O poemário do cancioneiro português (incluindo fado, música tradicional e ligeira) pretende fomentar o gosto da poesia como parceira da música e a divulgação dos poetas cuja importância nem sempre é justamente reconhecida.

fadista Helena Sarmento

A lonjura é um degredo

[ Lonjura ]

A lonjura é um degredo
Sem grades para assaltar;
Sem olhos, sem mãos, segredo,
Boca calada de amar.

É mar que afunda a fragata,
É cotovia sem voz;
É um orvalho sem prata
Letra sem rosto, sem foz.

É lágrima, é destempero,
É tabuada aldrabada;
Diário do desespero,
Diário branco, sem nada.

Um chapéu cheio de traça,
A sina contada à toa;
A lonjura é uma desgraça,
Não há dor que tanto doa.

Letra: Joaquim Sarmento
Música: João Black (Fado Menor do Porto)
Intérprete: Helena Sarmento*
Versão original: Helena Sarmento (in CD “Lonjura”, Helena Sarmento, 2018)

A minha alma está doente

[ Confirmação ]

A minha alma está doente,
Quiseram em vão curá-la
E quantos ingenuamente
Tentaram amortalhá-la!

Fizeram cerco e, no meio
De toda aquela muralha,
Eu (que sofria!) cantava…
Não me servira a mortalha!

E à medida que o segredo
Vinha em meus lábios poisar-se, |
Embriagado, eu cantava…
Não me servira o disfarce!

Mas, por fim, vendo, talvez,
Que nenhum remédio havia
Deram à minha surdez
O nome de poesia…

Poema: Pedro Homem de Mello (ligeiramente adaptado)
Música: Renato Varela (Fado Meia-Noite)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP “Fado e Folclore”, RCA Victor, 1970)

* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de António Luís Gomes

CONFIRMAÇÃO

(Pedro Homem de Mello, in “Eu Hei-de Voltar um Dia”, Lisboa: Edições Ática, 1966, reimp. 1999 – p. 63)

A minha alma está doente,
Quiseram em vão curá-la
E quantos ingenuamente
Tentaram amortalhá-la!
Formaram cerco e, no meio
De toda aquela muralha,
Eu (que sofria!) cantava…
Não me servira a mortalha!
E à medida que o segredo
Vinha em meus lábios poisar-se,
Embriagado, eu cantava…
Não me servira o disfarce!
Mas, por fim, vendo, talvez,
Que nenhum remédio havia
Deram à minha surdez
O nome de poesia…

À rapariga mais nova

[ Testamento ]

À rapariga mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo meus brincos lavrados
Em cristal límpido e puro.

E àquela virgem esquecida,
Sonhando alto uma lenda,
Deixo o meu vestido branco
Todo tecido de renda.

E este meu rosário antigo,
De contas da cor dos céus,
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus.

E os livros, rosários meus
Das contas d’outro sofrer,
São para os homens humildes
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
Esses que são só de dor,
E aqueles que são de esperança
São para ti, meu amor.

P’ra que tu possas, um dia,
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua.

Poema: Alda Lara (adaptado)
Música: Popular (Fado Menor)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in EP “O Riso Que me Deste”, RCA Victor, 1967; LP “Os Melhores Fados de Tereza Tarouca”, RCA Camden, 1978; 2LP “Álbum de Recordações”: LP 1, Polydor/PolyGram, 1985; CD “Temas de Ouro da Música Portuguesa”, Polydor/PolyGram, 1992; CD “Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006; CD “Tereza Tarouca”, col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)

  • Tereza Tarouca – voz
    Conjunto de Guitarras de Raul Nery

TESTAMENTO

(Alda Lara, in “Poemas”, Sá da Bandeira, Angola: Imbondeiro, 1966, reed. Braga: APPACDM, 1997, 2005)

À prostituta mais nova
do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro…
E àquela virgem esquecida,
rapariga sem ternura
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda…
Este meu rosário antigo
ofereço-o àquele amigo
que não acredita em Deus…
E os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes
que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada…
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu amor…
Para que, na paz da hora,
em que a minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,
vás por essa noite fora,
com passos feitos de lua,
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua…

Anda Comigo, Vou Falar de Esperança

Anda comigo, vou falar de esperança
da vida que ainda agora principia
Perde essa amarga e vã desconfiança
toma a minha mão de amigo – e confia

Anda comigo, eu canto as tuas dores
sou mais poeta sendo teu irmão
Nesta densa floresta sem flores
o sangue e a alma são o mesmo pão

Anda comigo, além na clareira
há uma fonte para matar a sede
A água é pura, livre, não se mede
e corre simples para quem a queira

Anda comigo, vou falar de esperança
Anda comigo fazer a sementeira

Poema: João Apolinário
Música: Manuel Lima Brummon
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP “Portugal Triste”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD “Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006; CD “Tereza Tarouca”, col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)

* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de António Chainho
Produção – António Chainho
Gravado nos Estúdios da Rádio Triunfo, Lisboa
Técnicos de som – Luís Alcobia e Rui Novais

Caía a tarde

[ O Bêbado e a Equilibrista ]

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto me lembrou Carlitos
A lua, tal qual a dona de um bordel,
Pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel
E nuvens, lá no mata-borrão do céu,
Chupavam manchas torturadas, que sufoco!
Louco, um bêbado com chapéu-côco
Fazia irreverências mil p’rá noite do Brasil, meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu num rabo-de-foguete
Chora a nossa pátria, mãe gentil
Choram Marias e Clarices no solo do Brasil
Mas sei que uma dor assim pungente
Não há-de ser inutilmente a esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo o artista tem que continuar

* Helena Sarmento – voz
Samuel Cabral – guitarra portuguesa
André Teixeira – viola de fado
Sérgio Marques (Ginho) – baixo

Letra: Aldir Blanc
Música: João Bosco (a partir da música “Smile”, de Charles Chaplin, composta para a banda sonora do filme “Tempos Modernos”, 1936)
Intérprete: Helena Sarmento*
Versão original: Helena Sarmento (in CD “Lonjura”, Helena Sarmento, 2018)
Versão original: João Bosco (in LP “Linha de Passe”, RCA Victor, 1979, reed. RCA, 2004)
Outra versão: Elis Regina (in LP “Elis, Essa Mulher”, Warner Bros. Records, 1979, reed. Warner Music Brasil/WEA Music, 1989)

Ciganos

Ciganos! Vou cantar, não a beleza
Dos vossos corações que não conheço.
Mas esse busto de medalha e preço
Que nem é carne vã, nem alma acesa!

Saúdo em vós o corpo, unicamente,
Desumano e cruel como uma chama!
Em vós, saúdo a graça omnipotente
Do lírio que ainda flor por entre a lama.

A vossa vida não pertence ao rei.
Não mutilaste estradas verdadeiras.
Quem ama a liberdade odeia a lei
Que deu à terra a foice das fronteiras.

E, enquanto o aroma e a brisa e até as almas
Ficam irmãs das pérolas roubadas,
As mãos dos homens que vos são negadas
Tremem quando passais. Mas batem palmas.

As mãos dos homens que vos são negadas
Tremem quando passais. Mas batem palmas.

Poema: Pedro Homem de Mello (excerto adaptado)
Música: José Belo Marques (Fado Fora d’Horas)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP “Tereza Tarouca Canta Pedro Homem de Mello”, Edisom, 1989; CD “Teresa Tarouca”, col. Clássicos da Renascença, vol. 15, Movieplay, 2000; CD “Tereza Tarouca”, col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)

  • Tereza Tarouca – voz
    José Luís Nobre Costa e Pedro Veiga – guitarras portuguesas
    Segismundo Bragança e Jaime Santos Júnior – violas
    Joel Pina – viola baixo
    Produção – Manuel Lima Brummon

CIGANOS

(Pedro Homem de Mello, in “Miserere”, Porto, 1948; “Poesias Escolhidas”, col. Biblioteca de Autores Portugueses, Lisboa: IN-CM, 1983 – p. 110)

Ciganos! Vou cantar, não a beleza
Dos vossos corações que não conheço.
Mas esse busto de medalha e preço
Que nem é carne vã, nem alma acesa!
Saúdo em vós o corpo, unicamente,
Desumano e cruel como o dum bicho!
Em vós, saúdo a graça omnipotente
Do lírio que ainda flor por entre o lixo.
Eu vos saúdo, pela poesia,
Que nasceu pura e não se acaba mais.
E pelo ritmo ardente que inebria
Meus olhos como fios que enlaçais!
A vossa vida não pertence ao rei.
Não mutilaste estradas verdadeiras.
Quem ama a liberdade odeia a lei
Que deu à terra a foice das fronteiras.
E, enquanto o aroma e a brisa e até as almas
Ficam irmãs das pérolas roubadas,
As mãos dos homens que vos são negadas
Tremem quando passais. Mas batem palmas.

Era um Redondo Vocábulo

Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar
Nos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio
Convocando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincavam e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa…

Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar
Nos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio
Convocando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincavam e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa…

Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Nos degraus de Laura
No quarto das danças

Letra e música: José Afonso
Intérprete: Helena Sarmento*
Versão original: Helena Sarmento (in CD “Lonjura”, Helena Sarmento, 2018)

Éramos três

[ A Rapariga das Violetas ]

Éramos três quando passou por nós
quando passou por nós
com o cesto das violetas.
Disse a primeira: como vai cansada,
e descalça, coitada, coitada!
Disse a outra: tão suja e desgrenhada,
olhem os pés sem cor, as unhas pretas!

Eu, a terceira… eu não disse nada,
não disse nada, não disse nada.
… Que lindas as violetas!

Poema: Fernanda de Castro (adaptado)
Música: Manuel Lima Brummon
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP “Portugal Triste”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD “Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006)

* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de António Chainho
Produção – António Chainho
Gravado nos Estúdios da Rádio Triunfo, Lisboa
Técnicos de som – Luís Alcobia e Rui Novais

A RAPARIGA DAS VIOLETAS

(Fernanda de Castro, in “Exílio”, Lisboa: Livraria Bertrand, 1952 – p. 93)

Éramos três quando passou por nós
com o cesto das violetas.
Disse a primeira: como vai cansada,
e descalça, coitada!
Disse a outra: tão suja e desgrenhada,
olhem os pés sem cor, as unhas pretas!

Eu, a terceira… eu não disse nada.
… Que lindas as violetas!

Fado

Ao passar pelo ribeiro
Onde, às vezes, me debruço,
Fitou-me alguém. Corpo inteiro,
Curvado com um soluço!

Que palidez nesse rosto
Sob o lençol do Luar!
Tal e qual quem, ao Sol-Posto,
Estivera a agonizar…

E aquelas pupilas baças
Acaso seriam minhas?
Meu amor, quando me enlaças,
Porventura as adivinhas?

Deram-me, então, por conselho,
Tirar de mim o sentido.
Mas, depois, vendo-me ao espelho,
Cuidei que tinha morrido!

Poema: Pedro Homem de Mello (ligeiramente adaptado)
Música: José Marques do Amaral (Fado José Marques do Amaral)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP “Fado e Folclore”, RCA Victor, 1970)

  • Tereza Tarouca – voz
    Conjunto de Guitarras de António Luís Gomes

FADO

(Pedro Homem de Mello, in “As Perguntas Indiscretas”, Porto: Editorial Domingos Barreira, 1968; “Poesias Escolhidas”, col. Biblioteca de Autores Portugueses, Lisboa: IN-CM, 1983 – p. 295)

Ao passar pelo ribeiro
Onde, às vezes, me debruço,
Fitou-me alguém. Corpo inteiro,
Curvado como um soluço!

Que palidez nesse rosto
Sob o lençol do Luar!
Tal e qual quem, ao Sol-Posto,
Estivera a agonizar…

Aquelas pupilas baças
Acaso seriam minhas?
Meu amor, quando me enlaças,
Porventura as adivinhas?

Deram-me, então, por conselho,
Tirar de mim o sentido.
Mas, depois, vendo-me ao espelho,
Cuidei que tinha morrido!

Fica longe o sol que vi

[ Quadras da Minha Solidão ]

Fica longe o sol que vi
aquecer meu corpo outrora…
Como é breve o sol daqui!
E como é longa esta hora!…

Donde estou vejo partir
quem parte certo e feliz.
Só eu fico. E sonho ir
rumo ao sol do meu país…

Por isso as asas dormentes
suspiram por outro céu.
Mas ai delas! tão doentes
não podem voar mais eu…

que comigo, preso a mim,
tudo quanto sei de cor…
Chamem-lhe nomes sem fim,
por todos responde a dor.

E assim, no pulso dos dias,
sinto chegar outro Outono…
Passam as horas esguias,
levando o meu abandono…

Poema: Alda Lara (excerto)
Música: Jaime Santos (Fado da Bica)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP “Fado e Folclore”, RCA Victor, 1970)

* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery

QUADRAS DA MINHA SOLIDÃO

(Alda Lara, in “Poemas”, Sá da Bandeira, Angola: Imbondeiro, 1966, reed. Braga: APPACDM, 1997, 2005)

Fica longe o sol que vi
aquecer meu corpo outrora…
Como é breve o sol daqui!
E como é longa esta hora!…

Donde estou vejo partir
quem parte certo e feliz.
Só eu fico. E sonho ir
rumo ao sol do meu país…

Por isso as asas dormentes
suspiram por outro céu.
Mas ai delas! tão doentes
não podem voar mais eu…

que comigo, preso a mim,
tudo quanto sei de cor…
Chamem-lhe nomes sem fim,
por todos responde a dor.

Mas dor de quê? dor de quem,
se nada tenho a sofrer?…
Saudade?… Amor?… Sei lá bem!
É qualquer coisa a morrer…

E assim, no pulso dos dias,
sinto chegar outro Outono…
Passam as horas esguias,
levando o meu abandono…

Lá vem num corcel

[ Trovas do Meu Povo ]

Lá vem num corcel
o príncipe real
vem saber dos favos
vem medir o mel

vem ver os pastores
pastarem o gado
são seus os pastores
e é seu todo o prado

Lá vem num cavalo
o senhor regedor
vem ver como cumprem
as ordem do rei

pela terra alheia
vem ver lavradores
vê o que semeiam
vem contar as flores

Lá vem num burrico
o senhor abade
vem pedir prás almas
prás almas salvar

são suas as almas
que o povo lhas deu
partilha por todos
a fé que perdeu

Lá vem todo o povo
a pé no povoado
de Cristo nos ombros
à cruz arrancado

pois Cristo resiste
não morre entre o povo
porque em cada um
há sempre um Cristo novo

La, la, la…

Letra: Manuel Lima Brummon
Música: Luís Alexandre
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP “Portugal Triste”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD “Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006)

* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de António Chainho
Produção – António Chainho
Gravado nos Estúdios da Rádio Triunfo, Lisboa
Técnicos de som – Luís Alcobia e Rui Novais

Meu país esperando

[ Portugal Triste ]

Meu país esperando na esquina do tempo
de braços abertos a todo o momento
vou seguindo sempre calculando os passos
e se o que criei desfaço e refaço
meus olhos despertos abrem-se para o mundo
e eu caio em mim cada vez mais fundo

Meu país perdido na esquina do tempo
triste Portugal tão pequeno e imenso
pois eu te garanto, país, que este povo
traz no coração sempre um amor novo

Não quero que pensem que já me perdi
nem quero que julguem que fujo de mim
tenho lucidez para poder viver
eu sou vertical, não me hão-de torcer
sempre fui mais forte quando me quiseram
tornar serva ou fraca e nunca me venceram

Tenho a dimensão do que quero alcançar
e nada que fiz tenho a lamentar
pois para me encontrar ainda vos digo
que nunca vendi meu cantar de amigo

Portugal que eu canto deixa a boca amarga
mas eu estou bem firme, não estou derrotada

Letra e música: Manuel Lima Brummon
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP “Portugal Triste”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD “Tereza Tarouca”, col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)

* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de António Chainho
Produção – António Chainho
Gravado nos Estúdios da Rádio Triunfo, Lisboa
Técnicos de som – Luís Alcobia e Rui Novais

Mordi a Tua Mão

Mordi a tua mão, depois morri;
Caí sobre o teu corpo inanimado:
Que importa se estou preso ou se prendi!
Quem morre assim não tem que ser julgado.

Mordi a tua mão, depois morri;
Passei por um lugar que não tem nome,
Que fica muito além do que sofri:
Maior que a dor, que o mar, maior que a fome.

Beijei a tua mão, depois vivi;
Deixei-me ali ficar de olhos fechados.
Ainda perguntei: “Tu estás aqui?”;
Depois dormi nos braços arranhados.

Letra: Duarte
Música: Alfredo Duarte “Marceneiro” (Fado CUF)
Intérprete: Duarte* (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018)

* Duarte – voz
Paulo Parreira – guitarra portuguesa
Rogério Ferreira – viola
Daniel Pinto – viola baixo acústica
Pedro Amendoeira – guitarra portuguesa (em “Vai de Roda” e “Covers”)
Mara – voz (em “Vai de Roda”)
Produção musical – Gil
Produção executiva – Alain Vachier
Gravado no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, em Fevereiro, Março, Dezembro de 2017 e Janeiro de 2018
Gravação, edição, mistura e masterização – Fernando Nunes

Não penses que ando

[ A Melhor Solução ]

Não penses que ando p’ra aí triste, amargurado
Desnorteado ao falar do teu sorriso
É um engano pois até ando animado
Bem-humorado, que eu bem preciso
Fica a saber que ainda não perdi a esperança
E só alcança quem insiste e acredita
Sei que depois da tempestade vem bonança
E só avança quem não hesita
Eu sei que o mundo vai rodar e muitas voltas há-de dar
E a nossa história vai voltar p’ra o seu lugar

Na tua rua eu fico sempre com um sorriso
Mesmo que eu já não toque à tua campainha
Porque eu sei bem que sei aquilo que é preciso
P’ra ter de volta tudo aquilo que eu tinha
Mesmo que eu já não toque à tua campainha
Eu tenho a chave para a tua confusão
Podes dar voltas e mais voltas à vidinha
P’ra o teu problema eu sou a melhor solução
Podes dar voltas e mais voltas à vidinha
P’ra o teu problema eu sou a melhor solução

Não penses que eu ando a espreitar a tua vida
Perguntar coisas sobre ti a toda a gente
Levo os meus dias de forma descontraída
Desinibida e sorridente
Não fico triste por lembrar a nossa história
Porque a memória traz-me sempre felicidade
Saber o quanto foi bom já é uma vitória
E é bem notória esta vontade
E o mundo vai rodopiar com tanta volta que há p’ra dar
E a tua rua não se muda de lugar

Na tua rua eu fico sempre com um sorriso
Mesmo que eu já não toque à tua campainha
Porque eu sei bem que sei aquilo que é preciso
P’ra ter de volta tudo aquilo que eu tinha
Mesmo que eu já não toque à tua campainha
Eu tenho a chave para a tua confusão
Podes dar voltas e mais voltas à vidinha
P’ra o teu problema eu sou a melhor solução
Podes dar voltas e mais voltas à vidinha
P’ra o teu problema eu sou a melhor solução

Letra e música: Sebastião Antunes
Arranjo: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes* com Ana Laíns (in CD “Singular”, Sebastião Antunes & Quadrilha/Alain Vachier Music Editions, 2017)

Nesse teu olhar magoado

[ Espero a Morte a Cantar ]

Nesse teu olhar magoado
Vejo a cor dos olhos meus;
Tem a dor um tom pisado
Que é o tom dos olhos teus.

Sofro a dor por te querer
Esquecendo que te perdi,
Mas um dia quis te ver
E louca d’amor fugi.

Nos meus olhos vivem ainda
Saudades dum olhar teu;
No meu peito vive infinda
Essa dor que em ti viveu.

Hoje canto de amargura
Já cansada de te amar,
E vencida pela tortura
Espero a morte a cantar.

Letra: Francisco Pessoa
Música: Joaquim Campos (Fado Amora)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in EP “Saudade, Silêncio e Sombra”, RCA Victor, 1964)

* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery

O Cristo inerte

[ Não Fui Eu ]

O Cristo inerte preso à cruz
A luz da vela que O reduz
À sombra triste na parede entrecortada

Dos lábios solta-se, indulgente
A prece inútil do não-crente
Entre palavras que por fim não dizem nada

Não fui eu, não fui eu
Não deixei a porta aberta
Não fui eu, não fui eu
Ficou-me a casa deserta

Há como um fugidio rumor
De passos no corredor
Induzem na minh’alma a dor da esperança vã

Sinais do tempo a humedecer
A voz que teima enrouquecer
E o corpo dorido pela noite no divã

Não fui eu, não fui eu
Não deixei a porta aberta
Não fui eu, não fui eu
Ficou-me a casa deserta

Como esta febre me destrói
Perdido amor, quanto me dói
Desceste em mim o cruel manto da tristeza

Em cada noite morro, amor
E a solidão faz-me maior
Mal amanhece e volta o medo que anoiteça

Não fui eu, não fui eu
Não deixei a porta aberta
Não fui eu, não fui eu
Ficou-me a casa deserta

Letra e música: Jorge Fernando
Intérprete: Rua da Lua* (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)

Por ti cheguei a amar o desumano

[ A Outra Face da Alegria ]

Por ti cheguei a amar o desumano
e fiz da minha angústia amor total
vi florir primaveras todo o ano
nunca ninguém te amou com amor igual

Por ti bastava a sombra fugidia
do teu olhar no meu insatisfeito
e tudo o que não tinha pressentia
como quem tem dois corações no peito

Por ti reinventei lindas palavras
nas mãos tive oiro e estrelas só por ti
e nada te bastou, nada aceitavas
mas roubaste o melhor que havia em mim

Por ti gastei a face da alegria
e andei morrendo um pouco em toda a parte
embriagaste a luz de cada dia
os dias mais belos da minha idade

Letra e música: Manuel Lima Brummon
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP “Portugal Triste”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD “Tereza Tarouca”, col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)

*Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de António Chainho
Produção – António Chainho
Gravado nos Estúdios da Rádio Triunfo, Lisboa
Técnicos de som – Luís Alcobia e Rui Novais

Quem dorme à noite comigo?

[ Medo ]

Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo.
Mas se insistirem lhes digo:
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo.

E cedo, porque me embala
Num vai-e-vem de solidão,
É com o silêncio que fala:
Com voz que move onde estala
E nos perturba a razão.

Gritar? Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me,
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.

Poema: Reinaldo Ferreira
Música: Alain Oulman
Intérprete: Júlio Resende* com Amália Rodrigues (in CD “Amália por Júlio Resende”, Edições Valentim de Carvalho, 2013)
Versão original: Amália Rodrigues (grav. 1966, CD “Segredo”, EMI-VC, 1997; 2CD “O Melhor de Amália: Vol. II – Tudo Isto É Fado”: CD 1, EMI-VC, 2000; Livro/4CD “O Melhor de Amália”: CD 3, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)

Concepção, arranjos e produção por Júlio Resende
Gravado por Nelson Carvalho e João Pedreira (excepto “Gaivota”, por Pedro Coelho), nos dias 2, 3 e 4 de Outubro de 2012
Voz de Amália Rodrigues gravada por Hugo Ribeiro, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d’Arcos, em 1966
Misturado e masterizado por Nelson Carvalho nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d’Arcos

* Júlio Resende – piano
Amália Rodrigues – voz

Um malmequer desfolhei

[ Malmequer Desfolhado ]

Um malmequer desfolhei,
Nunca tal tivesse feito;
Não sabia o que já sei,
Tinha-te ainda no peito!

P’ra saber s’inda era meu
O homem que eu tanto amei,
Com os olhas fitos no céu
Um malmequer desfolhei!

E da flor fui arrancando
Esperanças que fora deito;
E agora eu estou chorando…
Nunca tal tivesse feito!

Julgando ter-te na vida
E seres p’ra mim minha lei,
Passava o tempo iludida…
Não sabia o que já sei!

Sonhava meu coração,
E agora sonho desfeito
Vivendo da ilusão…
Tinha-te ainda no peito!

Letra: D. António de Bragança
Música: Francisco Viana (Fado Francisco Viana ou Fado Mouraria do Vianinha)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in EP “Mouraria”, RCA Victor, 1963; LP “Os Melhores Fados de Tereza Tarouca”, RCA Camden, 1978)

* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery

O fado de Florbela Espanca

Ai de mim que me perdi

Ai de mim que me perdi
Pelos caminhos do tédio
Perdi-me, cheguei aqui
Agora não tem remédio

Ai de mim que me perdi
Perdi-me no fim da estrada
Ai de mim porque vivi
A vida desencontrada

Tantos caminhos andados
Não fui eu que os descobri
Foram meus passos mal dados
Que me trouxeram aqui

Perdida me acho da vida
E a vida já me perdeu
Ando na vida perdida
Sem saber quem a viveu

Por mais que queira encontrar
A razão do meu viver
A razão de cá andar
Não posso compreender

Que culpa tem o destino
Dos caminhos que eu andei?
Fui eu no meu desatino
Que andei e não reparei

Perdida estou sem remédio
Meu pecado e meu castigo
Pecado é morrer de tédio
Castigo é viver contigo

Por mais que queira encontrar
A razão do meu viver
A razão de cá andar
Não posso compreender

Não posso compreender
A razão de cá andar
A razão do meu viver
Não posso compreender

Poema: Amália Rodrigues (ligeiramente adaptado)
Música: Amélia Muge
Arranjo: José Mário Branco
Intérprete: Amélia Muge (in CD “Amélia com Versos de Amália”, Amélia Muge/Leve Music, 2014)

Coimbra do Choupal

Coimbra (Abril em Portugal)

Coimbra do Choupal
Ainda és capital
Do amor em Portugal,
Ainda…
Coimbra onde uma vez
Com lágrimas se fez
A história dessa Inês
Tão linda.

Coimbra das canções,
Tão meiga que nos pões
Os nossos corações
A nu.
Coimbra dos doutores
P’ra nós os teus cantores,
A Fonte dos Amores
És tu.

Coimbra é uma lição
De sonho e tradição;
O lente é uma canção
E a lua a faculdade…
O livro é uma mulher,
Só passa quem souber
E aprende-se a dizer
Saudade.

Coimbra do Choupal
Ainda és capital
Do amor em Portugal,
Ainda…
Coimbra onde uma vez
Com lágrimas se fez
A história dessa Inês
Tão linda.

Coimbra das canções,
Tão meiga que nos põe
Os nossos corações
A nu.
Coimbra dos doutores
P’ra nós os teus cantores,
A Fonte dos Amores
És tu.

Coimbra é uma lição
De sonho e tradição;
O lente é uma canção
E a lua a faculdade…
O livro é uma mulher,
Só passa quem souber
E aprende-se a dizer
Saudade.

Letra: José Galhardo
Música: Raul Ferrão
Intérpretes: José Barros & Mimmo Epifani*
Versão discográfica de José Barros & Mimmo Epifani (in CD “Mar da Lua”, José Barros/Tradisom, 2015)
Versão original: Alberto Ribeiro (in filme “Capas Negras”, de Armando Miranda, 1947) [
Primeira versão discográfica: Alberto Ribeiro (in single 78 r.p.m. “Marco do Correio / Coimbra”, His Master’s Voice/VC, 1947)
Primeira versão sob o título “Avril au Portugal” (letra em francês da autoria de Jacques Larue): Yvette Giraud (in single 78 r.p.m. “Avril au Portugal / Cerisier Rose et Pommier Blanc”, His Master’s Voice, 1950)

Convém que seja moderno

[ Que Fado É Esse, Afinal? ]

Convém que seja moderno,
Ritmado sem critério
E fácil de consumir;
Que não deixe de imitar
As modas que estão a dar,
Que não ouse resistir.

Convém que não seja triste,
Que se venda, que se lixe
O valor do seu passado;
Que se sirva ao desbarato
Como um hambúrguer no prato,
Produto pré-fabricado.

Convém que seja feliz,
Não importa o que se diz
Se agradar a toda a gente;
Que a nada diga respeito,
Seja a música um efeito
E a palavra indiferente.

Convém que seja educado,
Que se cante em qualquer lado,
Popular, comercial.
Mas quando o oiço cantar,
Só me resta perguntar:
Que Fado é esse, afinal?

Mas quando o oiço cantar,
Só me resta perguntar:
Que Fado é esse, afinal?

Letra: Duarte
Música: José Mário Branco (Fado Gripe)
Intérprete: Duarte* (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018)

Deixa Que te Cante um Fado

Deixa que te cante um fado,
Ao menos de vez em quando!
Deixa que te cante um fado
Como quem reza chorando!

Deixa que te cante um fado
Que me fale sempre em ti!
Cantarei de olhos cerrados,
Os olhos com que te vi.

Deixa que te cante um fado,
Mesmo sem fé ou sem arte!
Se nunca pude esquecer-te
É que não posso deixar-te.

Deixa que te cante um fado!
Todo o meu sonho está nisto:
Que depois de o ter cantado
Te lembres que ainda existo.

Poema: Pedro Homem de Mello
Música: José Marques do Amaral (Fado José Marques do Amaral)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in EP “Fados (Fado das Faias)”, RCA Victor, 1963; LP “Os Melhores Fados de Tereza Tarouca”, RCA Camden, 1978)

* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery

Descalço, venho dos confins da infância

[ Entrega ]

Descalço, venho dos confins da infância
Que a minha infância ainda não morreu.
Atrás de mim em face ainda há distância,
Menino Deus, Jesus da minha infância,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu!

Venho da estranha noite dos poetas,
Noite em que o mundo nunca me entendeu.
Vê, trago as mãos vazias dos poetas,
Menino Deus, amigo dos poetas,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu!

Feriu-me um dardo, ensanguentei as ruas
Onde o demónio em vão me apareceu.
Porque as estrelas todas eram suas,
Menino irmão dos que erram pelas ruas,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu!

Quem te ignorar ignora bem os que são tristes
Ó meu irmão Jesus, triste como eu.
Ó meu irmão, menino de olhos tristes,
Nada mais tenho além dos olhos tristes
Mas o que tenho, e nada tenho, é teu!

Poema: Pedro Homem de Mello
Música: Carlos Gonçalves
Intérprete: Ricardo Ribeiro
Primeira versão discográfica de Ricardo Ribeiro (in CD “Largo da Memória”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2013)
Versão original: Amália Rodrigues (in LP/CD “Obsessão”, EMI-VC, 1990, reed. Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)

Desdenharam-me, bem sei

[ Fado Lenitivo ]

Desdenharam-me, bem sei,
Quando um dia comecei
A cantar sofrida o fado;
Não sabiam o motivo:
É que o fado é lenitivo
D’um coração torturado.

Ao ver de todo perdidas,
As minhas esperanças mais queridas,
Senti, fui talvez pisada;
E era doce companhia
Para a minha melancolia
O chorar d’uma guitarra.

Amarguras e cansaços,
A minha dor em pedaços
Eu vou esquecendo a cantar;
E nos queixumes do fado,
Já nem sei se é um trinado
Se a minh’alma a soluçar.

Sei que me ouves lamentando,
As mágoas que vou cantando
Só tu podes entender;
Vou meu fado dedicar-te:
Uma dor que se reparte
Não custa tanto a sofrer.

Letra: Fernanda Santos
Música: Helena Moreira Vieira
Intérprete: Tânia Oleiro (in CD “Terços de Fado”, Museu do Fado Discos, 2016)
Versão original: Maria do Rosário Bettencourt (in EP “Lenitivo”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1966; CD “Maria do Rosário Bettencourt”, col. Fados do Fado, vol. 41, Movieplay, 1998)

Desta luta constante

[ O fado que me traga ]

Desta luta constante
O futuro é meu alento
Numa roda gigante
Tão gigante que pára o tempo

Uma volta sem regresso
Até uma terra esquecida
E na minha sorte tropeço
Sozinha na madrugada perdida

O fado que me traga
O que o tempo me levou
A saudade que me abra
O caminho do que sou
O fado que me traga
O que a saudade não deixou
O sentido das palavras
Que o tempo apagou

Uma lágrima no mar
Perdida na voz do silêncio
Aprisiona a ternura
E adormece o meu encanto

Quando me sinto nua
Não me quero ver mais ao espelho
O destino não me quer tua
Porque o amor morreu no desejo

O fado que me traga
O que o tempo me levou
A saudade que me abra
O caminho do que sou
O fado que me traga
O que a saudade não deixou
O sentido das palavras
Que o tempo apagou

Letra: Samuel Lopes
Música: Miguel Rebelo
Intérprete: Ana Laíns (in CD “Sentidos”, Difference, 2006)

Deus pede

Conta e Tempo

Deus pede [hoje] estrita conta do meu tempo
E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta;
Mas como dar, sem tempo, tanta conta,
Eu que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para dar a minha conta feita a tempo
O tempo me foi dado, e não fiz conta;
Não quis, sobrando tempo, fazer conta,
Hoje quero acertar conta e não há tempo.

Oh! vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis o vosso tempo em passa-tempo!
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta
Pois aqueles que sem conta gastam tempo,
Quando o tempo chegar de prestar conta,
Chorarão, como eu, o não ter tempo!

Poema: Frei António das Chagas (António da Fonseca Soares, 1631-1682)
Música: José Júlio Paiva (Fado Complementar)
Intérprete: Camané (in CD “Infinito Presente”, Warner Music, 2015)

Dizem que o fado é saudade

[ O Sentir do Cantador ]

Dizem que o fado é saudade,
Miséria, sofrer e dor…
Mas o fado é, na verdade,
O sentir do cantador.

Em cada palavra sua,
Em cada verso cantado,
O cantador insinua
A tristeza do seu fado.

Não canta por simpatia,
Não canta para viver:
É que cantando alivia
Um pouco do seu sofrer.

Tornando tão magoado
O timbre da sua voz,
Que o fado fica gravado
Na alma de todos nós.

Letra: Maria Manuel Cid
Música: Francisco José Marques (Fado Évora)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in EP “Passeio à Mouraria”, RCA Victor, 1964; LP “Os Melhores Fados de Tereza Tarouca”, RCA Camden, 1978)

* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery

Então, até amanhã, meu dia triste

[ Último Poema ]

Então, até amanhã, meu dia triste,
Na taverna da noite do meu fado,
Onde canto o amor que não existe,
Neste meu amanhã abandonado.

Grito dentro de mim a noite e o dia,
Nesta hora do sonho mais profundo,
Que regressa na voz da despedida
Com que te vejo por estar no mundo.

Nas palavras amadas que perdi,
O ontem que tu foste já me foge.
“Então, até amanhã!”, disseste, e eu vi
Que o amanhã não chega ao ontem de hoje.

“Então, até amanhã!”, disseste, e eu vi
Que o amanhã não chega ao ontem de hoje.

Letra: Vasco de Lima Couto
Música: Manuel Mendes
Intérprete: Ricardo Ribeiro
Primeira versão discográfica de Ricardo Ribeiro (in CD “Hoje É Assim, Amanhã Não Sei”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2016)
Versão original: Beatriz da Conceição [ao vivo no Restaurante Típico Nónó, Lisboa

Era o amor

[ Verdes Anos ]

Era o amor
que chegava e partia:
estarmos os dois
era um calor
que arrefecia
sem antes nem depois…

Era um segredo
sem ninguém para ouvir:
eram enganos
e era um medo,
a morte a rir
nos nossos verdes anos…

Foi o tempo que secou
a flor que ainda não era.
Como o Outono chegou
no lugar da Primavera!

Era o amor
que chegava e partia:
estarmos os dois
era um calor
que arrefecia
sem antes nem depois…

Era um segredo
sem ninguém para ouvir:
eram enganos
e era um medo,
a morte a rir
nos nossos verdes anos…

No nosso sangue corria
um vento de sermos sós.
Nascia a noite e era dia,
e o dia acabava em nós…

Poema: Pedro Tamen (excerto)
Música: Carlos Paredes (introdução de “Despertar”, in EP “Guitarradas Sob o Tema do Filme Verdes Anos”, Alvorada, 1964; CD “Carlos Paredes e Artur Paredes”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 36, Movieplay, 1994; CD “Os Verdes Anos de Carlos Paredes: As Primeiras Gravações a Solo 1962-1963”, Movieplay, 2003; Livro/4CD “O Mundo Segundo Carlos Paredes: Integral 1958-1993”: CD1 – “Despertar”, EMI-VC, 2003)
Intérprete: Mariana Abrunheiro (in Livro/CD “Cantar Paredes”, Mariana Abrunheiro/BOCA – Palavras Que Alimentam, 2015)
Versão original (canção): Teresa Paula Brito (in filme “Os Verdes Anos”, de Paulo Rocha, 1963)
Outra versão de Teresa Paula Brito (in EP “Canções Para Fim de Noite”, Riso e Ritmo, 1968; CD “Teresa Paula Brito”, col. Clássicos da Renascença, vol. 61, Movieplay, 2000)

És Povo feito Mulher

[ Ai, Amália! ]

És Povo feito Mulher;
A cantar és toda a gente
que sabe aquilo que quer
e diz aquilo que sente.

As tuas caras são tantas:
mais de mil que Deus te deu…
Com mil corações tu cantas
e há mais mil dentro do teu.

Ai, Amália das mil caras
e mais de mil corações!
Ai, rio que nunca páras
até à foz das canções!…

Nos ecos da tuz voz,
nos silêncios que a torturam
sofrem pedaços do nós,
pedaços que se procuram.

Levantas a tua voz,
o Fado nasce ao teu jeito!
E sentimos todos nós
que te cabemos no peito…

Ai, Amália das mil caras
e mais de mil corações!
Ai, rio que nunca paras
até à foz das canções!…

Ai, Amália das mil caras
e mais de mil corações!
Ai, rio que nunca paras
até à foz das canções!…

Letra: Luísa Bivar
Música: João Braga
Intérprete: João Braga* (in LP “Do João Braga para a Amália”, Diapasão/Lamiré, 1984; CD “João Braga”, col. Fado Alma Lusitana, vol. 19, Levoir/Correio da Manhã, 2012)

* João Braga – voz
José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Jaime Santos Jr. – viola
Joel Pina – viola baixo
Participação especial:
José Pracana – guitarra portuguesa
Gravado nos Estúdios Musicorde, Lisboa, em Março de 1984
Captação de som e misturas – Rui Remígio

Esta ilha que há em mim

[ A Ilha do Meu Fado ]

Esta ilha que há em mim
E que em ilha me transforma
Perdida num mar sem fim
Perdida dentro de mim
Tem da minha ilha a forma

Esta lava incandescente
Derramada no meu peito
Faz de mim um ser diferente
Tenho do mar a semente
Da saudade tenho o jeito

Trago no corpo a mornaça
Das brumas e nevoeiros
Há uma nuvem que ameaça
Desfazer-se em aguaceiros
Nestes meus olhos de garça

Neste beco sem saída
Onde o meu coração mora
Oiço sons da despedida
Vejo sinais de partida
Mas teimo em não ir embora

Letra: João Mendonça
Letra: José Medeiros
Intérprete: Dulce Pontes (in CDs “Caminhos”, Movieplay, 1996; “O Coração Tem Três Portas”, Ondeia Música, 2006)

Eu quero cantar palavras

[ Fado Não-Valentim ]

Eu quero cantar palavras
De letras por inventar,

Quero outro fado, ó-laró-laró!
Quero outro fado, ó-laró, meu bem!

Implacáveis como espadas,
Tão profundas como o mar.

Quero outro fado, ó-laró-laró!
Quero outro fado, ó-laró, meu bem!

As palavras por dizer
Por dentro das que são ditas,

Quero outro fado, ó-laró-laró!
Quero outro fado, ó-laró, meu bem!

Impossíveis a crescer
Por fora das mais bonitas.

Quero outro fado, ó-laró-laró!
Quero outro fado, ó-laró, meu bem!

Ditas todas devagar
No silêncio mais sonante,

Quero outro fado, ó-laró-laró!
Quero outro fado, ó-laró, meu bem!

Como um conto de encantar,
Como a vaga mais distante.

Quero outro fado, ó-laró-laró!
Quero outro fado, ó-laró, meu bem!

E quando para as cantar
Elas se façam escrever,

Quero outro fado, ó-laró-laró!

Quero outro fado, ó-laró, meu bem!

As letras serão meus lábios,
A tinta o meu sangue a arder.

Quero outro fado, ó-laró-laró!
Quero outro fado, ó-laró, meu bem!

Dizer palavras de mel
Até a voz ficar rouca.

Quero outro fado, ó-laró-laró!
Quero outro fado, ó-laró, meu bem!

Gastar toda a minha pele
Nos beijos da tua boca.

Quero outro fado, ó-laró-laró…,
Nos beijos da tua boca.

Letra: João Gigante-Ferreira
Música: Popular
Intérprete: Helena Sarmento*
Versão original: Helena Sarmento (in CD “Lonjura”, Helena Sarmento, 2018)

Eu sei que esperas por mim

[ Mais um Fado no Fado ]

Eu sei que esperas por mim,
Como sempre, como dantes,
Nos braços da madrugada;
Eu sei que em nós não há fim,
Somos eternos amantes
Que não amaram mais nada.

Eu sei que me querem bem,
Eu sei que há outros amores
Para bordar no meu peito;
Mas eu não vejo ninguém
Porque não quero mais dores
Nem mais bâton no meu leito.

Nem beijos que não são teus
Nem perfumes duvidosos,
Nem carícias perturbantes;
E nem infernos, nem céus,
Nem sol nos dias chuvosos,
Porque ‘inda somos amantes.

Mas Deus quer mais sofrimento,
Quer mais rugas no meu rosto
E o meu corpo mais quebrado; [bis]
Mais requintado tormento,
Mais velhice, mais desgosto
E mais um fado no fado.

Letra: Júlio de Sousa
Música: Carlos da Maia (Fado Perseguição)
Intérprete: Camané
Outras versões: Camané* (in CD “Pelo Dia Dentro”, EMI-VC, 2001; 2CD “Camané: O Melhor 1995-2013 (Edição Especial)”: CD 2, EMI, 2013); Camané (in 2CD “Como Sempre… Como Dantes”: CD 1 – “Como Sempre: Ao Vivo em Palco”, EMI-VC, 2003); Camané (in DVD “Ao Vivo no S. Luiz”, EMI, 2006) [ao vivo com Fábia Rebordão, 2008 / Gala 12 do programa “Operação Triunfo”; Camané (in CD/DVD “Ao Vivo no Coliseu: Sempre de Mim”, EMI, 2009). Versão original [?]: Rui David (com música de Alfredo Marceneiro – Fado Cravo) (in EP “Meu Amor, Minha Saudade”, FF/RR Discos, ?)

Eu sei que sou demais

Eu sei que sou demais na tua vida,
Eu sei que nem me vês tão apagado,
Apenas uma sombra indefinida,
O resto de voz triste condenada.
Eu sei que sou demais na tua vida,
De tudo quanto fui não sou mais nada.

Ai quem me dera prender o teu futuro
E uni-lo ao meu, assim tal maneira,
Como hera verde se prende ao velho muro
E ali fica p’la vida inteira!

Eu sei que estou a mais no teu caminho,
Eu sei que nada tens p’ra me dar,
E sei que nesta luta estou vencido
Por outro amor que tens no meu lugar.
Mas sei, amor, que eu, da tua vida,
Ninguém jamais, ninguém pode apagar.

Ai quem me dera prender o teu futuro
E uni-lo ao meu, assim tal maneira,
Como hera verde se prende ao velho muro
E ali fica p’la vida inteira!

Ai quem me dera prender o teu futuro
E uni-lo ao meu, assim tal maneira,
Como hera verde se prende ao velho muro
E ali fica p’la vida inteira!

Letra e música: Joaquim Tavares Pimentel
Intérprete: Ricardo Ribeiro
Primeira versão discográfica de Ricardo Ribeiro (in CD “Hoje É Assim, Amanhã Não Sei”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2016)
Versão original: Alice Maria (in EP “Primeiro Amor”, Estúdio/Mundusom, 1972?)

Eu uso um xaile bordado

[ Num Gesto Que se Adivinha ]

Eu uso um xaile bordado
Porque os p’rigos que há no fado
São bem maiores que os da vida;
O xaile é como uma pele
E quando me embrulho nele
Sinto-me mais protegida.

Parece umas mãos de mãe:
Sabem guiar-nos tão bem
E sossegam tantos medos
Que sempre que elas me tocam
As franjas do xaile evocam
A ternura dos seus dedos.

Num gesto que se adivinha
O xaile é uma andorinha
Num céu que eu mesma criei;
Mas assim que o braço pára
O xaile que antes voara
Parece o manto de um rei.

E quando o corpo desiste
Numa palavra mais triste,
Num grito mais demorado,
O xaile velho e sem franjas
São asas de anjos ou anjas
Que me aconchegam ao Fado.

O xaile velho e sem franjas
São asas de anjos ou anjas
Que me aconchegam ao Fado.

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Armando Machado (Fado Maria Rita)
Intérprete: Katia Guerreiro* (in CD “Brincar aos Fados”, Farol Música, 2014)

* Katia Guerreiro – voz
Marta Pereira da Costa – guitarra portuguesa
Pedro Pinhal – viola de fado
Rodrigo Serrão – contrabaixo

Existe um fado

[ Não Existe Fado Antigo ]

Existe um fado, um só fado
Que assenta na tradição;
E p’ra ser bem cantado
Só faz falta um coração.

Não é por pôr uma tuba,
Acrescentar a bateria
Que uma geração derruba
O que antes se fazia.

Não quero a eternidade
Nem os momentos de glória:
Quero deixar na saudade
Um pouco da minha história.

Não existe fado novo
Como não há fado antigo:
Ele é o grito que um povo
Carrega sempre consigo.

Não existe fado novo
Como não há fado antigo:
Ele é o grito que um povo
Carrega sempre consigo.

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: João do Carmo Noronha (Fado Pechincha)
Intérprete: Celeste Rodrigues* (in CD “Brincar aos Fados”, Farol Música, 2014)

* Celeste Rodrigues – voz
Gaspar Varela – guitarra portuguesa
Pedro Pinhal – viola de fado
Rodrigo Serrão – contrabaixo

Foi assim

[ Lume ]

Foi assim: era costume…
Tu vinhas pedir-me lume
Ao balcão daquele bar
E eu disse que não, primeiro;
Depois, comprei um isqueiro
E até voltei a fumar.

As noites que nós passámos!
Quantos cigarros fumámos!
Tanto lume que eu te dei!
Um dia acordei com frio:
Estava o cinzeiro vazio
E nunca mais te encontrei.

Mas ontem, naquele bar
De repente vi-te entrar,
Foste direita ao balcão:
Como era teu costume
Vieste pedir-me lume
Mas eu disse-te que não.

Se quando te foste embora
Deitei o isqueiro fora,
Que lume te posso eu dar?
Pede a outro que te ajude!
P’ra bem da minha saúde
Eu já deixei de fumar.

Sem dormir, de madrugada
Ouvi teus passos na escada,
Vi da janela o teu carro;
Debaixo do travesseiro
Encontraste o meu isqueiro
E acendeste-me o cigarro.

Letra: Manuela de Freitas
Música: Armando Machado (Fado Santa Luzia)
Intérprete: Camané (in CD “Infinito Presente”, Warner Music, 2015)

Já toda a gente sabe

[ Aos Sete Ventos ]

Já toda a gente sabe a novidade:
o Fado, que nasceu na Mouraria,
é Património da Humanidade
e quebra mais fronteiras dia a dia.

Há quem tenha aprendido português
p’ra entender de um modo mais profundo
os fados que a ‘Amália Rodriguez’
cantava aos sete ventos pelo mundo.

‘Thank you’, ‘gracias’, ‘merci’ ou ‘arigato’
são formas de o fadista agradecer:
quando ao chegar o fim de cada acto
vê lágrimas nos rostos a escorrer.

Em Espanha, no Brasil ou no Japão
o Fado é cada vez mais bem cantado;
e porque ali se escuta um coração
é Portugal que diz: “muito obrigado!”

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Armando Machado (Fado Aracélia ou Fado Cunha e Silva)
Intérprete: Cristina Branco* (in CD “Brincar aos Fados”, Farol Música, 2014)

* Cristina Branco – voz
Marta Pereira da Costa – guitarra portuguesa
Pedro Pinhal – viola de fado
Rodrigo Serrão – contrabaixo

Lavava no rio lavava

Lavava no rio lavava
Gelava-me o frio gelava
Quando ia ao rio lavar
Passava fome passava
Chorava também chorava
Ao ver minha mãe chorar

Cantava também cantava
Sonhava também sonhava
E na minha fantasia
Tais coisas fantasiava
Que esquecia que chorava
Que esquecia que sofria

Já não vou ao rio lavar
Mas continuo a chorar
Já não sonho o que sonhava
Se já não lavo no rio
Por que me gela este frio
Mais do que então me gelava

Ai minha mãe, minha mãe
Que saudades desse bem
Do mal que então conhecia
Dessa fome que eu passava
Do frio que me gelava
E da minha fantasia

Já não temos fome, mãe
Mas já não temos também
O desejo de a não ter
Já não sabemos sonhar
Já andamos a enganar
O desejo de morrer

Letra: Amália Rodrigues
Música: José Fontes Rocha
Intérprete: Amália Rodrigues (in “Gostava de Ser Quem Era”, Columbia/VC, 1980, reed. EMI-VC, 1995; CD “O Melhor de Amália”, vol. III, EMI-VC, 2003)

Luas de prata gentia

[ Se ao menos houvesse um dia ]

Luas de prata gentia
Nas asas de uma gazela
E depois, do seu cansaço,
Procurasse o teu regaço

No vão da tua janela
Se ao menos houvesse um dia
Versos de flor tão macia
Nos ramos com as cerejas
E depois, do seu Outono,
Se dessem ao abandono
Nos lábios, quando me beijas
Se ao menos o mar trouxesse
O que dizer e me esquece
Nas crinas da tempestade
As palavras litorais
As razões iniciais
Tudo o que não tem idade
Se ao menos o teu olhar
Desse por mim ao passar

Como um barco sem amarra
Deste fado onde me deito
Subia até ao teu peito
Nas veias de uma guitarra

Letra: João Monge
Música: Casimiro Ramos (Fado Três Bairros)

Intérprete: Camané (in CD “Esta Coisa da Alma”, EMI-VC, 2000)

Na ribeira deste rio

Na ribeira deste rio
Ou na ribeira daquele
Passam meus dias a fio
Nada me impede, me impele
Me dá calor ou dá frio

Vou vendo o que o rio faz
Quando o rio não faz nada
Vejo os rastros que ele traz
Numa sequência arrastada
Do que ficou para trás

Vou vendo e vou meditando
Não bem no rio que passa
Mas só no que estou pensando
Porque o bem dele é que faça
Eu não ver que vai passando

Vou na ribeira do rio
Que está aqui ou ali
E do seu curso me fio
Porque se o vi ou não vi
Ele passa e eu confio

Letra: Dori Caymmi, sobre poema de Fernando Pessoa
Música: Dori Caymmi ?
Intérprete: Paulo Bragança* (in CD “Os Mistérios do Fado”, Polydor, 1996)

Na tua voz

[ Amália ]

Na tua voz há tudo o que não há,
há tudo o que se diz e não se diz;
Há os sítios da saudade em tua voz,
o passado, o futuro, o nunca, o já;
Há as sílabas da alma e há um país.
Porque tu, mais que tu, és todos nós.

Na tua voz embarca-se e não mais,
não mais senão o mar e a despedida.
Há um rasto de naufrágio em tua voz,
onde há navios a sair do cais,
nessa voz por mil vozes repartida.
Porque tu, mais que tu, és todos nós.

Há mar e mágoa, e a sombra de uma nau,
a gaivota de O’Neill e o rio Tejo,
saudade de saudade em tua voz,
um eco de Camões e o escravo Jau,
amor, ciúme, cinza e vão desejo.
Porque tu, mais que tu, és todos nós.

Amor, ciúme, cinza e vão desejo.
Porque tu, mais que tu, és todos nós.

Poema: Manuel Alegre
Música: José Fontes Rocha
Intérprete: João Braga* (in CD “Fado Fado”, Ariola/BMG Portugal, 1997; CD “Fados Capitais”, Impreopa/A Capital, 2002)

* João Braga – voz
José Fontes Rocha – 1.ª guitarra portuguesa
José Luís Nobre Costa – 2.ª guitarra portuguesa
Jaime Santos Jr. – viola de fado
Joel Pina – viola baixo de fado
Produção musical – João Braga
Produção executiva – Luís Ferreira de Almeida
Gravado no Estúdio Tcha Tcha Tcha, Miraflores – Oeiras, de 17 de Agosto a 2 de Setembro de 1997
Captação de som, misturas e masterização – Rui Dias

Não Sou Fadista de Raça

Não sou fadista de raça,
Não nasci no Capelão;
Eu canto o fado que passa
Nas asas da tradição!

Nunca usei negra chinela
Nem vesti saia de lista;
Nunca entrei numa viela
Mas tenho raça fadista!

Tirei suspiros ao vento,
Olhei um pouco o passado;
Busquei do mar um lamento
E fiz assim o meu fado.

É este fado famoso
Que, em noites enluaradas,
O Conde de Vimioso
Tangia nas guitarradas.

Era fidalgo de raça
E ficou na tradição
Cantando o fado que passa
Na Rua do Capelão.

Letra: Maria Teresa Cavazinni
Música: Alfredo Duarte “Marceneiro” (Fado Bailarico)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in EP “O Riso Que me Deste”, RCA Victor, 1967; LP “Os Melhores Fados de Tereza Tarouca”, RCA Camden, 1978; 2LP “Álbum de Recordações”: LP 1, Polydor/PolyGram, 1985; CD “Temas de Ouro da Música Portuguesa”, Polydor/PolyGram, 1992; CD “Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006; CD “Tereza Tarouca”, col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)

* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery

Nesta terra soberana e fadista

[ No Sítio do Coração ]

Nesta terra soberana e fadista
Concebido fruto da contradição
Eu nasci independente e meio artista
Navegante e poeta de ocasião
Eu nasci independente, mar à vista
Marinheiro e idealista de ocasião

Há quem diga que o futuro já está escrito
E por isso não adianta o que eu fizer
Outros dizem que isso não é mais que um mito
Inventado por um príncipe qualquer

Canta!
Ouve a guitarra que trina
Acompanhando o lamento
De tantas penas em vão!
Sente
O sentimento da gente
Que já só tem desalento
No sítio do coração!

Da janela do meu quarto vê-se o rio
Branqueando as suas águas na maré
Desaguando as suas mágoas num vazio
Para quem foi tudo pouco nada é
E ao olhar o seu reflexo tão vazio
Alguém viu que ele finge que não vê

Canta!
Ouve a guitarra que trina
Acompanhando o lamento
De tantas penas em vão!
Sente
O sentimento da gente
Que já só tem desalento
No sítio do coração!

Eu nasci independente e meio artista
Navegante e poeta de ocasião

Canta!
Ouve a guitarra que trina
Acompanhando o lamento
De tantas penas em vão!
Sente
O sentimento da gente
Que já chegou o momento
De ouvirmos outra canção!

Letra: J.J. Galvão (José João Oliveira Galvão)
Música: Rui Filipe Reis
Intérprete: Rosa Negra (in CD “Fado Mutante”, iPlay, 2011)

Perguntaste-me outro dia

[ Tudo Isto É Fado ]

Perguntaste-me outro dia
Se eu sabia o que era o fado;
Eu disse que não sabia,
Tu ficaste admirado.

Sem saber o que dizia,
Eu menti naquela hora
E disse que não sabia,
Mas vou-te dizer agora.

Se queres ser o meu senhor
E teres-me sempre a teu lado,
Não me fales só de amor:
Fala-me também de fado.

A canção que é meu castigo
Só nasceu p’ra me prender:
O fado é tudo o que eu digo
Mais o que eu não sei dizer.

Almas vencidas,
Noites perdidas,
Sombras bizarras;
Na Mouraria
Canta um rufia,
Choram guitarras.

Amor, ciúme,
Cinzas e lume,
Dor e pecado:
Tudo isto existe,
Tudo isto é triste,
Tudo isto é fado.

Se queres ser o meu senhor
E teres-me sempre a teu lado,
Não me fales só de amor:
Fala-me também de fado.

A canção que é meu castigo
Só nasceu p’ra me prender:
O fado é tudo o que eu digo
Mais o que eu não sei dizer.

Almas vencidas,
Noites perdidas,
Sombras bizarras;
Na Mouraria
Canta um rufia,
Choram guitarras.

Amor, ciúme,
Cinzas e lume,
Dor e pecado:
Tudo isto existe,
Tudo isto é triste,
Tudo isto é fado.

Letra: Aníbal Nazaré
Música: Fernando Carvalho
Intérprete: Rua da Lua
Primeira versão de Rua da Lua (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)
Versão original: Amália Rodrigues (grav. 1952) (in CD “Abbey Road 1952”, EMI-VC, 1992, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)

Quando o fado era menino

[ Quando o Fado For Grande ]

Quando o Fado era menino
Dizia: “quando eu for grande
Hei-de inventar um destino
Que meu coração comande.”

E percebeu que os poetas
Eram quem, como as crianças,
Abriam portas secretas
Sem chaves nem alianças.

Ao entrar no universo
Do poeta popular,
Ele vai escrevendo um verso
Que já nasce milenar.

E por saber que os adultos
Podem voltar à infância,
Não quer que os poetas cultos
Se mantenham à distância.

Rouba um poema a Pessoa,
Ao Ary pede uma glosa
E uns versos sobre Lisboa
Ao mestre Linhares Barbosa.

Se voltasse a ser menino
Diria: “quando eu crescer
Hei-de inventar um destino
Num poema por escrever.”

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Alberto Simões da Costa (Fado Torres do Mondego)
Intérprete: Ricardo Ribeiro* (in CD “Brincar aos Fados”, Farol Música, 2014)

* Ricardo Ribeiro – voz
Marta Pereira da Costa – guitarra portuguesa
Carlos Manuel Proença – viola de fado
Rodrigo Serrão – contrabaixo

Produção musical – Rodrigo Serrão
Ideia original – Rodrigo Costa Félix
Produção artística – Rodrigo Costa Félix e Tiago Torres da Silva
Produção executiva – Rodrigo Costa Félix e Farol Música
Gravado nos Estúdios Atlântico Blue (Paço d’Arcos), Estúdios Kapa Branca (Lisboa) e Estúdios Gravisom (Lisboa), em Junho e Agosto de 2014
Misturado e masterizado por Rodrigo Serrão, nos Estúdios Kapa Branca

Se o fado é esta sina

[ É o Mar Que nos Ensina ]

Se o fado é esta sina
que nos lava a alma,
é o mar quem nos ensina
quando nos devolve a calma.

Não aceitar pantomina,
o que a sorte nos destina.
Sem saber o que queremos,
temos o que merecemos.

A vida assim
não é um canto à dor.
O fado é sina
mas também amor.

Diziam que era um povo
que não se governava,
mas forte o coração
não se deixava governar.

Somos terra de lavrar
e sabemos o mar de cor,
mas esta gente a cantar
é bem capaz do melhor.

A vida assim
não é um canto à dor.
O fado é sina
mas também amor.

E lá bem no fim do mundo,
não se entendendo as palavras,
sente-se a saudade eterna
no trinado das guitarras.

Porque a razão não se entende
nem se vê o fim ao mar,
mas na voz ainda há quem pense
ver o fado a marear.

A vida assim
não é um canto à dor.
O fado é sina
mas também amor.

A vida assim
não é um canto à dor.
O fado é sina
mas também amor.

Letra e música: José Barros
Arranjo: José Barros e Mimmo Epifani
Intérprete: José Barros e Navegante
Versão original: José Barros e Navegante (in CD “À’Baladiça”, Tradisom, 2018)

Sou cavaleiro errante

[ Fado Mutante ]

Sou cavaleiro errante
Deserto, imensidão
E vou errando sempre buscando o Oriente
Secreto no meu coração

Sou cavaleiro ausente
Tão-só recordação
E vou atrás do vento que vem de Levante
E cheira a jasmim e açafrão

Um dia vou contar a minha história
Talvez assim me prestes atenção
Porque o que eu sou é parte da memória
Que a gente tem guardada num caixão

Ai este fado mutante
De lua emigrante
De tempo liberto
Ai esta sina minguante
Às vezes tão longe
As vezes tão perto

Tão longe, tão longe, tão perto…

Sou cavaleiro andante
Herói de uma ficção
E levo sempre a luz de uma estrela cadente
Na palma da minha mão…

Um dia vou contar a minha história
Talvez assim me prestes atenção
Porque o que eu sou é parte da memória
Que a gente tem guardada num caixão

Ai este fado mutante
De lua emigrante
De tempo liberto
Ai esta sina minguante
Às vezes tão longe
Às vezes tão perto

Tão longe, tão longe, tão perto…
Tão longe, tão longe, tão perto…
Tão longe, às vezes tão perto…
Tão longe, tão longe, tão perto…
Tão longe, tão longe, tão perto…
Tão longe, tão longe, tão perto…

Às vezes longe
Às vezes perto
Às vezes longe
Às vezes perto
Às vezes longe
Às vezes perto
Às vezes longe
Às vezes perto

Letra: J.J. Galvão (José João Oliveira Galvão)
Música: Rui Filipe Reis
Intérprete: Rosa Negra (in CD “Fado Mutante”, iPlay, 2011)

Sou filho de um deus menor

[ Adeus, Até um Outro Dia ]

Sou filho de um deus menor
E de um corrido maior
Mas seja lá o que for
Já nasci com esta dor

Cresci no fio da navalha
Sei a cartilha de cor
Num coração de canalha
Mora um pobre pinga-amor

Ai mas que triste a triste vida em que vive um desgraçado
Sempre a cavalo entre a desgraça e o fado malogrado

Muito boa noite, minhas senhoras, meus senhores!
Desculpem lá o meu atraso, cheguei tarde mas cheguei
E já que vim o melhor é eu cantar
E só não canto melhor porque eu não sei

A minha sorte na vida
Já adivinho qual é:
Ser uma rosa enjeitada
De que ninguém quer saber

Em tudo eu sou infeliz
Mesmo até no meu cantar
Põe-se a tremer a guitarra
Antes de me acompanhar

Vou-vos deixar depois de estar, ai, em tão bela companhia
No peito levo uma saudade, adeus, até um outro dia

Muito obrigado madames e cavalheiros
Mostrem lá os mealheiros para eu me motivar
E já que pedem vou-vos fazer a vontade
Que eu só canto pelo gosto de cantar

Vou-vos deixar depois de estar, ai, em tão bela companhia
No peito levo uma saudade, adeus, até um outro dia
Vou-vos deixar depois de estar, ai, em tão bela… em tão bela companhia
No peito levo… levo uma saudade, adeus, adeus, até um outro dia

Vou-vos deixar depois de estar, ai, em tão bela companhia
No peito levo uma saudade, adeus, até um outro dia

Muito obrigado madames e cavalheiros
Mostrem lá os mealheiros para eu me motivar
E já que pedem vou-vos fazer a vontade
Que eu só canto pelo gosto de cantar

Muito obrigado madames e cavalheiros
Os aplausos servem sempre para eu me consolar
E já que pedem vou-vos fazer a vontade
Que eu só canto pelo gosto de cantar

Letra: J.J. Galvão (José João Oliveira Galvão)
Música: Rui Filipe Reis
Intérprete: Rosa Negra (in CD “Fado Mutante”, iPlay, 2011)

Toda a saudade é fingida

[ Covers ]

Toda a saudade é fingida,
A tristeza disfarçada:
Parecem já não ter vida,
De fado não têm nada.

Já não são fados, são ‘covers’:
Imitações desalmadas,
Reproduções do destino
Tantas vezes tão cantadas.

Esses que tentam viver
Aquilo que outros viveram
Acabam por se perder
No tanto que não fizeram.

Vampiragem pós-moderna
Da Lisboa dos turistas:
Falam da velha taberna
Mas querem ser futuristas.

Letra: Duarte
Música: João do Carmo Noronha (Fado Pechincha)
Intérprete: Duarte* (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018)

Verdes ondas branca flor

[ Fado Azul (Se Azul se Atreve) ]

Verdes ondas branca flor
Cor-do-vento espuma breve
Verdes ondas branco-em-flor
Cor-do-vento espuma breve
Qualquer cor a do Amor
Beijo-azul p’ra quem se atreve
Qualquer cor a do Amor
Beijo-azul p’ra quem se entregue

Como barco rumo ao sul
No meu corpo a maresia
Como barco rumo ao sul
No meu corpo a maresia
À procura desse azul
Que o teu corpo prometia
Na procura desse azul
Naveguei-te até ser dia

Tão constante foste vaga
Tão ardente a maré-viva
Tão constante foste vaga
Tão ardente a maré-viva
Tua proa que naufraga
Nosso rasto de saliva
Tua proa que em mim naufraga
Nossas bocas à deriva

Este jeito de ser livre
Na prisão da tua boca
Este jeito de ser livre
Na prisão da tua boca
Sabe a tudo onde não estive
Lucidez que me põe louca
Sabe a tudo onde não estive
Lucidez é coisa pouca

Somos chuva tão precisa
Somos ventos do Magrebe
Somos ecos da Galiza
Somos tudo o que se perde
Somos língua que desliza
Como tudo o que se escreve
Somos beijo desta brisa
Beijo-azul se azul se atreve.

Letra: João Gigante-Ferreira
Música: Francisco Viana (Fado Vianinha)
Intérprete: Helena Sarmento*
Versão original: Helena Sarmento (in CD “Lonjura”, Helena Sarmento, 2018)

Voar

[ Fado em Branco ]

Voar
Sem culpa do mar
Que nunca se deita
Sentir
A chuva a cair
De vida insuspeita

Sofrer
A dor de morrer
Na dor imperfeita
Sorrir
Por dentro mentir
Verdade perfeita

Assim é a vida
De dor dividida
Cerrada no peito
Um barco à deriva
Verdade fingida
Doença sem leito

Eu bem que não queria
Saber algum dia
Que sempre serei
O vento do norte
Sem vida nem morte
Sem crime nem lei

Amar
De amor sufocar
A boca na boca

Florir
Ficar e partir
De tanto ser pouca

Vender
De graça o prazer
Sentir como louca

Chorar
Sem culpa do mar
Do beijo e da boca

Assim é a vida
De amor dividida
Cerrada no peito
Um barco à deriva
Mentira fingida
Doença sem leito

Eu bem que não queria
Saber algum dia
Que sempre serei
O vento do norte
Sem vida nem morte
Sem crime nem lei

Eu bem que não queria
Saber algum dia
Que sempre serei
O vento do norte
Sem vida nem morte
Sem crime nem lei

O verso da sorte
Sem que isso me importe
Saber que cheguei

Letra: João Gigante-Ferreira
Música: Samuel Cabral e João Gigante-Ferreira
Intérprete: Helena Sarmento*
Versão original: Helena Sarmento (in CD “Lonjura”, Helena Sarmento, 2018)

Retrato de Fernando Pessoa por Almada Negreiros

Há uma música do povo,
Nem sei dizer se é um fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado…

Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser…
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver…

Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção …
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração …

Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido…
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!

Intérprete: Mariza
Letra: Fernando Pessoa
Música: Mário Pacheco

Retrato de Fernando Pessoa por Almada Negreiros
Retrato de Fernando Pessoa por Almada Negreiros
Ana Laíns

A Verdade da Mentira

Coisas que o Mundo não me quer contar
Ou eu não sei entender;
Coisas que a vida me quer ensinar
E eu não quero aprender.

Será que os rios
Sabem o caminho do mar
P’ra lá chegar?
Ou alguém lhes vem mostrar?…

Se eu te contar a verdade
Sem te dizer quase nada,
Tu vais dizer com vontade
Que eu escondo a verdade calada.

Mas, se eu te contar a verdade
E te disser que é mentira,
Tu vais dizer com vontade
Que até a verdade se vira.

Por trás do muro há uma voz a falar,
Deste lado nada se vê;
Dizem-me sempre par’acreditar
Mas não me dizem em quê.

Tantas palavras cruzadas perdidas p’lo ar
E eu a pensar…
Como as hei-de eu arrumar?

Se eu te contar a verdade
Sem te dizer quase nada,
Tu vais dizer com vontade
Que eu escondo a verdade calada.

Mas, se eu te contar a verdade
E te disser que é mentira,
Tu vais dizer com vontade
Que até a verdade se vira.

Se eu te contar a verdade
Sem te dizer quase nada,
Tu vais dizer com vontade
Que eu escondo a verdade calada.

Mas, se eu te contar a verdade
E te disser que é mentira,
Tu vais dizer com vontade
Que até a verdade se vira.

Se eu te contar a verdade
Sem te dizer quase nada,
Tu vais dizer com vontade
Que eu escondo a verdade calada.

Mas, se eu te contar a verdade
E te disser que é mentira,
Tu vais dizer com vontade
Que até a verdade se vira.

Letra: Sebastião Antunes
Música: Paulo Loureiro
Arranjo: Paulo Loureiro e José Salgueiro
Intérprete: Ana Laíns (in CD “Portucalis”, Ana Laíns/Seven Muses, 2017)

*Ana Laíns – voz
Paulo Loureiro – piano
José Salgueiro – bateria e percussões
Bernardo Couto – guitarra portuguesa
Carlos Lopes – acordeão
Hugo Ganhão – baixo

Ana Laíns
Ana Laíns
Cristina Nóbrega, Ao Vivo no Chiado

A Saudade Não Existe

A saudade enlouqueceu
no dia em que tu partiste;
não sei o que é que me deu
se afirmei como um ateu
que a saudade não existe.

Então, o Fado fez pouco
da minha infelicidade
e nunca mais me deu troco.
Não sabe quem anda louco:
se sou eu ou a saudade

Coitado de quem a esquece,
nunca mais volta a ter paz.
Quando a saudade enlouquece,
a loucura é uma prece
com o Fado por detrás.
Coitado de quem a esquece,
nunca mais volta a ter paz.

A saudade ficou rouca
de tanto te ter chamado,
e anda de boca-em-boca;
comentam que ela está louca,
mas quem está louco é o Fado!

A Saudade Não Existe (A Saudade Enlouqueceu)
Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Joaquim Campos (Fado Amora)
Intérprete: Cristina Nóbrega
Versão original: Cristina Nóbrega (in CD “Um Fado para Fred Astaire”, Watch & Listen, 2014)
Outra versão de Cristina Nóbrega (grav. no Largo do Teatro Nacional de São Carlos, Lisboa, 29 Ago. 2014, in CD “Ao vivo no Chiado”, Watch & Listen, 2015)

Cristina Nóbrega, Ao Vivo no Chiado
Cristina Nóbrega, Ao Vivo no Chiado
Deolinda Rodrigues fadista

Um Fado para Fred Astaire

No silêncio do meu quarto… de incerteza
Não vos sei dizer se morro… ou ressuscito;
Faz-se noite quando parto… com tristeza
E talvez peça socorro… mas não grito.

Quem diria que os teus pés… de bailarino
Entrariam para a história… da saudade,
E que meio de viés… por teu destino
Brindarias à memória… que me invade?!

Quase toco a tua mão… presa ao ecrã,
Mas tropeço nos meus passos… sem esperança;
Não existe solidão… nem amanhã
Quando danço nos teus braços… de criança.

Eu é que sou a menina,… mas não quero,
E não vou mudar de idade… e ai de mim
Se a memória só termina… e volta a zero
Quando acabar a saudade… que é sem fim.

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Popular e Alfredo Duarte “Marceneiro” (Fado Menor com Versículo)
Intérprete: Cristina Nóbrega
Versão discográfica de Cristina Nóbrega (in CD “Um Fado para Fred Astaire”, Watch & Listen, 2014)
Versão original: Deolinda Rodrigues (inédita)

Deolinda Rodrigues fadista
Deolinda Rodrigues fadista
Cristina Nóbrega, Um fado para Fred Astaire

Um Quê de Eternidade

Talvez a solidão se torne um mito
pr’àqueles que se entregam à saudade,
pois se uma tem um pouco de infinito
a outra tem um quê de eternidade.

A solidão não sabe de quem gosta:
por isso é que elas andam sempre juntas,
porque uma é a pergunta sem resposta
e a outra é a resposta sem perguntas.

Mas é com a saudade que me entendo,
porque ela se apaixona só por quem
descobre em cada verso que vai lendo
que a solidão não gosta de ninguém.

Não sei porque é que vai baixando a voz,
nem sei porque é que esconde o que revela,
mas sei que se ela diz gostar de nós
já não aceita que gostemos dela.

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Raul Pereira (Fado Zé Grande)
Intérprete: Cristina Nóbrega
Versão original: Cristina Nóbrega (in CD “Um Fado para Fred Astaire”, Watch & Listen, 2014)

Cristina Nóbrega, Um fado para Fred Astaire
Cristina Nóbrega, Um fado para Fred Astaire
Alfredo Marceneiro

A Vida Que Há na Saudade

Quando o silêncio me diz
que a vida está por um triz,
e eu sei que fala verdade,
vou p’ra trás de uma guitarra
e a minha voz agarra
a vida que há na saudade.

Vem um fado e outro fado
e o coração, cansado,
diz que não quer sofrer tanto,
porque já sabe de cor
o que lhe faz o Menor
de cada vez que eu o canto.

Mas o guitarrista toca
uma guitarra que evoca
outra guitarra mais triste:
está guardada no meu peito
e toca um fado que é feito
da dor mais forte que existe.

Ao escutá-la no meu sangue,
o meu coração exangue
volta a bater com vontade:
e é nas cordas da viola
que a minha vida se enrola
na vida que há na saudade!

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Alfredo Duarte “Marceneiro” (Fado Cravo)
Intérprete: Cristina Nóbrega (ao vivo no Teatro da Luz, Lisboa)
Versão original: Cristina Nóbrega (in CD “Um Fado para Fred Astaire”, Watch & Listen, 2014)

Alfredo Marceneiro
Alfredo Marceneiro
Cristina Nóbrega

Quando o Mar nos Leva o Fado

Foi a maré que te trouxe,
foi o mar que te levou:
o nosso amor afogou-se,
nenhum de nós se salvou.

Só ficou a maresia:
tudo o resto foi levado,
como fica a poesia
quando o mar nos leva o fado.

Nesses instantes de medo,
a Mouraria discreta
guarda a guitarra em segredo
na viela mais secreta.

E nem mesmo a maresia
tem licença p’ra entrar
no bairro da Mouraria
quando alguém está a cantar.

Noutros bairros ribeirinhos,
onde há cheiro de marés,
chegam barcos pobrezinhos:
trazem fados no convés.

O nosso amor afogou-se
de tanto eu o ter chorado:
não sei dizer quem o trouxe,
mas quem o leva é o Fado.

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Alfredo Duarte “Marceneiro” (Fado Bailarico)
Intérprete: Cristina Nóbrega
Versão original: Cristina Nóbrega (in CD “Um Fado para Fred Astaire”, Watch & Listen, 2014)

Cristina Nóbrega
Cristina Nóbrega

Plantei um Cravo à Janela

Plantei um cravo à janela
Para dar ao meu amor;
Inventei a Primavera
Ao redor daquela flor.

Dei-lhe um pouco de ternura
E muito duma saudade;
À janela da loucura
Inventei a felicidade.

Fiquei à espera da bruma
Nas praias do coração;
À janela da loucura
Inventei uma paixão.

Plantei um cravo à janela,
Descobri a Primavera,
Para dar ao meu amor
Que já estava à minha espera.

Letra: Hélder Moutinho
Música: José Fontes Rocha (Fado Joana)
Intérprete: Joana Amendoeira (in CD “Amor Mais Perfeito: Tributo a José Fontes Rocha”, CNM, 2012)
Versão original: Joana Amendoeira (in CD “À Flor da Pele”, HM Música, 2006)
Outra versão de Joana Amendoeira (in CD/DVD “Joana Amendoeira & Mar Ensemble: Ao Vivo no Castelo de São Jorge”, HM Música, 2008)

Hélder Moutinho
Hélder Moutinho, créditos Jorge Gonçalves