cena

Já não sei em que mês…
Chega-se a este ponto em que se fica à espera

Chega-se a este ponto Arrepiar caminho
Soletrar no passado a imagem do futuro
Abrir uma janela Acender o cachimbo
para deixar no mundo uma herança de fumo

Rola mais um trovão Chega-se a este ponto
em que apetece um ombro e nos pedem um sabre
Em que a rota do Sol é a roda do sono
Chega-se a este ponto em que a gente não sabe

Chega-se a este ponto…
Chega-se a este ponto em que a gente não sabe

Chega-se a este ponto… em que se fica à espera
Chega-se a este ponto… em que a gente não sabe
Chega-se a este ponto… em que se fica à espera

Poema: David Mourão-Ferreira (adaptado)
Música: José Mário Branco
Intérprete: Camané (in CD “Infinito Presente”, Warner Music, 2015)

Chegámos, tu e eu

[ Cena Final ]

Chegámos, tu e eu, ao fim do jogo
O nosso amor morreu, não há mais fogo
Eu compreendo…
Lamento não poder chorar de raiva
Mas entendo

Já palmilhámos juntos muita estrada
E agora que estamos no fim da jornada
Fica um vazio…
Eu não quero mais ser marinheiro
No teu navio

No teu navio
E ter a vida
Por um fio

Não esperes tu de mim que de ti fuja
Não gosto de lavar a roupa suja,
Fica tão mal…
Confesso que nunca pensei ser actor
Da cena final

Se há coisa que comigo não resulta
É sentir que trago a rédea curta,
Eu não aguento…
Do que eu gosto mesmo é de ser livre
Como o vento

Eu não aguento
Quero ser livre
Como o vento

Não esperes tu de mim que de ti fuja
Não gosto de lavar a roupa suja,
Fica tão mal…
Confesso que nunca pensei ser actor
Da cena final

Se há coisa que comigo não resulta
É sentir que trago a rédea curta,
Eu não aguento…
Do que eu gosto mesmo é de ser livre
Como o vento

Eu não aguento
Quero ser livre
Como o vento

Letra e música: Aníbal Raposo
Intérprete: Aníbal Raposo com Vânia Dilac (ao vivo no Teatro da Luz, Lisboa)
Versão original: Aníbal Raposo (in CD “Maré Cheia”, Aníbal Raposo/MM Music, 1999)

Cheiro bom

[ Há Vida no Bairro ]

Cheiro bom
Risos e gente a conversar

No jardim
homens que sabem o que jogar

Há mais um
vizinho novo para cantar

A canção
marcha que o Bairro há-de ganhar

E tu quem és? De donde vens?
Porque não te chegas mais?
Vem cá ver, acreditar
que as pessoas são bens reais!

Ser feliz
é nunca mais voltar
a estar só

No jardim
falta uma peça
ao dominó

Sê mais um para mostrar
como se canta
em dó

Aprender
como se dança
sem levantar pó

O que é meu é p’ra dar
Deus não quer tralha no Céu
Não há nada p’ra guardar
Viver já é um troféu

O que é meu é p’ra dar
Deus não quer tralha no Céu
Não há nada p’ra guardar
Viver já é um troféu

Ser feliz
é nunca mais voltar
a estar só

No jardim
falta uma peça
ao dominó

Sê mais um para mostrar
como se canta
em dó

Aprender
como se dança
sem levantar pó

Letra: Eugénia Ávila Ramos
Música: Tiago Oliveira
Intérprete: Rua da Lua
Versão original: Rua da Lua (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)

Com um copo de vinho

[ A Tua Boca Tem Sabor a Mosto ]

Com um copo de vinho, afogo
Esta mágoa de ver-me perdido
Por um bago de esp’rança, que provo
No lagar do teu corpo despido.
És de uma casta que se apanha a gosto:
Claretes, verdelhos…
A tua boca tem sabor a mosto
E a frutos vermelhos.
E a fome que te sinto no meu peito
Vai morrer de qualquer jeito
No balseiro desta vida.
Depois, abre-se a porta da adega
E o teu corpo já se apega
Numa prova de carinho.

Com um copo de vinho, levanto
Este brinde ao corpo que canto.
Ao teu ombro murmuro baixinho:
Este corpo que bebo é vinho.

Com um copo de vinho, aqueço
A palavra ternura e teço
Estes versos de uva que esmago
Com vontade de seres um bago.
Beber-te toda neste copo imenso
Sentindo que é cedo
P’ra te deixar saber que tenho medo
Que fujas… E penso:
O amor é como o vinho encorpado,
Deixa o corpo orvalhado
Pelos beijos da manhã.
Teu corpo é preciso esconder,
Pois só eu posso saber
O sabor que o vinho tem.
Com um copo de vinho, levanto
Este brinde ao corpo que canto.
Ao teu ombro murmuro baixinho:
Este corpo que bebo é vinho.

Letra: Álamo Oliveira
Música: Carlos Alberto Moniz
Intérprete: Carlos Alberto Moniz
Versão original: Carlos Alberto Moniz (in Livro/2CD “O Vinho dos Poetas”: CD 1, Carlos Alberto Moniz/Ovação, 2014)

Coração Estoirado

[ Coração de Fita-Cola ]

Coração Estoirado,
Peito feito mola
Pelas ruas a teu lado
Colado com fita-cola

Sempre vacilado,
Sempre a 100 à hora
Sem saber o que fazer
Só tu perdes p’la demora

E num beijo longo, só te quero sentir
Corro, sinto perigo, paro p’ra fingir

Sente a Solidão, meu corpo no tempo
Dá-me a tua mão, meu tormento

Os teus passos mais distantes,
Sempre sem saber
Se o futuro agora é antes
O que mais não posso ter

Saio porta fora
Sem saber o que escrever
Rasgo a vida e vou-me embora
Nas palavras por dizer

E num beijo longo, só te quero sentir
Corro, sinto perigo, paro p’ra fingir

Sente a Solidão, meu corpo no tempo
Dá-me a tua mão, meu tormento

Sobre a tua mão
Escrever o meu nome
A palavra mais sincera
Antes de a dizer, já era
O verbo mais que perfeito
Na perfeição desse jeito
Com que a tua boca
Diz e pede mais
Amor

Letra e música: Jorge Roque
Intérprete: Jorge Roque
Versão original: Jorge Roque (in CD “Às Vezes”, Vidisco, 2013)

Coram de vermelho

[ Damas da Côrte ]

Coram de vermelho
As damas de toda a côrte:
Seu costume é velho,
Não há moda que o troque!

E se por magia
Sua pele mudou de cor,
Foi amor de um dia,
Não dura mas tem sabor…

Casam cinco damas
E outras tantas são solteiras;
Num amor em chamas
As damas são as primeiras!

Damas de cristal,
Coração tão valioso,
Riso ou castiçal
E um olhar mui carinhoso…

Letra e música: José Flávio Martins
Intérprete: Senhor Vadio (in CD “Cartas de um Marinheiro”, José Flávio Martins/iPlay, 2013) [>> YouTube] [ao vivo nos estúdios do Porto Canal, 12 Nov. 2013 – a partir de 8′:06” >> Sapo Vídeos]
Versão original: Frei Fado d’El Rei (in CD “Danças no Tempo”, Columbia/Sony Música, 1995) [>> YouTube]

Corre a gente decidida

[ A Correr ]

Corre a gente decidida
P’ra ter a vida que quer,
Sem repararmos que a vida
Passa por nós a correr;

Às vezes até esquecemos,
Nessa louca correria,
Por que motivo corremos
E p’ra onde se corria.

Buscando novos sabores
Corre-se atrás de petiscos;
Quem corre atrás de valores
Corre sempre grandes riscos;

E dá p’ra ser escorraçado
Correr de forma diferente;
Há quem seja acorrentado
Por correr contra a corrente.

Num constante corrupio
Já nem sequer nos ocorre
Que a correr até o rio,
Chegando ao mar, também morre;

Ou atrás do prejuízo
Ou à frente da ameaça
Corremos sem ser preciso:
E a correr, a vida passa.

Percorrendo o seu caminho,
Correndo atrás dum sentido
Há quem dance o corridinho;
Eu canto o fado corrido

E o que me ocorre agora
P’ra não correr qualquer perigo
É correr daqui p’ra fora
Antes que corram comigo.

Vou correr daqui p’ra fora
Antes que corram comigo!

Letra: Manuela de Freitas
Música: Alain Oulman (“O Pião”)
Intérprete: Camané (in CD “Infinito Presente”, Warner Music, 2015)

Creio nos anjos

[ Credo ]

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.

Poema: Natália Correia (in “Sonetos Românticos”, 1990; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias”, 1993)
Música: Janita Salomé (in CD “Raiano”, Farol Música, 1994)

Cruzaste horizontes

[ Nas Estradas a Guiar ]

Cruzaste horizontes
Entre curvas e montes…
Ó emigrante, eu quero apenas te lembrar!
Passaste montanhas,
Estradas estranhas…
Ó emigrante, eu quero apenas te ajudar!
Vens de tão longe, guiar bem é teu querer…
Há tantas vidas perdidas p’ra recordar…
Olha que a ti também te pode acontecer:
Na estrada a morte espreita,
Não a queiras encontrar!
Tens a vida p’ra viver
E tantos sonhos p’ra sonhar…

Trazes saudades contigo, vem devagar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!
Trazes saudades contigo p’ra festejar
Tanto tempo ausente,
Há sempre tempo p’ra chegar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!

Trazes saudades contigo, vem devagar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!
Trazes saudades contigo p’ra festejar
Tanto tempo ausente,
Há sempre tempo p’ra chegar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!

Cruzaste fronteiras
Com tantas canseiras…
Ó emigrante, eu quero apenas te ajudar!
Vens sorridente,
Feliz e tão contente…
Ó emigrante, eu quero apenas te lembrar!
Há tantas festas, romarias p’ra bailar…
A vida são dois dias, não te deixes descuidar!
Que tenhas sorte por aqui no teu país!
Que sejas bem feliz
Nas estradas a guiar!
Tens a vida p’ra viver
E tantos sonhos p’ra sonhar…

Trazes saudades contigo, vem devagar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!
Trazes saudades contigo p’ra festejar
Tanto tempo ausente,
Há sempre tempo p’ra chegar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!

Trazes saudades contigo, vem devagar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!
Trazes saudades contigo p’ra festejar
Tanto tempo ausente,
Há sempre tempo p’ra chegar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!

Trazes saudades contigo, vem devagar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!
Trazes saudades contigo p’ra festejar
Tanto tempo ausente,
Há sempre tempo p’ra chegar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!

Trazes saudades contigo, vem devagar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!
Trazes saudades contigo p’ra festejar
Tanto tempo ausente,
Há sempre tempo p’ra chegar!…

Letra e música: Dino Meira
Arranjo: Ramon Galarza
Intérprete: Dino Meira (in single “Adeus Paris, Até Lisboa / Nas Estradas a Guiar”, Philips/Polygram, 1983; CD “O Melhor de Dino Meira”, col. Coração Português, Mercury/Universal, 1999; CD “O Melhor de Dino Meira”, Universal, 2007)

Dá-me o amanhã

Dá-me o amanhã
Dá-mo, que depois de amanhã já cá não estou
Vou na senda dos demais que se perdem

Quero o teu calor
Quero o teu ser, o teu eu, o teu haver
Quero provar-te e beber a tua dor

Quero-te nos braços
Toma-me nos braços, quero as lágrimas que choras
Não por mim, mas já que as choras
Quero a pele que elas molham
E os meus lábios as sorvam
Quero o corpo onde moras

Dá-me o amanhã
Dá-mo, que depois de amanhã já cá não estou
Vou na senda dos demais que se perdem

Quero-te as entranhas
Quero-te por dentro e por fora e já agora
Quero roubar-te os sentidos
Quero-te a ti por inteiro
Quero que unamos destinos
Quero-te a ti por inteiro
Por inteiro

Letra e música: Manuel Maio
Intérprete: A Presença das Formigas (in CD “Pé de Vento”, A Presença das Formigas/Careto/XMusic, 2014)

Dança comigo

Dança comigo, morena
Leveza de pena
Esta dança breve
Dança e rodopia
Solta-me a alegria
De quem nada deve

Acende-me a cara, o rosto
Os lábios de mosto
Riso de marfim
Requebra a cintura
Que és a criatura
Nascida para mim

Vamos, a dança é louca
Dá-me a tua boca
Que este beijo é meu
Dança comigo amada
Eu já estou na escada
Que me leva ao céu

Ao som da concertina
(Cinturinha fina
Pele de cetim)
Dança, meu amor
Não sei doutra flor
Que bem dance assim

Dança com fantasia
No fim deste dia
Que se vai embora
No passo da vida
Dancemos querida
Que é a nossa hora

Vamos, a dança é louca
Dá-me a tua boca
Que este beijo é meu
Dança comigo amada
Eu já estou na escada
Que me leva ao céu

Vamos, a dança é louca
Dá-me a tua boca
Que este beijo é meu
Dança comigo amada
Eu já estou na escada
Que me leva ao céu

Vamos, a dança é louca
Dá-me a tua boca
Que este beijo é meu
Dança comigo amada
Eu já estou na escada
Que me leva ao céu

Letra e música: Aníbal Raposo (2006-09-26)
Intérprete: Aníbal Raposo
Versão original: Aníbal Raposo (in CD “Rocha da Relva”, Aníbal Raposo/Global Point Music, 2013)

Das casas que ninguém construiu

Das casas que ninguém construiu
me deram esta para morar:
ficou-me o céu como tecto
e o vento como lençóis…
Dos trapos que atiram fora
me permitiram um para eu vestir.
Das chuvas que caem do tecto do meu lar
me consentiram abafos para as quatro estações.
(Ah, se não fosse às vezes fazer sol…)
Das mulheres que ninguém quer
me negaram a última de todas,
a última de todas as mulheres!
E quando notaram que eu parecia um homem,
pois tinha
ouvidos para ouvir
e olhos para ver,
em todas as estradas do mundo
me gritaram:
— Mendigo, vai ver o fim das estradas todas do mundo!

Poema: Manuel da Fonseca (in “Rosa-dos-Ventos”, Lisboa: Imprensa Baroeth, 1940; “Poemas Completos”, Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958; “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 3.ª edição, Lisboa: Portugália Editora, 1969 – p. 35-36; “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 5.ª edição, Lisboa: Forja, 1975 – p. 58)
Música: Paulo Ribeiro
Arranjo: Jorge Moniz
Intérprete: Paulo Ribeiro
Versão original: Paulo Ribeiro (in CD “O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis”, Açor/Emiliano Toste, 2017)

[ O Vagabundo ]

Dás mais um passo no escuro

[ Dalla ]

Dás mais um passo no escuro
Sem olhar para trás a pensar
Nem anos nem meses, sem contar as vezes
Que a vida te olhou a cantar

Passas o circo a correr,
A banda sempre a tocar
Sem rede e sem chão, agarras a minha mão
E pedes p’ra eu te salvar

Se eu fosse um anjo, tu serias
Um ser Maior, maior que encanto
Cantas a noite em vez do dia
Guardas a paz num doce manto
Às vezes cantas num leve beijo brando

Lamentas que riam de ti,
Pensas diferente e depois
Libertas Amor sem qualquer pudor,
Singela partilha entre dois
A vida passou, e tu já sentes
Um pouco mais de solidão
Acabas cansado, p’ra sempre roubado
Do ouro do teu coração

Se eu fosse um anjo, tu serias
Um ser Maior, maior que encanto
Cantas a noite em vez do dia
Guardas a paz num doce manto
Às vezes cantas num leve beijo brando

Letra e música: Jorge Roque
Intérprete: Jorge Roque
Versão original: Jorge Roque (in CD “Às Vezes”, Vidisco, 2013)

De São Mateus ao Pesqueiro

[ Vinho de Cheiro ]

De São Mateus ao Pesqueiro
A recta só tem três curvas;
Em São Mateus vinho de cheiro
Mas no Pesqueiro é que há uvas.

Porto Martins: uva preta;
Biscoitos: chão de verdelho;
Da Praia inté à Serreta:
Vinho novo, vinho velho.

Vinho de cheiro,
Vinho de cheiro,
Ai, ai, meu vinho festeiro!
Vinho de cheiro,
Vinho de cheiro,
O povo chama ao terreiro.

‘Tá um sol qu’inté consola,
O adro ficou à cunha;
Bota aqui mais meia-bola
P’rás favas de molho de unha!

Empina o canjirão!
Leva à boca a teladeira!
O toiro é um malão,
Não saias da minha beira!

Vinho de cheiro,
Vinho de cheiro,
Ai, ai, meu vinho festeiro!
Vinho de cheiro,
Vinho de cheiro,
O povo chama ao terreiro.

Sempre desde pechinchinho
Que sonhava ser moleiro:
E a mó do meu moinho
Só rodava a vinho de cheiro.

P’ra que fosse um matulão
Mamãe teve este cuidado:
Comi das sopas que dão
Ao cavalo quando cansado.

Vinho de cheiro,
Vinho de cheiro,
Ai, ai, meu vinho festeiro!
Vinho de cheiro,
Vinho de cheiro,
O povo chama ao terreiro.

Nasci no mês de Janeiro,
Era um bezerro mamão:
Só mamava vinho de cheiro
Na teta dum garrafão.

No “Biéxe” comprei uns blue jeans
Todos brancos – um brinquinho;
Mas ao chupar uns “candins”
Borrei as calças de vinho.

Vinho de cheiro,
Vinho de cheiro,
Ai, ai, meu vinho festeiro!
Vinho de cheiro,
Vinho de cheiro,
O povo chama ao terreiro.

Vinho de cheiro,
Vinho de cheiro,
Ai, ai, meu vinho festeiro!
Vinho de cheiro,
Vinho de cheiro,
O povo chama ao terreiro.

Letra: Vasco Pereira da Costa
Música: Carlos Alberto Moniz
Intérprete: Carlos Alberto Moniz
Versão original: Carlos Alberto Moniz (in Livro/2CD “O Vinho dos Poetas”: CD 2, Carlos Alberto Moniz/Ovação, 2014)

De um trapo velho

[ Cinco Vidas ]

De um trapo velho
fiz cinco saias que querem rodar
Num pano branco
cosi cinco bolsos para te levar

De saco às costas parti
sem saber se ia voltar
Cabeça erguida
e olhos de quem quer olhar

Pus-te na minha mão
cinco dedos para me escapar
O mundo deu-me então
cinco vidas para me curar

E lá do bolso de trás
perguntaste se ainda podias falar
Cabeça erguida, respondi:
tanto me faz

Pela estrada andei
quantas voltas eu dei
sem encontrar
um motivo para voltar

De um trapo velho fiz
cinco saias que querem rodar
Num pano branco cosi
cinco bolsos para te levar

E lá do bolso de trás
perguntaste quando ia parar
Cabeça erguida, respondi:
até ter paz

Pela estrada andei
quantas voltas eu dei
sem encontrar
um motivo para voltar

tanto me faz
até ter paz

Letra: Eugénia Ávila Ramos
Música: Tiago Oliveira
Intérprete: Rua da Lua
Versão original: Rua da Lua (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)

Deixei de olhar p’ra quem fui

[ Cantiga do Tempo Novo ]

Deixei de olhar p’ra quem fui,
Do passado estou ausente;
Às vezes mais vale a pena
Rir de tudo o que faz pena
Da alma triste da gente.

Vou lançar mãos à aventura,
Correr noutra direcção;
Quanto mais nos lamentamos
Ainda mais presos ficamos
E nos dói o coração.

Quando me ponho a pensar
Em alguém que tanto quis,
Já não me sento a chorar
E até me dá p’ra cantar
Modas que um dia lhe fiz.

Agora sinto-me livre,
Sem nada p’ra me prender:
E vou pela estrada fora
Rumo ao sul vou sem demora,
Basta o sol p’ra me aquecer.

A nossa vida é um mar
Com muitas marés e vagas:
Não temos nada a perder,
O melhor mesmo é viver
Combatendo as nossas mágoas.

Tenho o mundo à minha espera,
Há ilhas por descobrir:
E há uma vontade nova,
Um tempo que se renova,
Novo amor que vai surgir.

Letra e música: Paulo Ribeiro
Arranjo: Há Lobos Sem Ser na Serra
Intérprete: Há Lobos Sem Ser na Serra (in CD “Cantares do Sul e da Utopia”, Há Lobos Sem Ser na Serra/Alain Vachier Music Editions, 2016)
Versão original: Paulo Ribeiro com o Grupo Coral e Etnográfico “Os Camponeses de Pias” (in CD “Aqui Tão Perto do Sol”, EMI-VC, 2002)
Outra versão de Paulo Ribeiro (in CD “Canções 1998-2002”, Paulo Ribeiro, 2014)

Deixo-te ao postigo

[ Amores de Jericó ]

Deixo-te ao postigo
Um lenço e uma rosa;
Vou partir p’ra longe,
Partir sem demora.

Não chores por mim!
Eu não o mereço:
Sou sombra fugaz
Mas não te esqueço.

Não queiras saber
O que eu não te digo:
Sou fora-da-lei,
Sou mais que um bandido.

Não venhas por mim
Que eu não sei amar!
Com a faca nos dentes
Meu verbo é zarpar.

O Sol já desponta,
Vai-se a madrugada:
O perigo espreita;
Adeus, minha amada!

Não quero teus ais,
Ouve o que eu te digo:
Ande eu onde andar,
Estarás sempre comigo.

Não queiras saber
O que eu não te digo:
Sou fora-da-lei,
Sou mais que um bandido.

Não venhas por mim
Que eu não sei amar!
Com a faca nos dentes
Meu verbo é zarpar.

Não queiras saber
O que eu não te digo:
Sou fora-da-lei,
Sou mais que um bandido.

Não venhas por mim
Que eu não sei amar!
Com a faca nos dentes
Meu verbo é zarpar.

Letra e música: Celina da Piedade e Alex Gaspar
Intérprete: Celina da Piedade
Versão original: Celina da Piedade (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)

Dizem

Dizem que nunca te amei,
Que fui sempre um ‘bon vivant’
E que vou ser sempre assim.
Também dizem que sou ‘gay’,
Que durmo em qualquer divã
Quando a noite chega ao fim.

Dizem que não te mereço,
Que p’ra mim tudo tem preço:
Sou oferta e oferecido.
Dizem que eu ando à mercê,
Que não sou o que se vê:
Bandido e caso perdido.

Dizem que fui e não vou,
Dizem que estive e não estou,
Mas que devia ter ido.
Também dizem, quando estou,
Que o dia bom já passou:
Não sou tido nem ouvido.

Dizem uns que outros não dizem,
Porque não querem saber
Do tanto que há por dizer.
Dos tantos que tanto dizem,
Nada sabem do que dizem
E mais nada vão saber.

Dos tantos que tanto dizem,
Nada sabem do que dizem
E mais nada vão saber.

Letra: Duarte
Música: Carlos da Maia (Fado Perseguição)
Intérprete: Duarte* (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018)

Do Cerro venho descendo

[ Piedra y Camino ]

Do Cerro venho descendo,
Caminho e pedra;
Trago enredada na alma, vida,
Uma tristeza.

Acusas de não querer-te,
Isso não faço:
Talvez não compreendas nunca, vida,
Porque me afasto.

É o meu destino,
Pedra e caminho;
De um sonho longínquo e belo, vida,
Sou peregrino.

Por mais que a dita busque,
Vivo penando;
E quando devo ficar, vida,
Eu vou andando.

Às vezes sou como um rio,
Chego cantando;
E sem que ninguém o saiba, vida,
Sigo chorando.

É o meu destino,
Pedra e caminho;
De um sonho longínquo e belo, vida,
Sou peregrino.

Letra e música: Atahualpa Yupanqui
Adaptação ao português: Celina da Piedade
Intérprete: Celina da Piedade (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)
Versão original: Atahualpa Yupanqui (in LP “Camino del Indio”, RCA Victor (Argentina), 1964; CD “Atahualpa Yupanqui”, Calle Mayor (Espanha), 2017)
Outra versão: Mercedes Sosa (in LP “Mercedes Sosa interpreta Atahualpa Yupanqui”, Philips (Argentina), 1977, reed. Universal Music Argentina, 2010)

E o canto de quem dera

[ Quem Dera ]

E o canto de quem dera
Não era bem seu canto;
Seria profecia… Não era,
E fez-se santo…

Quem dera que chovesse
E o mar fosse p’ra o céu,
P’ra que eu me convencesse
A bailar com um só véu!

Misturo a minha espera,
Sacudo o meu capote,
E na história quem me dera
Que o “burro” fosse mote…

Três cantos desta história
Ficaram por contar;
Só mesmo na memória
Quem dera recordar…

Saída de um só dia
Com traje a rigor:
Quem dera a sinfonia
Cantasse a sua cor…

A cor do teu lamento
Sem tempo de pensar,
A deusa do teu vento
Nasceu no teu olhar…

Ah! Se eu soubesse…
Ou adormecesse,
Voava em tons de azul;
Quem dera que eu soubesse…

E se uma quimera
Logo me quisesse…
Quem dera ela fosse,
Na espera que eu soubesse…

E o canto de quem dera
Não era bem seu canto;
Seria profecia… Não era,
E fez-se santo…

Quem dera que chovesse
E o mar fosse p’ra o céu,
P’ra que eu me convencesse
A bailar com um só véu!

Misturo a minha espera,
Sacudo o meu capote,
E na história quem me dera
Que o “burro” fosse mote…

Ah! Se eu soubesse…
Ou adormecesse,
Voava em tons de azul;
Quem dera que eu soubesse…

E se uma quimera
Logo me quisesse…
Quem dera ela fosse,
Na espera que eu…

Ah! Se eu soubesse…
Voava em tons de azul,
E se uma quimera
Na espera que eu…

Ah! Se eu soubesse…
Ou adormecesse,
Voava em tons de azul;
Quem dera que eu soubesse…

E se uma quimera
Logo me quisesse…
Quem dera ela fosse,
Na espera que eu soubesse…

Ah! Se eu soubesse…
Ou adormecesse,
Voava em tons de azul,
Quem dera que eu soubesse…

E se uma quimera
Logo me quisesse…
Quem dera ela fosse,
Na espera que eu…

Ah! Se eu soubesse…
Ou adormecesse,
Voava em tons de azul;
Quem dera que eu soubesse…

E se uma quimera
Logo me quisesse…
Quem dera ela fosse,
Na espera que eu soubesse…

Letra: José Flávio Martins
Música: José Flávio Martins e Paulo Coelho de Castro
Intérprete: Senhor Vadio (in CD “Cartas de um Marinheiro”, José Flávio Martins/iPlay, 2013)

É ou Não É?

Cos’è, cos’è
che fa andare la filanda?
È chiara la faccenda
son quelle come me.

E c’è, e c’è
che ci lascio sul telaio
le lacrime del guaio
di aver amato te.

É ou não é
que o trabalho dignifica?
É assim que nos explica
o rifão que nunca falha.
É ou não é
que disto toda a verdade
é que só por dignidade,
no mundo, ninguém trabalha?

É ou não é
que o povo nos diz que não,
que o nariz não é feição,
seja grande ou delicado?
No meio da cara
tem por força que se ver
mesmo a quem não o meter
aonde não é chamado.

E digam lá se é assim ou não é?
Ahi l’amore, ai l’amore!…
Digam lá se é assim ou não é?
Ahi l’amore che cos’è?

Cos’è, cos’è
questa grande differenza
se non facevi senza
di questi occhi miei?

Perchè, perchè
nella mente del padrone
ha il cuore di cotone
la gente come me?

É ou não é
que um velho que à rua saia
pensa, ao ver a mini-saia:
“Este mundo está perdido!”?
Mas se voltasse
agora a ser rapazote
acharia que o saiote
é muitíssimo comprido.

É ou não é
bondosa a humanidade?
Todos sabem que a bondade
é que faz ganhar a Céu;
Mas a verdade,
nua sem salamaleque,
tive de a aprender, é que…
ai de mim se não for eu!

E digam lá se é assim ou não é?
Ahi l’amore, ai l’amore!…
Digam lá se é assim ou não é?
Ahi l’amore che cos’è?

Letra e música: Alberto Fialho Janes (com versos da versão italiana, intitulada “La Filanda”, escrita por Vito Pallavicini para a cantora Milva, in single “La Filanda / Un Uomo in Meno”, Dischi Ricordi, 1971, LP “La Filanda e Altre Storie”, Dischi Ricordi, 1972)
Intérpretes: José Barros & Mimmo Epifani* (ao vivo no Teatro da Luz, Lisboa)
Versão discográfica de José Barros & Mimmo Epifani (in CD “Mar da Lua”, José Barros/Tradisom, 2015)
Versão original: Amália Rodrigues (in EP “É ou Não É?”, Columbia/VC, 1970; LP “Oiça Lá ó Senhor Vinho”, Columbia/VC, 1971, reed. EMI-VC, 1992; 2LP “O Melhor de Amália: Vol. II – Tudo Isto é Fado”: LP 2, EMI-VC, 1985, reed. EMI-VC, 2000)

Entre Sodoma e Gomorra

Entre Sodoma e Gomorra
entrou na cama a barata
a virginal favorita
que às escondidas me mata

São horas de perder horas
ou de minutos apenas
Entre Sodoma e Gomorra
fui ver o mar a Atenas

Entre Sodoma e Gomorra
entrou na cama a barata
a virginal favorita
que às escondidas me mata

Entre Sodoma e Gomorra
somaras a minha vida
Barata, minha barata
não me deixes à deriva

Entre Sodoma e Gomorra
entrou na cama a barata
a virginal favorita
que às escondidas me mata

São horas de perder horas
ou de minutos apenas
Entre Sodoma e Gomorra
fui ver o mar a Atenas

Poema: José Afonso (in “José Afonso: Textos e Canções”, org. J.H. Santos Barros, Lisboa: Assírio e Alvim, 1983 – p. 321; 3.ª edição revista, org. Elfriede Engelmayer, Lisboa: Relógio d’Água, 2000 – p. 75)
Música: João Afonso Lima e Zé Lima
Intérprete: João Afonso (in CD “Missangas”, Mercury/Polygram, 1997, reed. Universal Music, 2017)
Versão original: José Mário Branco, Amélia Muge e João Afonso (in 2CD “Maio Maduro Maio”: CD 1, Columbia/Sony Música, 1995)

Era redondo o vocábulo

[ Era um Redondo Vocábulo ]

Era redondo o vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar
Nos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio
Convocando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincavam e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa

Era redondo o vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar
Nos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio
Convocando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincavam e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa

Poema e música: José Afonso
Intérprete: Janita Salomé (ao vivo no Estúdio 3 da Rádio e Televisão de Portugal, Lisboa)
Versão anterior de Janita Salomé (in CD “Valsa dos Poetas”, Cantar ao Sol/Ponto Zurca, 2018)
Outra versão de Janita Salomé, grav. ao vivo no CCB em 1998 (in CD “Utopia: Vitorino e Janita Salomé cantam José Afonso (ao vivo)”, EMI-VC, 2004)
Versão original: José Afonso (in LP “Venham Mais Cinco”, Orfeu, 1973, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art’Orfeu Media, 2012)

Há dias que nascem

[ Às Voltas nas Incertezas ]

Há dias que nascem
P’ra não ter um fim
Sentidos inversos
Cá dentro de mim
E vou enganando a dor
Fingindo que é mesmo assim

Desejos secretos
De cor carmesim
Agora vazios
Outrora jardins
E meus silêncios que escondem
O sonho de um querubim

Às voltas nas incertezas
Dançando sobre as brasas
Que as penas magoadas
São ar nas minhas asas
E parto rumo a um novo dia
Virgem como da primeira vez

Amores que se trazem
De pó das estrelas
Das cinzas renascem
Montados sem selas
Que em lume ardendo bem lento
Se forjam as almas belas

Às voltas…
Às voltas…

Às voltas nas incertezas
Dançando sobre as brasas
Que as penas magoadas
São ar nas minhas asas
E parto rumo ao infinito
Como se fosse a primeira vez

Letra e música: Rui Filipe Reis
Intérprete: Rosa Negra (in CD “Fado Mutante”, iPlay, 2011)

Há um espaço entre tu e eu

[ Orla dos Malditos ]

Há um espaço entre tu e eu
Sem esforço sinto-o aqui
Em todo o lado
Está de vazio ocupado

Espaço de nada, de ricos segredos
De histórias, de homens, de medos
Inexplorados
De curandeiros, de magos

Diria mesmo que é baldio,
Nasceu da luxúria,
Do fogo, do prazer, do cio,
E nada tem de aconchegado

De todos os monstros que vivem,
Os mais estranhos habitam ao lado

E há povos malditos,
Avós (a vós): filhos proscritos
No mar
Onde estou

Morrem de esperança, de sede, de fome
De enganos, sonhos perdidos
Vida encantada
Quem mais tem é quem dá nada

Caminho longo com olhares
Num horizonte de desejos
Promessas de azares
Imaginário e real (irreal)

Fronteiras e muralhas guardam
Impérios longe da marginal

E há corpos errantes,
Desertores, naufragantes
No mar
Onde vou

Deixa-me ser o teu abrigo,
Que te abraça com doçura,
Com calma, sem perigo…
Como sol quente no fim do Verão

Letra e música: André Cardoso
Intérprete: A Presença das Formigas (in CD “Pé de Vento”, A Presença das Formigas/Careto/XMusic, 2014)

Medo

[ Sai da Concha ]

Medo: a forma mais poderosa da crença
Crença que é crença dá na TV
e toda a gente consome e vê
a ameaça, viver em terror

E quando sentes que tu não andas
Bem a favor
Sê a negra do rebanho do pastor
Faz a diferença, sai da concha
Sai da concha
Sai da concha do medo

Cumpres o dever e vives apático
Carregas a crença em piloto automático
Todos te abordam em estilo dogmático
Porque o medo é um motor

E quando sentes que tu não andas
Bem a favor
Sê a negra do rebanho do pastor
Faz a diferença, sai da concha
Sai da concha
Sai da concha do medo

Quando tu queres pensar em paz e amor
Enfiam-te a lógica do ser sonhador
“És um tipo estranho, até me dás graça”
Cravam-te o medo na carapaça

E quando sentes que tu não andas
Bem a favor
Sê a negra do rebanho do pastor
Faz a diferença, sai da concha
Sai da concha
Sai da concha do medo

Jogos, net, drogas, prazer e viv’ó mercado!
Vacinam-te na fé que só tu és culpado
Tens a doença, tu vives em pecado
De novo o medo põe-te ajoelhado

E quando sentes que tu não andas
Bem a favor
Sê a negra do rebanho do pastor
Faz a diferença, sai da concha
Sai da concha
Sai da concha do medo

‘High society’, gira e boa, famosa, escultural
E o lambe-botas que subiu afinal
Dizem: “Mas eu não vejo qual é o mal,
Subir na vida é natural”

E quando sentes que tu não andas
Bem a favor
Sê a negra do rebanho do pastor
Faz a diferença, sai da concha
Sai da concha
Sai da concha…

Sai da concha
Sai da concha
Sai da concha…
Sai da concha
Sai da concha
Sai da concha do medo

Letra e música: Luís Galrito
Intérprete: Luís Galrito* (in CD “Menino do Sonho Pintado”, Kimahera, 2018)

Meu menino assustado

[ Menino do Sonho Pintado ]

Meu menino assustado
Que tens o céu como tecto
Tens estrelas a afagar
O sonho por ti pintado

Tens a Lua como mãe
Que te aconchega o jornal
Conta a história de embalar
Desliga a luz infernal

O pai sol de manhã vem
Pelo vitral da bonança
Que um dia o homem
Que é dono da guerra
Não roube o teu sonho de criança

O homem da guerra é tramado
E difícil de entender
Vive também assustado
Com o medo de perder

Não vendo que já perdeu
O que tu trazes contigo
Menino, vês no outro lado
Não medo mas um amigo

No Mundo que é de guerra
Menino vem ver
Todos temos contigo a aprender
Que a verdade de ser grande
É igual ao grande do teu ser

Ser amor, querer a Paz
Apagar o céu riscado
Assim tão mal desenhado
Com tintas de medo e afins

Meu menino assustado
Nesse teu céu desenhado
Verás o teu amor sonhado
Por ti e outros iguais a ti

O sonho é um menino eternamente menino
O sonho é um tesouro antigo repartido por quem precisa
O sonho é uma canção feliz para um menino triste

Letra e música: Luís Galrito
Intérprete: Luís Galrito (in CD “Menino do Sonho Pintado”, Kimahera, 2018)

Na Machamba

Mariana Maria Madalena
Mariana Maria Madalena
Por ti, meu amor, dou dois xi-coração
Por ti, meu amor, dou dois xi-coração
Mariana Maria Madalena
Mariana Maria Madalena
Por ti, meu amor, dói-dói meu coração
Por ti, meu amor, dói-dói meu coração

Desde que você foste embora
sono não tem, não, não, não
acorda na madrugada
o galo cantando co-ri-cô-cô
Nos olhos sono que pesa
maningue saudade no coração
Nos olhos sono que pesa
maningue saudade no coração

Mariana Maria Madalena
Mariana Maria Madalena
Por ti, meu amor, dou dois xi-coração
Por ti, meu amor, dou dois xi-coração
Mariana Maria Madalena
Mariana Maria Madalena
Por ti, meu amor, dói-dói meu coração
Por ti, meu amor, dói-dói meu coração

Pé no cacimba, vou na machamba
sem matubixo
Panela de mangungu não tem
chicafo, não, não, não
ô-ô-i-ô, Maria, meu amor
Quando qu’eu zangou
eu tinha era só babalaza
Quando qu’eu zangou
eu tinha era só babalaza

Mariana…

Mariana Maria Madalena
Mariana Maria Madalena
Por ti, meu amor, dou dois xi-coração
Por ti, meu amor, dou dois xi-coração
Mariana Maria Madalena
Mariana Maria Madalena
Por ti, meu amor, dói-dói meu coração
Por ti, meu amor, dói-dói meu coração

Mariana Maria Madalena
Mariana Maria Madalena
Por ti, meu amor, dou dois xi-coração
Por ti, meu amor, dou dois xi-coração…

Letra e música: Tomás Vieira Mário
Intérprete: João Afonso com Las Hijas del Sol (in CD “Missangas”, Mercury/Polygram, 1997, reed. Universal Music, 2017)

O coração

[ Mano Pedro ]

O coração tem a vista
bem virada para o mar
Tua mão cheia de areia
faz de conta que é luar

Quando o vento se põe lesto
faz-te à chuva e ao relento
O meu irmão tem um sonho
eu tenho-o no pensamento

O silêncio diz às vezes
tudo aquilo que guardamos:
os receios e os medos
e outras coisas que não damos

Quando o céu se torna estrela
a brilhar por um momento
o meu irmão tem um sonho
eu tenho-o no pensamento

Quando procuro guarida
nas canções, no desabafo
a dançar ao fim do dia
no guardar do teu abraço

Pensar na cor da janela
p’ra cantar, fazer em verso
O meu irmão tem um sonho
eu tenho-o no pensamento

Eu tenho-o no pensamento
Eu tenho-o no pensamento
Eu tenho-o no pensamento

Letra e música: João Afonso Lima
Intérprete: João Afonso (in CD “Missangas”, Mercury/Polygram, 1997, reed. Universal Music, 2017)

João Afonso

João Afonso

Os Homens Mais Velhos do Bar

Os homens mais velhos do bar fazem lembrar os sinais do entardecer
Como um dia que já passou mas que deixou tanta coisa por fazer
Os homens mais velhos do bar entre cigarros e copos sem graça
Vêem as gaiatas passar – a noite é que já nunca passa.

Os homens mais velhos do bar contam histórias quando o Outono vem
Andaram por longe, eu sei lá, e há coisas que não vão contar a ninguém
Os homens mais velhos do bar sabem que a vida já não lhes diz que sim
P’ra os outros o bar está a fechar mas p’ra eles o bar não tem fim.

Senta-te aqui à minha frente
Tenho uma história p’ra te contar
Ficava triste se tu não tivesses
Vontade de aqui ficar
Vou-te falar de um lobo sozinho
Que se apaixonou p’la lua-cheia
E ainda tem um lugar vago
Na cama que a lua não quis.

Os homens mais velhos do bar sabem que as nuvens são como a solidão
Que às vezes parecem partir mas voltam sempre lá p’ra o fim do Verão
Aos homens mais velhos do bar é a noite quem lhes afaga a mão
Companheira que não tem destino mas que acaba sempre por ter razão.

O tempo é um doido a correr, a manhã está longe e não quer voltar
Há muito que assim passou a ser p’ra quem pensa que assim vai passar
E há tantos que não querem saber dos homens mais velhos do bar
É que são mais os que se afogam num copo do que aqueles que se afogam no mar.

Senta-te aqui à minha frente
Tenho uma história p’ra te contar
Ficava triste se tu não tivesses
Vontade de aqui ficar
Vou-te falar de um lobo sozinho
Que se apaixonou p’la lua-cheia
Que ainda tem um lugar vago
Na cama que a lua não quis.

Letra e música: Sebastião Antunes
Arranjo: Gonçalo Pratas
Intérprete: Sebastião Antunes (in CD “Singular”, Sebastião Antunes & Quadrilha/Alain Vachier Music Editions, 2017)
Versão original: Quadrilha (in CD “Até o Diabo se Ria”, Polydor/Polygram, 1995)

Quando ela passa

[ Rosinha dos Limões ]

Quando ela passa,
Franzina e cheia de graça,
Há sempre um ar de chalaça
No seu olhar feiticeiro;
Lá vai catita,
Cada dia mais bonita…
E o seu vestido de chita
Tem sempre um ar domingueiro.

Passa ligeira,
Alegre e namoradeira,
A sorrir p’rá rua inteira
Vai semeando ilusões;
Quando ela passa,
Vai vender limões à praça…
E até lhe chamam, por graça,
A Rosinha dos limões.

Quando ela passa,
Junto da minha janela,
Meus olhos vão atrás dela
Até ver da rua o fim;
De ar gaiato,
Ela caminha apressada
Rindo por tudo e por nada…
E às vezes sorri para mim.

Quando ela passa,
Apregoando os limões,
A sós com os meus botões
No vão da minha janela,
Fico pensando
Que qualquer dia, por graça,
Vou comprar limões à praça
E depois caso com ela.

Quando ela passa,
Apregoando os limões,
A sós com os meus botões
No vão da minha janela,
Fico pensando
Que qualquer dia, por graça,
Vou comprar limões à praça
E depois caso com ela.

Letra e música: Artur Ribeiro
Intérprete: Real Companhia (in CD “Orgulhosamente Nós!”, Lusogram, 2000)
Versão original: Artur Ribeiro (in single 78 r.p.m. “A Rosinha dos Limões / Canção da Beira”, Estoril, 1951; CD “Rosinha dos Limões (Original)”, Discoteca Amália, 1993)
Primeira versão de Max (in single 78 r.p.m. “Ilha da Madeira / A Rosinha dos Limões”, Columbia/VC, 1954)
Segunda versão de Max (in EP “Vielas de Alfama”, Decca/VC, 1967; CD “O Melhor de Max”, EMI-VC, 1989; CD “Max: Biografias do Fado”, EMI-VC, 2004; CD “Max: Essencial”, Edições Valentim de Carvalho/CNM, 2014)

Quando for grande

[ Carteiro em Bicicleta ]

Quando for grande vou ser
quero ser um realejo
ter um pedaço de terra
fogo que salta ao braseiro
dormir no fundo da serra
quero ser um realejo

Carteiro em bicicleta
leva recados de amor
Vem o sono com a música
ao som do… do realejo

Quando for grande vou ser
quero ser um realejo
ter um burro, viola e cão
chamar a dança dos sapos
correr com a bola na mão
quero ser um realejo

Quando for grande vou ser
quero ser um realejo
colher amêndoa em telhados
dar banana às andorinhas
dobrar o cabo do mundo
quero ser um realejo

Carteiro em bicicleta
leva recados de amor
Vem o sono com a música
ao som do… do realejo

Quando for grande vou ser
quero ser um realejo
ter um burro, viola e cão
chamar a dança dos sapos
correr com a bola na mão
quero ser um realejo

Carteiro em bicicleta
leva recados de amor
Vem o sono com a música
ao som do… do realejo

Letra e música: João Afonso Lima
Intérprete: João Afonso (in CD “Missangas”, Mercury/Polygram, 1997, reed. Universal Music, 2017)

João Afonso
João Afonso

Que faz o sol?

[ Eu Não Sei Que Faz o Sol ]

Que faz o sol?
Que faz o sol?
Que faz o sol?
Que faz o sol?

Eu não sei que faz o sol
que não dá na minha rua
Hei-de me vestir de branco
que de branco anda a lua

Não vi ribeira sem água
nem praça sem pelourinho
nem donzelas sem amores
nem padres sem beber vinho

Que faz o sol?
Que faz o sol?
Que faz o sol?
Que faz o sol?

Lindos olhos de pau-preto
nariz de pena aparada
dentes de letra miúda
boca de carta cerrada

Lindos olhos tem a cobra
quando olha de repente
Mais vale um bom desengano
que andar enganado sempre

Eu não sei que faz o sol
que não dá na minha rua
Hei-de me vestir de branco
que de branco anda a lua

Não vi ribeira sem água
nem praça sem pelourinho
nem donzelas sem amores
nem padres sem beber vinho

Que faz o sol?
Que faz o sol?
Que faz o sol?
Que faz o sol?

Lindos olhos de pau-preto
nariz de pena aparada
dentes de letra miúda
boca de carta cerrada

Lindos olhos tem a cobra
quando olha de repente
Mais vale um bom desengano
que andar enganado sempre

Que faz o sol?
Que faz o sol?

Mais vale um bom desengano
que andar enganado sempre
que andar enganado sempre
que andar enganado sempre

Poema: José Afonso (in “José Afonso: Textos e Canções”, 2.ª edição revista e aumentada, org. Elfriede Engelmayer, Lisboa: Assírio e Alvim, 1988 – p. 289; 3.ª edição revista, org. Elfriede Engelmayer, Lisboa: Relógio d’Água, 2000 – p. 48)
Música: João Afonso Lima
Intérprete: João Afonso (in CD “Missangas”, Mercury/Polygram, 1997, reed. Universal Music, 2017)

José Afonso

José Afonso

Quem Não Tem Amor Sou Eu!

Quem não tem amor sou eu,
Da rapaziada solteira;
Vivo muito satisfeito
Se nunca encontrar quem me queira.

I

Ainda nunca encontrei
Raparigas a meu jeito;
Todas me encontram defeito,
Por isso é que não casei.
Já algumas namorei,
De que lado venho eu?
Essa que a honra perdeu,
Para mim não tem valia;
Dos rapazes da freguesia,
Quem não tem amor sou eu.

II

Há muito rapaz casado
Que foi comigo ao sorteio;
Eu digo e não me arreceio:
Não quero mudar de estado
Para não ser censurado,
Por usar barba ou pêra;
E se calho com uma zopeira
Que não me sabe respeitar,
Sou dos que fico a pensar,
Da rapaziada solteira.

III

Muitos que vivem isentos,
Até à hora de casar,
Sua honra vão estragar
Ao risco dos casamentos:
Andam porcos e sebentos,
Elas não lhes têm respeito;
Tratam-nos com certo jeito,
Sempre de tira-virão;
Gabo-lhe opinião,
Vivo muito satisfeito.

IV

Se eu soubesse que encontrava
Uma séria rapariguinha,
Mesmo pobre e honradinha,
Com isso me contentava.
Se vou calhar com uma diaba
Que tenha a poltrona inteira,
Seja porca ou caloteira,
Que ninguém lhe dê capotes;
É uma das melhores sortes
Se nunca encontrar quem me queira.

Quem não tem amor sou eu,
Da rapaziada solteira;
Vivo muito satisfeito
Se nunca encontrar quem me queira.

Letra: Popular
Música: José Manuel David
Intérprete: Pedro Mestre (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015)
Outra versão de Pedro Mestre (in DVD “No CCB: Pedro Mestre & Convidados”, Pedro Mestre, 2017)

Se abana a casa

[ O Dito por Não Dito ]

Se abana a casa,
o pardal acorda,
sacode a asa
e não volta.

Se o mar devolve
gente, em vez de peixe,
há quem feche a porta
e não deixe.

Que o tempo engana
e a chuva molha,
mas é gente humana
que para ti olha.

Que eu não era assim,
foi o stress,
vida ruim
que tudo esquece.

Se abana a casa,
o pardal acorda,
sacode a asa
e não volta.

Se o mar devolve
gente, em vez de peixe,
há quem feche a porta
e não deixe.

Que o tempo engana
e a chuva molha,
mas é gente humana
que para ti olha.

Que eu não era assim,
foi o stress,
vida ruim
que tudo esquece.

Custa muito ver o mundo
estar tão perto da vista,
essa turva luz ao fundo
nem parece água lisa.

E esta Europa unida,
tresmalhadita,
lembra cabra
tosquiadita.

E se o mundo
não é perfeito,
à portuguesa
dá-se-lhe um jeito.

Se abana a casa,
o pardal acorda,
sacode a asa
e não volta.

Se o mar devolve
gente, em vez de peixe,
há quem feche a porta
e não deixe.

Que o tempo engana
e a chuva molha,
mas é gente humana
que para ti olha.

Que eu não era assim,
foi o stress,
vida ruim
que tudo esquece.

Se abana a casa,
o pardal acorda,
sacode a asa
e não volta.

Se o mar devolve
gente, em vez de peixe,
há quem feche a porta
e não deixe.

Que o tempo engana
e a chuva molha,
mas é gente humana
que para ti olha.

Que eu não era assim,
foi o stress,
vida ruim
que tudo esquece.

Que o tempo engana
e a chuva molha,
mas é gente humana
que para ti olha.

Que eu não era assim,
foi o stress,
vida ruim
que tudo esquece.

Que eu não era assim,
foi o stress,
vida ruim
que tudo esquece.

Eu não era assim,
foi o stress,
vida ruim
que tudo esquece.

Letra e música: José Barros
Arranjo: José Barros
Intérprete: José Barros e Navegante
Versão original: José Barros e Navegante (in CD “À’Baladiça”, Tradisom, 2018)

Se o som vier

[ N’um Dôci Abraçu (eterno vacilar) ]

Se o som vier
De dentro da alma
Então será
Tão vivo que acalma

O céu e o mar
O Sol e a Lua
Insinuação
Paixão nua e crua

Um balanceio capaz de me levar
À ida
Uma lembrança que me faz regressar
A esta vida
N’um dôci abraçu di’ amor i di’ paz
O tempo vem e volta a partir

Entre o ir e vir eu estou, eu venho e vou
Com vontade de voltar
Ai esta ventura assim, de ir e vir
Neste eterno vacilar
Entre o ir e vir eu estou, eu venho e vou
Com vontade de voltar
Ai esta ventura assim, de ir e vir
E num verso me inventar

Já m’ bá, já m’ bem, já m’ bá e torná bem
Lai a, lai a, lai a

Nasci na praia
E aí me criei, ‘nha terra
E foi nas ondas
Que eu me embalei

Foi o meu pai
Um fogo que ardia
E a ‘nha mãe
Fazia o que queria

A morna é mistura de calor
E frio
Um velho fado que ainda tem sabor
A desvario
N’um dôci abraçu di’ amor i di’ paz
O tempo vem e volta a partir

N’um dôci abraçu di’ amor i di’ paz
La la, lai a, lai a
N’um dôci abraçu di’ amor i di’ paz
La la, lai a, lai a
N’um dôci abraçu di’ amor i di’ paz
La la, lai a, lai a
N’um dôci abraçu di’ amor i di’ paz
La la, lai a, lai a

Letra: J.J. Galvão (José João Oliveira Galvão)
Música: Rui Filipe Reis
Intérprete: Rosa Negra com Rita Lobo (in CD “Fado Mutante”, iPlay, 2011)

Sentir a dolência das águas

[ Calçada Esquecida ]

Sentir a dolência das águas,
Saber o caminho da foz
E o sol que se deita nas mágoas
De um cais que se lembra de nós.

Subir a calçada esquecida,
Guardar um olhar indiferente,
Ouvir a conversa da vida,
Falar desta vida da gente.

Sorrir,
Pois sabe sempre bem lembrar;
Não vale a pena esquecer,
Mesmo que doa recordar;
São lembranças
Que aconchegam as ternuras:
Ternuras da calçada esquecida
Que dão um sorriso ao passar.

Mas sorrir,
Pois sabe sempre bem lembrar;
Eu que nem vou tentar esquecer,
Mesmo que doa recordar;
São lembranças
Que aconchegam as ternuras:
Ternuras que a calçada esquecida
Me ajuda a lembrar.

Mas sorrir,
Pois sabe sempre bem lembrar;
Eu que nem vou tentar esquecer,
Mesmo que doa recordar;
São lembranças
Que aconchegam as ternuras:
Ternuras que a calçada esquecida
Me ajuda a lembrar.

Letra: Sebastião Antunes
Música: Carlos Lopes (Fado Bisnaga)
Intérprete: Rua da Lua (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)

Sou formiga

[ Assim Sou Eu ]

Sou formiga, sou cigarra
Sou cantiga, pinto a manta, faço a farra
Sou a lebre e a tartaruga
Sou de raça, estou em brasa, vou à luta
Sou bichinho bem manhoso
Poderoso e preguiçoso
Com franqueza e arredia
Sou tristeza e alegria
Sou chorona, está na palma
Rezingona, perco a calma
Sou destino ensarilhado
Diz a linha do meu fado

Sei que assim sou eu
Sei lá eu porque sou assim
Está-se mesmo a ver
Sempre assim vou ser
Está dentro de mim
Eu ser assim

Sou areia, sou granito
Fico cheia, sou “o bom e o bonito”
Sou canseira, sou de gancho
Parideira, só de filhos faço um rancho
D’ir à luta tenho ganas
Contra gregas e troianas
Lusitana, luzidia
Sou beleza e ousadia
Sou mandona, está na alma
Rezingona, perco a calma
Tudo muito complicado
Diz a letra do meu fado

Sei que assim sou eu
Sei lá eu porque sou assim
Está-se mesmo a ver
Sempre assim vou ser
Está dentro de mim
Eu ser assim

Sei que assim sou eu
Sei lá eu porque sou assim
Está-se mesmo a ver
Sempre assim vou ser
Está dentro de mim
Eu ser assim

Ser assim
Ser assim
Ser assim
Ser assim

Letra: António Avelar de Pinho
Música: João Gil
Intérprete: Celina da Piedade (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)

Tinha uma história que nunca contava

[ Quando a Noite Já Ia Serena ]

Tinha uma história que nunca contava
Trazia um quarto fechado no olhar
E uma viagem que planeava mas não começava
Para nunca acabar
Tinha um sorriso guardado em segredo
Mas não sorria p’ra não o contar
Tinha uma chave que fechava o medo
Nalgum arvoredo onde não queria entrar
E quando a noite já ia serena
Disse-me a frase mais terna que ouvi:
“Valeu a pena, mesmo que o fim da história seja aqui.”

Tinha uma nuvem da cor do mistério
Tinha palavras da cor do saber
Tinha vontades de brincar a sério
Mudar de hemisfério para não se perder
Tinha a lembrança da cor do poente
Tinha um poente inteiro no falar
Guardava o sol num esconderijo ardente
Tão quente, tão quente, já quase a queimar

E quando a noite já ia serena
Disse-me a frase mais terna que ouvi:
“Valeu a pena, mesmo que o fim da história seja aqui.”

Trazia a paz de uma dor que se apaga
E um calor que se quer apagar
Como quem grita do alto da fraga
Que a vida nos traga distância p’ra andar
Deixou correr o licor dos sentidos
Até que o dia nos veio acordar
De mãos trocadas, de braços caídos
Achados perdidos

Veio a manhã, levezinha e serena
Cantar-me a frase mais terna que ouvi:
“Valeu a pena, mesmo que o fim da história seja aqui.”
Veio a manhã, levezinha e serena
Cantar-me a frase mais terna que ouvi:
“Valeu a pena, mesmo que o fim da história seja aqui.”

Letra e música: Sebastião Antunes
Arranjo: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes com Tito Paris (in CD “Com Um Abraço”, Vachier & Associados, 2012; CD “Singular”, Sebastião Antunes & Quadrilha/Alain Vachier Music Editions, 2017)

Toma lá colchetes d’oiro

[ Prima da Chula ]

Toma lá colchetes d’oiro
Aperta o teu coletinho
Coração que é de nós dois
Tem de andar conchegadinho

Por um olhar dos teus olhos
Dera da vida a metade
Por um riso dera a vida
Por um beijo a eternidade

Aqui estou à tua porta
Como um feixinho de lenha
À espera da resposta
Que dos teus olhos me venha

O dia tem duas horas
Duas horas não tem mais
Uma é quando vos vejo
Outra quando me lembrais

Se tudo me foi vedado
Se vivi de tudo à míngua
Deixai que vos mostre a língua
Com o freio bem cortado

A rica tem nome fino
A pobre tem nome grosso
A rica teve um menino
A pobre pariu um moço

Letra: Popular e António Aleixo
Música: Trovante
Intérprete: Trovante (in “Baile no Bosque”, 1981; reed. EMI-VC, 1988)

Vai de Roda

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda que é tão breve;
Tenho uns amigos na roda,
Tenho uns amigos na roda,
Deixam a roda mais leve.

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda alguns amores;
Quantos mais amores na roda,
Quantos mais amores na roda
Mais te perseguem as dores.

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda até ao fim;
Já tentei fugir da roda,
Já tentei fugir da roda
Mas ela rodou por mim.

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda sem parar;
Quem nunca esteve na roda,
Quem nunca esteve na roda
Não pode a roda enganar.

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda até ao fim;
Já tentei fugir da roda,
Já tentei fugir da roda
Mas ela rodou por mim.

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda sem parar;
Quem nunca esteve na roda,
Quem nunca esteve na roda
Não pode a roda enganar.

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda sem parar;
Quem nunca esteve na roda,
Quem nunca esteve na roda
Não pode a roda enganar.

Letra e música: Duarte (Outubro de 2010)
Intérprete: Duarte com Mara (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018)
Versão original: Duarte (in CD “Sem Dor Nem Piedade”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2015)

Vai Tão Sozinho

Vai, menino, vai!
Cuida do teu fulgor!
Cuida de ti, amor!

Vai, segue o rumo das estrelas
Que, caindo, se centelham
Em faúlhas de mil cores!

Vai, menino, vai,
Brilho que o mundo tem!
Cuida de ti, meu bem!

És como sol a dar na eira!
Branca flor, és cerejeira
que eu rego ao cantar!

(Ao meu benzinho faz chegar
Formoso melro este cantar)

Vai tão sozinho…
Vai devagarinho sem saber…

Vai, menino, vai,
Brilho que o mundo tem!
Cuida de ti, meu bem!

És como sol a dar na eira!
Branca flor, és cerejeira
que eu rego ao cantar!

(Ao meu benzinho faz chegar
Formoso melro este cantar)

(Ao meu benzinho faz chegar
Formoso melro este cantar)

Vai tão sozinho…
Vai devagarinho sem saber…

Letra e música: Manuel Maio
Intérprete: A Presença das Formigas (in CD “Pé de Vento”, A Presença das Formigas/Careto/XMusic, 2014)

A Presença das Formigas, Pé de Vento

A Presença das Formigas, Pé de Vento

Vejam Bem

Vejam bem
que não há só gaivotas em terra
quando um homem se põe a pensar
quando um homem se põe a pensar

Quem lá vem
dorme à noite ao relento n’areia
dorme à noite ao relento no mar
dorme à noite ao relento no mar

E se houver
uma praça de gente madura
e uma estátua
e uma estátua de febre a arder

Anda alguém
pela noite de breu à procura
e não há quem lhe queira valer
e não há quem lhe queira valer

Vejam bem
daquele homem a fraca figura
desbravando os caminhos do pão
desbravando os caminhos do pão

E se houver
uma praça de gente madura
ninguém vem levantá-lo do chão
ninguém vem levantá-lo do chão

Vejam bem
que não há só gaivotas em terra
quando um homem
quando um homem se põe a pensar

Quem lá vem
dorme à noite ao relento n’areia
dorme à noite ao relento no mar
dorme à noite ao relento no mar

Vejam bem
que não há só gaivotas em terra
quando um homem se põe a pensar
quando um homem se põe a pensar

Quem lá vem
dorme à noite ao relento n’areia
dorme à noite ao relento no mar
dorme à noite ao relento no mar

E se houver
uma praça de gente madura
e uma estátua
e uma estátua de febre a arder

Anda alguém
pela noite de breu à procura
e não há quem lhe queira valer
e não há quem lhe queira valer

Letra e música: José Afonso
Intérprete: José Afonso (in LP “Cantares do Andarilho”, Orfeu, 1968, 1970, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art’Orfeu Media, 2012)

Vinha com a minha toada

[ Com a Minha Toada ]

Vinha com a minha toada
entretida na viola
Mas quando penso o que penso
com a vertigem duma história
fico apenas com a minha toada
fico apenas com a minha toada

Janela aberta e o pastor dormia
O tempo inerte sob o sol sumia
e beijo a moça num lençol de rio
e beijo a moça num lençol de rio

Andam cavalos pintados
no campo, numa lagoa
O sonho pertence à tel
e alguém desenha que voa
Fico apenas com a minha toada
Fico apenas com a minha toada

Janela aberta e o pastor dormia
O tempo inerte sob o sol sumia
e beijo a moça num lençol de rio
e beijo a moça num lençol de rio

A moldura sem retrato recua pr’além
Protesto, mundo errado
que este mundo tem

A moldura sem retrato recua pr’além
Protesto, mundo errado
que este mundo tem

Letra e música: João Afonso Lima
Intérprete: João Afonso (in CD “Missangas”, Mercury/Polygram, 1997, reed. Universal Music, 2017)

João Afonso

João Afonso

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/08/galo-de-barcelos.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-07 12:17:312024-11-13 11:39:21Canções portuguesas
fadista Lucília do Carmo
Fado

Fado sobre fado

Canções sobre fado

Letras

Ai de mim que me perdi

Ai de mim que me perdi
Pelos caminhos do tédio
Perdi-me, cheguei aqui
Agora não tem remédio

Ai de mim que me perdi
Perdi-me no fim da estrada
Ai de mim porque vivi
A vida desencontrada

Tantos caminhos andados
Não fui eu que os descobri
Foram meus passos mal dados
Que me trouxeram aqui

Perdida me acho da vida
E a vida já me perdeu
Ando na vida perdida
Sem saber quem a viveu

Por mais que queira encontrar
A razão do meu viver
A razão de cá andar
Não posso compreender

Que culpa tem o destino
Dos caminhos que eu andei?
Fui eu no meu desatino
Que andei e não reparei

Perdida estou sem remédio
Meu pecado e meu castigo
Pecado é morrer de tédio
Castigo é viver contigo

Por mais que queira encontrar
A razão do meu viver
A razão de cá andar
Não posso compreender

Não posso compreender
A razão de cá andar
A razão do meu viver
Não posso compreender

Poema: Amália Rodrigues (ligeiramente adaptado)
Música: Amélia Muge
Arranjo: José Mário Branco
Intérprete: Amélia Muge (in CD “Amélia com Versos de Amália”, Amélia Muge/Leve Music, 2014)

Alguém que Deus já lá tem

[ Fado Malhoa ]

Alguém que Deus já lá tem
Pintor consagrado
Que foi bem grande e nos dói
Já ser do passado
Pintou numa tela
Com arte e com vida
A trova mais bela
Da terra mais querida

Subiu a um quarto que viu à luz do petróleo
E fez o mais português dos quadros a óleo
Um Zé de samarra co’amante a seu lado
Com os dedos agarra
Percorre a guitarra e ali vê-se o fado

Faz rir a ideia de ouvir com os olhos, senhores
Fará, mas não p’ra quem já o viu, mas em cores
Há vozes de Alfama naquela pintura
E a banza derrama canções de amargura

Dali vos digo que ouvi a voz que se esmera
O som dum faia banal, cantando a Severa
Aquilo é bairrista, aquilo é Lisboa
Boémia e fadista
Aquilo é da artista, aquilo é Malhoa

Letra: José Galhardo
Música: Frederico Valério

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Ando na vida à procura

[ Triste Sorte ]

Ando na vida à procura
Duma noite menos escura
Que traga luar do céu,
Duma noite menos fria
Em que não sinta agonia
Dum dia a mais que morreu.

Vou cantando amargurado,
Vou dum fado a outro fado
Que fale dum fado meu:
Meu destino assim cantado
Jamais pode ser mudado
Porque do fado sou eu.

Ser fadista é triste sorte
Que nos faz pensar na morte
E em tudo que em nós morreu,
E andar na vida à procura
Duma noite menos escura
Que traga luar do céu.

Letra: João Ferreira-Rosa
Música: Alfredo Duarte “Marceneiro” (Fado Cravo)
Intérprete: Camané
Versão discográfica anterior de Camané (in CD/DVD “Infinito Presente”, Warner Music, 2015)

Outras versões: Camané (in 2CD “Como Sempre… Como Dantes”: CD 1 – “Como Sempre: Ao Vivo em Palco”, EMI-VC, 2003); Camané (in 2CD “Como Sempre… Como Dantes”: CD 2 – “Como Dantes: Ao Vivo no Embuçado”, EMI-VC, 2003); Camané (in DVD “Ao Vivo no S. Luiz”, EMI, 2006); Camané (in CD/DVD “Ao Vivo no Coliseu: Sempre de Mim”, EMI, 2009; 2CD “Camané: O Melhor 1995-2013 (Edição Especial)”: CD 1, EMI, 2013)

Versão original: João Ferreira-Rosa (in EP “Embuçado”, Columbia/VC, 1965; CD “Embuçado” (compilação), EMI-VC, 1988, reed. Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; 2CD “Ontem e Hoje”: CD 1, EMI-VC, 1996; CD “O Melhor de João Ferreira-Rosa”, Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008; CD “João Ferreira-Rosa: Essencial”, Edições Valentim de Carvalho/CNM, 2014)

Outras versões: João Ferreira-Rosa (in LP “Fado”, Imavox, 1978); João Ferreira-Rosa (in CD “No Wonder Bar do Casino Estoril”, Ovação, 2004)

Bendita esta forma de vida

[ Bendito Fado, Bendita Gente ]

Intérprete: Mafalda Arnauth

Chegaste a horas

[ Leva-me aos fados ]

Intérprete: Ana Moura

Convém que seja moderno

[ Que Fado É Esse, Afinal? ]

Convém que seja moderno,
Ritmado sem critério
E fácil de consumir;
Que não deixe de imitar
As modas que estão a dar,
Que não ouse resistir.

Convém que não seja triste,
Que se venda, que se lixe
O valor do seu passado;
Que se sirva ao desbarato
Como um hambúrguer no prato,
Produto pré-fabricado.

Convém que seja feliz,
Não importa o que se diz
Se agradar a toda a gente;
Que a nada diga respeito,
Seja a música um efeito
E a palavra indiferente.

Convém que seja educado,
Que se cante em qualquer lado,
Popular, comercial.
Mas quando o oiço cantar,
Só me resta perguntar:
Que Fado é esse, afinal?

Mas quando o oiço cantar,
Só me resta perguntar:
Que Fado é esse, afinal?

Letra: Duarte
Música: José Mário Branco (Fado Gripe)
Intérprete: Duarte (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018)

Deixa Que te Cante um Fado

Deixa que te cante um fado,
Ao menos de vez em quando!
Deixa que te cante um fado
Como quem reza chorando!

Deixa que te cante um fado
Que me fale sempre em ti!
Cantarei de olhos cerrados,
Os olhos com que te vi.

Deixa que te cante um fado,
Mesmo sem fé ou sem arte!
Se nunca pude esquecer-te
É que não posso deixar-te.

Deixa que te cante um fado!
Todo o meu sonho está nisto:
Que depois de o ter cantado
Te lembres que ainda existo.

Poema: Pedro Homem de Mello
Música: José Marques do Amaral (Fado José Marques do Amaral)
Intérprete: Tereza Tarouca (in EP “Fados (Fado das Faias)”, RCA Victor, 1963; LP “Os Melhores Fados de Tereza Tarouca”, RCA Camden, 1978)

Descalço, venho dos confins da infância

[ Entrega ]

Descalço, venho dos confins da infância
Que a minha infância ainda não morreu.
Atrás de mim em face ainda há distância,
Menino Deus, Jesus da minha infância,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu!

Venho da estranha noite dos poetas,
Noite em que o mundo nunca me entendeu.
Vê, trago as mãos vazias dos poetas,
Menino Deus, amigo dos poetas,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu!

Feriu-me um dardo, ensanguentei as ruas
Onde o demónio em vão me apareceu.
Porque as estrelas todas eram suas,
Menino irmão dos que erram pelas ruas,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu!

Quem te ignorar ignora bem os que são tristes
Ó meu irmão Jesus, triste como eu.
Ó meu irmão, menino de olhos tristes,
Nada mais tenho além dos olhos tristes
Mas o que tenho, e nada tenho, é teu!

Poema: Pedro Homem de Mello
Música: Carlos Gonçalves
Intérprete: Ricardo Ribeiro
Primeira versão discográfica de Ricardo Ribeiro (in CD “Largo da Memória”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2013)
Versão original: Amália Rodrigues (in LP/CD “Obsessão”, EMI-VC, 1990, reed. Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)

Desdenharam-me, bem sei

[ Fado Lenitivo ]

Desdenharam-me, bem sei,
Quando um dia comecei
A cantar sofrida o fado;
Não sabiam o motivo:
É que o fado é lenitivo
D’um coração torturado.

Ao ver de todo perdidas,
As minhas esperanças mais queridas,
Senti, fui talvez pisada;
E era doce companhia
Para a minha melancolia
O chorar d’uma guitarra.

Amarguras e cansaços,
A minha dor em pedaços
Eu vou esquecendo a cantar;
E nos queixumes do fado,
Já nem sei se é um trinado
Se a minh’alma a soluçar.

Sei que me ouves lamentando,
As mágoas que vou cantando
Só tu podes entender;
Vou meu fado dedicar-te:
Uma dor que se reparte
Não custa tanto a sofrer.

Letra: Fernanda Santos
Música: Helena Moreira Vieira
Intérprete: Tânia Oleiro (in CD “Terços de Fado”, Museu do Fado Discos, 2016)
Versão original: Maria do Rosário Bettencourt (in EP “Lenitivo”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1966; CD “Maria do Rosário Bettencourt”, col. Fados do Fado, vol. 41, Movieplay, 1998)

Desta luta constante

[ O fado que me traga ]

Desta luta constante
O futuro é meu alento
Numa roda gigante
Tão gigante que pára o tempo

Uma volta sem regresso
Até uma terra esquecida
E na minha sorte tropeço
Sozinha na madrugada perdida

O fado que me traga
O que o tempo me levou
A saudade que me abra
O caminho do que sou
O fado que me traga
O que a saudade não deixou
O sentido das palavras
Que o tempo apagou

Uma lágrima no mar
Perdida na voz do silêncio
Aprisiona a ternura
E adormece o meu encanto

Quando me sinto nua
Não me quero ver mais ao espelho
O destino não me quer tua
Porque o amor morreu no desejo

O fado que me traga
O que o tempo me levou
A saudade que me abra
O caminho do que sou
O fado que me traga
O que a saudade não deixou
O sentido das palavras
Que o tempo apagou

Letra: Samuel Lopes
Música: Miguel Rebelo
Intérprete: Ana Laíns (in CD “Sentidos”, Difference, 2006)

Deus pede

Conta e Tempo

Deus pede [hoje] estrita conta do meu tempo
E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta;
Mas como dar, sem tempo, tanta conta,
Eu que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para dar a minha conta feita a tempo
O tempo me foi dado, e não fiz conta;
Não quis, sobrando tempo, fazer conta,
Hoje quero acertar conta e não há tempo.

Oh! vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis o vosso tempo em passa-tempo!
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta
Pois aqueles que sem conta gastam tempo,
Quando o tempo chegar de prestar conta,
Chorarão, como eu, o não ter tempo!

Poema: Frei António das Chagas (António da Fonseca Soares, 1631-1682)
Música: José Júlio Paiva (Fado Complementar)
Intérprete: Camané (in CD “Infinito Presente”, Warner Music, 2015)

Dizem que o fado é saudade

[ O Sentir do Cantador ]

Dizem que o fado é saudade,
Miséria, sofrer e dor…
Mas o fado é, na verdade,
O sentir do cantador.

Em cada palavra sua,
Em cada verso cantado,
O cantador insinua
A tristeza do seu fado.

Não canta por simpatia,
Não canta para viver:
É que cantando alivia
Um pouco do seu sofrer.

Tornando tão magoado
O timbre da sua voz,
Que o fado fica gravado
Na alma de todos nós.

Letra: Maria Manuel Cid
Música: Francisco José Marques (Fado Évora)
Intérprete: Tereza Tarouca (in EP “Passeio à Mouraria”, RCA Victor, 1964; LP “Os Melhores Fados de Tereza Tarouca”, RCA Camden, 1978)

Então, até amanhã, meu dia triste

[ Último Poema ]

Então, até amanhã, meu dia triste,
Na taverna da noite do meu fado,
Onde canto o amor que não existe,
Neste meu amanhã abandonado.

Grito dentro de mim a noite e o dia,
Nesta hora do sonho mais profundo,
Que regressa na voz da despedida
Com que te vejo por estar no mundo.

Nas palavras amadas que perdi,
O ontem que tu foste já me foge.
“Então, até amanhã!”, disseste, e eu vi
Que o amanhã não chega ao ontem de hoje.

“Então, até amanhã!”, disseste, e eu vi
Que o amanhã não chega ao ontem de hoje.

Letra: Vasco de Lima Couto
Música: Manuel Mendes
Intérprete: Ricardo Ribeiro
Primeira versão discográfica de Ricardo Ribeiro (in CD “Hoje É Assim, Amanhã Não Sei”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2016)
Versão original: Beatriz da Conceição [ao vivo no Restaurante Típico Nónó, Lisboa

Era o amor

[ Verdes Anos ]

Era o amor
que chegava e partia:
estarmos os dois
era um calor
que arrefecia
sem antes nem depois…

Era um segredo
sem ninguém para ouvir:
eram enganos
e era um medo,
a morte a rir
nos nossos verdes anos…

Foi o tempo que secou
a flor que ainda não era.
Como o Outono chegou
no lugar da Primavera!

Era o amor
que chegava e partia:
estarmos os dois
era um calor
que arrefecia
sem antes nem depois…

Era um segredo
sem ninguém para ouvir:
eram enganos
e era um medo,
a morte a rir
nos nossos verdes anos…

No nosso sangue corria
um vento de sermos sós.
Nascia a noite e era dia,
e o dia acabava em nós…

Poema: Pedro Tamen (excerto)
Música: Carlos Paredes (introdução de “Despertar”, in EP “Guitarradas Sob o Tema do Filme Verdes Anos”, Alvorada, 1964; CD “Carlos Paredes e Artur Paredes”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 36, Movieplay, 1994; CD “Os Verdes Anos de Carlos Paredes: As Primeiras Gravações a Solo 1962-1963”, Movieplay, 2003; Livro/4CD “O Mundo Segundo Carlos Paredes: Integral 1958-1993”: CD1 – “Despertar”, EMI-VC, 2003)
Intérprete: Mariana Abrunheiro (in Livro/CD “Cantar Paredes”, Mariana Abrunheiro/BOCA – Palavras Que Alimentam, 2015)
Versão original (canção): Teresa Paula Brito (in filme “Os Verdes Anos”, de Paulo Rocha, 1963)
Outra versão de Teresa Paula Brito (in EP “Canções Para Fim de Noite”, Riso e Ritmo, 1968; CD “Teresa Paula Brito”, col. Clássicos da Renascença, vol. 61, Movieplay, 2000)

És Povo feito Mulher

[ Ai, Amália! ]

És Povo feito Mulher;
A cantar és toda a gente
que sabe aquilo que quer
e diz aquilo que sente.

As tuas caras são tantas:
mais de mil que Deus te deu…
Com mil corações tu cantas
e há mais mil dentro do teu.

Ai, Amália das mil caras
e mais de mil corações!
Ai, rio que nunca páras
até à foz das canções!…

Nos ecos da tuz voz,
nos silêncios que a torturam
sofrem pedaços do nós,
pedaços que se procuram.

Levantas a tua voz,
o Fado nasce ao teu jeito!
E sentimos todos nós
que te cabemos no peito…

Ai, Amália das mil caras
e mais de mil corações!
Ai, rio que nunca paras
até à foz das canções!…

Ai, Amália das mil caras
e mais de mil corações!
Ai, rio que nunca paras
até à foz das canções!…

Letra: Luísa Bivar
Música: João Braga
Intérprete: João Braga (in LP “Do João Braga para a Amália”, Diapasão/Lamiré, 1984; CD “João Braga”, col. Fado Alma Lusitana, vol. 19, Levoir/Correio da Manhã, 2012)

Esta ilha que há em mim

[ A Ilha do Meu Fado ]

Esta ilha que há em mim
E que em ilha me transforma
Perdida num mar sem fim
Perdida dentro de mim
Tem da minha ilha a forma

Esta lava incandescente
Derramada no meu peito
Faz de mim um ser diferente
Tenho do mar a semente
Da saudade tenho o jeito

Trago no corpo a mornaça
Das brumas e nevoeiros
Há uma nuvem que ameaça
Desfazer-se em aguaceiros
Nestes meus olhos de garça

Neste beco sem saída
Onde o meu coração mora
Oiço sons da despedida
Vejo sinais de partida
Mas teimo em não ir embora

Letra: João Mendonça
Letra: José Medeiros
Intérprete: Dulce Pontes (in CDs “Caminhos”, Movieplay, 1996; “O Coração Tem Três Portas”, Ondeia Música, 2006)

Eu quero cantar palavras

[ Fado Não-Valentim ]

Eu quero cantar palavras
De letras por inventar,

Quero outro fado, ó-laró-laró!
Quero outro fado, ó-laró, meu bem!

Implacáveis como espadas,
Tão profundas como o mar.

Quero outro fado, ó-laró-laró!
Quero outro fado, ó-laró, meu bem!

As palavras por dizer
Por dentro das que são ditas,

Quero outro fado, ó-laró-laró!
Quero outro fado, ó-laró, meu bem!

Impossíveis a crescer
Por fora das mais bonitas.

Quero outro fado, ó-laró-laró!
Quero outro fado, ó-laró, meu bem!

Ditas todas devagar
No silêncio mais sonante,

Quero outro fado, ó-laró-laró!
Quero outro fado, ó-laró, meu bem!

Como um conto de encantar,
Como a vaga mais distante.

Quero outro fado, ó-laró-laró!
Quero outro fado, ó-laró, meu bem!

E quando para as cantar
Elas se façam escrever,

Quero outro fado, ó-laró-laró!

Quero outro fado, ó-laró, meu bem!

As letras serão meus lábios,
A tinta o meu sangue a arder.

Quero outro fado, ó-laró-laró!
Quero outro fado, ó-laró, meu bem!

Dizer palavras de mel
Até a voz ficar rouca.

Quero outro fado, ó-laró-laró!
Quero outro fado, ó-laró, meu bem!

Gastar toda a minha pele
Nos beijos da tua boca.

Quero outro fado, ó-laró-laró…,
Nos beijos da tua boca.

Letra: João Gigante-Ferreira
Música: Popular
Intérprete: Helena Sarmento
Versão original: Helena Sarmento (in CD “Lonjura”, Helena Sarmento, 2018)

Eu sei que esperas por mim

[ Mais um Fado no Fado ]

Eu sei que esperas por mim,
Como sempre, como dantes,
Nos braços da madrugada;
Eu sei que em nós não há fim,
Somos eternos amantes
Que não amaram mais nada.

Eu sei que me querem bem,
Eu sei que há outros amores
Para bordar no meu peito;
Mas eu não vejo ninguém
Porque não quero mais dores
Nem mais bâton no meu leito.

Nem beijos que não são teus
Nem perfumes duvidosos,
Nem carícias perturbantes;
E nem infernos, nem céus,
Nem sol nos dias chuvosos,
Porque ‘inda somos amantes.

Mas Deus quer mais sofrimento,
Quer mais rugas no meu rosto
E o meu corpo mais quebrado; [bis]
Mais requintado tormento,
Mais velhice, mais desgosto
E mais um fado no fado.

Letra: Júlio de Sousa
Música: Carlos da Maia (Fado Perseguição)
Intérprete: Camané
Outras versões: Camané (in CD “Pelo Dia Dentro”, EMI-VC, 2001; 2CD “Camané: O Melhor 1995-2013 (Edição Especial)”: CD 2, EMI, 2013); Camané (in 2CD “Como Sempre… Como Dantes”: CD 1 – “Como Sempre: Ao Vivo em Palco”, EMI-VC, 2003); Camané (in DVD “Ao Vivo no S. Luiz”, EMI, 2006) [ao vivo com Fábia Rebordão, 2008 / Gala 12 do programa “Operação Triunfo”; Camané (in CD/DVD “Ao Vivo no Coliseu: Sempre de Mim”, EMI, 2009). Versão original [?]: Rui David (com música de Alfredo Marceneiro – Fado Cravo) (in EP “Meu Amor, Minha Saudade”, FF/RR Discos, ?)

Eu sei que sou demais

Eu sei que sou demais na tua vida,
Eu sei que nem me vês tão apagado,
Apenas uma sombra indefinida,
O resto de voz triste condenada.
Eu sei que sou demais na tua vida,
De tudo quanto fui não sou mais nada.

Ai quem me dera prender o teu futuro
E uni-lo ao meu, assim tal maneira,
Como hera verde se prende ao velho muro
E ali fica p’la vida inteira!

Eu sei que estou a mais no teu caminho,
Eu sei que nada tens p’ra me dar,
E sei que nesta luta estou vencido
Por outro amor que tens no meu lugar.
Mas sei, amor, que eu, da tua vida,
Ninguém jamais, ninguém pode apagar.

Ai quem me dera prender o teu futuro
E uni-lo ao meu, assim tal maneira,
Como hera verde se prende ao velho muro
E ali fica p’la vida inteira!

Ai quem me dera prender o teu futuro
E uni-lo ao meu, assim tal maneira,
Como hera verde se prende ao velho muro
E ali fica p’la vida inteira!

Letra e música: Joaquim Tavares Pimentel
Intérprete: Ricardo Ribeiro
Primeira versão discográfica de Ricardo Ribeiro (in CD “Hoje É Assim, Amanhã Não Sei”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2016)
Versão original: Alice Maria (in EP “Primeiro Amor”, Estúdio/Mundusom, 1972?)

Eu uso um xaile bordado

[ Num Gesto Que se Adivinha ]

Eu uso um xaile bordado
Porque os p’rigos que há no fado
São bem maiores que os da vida;
O xaile é como uma pele
E quando me embrulho nele
Sinto-me mais protegida.

Parece umas mãos de mãe:
Sabem guiar-nos tão bem
E sossegam tantos medos
Que sempre que elas me tocam
As franjas do xaile evocam
A ternura dos seus dedos.

Num gesto que se adivinha
O xaile é uma andorinha
Num céu que eu mesma criei;
Mas assim que o braço pára
O xaile que antes voara
Parece o manto de um rei.

E quando o corpo desiste
Numa palavra mais triste,
Num grito mais demorado,
O xaile velho e sem franjas
São asas de anjos ou anjas
Que me aconchegam ao Fado.

O xaile velho e sem franjas
São asas de anjos ou anjas
Que me aconchegam ao Fado.

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Armando Machado (Fado Maria Rita)
Intérprete: Katia Guerreiro* (in CD “Brincar aos Fados”, Farol Música, 2014)

Existe um fado

[ Não Existe Fado Antigo ]

Existe um fado, um só fado
Que assenta na tradição;
E p’ra ser bem cantado
Só faz falta um coração.

Não é por pôr uma tuba,
Acrescentar a bateria
Que uma geração derruba
O que antes se fazia.

Não quero a eternidade
Nem os momentos de glória:
Quero deixar na saudade
Um pouco da minha história.

Não existe fado novo
Como não há fado antigo:
Ele é o grito que um povo
Carrega sempre consigo.

Não existe fado novo
Como não há fado antigo:
Ele é o grito que um povo
Carrega sempre consigo.

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: João do Carmo Noronha (Fado Pechincha)
Intérprete: Celeste Rodrigues (in CD “Brincar aos Fados”, Farol Música, 2014)

Foi assim

[ Lume ]

Foi assim: era costume…
Tu vinhas pedir-me lume
Ao balcão daquele bar
E eu disse que não, primeiro;
Depois, comprei um isqueiro
E até voltei a fumar.

As noites que nós passámos!
Quantos cigarros fumámos!
Tanto lume que eu te dei!
Um dia acordei com frio:
Estava o cinzeiro vazio
E nunca mais te encontrei.

Mas ontem, naquele bar
De repente vi-te entrar,
Foste direita ao balcão:
Como era teu costume
Vieste pedir-me lume
Mas eu disse-te que não.

Se quando te foste embora
Deitei o isqueiro fora,
Que lume te posso eu dar?
Pede a outro que te ajude!
P’ra bem da minha saúde
Eu já deixei de fumar.

Sem dormir, de madrugada
Ouvi teus passos na escada,
Vi da janela o teu carro;
Debaixo do travesseiro
Encontraste o meu isqueiro
E acendeste-me o cigarro.

Letra: Manuela de Freitas
Música: Armando Machado (Fado Santa Luzia)
Intérprete: Camané (in CD “Infinito Presente”, Warner Music, 2015)

Já toda a gente sabe

[ Aos Sete Ventos ]

Já toda a gente sabe a novidade:
o Fado, que nasceu na Mouraria,
é Património da Humanidade
e quebra mais fronteiras dia a dia.

Há quem tenha aprendido português
p’ra entender de um modo mais profundo
os fados que a ‘Amália Rodriguez’
cantava aos sete ventos pelo mundo.

‘Thank you’, ‘gracias’, ‘merci’ ou ‘arigato’
são formas de o fadista agradecer:
quando ao chegar o fim de cada acto
vê lágrimas nos rostos a escorrer.

Em Espanha, no Brasil ou no Japão
o Fado é cada vez mais bem cantado;
e porque ali se escuta um coração
é Portugal que diz: “muito obrigado!”

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Armando Machado (Fado Aracélia ou Fado Cunha e Silva)
Intérprete: Cristina Branco (in CD “Brincar aos Fados”, Farol Música, 2014)

Lavava no rio lavava

Lavava no rio lavava
Gelava-me o frio gelava
Quando ia ao rio lavar
Passava fome passava
Chorava também chorava
Ao ver minha mãe chorar

Cantava também cantava
Sonhava também sonhava
E na minha fantasia
Tais coisas fantasiava
Que esquecia que chorava
Que esquecia que sofria

Já não vou ao rio lavar
Mas continuo a chorar
Já não sonho o que sonhava
Se já não lavo no rio
Por que me gela este frio
Mais do que então me gelava

Ai minha mãe, minha mãe
Que saudades desse bem
Do mal que então conhecia
Dessa fome que eu passava
Do frio que me gelava
E da minha fantasia

Já não temos fome, mãe
Mas já não temos também
O desejo de a não ter
Já não sabemos sonhar
Já andamos a enganar
O desejo de morrer

Letra: Amália Rodrigues
Música: José Fontes Rocha
Intérprete: Amália Rodrigues (in “Gostava de Ser Quem Era”, Columbia/VC, 1980, reed. EMI-VC, 1995; CD “O Melhor de Amália”, vol. III, EMI-VC, 2003)

Luas de prata gentia

[ Se ao menos houvesse um dia ]

Luas de prata gentia
Nas asas de uma gazela
E depois, do seu cansaço,
Procurasse o teu regaço

No vão da tua janela
Se ao menos houvesse um dia
Versos de flor tão macia
Nos ramos com as cerejas
E depois, do seu Outono,
Se dessem ao abandono
Nos lábios, quando me beijas
Se ao menos o mar trouxesse
O que dizer e me esquece
Nas crinas da tempestade
As palavras litorais
As razões iniciais
Tudo o que não tem idade
Se ao menos o teu olhar
Desse por mim ao passar

Como um barco sem amarra
Deste fado onde me deito
Subia até ao teu peito
Nas veias de uma guitarra

Letra: João Monge
Música: Casimiro Ramos (Fado Três Bairros)

Intérprete: Camané (in CD “Esta Coisa da Alma”, EMI-VC, 2000)

Na ribeira deste rio

Na ribeira deste rio
Ou na ribeira daquele
Passam meus dias a fio
Nada me impede, me impele
Me dá calor ou dá frio

Vou vendo o que o rio faz
Quando o rio não faz nada
Vejo os rastros que ele traz
Numa sequência arrastada
Do que ficou para trás

Vou vendo e vou meditando
Não bem no rio que passa
Mas só no que estou pensando
Porque o bem dele é que faça
Eu não ver que vai passando

Vou na ribeira do rio
Que está aqui ou ali
E do seu curso me fio
Porque se o vi ou não vi
Ele passa e eu confio

Letra: Dori Caymmi, sobre poema de Fernando Pessoa
Música: Dori Caymmi ?
Intérprete: Paulo Bragança (in CD “Os Mistérios do Fado”, Polydor, 1996)

Na tua voz

[ Amália ]

Na tua voz há tudo o que não há,
há tudo o que se diz e não se diz;
Há os sítios da saudade em tua voz,
o passado, o futuro, o nunca, o já;
Há as sílabas da alma e há um país.
Porque tu, mais que tu, és todos nós.

Na tua voz embarca-se e não mais,
não mais senão o mar e a despedida.
Há um rasto de naufrágio em tua voz,
onde há navios a sair do cais,
nessa voz por mil vozes repartida.
Porque tu, mais que tu, és todos nós.

Há mar e mágoa, e a sombra de uma nau,
a gaivota de O’Neill e o rio Tejo,
saudade de saudade em tua voz,
um eco de Camões e o escravo Jau,
amor, ciúme, cinza e vão desejo.
Porque tu, mais que tu, és todos nós.

Amor, ciúme, cinza e vão desejo.
Porque tu, mais que tu, és todos nós.

Poema: Manuel Alegre
Música: José Fontes Rocha
Intérprete: João Braga (in CD “Fado Fado”, Ariola/BMG Portugal, 1997; CD “Fados Capitais”, Impreopa/A Capital, 2002)

Não Sou Fadista de Raça

Não sou fadista de raça,
Não nasci no Capelão;
Eu canto o fado que passa
Nas asas da tradição!

Nunca usei negra chinela
Nem vesti saia de lista;
Nunca entrei numa viela
Mas tenho raça fadista!

Tirei suspiros ao vento,
Olhei um pouco o passado;
Busquei do mar um lamento
E fiz assim o meu fado.

É este fado famoso
Que, em noites enluaradas,
O Conde de Vimioso
Tangia nas guitarradas.

Era fidalgo de raça
E ficou na tradição
Cantando o fado que passa
Na Rua do Capelão.

Letra: Maria Teresa Cavazinni
Música: Alfredo Duarte “Marceneiro” (Fado Bailarico)
Intérprete: Tereza Tarouca (in EP “O Riso Que me Deste”, RCA Victor, 1967; LP “Os Melhores Fados de Tereza Tarouca”, RCA Camden, 1978; 2LP “Álbum de Recordações”: LP 1, Polydor/PolyGram, 1985; CD “Temas de Ouro da Música Portuguesa”, Polydor/PolyGram, 1992; CD “Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006; CD “Tereza Tarouca”, col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)

Nesta terra soberana e fadista

[ No Sítio do Coração ]

Nesta terra soberana e fadista
Concebido fruto da contradição
Eu nasci independente e meio artista
Navegante e poeta de ocasião
Eu nasci independente, mar à vista
Marinheiro e idealista de ocasião

Há quem diga que o futuro já está escrito
E por isso não adianta o que eu fizer
Outros dizem que isso não é mais que um mito
Inventado por um príncipe qualquer

Canta!
Ouve a guitarra que trina
Acompanhando o lamento
De tantas penas em vão!
Sente
O sentimento da gente
Que já só tem desalento
No sítio do coração!

Da janela do meu quarto vê-se o rio
Branqueando as suas águas na maré
Desaguando as suas mágoas num vazio
Para quem foi tudo pouco nada é
E ao olhar o seu reflexo tão vazio
Alguém viu que ele finge que não vê

Canta!
Ouve a guitarra que trina
Acompanhando o lamento
De tantas penas em vão!
Sente
O sentimento da gente
Que já só tem desalento
No sítio do coração!

Eu nasci independente e meio artista
Navegante e poeta de ocasião

Canta!
Ouve a guitarra que trina
Acompanhando o lamento
De tantas penas em vão!
Sente
O sentimento da gente
Que já chegou o momento
De ouvirmos outra canção!

Letra: J.J. Galvão (José João Oliveira Galvão)
Música: Rui Filipe Reis
Intérprete: Rosa Negra (in CD “Fado Mutante”, iPlay, 2011)

Nunca tive moeda de troca

[ Moeda de Troca ]

Nunca tive moeda de troca
Para o que recebi da saudade
Mas é só pelo que ela me toca
Que tudo o que canto, é verdade
É essa a moeda de troca
Cantar o meu fado, para o dar à saudade.

Mas às vezes o fado acontece
Sem que a gente entenda,
O que fez
E o fadista cansado agradece
E chora baixinho, outra vez

Quero unir a minha às vossas almas
Sem perder a saudade de vista
Não me importa que me batam palmas
Ou gritem à grande “Ahhh fadista!!”
Quero ouvir o silêncio das almas
Assim que o mistério do fado as conquista.

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Manuel Graça Pereira
Intérprete: Catarina Rocha

O Fado é triste

[ Fado do Contra ]

Perguntaste-me outro dia

[ Tudo Isto É Fado ]

Perguntaste-me outro dia
Se eu sabia o que era o fado;
Eu disse que não sabia,
Tu ficaste admirado.

Sem saber o que dizia,
Eu menti naquela hora
E disse que não sabia,
Mas vou-te dizer agora.

Se queres ser o meu senhor
E teres-me sempre a teu lado,
Não me fales só de amor:
Fala-me também de fado.

A canção que é meu castigo
Só nasceu p’ra me prender:
O fado é tudo o que eu digo
Mais o que eu não sei dizer.

Almas vencidas,
Noites perdidas,
Sombras bizarras;
Na Mouraria
Canta um rufia,
Choram guitarras.

Amor, ciúme,
Cinzas e lume,
Dor e pecado:
Tudo isto existe,
Tudo isto é triste,
Tudo isto é fado.

Se queres ser o meu senhor
E teres-me sempre a teu lado,
Não me fales só de amor:
Fala-me também de fado.

A canção que é meu castigo
Só nasceu p’ra me prender:
O fado é tudo o que eu digo
Mais o que eu não sei dizer.

Almas vencidas,
Noites perdidas,
Sombras bizarras;
Na Mouraria
Canta um rufia,
Choram guitarras.

Amor, ciúme,
Cinzas e lume,
Dor e pecado:
Tudo isto existe,
Tudo isto é triste,
Tudo isto é fado.

Letra: Aníbal Nazaré
Música: Fernando Carvalho
Intérprete: Rua da Lua
Primeira versão de Rua da Lua (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)
Versão original: Amália Rodrigues (grav. 1952) (in CD “Abbey Road 1952”, EMI-VC, 1992, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)

Quando o fado era menino

[ Quando o Fado For Grande ]

Quando o Fado era menino
Dizia: “quando eu for grande
Hei-de inventar um destino
Que meu coração comande.”

E percebeu que os poetas
Eram quem, como as crianças,
Abriam portas secretas
Sem chaves nem alianças.

Ao entrar no universo
Do poeta popular,
Ele vai escrevendo um verso
Que já nasce milenar.

E por saber que os adultos
Podem voltar à infância,
Não quer que os poetas cultos
Se mantenham à distância.

Rouba um poema a Pessoa,
Ao Ary pede uma glosa
E uns versos sobre Lisboa
Ao mestre Linhares Barbosa.

Se voltasse a ser menino
Diria: “quando eu crescer
Hei-de inventar um destino
Num poema por escrever.”

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Alberto Simões da Costa (Fado Torres do Mondego)
Intérprete: Ricardo Ribeiro (in CD “Brincar aos Fados”, Farol Música, 2014)

Se o fado é esta sina

[ É o Mar Que nos Ensina ]

Se o fado é esta sina
que nos lava a alma,
é o mar quem nos ensina
quando nos devolve a calma.

Não aceitar pantomina,
o que a sorte nos destina.
Sem saber o que queremos,
temos o que merecemos.

A vida assim
não é um canto à dor.
O fado é sina
mas também amor.

Diziam que era um povo
que não se governava,
mas forte o coração
não se deixava governar.

Somos terra de lavrar
e sabemos o mar de cor,
mas esta gente a cantar
é bem capaz do melhor.

A vida assim
não é um canto à dor.
O fado é sina
mas também amor.

E lá bem no fim do mundo,
não se entendendo as palavras,
sente-se a saudade eterna
no trinado das guitarras.

Porque a razão não se entende
nem se vê o fim ao mar,
mas na voz ainda há quem pense
ver o fado a marear.

A vida assim
não é um canto à dor.
O fado é sina
mas também amor.

A vida assim
não é um canto à dor.
O fado é sina
mas também amor.

Letra e música: José Barros
Arranjo: José Barros e Mimmo Epifani
Intérprete: José Barros e Navegante
Versão original: José Barros e Navegante (in CD “À’Baladiça”, Tradisom, 2018)

Sou do Fado

[ Loucura ]

Intérprete: Ana Moura

Sou cavaleiro errante

[ Fado Mutante ]

Sou cavaleiro errante
Deserto, imensidão
E vou errando sempre buscando o Oriente
Secreto no meu coração

Sou cavaleiro ausente
Tão-só recordação
E vou atrás do vento que vem de Levante
E cheira a jasmim e açafrão

Um dia vou contar a minha história
Talvez assim me prestes atenção
Porque o que eu sou é parte da memória
Que a gente tem guardada num caixão

Ai este fado mutante
De lua emigrante
De tempo liberto
Ai esta sina minguante
Às vezes tão longe
As vezes tão perto

Tão longe, tão longe, tão perto…

Sou cavaleiro andante
Herói de uma ficção
E levo sempre a luz de uma estrela cadente
Na palma da minha mão…

Um dia vou contar a minha história
Talvez assim me prestes atenção
Porque o que eu sou é parte da memória
Que a gente tem guardada num caixão

Ai este fado mutante
De lua emigrante
De tempo liberto
Ai esta sina minguante
Às vezes tão longe
Às vezes tão perto

Tão longe, tão longe, tão perto…
Tão longe, tão longe, tão perto…
Tão longe, às vezes tão perto…
Tão longe, tão longe, tão perto…
Tão longe, tão longe, tão perto…
Tão longe, tão longe, tão perto…

Às vezes longe
Às vezes perto
Às vezes longe
Às vezes perto
Às vezes longe
Às vezes perto
Às vezes longe
Às vezes perto

Letra: J.J. Galvão (José João Oliveira Galvão)
Música: Rui Filipe Reis
Intérprete: Rosa Negra (in CD “Fado Mutante”, iPlay, 2011)

Sou do fado

[ É Loucura ]

Sou do fado como sei,
Vivo um poema cantado
Dum fado que eu inventei.
A falar não posso dar-me,
Mas ponho a alma a cantar,
E as almas sabem escutar-me.

Chorai, chorai, poetas do meu país
Troncos da mesma raiz
Da vida que nos juntou!
E se vocês não estivessem a meu lado,
Então… não havia fado
Nem fadistas como eu sou.

Esta voz, tão dolorida,
É culpa de todos vós,
Poetas da minha vida.
“É loucura!”, oiço dizer,
Mas bendita esta loucura
De cantar e de sofrer.

Chorai, chorai, poetas do meu país,
Troncos da mesma raiz
Da vida que nos juntou!
E se vocês não estivessem a meu lado,
Então… não havia fado
Nem fadistas como eu sou.

E se vocês não estivessem a meu lado,
Então… não havia fado
Nem fadistas como eu sou.

Letra: Júlio de Sousa
Música: Júlio de Sousa (Fado Loucura)
Intérprete: Marta Pereira da Costa
Versão original: Lucília do Carmo (in LP “Recordações”, Decca/VC, 1971, reed. Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008; 2LP/CD “O Melhor de Lucília do Carmo”, EMI-VC, 1990; CD “O Melhor de Lucília do Carmo”, Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)

fadista Lucília do Carmo
fadista Lucília do Carmo

Sou filho de um deus menor

[ Adeus, Até um Outro Dia ]

Sou filho de um deus menor
E de um corrido maior
Mas seja lá o que for
Já nasci com esta dor

Cresci no fio da navalha
Sei a cartilha de cor
Num coração de canalha
Mora um pobre pinga-amor

Ai mas que triste a triste vida em que vive um desgraçado
Sempre a cavalo entre a desgraça e o fado malogrado

Muito boa noite, minhas senhoras, meus senhores!
Desculpem lá o meu atraso, cheguei tarde mas cheguei
E já que vim o melhor é eu cantar
E só não canto melhor porque eu não sei

A minha sorte na vida
Já adivinho qual é:
Ser uma rosa enjeitada
De que ninguém quer saber

Em tudo eu sou infeliz
Mesmo até no meu cantar
Põe-se a tremer a guitarra
Antes de me acompanhar

Vou-vos deixar depois de estar, ai, em tão bela companhia
No peito levo uma saudade, adeus, até um outro dia

Muito obrigado madames e cavalheiros
Mostrem lá os mealheiros para eu me motivar
E já que pedem vou-vos fazer a vontade
Que eu só canto pelo gosto de cantar

Vou-vos deixar depois de estar, ai, em tão bela companhia
No peito levo uma saudade, adeus, até um outro dia
Vou-vos deixar depois de estar, ai, em tão bela… em tão bela companhia
No peito levo… levo uma saudade, adeus, adeus, até um outro dia

Vou-vos deixar depois de estar, ai, em tão bela companhia
No peito levo uma saudade, adeus, até um outro dia

Muito obrigado madames e cavalheiros
Mostrem lá os mealheiros para eu me motivar
E já que pedem vou-vos fazer a vontade
Que eu só canto pelo gosto de cantar

Muito obrigado madames e cavalheiros
Os aplausos servem sempre para eu me consolar
E já que pedem vou-vos fazer a vontade
Que eu só canto pelo gosto de cantar

Letra: J.J. Galvão (José João Oliveira Galvão)
Música: Rui Filipe Reis
Intérprete: Rosa Negra (in CD “Fado Mutante”, iPlay, 2011)

Temos pena, hoje não dá

[ Fado Abananado ]

Temos pena, hoje não dá
estou fechada para balanço
Temos pena, hoje não dá
estou fechada para balanço
querem fado, pois não há
se não gostam como eu danço
querem fado, pois não há
se não gostam como eu danço”

Desculpe lá, turista
Bater o nariz na porta
A nossa fadista
Está numa de ir embora
Diz ela que não canta
Se não for para dançar
Falar, pouco adianta
Pois responde a cantar:

Refrão

Desculpe lá, turista
Também sinto aquilo que sente
A ingrata fadista
Acha que hoje isto é diferente
“fruta cristalizada”
Diz que é “só no bolo rei!”
Já nos mandou à fava
E canta por aí, que eu sei:

Refrão

Desculpe lá, turista
Já tomámos providência
É a sétima fadista
Com esta exigência
Querem abanar o fado
E nós dizemos que não
Mas o fado, abananado,
Já só pega de abanão

Refrão

Pedro da Silva Martins
Música: Manuel Graça Pereira
Intérprete: Catarina Rocha

Toda a saudade é fingida

[ Covers ]

Toda a saudade é fingida,
A tristeza disfarçada:
Parecem já não ter vida,
De fado não têm nada.

Já não são fados, são ‘covers’:
Imitações desalmadas,
Reproduções do destino
Tantas vezes tão cantadas.

Esses que tentam viver
Aquilo que outros viveram
Acabam por se perder
No tanto que não fizeram.

Vampiragem pós-moderna
Da Lisboa dos turistas:
Falam da velha taberna
Mas querem ser futuristas.

Letra: Duarte
Música: João do Carmo Noronha (Fado Pechincha)
Intérprete: Duarte (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018)

Verdes ondas branca flor

[ Fado Azul (Se Azul se Atreve) ]

Verdes ondas branca flor
Cor-do-vento espuma breve
Verdes ondas branco-em-flor
Cor-do-vento espuma breve
Qualquer cor a do Amor
Beijo-azul p’ra quem se atreve
Qualquer cor a do Amor
Beijo-azul p’ra quem se entregue

Como barco rumo ao sul
No meu corpo a maresia
Como barco rumo ao sul
No meu corpo a maresia
À procura desse azul
Que o teu corpo prometia
Na procura desse azul
Naveguei-te até ser dia

Tão constante foste vaga
Tão ardente a maré-viva
Tão constante foste vaga
Tão ardente a maré-viva
Tua proa que naufraga
Nosso rasto de saliva
Tua proa que em mim naufraga
Nossas bocas à deriva

Este jeito de ser livre
Na prisão da tua boca
Este jeito de ser livre
Na prisão da tua boca
Sabe a tudo onde não estive
Lucidez que me põe louca
Sabe a tudo onde não estive
Lucidez é coisa pouca

Somos chuva tão precisa
Somos ventos do Magrebe
Somos ecos da Galiza
Somos tudo o que se perde
Somos língua que desliza
Como tudo o que se escreve
Somos beijo desta brisa
Beijo-azul se azul se atreve.

Letra: João Gigante-Ferreira
Música: Francisco Viana (Fado Vianinha)
Intérprete: Helena Sarmento
Versão original: Helena Sarmento (in CD “Lonjura”, Helena Sarmento, 2018)

Voar

[ Fado em Branco ]

Voar
Sem culpa do mar
Que nunca se deita
Sentir
A chuva a cair
De vida insuspeita

Sofrer
A dor de morrer
Na dor imperfeita
Sorrir
Por dentro mentir
Verdade perfeita

Assim é a vida
De dor dividida
Cerrada no peito
Um barco à deriva
Verdade fingida
Doença sem leito

Eu bem que não queria
Saber algum dia
Que sempre serei
O vento do norte
Sem vida nem morte
Sem crime nem lei

Amar
De amor sufocar
A boca na boca

Florir
Ficar e partir
De tanto ser pouca

Vender
De graça o prazer
Sentir como louca

Chorar
Sem culpa do mar
Do beijo e da boca

Assim é a vida
De amor dividida
Cerrada no peito
Um barco à deriva
Mentira fingida
Doença sem leito

Eu bem que não queria
Saber algum dia
Que sempre serei
O vento do norte
Sem vida nem morte
Sem crime nem lei

Eu bem que não queria
Saber algum dia
Que sempre serei
O vento do norte
Sem vida nem morte
Sem crime nem lei

O verso da sorte
Sem que isso me importe
Saber que cheguei

Letra: João Gigante-Ferreira
Música: Samuel Cabral e João Gigante-Ferreira
Intérprete: Helena Sarmento
Versão original: Helena Sarmento (in CD “Lonjura”, Helena Sarmento, 2018)

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/03/lucilia-do-carmo-fado.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-07 07:10:412024-11-13 11:14:54Fado sobre fado
Florbela Espanca
Cancioneiro

Canções sobre poesia

Canções sobre poesia

Letras

Dá-se aos que têm sede

[ Louvor da Poesia ]

Poema de Sebastião da Gama (in “Campo Aberto”, Lisboa: Portugália, 1951; Lisboa: Edições Ática, Colecção Poesia, 4.ª edição, 1983 – p. 45)
Recitado por José Nobre (in CD “Sebastião da Gama: Meu Caminho É por Mim Fora”, JGC, 2010)
Música: Rui Serôdio

Dá-se aos que têm sede,
não exige pureza.
Ah!, se fôssemos puros,
p’ra melhor merecê-la…

Sabe a terra, a montanhas,
caules tenros, raízes,
e no entanto desce
da floresta dos mitos.

Água tão generosa
como a que a gente bebe,
fuja dela Narciso
e quem não tenha sede.

Na viagem

[ Viagem do Verso ]

Letra: José Flávio Martins
Música: Cristina Bacelar
Intérprete: Frei Fado d’El Rei (in CD “Em Concerto”, Açor/Emiliano Toste, 2003)

Na viagem
De cada palavra,
Cada verso
Muda o tempo do saber!

No destino
Da estrofe nascente,
Cada frase,
É um rio solitário!

No regresso
Do verbo “chegar”,
Porque chego e me despeço,
À noite, ao luar!…

Sou um verso de marés…
Sobre a rima de um poema!
Sou um verso de marés…
Sobre a rima de um poema!

Em ti… mora, o meu beijo!
Porque… chora, meu poema!…

No destino
Da estrofe nascente,
Cada frase,
É um rio solitário!

No regresso
Do verbo “chegar”,
Porque chego e me despeço,
À noite, ao luar!…

Sou um verso de marés…
Sobre a rima de um poema!
Sou um verso de marés…
Sobre a rima de um poema!

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Se ao menos houvesse um dia

Letra: João Monge
Música: Casimiro Ramos (Fado Três Bairros)
Intérprete: Camané (in CD “Esta Coisa da Alma”, EMI-VC, 2000)

Se ao menos houvesse um dia
Luas de prata gentia
Nas asas de uma gazela
E depois, do seu cansaço,
Procurasse o teu regaço
No vão da tua janela

Se ao menos houvesse um dia
Versos de flor tão macia
Nos ramos com as cerejas
E depois, do seu Outono,
Se dessem ao abandono
Nos lábios, quando me beijas

Se ao menos o mar trouxesse
O que dizer e me esquece
Nas crinas da tempestade
As palavras litorais
As razões iniciais
Tudo o que não tem idade

Se ao menos o teu olhar
Desse por mim ao passar
Como um barco sem amarra
Deste fado onde me deito
Subia até ao teu peito
Nas veias de uma guitarra

Senhores jurados sou um poeta

[ A Defesa do Poeta ]

Poema de Natália Correia (in O Sol nas Noites e o Luar nos Dias, 1993)
Recitado por Afonso Dias
Também recitado pela autora (in EP “Natália Correia Diz Poemas de Sua Autoria”, VC, 1969; CD “A Defesa do Poeta”, EMI-VC, 2003)

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs na ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.

Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de paixão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.

Ser poeta

[ Existir (O Homem e o Universo) ]

Poema: Fernando Pessoa/Alberto Caeiro (compilação de versos extraídos d’ “O Guardador de Rebanhos” e de “Poemas Inconjuntos”, in “Poemas de Alberto Caeiro”, col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Lisboa: Edições Ática, 1946, 10.ª edição, 1993 – p. 22, 25, 50, 48, 83, 99, 57, 62, 68-69)

Adaptação: Samuel Lopes
Música: Samuel Lopes
Intérprete: Citânia com Luís Filipe Sarmento

Versão original: Citânia com Luís Filipe Sarmento (in Livro/CD “Segredos do Mar”, Seven Muses, 2011)

Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar…
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
Assim é e assim seja.
Basta existir para se ser completo.
Basta existir para se ser completo.
Quero as coisas que existem,
Não o tempo que as mede.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.
Bendito seja o mesmo Sol de outras terras,
Que faz meus irmãos todos os homens.
Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu.
Basta existir para se ser completo.
Basta existir para se ser completo.
Procuro dizer o que sinto,
Sem pensar em que o sinto.
Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu.
E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem, ora mal,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho.
Ainda assim, sou alguém.
Sou o Descobridor da Natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo ele-próprio.

Ser poeta é ser mais alto

[ Perdidamente ]

Poema: Florbela Espanca
Música: João Gil
Intérprete: Trovante (in CD “Terra Firme”, EMI-VC, 1987)

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhas de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/09/florbela-espanca-poetisa.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-07 07:04:332024-11-02 06:18:36Canções sobre poesia
José Eduardo Agualusa poeta
Cancioneiro

Canções de cidadania

Canções de cidadania

Letras

Acredito em pouca coisa

[ instrumental ]

Acredito em pouca coisa
que venha escrita em loiça,
dessa de pôr na parede.

Acredito mais no desempenho
da laranja que apanho,
que como e me mata a sede.

Acredito nas façanhas,
muito menos nas patranhas
de quem faz só porque sim.

Acredito nas crianças,
no meu ventre são esperanças
de um futuro sem fim.

Acredito na loucura
de quem pede mais ternura
e vira costas à guerra.

Acredito na fé dos outros
que às vezes abrem poços
só para encontrar mais terra.

Acredito no Caetano,
no Zambujo que é meu mano,
em todas as vozes calmas.

Acredito na poesia
e também na aletria,
em todos adoçantes de almas.

Acredito na minha mãe,
ela que sofreu bem
para que eu fosse como sou.

Crente nos frutos e flores,
nos mais impossíveis amores,
onde o Sol mais brilhar eu estou.

Eu estou
Eu estou
Eu estou
Eu estou
Eu estou

Letra: Celina da Piedade
Música: Alex Gaspar
Intérprete: Celina da Piedade (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)

Eu ia não sei p’ra onde

[ Que Bonito Que Seria ]

Cantiga primeira:

Eu ia não sei p’ra onde,
Encontrei não sei quem era:
Encontrei o mês de Abril
Procurando a Primavera.

Moda:

Que bonito que seria
Se houvesse compreensão:
Os homens não se matavam
E davam-se como irmãos.

É tão linda a Liberdade,
Até que chegou um dia;
Se houvesse compreensão,
Então que bonito que seria.

Cantiga segunda:

Não há bem que sempre dure
Nem mal que não acabe;
Mas há quem lute
Pelo fim desta nossa Liberdade.

Moda:

Que bonito que seria
Se houvesse compreensão:
Os homens não se matavam
E davam-se como irmãos.

É tão linda a Liberdade,
Até que chegou um dia;
Se houvesse compreensão,
Então que bonito que seria.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in CD “O Círculo Que Leva a Lua”, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2003; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD 2, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)
Primeira versão do Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in LP “Os Ganhões de Castro Verde”, Metro-Som, 1980, reed. Metro-Som, 1997)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

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É o amor

[ Juntos somos mais fortes ]

Intérprete: Amor Electro

Nunca sofri de raça

[ Sangue Bom ]

Nunca sofri de raça
Minha pele é muito boa
Tenho sangue mouro de Goa
E sangue louro de Mombaça

Saiba o senhor
Minha raça é meio-errante
Num dia sou quase zulu
No outro dia, xavante
Mulato, preto-fulo

Saiba o senhor
Saiba o senhor

Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça é superstição de gente mal arraçada

Saiba o senhor: eu não creio em raça, não, raça danada
Raça é superstição de gente mal arraçada
Eu não creio em raça, não

Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não

Eu sou o avesso da raça
Minha alma é muito à toa
Gosto d’amêijoas com jimboa
A toda a mistura acho graça

Saiba o senhor
Saiba o senhor

Minha raça é um jardim
Num dia sou quase azul
No outro, cor de marfim
Sou Bissau e sou Cochim

Saiba o senhor
Saiba o senhor

Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça é superstição de gente mal arraçada

Saiba o senhor: eu não creio em raça, não, raça danada
Raça é superstição de gente mal arraçada
Eu não creio em raça, não

Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Eu não creio em raça, não

(Raça dum cabrão!)
Poema: José Eduardo Agualusa (Para o Caetano Veloso que quis um dia saber a minha raça)
Música: João Afonso Lima
Intérprete: João Afonso com António Afonso

São dois braços

[ Canção dos abraços ]

São dois braços, são dois braços
Servem p’ra dar um abraço
Assim como quatro braços
Servem p’ra dar dois abraços

E assim por ai fora
Até que quando for a hora
Vão ser tantos os abraços
Que não vão chegar os braços

Vão ser tantos os abraços
Que não vão chegar os braços
P’ra os abraços

Intérpete: Sérgio Godinho

Sérgio Godinho

Sérgio Godinho

Da peça de Sérgio Godinho Eu, tu, ele, nós, vós, eles

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/08/jose-eduardo-agualusa.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-07 06:59:492024-11-02 06:20:23Canções de cidadania
Cantigas de pão e vinho
Alimentação

Canções de alimentação

Canções de alimentação

Letras

BEBE A TERRA NEGRA

[ Fragmentos ]

1. Bebe a terra negra
e à terra as árvores
as águas aos ventos
o sol às águas
e ao sol a lua
E as estrelas claras
Porque é que só eu
não hei-de beber?

2. Traz a água e o vinho e coroas
de flores que agora com Eros
me debato…

3. De novo amo e já amo
Deliro e não deliro
Estou louco e não estou louco

Poema: Anacreonte (Grécia, séc. VI a.C.) (in O Vinho e as Rosas: Antologia de Poemas Sobre a Embriaguez , org. Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, 1995)
Recitado por Carlos Mota de Oliveira
Música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé (in CD “Vinho dos Amantes”, Som Livre, 2007)

DEVE-SE ESTAR SEMPRE EMBRIAGADO

[Embriagai-vos ]

Deve-se estar sempre embriagado. Nada mais
importa. Para que o horrível fardo do tempo
não vos pese sobre os ombros e vos faça pender
para a terra, deveis embriagar-vos sem cessar.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude,
à vossa escolha. Mas embriagai-vos!
E se um dia, nos degraus de um palácio, na erva
verde de uma valeta, na solidão baça do vosso
quarto, acordades, já sóbrios, perguntai ao vento,
à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que
foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo
o que canta, a tudo o que fala, perguntai: “Que
horas são?”. E o vento, a onda, a estrela, a ave,
o relógio, responder-vos-ão: “São horas de vos
embriagardes!”. Para que não sejais os escravos
martirizados do tempo, embriagai-vos sem cessar.
De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.

Poema em prosa: Charles Baudelaire (in O Vinho e as Rosas: Antologia de Poemas Sobre a Embriaguez, org. Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, 1995)
Recitado por Carlos Mota de Oliveira
Música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé (in CD “Vinho dos Amantes”, Som Livre, 2007)

Reciclanda

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DONDE VEM RODRIGO

[ Cantigas às Serranas ]

Donde vem Rodrigo,
Donde vem Gonçalo,
De sachar o milho,
De mondar o prado.

Seja diligente
Quem amor semeia,
Que quem não granjeia
Não colhe a semente.
Semeou Rodrigo,
Semeou Gonçalo,
Haverão do milho
Se mondam o prado.
Quem de amor se esquece
No tempo de verde,
Não colhe o que perde
Entre erva que cresce,
Por isso Rodrigo,
Por isso Gonçalo,
Vão sachar o milho,
Vão mondar o prado.
Amor que aproveita,
Se antes de gradar
Cresce em seu lugar
Ciúme e suspeita,
Triste de Rodrigo,
Triste de Gonçalo,
Mal por seu cuidado,
Se não sacha o milho,
Se não monda o prado.
Amor que ficou
Em terra deserta
Colhe quem acerta,
Não quem semeou.
Semeou Rodrigo,
Semeou Gonçalo,
Para haverem o milho
Cumpre haver cuidado.
Em terra mimosa
Ninguém faça escolha,
Vai-se o grão na folha,
De muito viçosa.
Gonçalo e Rodrigo,
Cumpre ser lembrado,
De sachar o milho,
De mondar o prado.

Letra: Baltazar Estaço
Música: Custódio Castelo
Intérprete: Cristina Branco (in CD “Sensus”, Universal, 2003)

HOJE O ESPAÇO É ESPLÊNDIDO

[ O Vinho dos Amantes ]

Hoje o espaço é esplêndido
Sem freio, sem esporas, sem rédea,
Partamos evolados do vinho
Para um céu mágico e divino!

Como dois anjos que calentura
implacável tortura
No azul cristal da manhã
Sigamos a miragem distante!

Mansamente balouçados sobre a asa
Do turbilhão inteligente,
Num delírio paralelo,

Minha irmã, voando olhos nos olhos,
Fugiremos sem descanso nem tréguas
Para o paraíso dos meus sonhos

Poema: Charles Baudelaire (versão livre de Janita Salomé)
Música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé (in CD “Vinho dos Amantes”, Som Livre, 2007)

QUEM QUISER QUE CANTE

[ Quadras ]

Quem quiser que cante bem
Dê-me uma pinga de vinho
O vinho é coisa boa
Faz o cantar mais fininho

Venha vinho, beberemos
Molharemos a garganta
Eu sou como o rouxinol
Quanto mais bebe mais canta

O vinho é coisa santa
Que nasce da cepa torta
A uns faz perder o tino
A outros errar a porta

O meu amor já vem torto
Já se perdeu no caminho
Já não se lembra de mim

Quadras populares (recolhidas por Manuel Rocha, da Brigada Victor Jara), excepto a penúltima, da autoria de António Aleixo, e a última, de Francisco Hélder Pimenta (Ti Chico Chinês), do Redondo.
Música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé (in CD “Vinho dos Amantes”, Som Livre, 2007)

VÁ DE BOCA EM BOCA

[ No Banquete ]

Vá de boca em boca
Uma taça dourada
Somos pó e nada,
Estamos a passar
Como o vinho passa
Na taça
Da vida
P’ra logo em seguida
No chão se entornar.

Vá de boca em boca
Uma taça bem cheia.
A luz da candeia
Fez de nós iguais.
Só gente e tristeza
Na mesa
Da vida
Até que a bebida
Nos torne imortais.

Vá de boca em boca
Uma taça de prata.
Se o prazer nos mata,
Deixá-lo matar.
É a melhor morte
Que em sorte
Nos calha
Cair na batalha
No chão do lagar.

Vá de boca em boca
Uma taça de cobre.
E se houver que sobre
Siga outra rodada
Bebamos, que foge
Já hoje
Outro dia
E no fim da orgia
Somos pó e nada.

Poema (inédito): Hélia Correia
Música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé (in CD “Vinho dos Amantes”, Som Livre, 2007)

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/11/vinho.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-07 06:56:022024-11-13 11:17:09Canções de alimentação
Mulher
Gentileza

Canções à Mulher

Canções à mulher

Letras

Ando na rua da noite

[ Mulher-Mágoa ]

Ando na rua da noite,
Bebo vinho de saudade;
Cada esquina é um açoite
Fustigando a claridade.

Vou de noite pela noite,
De uma vida sem idade:
Não há corpo onde me acoite,
Não há casas na cidade.

Vou de noite pelo ventre
De ruas mal-assombradas,
Levo uma alma doente
Nas minhas mãos desfasadas.

Vou de noite pela noite,
De uma vida sem idade:
Não há corpo onde me acoite,
Não há casas na cidade.

No rio vejo um navio
Rumando rumo à infância…
Tenho frio, tenho frio,
Morro do mal da distância.

Corro as ruas da cidade
Sempre à procura de mim,
Mas ela não tem piedade
E nunca mais chego ao fim.

Ando na rua da vida,
Bebo sumo de tristeza;
Deitando contas à vida
Somo apenas a pobreza.

Ando na rua da vida,
Bebo sumo de tristeza;
Quem andar assim perdida
Não se encontra, com certeza.

Na cama só vejo lama,
Na rua só piso água;
Quem me fala? Quem me chama
O nome de Mulher-Mágoa?

Corro as ruas da cidade
Sempre à procura de mim,
Mas ela não tem piedade
E nunca mais chego ao fim.

Letra: José Carlos Ary dos Santos
Música: Nuno Nazareth Fernandes
Intérprete: Elisa Lisboa (in EP “Mulher-Mágoa”, Columbia/EMI, 1969, reed. digital Edições Valentim de Carvalho, 2021)
Elisa Lisboa – voz
Arranjo e direcção de orquestra – Jorge Machado

Elisa Lisboa, EP Mulher-Mágoa, Columbia/EMI, 1969

Elisa Lisboa, EP Mulher-Mágoa, Columbia/EMI, 1969

As canseiras desta vida

[ Canseiras ]

As canseiras desta vida
Tanta mãe envelhecida
A escovar
A escovar
A jaqueta carcomida
Fica um farrapo a brilhar

Cozinheira que se esmera
Faz a sopa de miséria
A contar
A contar
Os tostões da minha féria
E a panela a protestar

Dás as voltas ao suor
Fim do mês é dia 30
E a sexta é depois da quinta
Sempre de mal a pior

E cada um se lamenta
Que isto assim não pode ser
Que esta vida não se aguenta
– o que é que se há-de fazer?

Corta a carne, corta o peixe
Não há pão que o preço deixe
A poupar
A poupar
A notinha que se queixa
Tão difícil de ganhar

Anda a mãe do passarinho
A acartar o pão pró ninho
A cansar
A cansar
Com a lama do caminho
Só se sabe lamentar

É mentira, é verdade
Vai o tempo, vem a idade
A esticar
A esticar
A ilusão de liberdade
Pra morrer sem acordar

É na morte ou é na vida
Que está a chave escondida
Do portão
Do portão
Deste beco sem saída
-qual será a solução?

Autor: Bertolt Brecht/José Mário Branco
Intérprete: José Mário Branco

Reciclanda

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Já estou louca de estar só

[ Fala da Mulher Sozinha ]

Já estou louca de estar só,
Acompanhada de nada;
Já estou cheia de ser rua
Tão corrida, tão pisada;
Já estou prenhe de amizades,
Tão barriga de saudades…

Ai eu ainda um dia irei rasgar a solidão
E nela entrelaçar o olhar duma canção:
Chegar ao cume, ao cimo, ao alto,
Mais longe e mais além,
Mas a saber que sou alguém!

Na cidade sou loucura,
Sou begónia, sou ciúme…
E eu que sonhava ser lume,
Caminho, atalho e lonjura,
Não tenho assento na festa,
Sou a migalha que resta…

Ai eu ainda um dia irei rasgar a solidão
E nela entrelaçar o olhar duma canção:
Chegar ao cume, ao cimo, ao alto,
Mais longe e mais além,
Mas a saber que sou alguém!

Chegar ao cume, ao cimo, ao alto,
Mais longe e mais além,
Mas a saber que sou alguém!

Letra: Eduardo Olímpio
Música: Paco Bandeira
Intérprete: Margarida Bessa (in CD “Fado”, Movieplay, 1995)

Lá vem a Marianita

[ História da Marianita ]

Lá vem a Marianita, foi posta com as malas à porta
O amo mandou-a embora mas ela não chora, cá pouco se importa
Andava fisgado nela, foi ter-lhe ao quarto à tardinha
“Mariana, por mais que tu faças, tu de hoje não passas, és minha!”
“Não me dás cabo da vida que essa não ta dou por nada!
Mil vezes me dei perdida, mas outras mil eu dei-me achada.”

Desdenha, vem prenha
Pragueja, deseja e ralha mas quando trabalha não estranha

Que tens tu, ó Mariana, que não sossegas um dia?
Não foi proveito nem fama: já chora já mama, cá tudo se cria
Vai por serras e veredas a ver onde é que há jornada
Que importa que o povo diga se a vida castiga por tudo e por nada
O amo quere-a de volta mas ela não verga a haste
Hei-de criá-lo sozinha, a cria é só minha, tu tarde piaste

Desdenha, vem prenha
Pragueja, deseja e ralha mas quando trabalha não estranha

Desdenha, vem prenha
Pragueja, deseja e ralha mas quando trabalha não estranha

A noite é que guarda a Lia
O poente é que a embala
P’ra a vida não ser bravia
Tem de a gente amansá-la
A mão que nos guarda a vida
É a mão que nos dá a manha
Só leva a vida vencida
Quem aprova e não estranha

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha (in CD “Perguntei ao Tempo”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2019)
Versão original: Quadrilha com Segue-me à Capela (in CD “A Cor da Vontade”, Vachier & Associados, 2003)

Sebastião Antunes & Quadrilha
Sebastião Antunes & Quadrilha
Luísa sobe

[ Calçada de Carriche ]

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda Luísa…

Poema: António Gedeão (excerto)
Música: José Niza
Arranjo: José Calvário
Intérprete: Carlos Mendes (in LP “Fala do Homem Nascido”, Orfeu, 1972, reed. Movieplay, 1998)

CALÇADA DE CARRICHE

António Gedeão, in “Teatro do Mundo”, Coimbra: Edição do autor, 1958; “Poesias Completas”, Portugália Editora, 1964, 5.ª edição, 1975 – p. 115-120; “Poemas Escolhidos: Antologia Organizada pelo Autor”, Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1997 – p. 34-37).

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

António Gedeão/Rómulo de Carvalho
António Gedeão/Rómulo de Carvalho
Maria Joana, do que és tu feita?

[ Mulher Feiticeira ]

Maria Joana, do que és tu feita?
És entre os poetas mulher perfeita
São quantos os homens contigo enrolada
Na mente, no peito, na cama deitada?

São quantas as cores entre os teus amores que ficam mais vivas?
São quantos alentos que mudas ao centro por dentro da vida
Como uma miragem, contigo em viagem, teus apaixonados
Que ficam para sempre contigo na mente e em parte alterados?

O que tu tens, o que tu tens, Maria?
O que tu tens e do que é feito o teu ser?
O que tu tens, porque tens tu magia?
O que tu tens, o que tu tens que eu quero ter?

Maria Joana, descomplicada
Fragrância em delírio bem perfumada
Faz seus prisioneiros relaxando a vida
Dá o seu corpo inteiro com peso e medida

Acende-se a chama, ficas inspirado levando o teu ser
À serotonina que sobe tão fina subindo o prazer
De corpo suado, mostrando outro lado num lado qualquer
Fez sua magia, fez feitiçaria, Maria mulher

O que tu tens, o que tu tens, Maria?
O que tu tens e do que é feito o teu ser?
O que tu tens, porque tens tu magia?
O que tu tens, o que tu tens que eu quero ter?

No ser delicada, na vida focada e tão original
Que já não vê fronteiras, contorna barreiras, faz o desigual
Assume na vida nova perspectiva e sabe o que não quer
Faz feitiçaria com sua magia, Maria mulher

O que tu tens, o que tu tens, Maria?
O que tu tens e do que é feito o teu ser?
O que tu tens, porque tens tu magia?
O que tu tens, o que tu tens que eu quero ter?

Letra e música: Luís Pucarinho
Intérprete: Luís Pucarinho (in CD “SaiArodada”, Luís Pucarinho/Alain Vachier Music Editions, 2018)

Menina de olhar sereno

[ Menina do Alto da Serra ]

Menina de olhar sereno
raiando pela manhã
de seio duro e pequeno
num coletinho de lã.

Menina cheirando a feno
casado com hortelã.

Menina que no caminho
vais pisando formosura
levas nos olhos um ninho
todo em penas de ternura.
Menina de andar de linho
com um ribeiro à cintura.

Menina de andar de linho
com um ribeiro à cintura.

Menina da saia aos folhos
quem te vê fica lavado
água da sede dos olhos
pão que não foi amassado.

Menina de riso aos molhos
minha seiva de pinheiro
menina da saia aos folhos
alfazema sem canteiro.

Menina de corpo inteiro
com tranças de madrugada
que se levanta primeiro
do que a terra alvoraçada.

Menina de corpo inteiro
com tranças de madrugada
que se levanta primeiro
do que a terra alvoraçada.

Menina da saia aos folhos
quem te vê fica lavado
água da sede dos olhos
pão que não foi amassado.

Menina de fato novo
Ave-Maria da terra
rosa brava rosa povo
brisa do alto da serra.

Rosa brava rosa povo
brisa do alto da serra.

Letra: José Carlos Ary dos Santos
Música: Nuno Nazareth Fernandes
Intérprete: Kátia Guerreiro e Ney Matogrosso (in CD “Tudo ou Nada”, Som Livre, 2005)
Versão original: Tonicha – “Menina” (1971)

Minha mulher

[ Minha Metade ]

Minha mulher
Singelo encanto
Minha alma-irmã
És meu farol
Raio de sol
Luz da manhã

Minha empatia
Sabedoria
Sem ter idade
Minha poesia
Minha alegria
Minha metade

Meu lindo bem-querer
Rosa do meu jardim
Não canso de dizer
O que és p’ra mim:

Minha água clara
Pedra tão rara
Meu talismã
Rima e compasso
Meu terno amasso
Minha maçã

Minha pepita
Coisa bonita
Cheirosa flor
Minha certeza
Minha riqueza
Meu doce amor

Meu lindo bem-querer
Rosa do meu jardim
Não canso de dizer
O que és p’ra mim:

Minha água clara
Pedra tão rara
Meu talismã
Rima e compasso
Meu terno amasso
Minha maçã

Minha pepita
Coisa bonita
Cheirosa flor
Minha certeza
Minha riqueza
Meu doce amor

Letra e música: Aníbal Raposo (2011-01-31)
Intérprete: Aníbal Raposo (in CD “Rocha da Relva”, Aníbal Raposo/Global Point Music, 2013)

Mulher chegada ao sonho adolescente

[ Mulher-Amor ]

Mulher chegada ao sonho adolescente
botão de esperança num sorriso alegre
mulher inteira, coração contente
que guarda com ternura
a última boneca
para quem o amor é a coisa mais pura

Mulher capaz de ter nas mãos serenas
toda a força do amor que habita em si
e sabe pôr nas coisas mais pequenas
um gesto de ternura
mulher igual a mim
mulher que és mãe és a mulher mais pura

Mulher que chega à esquina da idade
carregada dos seus anos doirados
cada ruga lhe traz uma saudade
e afaga com ternura
seus cabelos grisalhos
bebendo o amor da sua fonte pura

cada ruga lhe traz uma saudade
e afaga com ternura
seus cabelos grisalhos
bebendo o amor da sua fonte pura

Letra: Manuel Lima Brummon
Música: António Chainho
Intérprete: Tereza Tarouca (in LP “Portugal Triste”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD “Teresa Tarouca”, col. Clássicos da Renascença, vol. 15, Movieplay, 2000; CD “Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006)

António Chaínho
António Chaínho
Olha, não chores, maninha

[ Cicatriz de Ser Mulher ]

Olha, não chores, maninha,
que eu não sei se vai passar…
essa tristeza tão funda
não sei se passa a chorar!

Olha, que pena, maninha,
essa flor de malmequer,
essa tristeza tão funda,
cicatriz de ser mulher!

Lembras? Que lindo o teu homem
e que meigo o seu olhar
e como ardia o teu corpo
ao seu mais leve tocar?

Foi de repente, maninha,
como tudo se mudou:
o amante foi senhor,
o senhor tudo esmagou!

Sei que é tão frágil a flor
que brotou do coração
e dói ver um corpo bandido
desfolhá-la pelo chão!

Olha, que os homens, maninha,
andam tontos pelo mundo:
pisam com fúria tamanha
o seu berço mais profundo!

E já não falo da guerra
com soldados frente a frente:
deixam a saia sangrando,
deixam pegadas no ventre!

Dizem “quem cala consente!”,
mas custa tanto falar:
o medo dentro da gente
ficou mudo de gritar!

Olha, não chores, maninha,
que eu apago, se puder,
essa tristeza tão funda,
cicatriz de ser mulher!

Letra e música: João Lóio
Intérprete: João Lóio (in CD “Canções de Amor e Guerra”, João Lóio, 2002)

Meus amigos, sou de vidro

[ Sou de Vidro ]

Meus amigos, sou de vidro,
Sou de vidro escurecido,
Encubro a luz que me habita;
Não por ser feia ou bonita,
Mas por ter assim nascido,
Sou de vidro escurecido;
Mas por ter assim nascido,
Não me atinjam, não me toquem!
Meus amigos, sou de vidro.

Sou de vidro escurecido,
Tenho um fumo por vestido
E um cinto de escuridão,
Mas trago a transparência
Envolvida no que digo;
Meus amigos, sou de vidro.
Por isso não me maltratem,
Não me quebrem, não me partam!
Sou de vidro escurecido.

Tenho um fumo por vestido,
Mas por ter assim nascido,
Não por ser feia ou bonita;
Envolvida no que digo,
Encubro a luz que me habita;
Meus amigos, sou de vidro.
Não por ser feia ou bonita,
Mas por ter assim nascido,
Tenho um fumo por vestido.

Não me quebrem, não me partam!
Não me atinjam, não me toquem!
Meus amigos, sou de vidro.

Poema: Lídia Jorge
Música: Armando Machado (Fado Santa Luzia)
Intérprete: Mísia (in CD “Garras dos Sentidos”, Erato, 1998; 2CD “Mísia”: CD 2, WEA/Warner Music Spain, 2005)

Veio de longe

Maria Lua (Mulher)

Veio de longe
para encontrar
outra lua, outro lugar
Veio sozinha
Maria Lua
acende o mar

Sem pressa…
Sem medo…
nem nada…

Veio de longe
veio a cantar
outra terra, outro ar
Veio sozinha
Maria Lua
cor de luar

Maria Lua
lua do mar…

Ela sabe quem é
cheira a café
Ela sabe o que quer
é mulher

Maria Lua
nunca se há-de casar
Ela é amante do mar

Veio de longe
para encontrar
outra lua, outro lugar
Veio de longe
Maria Lua
acende o mar

Maria Lua
lua do mar…

Ela sabe quem é
cheira a café
Ela sabe o que quer
é mulher

Maria Lua
nunca se há-de casar
Ela é amante do mar

Maria Lua
nunca se há-de casar
Ela é amante do mar

Maria Lua
lua do mar…

Ela é amante do mar
Maria Lua
lua do mar…

Letra: Eugénia Ávila Ramos
Música: Tiago Oliveira
Intérprete: Rua da Lua (ao vivo no Teatro da Luz, Lisboa)
Versão original: Rua da Lua (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)

Velha da terra morena

Mulher da Erva

Velha da terra morena
Pensa que é já lua cheia;
Vela que a onda condena
Feita em pedaços na areia.

Saia rota subindo a estrada,
Inda a noite rompendo vem,
A mulher pega na braçada
De erva fresca, supremo bem.

Canta a rola numa ramada,
Pela estrada vai a mulher:
“Meu senhor, nesta caminhada
Nem m’alembra do amanhecer!”

Há quem viva sem dar por nada,
Há quem morra sem tal saber…
Velha ardida, velha queimada,
Vende a fruta se queres comer.

À noitinha, a mulher alcança
Quem lhe compra do seu manjar,
Para dar à cabrinha mansa,
Erva fresca da cor do mar.

Na calçada uma mancha negra
Cobriu tudo e ali ficou:
Anda, velha da saia preta,
Flor que ao vento no chão tombou!

No Inverno terás fartura
Da erva fora supremo bem…
Canta, rola, tua amargura!
Manhã moça nunca mais vem…

Letra e música: José Afonso
Intérprete: Teresa Silva Carvalho / introdução por Vitorino (in LP “Ó Rama, Ó Que Linda Rama”, Orfeu, 1977, reed. Movieplay, 1994)

Créditos gerais do disco:
Teresa Silva Carvalho – voz
Júlio Pereira – violas acústica e clássica, bandolim e percussões
Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa e rabeca
Catarina Latino – flauta barroca e cornamusa
Zé Luiz Iglésias – viola clássica
Pintinhas – percussões
Hélder Reis – acordeão
Vitorino – voz masculina
Grupo Coral de cantadores do Redondo
Produção e direcção musical – Vitorino
Gravado nos Estúdios Arnaldo Trindade, Lisboa
Técnicos de som – Manuel Cunha e Moreno Pinto
URL: https://www.museudofado.pt/fado/personalidade/teresa-silva-carvalho

Capa do LP “Ó Rama, Ó Que Linda Rama” (Orfeu, 1977)
Desenho e execução – Jean Laffront

Elfiede Engelmayer dá a explicação deste texto: trata-se de uma velha mulher do Alentejo que ganhava a vida com a venda de erva.

José Afonso conheceu-a quando ela já tinha mais de setenta anos. Todos os dias, andava pelas ruas e estradas com uma cesta de erva cuja venda era o seu sustento e com que se alimentava o gado. Esta “profissão” desapareceu com a modernização da agricultura. A canção relata o encontro entre o cantor e a mulher.

Na segunda estrofe, ele vê-a a subir a estrada, vindo na sua direcção. Na terceira, eles trocam algumas palavras e depois ela prossegue o seu caminho sem ouvir o comentário do cantor. Na primeira estrofe, a “vela condenada pela onda” simboliza que ela não tem, e nunca teve, futuro.

Oona Soenario (in “A canção de intervenção Portuguesa: Contribuição para um estudo e tradução de textos”, Universidade de Antuérpia, 1994-1995)

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/09/mulher.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-07 06:52:332025-06-12 20:03:15Canções à Mulher
Saudades
Amor

Canções de Saudade

Canções de saudade

Letras

A saudade do teu cheiro

[ Ai o Meu Primeiro Amor ]

A saudade do teu cheiro
E o sorrir do teu olhar
Faz o meu corpo inteiro
Ganhar asas e voar

Num voo derradeiro
Sobrevoo o alto-mar
E nem o denso nevoeiro
Faz este fogo cessar

Ai o meu primeiro amor
Feito de um tímido beijo
É de todos o maior
É de todos o primeiro

Ai o meu primeiro Amor…

É um amor estrangeiro
Que vive em liberdade
Meu coração prisioneiro
Fica preso à saudade

Ai o meu primeiro amor
Feito de um tímido beijo
É de todos o maior
É de todos o primeiro

Ai o meu primeiro amor
Feito de um tímido beijo
É de todos o maior
É de todos o primeiro

Ai o meu primeiro Amor…
Ai o meu primeiro Amor…

Letra e música: Samuel Lopes
Intérprete: Citânia
Versão original: Citânia (in Livro/CD “Segredos do Mar”, Seven Muses, 2011)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e a qualidade de vida dos idosos. 

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

A saudade enlouqueceu

[ A saudade Não existe ]

A saudade enlouqueceu
no dia em que tu partiste;
não sei o que é que me deu
se afirmei como um ateu
que a saudade não existe.

Então, o Fado fez pouco
da minha infelicidade
e nunca mais me deu troco.
Não sabe quem anda louco:
se sou eu ou a saudade

Coitado de quem a esquece,
nunca mais volta a ter paz.
Quando a saudade enlouquece,
a loucura é uma prece
com o Fado por detrás.
Coitado de quem a esquece,
nunca mais volta a ter paz.

A saudade ficou rouca
de tanto te ter chamado,
e anda de boca-em-boca;
comentam que ela está louca,
mas quem está louco é o Fado!

A Saudade Não Existe (A Saudade Enlouqueceu)
Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Joaquim Campos (Fado Amora)
Intérprete: Cristina Nóbrega
Versão original: Cristina Nóbrega (in CD “Um Fado para Fred Astaire”, Watch & Listen, 2014)
Outra versão de Cristina Nóbrega (grav. no Largo do Teatro Nacional de São Carlos, Lisboa, 29 Ago. 2014, in CD “Ao vivo no Chiado”, Watch & Listen, 2015)

Cristina Nóbrega, Ao Vivo no Chiado
Cristina Nóbrega, Ao Vivo no Chiado

A saudade, meu amor

[ Saudade, Silêncio e Sombra ]

A saudade, meu amor,
É o martírio maior
Da minha vida em pedaços,
Desde a tarde desse dia
Em que ao longe se perdia
P’ra sempre o som dos teus passos.

Saudades fazem lembrar
Silêncios do teu olhar,
Segredos da tua voz
E essa antiga melodia
Que o vento na ramaria
Murmurava só p’ra nós.

Lembras-te daquela vez
Quando eu cantava a teus pés
Trovas que não tinham fim,
Quando o luar prateava
E quando a noite orvalhava
As rosas desse jardim?

Jardim distante e deserto,
Sinto tão longe e tão perto
O passado que te ensombra…
Devaneio e realidade,
Silêncio, sombras, saudade,
Saudades, silêncio e sombr

Letra: D. Nuno Lorena
Música: Pedro Rodrigues (Fado Primavera)
Intérprete: Tereza Tarouca (in EP “Saudade, Silêncio e Sombra”, RCA Victor, 1964; LP “Os Melhores Fados de Tereza Tarouca”, RCA Camden, 1978; 2LP “Álbum de Recordações”: LP 1, Polydor/PolyGram, 1985; CD “Temas de Ouro da Música Portuguesa”, Polydor/PolyGram, 1992; CD “Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006; CD “Tereza Tarouca”, col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)

Era uma vez um comboio

[ ‘Inda me Alembra a Azeitona ]

Era uma vez um comboio
Em que me fui a montar:
Abalei nele p’rá cidade,
Nunca mais quis eu voltar.

Nunca mais quis eu voltar,
Ilusão da vida minha;
‘Inda me alembra a azeitona
Quando o medo guarda a vinha.

‘Inda me alembra a azeitona,
‘Inda me alembra o lagar:
Vinha a seguir à castanha
E depois de vindimar.

Vinha a seguir à castanha,
À castanha redondinha;
‘Inda me alembra a azeitona
E de rabiscar a vinha.

Uma vez cá na cidade
Quis comer migas de pão;
Tinha tudo p’ra as fazer,
Faltava-me o coração.

Faltava-me o coração
Que eu deixei à tua beira;
‘Inda me alembra a azeitona,
Ai, queira eu ou não queira.

‘Inda me alembra a azeitona,
‘Inda me alembra o lagar:
Vinha a seguir à castanha
E depois de vindimar.

Vinha a seguir à castanha,
À castanha redondinha;
‘Inda me alembra a azeitona
E de rabiscar a vinha.

Agora quero eu voltar
E já não tenho ninguém;
O coração que eu deixei
Deixou-me a mim também.

Deixou-me a mim a cismar
De alecrim e manjerona;
Não sei qual deles cheirar
Se ‘inda me alembra a azeitona.

‘Inda me alembra a azeitona,
‘Inda me alembra o lagar:
Vinha a seguir à castanha
E depois de vindimar.

Vinha a seguir à castanha,
À castanha redondinha;
‘Inda me alembra a azeitona
E de rabiscar a vinha.

Letra: Vítor Reia
Música: Jorge Semião
Intérprete: Vá-de-Viró (in CD “Por Aí…”, Música XXI – Associação Cultural, 2013)

Se me Levam Águas

MOTE ALHEIO

Se me levam águas,
nos olhos as levo.

VOLTAS

Se de saudade
morrerei ou não,
meus olhos dirão
de mim a verdade.
Por eles me atrevo
a lançar as águas
que mostrem as mágoas
que nesta alma levo.

As águas que em vão
me fazem chorar,
se elas são do mar
estas de amor são.
Por elas relevo
todas minhas mágoas;
que, se força de águas
me leva, eu as levo.

Todas me entristecem,
todas são salgadas;
porém as choradas
doces me parecem.
Correi, doces águas,
que, se em vós me enlevo,
não doem as mágoas
que no peito levo.

Poema (vilancete em redondilha menor): Luís de Camões (in “Rimas”, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; “Obras de Luís de Camões”, Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 772-773)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília (in LP “La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1”, Moshé-Naïm, 1967; CD “La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours”, Moshé-Naïm/EMEN, 1996)

Em sonho lá vou

[ Longe Daqui ]

Em sonho lá vou de fugida,
Tão longe daqui, tão longe.
É triste viver tendo a vida
Tão longe daqui, tão longe.

Mais triste será quem não sofre
Do amor, a prisão sem grades.
No meu coração há um cofre
Com jóias que são saudades.

Tenho o meu amor para além do rio,
E eu cá deste lado cheiinha de frio.
Tenho o meu amor para além do mar,
E tantos abraços e beijos p’ra dar.

Oh bem que me dás mil cuidados,
Tão longe daqui, tão longe,
A Lua me leva recados,
Tão longe daqui, tão longe.

Quem me dera ir céu adiante,
Correndo veloz no vento:
Ter asas, chegar num instante
Onde está meu pensamento.

Tenho o meu amor para além do rio,
E eu cá deste lado cheiinha de frio.
Tenho o meu amor para além do mar,
E tantos abraços e beijos p’ra dar.

Tenho o meu amor para além do rio,
E eu cá deste lado cheiinha de frio.
Tenho o meu amor para além do mar,
E tantos abraços e beijos p’ra dar.

Nota: Na gravação original (amaliana), o primeiro verso da quarta estrofe tem a seguinte forma: “Ao bem que me dá mil cuidados”.

Letra: Hernâni Correia
Música: Arlindo de Carvalho
Intérprete: Cristina Nóbrega
Versão original: Amália Rodrigues (grav. 1970, in CD “Segredo”, EMI-VC, 1997; 3CD “É ou Não É?: os 45 rpm 1968-1975”: CD 1, Edições Valentim de Carvalho, 2018)

Amália Rodrigues em 1969
Amália Rodrigues em 1969

Eu tenho um xaile encarnado

[ Xaile Encarnado ]

Eu tenho um xaile encarnado
É uma lembrança tua
Tem um segredo bordado
Que às vezes eu trago à rua

Tem as marcas de uma vida
Que a vida marca no rosto
Mas ganha uma nova vida
Nas noites que o trago posto

Já foi lençol e bandeira
Vela de barco também
Tem marcas da vida inteira
Mas dizem que me cai bem

Se pensas que me perdi
Nalgum destino traçado
Para veres que não esqueci
Eu ponho o xaile encarnado

Letra: João Monge
Música: Armandinho (Fado da Adiça)
Intérprete: Aldina Duarte (in CD “Crua”, EMI, 2006)

Eu peguei em saudades tuas

[ Saudade solta ]

Eu peguei em saudades tuas
Fui plantá-las no meu jardim
Porque sei que assim continuas
Aqui bem juntinho a mim
E cantando a saudade eu sei
Algo aqui há-de nascer
Se tristeza eu semeei
Alegria hei-de colher
Alegria hei-de colher

Pedrinhas que houver eu hei-de tirar
E todas as ervas daninhas à volta
E o que vier virá lembrar
O que a vida prende a saudade solta
E sombras que houver eu hei-de afastar
E todas as ervas daninhas à volta
E o que vier virá lembrar
O que a vida prende a saudade solta

Novos dias vão chegar
Outras memórias felizes
E o vento que nos vergar
Não nos vai quebrar raízes
E cantando eu sei que fica
A saudade bem aqui
E a esperança que nos dá vida
Em mim não terá o fim
Sei que vais esperar por mim

Pedrinhas que houver eu hei-de tirar
E todas as ervas daninhas à volta
E o que vier virá lembrar
O que a vida prende a saudade solta
E sombras que houver eu hei-de afastar
E todas as ervas daninhas à volta
E o que vier virá lembrar
O que a vida prende a saudade solta

Pedrinhas que houver eu hei-de tirar
E todas as ervas daninhas à volta
E o que vier virá lembrar
O que a vida prende a saudade solta
E sombras que houver eu hei-de afastar
E todas as ervas daninhas à volta
E o que vier virá lembrar
O que a vida prende a saudade solta

Intérprete: Mariza

Eu preciso de te ver

Eu preciso de te ver,
Ausente d’amor sem razão,
Para te mostrar as sombras
Do quarto da solidão.
Eu preciso de te ver,
Ausente d’amor sem razão.

Eu preciso de te ver
Para matar este frio,
Que voa dentro de mim
Como as gaivotas no rio.
Eu preciso de te ver
Para matar este frio.

Eu preciso de te ver
Para matar esta saudade,
Que já começa a vestir
O tempo da minha idade.
Eu preciso de te ver
Para matar esta saudade.

Como ganhei a coragem
D’areia a beber a espuma,
Eu preciso de te ver
Mais uma vez, só mais uma.

Letra: Vasco de Lima Couto
Música: José Fontes Rocha (Fado Isabel)
Intérprete: Joana Amendoeira* (in CD “Amor Mais Perfeito: Tributo a José Fontes Rocha”, CNM, 2012)
Primeira versão (com a melodia do Fado Isabel): Beatriz da Conceição (in EP “Pomba Branca, Pomba Branca”, Banda/Movieplay, 1974; CD “Beatriz da Conceição”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 75, Movieplay, 1997; CD “Beatriz da Conceição”, col. Clássicos da Renascença, vol. 21, Movieplay, 2000)
Outra versão de Beatriz da Conceição (in CD “Tears of Lisbon”, Sony Classical, 1996)
Versão original (com a melodia do Fado Menor do Porto): Lucília do Carmo (in LP “Recordações”, Decca/VC, 1971, reed. Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008; CD “Lucília do Carmo” (compilação), col. Caravela, EMI-VC, 1997)

Beatriz da Conceição

fadista Beatriz da Conceição

Fecho os olhos já cansados

[ Solidão e Xisto ]

Fecho os olhos já cansados.
Relembro os tempos passados,
as finas flores de cerejeira,
os cereais secos na eira.
No percurso da memória,
vem à luz a mesma história
da minha aldeia adormecida
Vem à luz a mesma história.
Minha terra, minha alma
que antes era canto e vida!

Fecho os olhos navegantes.
Relembro tempos distantes
das terras fecundadas,
dias de sol e sementes lançadas.
Eram campos de alegria.
Hoje são pó e nostalgia
nesta aldeia adormecida.
Hoje pó e nostalgia.
Minha terra, minha alma
que antes era canto e vida!

Fecho os olhos de mansinho,
sigo agora outro caminho.
Desta terra me despeço
no embalo das vozes antigas.
Num lamento adormeço
ao rumor de velhas cantigas.
Espalho-me em sementes de alma
na terra de todos os campos.
Dela brotarão flores em cantos:
Que ainda sou, ainda existo
nesta aldeia de solidão e xisto.

Letra: Joana Lopes
Música: António Pedro
Intérprete: Musicalbi
Versão original: Musicalbi (in CD “Solidão e Xisto”, Musicalbi, 2019)

Há uma saudade guardada

[ A nossa voz ]

Letra: Mariza
Música: Fred, Vicente Palma, André Dias
Intérprete: Mariza

Na noite

[ Mais do Que Saudade ]

Na noite, lá longe um cão a ladrar
E o som que, se solta, levita no ar
Como que uma dança, vai alguém a correr;
Há carros e motas abanando o escuro,
Lembro o teu sorriso tão lindo, inseguro…
Não te sei chamar, o que hei-de fazer?

Onde estás, meu amor? Onde pairas?
Será que pensas em mim?
Também, como eu, estás assim?
Na verdade, isto é mais do que saudade,
É mais do que saudade.

Porquê este aperto a lembrar, tal e qual,
Que o longe da vista é como um Carnaval:
Olhar e sorrir, não mostrar que estou triste?
Prefiro deixar o coração de lado,
Ir à beira-rio, andar um bocado…
Será que paraste? Será que me ouviste?

Onde estás, meu amor? Onde pairas?
Será que pensas em mim?
Também, como eu, estás assim?
Na verdade, isto é mais do que saudade,
É mais do que saudade.

A saudade tem destas coisas estranhas,
Tem trejeitos, amua, tem também suas manhas:
Não quer admitir, diz que não, bate o pé;
Na verdade, sem ela em qualquer circunstância
Sentiria por ti esta falta, esta ânsia…
Muito mais que saudade, nem eu sei o que é.

Onde estás, meu amor? Onde pairas?
Será que pensas em mim?
Também, como eu, estás assim?
Na verdade, isto é mais do que saudade,
É mais do que saudade.

Na verdade, isto é mais do que saudade,
É mais do que saudade.

Letra e música: Amélia Muge
Arranjo: Amélia Muge e Quiné Teles
Intérprete: Ela Vaz (in CD “Eu”, Micaela Vaz, 2017)

No alto daquela fraga

[ Aroma da Saudade ]

No alto daquela fraga,
Vi teus olhos cintilar.
A distância traz a mágoa
De não te poder beijar.

Que saudades do teu cheiro,
Dos teus lábios de romã,
Dos recatos do celeiro,
Faces rubor de maçã!

Trigueira do Alentejo
Tens o mel do meu desejo,
No teu beijo
Um aroma da saudade.

Teus cabelos cor de trigo,
Teu perfume de alecrim.
Ao ribeiro vou contigo;
Não te apartes mais de mim!

Na eira corre o suão
E um aroma de poejo.
Coentros, migas de pão
Alimentam o desejo.

Trigueira do Alentejo
Tens o mel do meu desejo,
No teu beijo
Um aroma da saudade.

Trigueira do Alentejo
Tens o mel do meu desejo,
No teu beijo
Um aroma da saudade.
Trigueira do Alentejo…

Letra e música: Álvaro M. B. Amaro
Intérprete: Dialecto*
Versão original: Dialecto (in CD “Aromas”, Dialecto/Cloudnoise, 2011)

O meu avô dançava

[ Baile em Segredo ]

O meu avô dançava
O que a avó trauteava
E, com movimento,
A valsa voava.

Foi no salão de dança,
Mesmo a meio do mar
Quando um navio avança,
Dança e balança o par;
Mesmo a meio do mundo,
Longe o pulsar do cais
Num silêncio profundo,
Toca uma nota mais.

Ai, guarda os teus sentidos
Ai, numa caixa aberta:
São os contos vividos
Que um quadro liberta!
Ai, guarda a tua vida
Ai, num frasco de sais:
No calor da avenida,
O sol de volta ao cais!

A dimensão que o mundo
Tem do silêncio ouvir
Vem dum saber profundo:
O saber de existir.

O meu avô dançava
O que a avó trauteava
E, com movimento,
A valsa voava.

Letra: João Afonso Lima
Música: João Afonso Lima e António Afonso
Arranjo: Quiné Teles
Intérprete: Ela Vaz, com Uxía (in CD “Eu”, Micaela Vaz, 2017)
Versão original: João Afonso com António Afonso (in CD “Outra Vida”, Vachier & Associados/Universal, 2006)

Olá! Como é que estás?

[ SMS ]

— Olá! Como é que estás? Como é que vais?
Os dias por aqui seguem iguais
E passam sem trazer mais novidades;
Há muito que não sei nada de ti,
Mas pelo coração já percebi
Que ainda guardo aqui muita saudade.

— Se tu quiseres podemos tomar
Um copo ou um café para falar,
Pôr a conversa em dia um destes dias:
Quero saber de ti e do que fazes,
Saber se por acaso ainda trazes
Contigo aquele brilho que trazias.

Podemos ver um filme no cinema.
— E dar os dois a mão naquela cena.
— Ficar assim até aos créditos finais.
— Podemos ir os dois beber um gin.
— Dizer que a vida vai assim-assim…
— Os dias por aqui seguem iguais.

— Podias pôr aquele teu vestido,
Aquele azul com o ombro descaído,
Estampado a padrões orientais;
Gostava de levar-te a jantar fora,
Por mim podemos ir a qualquer hora
Porque aqui os dias seguem sempre iguais.

— Desculpa se o telefone te acordou,
Escrevi-te porque o coração mandou,
Ele já não podia esperar mais;
Eu já ouvi dizer que o tempo cura
Mas sei que a tua falta ainda dura…
Os dias por aqui seguem iguais.

Não me leves a mal por te escrever
Nem sintas que é preciso responder,
É só uma mensagem, nada mais;
Só escrevo p’ra dizer que ainda te quero
E quando a lua vem ainda te espero…
As noites por aqui seguem iguais.

— As noites por aqui seguem iguais.
— As noites por aqui seguem iguais.
— Os dias por aqui seguem iguais.
— As noites por aqui seguem iguais.

Letra: José Fialho Gouveia
Música e arranjo: Rogério Charraz
Intérprete: Rogério Charraz com Katia Guerreiro (in CD “Não Tenhas Medo do Escuro”, Rogério Charraz/Compact Records, 2016)

Os olhos do meu amor

[ Dois Navios ]

Os olhos do meu amor são dois navios de guerra;
navegam pelo mar fundo, deitam faíscas à terra.
Ó pombinh’enrol’enrol’ai! ó meu pomb’enroladore;
já lá vem ‘àssobiare a caldeira do vapore.

A caldeira do vapor’ai! ó meu pomb’enrol’enrola.
Eu hei-d’ir par’à Espanha casar com ‘ma espanhola.
Casar com ‘ma espanhola, qu’elas são moças bonitas;
usam sai’à papo-seco, sapatos, meias e ligas.

Ó meu amor, eu fujo pelo mar’abaix’eu sou marujo.
Ó meu amor, eu fujo pelo mar’abaix’eu sou marujo.
Eu sou marujo mais ela.
Eu sou marujo mais ela.
Pelo mar’abaixo vai um barco à vela.
Pelo mar’abaixo vai um barco à vela.

Ó pescador da barquinha! Qu’ei lá! Volt’à trás que vais perdido!
Porquê? Essa mulher qu’aí levas!
Que tem? É casad’e tem marido!
Vá de banda, carabola, vá de banda, vá de banda, carol’olé!
Eu sei falar à ‘spanhola, cara linda, “mira usted”.
Vá de banda, carabola, vá de banda, vá de banda, carol’olé!
Eu sei falar à ‘spanhola, cara linda, “mira usted”.

Vá de banda, carabola, vá de banda, vá de banda, carol’olé!
Eu sei falar à ‘spanhola, cara linda, “mira usted”.
Vá de banda, carabola, vá de banda, vá de banda, carol’olé!
Eu sei falar à ‘spanhola, cara linda, “mira usted”.

Letra e música: Tradicional portuguesa
Arranjo: Paulo Cunha
Intérprete: Vá-de-Viró (in CD “Por Aí…”, Música XXI – Associação Cultural, 2013)

Quando o amor se cansar

[ O Que É Que Eu Digo à Saudade? ]

Quando o amor se cansar e tu partires,
Ficarmos no silêncio desta idade,
Sem um adeus sequer tu me dizeres,
Uma palavra, um gesto de amizade;
Sem um adeus sequer tu me dizeres,
Amor, que vou dizer nesta saudade?

O que é que eu digo à saudade
Sem teus olhos p’ra me olhar?
O que é que eu digo à saudade
Sem teus lábios p’ra beijar?
O que é que eu digo à saudade
Sem teu corpo para amar?
O que é que eu digo à saudade
Se não me vens abraçar?
O que é que eu digo à saudade
Sem teu cheiro respirar?
O que é que eu digo à saudade
Com tanto amor para dar?

E na cama sozinha em que te penso,
Em que me venço inteira, com verdade,
Sendo a ti, meu amor, a quem pertenço,
Porque não és de mim outra metade?
E se é pensando em ti que eu adormeço,
O que é que eu digo à noite e à saudade?

O que é que eu digo à saudade
Sem teus olhos p’ra me olhar?
O que é que eu digo à saudade
Sem teus lábios p’ra beijar?
O que é que eu digo à saudade
Sem teu corpo para amar?
O que é que eu digo à saudade
Se não me vens abraçar?
O que é que eu digo à saudade
Sem teu cheiro respirar?
O que é que eu digo à saudade
Com tanto amor para dar?

O que é que eu digo à saudade
Sem teu cheiro respirar?
O que é que eu digo à saudade
Com tanto amor para dar?

O que é que eu digo à saudade
Sem teu cheiro respirar?
O que é que eu digo à saudade
Com tanto amor para dar?
O que é que eu digo à saudade
Sem teu cheiro respirar?
O que é que eu digo à saudade
Com tanto amor para dar?

Letra: José Luís Gordo e Mário Rainho
Música: José Fontes Rocha
Intérprete: Joana Amendoeira (in CD “Amor Mais Perfeito: Tributo a José Fontes Rocha”, CNM, 2012)
Versão original: Maria da Fé (in LP “Amor na Minha Voz”, MBP, 1989, reed. CD “Estar Contigo”, Ovação, ?)
Outra versão de Maria da Fé (in CD “Canto Lusitano”, Ovação, 1993; CD “Maria da Fé”, col. Estrelas da Música Portuguesa, Ovação, 2015)

A Vida Que Há na Saudade

Quando o silêncio me diz
que a vida está por um triz,
e eu sei que fala verdade,
vou p’ra trás de uma guitarra
e a minha voz agarra
a vida que há na saudade.

Vem um fado e outro fado
e o coração, cansado,
diz que não quer sofrer tanto,
porque já sabe de cor
o que lhe faz o Menor
de cada vez que eu o canto.

Mas o guitarrista toca
uma guitarra que evoca
outra guitarra mais triste:
está guardada no meu peito
e toca um fado que é feito
da dor mais forte que existe.

Ao escutá-la no meu sangue,
o meu coração exangue
volta a bater com vontade:
e é nas cordas da viola
que a minha vida se enrola
na vida que há na saudade!

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Alfredo Duarte “Marceneiro” (Fado Cravo)
Intérprete: Cristina Nóbrega (ao vivo no Teatro da Luz, Lisboa)
Versão original: Cristina Nóbrega (in CD “Um Fado para Fred Astaire”, Watch & Listen, 2014)

Alfredo Marceneiro
Alfredo Marceneiro

Quando se tem pouca idade

[ A Vida Como Ela É ]

Quando se tem pouca idade
Só se percebe a saudade
Se espreitamos à janela;
E ao vermos a mãe partir
Só pensamos em fugir
P’ra baixo das saias dela.

Saudade é ter que ir p’rá cama
Após vestir o pijama
E sonhar com temporais;
Mas por ter medo do escuro
Ir num passinho inseguro
Dormir p’rá cama dos pais.

É estar com gripe ou anginas,
Encharcado em aspirinas
E saber que os companheiros
Lá foram jogar à bola
No campeonato da escola,
Mas não foram os primeiros.

É o brinquedo estragado,
É o sapato apertado
Que já não cabe no pé;
É tudo o que ao ir embora
Nos obriga a ver agora
A vida como ela é.

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Casimiro Ramos (Fado Três Bairros)
Intérprete: Joana Amendoeira* (in CD “Brincar aos Fados”, Farol Música, 2014)

Saudosos estão os meus olhos

[ Saudade Atrás de Saudade ]

Saudosos estão os meus olhos
do fitar do teu olhar;
Saudosas estão minhas mãos
das tuas mãos afagar.

Saudoso está o meu corpo
do teu corpo me abraçar;
Saudosa está minha voz
de ouvir a tua falar.

Saudade atrás de saudade,
saudade só me ficou
do tempo em que a tua vida
p’la minha vida passou.

Saudade atrás de saudade,
saudade só me ficou
do tempo em que a tua vida
p’la minha vida passou.

Saudoso está meu penar
do tempo em que não penava;
Saudosa está minha boca
da tua quando a beijava.

Saudosa está minha alma
por tua alma não ter;
Saudoso está o meu riso
podia já não saber.

Saudade atrás de saudade,
saudade só me ficou
do tempo em que a tua vida
p’la minha vida passou.

Saudade atrás de saudade,
saudade só me ficou
do tempo em que a tua vida
p’la minha vida passou.

Saudade atrás de saudade,
saudade só me ficou
do tempo em que a tua vida
p’la minha vida passou.

Saudade atrás de saudade,
saudade só me ficou
do tempo em que a tua vida
p’la minha vida passou.

Letra: Dina Carapeto
Música: Jorge Semião
Intérprete: Vá-de-Viró (in CD “Por Aí…”, Música XXI – Associação Cultural, 2013)

Três Paus

Três paus
é só quanto custa um bilhete
para percorrer o velho tapete
daquele cinema
onde passa aquele filme que vimos mil vezes

Três paus
não pagaram o que fizeste
o beijo e a mão que então tu me deste
Foi na sala escura
que acendeste a luz da minha velha prece

Venham, venham ver o maior filme de sempre!
Hoje no Cinema Central
uma história de amor como não há igual.
Ela foge p’ra casar… Ele morre atropelado
O pai desembestado
rouba o neto à sua mãe… e mais não conto!
Só custa três paus!

Três paus
é já quanto custa um sorvete
mais caro que um copo de clarete
servido bem frio
numa tarde longa de um Verão quente

Três paus
eram de morango e folia
gargalhadas do mais doce que havia
soltavam no ar
coisas muito tolas que enchiam os dias

É frut’ó chocolate!
P’ró menino e p’rá menina!
Ó minha senhora, não vai um geladinho?
Refresca até o cabelo, o meu sorvete fresquinho.
Prove lá, avozinha!
Não me diga que não gosta desta categoria?!
Só custa três paus!

Três paus
marcam o sabor de uma vida
que nunca se acaba na despedida
nos anos felizes
da idade nova breve e distraída

Letra: Eugénia Ávila Ramos
Música: Carlos Lopes
Intérprete: Rua da Lua* (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/11/saudade.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-07 06:48:542024-11-13 05:22:28Canções de Saudade
António Variações
Cancioneiro

Canções sobre a vida

Canções sobre a vida

Letras

A contas com o bem

[ Inquietação ]

A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei – ainda

Há sempre qualquer coisa que está p’ra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei – ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não me largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco p’ra chegar
Eu não meti o barco ao mar
P’ra ficar pelo caminho

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei – ainda

Há sempre qualquer coisa que está p’ra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei – ainda

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está p’ra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda!

Letra e música: José Mário Branco
Intérprete: José Mário Branco (in 2LP “Ser Solidário”: LP 2, Edisom, 1982, reed. EMI-VC, 1996, Parlophone/Warner Music Portugal, 2017, 2018)

Amigos cento e dez

[ Os Amigos ]

Amigos cento e dez, ou talvez mais,
Eu já contei. Vaidades que sentia!
Supus que sobre a Terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais.

Amigos cento e dez, tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia,
Que, já farto de os ver, me escapulia
Às suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoeci profundamente.
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.

— Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego, não nos pode ver…
Que cento e nove impávidos marotos!

Um dia adoeci profundamente.
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.

— Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego, não nos pode ver…
Que cento e nove impávidos marotos!

Poema: Camilo Castelo Branco (ligeiramente adaptado)
Intérprete: Afonso Dias (in CD “Geometria do Sul”, Edere, 2002)

De tanta vida que prendo

[ Fado do Cansaço ]

Do Que um Homem É Capaz

Do que um homem é capaz,
As coisas que ele faz
P’ra chegar aonde quer:
É capaz de dar a vida
P’ra levar de vencida
Uma razão de viver.

A vida é como uma estrada
Que vai sendo traçada
Sem nunca arrepiar caminho;
E quem pensa estar parado
Vai no sentido errado
A caminhar sozinho.

Vejo gente cuja vida
Vai sendo consumida
Por miragens de poder.
Agarrados a alguns ossos
No meio dos destroços
Do que nunca vão fazer,

Vão poluindo o percurso
Co’ as sobras do discurso
Que lhes serviu pr’ abrir caminho;
À custa das nossas utopias
Usurpam regalias
P’ra consumir sozinhos.

Com políticas concretas
Impõem essas metas
Que nos entram casa dentro,
Como a Trilateral
Co’ a treta liberal
E as virtudes do centro.

No lugar da consciência
A lei da concorrência
Pisando tudo p’lo caminho;
P’ra castrar a juventude
Mascaram de virtude
O querer vencer sozinho.

Ficam cínicos, brutais
Descendo cada vez mais
P’ra subir cada vez menos:
Quanto mais o mal se expande
Mais acham que ser grande
É lixar os mais pequenos.

Quem escolhe ser assim,
Quando chegar ao fim,
Vai ver que errou o seu caminho:
Quando a vida é hipotecada
No fim não sobra nada
E acaba-se sozinho.

Mesmo sendo os poderosos
Tão fracos e gulosos
Que precisam do poder,
Mesmo havendo tanta gente
P’ra quem é indif’rente
Passar a vida a morrer,

Há princípios e valores,
Há sonhos e há amores
Que sempre irão abrir caminho;
E quem viver abraçado
À vida que há ao lado
Não vai morrer sozinho;
E quem morrer abraçado
À vida que há ao lado
Não vai viver sozinho.

Letra e música: José Mário Branco (para a peça “Gulliver”, adaptada por Hélder Costa do romance “As Viagens de Gulliver”, de Jonathan Swft, levada à cena pelo grupo de teatro “A Barraca” em 1997)
Intérprete: José Mário Branco (in CD “Resistir É Vencer”, José Mário Branco/EMI-VC, 2004, reed. Parlophone/Warner Music Portugal, 2017)

É ou não é

É ou não é
Que o trabalho dignifica
É assim que nos explica
O rifão que nunca falha?
É ou não é
Que disto, toda a verdade,
Que só por dignidade
No mundo, ninguém trabalha!

É ou não é
Que o povo nos diz que não,
Que o nariz não é feição
Seja grande ou delicado?
No meio da cara
Tem por força que se ver,
Mesmo a quem o não meter
Aonde não é chamado!

Digam lá se é assim ou não é?
Ai, não, não é!
Digam lá se é assim ou não é?
Ai, não, não é! Pois é!

É ou não é
Que um velho que à rua saia
Pensa, ao ver a minissaia:
Este mundo está perdido?!
Mas se voltasse
Agora a ser rapazote
Acharia que saiote
É muitíssimo comprido?

É ou não é
Bondosa a humanidade
Todos sabem que a bondade
É que faz ganhar o céu?
Mas a verdade,
Nua sem salamaleque,
Que tive de aprender
É que ai de mim se não for eu!

Digam lá se é assim ou não é?
Ai, não, não é!
Digam lá se é assim ou não é?
Ai, não, não é! Pois é!

Digam lá se é assim ou não é?
Ai, não, não é!
Digam lá se é assim ou não é?
Ai, não, não é! Pois é!

Digam lá se é assim ou não é?
Ai, não, não é!
Digam lá se é assim ou não é?
Ai, não, não é! Pois é!

Letra: Alberto Janes
Intérprete: Mariza

Estrada da vida

Estrada da vida,
Oh estrada do meu destino,
Onde, feito peregrino,
Meu coração se perdeu!
Estrada da vida,
Feita de dor e de esperança,
Quem a subiu não se cansa,
Que o diga quem a desceu.

Estrada da vida,
Longa estrada onde eu sigo,
Sem ter mesmo um braço amigo
Onde me possa apoiar;
Estrada da vida,
Onde os passos mal dados
Ficam p’ra sempre marcados
Como na pele a sangrar.

Volta depressa,
Ó minha esperança perdida!
Um rumo certo na vida
Quero por fim encontrar.

Volta depressa,
Ó minha esperança perdida!
Um rumo certo na vida
Quero por fim encontrar.

Volta depressa,
Ó minha esperança perdida!
Um rumo certo na vida
Quero por fim encontrar.

Letra e música: João Dias Nobre
Intérprete: Ricardo Ribeiro (in CD “Hoje É Assim, Amanhã Não Sei”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2016)
Versão original: Maria José da Guia (in EP “Barro Divino”, Estúdio/Mundusom, 1969?)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Eu nasci lá para os lados do rio

[ A Escola ]

Eu nasci lá para os lados do rio
passava os dias a jogar à bola
mas eu não era excepção
e antes que desse por isso
já estava na escola

O programa elementar
entre o Euclides e o Arquimedes
mas sempre que a informação
dá uma volta no espaço
eu quero sintonizar

A escola ainda não acabou
há sempre tanta matéria a estudar
que eu chego mesmo a ter medo
de em qualquer momento
já não ter lugar
já não ter lugar
para mais conhecimento

Já consigo filosofar
sei uma ou duas palavras em grego
enquanto o tempo deixar
e a escola não se afundar
vou alterando o meu ego

Vou deixando as moscas pairar
vou vendo se o Godot já chegou
e quando me dá na tola
dou um chuto na bola
só p’ra me aliviar

A escola ainda não acabou
há sempre tanta matéria a estudar
que eu chego mesmo a ter medo
de em qualquer momento
já não ter lugar
já não ter lugar
para mais conhecimento

A escola ainda não acabou
há sempre tanta matéria a estudar
que eu chego mesmo a ter medo
de em qualquer momento
já não ter lugar
já não ter lugar
para mais conhecimento
mais conhecimento

Letra e música: Jorge Palma
Intérprete: Jorge Palma (in LP “Bairro do Amor”, Philips/Polygram, 1989, reed. Philips/Polygram, 1998, Universal Music Portugal, 2014, 2015; CD “Dá-me Lume: O Melhor de Jorge Palma”, Mercury/Universal Music Portugal, 2000)

Eu sei

[ O tempo não para ]

Eu sei, que a vida tem pressa
que tudo aconteça,
sem que a gente peça,
Eu sei,
Eu sei, que o tempo não pára,
tempo é coisa rara
e a gente só repara,
quando ele já passou

Não sei, se andei depressa demais
Mas sei que algum sorriso eu perdi
Vou pedir ao tempo,
que me dê mais tempo
para olhar para ti
De agora em diante,
não serei distante
Eu vou estar aqui

Cantei,
cantei a Saudade da minha cidade
e até com vaidade, cantei
Andei, pelo Mundo fora
e não via a hora
de voltar para ti

Não sei, se andei depressa demais
Mas sei que algum sorriso eu perdi
Vou pedir ao tempo,
que me dê mais tempo
para olhar para ti
De agora em diante,
não serei distante
Eu vou estar aqui

Música: Miguel Gameiro
Intérprete: Mariza

Eu tenho o domingo

[ Dia em Dia ]

Eu tenho o domingo
p’ra fechar os olhos
crer na felicidade
crer na felicidade
por dentro de um sonho

Eu tenho a segunda
p’ra saber chegar
sem surpresa aos dias
sem surpresa aos dias
que me hão-de matar

Tenho a terça-feira
p’ra comer as horas
umas depois doutras
umas depois doutras
entre um sim e um não

E na quarta-feira
eu já estou além
olho para trás
olho para trás
entre hoje e ontem

E na quinta-feira
não há mais questões
há só que encontrar
há só que encontrar
boas conclusões

Sexta faço, invento
o fim de uma frase
que de toda a semana
que de toda a semana
justifica o meu tempo

Sábado já sei
não estou só com
meus vagares
pois há sempre dois
nas histórias lunares

Sábado já sei
não estou só com
meus vagares
pois há sempre dois
nas histórias lunares

Poema e música: Amélia Muge (ao Zeca Afonso)
Intérprete: Amélia Muge (in CD “Múgica”, UPAV, 1992)

Hoje, a semente

[ O Melhor de Mim ]

Letra: AC Firmino
Música: Tiago Machado
Intérprete: Mariza

Largar, partir

Largar, partir
Desta terra pardacenta
Desta gente sempre igual
Macambúzia, pachorrenta
Indiferente e desatenta
Deste imenso lamaçal
De chorincas
Eternos sorumbáticos
De sopinhas sem sal
Dengosos e apáticos
Seus choros melismáticos
Lamúrias em caudal
A verter, a verter
Pois chorar é beber!

Largar, partir
Rumo a terras misteriosas
Com segredos sem ter fim
Criaturas majestosas
Outras tantas tenebrosas
Como nunca vi assim
E tesouros
Druidas, feiticeiros
E pós de perlimpimpim
Princesas e arqueiros
Sereias, viageiros
Tudo novo para mim
A encher, a encher
Pois partir é crescer!

Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
A não ser p’ra voltar a partir

Largar, partir
Rumo a terras misteriosas
Com segredos sem ter fim
Criaturas majestosas
Outras tantas tenebrosas
Como nunca vi assim
E tesouros
Druidas, feiticeiros
E pós de perlimpimpim
Princesas e arqueiros
Sereias, viageiros
Tudo novo para mim
A encher, a encher
Pois partir é crescer!

Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
A não ser p’ra voltar a partir

Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
A não ser p’ra voltar a partir

Letra e música: Manuel Maio
Intérprete: A Presença das Formigas (in CD “Pé de Vento”, A Presença das Formigas/Careto/XMusic, 2014)

Gaivotas

Muda de vida

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se a vida em ti a latejar

Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será te ti, ou pensas que tens… que ser assim?

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se a vida em ti a latejar

Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será te ti, ou pensas que tens… que ser assim?

Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se a vida em ti a latejar

Letra e música: António Variações
Intérprete: Manuela Azevedo / Humanos (in CD “Humanos”, EMI-VC, 2004)

Não consigo dominar

[ Estou Além ]

Não consigo dominar
Este estado de ansiedade
A pressa de chegar
P’ra não chegar tarde
Não sei de que é que eu fujo
Será desta solidão
Mas porque é que eu recuso
Quem quer dar-me a mão

Vou continuar a procurar
A quem eu me quero dar
Porque até aqui eu só

Quero quem
Quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi

Esta insatisfação
Não consigo compreender
Sempre esta sensação
Que estou a perder
Tenho pressa de sair
Quero sentir ao chegar
Vontade de partir
P’ra outro lugar

Vou continuar a procurar
O meu mundo, o meu lugar
Porque até aqui eu só

Estou bem
Aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou

Esta insatisfação
Não consigo compreender
Sempre esta sensação
Que estou a perder
Tenho pressa de sair
Quero sentir ao chegar
Vontade de partir
P’ra outro lugar

Vou continuar a procurar
A minha forma, o meu lugar
Porque até aqui eu só

Estou bem
Aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou

Letra e música: António Variações (António Joaquim Rodrigues Ribeiro)
Intérprete: António Variações (in single “Povo Que Lavas no Rio / Estou Além”, EMI-VC, 1982; “Anjo da Guarda”, EMI-VC, 1983, reed. 1998; CD “O Melhor de António Variações”, EMI-VC, 1997)

Rapaz do Bairro da Lata

Nasci no Vale Escuro
Brinquei entre latas
Pulei o alão
Andei à pedrada
Escorreguei do muro
Caí no jará
Ganhei ao pião.
A jogar à bola
Perdi a sacola
Mais o que trazia
A fugir ao guarda
Que nos perseguia.
Mas que bem sabia
Faltarmos à escola!

Já rapaz crescido
Sequer fui ouvido
Só meu pai o quis:
Entrei de aprendiz
Para uma oficina
Minha negra sina
Ofício gritado
Estalo safanão
Era um pau-mandado
Nas mãos do patrão.

Lembrança dos jogos
Que tanto gostava
Deu-me pra pensar
Que jogo era aquele
Que só um jogava?
E no outro dia
Logo que o patrão
Levantou da mão
Para a bofetada
Peguei num martelo
Entrei na jogada.

Mudei de oficina
Subi de aprendiz
Dobrei uma esquina
Minha vida fiz.
Na escola nocturna
Meti-me a estudar
Tenho namorada
Vamos namorar
Tenho amigos certos
Vamos trabalhar
Todos a lutar
Pelas coisas da vida
Que queremos viver!

Poema: Manuel da Fonseca (De “Poemas Inéditos”, in “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 5.ª edição, Lisboa: Forja, 1975 – p. 171-172)
Música: Paulo Ribeiro
Intérprete: Paulo Ribeiro com Tim (in CD “O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis”, Açor/Emiliano Toste, 2017)

Manuel da Fonseca

Manuel da Fonseca

Não tenhas medo do escuro

Não tenhas medo do escuro
Mesmo que seja tão duro
Ter à frente a noite inteira;
Vou cantar para tu dormires
E até tu conseguires
Fico à tua cabeceira.

Para que fiques descansada
E não durmas assustada
Vou deixar a luz acesa;
Assim podes ter certeza
Que não há sombra malvada
Que te apanhe de surpresa.

Não fiques assim de cara triste!
O que dói nunca resiste até mais não
E nada cai mais fundo do que o chão.

Tristeza não é feitio
E o calor depois do frio
É tão certo como o Verão;
Por maior que seja a ferida
Tu vais ver que tem saída
Essa dor no coração.

Mesmo que tudo pareça
Não ter pés nem ter cabeça,
Mete fé no que eu te juro;
Eu vou estar aqui por perto
E não há nada mais certo
Que a manhã depois do escuro.

Não fiques assim de cara triste!
O que dói nunca resiste até mais não
E nada cai mais fundo do que o chão.

Não fiques assim de cara triste!
O que dói nunca resiste até mais não
E nada cai mais fundo do que o chão.

E nada cai mais fundo do que o chão.

Letra: José Fialho Gouveia
Música: Rogério Charraz
Arranjo: Rogério Charraz, Paulo Loureiro e Jaume Pradas
Intérprete: Rogério Charraz (in CD “Não Tenhas Medo do Escuro”, Rogério Charraz/Compact Records, 2016)

Largar, partir

Largar, partir
Desta terra pardacenta
Desta gente sempre igual
Macambúzia, pachorrenta
Indiferente e desatenta
Deste imenso lamaçal
De chorincas
Eternos sorumbáticos
De sopinhas sem sal
Dengosos e apáticos
Seus choros melismáticos
Lamúrias em caudal
A verter, a verter
Pois chorar é beber!

Largar, partir
Rumo a terras misteriosas
Com segredos sem ter fim
Criaturas majestosas
Outras tantas tenebrosas
Como nunca vi assim
E tesouros
Druidas, feiticeiros
E pós de perlimpimpim
Princesas e arqueiros
Sereias, viageiros
Tudo novo para mim
A encher, a encher
Pois partir é crescer!

Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
A não ser p’ra voltar a partir

Largar, partir
Rumo a terras misteriosas
Com segredos sem ter fim
Criaturas majestosas
Outras tantas tenebrosas
Como nunca vi assim
E tesouros
Druidas, feiticeiros
E pós de perlimpimpim
Princesas e arqueiros
Sereias, viageiros
Tudo novo para mim
A encher, a encher
Pois partir é crescer!

Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
A não ser p’ra voltar a partir

Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
A não ser p’ra voltar a partir

Letra e música: Manuel Maio
Intérprete: A Presença das Formigas (in CD “Pé de Vento”, A Presença das Formigas/Careto/XMusic, 2014)

O dia não te correu bem

[ A Mesma Camisola ]

O dia não te correu bem e não gostas do que fazes
E agora só pedes um pouco de atenção
Diz tudo para fora, estou pronto para ouvir
Diz-me algo que não saiba e que te dê a razão
Vais ter de mim um ar de sério compreensivo
Num abraço convincente, como se fosse um irmão
Diz agora o que te vai na mente e no que puder ajudar
Tens aqui um amigo com quem… com quem podes contar
No fundo, na frente, na mesma camisola,
A frio, a quente com a cara para dar
No bom, no mau, no que importa realmente
Levo a tua bandeira, onde consiga chegar

O dia não te correu bem e não gostas do que fazes
Não é culpa de ninguém e podes sempre mudar
Procura no que sabes um caminho para andar
Trata a vida sempre bem, que ela bem te vai tratar
Põe amor no teu caminho e a verdade ao de cima
Nunca ficarás sozinho e podes ajudar também
Se alguém no teu presente possa a vir necessitar
Faz de ti um amigo com quem… com quem se possa contar
No fundo, na frente, na mesma camisola,
A frio, a quente com a cara para dar
No bom, no mau, no que importa realmente
Levo a tua bandeira, onde consiga chegar

No fundo, na frente, na mesma camisola,
A frio, a quente e com a cara para dar
No bom, no mau, no que importa realmente
Levo a tua bandeira, onde consiga chegar

No fundo, na frente, na mesma camisola,
A frio, a quente e com a cara para dar
No bom, no mau, no que importa realmente
Levo a tua bandeira…

Letra e música: Luís Pucarinho
Intérprete: Luís Pucarinho com Jorge Benvinda (in CD “Orgânica Mente Humana”, Caracol Secreto Associação/Alain Vachier Music Editions, 2015)

O que é a vida?

[ Fala do Índio ]

O que é a vida? É o brilho.
O que é a vida? É a noite.
É o sopro do bisonte
no inverno, no inverno.

É sombra que corre na erva
e se perde ao fim do dia.
As cinzas dos antepassados
são p’ra nós sagradas
e quando os bosques sussurram
não sentimos medo,
e quando os bosques sussurram
não sentimos medo.

O que é a vida? É o brilho.
O que é a vida? É a noite.
É o sopro do bisonte
no inverno, no inverno.

É sombra que corre na erva
e se perde ao fim do dia.
As cinzas dos antepassados
são p’ra nós sagradas
e quando os bosques sussurram
não sentimos medo,
e quando os bosques sussurram
não sentimos medo.

O que é a vida?

O que é a vida? É o brilho.
O que é a vida? É a noite.
É o sopro do bisonte
no inverno, no inverno.

O que é a vida?
O que é a vida?

O que é a vida?

Letra e música: João Afonso Lima
Intérprete: João Afonso (in CD “Missangas”, Mercury/Polygram, 1997, reed. Universal Music, 2017)

João Afonso, Missangas

João Afonso, Missanga

Que do céu tombassem violinos

[ Epitáfio ]

Que do céu tombassem violinos
Decidindo por nós, gente maior,
Na forma, no projecto e na ideia,
No fazer sempre mais, sempre melhor!

Que o povo alcançasse em sentimento
Sempre a classe mais alta do poema
E a vida fosse mais que este momento
Entre farrapos de nada e alfazema!

Que a vida fosse alma e fosse vinho,
Fosse vento nas searas ondulantes
E orgasmos de prazer e rosmaninho
E luxo e sonho e fúria a cada instante!

E oceanos de espuma nos levassem
Cavalgando o desespero de partir!
E tudo fosse simples e elevado
Como um prado orvalhado no sentir!

De tudo, tanto que eu acreditei
Tantos anos de espera convertida,
Sobra um sabor de que nada aconteceu
Pelas regras que devia haver na vida.

Por isso, um dia, parto, assim, sem despedida
Entre memórias e cantos partilhados.
E este excesso fabuloso sem ter fim
Vai comigo, fiquem, disso, descansados.

Sobrará de mim, talvez, fraca memória,
Esta luxúria da vida, alguns recados,
Este modo amordaçado de sorrir
E uma montanha de amores nunca alcançados.

Espantosamente, como é qu’inda deixo sonhos?
Mais que o dobro dos feitos consumados!
Só não deixo meias-tintas nem favores,
Nem regras, nem peias, nem pudores.

Deixo excessos, truculências e humores.
Mas virtudes?! Nem pensar! Tudo pecados!

Espantosamente, como é qu’inda deixo sonhos?
Mais que o dobro dos feitos consumados!
Só não deixo meias-tintas nem favores,
Nem regras, nem peias, nem pudores.

Deixo excessos, truculências e humores.
Mas virtudes?! Nem pensar! Tudo pecados!

Poema e música: Pedro Barroso
Intérprete: Pedro Barroso* (in CD “Palavras ao Vento”, Ovação, 2014)

Pedro Barroso
Pedro Barroso
https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/11/antonio-variacoes.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-07 06:45:052025-06-24 18:33:45Canções sobre a vida
Beethoven
Cancioneiro

Canções aos clássicos

Canções aos clássicos

Letras

Quando me lembro

[ A Minha Quinta Sinfonia ]

Quando me lembro quem eras
Desse corpo que foi nosso
Desse amor que não deu certo
Era o tempo das quimeras
Das palavras em silêncio
Quando o mais longe era perto

Tinhas nos olhos a esperança
Os desejos de aventura
As ilusões que eram minhas
Nos momentos de ternura
Tinhas nos seios a graça
Das Primaveras que tinhas

E foste a música que em mim ficou
Quando a distância nos fez separar
Ando louco para te encontrar

Foste a Quinta Sinfonia
Fuga da nossa verdade
Sonata tocada em mim
Foste o meu sol afinado
Neste samba de saudade
Vinicius, Nara e Jobim

Foste verso de balada
Foste pintura abstracta
Meu Bolero de Ravel
Foste música sonhada
Numa canção de Sinatra
Com um poema de Brel

E foste a música que em mim ficou
Quando a distância nos fez separar
Ando louco para te encontrar

Foste estrela de cinema
Minha Dama de Xangai
Hiroxima, Meu Amor
A minha Grande Ilusão
Eras Fúria de Viver
Quanto Mais Quente Melhor

Grande Amor da Minha Vida
Senso, Silêncio e Paixão
Buñuel, Fellini e Truffaut
Foste Luzes da Ribalta
Música no Coração
E Tudo o Vento Levou

E és ainda o que me faz sentir
Dentro da vida para te cantar
Ando louco para te encontrar
Para te encontrar

Letra: Pedro Bandeira Freire
Música: Paco Bandeira (Francisco Veredas Bandeira)
Intérprete: Paco Bandeira (in “Com Sequências”, Discossete, 1987; CD “Paco Bandeira: O Melhor dos Melhores”, vol. 50, Movieplay, 1994; CD “Uma Vida de Canções”, Farol, 2006)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Quanto caminho andado

[ Adágio ]

Quanto caminho andado
desde o primeiro poema
ai quanto amor amassado
com mãos de alegria e pena
ai quanto caminho andado
serena.

Quanto verso ensanguentado
quanta distância de mim
quanto amor desesperado
quanto secreto jardim
ai quanto caminho errado
sem fim.

Morro por ti mas tu não vens
dentro de mim te chamo
mas tu não estás
mas tu não vês
o que arranquei de mim
meu amor tu não és
quem amo.

Ai quanto caminho andado
sozinha dentro de mim
ai quanto caminho errado
sem fim.
Canto por ti mas tu não és
dentro de mim te choro
mas tu não estás
mas tu não vês
já te arranquei de mim
é só por te não ter
que eu morro.

Poema: José Carlos Ary dos Santos
Música: Tomaso Albinoni
Intérprete: Teresa Silva Carvalho (in CD “Canções Gratas”, Strauss, 1994)

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/11/beethoven-em-1823-ferdinand-georg-waldmuller.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-07 06:41:492024-11-13 11:18:22Canções aos clássicos
Contradições
Cancioneiro

Canções de contrários

Canções de contrários

Letras

A chuva choveu

[ Chuva de Paus ]

A chuva choveu num dia de sol
Um peixe cresceu em cima do anzol
Tenho dois corações para gostar melhor
Um bate cá dentro, o outro não tem lugar

Um rio balançou p’ra trás e p’rá frente
Tenho duas bocas p’ra cantar diferente
Uma tem tristeza e cheiro a manjerico
Quando a outra cant’a esta dá lhe o fanico

Chuva de Paus, Castelo de Areia
Grão-de-Bico é bom à sombra da bananeira
Tenho sete vidas e uma epifania
Sou gata, estou viva no reino de hoj’em dia

Chuva de Paus, Castelo de Areia
Grão-de-Bico é bom à sombra da bananeira
Tenho sete vidas e uma epifania
Sou gata, estou viva no reino de hoj’em dia

Letra: Miguel Cardina
Música: Pedro Damasceno
Arranjo: Diabo a Sete
Intérprete: Diabo a Sete (in CD “tarAra”, atrasdosbarrocos.com, 2011)

Alguém a ganhar

[ O Beijo da Medusa ]

Alguém a ganhar
Alguém a perder
Alguém a lucrar
Alguém a morrer
Nestas areias movediças
De ganâncias, de cobiças
Um sinistro ritual
Terra prometida
Prometida a quem?
Terra proibida
Terra de ninguém
É uma nova Babilónia
Por dentro da nossa insónia
Uma louca espiral
Pode ser fatal a voz da tua musa
Muito cuidado com o beijo da medusa
Pode ser fatal a voz da tua musa
Muito cuidado com o beijo da medusa
O ovo da serpente, a dança guerreira
Vê lá, não deites gasolina na fogueira
E pode ser fatal a voz da tua musa
Muito cuidado com o beijo da medusa
Salta, soldadinho
Da tua trincheira
Salta, soldadinho
Desta bandalheira
Será que a vida continua?
Esta guerra não é tua
Quem te quer endrominar?

Alguém a ganhar
Alguém a perder
Alguém a lucrar
Alguém a morrer
Sorte caipora
Já abriram a boceta de Pandora
Quem nos quer envenenar?

Pode ser fatal a voz da tua musa
Muito cuidado com o beijo da medusa
Pode ser fatal a voz da tua musa
Muito cuidado com o beijo da medusa
O ovo da serpente, a dança guerreira
Vê lá, não deites gasolina na fogueira
E pode ser fatal a voz da tua musa
Muito cuidado com o beijo da medusa
Gregos e troianos
Abutres e falcões
Há tantos enganos
Nas vossas missões
Rio de raiva e de veneno
Sanguinário, tão obsceno
Um pesadelo que não tem fim
Uivo de chacais
Voz que se apagou
Em lutas tribais
Pranto que secou
Vou questionar a tua sentença, a tua lei
Pois já nem sei
Se foi Abel que matou Caim

Letra e música: José Medeiros
Arranjo: Paulo Borges
Intérprete: José Medeiros (in Livro/2CD “Fados, Fantasmas e Folias”: CD 1, Algarpalcos, 2010)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Anda cá

[ Tempos Anormais ]

Anda cá, se queres ver
As coisas que eu vi:
Um pato a endoidecer,
Outro a sorrir.

Anda cá, nem podes crer
Coisas de contar:
Uma centelha a chover,
Outra a congelar.

Anda cá, se queres ver
As coisas que eu vi:
Gente cansada a lançar
Pragas contra si.

Andam no ar vibrações,
Tempos anormais,
Gente que pede aflições
A quem lhas der mais.

Anda cá, se queres ver
As coisas que eu vi:
Um pato a endoidecer,
Outro a sorrir.

Anda cá, nem podes crer
Coisas de contar:
Uma centelha a chover,
Outra a congelar.

Anda cá, se queres ver
As coisas que eu vi:
Gente cansada a lançar
Pragas contra si.

Andam no ar vibrações,
Tempos anormais,
Gente que pede aflições
A quem lhas der mais.

Letra: Miguel Cardina
Música: Pedro Damasceno, Julieta Silva e Celso Bento
Intérprete: Diabo a Sete (in CD “Figura de Gente”, Sons Vadios, 2016)

A Verdade da Mentira

Coisas que o Mundo não me quer contar
Ou eu não sei entender;
Coisas que a vida me quer ensinar
E eu não quero aprender.

Será que os rios
Sabem o caminho do mar
P’ra lá chegar?
Ou alguém lhes vem mostrar?…

Se eu te contar a verdade
Sem te dizer quase nada,
Tu vais dizer com vontade
Que eu escondo a verdade calada.

Mas, se eu te contar a verdade
E te disser que é mentira,
Tu vais dizer com vontade
Que até a verdade se vira.

Por trás do muro há uma voz a falar,
Deste lado nada se vê;
Dizem-me sempre par’acreditar
Mas não me dizem em quê.

Tantas palavras cruzadas perdidas p’lo ar
E eu a pensar…
Como as hei-de eu arrumar?

Se eu te contar a verdade
Sem te dizer quase nada,
Tu vais dizer com vontade
Que eu escondo a verdade calada.

Mas, se eu te contar a verdade
E te disser que é mentira,
Tu vais dizer com vontade
Que até a verdade se vira.

Se eu te contar a verdade
Sem te dizer quase nada,
Tu vais dizer com vontade
Que eu escondo a verdade calada.

Mas, se eu te contar a verdade
E te disser que é mentira,
Tu vais dizer com vontade
Que até a verdade se vira.

Se eu te contar a verdade
Sem te dizer quase nada,
Tu vais dizer com vontade
Que eu escondo a verdade calada.

Mas, se eu te contar a verdade
E te disser que é mentira,
Tu vais dizer com vontade
Que até a verdade se vira.

Letra: Sebastião Antunes
Música: Paulo Loureiro
Arranjo: Paulo Loureiro e José Salgueiro
Intérprete: Ana Laíns (in CD “Portucalis”, Ana Laíns/Seven Muses, 2017)

Coisas que o mundo

[ A Verdade da Mentira ]

Coisas que o Mundo não me quer contar
Ou eu não sei entender;
Coisas que a vida me quer ensinar
E eu não quero aprender.

Será que os rios
Sabem o caminho do mar
P’ra lá chegar?
Ou alguém lhes vem mostrar?…

Se eu te contar a verdade
Sem te dizer quase nada,
Tu vais dizer com vontade
Que eu escondo a verdade calada.

Mas, se eu te contar a verdade
E te disser que é mentira,
Tu vais dizer com vontade
Que até a verdade se vira.

Por trás do muro há uma voz a falar,
Deste lado nada se vê;
Dizem-me sempre par’acreditar
Mas não me dizem em quê.

Tantas palavras cruzadas perdidas p’lo ar
E eu a pensar…
Como as hei-de eu arrumar?

Se eu te contar a verdade
Sem te dizer quase nada,
Tu vais dizer com vontade
Que eu escondo a verdade calada.

Mas, se eu te contar a verdade
E te disser que é mentira,
Tu vais dizer com vontade
Que até a verdade se vira.

Se eu te contar a verdade
Sem te dizer quase nada,
Tu vais dizer com vontade
Que eu escondo a verdade calada.

Mas, se eu te contar a verdade
E te disser que é mentira,
Tu vais dizer com vontade
Que até a verdade se vira.

Se eu te contar a verdade
Sem te dizer quase nada,
Tu vais dizer com vontade
Que eu escondo a verdade calada.

Mas, se eu te contar a verdade
E te disser que é mentira,
Tu vais dizer com vontade
Que até a verdade se vira.

Letra: Sebastião Antunes
Música: Paulo Loureiro
Arranjo: Paulo Loureiro e José Salgueiro
Intérprete: Ana Laíns (in CD “Portucalis”, Ana Laíns/Seven Muses, 2017)

Ana Laíns
Ana Laíns

Sou Dual

Eu quero andar sem pés no chão,
Talvez sim, talvez não…
Ser uma conta certa e errada,
Ser tudo, ser nada.

Escrever sem nada p’ra dizer
E falar só por querer;
Num contra-senso todo imenso
Sou eu, quando penso.

Certeza inquieta, que aperta,
Que oprime e liberta,
Que às vezes acerta:
Sou dual.

Puxar meu barco pela areia,
Volta e meia, desistir;
Dar-me a quem me quer ver feia,
E de quem me vê, fugir.

Senhora dos meus devaneios,
Imperfeita perfeição,
Carrego mil e um anseios
No peito e nas mãos.

Certeza inquieta, que aperta,
Que oprime e liberta,
Que às vezes acerta:
Sou dual.

Certeza inquieta, que aperta,
Que oprime e liberta,
Que às vezes acerta:
Sou dual.

Letra: Ana Laíns e Mafalda Arnauth
Música: Ivan Lins
Arranjo: Paulo Loureiro e Ana Laíns
Intérprete: Ana Laíns com Ivan Lins (in CD “Portucalis”, Ana Laíns/Seven Muses, 2017)

Ana Laíns, Portucalis

Ana Laíns, Portucalis

Tubarão tinha dentes de rainha

[ Tamboril ]

Tubarão tinha dentes de tainha
E a tainha tinha dentes de tambor
Toca traz tempo chuva tempestade
Tubarão trincou um touro nos taleigos da vontade

Tubarão tinha o tímpano trocado
E trocado (es)tava o tempo todo o ano
Toca traz tempo chuva tempestade
Tubarão tamborilou ‘inda a missa ia a metade

Tubarão traficou-se em tamboril
Troca-tintas com retoque teatral
Toca terça, quarta, quinta, noite e dia
Travestido no Entrudo c’uma tromba de enguia

Tamboril teve tísica ao contrário
Já tossia como tosse o tubarão
Toca terça, quarta, quinta, noite e dia
Tamboril entubarou num atalho p’rá Turquia

Tubarão tinha dentes de tainha
E a tainha tinha dentes de tambor
Toca traz tempo chuva tempestade
Tubarão trincou um touro nos taleigos da vontade

Tubarão tinha o tímpano trocado
E trocado (es)tava o tempo todo o ano
Toca traz tempo chuva tempestade
Tubarão tamborilou ‘inda a missa ia a metade

Tubarão traficou-se em tamboril
Troca-tintas com retoque teatral
Toca terça, quarta, quinta, noite e dia
Travestido no Entrudo c’uma tromba de enguia

Tamboril teve tísica ao contrário
Já tossia como tosse o tubarão
Toca terça, quarta, quinta, noite e dia
Tamboril entubarou num atalho p’rá Turquia

Letra: Miguel Cardina
Música e arranjo: Diabo a Sete
Intérprete: Diabo a Sete

Com um olhar de soslaio

[ Prosas Mordazes ]

Com um olhar de soslaio, não me vêem como eu sou
Atracados na memória, com quem ando e onde vou

E falam sobre mim, sem me conhecer
Dizem que é assim, não têm o que dizer
Não têm o que dizer, não têm o que dizer

Não sabem da minha vida, quem morreu e quem ficou
São nuances que descuram, que ninguém lhes segredou

E falam sobre mim, sem me conhecer
Dizem que é assim, nem sei que lhes dizer
Nem sei que lhes dizer, nem sei que lhes dizer

Entre dentes especulam, onde vou e o que faço
Não passam de vis criaturas a quem nego o meu enlaço

E falam sobre mim, sem me conhecer
Dizem que é assim, nunca hão-de saber
Nunca hão-de saber, nunca hão-de saber

E falam sobre mim, sem me conhecer
Dizem que é assim, não têm o que dizer
Falam sobre mim, sem me conhecer
Dizem que é assim, nem sei que lhes dizer
Falam sobre mim, sem me conhecer
Dizem que é assim, nunca hão-de saber
Nunca hão-de saber, nunca hão-de saber

Letra e música: Miguel Moita Fernandes
Arranjo: Lacre
Intérprete: Lacre
Versão original: Lacre (in CD “Opus 0”, Lacre/Tradisom, 2013)

Como diferem das minhas

[ Minhas Penas ]

Como diferem das minhas
As penas das avezinhas
Que de leves leva o ar
Só as minhas pesam tanto
Que às vezes nem já o pranto
Lhes alivia o pesar

As minhas penas não caem
Nem voam nunca, nem saem
Comigo desta amargura
Mostram apenas na vida
A estrada já conhecida
Trilhada pelos sem ventura

Passam dias, passam meses
Passam anos, muitas vezes
Sem que uma pena se vá
E se uma vem, mais pequena
Ai, depois nem vale a pena
Porque mais penas me dá

Que felizes são as aves
Como são leves, suaves,
As penas que Deus lhes deu
Só as minhas pesam tanto
Ai, se tu soubesses quanto…
Sabe-o Deus e sei-o eu

Só as minhas pesam tanto
Ai, se tu soubesses quanto…
Sabe-o Deus e sei-o eu

Letra: Fernando Caldeira
Música: Carlos da Maia
Intérprete: Maria Teresa de Noronha (in CD “O Melhor de Maria Teresa de Noronha”, EMI-VC, 1992)

Num dia sou quem me encontro

[ Caminho Certo ]

Num dia sou quem me encontro,
Num outro dia me perco
Na vida que conto
Tão longe e tão perto.
Será o caminho certo?

Vem de tão longe este espanto
Tão inquieto, tão perfeito
De tudo o que tenho de incerto.
Saudade,
Que é feito
Do caminho certo?

Faço o que tenho a fazer,
Longe daqui é mais perto.
Quem vai dizer?
Como saber
Qual o caminho certo?

Haja um dia que se encontre
Sem saber ao que virá,
Se fica p’ra lá do deserto.
Saudade,
Eu sei lá
Se é o caminho certo!

Vem de tão longe este espanto
Tão inquieto, tão perfeito
De tudo o que tenho de incerto.
Saudade,
Que é feito
Do caminho certo?

Letra: Viriato Teles
Música: Ricardo Fino
Arranjo: Quiné Teles
Intérprete: Ela Vaz (in CD “Eu”, Micaela Vaz, 2017)

Só por existir

Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar

Só por ter dois sóis
Só por hesitar
Fiz a cama na encruzilhada
E chamei casa a esse lugar

E anda sempre alguém por lá
Junto à tempestade
Onde os pés não têm chão
E as mãos perdem a razão

Só por inventar
Só por destruir
Tenho as chaves do céu e do inferno
E deixo o tempo decidir

E anda sempre alguém por lá
Junto à tempestade
Onde os pés não têm chão
E as mãos perdem a razão

Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar
Eu sei que nenhuma vai ganhar

Letra e música: Jorge Palma
Intérprete: Jorge Palma (in “Bairro do Amor”, Polygram, 1989)

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/11/sol-e-chuva.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-07 06:38:192024-11-13 11:18:32Canções de contrários
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