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Janita Salomé
Cancioneiro

Canções políticas

Canções políticas

Letras

Ali Está o Rio

Ali está o rio,
Dois homens na margem estão;
Se um dá um passo, o outro hesita…
Será um valente? O outro não?

Bom negócio faz um deles,
Tem o triunfo na mão;
Do outro lado do rio
Só um come o fruto, o outro não.

Ao outro, passado o p’rigo,
Novos castigos virão;
Se ambos venceram o rio,
Só um tudo ganha, o outro não.

Na margem já conquistada,
Só um venceu a valer;
Perdeu o outro a saúde,
Mas nada ganhou p’ra viver.

Quem diz “nós” saiba ver bem
Se diz a verdade ou não;
Ambos vencemos o rio,
A mim quem me vence é o patrão.

Letra: José Afonso, a partir da versão portuguesa, por Luiz Francisco Rebello, da peça “A Excepção e a Regra”, de Bertolt Brecht (levada à cena pelo Teatro de Amadores da Beira, Moçambique, em 1966)
Música: José Afonso
Intérprete: José Afonso (in LP “Enquanto Há Força”, Orfeu, 1978, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art’Orfeu Media, 2013, Mais Cinco, 2023)

Reciclanda

Reciclanda, reutilização, música e poesia para um mundo melhor

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

É quando um chão de lama

[ Barca em Chão de Lama ]

É quando um chão de lama
se instala e nos comanda
que a injustiça avança
e a raiva se proclama
é quando D. Quixote
o peito acende e brama
irreverente a espada
imorredoura a chama
é quando os homens longe
repousam distraídos
que a cobra traiçoeira
lhes tapará os ouvidos
e a boca e o saber
e a vida tutelar
e o mais que for preciso
p’ra não deixar pensar

Mas sopra a barca o vento
doutra razão de ser
e rasga o mar e alcança
e rompe e quer viver
da ilha p’ra que rumo
não há qualquer registo
mas diz que viver lá
é muito mais que isto

da ilha p’ra que rumo
não há qualquer registo
mas diz que viver lá
é muito mais que isto

Que façam mil favores
em crónicas variadas
meus olhos e distâncias
nunca serão compradas
e comam futebol
e mostrai-vos ao mundo
e engulam três novelas
com tal não me deslumbro
ocupados de dia
com a bicha do guichet
entretidos à noite
com a santa mãe TV
matai-vos por um carro
ou p’ra ter lantejoulas
que aqui na minha terra
cavalgo entre as papoulas

Mas sopra a barca o vento
doutra razão de ser
e rasga o mar e alcança
e rompe e quer viver
da ilha p’ra que rumo
não há qualquer registo
mas diz que viver lá
é muito mais que isto

da ilha p’ra que rumo
não há qualquer registo
mas diz que viver lá
é muito mais que isto

E a busca do sucesso
e o detergente ideal
aquilo é que é progresso
agora em Portugal
o creme adelgaçante
e outras coisas de interesse
a escola do miúdo
o IVA o IRS e a bolsa e o poder
aquilo é mesmo assim
se um dia o totoloto
ah me calhasse a mim
e o tipo aqui do lado
morreu ontem de enfarte
e uma vez por ano
Agosto em toda a parte!

Mas sopra a barca o vento
doutra razão de ser
e rasga o mar e alcança
e rompe e quer viver
da ilha p’ra que rumo
não há qualquer registo
mas diz que viver lá
é muito mais que isto

da ilha p’ra que rumo
não há qualquer registo
mas diz que viver lá
é muito mais que isto

Letra e música: Pedro Barroso
Intérprete: Pedro Barroso (in CD “Criticamente”, Lusogram, 1999)

Envio-lhe esta missiva

[ Vozes do Sul – Carta à Senhora Dona Europa ]

Envio-lhe esta missiva
De profundo desagrado
Por vê-la assim cativa
De usurários encartados

Sujeita a novos tormentos
Subvertidas são as leis
Vampiros a sugam sedentos
Ceptro na mão velhos reis

As contas dos euro-réis
Somam mentiras e medos
Já nos tiraram os anéis
Mas não nos levam os dedos

Cantando ao sol e à lua
Vozes do Sul
Já ao fundo da rua
Vozes do Sul

As contas dos euro-réis
Somam mentiras e medos
Já nos tiraram os anéis
Mas não nos levam os dedos

Cantando ao sol e à lua
Vozes do Sul
Já ao fundo da rua
Vozes do Sul

Poema e música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé
Versão original: Janita Salomé (in CD “Valsa dos Poetas”, Cantar ao Sol/Ponto Zurca, 2018)

Receosa me sinto

[ Cartão-de-Visita ]

Receosa me sinto,
nas cantigas me empenho:
faço da escrita uma arma
que manejo com engenho.

Finjo que digo o que sei,
esqueço o que finjo saber,
e sei que sempre cantei
esta maneira de ser.

Escrevi canções de amor e ternura,
mas outras canções foram pão-de-amargura.

Sei que me falta o tempo
p’ra dizer tudo o que penso:
se calo chamam-me falsa,
se digo não tenho senso.

Não sou espelho de ninguém
nem engano no parecer,
e sei que sempre cantei
esta maneira de ser.

Escrevi canções de amor e ternura,
mas outras canções foram pão-de-amargura.

Receosa me sinto,
nas cantigas me empenho:
faço da escrita uma arma
que manejo com engenho.

Finjo que digo o que sei,
esqueço o que finjo saber,
e sei que sempre cantei
esta maneira de ser.

Escrevi canções de amor e ternura,
mas outras canções foram pão-de-amargura.

Letra e música: Maria Guinot
Intérprete: Maria Guinot (in CD “Tudo Passa”, Medilivro, 2004)

Senhoras e meus senhores

[ Uns Vão Bem e Outros Mal ]

Senhoras e meus senhores,
façam roda por favor!…

Senhoras e meus senhores,
façam roda por favor,
cada um com o seu par!
Aqui não há desamores,
se é tudo trabalhador
o baile vai começar.

Senhoras e meus senhores,
batam certos os pezinhos,
como bate este tambor!
Não queremos cá opressores,
se estivermos bem juntinhos
vai-se embora o mandador.

Faz lá como tu quiseres,
folha seca cai ao chão;
eu não quero o que tu queres,
que eu sou doutra condição.

De velhas casas vazias,
palácios abandonados,
os pobres fizeram lares;
mas agora todos os dias,
os polícias bem armados
desocupam os andares.

P’ra que servem essas casas,
a não ser p’ra o senhorio
viver da especulação?
Quem governa faz tábua-rasa,
mas lamenta com fastio
a crise da habitação.
E assim se faz Portugal,
uns vão bem e outros mal.

Faz lá como tu quiseres,
folha seca cai ao chão;
eu não quero o que tu queres,
que eu sou doutra condição.

Tanta gente sem trabalho,
não tem pão nem tem sardinha
e nem tem onde morar;
do frio faz agasalho,
que a gente está tão magrinha
da fome que anda a rapar.

O governo dá solução:
manda os pobres emigrar
e os emigrantes que regressaram;
mas com tanto desemprego,
os ricos podem voltar
porque nunca trabalharam.
E assim se faz Portugal,
uns vão bem e outros mal.

Faz lá como tu quiseres,
folha seca cai ao chão;
eu não quero o que tu queres,
que eu sou doutra condição. 

E como pode outro alguém,
tendo interesses tão diferentes,
governar trabalhadores,
se aquele que vive bem
vivendo dos seus serventes
têm diferentes valores?

Não nos venham com cantigas,
não cantamos p’ra esquecer;
nós cantamos p’ra lembrar
que só muda esta vida
quando tiver o poder
o que vive a trabalhar.
Segura bem o teu par,
que o baile vai terminar!

Faz lá como tu quiseres,
folha seca cai ao chão;
eu não quero o que tu queres,
que eu sou doutra condição.

Letra e música: Fausto Bordalo Dias
Intérprete: Fausto Bordalo Dias (in LP “Madrugada dos Trapeiros”, Orfeu, 1977, reed. Movieplay, 1999)

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/05/janita-salome.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-12 11:17:382025-06-20 23:06:19Canções políticas
São João
Cancioneiro

Canções aos santos populares

Canções aos santos populares

Letras

Cá vai a marcha

Intérprete: Cuca Roseta

Hoje há festa na rua

[ Balão ]

Hoje há festa na rua, as fitas já estão penduradas
A noite é longa, as sardinhas já estão assadas
Escrevi no meu balão, antes de o lançar,
Uma quadra de S. João só p’ra te falar

Ai, que o Santo António não se zangue
Mas eu hoje peço ao S. João
Que me traga o meu amor
Que o escrevi no meu balão

Tê-lo longe é bem mais duro que alho-porro no nariz
Ele anda por aí no mundo e nada me diz
O baile começou e eu sem par para dançar
O João Maria veio lampeiro com um manjerico p’ra me dar

Mas eu não quis
Ai, fado infeliz!

Ai, que o Santo António não se zangue
Mas eu hoje peço ao S. João
Que me traga o meu amor
Que o escrevi no meu balão

Há quadras, há festa, há bailes p’ra dançar
Há vinho do Porto e foguetes no ar
Mas meu amor não vai voltar
Ali vai meu coração na esperança de te encontrar

Na esperança de te encontrar…

Letra e música: Vânia Couto
Intérprete: Pensão Flor
Versão original: Pensão Flor (in CD “O Caso da Pensão Flor”, Pensão Flor/Brandit Music, 2013)

Pensão Flor

Pensão Flor

Letras aos Santos Populares

De várias regiões de Portugal

Santo António

Santo António é o primeiro
A trazer a gente à rua,
Santinho casamenteiro,
Juntou o Sol e a Lua.

Santo António de Lisboa

Santo António de Lisboa

É noite de Santo António
Estalam foguetes no ar;
Põem o manjerico á janela
E vem para a rua dançar.

Fiz quadras a Santo António
E até mesmo a São João
Para São Pedro vou tentar
Mas falta-me inspiração.

Quando chove a tarde inteira
Até a noiva molha a luva
São Pedro fecha a torneira
Não te armes em manda-chuva.

Santo António é a treze
São João a vinte e quatro
São Pedro a vinte e nove
São os Santos Populares
Que existem em Portugal.

Há marchas por todo o lado
E fogueiras para saltar
E as sortes para tirar
Há moças por toda a parte
Pois elas querem casar.

Santos Populares

Primeiro Santo António;
Depois São João;
Depois São Pedro
Para o fim da reinação.

Ora viva o mês de Junho
Viva o mês dos casamentos
Quem pedir ao Santo António
Não vai perder o seu tempo.

Porque o Santo é casamenteiro
Amigo das raparigas
A noite de Santo António
É a noite das cantigas.

As moças pedem ao Santo
Uma coisa que não têm
Porque nunca foram amadas
Precisam de amar alguém.

Ó meu senhor Santo António
Atendei ao meu pedido
Eu quero uma companhia
Senhor dê-me um bom marido.

Eu agradeço ao meu Santo
Te ponho um cravo na mão
Vem o dia vinte e quatro
O dia de S. João.

S. João é engraçado
E tem coisas divertidas
Vão á fonte buscar água
Para ver as raparigas.

Traz uma infusa na mão
De passinho miudinho
Para ver as moças chegar
Espera lá num cantinho.

A fonte de S. João
É uma nascente e tem valor
No alto de uma serra
Em que S. João é pastor.

Pastando suas ovelhas
De bordãozinho na mão
Anda sempre acompanhado
Quem andar com S. João.

Já lá foi vinte e quatro
Vamos para vinte e nove
Que tem muito que falar
S. Pedro Pescador
Tem muitas histórias para contar.

Memórias com História, Governo Regional da Madeira, Secretaria Regional da Educação e Recursos Humanos, Direção Regional de Educação, 2012 1 ed.

Reciclanda

Reciclanda

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Vamos todos marchar

Vamos todos marchar
Com o manjerico na mão
Para oferecer à eleita
Do seu terno coração.

Este dia de S. João
É um dia bem lembrado
Atum, maçaroca e feijão
Assim, ele é festejado.

As marchas de S. João
Fazemos com alegria
Cantamos e bailamos
Fazemos uma romaria.

Ó meu S. João de Braga
Ó meu belo marinheiro
Levai a nossa barca
Para o Rio de Janeiro.

Manjericão vira a folha
Quando o tempo está do mar
E também viro as costas
A quem não me sabe amar.

Na janela do meu quarto
Não quero manjericão
Dá-lhe o sol, vira a folha
Faz-me uma grande escuridão.

Recordo-me de ser criança
De ir à festa me alegrar
Ia-se à igreja ver o S. João
Depois, a casa regressar.

A fogueira é para saltar,
A brasa para assar,
A sardinha é para comer,
E o vinho para beber.

O passado é para recordar,
O presente para viver,
O futuro para aguardar
E a sardinha para comer.

São João para ver as moças,
Fez uma fonte de prata.
As moças não vão lá,
São João todo se mata.

Sardinhas e manjericos,
ando a cheirar pelo ar.
Que tal uma quadra fazer
ao meu Santo Popular?

São João,
São Joãozinho.
Quando não posso com o maior,
trago o mais pequenino.

Para fazer a fogueira,
vamos buscar pinhas ao Covão.
Depois saltamos a fogueira,
na noite de São João.

Nas marchas populares
Saltam cantigas aos molhos
Os corações se alegram
Com sorrisos nos olhos.

Neste dia de festa

Neste dia de festa
Traz uma cantiga e vem pró arraial
Anda rapariga prá nossa festa
E brincar no areal.

São os Santos Populares
Festa dos balões e manjericos
Os cheiros andam no ar
E adoçam os namoricos.

Ó meu rico São João
Dá-me cá um balão
P’ra na roda entrar
E cantar uma canção.

Ó meu rico São João
Arranja-me um rapaz solteiro
Que seja bom e bonito
E que tenha muito dinheiro.

Vou pedir-te um milagre
Meu São Pedro Padroeiro
Dá-nos sol e bom tempo
Durante o ano inteiro.

Ó meu rico São João
Venho aqui à tua beira
Colher uma lenhinha
P’ra acender a fogueira.

A São João vou cantar
Pois é dele este dia
E a todos vou desejar
Paz, Amor e Alegria.

São João lindo santinho
Os teus caracóis são d’ouro
E o teu alvo cordeirinho
É o teu maior tesouro.

Chamam-lhe o Santo bonito
Isso não sei se ele é
Mas nele eu acredito
E tenho devota fé.

Se eu saltar a fogueira
E queimadinha ficar
Não hei-de ser a primeira
A com o fogo brincar.

São Pedro

O São Pedro, é um artista,
Que diz aos jovens foliões;
Usem o beijo como isca
Para pescarem corações.

Com tanta gente a pecar
Do Jordão até ao Mondego,
São Pedro pode ir parar
Às portas do desemprego.

Oh! São Pedro pescador…
Ai que noite atribulada.
Fui pescar com o meu amor,
Fiquei com a rede furada.

S. Pedro é pescador
Lança ao mar sua barquinha
Rema, rema todo o dia
E só volta de tardinha.

S. Pedro sente-se feliz
Nas ondas no mar sagrado
Quem se junta a S. Pedro
Anda bem acompanhado.

Eu vejo que são corajosos
E suas almas são boas
Lançam as redes ao mar
Mesmo a volta das canoas.

Parecem ser honestos
Trabalham em união
Passa Jesus e convida-os
Para outra embarcação.

Vamos ao calhau

Vamos ao calhau de S. Jorge
Que há-de ser sempre lembrado
Porque em dia de S. Pedro
Estava sempre acompanhado.

À sessenta anos atrás
Eu lembro-me muito bem
Vinha gente de S. Jorge e de Santana
Também lá cantavam e brincavam
Passavam o dia bem.

A última festa que houve
Parece que estou a ver
A banda de Santana
Que foi bonito a valer.
E também comes e bebes
Melhor não podia haver.

Era uma vez por ano
Que esta festa se fazia
Pelas voltas do calhau
Saíam em romaria.

Ao chegar ao fim da tarde
Cantigas por toda a banda
Começavam no bailinho
E acabavam no charamba.

Eu vou dar por terminado
Tenho a caneta na mão
Agora já não fazem festas
Acabou a tradição.

[ Madeira ]

A fogueira é para saltar

A fogueira é para saltar,
A brasa para assar,
A sardinha é para comer,
E o vinho para beber.

O passado é para recordar,
O presente para viver,
O futuro para aguardar
E a sardinha para comer.

São João para ver as moças,
Fez uma fonte de prata.
As moças não vão lá,
São João todo se mata.

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/05/sao-joao.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-12 12:31:292025-04-07 19:15:33Canções aos santos populares
Porto, coreto da Cordoaria
Cancioneiro

Canções sobre a cidade

Canções sobre a cidade

Letra

Cheiro bom

[ Há Vida no Bairro ]

Cheiro bom
Risos e gente a conversar

No jardim
homens que sabem o que jogar

Há mais um
vizinho novo para cantar

A canção
marcha que o Bairro há-de ganhar

E tu quem és? De donde vens?
Porque não te chegas mais?
Vem cá ver, acreditar
que as pessoas são bens reais!

Ser feliz
é nunca mais voltar
a estar só

No jardim
falta uma peça
ao dominó

Sê mais um
para mostrar como se canta
em dó

Aprender
como se dança
sem levantar pó

O que é meu é p’ra dar
Deus não quer tralha no Céu
Não há nada p’ra guardar
Viver já é um troféu

O que é meu é p’ra dar
Deus não quer tralha no Céu
Não há nada p’ra guardar
Viver já é um troféu

Ser feliz
é nunca mais voltar
a estar só

No jardim
falta uma peça
ao dominó

Sê mais um
para mostrar como se canta
em dó

Aprender
como se dança
sem levantar pó

Letra: Eugénia Ávila Ramos
Música: Tiago Oliveira
Intérprete: Rua da Lua (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)

Reciclanda

Reciclanda

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Contacto

António José Ferreira
962 942 759

Pássaros voam livres

[ Pássaros da Cidade ]

Pássaros voam livres
Num impulso de asas
Planando em anéis invisíveis
Asfixiados pelas nuvens.
Pelas nuvens…

Pássaros pairando
Em tudo constantes
Com gestos de arestas vivas
Que se levantam da cidade,
Da cidade…
E nos refreiam as pulsações,
As pulsões, corações.

Cidade, labirinto de esquinas
E grades intangíveis.
Cidade, labirinto de esquinas
E grades intangíveis.

Pássaros voam livres
Num impulso de asas
Planando em anéis invisíveis
Pássaros voam livres
Num impulso de asas…

Letra: Joana Lopes
Música: António Pedro
Intérprete: Musicalbi
Versão original: Musicalbi (in CD “Solidão e Xisto”, Musicalbi, 2019)

Porto, coreto da Cordoaria

Porto, coreto da Cordoaria

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/05/porto-coreto-da-cordoaria-ft-ajf.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-11 22:18:502024-11-11 00:20:06Canções sobre a cidade
Sérgio Godinho
Cancioneiro

Canções sobre Música

Canções sobre música

Letra

A música é tamanha

[ Mão na Música ]

A música é tamanha,
cabe em qualquer medida.

Da sua mão sobe o ar ao infinito, de lá treme.
A música, por um lado, vê-se; por outro, não se vê.
Nada da música se improvisa por acaso.
A música corre nas gargantas e pode ser tocada com um só dedo.
A música mostra-se feia para os seus pares e bela para os seus ímpares.
A música emudece, por vezes, os cantores e deixa-os a sós nos camarins à espera do amigo do carrasco.
A música não é a mesma quando ouvida de longe ou quando ouvida de perto.
A música não tem explicações a dar a si mesma: isso explica tudo.
A música dá asas a quem voa: a quem tem asas para voar.
A música faz aos poemas aquilo que os poemas quiseram fazer dela: render-se.
E aos outros propõem: rendam-se! Tréguas e batalhas sem ordem de aviso.

A música é tamanha,
cabe em qualquer medida.

A música referenda a liberdade? Sim ou não?
A música depende dum botão da liberdade e desunha-se a mostrar os efeitos de num dedo a voz humana.
A música faz orelhas moucas.
A música não se esquece no silêncio: por isso, nos lembramos dela. Permanece em mais que um som.
A música vai, por vezes, mais alto e duma torre afunda o eco no centro da terra.
A música aguenta-se de pé, dorme sentada, dança e escorrega na cama.
A música pausa e pausa, faz das malas a viagem mas se acena, já de longe…
A música atira os seus poemas ao mar e recebe-os nas ondas do dia seguinte, nas garrafas outro povo. A música perdeu muitos bons poemas no vento contrário, quem sabe eram bons?
A música é uma cópia duma cópia, de cara aberta vai ao fundo e vem à tona por respiração.
A música é uma revolução de estilos, é do passarinho herdeira órfã.
A música é órfã. Quando nasceu, os seus pais tinham morrido há pouco. É órfã.

A música é tamanha,
cabe em qualquer medida.

A música esfrega os dedos em tudo o que der som.
A música nunca teve, em si mesma, uma moral; pensa que não pensa e que não perdura.
Diz-se que faz muito bem ouvi-la; alguém que pense e que perdure por ela.
A música não tem barreiras, mas o amor por ela sim.
A música prepara-se, destroçada mas vaidosa, para confessar tudo ao cair do sol.
A música chora e ri ao mesmo tempo: uma criança por razões não exactamente compreensíveis.
A música quer ser perfeita, sempre que por escolha é imperfeita.
Por talento, dá-se a todas: a bondade, a presunção, ressentimento e, mais não fosse, a quatro tempos.
A música de repente é a mesma nota repetida e outras vezes.
A música mede-se com caneta e gravador. É maior e é menor.
A música quando se encontra já lá está.
A música nasceu antes de nós termos nascido com ela.
A música segue a sua sombra e pela sombra é fácil, não há espelho.
Ou é ritmo ou é pausa. Ambos dúbios mas reconhecíveis.

A música é tamanha,
cabe em qualquer medida.

A música é feita à janela e aberta vê-se da rua.
A música eriça-se ao menor vento, arranha-se a si mesma, ladra ao ar, risca a terra. Gosta mesmo.
A música quando a chuva cai com barulho de entre as nuvens, vê-se o mar em dia de acalmia, o que não é explicável nem por norma nem por excepção dos deuses: digamos que são os sons em dia de ofertório.
A música vai de rio e desagua: aquece a água doce, rebenta no mar salgado, larga os seus bichos no mar.
A música tem duas mãos, é tocada com um só peito e um só dedo. Da música sobe o ar ao infinito.
A música tem um só dedo e um só dedo. A música tem um só dedo e um só dedo.
Nada da música se improvisa por acaso.

A música é tamanha,
cabe em qualquer medida.

Letra e música: Sérgio Godinho
Intérprete: Sérgio Godinho (in CD “Mútuo Consentimento”, Universal Music, 2011)

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O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

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A Música

[ A Música Inventa o Lume ]

A música está coberta
com um manto. E dessa névoa
sai um uivo que poisa na água
e inventa o lume.

É a voz das fragas e o riso,
uma mulher que bate num cântaro
para afastar os pássaros dos lagares.
De uma cordilheira levanta-se
um corvo. A planície, a seu lado,
transforma-se num imenso rio onde
nascem os limões e a tarde cai
como se fosse um toldo de marfim.

A música está coberta
com um manto. E dessa névoa
sai um uivo que poisa na água
e inventa o lume.

É a voz das fragas e o riso,
uma mulher que bate num cântaro
para afastar os pássaros dos lagares.
De uma cordilheira levanta-se
um corvo. A planície, a seu lado,
transforma-se num imenso rio onde
nascem os limões e a tarde cai
como se fosse um toldo de marfim.

O lume arde nesta paisagem
reencontrada e todos os objectos
se viram de repente, em êxtase,
anunciando o vinho.

O lume arde nesta paisagem
reencontrada e todos os objectos
se viram de repente, em êxtase,
anunciando o vinho.

Poema: Jaime Rocha
Música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé (ao vivo no Estúdio 3 da Rádio e Televisão de Portugal, Lisboa)
Versão original: Janita Salomé com Luanda Cozetti (in CD “Valsa dos Poetas”, Cantar ao Sol/Ponto Zurca, 2018)

Apoiou o arco suavemente

[ Bendita Música ]

Apoiou o arco suavemente sobre as cordas
E atacou com toda a naturalidade
Mi fá mi ré dó ré mi fá
E uma a uma dissecou cada passagem
Com preciso e afiado bisturi
Fá sol fá mi ré dó ré mi

E espalhou aos quatro ventos os risos e os lamentos
Era o sangue posto em pé
Sol lá sol fá mi ré dó ré
Aprisionado era um grilo que chamava a sua amada:
Estou aqui!
Fá ré si lá fá dó si lá sol sol lá si

Esquece tudo e vem comigo!
Vibrava mágica a voz do músico
Parindo música…
Música bendita música:
Lá dó si si lá sol lá

Em consequência de uma ousada pirueta
Que o intérprete salvou com frialdade
Mi fá mi ré dó ré mi fá
Meu coração foi pelos ares como um cometa
Pressentindo que andavas por ali
Fá sol fá mi ré dó ré mi

E com a angústia e o talento do final do movimento
Não te encontrava. Porquê?
Sol lá sol fá mi ré dó ré
E entre as cadeiras da segunda galeria, descobriu-te:
Eras de mim!
Fá ré si lá fá dó si lá sol sol lá si

Esquece tudo e vem comigo!
Vibrava mágica a voz do músico
Parindo música…
Música bendita música:
Lá dó si si lá sol lá

Letra e música: Fernando Tordo
Arranjo: Josep Mas “Kitflus”
Intérprete: Fernando Tordo (in CD “Peninsular”, Fernando Tordo, 1997)

Assim tão simples

[ Música, Música ]

Assim tão simples
Tão luminosa
Como mulher num dia doce
Ai como rosa
Assim tão simples
Ainda nada
Assim te vi e te abracei e fiz-me à estrada

Sem eu saber ali nascia
E quem começa já não consegue parar
Ali sentia, ali fervia
E foi nela que aprendi a navegar

Música
Eterna música
Maldita música
Sempre mulher
Música
Apassionata
Só não te ama quem não sabe acontecer

Música
De dia música
À noite música
Dentro de mim sem eu saber
Música
Íntima música
De madrugada para melhor te conhecer

Música
Amor e música
Beleza e música
Poesia de existir
Música
Insónia e música
Não reconheço outra forma de viver

Como os teus lábios, como um corpo, como dança
E a fantasia numa história de criança
Assim me minto
Assim resisto
Pois este mundo de gravatas e favores
Ai, de negócios e messias salvadores
Ai, meus senhores
Nós construímos muito mais que tudo isto

Nós fazemos
Música
Eterna música
Maldita música
Sempre mulher
Música
Apassionata
Só não te ama quem não sabe acontecer

Música
De dia música
À noite música
Dentro de mim sem eu saber
Música
Íntima música
De madrugada para melhor te conhecer

Música
Amor e música
Beleza e música
Poesia de existir
Música
Insónia e música
Não reconheço outra forma de viver

Poema e música: Pedro Barroso
Intérprete: Pedro Barroso
Versão original: Pedro Barroso (in CD “Cantos da Paixão e da Revolta”, Ovação, 2012)
Outra versão: Pedro Barroso (in CD/DVD “Memória do Futuro: Ao vivo no Rivoli”, Ovação, 2013)

Pedro Barroso

Pedro Barroso

Eu só quero

[ Música ]

Eu só quero a música,
Essa amante incerta, ingrata,
Que me vence e persegue,
Mais parece que me mata.

Eu deixo-me encantar
Na cantiga do bandido,
Nas promessas que ela faz
Quando faz amor comigo.

Logo me deixo tomar
Com fogo e mansidão;
Ela pede o que não dá:
Cobra em dor e sem razão.

És mais forte do que a força
Que me esventra sem quebrar;
Dás o sopro, tiras fôlego,
Não há como te deixar.

Eu deixo-me encantar
Na cantiga do bandido,
Nas promessas que ela faz
Quando faz amor comigo.

Logo me deixo tomar
Com fogo e mansidão;
Ela pede o que não dá:
Cobra em dor e sem razão.

És mais forte do que a força
Que me esventra sem quebrar;
Dás o sopro, tiras fôlego,
Não há como te deixar.

Quanto mais tomas e prendes,
Mais eu tenho p’ra te dar:
Abro as portas, desarmada,
Para ti, de par em par.

Quanto mais tomas e prendes,
Mais eu tenho p’ra te dar:
Abro as portas, desarmada,
Para ti, de par em par;

Para te fazer a deusa,
A reza, o meu altar.
Para te fazer a deusa,
A reza, o meu altar.
Para te fazer a deusa,
A reza, o meu altar.

Letra: Ana Barroso
Música: José Peixoto
Intérprete: Ana Barroso (in CD “Diário”, Ana Barroso, 2014)

Músicos, Cravos e Rosas

É pela música
que encantas os sentidos,
apurados pelos sonhos
mais antigos
de entender a emoção
e a alegria,
provocado o coração,
em agonia.
Vais levado pelo vento,
pelos sons do pensamento.

Cravos
são livres, são bravos.
Rosas
são belas, são prosas.

É pelo som do mar
no canto das sereias,
que te vão contar
compassos e colcheias,
mas tu és o tempo forte
e o agasalho.
Tempo fraco não é sorte,
é trabalho.
Vais levado pelo vento,
pelos sons do pensamento.

Cravos
são livres, são bravos.
Rosas
são belas, são prosas.

Quem te compra
cria garras de encantar.
Vendes a alma?
Essa não se pode comprar.
Na viagem pelos sons
desta braguesa
ouço histórias
de uma canção portuguesa.
É uma luta contra o vento,
não se vende o pensamento.

Cravos
são livres, são bravos.
Rosas
são belas, são prosas.

Cravos e rosas.

Letra e música: José Barros
Arranjo: José Barros
Intérprete: José Barros e Navegante (in CD “À’Baladiça”, Tradisom, 2018)

José Barros e Navegante, À'Baladiça

José Barros e Navegante, À’Baladiça

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/05/sergio-godinho-cantautor.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-11 22:10:472024-11-13 04:29:19Canções sobre Música
Danças e folias
Cancioneiro

Canções sobre Dança

Canções sobre dança

Letras

Acertando o passo

[ Bulia o Baile ]

Acertando o passo ou nem tanto
escorregavam do lamento ao canto;
Sorrindo ao pisar e às estrelas
as promessas ateavam alvas velas.

Ardentias do amor anunciadas
vindouras dores eram semeadas;
No céu, o néon, luzem pregões,
desditas eram. Pintavam corações.

Bulia o baile,
buliam as raparigas
se levadas nas cantigas
e repetidos o par.

Bulia o baile,
buliam as raparigas
se levadas nas cantigas
e repetidos o par.

Eram olhares repetidos,
eram perfumes sentidos
misturados com o arfar.

Veredas de barro e de fel,
aço entrançado, favos de mel,
desejos jurados sem hesitar,
barca dos sonhos a navegar.

As canções meladas ao ouvido
eram cruzadas, no seu sentido;
e os passos que davam a saber
era o amor louco a acontecer.

Bulia o baile,
buliam as raparigas
se levadas nas cantigas
e repetidos o par.

Bulia o baile,
buliam as raparigas
se levadas nas cantigas
e repetidos o par.

Eram olhares repetidos,
eram perfumes sentidos
misturados com o arfar.

Letra e música: Lindolfo Paiva
Intérprete: Dialecto* (in CD “Aromas”, Dialecto/Cloudnoise, 2011)

Baile

Canções de baile

Dança comigo

Dança comigo, morena
Leveza de pena
Esta dança breve
Dança e rodopia
Solta-me a alegria
De quem nada deve

Acende-me a cara, o rosto
Os lábios de mosto
Riso de marfim
Requebra a cintura
Que és a criatura
Nascida p’ra mim

Vamos, a dança é louca
Dá-me a tua boca
Que este beijo é meu
Dança comigo, amada
Que eu já estou na escada
Que me leva ao céu

Ao som da concertina
(Cinturinha fina
Pele de cetim)
Dança, meu amor
Não sei doutra flor
Que bem dance assim

Dança com fantasia
No fim deste dia
Que se vai embora
No passo da vida
Dancemos, querida
Que é a nossa hora

Vamos, a dança é louca
Dá-me a tua boca
Que este beijo é meu
Dança comigo, amada
Que eu já estou na escada
Que me leva ao céu

Vamos, a dança é louca
Dá-me a tua boca
Que este beijo é meu
Dança comigo, amada
Que eu já estou na escada
Que me leva ao céu

Ah vamos, que a dança é louca
Dá-me a tua boca
Que este beijo é meu
Dança comigo, amada
Que eu já estou na escada
Que me leva ao céu

Letra e música: Aníbal Raposo (2006-09-26)
Intérprete: Aníbal Raposo (in CD “Rocha da Relva”, Aníbal Raposo/Global Point Music, 2013)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Dançava, dançar, dançou

[ Saias das Sete Saias ]

Dançava, dançar, dançou,
Cantou e alegre cantava…
Se a vida alegre voou
A vida triste lhe paga;
Dançava, dançar, dançou,
Cantou e alegre cantava.

Sete saias rompia,
Sete saias rompeu…
Do nascer ao fim do dia
Muitas saias conheceu;
Sete saias rompia,
Sete saias rompeu.

Diz o povo sem lamúrias
Que a terra lhe paga em vida…
Que a morte lhe tira os dias
E só lhe dá a guarida;
Diz o povo sem lamúrias
Que a terra lhe paga em vida.

Sete saias rompia,
Sete saias rompeu…
Do nascer ao fim do dia
Muitas saias conheceu;
Sete saias rompia,
Sete saias rompeu.

Quando as saias compridinhas
No final da ceifa ou monda
Eram todas mais curtinhas,
Quase uma saia redonda…
Quando as saias compridinhas
Eram todas mais curtinhas.

Sete saias rompia,
Sete saias rompeu…
Do nascer ao fim do dia
Muitas saias conheceu;
Sete saias rompia,
Sete saias rompeu.

Da terra se faz a história
Que um povo diz a cantar…
A terra só tem memória
E tem muito p’ra contar;
Da terra se faz a história
Que um povo diz a cantar.

Sete saias rompia,
Sete saias rompeu…
Do nascer ao fim do dia
Muitas saias conheceu;
Sete saias rompia,
Sete saias rompeu.

Letra e música: José Barros
Arranjo: José Barros
Intérprete: Navegante com Janita Salomé (in CD “Meu Bem, Meu Mal”, Tradisom, 2008)

Quantas voltas tem a dança

[ Se Ainda Der para Disfarçar ]

Quantas voltas tem a dança em tantas voltas contadas?
Um segredo de criança escondido em mil gargalhadas
Tantas mãos que foram dadas na ternura de um abraço
Quantas vontades caladas na volta meiga de um passo

Quantas horas de viagem na alegria de te ver?
Quanta falta de coragem, tanta coisa por dizer
E acabamos a esconder, vá-se lá saber porquê
Nestas coisas do querer os sinais são p’ra quem os lê

Dá-me uma dança, faz-me acreditar
Uma lembrança p’ra eu levar
Que eu tenho sempre vontade de voltar e te dizer
Se ainda der p’ra disfarçar
Ensina-me a dançar

Faz de conta que o poente acontece a qualquer hora
Quando a noite se faz quente e um beijo se demora
Já o frio se foi embora ao tocar da tua mão
Que há-de ser de nós agora? Faz sentido: sim ou não?

Dá-me uma dança, faz-me acreditar
Uma lembrança p’ra eu levar
Que eu tenho sempre vontade de voltar e te dizer
Se ainda der p’ra disfarçar
Ensina-me a dançar

É a valsa do começo, é a vida a esvoaçar
É a pele a soltar um arrepio
É uma cor que eu não conheço, um sabor de acreditar
Uma praia cor de um desafio

Dá-me uma dança, faz-me acreditar
Uma lembrança p’ra eu levar
Que eu tenho sempre vontade de voltar e te dizer
Se ainda der p’ra disfarçar
Ensina-me a dançar

Ensina-me a dançar
Ensina-me a dançar
Ensina-me a dançar

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes (in CD “Singular”, Sebastião Antunes & Quadrilha/Alain Vachier Music Editions, 2017)
Versão original: Sebastião Antunes (in CD “Cá Dentro”, Vachier & Associados, 2009)

Danças e folias

Sete saias da Nazaré

Sete portadas

[ Baile das Vozes ]

Sete portadas
De pedra,
E mais sete
De madeira

Sete meninas
Sentadas
Outras sete
Na ladeira

Foram lavar
Suas vestes
Toda a noite
Noite inteira

Menina que olhos
Esses que me
Encantam
De maneira

E neste baile
Cruzado,
Sete cruzes
Se transformam,

Em redor
Do seu amado
Sete vénias
Que se
Formam…

Ficam
Bailando
Num pé
E no outro
Saltitando,

Cinco meninas
Saíram
E só duas
Vão ficando!…

E se acordarem
Os santos
Num bailado
De folia

Juntam-se as vozes
À noite
Bailam apenas
De dia!…

Menina que dança
E canta,
E seu canto
É noite fria!

E rodopia cantando,
No seu baile
De alegria!…

Letra: José Flávio Martins
Música: José Flávio Martins e Rui Tinoco
Intérprete: Frei Fado d’El Rei (in CD “Em Concerto”, Açor/Emiliano Toste, 2003)

Sorvem-me o sangue

[ Trocaram-me a Dança! ]

Sorvem-me o sangue,
Deixam-me exangue,
Ceifam-me a vida na terra prometida.

Tolhem-me a esperança,
Trocam-me a dança,
Solta-se o grito na raiva incontida.

Sorvem-me o sangue,
Deixam-me exangue,
Ceifam-me a vida na terra prometida.

Tolhem-me a esperança,
Trocam-me a dança,
Solta-se o grito na raiva incontida.

Na dança da vida com o passo trocado,
Na dança das fitas estou no filme errado;
Destroços de sonhos errantes na serra
Espezinham-me a flor…, tenho a Primavera.

Cercam-me o tempo,
Varrem-me o alento,
Ferem-me o voo, a paixão e o sustento.

Lanço a semente,
Rasgo o silêncio,
Cerro a decência, declino ser inocente.

Na dança da vida com o passo trocado,
Na dança das fitas estou no filme errado;
Destroços de sonhos errantes na serra
Espezinham-me a flor…, tenho a Primavera.

Cercam-me o tempo,
Varrem-me o alento,
Ferem-me o voo, a paixão e o sustento.

Letra e música: Álvaro M. B. Amaro
Intérprete: Dialecto* (in CD “Aromas”, Dialecto/Cloudnoise, 2011)

Vai ao centro

[ Centro ao centro ]

Vai ao centro, vai ao meio!
Agora vou andar
Com meu amor em passeio;
Agora é que eu vou andar
Com meu amor em passeio.

Vá de roda, cantem todas
Cada qual sua cantiga!
Eu também cantarei…
Eu também cantarei uma
Que a mocidade me obriga.

Vá de roda, cantem todas
Cada qual sua cantiga!
Que eu também cantarei uma
Que a mocidade me obriga.

Vai ao centro!…

Moda:

Vai de centro ao centro ao centro!
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou andar
Com meu amor em passeio.

Com meu amor em passeio,
Com meu bem a passear,
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou andar…

Cantiga:

Vá de roda, cantem todos
Cada qual sua cantiga!
Que eu também cantarei uma
Que a mocidade me obriga.

Moda:

Vai de centro ao centro ao centro!
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou andar
Com meu amor em passeio.

Com meu amor em passeio,
Com meu bem a passear,
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou andar…

Moda:

Vai de centro ao centro ao centro!
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou andar
Com meu amor em passeio.

Com meu amor em passeio,
Com meu bem a passear,
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou andar…

Cantiga:

Minha mãe, p’ra m’eu casar,
Ofereceu-me uma panela;
Depois de me ver casada,
Partiu-me a cara com ela.

Moda:

Vai de centro ao centro ao centro!
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou andar
om meu amor em passeio.

Com meu amor em passeio,
Com meu bem a passear,
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou… andar…

Centro ao Centro (dança de roda)
Letra e música: Tradicional (Ourique / Castro Verde, Baixo Alentejo)
Informantes: Grupo Coral e Etnográfico “As Papoilas do Corvo” (Aldeia do Corvo, Castro Verde), Manuel Bento (Aldeia Nova, Ourique) e Pedro Mestre (Sete, Castro Verde)
Recolha: Lia Marchi (in “Caderno de Danças do Alentejo”, Associação Pédexumbo e Olaria Cultural, 2010 – p. 34-35)
Intérprete: Aqui Há Baile (in CD “Caderno de Danças do Alentejo – adaptações”, Associação Pédexumbo/Caracol Secreto, 2013)

Papoilas do Alentejo
Papoilas do Alentejo

Vai de roda

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda que é tão breve;
Tenho uns amigos na roda,
Tenho uns amigos na roda,
Deixam a roda mais leve.

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda alguns amores;
Quantos mais amores na roda,
Quantos mais amores na roda
Mais te perseguem as dores.

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda até ao fim;
Já tentei fugir da roda,
Já tentei fugir da roda
Mas ela rodou por mim.

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda sem parar;
Quem nunca esteve na roda,
Quem nunca esteve na roda
Não pode a roda enganar.

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda até ao fim;
Já tentei fugir da roda,
Já tentei fugir da roda
Mas ela rodou por mim.

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda sem parar;
Quem nunca esteve na roda,
Quem nunca esteve na roda
Não pode a roda enganar.

Letra e música: Duarte (Outubro de 2010)
Intérprete: Duarte, com Mara (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018)
Versão original: Duarte (in CD “Sem Dor Nem Piedade”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2015)

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/11/sete-saias.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-11 22:05:282024-11-02 06:07:51Canções sobre Dança
Caruma
Diversos

Poemário Folk

Coragem

Coragem é ter cabeça dura
sem contrair defesas veneráveis
paro, fico tolo, não quero viver
passa tudo quando estou ao pé de ti
e se ela quer só trocar transpiração
não posso dar a minha desprovida
em todo o suor vai um coração
que à partida há-de ter volta após a ida
sacrifica-se a memória e recalco o que passou
isto que aqui está é outra história e vou ser mais do que fui
o tribunal conclui que o réu está bom
heróis do mar
somos tão valentes
mas a paixão dá cabo da força
preciso de ti p’ra ficar perto de mim
passa tudo quando te distrais de ti
e se amanhã me apareceres à frente
com intenções e alma decotada
a transpiração fica cheia de razão
fim do filme, pôr-do-sol de mãos atadas
sacrifica-se a memória e recalco o que passou
isto que aqui está é outra história e vou ser mais do que fui
o tribunal conclui que o réu está bom
o mal que pode correr é inversamente proporcional
ao bem que te pode fazer, ao bem
compro uma matilha p’ra não teres medo de mim
dizes que estás desacreditada
e já não lês histórias da carochinha
tu julgas que não mas sou o teu João Ratão
e mulher podes escrever que vais ser minha
tu julgas que não mas sou o teu João Ratão
e mulher podes escrever que vais ser minha
sacrifica-se a memória e recalco o que passou
isto que aqui está é outra história e vou ser mais do que fui
o tribunal conclui…
o tribunal conclui que o réu está bom

Letra e música: Carlos Oliveira Martins
Intérprete: A Caruma* (in CD “Hóstia de Mentol”, Caruma & Alain Vachier/Alain Vachier Music Editions, 2016)

Desenraizado

[ Fado ]

Desenraizado, não sei cantar fado nem sou popular
estou sempre ali perto dum país incerto a apanhar do ar
não sei ser de Alfama, não tenho saudade, eu nem sou daqui
então concentro de fora p’ra dentro a minha raiz
estás desgraçado, rapaz, oxalá não te percas
este país está dentro de ti
encadernado e usado com palavras certas
quem serás tu neste mundo se não és daqui?
beira mal plantado, cantinho encostado com sabor a nós
eu sou neste mundo Portugal profundo que já teve voz
se faço perguntas, se sou ou não fado, se ele já foi meu
passadas vitórias, vivo numa inglória, num país-museu
e tudo o que aqui resta sou só eu
estás desgraçado, rapaz, oxalá não te percas
este país esta dentro de ti
encaixotado e usado com palavras certas
quem serás tu neste mundo se não és daqui?
santificado é o fado de aceitar o fado de ser português
é um Bandarra, é Vieira, Pessoa que cheira a Pedro e Inês
ser Portugal é a sina, maldição divina de gente que crê
ser Portugal é a sina, maldição divina de gente que crê

Letra e música: Carlos Oliveira Martins
Intérprete: Caruma* com José Medeiros (in CD “Hóstia de Mentol”, Caruma & Alain Vachier/Alain Vachier Music Editions, 2016)

Estás armado em parvo

[ Minar a Liberdade ]

Estás armado em parvo mas está tudo bem
vou ali num instante desmembrar alguém
vícios separados do tutano
limpo o coração muito muito bem
energia dura sem pátria ou poluição
pura das entranhas mas fora da pele não
e eu não fui
chega-te p’ra lá, toma lá dá cá
vais-me abandonar e eu vou já atrás
sarilhos que metem aviões
e sexo são arranca-corações
não te vejo aqui mas está cheio de ti aqui
esgueiraste o veneno e tu pensas que eu não vi
mas não sou tão drogada assim
eu não fui
eu sei que tudo passa e que vem tudo outra vez
sou da tua raça mas em fraco e tu não vês
isto de ser gente um p’ró outro
mais valia sermos tortos
e amar tudo de uma vez
aí está ele a minar a liberdade
estraguei outra vez depressa de mais
vais-te alimentar de mim com vontade
sou bicho-de-conta por medo de mim
mas é que se não for às cegas não vou
se não for com trapos e malas não vou
e escuto um grande “não” quando sussurras que sim
o teu magnetismo explica tanto cinismo
e a ser alguém que sejas tu
eu não fui
eu sei que tudo passa e que vem tudo outra vez
sou da tua raça mas em fraco e tu não vês
isto de ser gente um p’ró outro
mais valia sermos tortos
e amar tudo de uma vez
aí está ele a minar a liberdade
aí está ele a minar a liberdade
aí está ele a minar a liberdade
aí está ele a minar a liberdade
estás armado em parvo mas está tudo bem
vou ali num instante desmembrar alguém
vícios separados do tutano
eu não fui

Letra e música: Carlos Oliveira Martins
Intérprete: A Caruma* (in CD “Hóstia de Mentol”, Caruma & Alain Vachier/Alain Vachier Music Editions, 2016)

Quando dizes que a cerveja

[ Magnetismo em Riste ]

Quando dizes que a cerveja fez-te apaixonar por mim
foi por ela que deixaste de gostar de mim assim
que a boémia dá-me charme
que sou magnetismo em riste
que sou suor e sou carne
e sou ressaca de triste
ansioso e mal amado
estou de fora a ver-me a ser
sou assim encurralado
com bons modos a “des-ser”
catadupa em dissonante
por mais cantigas que cante
vou morrer sem mudar nada
dou-me armas e bagagens
dormente de encharcado
faço quatro mil viagens
e não vou p’ra nenhum lado
quero ser sem comprimidos
quero que sejas de mim
esperar mais é dar-me a morte
medicada pelo fim
canto de pupilas gastas
hipertenso cheio de sede
amanhã não me procures
amanhã não tenho rede
catadupa em dissonante
por mais cantigas que cante
vou morrer sem mudar nada
sei saltar de corpo em corpo
encarnado em ser melhor
sei ser um corpo no teu corpo
nasci a saber de cor
sou moldado a respirar
mando rajadas de sangue
e sai tudo disparado
e sai tão embriagado
vai montanha-russa abaixo
educado em pequenez
esfrego o pai-nosso do corpo
e sou puro duma vez
catadupa em dissonante
por mais cantigas que cante
vou morrer sem mudar nada

Letra e música: Carlos Oliveira Martins
Intérprete: Caruma* com José Medeiros (in CD “Hóstia de Mentol”, Caruma & Alain Vachier/Alain Vachier Music Editions, 2016)

Ri sozinho de paspalhice

[ Projecto Internacional ]

Ri sozinho de paspalhice, chorei de devagar e disse:
«Isto não devia acontecer
dizeres que me amas
e depois que em duas semanas não acontece amor»
quero a minha casa
os braços dos meus
senti-me pujante de burro
eu num canto a olhar p’ra nada
a soluçar em nada
voltaste atrás assim:
«I was blind»
isso é dum filme
«I could not see»
é cantiga dos U2
e dormimos com arrepios
de tanto drama espojados na nossa cama
a fazer de conta amor
não sei, acho que isto já se partiu
eu já não suspiro e suspirar é bom
estar apaixonado em Budapeste
e ficar a leste sozinho com a maior das penas de estar sozinho
mas já sei o que faço aqui
espero a hora de virar daqui
não sou o teu projecto internacional
isso é dum filme
“I could not see”
é cantiga dos U2
e dormimos com arrepios
de tanto drama espojados na nossa cama
a fazer de conta amor

Letra e música: Carlos Oliveira Martins
Intérprete: A Caruma* (in CD “Hóstia de Mentol”, Caruma & Alain Vachier/Alain Vachier Music Editions, 2016)

Saltei p’ra ver

[ Boa Educação Imoral ]

Saltei p’ra ver
estou dentro de tão boa educação
emparedada de redondo
a arrastar a solidão de ser antigo
faça o favor de ser quem é
não tem de ser o que faz
faça o favor de usar juízo
desligar dispositivo e gostar mais de andar por cá
cansei de ser
borrego nesta imensa multidão
carecida de vontade
extremamente encarecida
há pão e vinho
santificado é o Senhor
que me santifica a bilha
chupa a teta e faz-me um filho
baptizados que hão-de vir têm a vida vencida
carcomido à nascença
e o teu Deus em contrapeso
que tapa o Sol com hóstias de mentol
boa educação imoral
não pode haver vontade em fabricar vontades, não
podia ser
tão bem encarrilhado em alemão
vida com chave na mão
empenhado até projeccionar a alma
suicidar a emoção
anti-anti-depressiva
bebo vinho a toda a hora
adormeço de vergonha a vontade de ser vida
carcomido à nascença
e o teu Deus em contrapeso
que tapa o Sol com hóstias de mentol
boa educação imoral
não pode haver vontade em fabricar vontades
não pode haver vontade em fabricar vontades
não pode haver vontade em fabricar vontades, não

Letra e música: Carlos Oliveira Martins
Intérprete: A Caruma* (in CD “Hóstia de Mentol”, Caruma & Alain Vachier/Alain Vachier Music Editions, 2016)

Tenho dinheiro p’ra trinta caixões

[ Trinta Caixões ]

Tenho dinheiro p’ra trinta caixões e nem um é para mim
tenho dinheiro p’ra trinta caixões e são todos por ti
está descansada que vives mil anos
mas com calminha p’ra não causar danos
tenho dinheiro p’ra trinta caixões e são todos por ti
vou tratar do meu casulo
afastar a gente má
que há quem viva neste mundo
e há quem queira andar só por cá
aquele já é doutor
e apregoa falsidade
algemados gritam alto:
«Viva a nossa liberdade!»
mãe, ó da guarda, ele não me liga mais
mãe, estou à venda a quem me oferecer mais
tenho planos nesta vida de ter carro, casa e pão
se não for com este jovem, homem velho não diz “não”
gosto mais de mim assim
a saber que sei gostar
gosto ainda bem de ti
mas não sei pagar pr’amar
somos todos tão fofinhos
eu sem ti não sei viver
venha daí o corpinho
isso eu sei fazer render
está descansada, vives mil anos
mas com calminha, cuidado com os danos
dança-me o corridinho com sapato velho
ai que acumulas a vida com a sorte da morte que p’ra ti não vem
mãe, ó da guarda, ele não me liga mais
mãe, estou à venda a quem me oferecer mais
tenho planos nesta vida de ter carro, casa e pão
se não for com este jovem, homem velho não diz…
tenho dinheiro p’ra trinta caixões e é tudo p’ra mim

Letra e música: Carlos Oliveira Martins
Intérprete: A Caruma* (in CD “Hóstia de Mentol”, Caruma & Alain Vachier/Alain Vachier Music Editions, 2016)

Troca-se o visto por dito

[ Visto por Dito ]

Troca-se o visto por dito
que cá na casa que fiz
gasta-se guito e imito
toda a gente a ser feliz
cada conta com seu conto
cada rei com seu carrasco
há polícia e Carnaval
para garantir o tasco
sapatinho no Natal
sandália o ano todo
o vento muda de Leste
e sou sempre eu que me lixo
carapaus e caviar
às vezes na mesma mesa
uns tostões, outros milhões
a cantar “A Portuguesa”
mandas na marca da minha sardinha
mas não mandas nada do que me vai cá na pinha
dizes p’ra ti: «sou tão inteligente!»
um dia destes ainda vais ouvir da gente
cantoria no Rossio, escanzelada a pontapé
a conversa vai madura na esquina do meu café
estremunhada acorda a banca, promessas de terror
amanhã colecta o fisco a gente a fazer amor
com tanta saliva fresca, com tanto sangue miúdo
sou da Jota não sei quê e já pareço graúdo
o sistema está assim bem montado em comité
tenho três paredes falsas com olho que tudo vê
mandas na marca da minha sardinha
mas não mandas nada do que me vai cá na pinha
dizes p’ra ti: «sou tão inteligente!»
um dia destes ainda vais ouvir da gente
ah que isto agora é um sonho mau
dissonância, arrastadeira, cantadeira, a maluqueira é tanta
que um dia vai tudo a pau
contam-se os mortos no fim
que a haver um fim vai ser com graça
que a desgraça não existe
que o que existe é ser feliz
mandas na marca da minha sardinha
mas não mandas nada do que me vai cá na pinha
dizes p’ra ti: «sou tão inteligente!»
um dia destes ainda vais ouvir…
um dia destes ainda vais ouvir…
um dia destes ainda vais ouvir da gente

Letra e música: Carlos Oliveira Martins
Intérprete: A Caruma* (in CD “Hóstia de Mentol”, Caruma & Alain Vachier/Alain Vachier Music Editions, 2016)

Vivo como um chulo à consignação

[ Bêbado ]

Vivo como um chulo à consignação
vendo lixo rico – é a minha obsessão
sentaste-te em cima da alma
agora queres comprar-me com mais calma
chulas-me a saúde e eu perco-me doente
quero mais de ti além de só saliva quente
atrofio o teu caminho, nunca foi o nosso
dá-me p’ra virar daqui sempre que posso
tudo tem de ser como tem de ser
conheci-te a tempo de te esquecer tão bem
dá-me mais um copo, juro desta é que me vou
sei que é sempre o mesmo a esta hora mas eu vou
disse-lhe três vezes que sou torto, parvo e bêbado
o bêbado não precisa de amigos nem tu precisas dum bêbado
tira-me este cheiro a sol e vinho velho
é sempre nesta altura que me queres levar p’rá cama
faço contas para decidir quando te beijo
e estou sempre ali preso na lama
tudo tem de ser como tem de ser
conheci-te a tempo de te esquecer tão bem
dá-me mais um copo, juro desta é que me vou
sei que é sempre o mesmo a esta hora mas eu vou
disse-lhe três vezes que sou torto, parvo e bêbado
o bêbado não precisa de amigos nem tu precisas de mim
nem tu precisas de mim
tudo tem de ser como tem de ser
conheci-te a tempo de te esquecer tão bem
dá-me mais um copo, juro desta é que me vou
sei que é sempre o mesmo a esta hora mas eu vou
disse-lhe três vezes que sou torto, parvo e bêbado
o bêbado não precisa de amigos nem tu precisas dum bêb…
sai daqui e deixa-me cair que eu vou cair
não há mais conversa, porque estás a insistir?
disse quatro vezes que sou torto, parvo e bêbado
o bêbado não precisa de amigos nem tu precisas de mim

Letra e música: Carlos Oliveira Martins
Intérprete: A Caruma* (in CD “Hóstia de Mentol”, Caruma & Alain Vachier/Alain Vachier Music Editions, 2016)

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/05/caruma.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-11 21:37:012023-05-02 13:23:49Poemário Folk
fadista Helena Sarmento
Fado

Poemário de fado

Poemário de fado

Letras

A lonjura é um degredo

[ Lonjura ]

A lonjura é um degredo
Sem grades para assaltar;
Sem olhos, sem mãos, segredo,
Boca calada de amar.

É mar que afunda a fragata,
É cotovia sem voz;
É um orvalho sem prata
Letra sem rosto, sem foz.

É lágrima, é destempero,
É tabuada aldrabada;
Diário do desespero,
Diário branco, sem nada.

Um chapéu cheio de traça,
A sina contada à toa;
A lonjura é uma desgraça,
Não há dor que tanto doa.

Letra: Joaquim Sarmento
Música: João Black (Fado Menor do Porto)
Intérprete: Helena Sarmento
Versão original: Helena Sarmento (in CD “Lonjura”, Helena Sarmento, 2018)

A minha alma está doente

[ Confirmação ]

A minha alma está doente,
Quiseram em vão curá-la
E quantos ingenuamente
Tentaram amortalhá-la!

Fizeram cerco e, no meio
De toda aquela muralha,
Eu (que sofria!) cantava…
Não me servira a mortalha!

E à medida que o segredo
Vinha em meus lábios poisar-se, |
Embriagado, eu cantava…
Não me servira o disfarce!

Mas, por fim, vendo, talvez,
Que nenhum remédio havia
Deram à minha surdez
O nome de poesia…

Poema: Pedro Homem de Mello (ligeiramente adaptado)
Música: Renato Varela (Fado Meia-Noite)
Intérprete: Tereza Tarouca (in LP “Fado e Folclore”, RCA Victor, 1970)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Cai a noite na cidade

[ Fado da Saudade ]

Cai a noite na cidade, / que me encanta,
Na minha velha Lisboa, / de outra vida;
E com um nó de saudade, / na garganta, | bis
Escuto um fado que se entoa, / à despedida. |

Foi nas tabernas de Alfama, / em hora triste,
Que nasceu esta canção, / o seu lamento;
Na memória dos que vão, / tal como o vento, | bis
No olhar de quem se ama, / e não desiste. |

Quando brilha a antiga chama, / ou sentimento,
Oiço este mar que ressoa, / enquanto canta;
E da Bica à Madragoa, / num momento,
Volta sempre esta ansiedade, / da partida;
Cai a noite na cidade, / que me encanta,
Na minha velha Lisboa, / de outra vida.

Quem vive só do passado, / sem motivo,
Fica preso a um destino, / que o invade;
Mas na alma deste fado, / sempre vivo, | bis
Cresce um canto cristalino, / sem idade. |

É por isso que imagino, / em liberdade,
Uma gaivota que voa, / renascida;
E já nada me magoa, / ou desencanta,
Nas ruas desta cidade, / amanhecida;
Mas com um nó de saudade, / na garganta,
Escuto um fado que se entoa, / à despedida.

Letra: Fernando Pinto do Amaral
Música: Popular e Alfredo Duarte “Marceneiro” (Fado Menor com versículo)
Intérprete: Carlos do Carmo (in CD “À Noite”, 2.ª edição, Universal Music Portugal, 2008)

CONFIRMAÇÃO

(Pedro Homem de Mello, in “Eu Hei-de Voltar um Dia”, Lisboa: Edições Ática, 1966, reimp. 1999 – p. 63)

A minha alma está doente,
Quiseram em vão curá-la
E quantos ingenuamente
Tentaram amortalhá-la!
Formaram cerco e, no meio
De toda aquela muralha,
Eu (que sofria!) cantava…
Não me servira a mortalha!
E à medida que o segredo
Vinha em meus lábios poisar-se,
Embriagado, eu cantava…
Não me servira o disfarce!
Mas, por fim, vendo, talvez,
Que nenhum remédio havia
Deram à minha surdez
O nome de poesia…

À rapariga mais nova

[ Testamento ]

À rapariga mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo meus brincos lavrados
Em cristal límpido e puro.

E àquela virgem esquecida,
Sonhando alto uma lenda,
Deixo o meu vestido branco
Todo tecido de renda.

E este meu rosário antigo,
De contas da cor dos céus,
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus.

E os livros, rosários meus
Das contas d’outro sofrer,
São para os homens humildes
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
Esses que são só de dor,
E aqueles que são de esperança
São para ti, meu amor.

P’ra que tu possas, um dia,
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua.

Poema: Alda Lara (adaptado)
Música: Popular (Fado Menor)
Intérprete: Tereza Tarouca (in EP “O Riso Que me Deste”, RCA Victor, 1967; LP “Os Melhores Fados de Tereza Tarouca”, RCA Camden, 1978; 2LP “Álbum de Recordações”: LP 1, Polydor/PolyGram, 1985; CD “Temas de Ouro da Música Portuguesa”, Polydor/PolyGram, 1992; CD “Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006; CD “Tereza Tarouca”, col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)

TESTAMENTO

(Alda Lara, in “Poemas”, Sá da Bandeira, Angola: Imbondeiro, 1966, reed. Braga: APPACDM, 1997, 2005)

À prostituta mais nova
do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro…
E àquela virgem esquecida,
rapariga sem ternura
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda…
Este meu rosário antigo
ofereço-o àquele amigo
que não acredita em Deus…
E os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes
que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada…
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu amor…
Para que, na paz da hora,
em que a minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,
vás por essa noite fora,
com passos feitos de lua,
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua…

Caía a tarde

[ O Bêbado e a Equilibrista ]

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto me lembrou Carlitos
A lua, tal qual a dona de um bordel,
Pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel
E nuvens, lá no mata-borrão do céu,
Chupavam manchas torturadas, que sufoco!
Louco, um bêbado com chapéu-côco
Fazia irreverências mil p’rá noite do Brasil, meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu num rabo-de-foguete
Chora a nossa pátria, mãe gentil
Choram Marias e Clarices no solo do Brasil
Mas sei que uma dor assim pungente
Não há-de ser inutilmente a esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo o artista tem que continuar

Letra: Aldir Blanc
Música: João Bosco (a partir da música “Smile”, de Charles Chaplin, composta para a banda sonora do filme “Tempos Modernos”, 1936)
Intérprete: Helena Sarmento*
Versão original: Helena Sarmento (in CD “Lonjura”, Helena Sarmento, 2018)
Versão original: João Bosco (in LP “Linha de Passe”, RCA Victor, 1979, reed. RCA, 2004)
Outra versão: Elis Regina (in LP “Elis, Essa Mulher”, Warner Bros. Records, 1979, reed. Warner Music Brasil/WEA Music, 1989)

Ciganos

Ciganos! Vou cantar, não a beleza
Dos vossos corações que não conheço.
Mas esse busto de medalha e preço
Que nem é carne vã, nem alma acesa!

Saúdo em vós o corpo, unicamente,
Desumano e cruel como uma chama!
Em vós, saúdo a graça omnipotente
Do lírio que ainda flor por entre a lama.

A vossa vida não pertence ao rei.
Não mutilaste estradas verdadeiras.
Quem ama a liberdade odeia a lei
Que deu à terra a foice das fronteiras.

E, enquanto o aroma e a brisa e até as almas
Ficam irmãs das pérolas roubadas,
As mãos dos homens que vos são negadas
Tremem quando passais. Mas batem palmas.

As mãos dos homens que vos são negadas
Tremem quando passais. Mas batem palmas.

Poema: Pedro Homem de Mello (excerto adaptado)
Música: José Belo Marques (Fado Fora d’Horas)
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP “Tereza Tarouca Canta Pedro Homem de Mello”, Edisom, 1989; CD “Teresa Tarouca”, col. Clássicos da Renascença, vol. 15, Movieplay, 2000; CD “Tereza Tarouca”, col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)

CIGANOS

(Pedro Homem de Mello, in “Miserere”, Porto, 1948; “Poesias Escolhidas”, col. Biblioteca de Autores Portugueses, Lisboa: IN-CM, 1983 – p. 110)

Ciganos! Vou cantar, não a beleza
Dos vossos corações que não conheço.
Mas esse busto de medalha e preço
Que nem é carne vã, nem alma acesa!
Saúdo em vós o corpo, unicamente,
Desumano e cruel como o dum bicho!
Em vós, saúdo a graça omnipotente
Do lírio que ainda flor por entre o lixo.
Eu vos saúdo, pela poesia,
Que nasceu pura e não se acaba mais.
E pelo ritmo ardente que inebria
Meus olhos como fios que enlaçais!
A vossa vida não pertence ao rei.
Não mutilaste estradas verdadeiras.
Quem ama a liberdade odeia a lei
Que deu à terra a foice das fronteiras.
E, enquanto o aroma e a brisa e até as almas
Ficam irmãs das pérolas roubadas,
As mãos dos homens que vos são negadas
Tremem quando passais. Mas batem palmas.

Era um Redondo Vocábulo

Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar
Nos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio
Convocando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincavam e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa…

Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar
Nos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio
Convocando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincavam e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa…

Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Nos degraus de Laura
No quarto das danças

Letra e música: José Afonso
Intérprete: Helena Sarmento
Versão original: Helena Sarmento (in CD “Lonjura”, Helena Sarmento, 2018)

Éramos três

[ A Rapariga das Violetas ]

Éramos três quando passou por nós
quando passou por nós
com o cesto das violetas.
Disse a primeira: como vai cansada,
e descalça, coitada, coitada!
Disse a outra: tão suja e desgrenhada,
olhem os pés sem cor, as unhas pretas!

Eu, a terceira… eu não disse nada,
não disse nada, não disse nada.
… Que lindas as violetas!

Poema: Fernanda de Castro (adaptado)
Música: Manuel Lima Brummon
Intérprete: Tereza Tarouca (in LP “Portugal Triste”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD “Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006)

A rapariga das violetas

(Fernanda de Castro, in “Exílio”, Lisboa: Livraria Bertrand, 1952 – p. 93)

Éramos três quando passou por nós
com o cesto das violetas.
Disse a primeira: como vai cansada,
e descalça, coitada!
Disse a outra: tão suja e desgrenhada,
olhem os pés sem cor, as unhas pretas!

Eu, a terceira… eu não disse nada.
… Que lindas as violetas!

Fado

Ao passar pelo ribeiro
Onde, às vezes, me debruço,
Fitou-me alguém. Corpo inteiro,
Curvado com um soluço!

Que palidez nesse rosto
Sob o lençol do Luar!
Tal e qual quem, ao Sol-Posto,
Estivera a agonizar…

E aquelas pupilas baças
Acaso seriam minhas?
Meu amor, quando me enlaças,
Porventura as adivinhas?

Deram-me, então, por conselho,
Tirar de mim o sentido.
Mas, depois, vendo-me ao espelho,
Cuidei que tinha morrido!

Poema: Pedro Homem de Mello (ligeiramente adaptado)
Música: José Marques do Amaral (Fado José Marques do Amaral)
Intérprete: Tereza Tarouca (in LP “Fado e Folclore”, RCA Victor, 1970)

FADO

(Pedro Homem de Mello, in “As Perguntas Indiscretas”, Porto: Editorial Domingos Barreira, 1968; “Poesias Escolhidas”, col. Biblioteca de Autores Portugueses, Lisboa: IN-CM, 1983 – p. 295)

Ao passar pelo ribeiro
Onde, às vezes, me debruço,
Fitou-me alguém. Corpo inteiro,
Curvado como um soluço!

Que palidez nesse rosto
Sob o lençol do Luar!
Tal e qual quem, ao Sol-Posto,
Estivera a agonizar…

Aquelas pupilas baças
Acaso seriam minhas?
Meu amor, quando me enlaças,
Porventura as adivinhas?

Deram-me, então, por conselho,
Tirar de mim o sentido.
Mas, depois, vendo-me ao espelho,
Cuidei que tinha morrido!

Fica longe o sol que vi

[ Quadras da Minha Solidão ]

Fica longe o sol que vi
aquecer meu corpo outrora…
Como é breve o sol daqui!
E como é longa esta hora!…

Donde estou vejo partir
quem parte certo e feliz.
Só eu fico. E sonho ir
rumo ao sol do meu país…

Por isso as asas dormentes
suspiram por outro céu.
Mas ai delas! tão doentes
não podem voar mais eu…

que comigo, preso a mim,
tudo quanto sei de cor…
Chamem-lhe nomes sem fim,
por todos responde a dor.

E assim, no pulso dos dias,
sinto chegar outro Outono…
Passam as horas esguias,
levando o meu abandono…

Poema: Alda Lara (excerto)
Música: Jaime Santos (Fado da Bica)
Intérprete: Tereza Tarouca (in LP “Fado e Folclore”, RCA Victor, 1970)

QUADRAS DA MINHA SOLIDÃO

(Alda Lara, in “Poemas”, Sá da Bandeira, Angola: Imbondeiro, 1966, reed. Braga: APPACDM, 1997, 2005)

Fica longe o sol que vi
aquecer meu corpo outrora…
Como é breve o sol daqui!
E como é longa esta hora!…

Donde estou vejo partir
quem parte certo e feliz.
Só eu fico. E sonho ir
rumo ao sol do meu país…

Por isso as asas dormentes
suspiram por outro céu.
Mas ai delas! tão doentes
não podem voar mais eu…

que comigo, preso a mim,
tudo quanto sei de cor…
Chamem-lhe nomes sem fim,
por todos responde a dor.

Mas dor de quê? dor de quem,
se nada tenho a sofrer?…
Saudade?… Amor?… Sei lá bem!
É qualquer coisa a morrer…

E assim, no pulso dos dias,
sinto chegar outro Outono…
Passam as horas esguias,
levando o meu abandono…

Lá vem num corcel

[ Trovas do Meu Povo ]

Lá vem num corcel
o príncipe real
vem saber dos favos
vem medir o mel

vem ver os pastores
pastarem o gado
são seus os pastores
e é seu todo o prado

Lá vem num cavalo
o senhor regedor
vem ver como cumprem
as ordem do rei

pela terra alheia
vem ver lavradores
vê o que semeiam
vem contar as flores

Lá vem num burrico
o senhor abade
vem pedir prás almas
prás almas salvar

são suas as almas
que o povo lhas deu
partilha por todos
a fé que perdeu

Lá vem todo o povo
a pé no povoado
de Cristo nos ombros
à cruz arrancado

pois Cristo resiste
não morre entre o povo
porque em cada um
há sempre um Cristo novo

La, la, la…

Letra: Manuel Lima Brummon
Música: Luís Alexandre
Intérprete: Tereza Tarouca (in LP “Portugal Triste”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD “Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006)

Lavava no rio, lavava

Lavava no rio, lavava,
Gelava-me o frio, gelava,
Quando ia ao rio lavar!
Passava fome, passava,
Chorava também, chorava
Ao ver minha mãe chorar!

Cantava também, cantava!
Sonhava também, sonhava!
E na minha fantasia
Tais coisas fantasiava,
Que esquecia que chorava,
Que esquecia que sofria!

Já não vou ao rio lavar,
Mas continuo a chorar!
Já não sonho o que sonhava!
Se já não lavo no rio,
Porque me gela este frio
Mais do que então me gelava?

Ai, minha mãe, minha mãe,
Que saudades desse bem,
Do mal que então conhecia!
Dessa fome que eu passava,
Do frio que nos gelava
E da minha fantasia!

Já não temos fome, mãe,
Mas já não temos também
O desejo de a não ter!
Já não sabemos sonhar,
Já andamos a enganar
O desejo de morrer!

Letra: Amália Rodrigues
Música: José Fontes Rocha
Intérprete: Joana Amendoeira (in CD “Amor Mais Perfeito: Tributo a José Fontes Rocha”, CNM, 2012)
Versão original: Amália Rodrigues (in LP “Gostava de Ser Quem Era”, Valentim de Carvalho, 1980, reed. EMI-VC, 1995, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; “Amália 50 Anos”: CD “Amália Mais os Poetas Populares”, EMI-VC, 1989; 2CD “O Melhor de Amália”: vol. III – “Fado da Saudade”: CD 2, EMI-VC, 2003)

Joana Amendoeira, Amor Mais Perfeito
Joana Amendoeira, Amor Mais Perfeito

Meu país esperando

[ Portugal Triste ]

Meu país esperando na esquina do tempo
de braços abertos a todo o momento
vou seguindo sempre calculando os passos
e se o que criei desfaço e refaço
meus olhos despertos abrem-se para o mundo
e eu caio em mim cada vez mais fundo

Meu país perdido na esquina do tempo
triste Portugal tão pequeno e imenso
pois eu te garanto, país, que este povo
traz no coração sempre um amor novo

Não quero que pensem que já me perdi
nem quero que julguem que fujo de mim
tenho lucidez para poder viver
eu sou vertical, não me hão-de torcer
sempre fui mais forte quando me quiseram
tornar serva ou fraca e nunca me venceram

Tenho a dimensão do que quero alcançar
e nada que fiz tenho a lamentar
pois para me encontrar ainda vos digo
que nunca vendi meu cantar de amigo

Portugal que eu canto deixa a boca amarga
mas eu estou bem firme, não estou derrotada

Letra e música: Manuel Lima Brummon
Intérprete: Tereza Tarouca (in LP “Portugal Triste”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD “Tereza Tarouca”, col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)

Mordi a Tua Mão

Mordi a tua mão, depois morri;
Caí sobre o teu corpo inanimado:
Que importa se estou preso ou se prendi!
Quem morre assim não tem que ser julgado.

Mordi a tua mão, depois morri;
Passei por um lugar que não tem nome,
Que fica muito além do que sofri:
Maior que a dor, que o mar, maior que a fome.

Beijei a tua mão, depois vivi;
Deixei-me ali ficar de olhos fechados.
Ainda perguntei: “Tu estás aqui?”;
Depois dormi nos braços arranhados.

Letra: Duarte
Música: Alfredo Duarte “Marceneiro” (Fado CUF)
Intérprete: Duarte (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018)

Nesse teu olhar magoado

[ Espero a Morte a Cantar ]

Nesse teu olhar magoado
Vejo a cor dos olhos meus;
Tem a dor um tom pisado
Que é o tom dos olhos teus.

Sofro a dor por te querer
Esquecendo que te perdi,
Mas um dia quis te ver
E louca d’amor fugi.

Nos meus olhos vivem ainda
Saudades dum olhar teu;
No meu peito vive infinda
Essa dor que em ti viveu.

Hoje canto de amargura
Já cansada de te amar,
E vencida pela tortura
Espero a morte a cantar.

Letra: Francisco Pessoa
Música: Joaquim Campos (Fado Amora)
Intérprete: Tereza Tarouca (in EP “Saudade, Silêncio e Sombra”, RCA Victor, 1964)

No silêncio do meu quarto

[ Um Fado para Fred Astaire ]

No silêncio do meu quarto… de incerteza
Não vos sei dizer se morro… ou ressuscito;
Faz-se noite quando parto… com tristeza
E talvez peça socorro… mas não grito.

Quem diria que os teus pés… de bailarino
Entrariam para a história… da saudade,
E que meio de viés… por teu destino
Brindarias à memória… que me invade?!

Quase toco a tua mão… presa ao ecrã,
Mas tropeço nos meus passos… sem esperança;
Não existe solidão… nem amanhã
Quando danço nos teus braços… de criança.

Eu é que sou a menina,… mas não quero,
E não vou mudar de idade… e ai de mim
Se a memória só termina… e volta a zero
Quando acabar a saudade… que é sem fim.

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Popular e Alfredo Duarte “Marceneiro” (Fado Menor com Versículo)
Intérprete: Cristina Nóbrega
Versão discográfica de Cristina Nóbrega (in CD “Um Fado para Fred Astaire”, Watch & Listen, 2014)
Versão original: Deolinda Rodrigues (inédita)

Deolinda Rodrigues fadista
Deolinda Rodrigues fadista

O Cristo inerte

[ Não Fui Eu ]

O Cristo inerte preso à cruz
A luz da vela que O reduz
À sombra triste na parede entrecortada

Dos lábios solta-se, indulgente
A prece inútil do não-crente
Entre palavras que por fim não dizem nada

Não fui eu, não fui eu
Não deixei a porta aberta
Não fui eu, não fui eu
Ficou-me a casa deserta

Há como um fugidio rumor
De passos no corredor
Induzem na minh’alma a dor da esperança vã

Sinais do tempo a humedecer
A voz que teima enrouquecer
E o corpo dorido pela noite no divã

Não fui eu, não fui eu
Não deixei a porta aberta
Não fui eu, não fui eu
Ficou-me a casa deserta

Como esta febre me destrói
Perdido amor, quanto me dói
Desceste em mim o cruel manto da tristeza

Em cada noite morro, amor
E a solidão faz-me maior
Mal amanhece e volta o medo que anoiteça

Não fui eu, não fui eu
Não deixei a porta aberta
Não fui eu, não fui eu
Ficou-me a casa deserta

Letra e música: Jorge Fernando
Intérprete: Rua da Lua (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)

O fado

 [ Fado da Consagração ]

O fado, fado nascido em Lisboa,
É voz de pena que soa,
Mágoa que do peito vem;
O fado é bairro velho que chora,
Alfama que se enamora
E contra o amor que tem.

O fado é canto de feiticeiro,
É Alfredo Marceneiro,
É um dom, uma expressão;
E é fado guitarra que nos murmura
Tudo aquilo que perdura
Bem dentro do coração.

Ao fado Lisboa diz o que sente,
Vai nele a alma da gente
Pois é ele o seu condão.

O fado, fado que invade a cidade,
É nostalgia, saudade,
Mal e bem, sorte a azar;
O fado é rumo de caravelas,
E somos nós e são elas
Que andamos a namorar.

O fado é modo da nossa gente,
O passado e o presente,
O porvir, esse também;
Pois fado é este jeito, esta briga
De chorar numa cantiga
Um amor, tudo e ninguém.

E é fado aquele encanto profundo
Que vai daqui pelo mundo
E que ao mundo soa bem.

O fado é canto de feiticeiro,
É Alfredo Marceneiro,
É um dom, uma expressão;
E é fado guitarra que nos murmura
Tudo aquilo que perdura
Bem dentro do coração.

Ao fado Lisboa diz o que sente,
Vai nele a alma da gente
Pois é esse o seu condão.

Letra: Guilherme Pereira da Rosa
Música: Frederico Valério
Intérprete: Fernanda Maria (grav. 1963, in CD “Grande Noite de Fados: Festa de Homenagem a Alfredo Marceneiro”, EMI-VC, 1998)

Por ti cheguei a amar o desumano

[ A Outra Face da Alegria ]

Por ti cheguei a amar o desumano
e fiz da minha angústia amor total
vi florir primaveras todo o ano
nunca ninguém te amou com amor igual

Por ti bastava a sombra fugidia
do teu olhar no meu insatisfeito
e tudo o que não tinha pressentia
como quem tem dois corações no peito

Por ti reinventei lindas palavras
nas mãos tive oiro e estrelas só por ti
e nada te bastou, nada aceitavas
mas roubaste o melhor que havia em mim

Por ti gastei a face da alegria
e andei morrendo um pouco em toda a parte
embriagaste a luz de cada dia
os dias mais belos da minha idade

Letra e música: Manuel Lima Brummon
Intérprete: Tereza Tarouca (in LP “Portugal Triste”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD “Tereza Tarouca”, col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)

Quem dorme à noite comigo?

[ Medo ]

Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo.
Mas se insistirem lhes digo:
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo.

E cedo, porque me embala
Num vai-e-vem de solidão,
É com o silêncio que fala:
Com voz que move onde estala
E nos perturba a razão.

Gritar? Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me,
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.

Poema: Reinaldo Ferreira
Música: Alain Oulman
Intérprete: Júlio Resende com Amália Rodrigues (in CD “Amália por Júlio Resende”, Edições Valentim de Carvalho, 2013)
Versão original: Amália Rodrigues (grav. 1966, CD “Segredo”, EMI-VC, 1997; 2CD “O Melhor de Amália: Vol. II – Tudo Isto É Fado”: CD 1, EMI-VC, 2000; Livro/4CD “O Melhor de Amália”: CD 3, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)

Talvez a solidão se torne um mito

[ Um Quê de Eternidade ]

Talvez a solidão se torne um mito
pr’àqueles que se entregam à saudade,
pois se uma tem um pouco de infinito
a outra tem um quê de eternidade.

A solidão não sabe de quem gosta:
por isso é que elas andam sempre juntas,
porque uma é a pergunta sem resposta
e a outra é a resposta sem perguntas.

Mas é com a saudade que me entendo,
porque ela se apaixona só por quem
descobre em cada verso que vai lendo
que a solidão não gosta de ninguém.

Não sei porque é que vai baixando a voz,
nem sei porque é que esconde o que revela,
mas sei que se ela diz gostar de nós
já não aceita que gostemos dela.

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Raul Pereira (Fado Zé Grande)
Intérprete: Cristina Nóbrega
Versão original: Cristina Nóbrega (in CD “Um Fado para Fred Astaire”, Watch & Listen, 2014)

Cristina Nóbrega, Um fado para Fred Astaire
Cristina Nóbrega, Um fado para Fred Astaire

Um malmequer desfolhei

[ Malmequer Desfolhado ]

Um malmequer desfolhei,
Nunca tal tivesse feito;
Não sabia o que já sei,
Tinha-te ainda no peito!

P’ra saber s’inda era meu
O homem que eu tanto amei,
Com os olhas fitos no céu
Um malmequer desfolhei!

E da flor fui arrancando
Esperanças que fora deito;
E agora eu estou chorando…
Nunca tal tivesse feito!

Julgando ter-te na vida
E seres p’ra mim minha lei,
Passava o tempo iludida…
Não sabia o que já sei!

Sonhava meu coração,
E agora sonho desfeito
Vivendo da ilusão…
Tinha-te ainda no peito!

Letra: D. António de Bragança
Música: Francisco Viana (Fado Francisco Viana ou Fado Mouraria do Vianinha)
Intérprete: Tereza Tarouca (in EP “Mouraria”, RCA Victor, 1963; LP “Os Melhores Fados de Tereza Tarouca”, RCA Camden, 1978)

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/05/helena-sarmento-fado.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-11 21:16:222025-06-13 17:51:08Poemário de fado
Sons Vadios, Cantos de Cego
Tradicional

Canções à desgarrada

Canções à desgarrada

Letras

Vieste lá da Galiza

Desgarrada

— Vieste lá da Galiza
Com vontade de cantar;
Trouxeste uma sanfona
E romances de encantar.

E agora que aqui estás,
Mostra a tua habilidade!
Não és cego, nem tens cão
E vives numa cidade.

— Eu veño lá de lonxe,
Catro horas de camiño,
Para cantar e tocar
Os romances do ceguiño.

Como non hai unha feira
Podemos, enton, gravar:
Esta é unha maneira
Da memória conservar.

Isso, sim, é de valor!
Boa ideia, genial:
Tocar as canções de cego
Da Galiza e Portugal!

Isso, sim, é de valor!
Boa ideia, genial:
Tocar as canções de cego
Da Galiza e Portugal!

Letra e música: César Prata
Intérpretes: Ariel Ninas & César Prata* (in CD “Cantos de Cego da Galiza e Portugal”, aCentral Folque, 2016)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/05/sons-vadios-cantos-de-cego-da-galiza-e-de-portugal.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-10 20:23:322024-11-13 11:16:55Canções à desgarrada
Brincar aos fados
Cancioneiro

Canções de humor

Canções de humor

Letras

Acredito

Acredito em pouca coisa
que venha escrita em loiça,
dessa de pôr na parede.

Acredito mais no desempenho
da laranja que apanho,
que como e me mata a sede.

Acredito nas façanhas,
muito menos nas patranhas
de quem faz só porque sim.

Acredito nas crianças,
no meu ventre são esperanças
de um futuro sem fim.

Acredito na loucura
de quem pede mais ternura
e vira costas à guerra.

Acredito na fé dos outros
que às vezes abrem poços
só para encontrar mais terra.

Acredito no Caetano,
no Zambujo que é meu mano,
em todas as vozes calmas.

Acredito na poesia
e também na aletria,
em tod’os adoçantes de almas.

Acredito na minha mãe,
ela que sofreu bem
para que eu fosse como sou.

Crente nos frutos e flores,
nos mais impossíveis amores;
onde o Sol mais brilhar eu estou.

Eu estou
Eu estou
Eu estou
Eu estou
Eu estou

Letra: Celina da Piedade
Música: Alex Gaspar
Intérprete: Celina da Piedade (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)

Era não era

[ Era Não Era do Tamanho de um Pardal ]

Era não era
Foi deixado ao abandono
Num dia quente de Outono
No meio de um meloal
Era não era
Sei lá eu se era ou não era
Só sei que os lados da esfera
Cortam mais do que um punhal

São mais ou menos
Cento e vinte e quatro lados
Redondinhos, afiados
Do tamanho de um pardal
Mas sem as penas
Nem as partes comestíveis
Nem a caixa dos fusíveis
Nem a corda do estendal

Era não era
Palmilhei o mar profundo
Sem parar um só segundo
P’ra apanhar estrelas do céu
No meio das nuvens
Nadei eu entre os rochedos
Cheio de frio e de medos
Ao sabor do macaréu

Os macaréus
São umas ondas muito altas
Da família das pernaltas
E maiores do que um pardal
Mas sem as penas
Nem as partes comestíveis
Nem a caixa dos fusíveis
Nem a corda do estendal

São mais ou menos
Cento e vinte e quatro lados
Redondinhos, afiados
Do tamanho de um pardal
Mas sem as penas
Nem as partes comestíveis
Nem a caixa dos fusíveis
Nem a corda do estendal

Os macaréus
São umas ondas muito altas
Da família das pernaltas
E maiores do que um pardal
Mas sem as penas
Nem as partes comestíveis
Nem a caixa dos fusíveis
Nem a corda do estendal

Era não era
Diz o nabo p’ra o repolho:
“Tu não me franzas o olho
Que eu de ti não tenho medo!”
Era não era
Diz a ameixa p’ra a cenoura:
“Vou para Paredes de Coura,
Vou partir de manhã cedo”

Uma linda terra
Do concelho de Alcobaça
Só conhece quem lá passa
Junto à tasca do Pardal
Mas sem as penas
Nem as partes comestíveis
Nem a caixa dos fusíveis
Nem a corda do estendal

São mais ou menos
Cento e vinte e quatro lados
Redondinhos, afiados
Do tamanho de um pardal
Mas sem as penas
Nem as partes comestíveis
Nem a caixa dos fusíveis
Nem a corda do estendal

Os macaréus
São umas ondas muito altas
Da família das pernaltas
E maiores do que um pardal
Mas sem as penas
Nem as partes comestíveis
Nem a caixa dos fusíveis
Nem a corda do estendal

São mais ou menos
Cento e vinte e quatro lados
Redondinhos, afiados
Do tamanho de um pardal
Mas sem as penas
Nem as partes comestíveis
Nem a caixa dos fusíveis
Nem a corda do estendal

Os macaréus
São umas ondas muito altas
Da família das pernaltas
E maiores do que um pardal
Mas sem as penas
Nem as partes comestíveis
Nem a caixa dos fusíveis
Nem a corda do estendal

Os macaréus…

Letra e música: Carlos Guerreiro
Intérprete: Gaiteiros de Lisboa
Versão original: Gaiteiros de Lisboa (in CD “Macaréu”, Aduf Edições, 2002; CD “A História”, Uguru, 2017)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Fez sábado quinta-feira

Fez sábado quinta-feira,
P’ra lá d’Évora três semanas,
Estive dez dias num Verão
Nas Américas Romanas.

Embarquei em dois caleiros
Na baía de Lisboa;
Arribei, fui dar a Goa,
Desembarquei em Alenquer;
Casei com sete mulheres,
Falta uma p’rá primeira;
Fui dar à Ilha Terceira,
Com três dias numa hora;
Abalei e vim-me embora,
Fez sábado quinta-feira.

Agarrei nos alforginhos,
Pus um pão em quatro enxacas,
Na gamela duas vacas
E na borracha toucinho;
Um açafate com vinho,
Trinta metros de banana;
Dei passos à americana,
Fui passar a Ayamonte;
Abalei hoje, cheguei ‘onte’
P’ra lá d’Évora três semanas.

Eu já estive em Erapouca,
Numa ocharia empregado;
Foi-se um carro carregado
Numa abóbora canoca;
Um mosquito com um boi na boca
Cem léguas em proporção;
Atirei-lhe um bofetão
Que pelo ar o fez ir;
À espera dele cair
Estive dez dias num Verão.

Fui soldado, assentei praça
No 15 de Sapadores;
Maquinista de vapores
Na carreira de Alcobaça;
Venci o Forte da Graça,
Também a Vila de Terena
E as províncias arraianas,
Venci toda a nobrezia;
Bati-me com a Turquia
Nas Américas Romanas.

Fez sábado quinta-feira,
P’ra lá d’Évora três semanas,
Estive dez dias num Verão
Nas Américas Romanas.

Letra: Popular
Música: José Manuel David
Intérprete: Gaiteiros de Lisboa
Versão original: Gaiteiros de Lisboa com Luís Espinho e João Paulo Sousa (Adiafa) (in CD “Avis Rara”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2012; CD “A História”, Uguru, 2017)

Lá no adro da igreja

[ Abaladiça ]

Lá no adro da igreja
Pára o Chico Pintaínho
Pede a Deus que bem proteja
Quem lhe der mais um copinho

Tem o filho para Lisboa
A mulher já lhe morreu
Não lhe anda a vida boa
Foi pró vinho que lhe deu

A Isaura é metediça
Com um lado reverente
Quando pode está na missa
Mas diz mal de toda a gente

Pode ser que seja fé
Ou que goste do prior
Tira bicas no café
Bem pingadas sem pudor

Vai mais uma abaladiça
Outro dedo de conversa
Esta agora pago eu
Depois tu e vice-versa
Dedilhando a campaniça
São dez cordas de saudade
À saúde dos que estamos
E de quem está na cidade

É na Tasca do João
Que a malta vai ao petisco
Há tomate, azeite e pão
E tremoço por marisco

Ninguém sai desconsolado
Por não ter o que comer
Bota abaixo um abafado
Para a gente se aquecer

Vai mais uma abaladiça…

Letra: José Fialho Gouveia
Música: Rogério Charraz
Intérprete: Rogério Charraz

Manhã na minha ruela

[ Dia de Folga ]

Intérprete: Ana Moura

Manhã na minha ruela, sol pela janela.
O Sr. jeitoso dá tréguas ao berbequim.
O galo descansa. Ri-se a criança,
Hoje não há birras, a tudo diz que sim.
O casal em guerra do segundo andar
Fez as pazes, está lá fora a namorar.

Cada dia é um bico d’obra,
Uma carga de trabalhos. Faz-nos falta renovar
Baterias. Há razões de sobra
Para celebrarmos hoje com um fado que se empolga.
É dia de folga!

Sem pressa de ar invencível, saia, saltos, rímel,
Vou descer à rua, pode o trânsito parar.
O guarda desfruta, a fiscal não multa.
Passo e o turista, faz por não atrapalhar.
Dona Laura hoje vai ler o jornal.
Na cozinha está o esposo de avental.

Cada dia é um bico d’obra
Uma carga de trabalhos. Faz-nos falta renovar
Baterias. Há razões de sobra
Para celebrarmos hoje com um fado que se empolga.
É dia de folga!

Folga de ser-se quem se é
E de fazer tudo porque tem que ser.
Folga para ao menos uma vez
A vida ser como nos apetecer.

Cada dia é um bico d’obra,
Uma carga de trabalhos. Faz-nos falta renovar
Baterias. Há razões de sobra
Para a tristeza ir de volta e o fado celebrar.

Cada dia é um bico d’obra
Uma carga de trabalhos. Faz-nos falta renovar
Baterias. Há razões de sobra
Para celebrarmos hoje com um fado que se empolga.
É dia de folga!

Este é o fado que se empolga
No dia de folga,
No dia de folga.

No Império das aves raras

[ Avejão ]

No Império das aves raras
Quem não tem penas é Rei;
Entre pêgas e araras
Os Patos-Bravos são Lei.

A terra dos Patos-Bravos
Parece mais um vespeiro:
Andam todos à bicada
Para chegar ao poleiro.

Por sobre a terra, por sobre o mar
O Grande Irmão zela por nós:
A sua sombra é protectora,
Já vem dos egrégios avós.

Na terra dos papagaios
Quem não tem poleiro é pato;
Andam todos à bicada
Só p’ra ficar no retrato.

No reino das trepadoras
O papagaio é Senhor:
Mesmo até sem saber ler
Qualquer papagaio é Doutor.

Por sobre a terra, por sobre o mar
O Grande Irmão zela por nós:
A sua sombra é protectora,
Já vem dos egrégios avós.

Voar mais alto que os outros,
Esse era o sonho do galo:
Roubar as asas ao Pégaso
E voar como um cavalo.

Mas o galo de ser galo
É ter o chão junto à barriga;
Para alcançar o poleiro
Tem que usar de muita intriga.

Por sobre a terra, por sobre o mar
O Grande Irmão zela por nós:
A sua sombra é protectora,
Já vem dos egrégios avós.

No reino dos voadores
Impera a grande anarquia,
E a barata voadora
Já tem lugar de chefia.

A passarada oprimida
Só deseja que isto mude,
Mas as aves de rapina
Cada vez têm mais saúde.

Por sobre a terra, por sobre o mar
O Grande Irmão zela por nós:
A sua sombra é protectora,
Já vem dos egrégios avós.

Letra e música: Carlos Guerreiro
Intérprete: Gaiteiros de Lisboa
Versão original: Gaiteiros de Lisboa com Sérgio Godinho & Armando Carvalhêda (in CD “Avis Rara”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2012)

As forças em parada desfilam junto à tribuna de honra que é composta por cinquenta poleiros, onde estão representadas as espécies ornitológicas democraticamente nomeadas pelo marechal Avejão. Desfilam, neste momento, o esquadrão Falcão e o esquadrão Abutre, garantes da paz, da ordem, da liberdade e da segurança. À sua passagem, o marechal Avejão perfila-se no seu poleiro e erguendo a asa direita saúda as tropas em sinal de respeito e gratidão.

Ó Ana, Vem Ver

Ó Ana, vem ver! Ó Ana, vem ver!
Há fogo no mar e os peixes a arder!
La ri lo lela! Ó Ana, vem ver!

Oh alto e oh alto, oh alto, piu piu!
Passarinho novo da mão me fugiu!
La ri lo lela, oh alto, piu piu!

Senhora Maria, senhora Maria,
O seu galo canta e o meu assobia!
La ri lo lela, senhora Maria!

Galo

Galo

Oh alto e oh alto, oh alto e oh alto!
Quanto mais acima maior é o salto!
La ri lo lela, oh alto e oh alto!

Ó Ana, vem ver! Ó Ana, vem ver!
Há fogo no mar e os peixes a arder!
La ri lo lela! Ó Ana, vem ver!

Senhora Maria, senhora Maria,
O seu galo canta e o meu assobia!
La ri lo lela, senhora Maria!

Oh alto e oh alto, oh alto, piu piu!
Passarinho novo da mão me fugiu!
La ri lo lela, oh alto, piu piu!

Eu quero, eu quero, eu quero, eu queria
Dormir uma noite contigo, Maria!
La ri lo lela, eu quero, eu queria!…

Letra e música: Tradicional (Beira Interior)
Intérprete: Real Companhia (in CD “Orgulhosamente Nós!”, Lusogram, 2000)

O Judas teve sarampo

[ Quando Judas Teve Sarampo ]

O Judas teve sarampo,
Herodes teve bexigas;
Pilatos teve sezões,
O Caifás teve lombrigas.

O Judas quando nasceu
Foi de uma velha gaiteira,
O Diabo foi parteira;
Quando Judas rescendeu
Foi padrinho um pigmeu
Para o livrar do quebranto.
A todos causou espanto
Tal era a figura horrenda,
Mas só o Diabo se lembra
E Judas teve sarampo.

O Judas teve sarampo,
Herodes teve bexigas;
Pilatos teve sezões,
O Caifás teve lombrigas.

Letra: Popular (Monte Real, Leiria, Alta Estremadura); adap. Carlos Guerreiro
Música: Carlos Guerreiro
Intérprete: Gaiteiros de Lisboa
Versão original: Gaiteiros de Lisboa (in CD “Macaréu”, Aduf Edições, 2002; CD “A História”, Uguru, 2017)

Quem quer brincar

[ Brincar aos Fados ]

Quem quer brincar a uma nova brincadeira,
Que não tem índios, nem polícias, nem ladrões
E toda a gente pode brincar à primeira,
Basta saber cantarolar duas canções.

Uma vassoura pode ser uma viola,
Uma guitarra pode ser feita em cartão:
É muito fácil… basta usar tesoura e cola
Para dar asas à tua imaginação.

Uma cortina faz de xaile improvisado
E num instante nasce um palco no quintal;
Até o gato que não quer ser chateado
É a plateia que te aplaude no final.

Então tu escolhes um CD… põe-lo baixinho
E em ‘karaoke’, em ‘playback’ ou a cantar
És a Amália, a Mariza ou a Carminho
E vais aos fados… mesmo que seja a brincar.

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Bernardo Lino Teixeira (Fado Ginguinha)
Intérprete: Camané (in CD “Brincar aos Fados”, Farol Música, 2014)
Outra versão: Rodrigo Costa Félix

Subir, Subir

Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir
Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir

Mensageiros de Cupido
Eu ando deprimido
Intercedei por mim ao vosso Deus!
Estou de amores com uma catraia
Que p’ra subir a saia
Exige grandes sacrifícios meus

Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir
Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir

Levantei velas à barca
Mas a brisa era parca
Nem deu para agitar o meu corcel
Assim nunca mais te chego
A ter no aconchego
Tirar-te dessa ilha de papel

Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir
Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir

Fiz consulta a feiticeiros
E santos padroeiros
Deixei bruxeiros de cabeça à toa
Findei o consultamento
E como rendimento
Saíram-me (imaginem!) os Gaiteiros de Lisboa

Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir
Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir

Letra e música: Mário Alves (Vozes da Rádio)
Intérprete: Gaiteiros de Lisboa
Versão discográfica ao vivo dos Gaiteiros de Lisboa, com Vozes da Rádio (in 2CD “Dançachamas: Ao Vivo”: CD 1, Farol Música, 2000)
Versão original: Vozes da Rádio com Gaiteiros de Lisboa (in CD “Mappa do Coração”, Ariola/BMG Portugal, 1997)

Tubarão tinha dentes de tainha

[ Tamboril ]

Tubarão tinha dentes de tainha
E a tainha tinha dentes de tambor
Toca traz tempo chuva tempestade
Tubarão trincou um touro nos taleigos da vontade

Tubarão tinha o tímpano trocado
E trocado estava o tempo todo o ano
Toca traz tempo chuva tempestade
Tubarão tamborilou ‘inda a missa ia a metade

Tubarão traficou-se em tamboril
Troca-tintas com retoque teatral
Toca terça, quarta, quinta, noite e dia
Travestido no Entrudo c’uma tromba de enguia

Tamboril teve tísica ao contrário
Já tossia como tosse o tubarão
Toca terça, quarta, quinta, noite e dia
Tamboril entubarou num atalho p’rá Turquia

Tubarão tinha dentes de tainha
E a tainha tinha dentes de tambor
Toca traz tempo chuva tempestade
Tubarão trincou um touro nos taleigos da vontade

Tubarão tinha o tímpano trocado
E trocado estava o tempo todo o ano
Toca traz tempo chuva tempestade
Tubarão tamborilou ‘inda a missa ia a metade

Tubarão traficou-se em tamboril
Troca-tintas com retoque teatral
Toca terça, quarta, quinta, noite e dia
Travestido no Entrudo c’uma tromba de enguia

Tamboril teve tísica ao contrário
Já tossia como tosse o tubarão
Toca terça, quarta, quinta, noite e dia
Tamboril entubarou num atalho p’rá Turquia

Letra: Miguel Cardina
Música: Pedro Damasceno e Celso Bento
Arranjo: Diabo a Sete e Julieta Silva
Intérprete: Diabo a Sete (in CD “Figura de Gente”, Sons Vadios, 2016)

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/05/brincar-aos-fados.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-10 03:16:122024-11-02 06:11:36Canções de humor
Camilo Pessanha, poeta
Cancioneiro

Canções com grandes poetas

Canções com grandes poetas

Letras

A minha canção é verde

[ Canção Verde ]

A minha canção é verde.
Sempre de verde a cantei.
De verde cantei ao Povo
E fui de verde, de verde,
Cantar à mesa do Rei.

Tive um amor — triste sina!
Amar é perder alguém…
Desde então, ficou mais verde
Tudo em mim: a voz, o olhar…
E o meu coração também!

Deu-me a vida, além do luto,
Amor à margem da lei…
Amigos são inimigos.
— Paga-me! disseram todos.
Só eu de verde fiquei.

A minha canção é verde [bis]
— Canção à margem da lei…
A minha canção é verde,
Verde como este poema
Que por meu mal te cantei!

A minha canção é verde,
Verde, verde, verde, verde…
Mas… porque é verde?
— Não sei…

Poema: Pedro Homem de Mello (adaptado)
Música: Carlos da Maia (Fado Perseguição)
Intérprete: Tereza Tarouca (in EP “O Riso Que me Deste”, RCA Victor, 1967; 2LP “Álbum de Recordações”: LP 1, Polydor/PolyGram, 1985; CD “Temas de Ouro da Música Portuguesa”, Polydor/PolyGram, 1992; CD “Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006; CD “Tereza Tarouca”, col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)

A noite caiu

[ Poema da Utopia ]

A noite caiu sem manchas e sem culpa.
Os homens largaram as máscaras de bons actores.
Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.
No alto, a utópica Lua vela comigo
E sonha coalhar de branco as sombras do mundo.
Um palhaço, a seu lado, sopra no ventre dos búzios.
Noite! se o espectáculo findou
Deixa-nos também dormir.

Poema: Fernando Namora (in “Relevos”, Coimbra: Portugália, 1937; “As Frias Madrugadas”, Lisboa: Arcádia, 1959, Lisboa: Círculo de Leitores, 1997 – p. 50)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia (in CD “Sandálias de Vento”, Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. 

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

A Voz Que Eu Tenho

A voz que eu tenho, como pensamento,
Veio de longe, devagar e triste;
Veio rasando os areais do vento
Onde a palavra amor ainda existe.

Respirou com o povo as madrugadas,
Soube do mar e foi beber o mar;
E gritou no silêncio das estradas
A solidão que eu tenho p’ra vos dar.

Cresce-me a voz nesta prisão do encanto,
Com a amizade que me faz viver;
E sem saber se me entendeis, eu canto
A presença do amor e a dor de o ter.

Poema: Vasco de Lima Couto
Música: Júlio Proença (Fado Esmeraldinha)
Intérprete: Carlos do Carmo (in LP “Carlos do Carmo”, Tecla, 1970, reed. Edisom, 1984, Movieplay, 2003, Série “Carlos do Carmo 50 Anos”, Vol. 01, Universal Music, 2013)

CANÇÃO VERDE

(Pedro Homem de Mello, in “Adeus”, Porto, 1951 p. 25-27; “Poesias Escolhidas”, col. Biblioteca de Autores Portugueses, Lisboa: IN-CM, 1983 – p. 131-132)

A minha canção é verde.
Sempre de verde a cantei.
De verde cantei ao Povo
E fui de verde vestido
Cantar à mesa do Rei.

Porque foi verde o meu canto?
Porque foi verde?
— Não sei…

Verde, verde, verde, verde,
Verde, verde, em vão, cantei!
— Lindo moço! — disse o Povo.
— Verde moço! — disse El-Rei.

Porque me chamaram verde?
Porque foi? Porquê?
— Não sei…

Tive um amor — triste sina!
Amar é perder alguém…
Desde então, ficou mais verde
Tudo em mim: a voz, o olhar,
Cada passo, cada beijo…
E o meu coração também!

Coração! Porque és tão verde?
Porque és verde assim também?

Deu-me a vida, além do luto,
Amor à margem da lei…
Amigos são inimigos.
— Paga-me! disseram todos.
Só eu de verde fiquei.

Porque fiquei eu de verde?
Porque foi isto?
— Não sei…

A minha canção é verde
— Canção à margem da lei…
Verde, ingénua, verde e moça,
Como a voz deste poema
Que por meu mal vos cantei!

A minha canção é verde,
Verde, verde, verde, verde…
Mas… porque é verde?
— Não sei…

Ai Flores do Verde Pino

(cantiga de amigo)

– Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo?
Ai Deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado?
Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo?

Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi há jurado?
Ai Deus, e u é?

– Vós me preguntades polo voss’amigo?
Eu bem vos digo que é san’e vivo.
Ai Deus, e u é?

Vós me preguntades polo voss’amado?
Eu bem vos digo que é vivo e sano.
Ai Deus, e u é?

Eu bem vos digo que é san’e vivo
e seerá vosc’ant’o prazo saído.

Eu bem vos digo que é vivo e sano
e seerá vosc’ant’o prazo passado.
Ai Deus, e u é?

Eu bem vos digo que é san’e vivo
e seerá vosc’ant’o prazo saído.

Eu bem vos digo que é vivo e sano
e seerá vosc’ant’o prazo passado.
Ai Deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde pino…

Poema: D. Dinis (ligeiramente adaptado)
Música: Helena de Alfonso e Jose Lara Gruñeiro
Arranjo: Paulo Loureiro
Intérprete: Ana Laíns (in CD “Portucalis”, Ana Laíns/Seven Muses, 2017)
Versão original: Barahúnda / voz de Helena de Alfonso (in CD “Al Sol de la Hierba”, Nufolk/GalileoMC, 2002)

D. Dinis

D. Dinis

Poema (cantiga de amigo): D. Dinis (in “cancioneiro da Biblioteca Nacional”, B 568 / “cancioneiro da Vaticana”, V 171)
Música: Frederico de Freitas
Intérprete: Segréis de Lisboa [in CD “O Alaúde na Península Ibérica (Séc. XV-XXI), Manuel Morais, 2023]

Ai flores, ai flores do verde pino

(D. Dinis, 1261-1325, in “cancioneiro da Biblioteca Nacional”, B 568; “cancioneiro da Vaticana”, V 171)

– Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo?
Ai Deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado?
Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs conmigo?
Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi há jurado?
Ai Deus, e u é?

– Vós me preguntades polo voss’amigo
e eu ben vos digo que é san’e vivo.
Ai Deus, e u é?

Vós me preguntades polo voss’amado
e eu ben vos digo que é viv’e sano.
Ai Deus, e u é?

E eu ben vos digo que é san’e vivo
e seerá vosc’ant’o prazo saído.
Ai Deus, e u é?

E eu ben vos digo que é viv’e sano
e seerá vosc’ant’o prazo passado.
Ai Deus, e u é?

Glossário:

– pino: pinheiro.
– sabedes: sabeis.
– novas: notícias.
– Ai Deus, e u é?: Ai Deus, e onde está?
– do que pôs comigo: sobre aquilo que combinou comigo (o encontro sob os pinheiros).
– sano: são, saudável.
– seerá vosc’ant’o prazo saído: estará convosco antes de terminar o prazo.

Anda o Sol na minha rua

Anda o Sol na minha rua,
Cada vez até mais tarde,
A ver se pergunta à Lua
A razão por que não arde.

Tanto quer saber porquê,
Mas depois fica calado;
E nunca ninguém os vê
Andarem de braço dado.

Se me persegues de dia,
Se à noite sempre me deixas,
Não digas que é fantasia
A razão das minhas queixas.

Só andas enciumado
Quando eu não te apareço,
Mas se me tens a teu lado
Nem ciúmes te mereço!

Anda o Sol na minha rua,
Cada vez até mais tarde,
A ver se pergunta à Lua
A razão por que não arde.

Letra: David Mourão-Ferreira
Música: José Fontes Rocha
Intérprete: Joana Amendoeira (in CD “Amor Mais Perfeito: Tributo a José Fontes Rocha”, CNM, 2012)
Primeira versão (com música de José Fontes Rocha): Amália Rodrigues (in EP “Ai Chico, Chico”, Columbia/VC, 1969; LP “Anda o Sol na Minha Rua” (compilação), Valentim de Carvalho, 1977; CD “Ai Chico, Chico” (compilação), col. Caravela, EMI-VC, 1996; 2CD “O Melhor de Amália”: vol. III – “Fado da Saudade”: CD 1, EMI-VC, 2003; CD “Amália Canta David”, Edições Edições Valentim de Carvalho/iPlay, 2011)
Versão original (com música de Joaquim Campos): Mercês da Cunha Rego (in EP “Mercês da Cunha Rego (Fado dos Ninhos)”, Áquila, 1968; CD “Mercês da Cunha Rego [e] Teresa Siqueira”, col. Fados do Fado, vol. 49, Movieplay, 1998)

David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

Antes que o Inverno chegue

[ Canto Tardio ]

Antes que o Inverno chegue
volto a ser cigarra. Canto.
Da laboriosa agonia me liberto e exalto.
Canto sem cessar o tempo
temendo e saboreando o tempo,
galo da aurora
que não tem tempo de acordar dormindo
De celeiro vazio, canto,
surdo aos lobos e aos ratos
que esgadanham o restolho.
Canto no Outono, que é oiro velho
e um rosto rugoso e macio.
Canto só porque é tarde para o canto
e a cantar adio o que tarde veio.
Cantando abro-me às formigas
e ofereço-lhes o indigesto banquete
para que a morrer cantando
me devorem vivo.

Fernando Namora

Fernando Namora

Poema: Fernando Namora (in “Marketing”, Mem Martins: Publicações Europa-América, 1969, Lisboa: Círculo de Leitores, 1997 – p. 99)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia (in CD “Sandálias de Vento”, Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)

Bastam-me as cinco pontas de uma estrela

[ Poema Destinado a Haver Domingo ]

Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor de um navio em movimento.
E como ave, ficar parada a vê-la.
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara p’ra passear a pé
Essa distância achada p’lo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama num domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa num flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre.

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o Amor por fim tenha recreio.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara p’ra passear a pé
Essa distância achada p’lo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Daquilo que é.
Daquilo que é.
Daquilo que é.

Poema: Natália Correia (ligeiramente adaptado)
Música: Aníbal Raposo
Intérprete: Musica Nostra* (in CD “Cantos da Terra”, Açor/Emiliano Toste, 2009)
Versão original: Aníbal Raposo (in CD “Maré Cheia”, MM Music, 1999)

POEMA DESTINADO A HAVER DOMINGO

(Natália Correia, in “Passaporte”, Lisboa: Edição da autora, 1958; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 205; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 153-154)

Bastam-me as cinco pontas duma estrela
E a cor dum navio em movimento.
E como ave, ficar parada a vê-la.
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio do cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama dum domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa num flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre.

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o Amor por fim tenha recreio.

Bóiam leves, desatentos

[ Vestígios ]

Bóiam leves, desatentos,
Meus pensamentos de mágoa
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.

À tona d’águas paradas,
Bóiam como folhas mortas.
São coisas pedindo nadas,
São pós que dançam nas portas
Das casas abandonadas.

Sono de ser, sem remédio,
Vestígio do que não foi,
Leve mágoa, breve tédio,
Não sei se pára, se flui;
Não sei se existe ou se dói.

Poema: Fernando Pessoa (adaptado)
Música: Joaquim Campos (Fado Tango)
Intérprete: Tereza Tarouca (in LP “Fado e Folclore”, RCA Victor, 1970)

Bóiam leves, desatentos

(Fernando Pessoa, 4-8-1930, “Poesias de Fernando Pessoa”, col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. I, Lisboa: Edições Ática, 1942, 15.ª edição, 1995 – p. 120-121)

Bóiam leves, desatentos,
Meus pensamentos de mágoa
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.

Bóiam como folhas mortas
À tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.

Sono de ser, sem remédio,
Vestígio do que não foi,
Leve mágoa, breve tédio,
Não sei se pára, se flui;
Não sei se existe ou se dói.

Dia Não

De paisagens mentirosas
De luar e alvoradas
De perfumes e de rosas
De vertigens disfarçadas

Que o poema se desnude
De tais roupas emprestadas
Seja seco, seja rude
Como pedras calcinadas

Que não fale em coração
Nem de coisas delicadas
Que diga não quando não
Que não finja mascaradas

De vergonha se recolha
Se as faces tiver molhadas
Para seus gritos escolha
As orelhas mais tapadas

E quando falar de mim
Em palavras amargadas
Que o poema seja assim
Portas e ruas fechadas

Ah! que saudades do sim
Nestas quadras desoladas!

Poema: José Saramago (in “Os Poemas Possíveis”, Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 24-25)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília (in LP “La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1”, Moshé-Naïm, 1967; CD “La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours”, EMEN, 1996)

Versão de Manuel Freire

Poema: José Saramago (in “Os Poemas Possíveis”, Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 24-25)
Música: Luís Cília
Intérprete: Manuel Freire (in LP “Devolta”, Diapasão/Lamiré, 1978)

José Saramago, escritor e poeta

José Saramago, escritor e poeta

Do cardo que carda a gente

[ Cantilena ]

Do cardo que carda a gente
nele se vê a roupa pouca
corpo tosco tosca terra
nele se escuta a voz ausente

Da água que fura a pedra
vão lamento gasto tempo
dura água que vai dentro
do mais oculto da serra

Da saliva que o mar bebe
sonho leve ondas tontas
luas ocas que nos seguem
na palidez das lucernas

Do povo que pesa os ares
asas vagas bater de asas
sono ébrio que braveja
no crepitar das miragens

Na mão que enxuga a dor
morre a ira cansa a fera
da semente que diz não
iça a torre seca a hera

Povo povo quem te chama
tem a espora no dizer
cada quimera esvaída
no deserto vai morrer

Poema: Fernando Namora (in “Nome para uma Casa”, Venda Nova – Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 165-166)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia (in CD “Sandálias de Vento”, Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)

Dolente

[ Música na Praia ]

Dolente
indolente
no mar indo
no mar vindo
na espuma se abrindo
espreguiçada
dolente
toada brasileira
que dorme
desperta
indo e vindo
vindo e indo
que acorda sonhando
dormindo gemendo
espreguiçada
na areia
melopeia
brasileira
voz quente
na praia ensonada
no mar bocejando
voz quente
quebrando quebrando
cansada
de ir morrendo
mas tão viva sendo
na praia extasiada

Poema: Fernando Namora (in “Nome para uma Casa”, Venda Nova – Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 154-155)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD “Sandálias de Vento”, Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)

Dos meus poetas

[ Aos Meus Poetas ]

Dos meus poetas
recebo a alma
em cada palavra.

Suspenso, o vocábulo espera;
a respiração trémula
solta um ciciar inseguro
anunciando o mistério
da melodia.

Dos meus poetas
recebo a alma
em cada palavra.

Música, alimento de música
(os meus poetas)
atingem em cheio
o que de mais oculto
cegamente procuro
numa íntima busca…

Música, alimento de música
(os meus poetas)
atingem em cheio
o que de mais oculto
cegamente procuro
numa íntima busca
deliciosamente eterna…

Poema e música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé (ao vivo no Estúdio 3 da Rádio e Televisão de Portugal, Lisboa)
Versão original: Janita Salomé com Catarina Molder (in CD “Valsa dos Poetas”, Cantar ao Sol/Ponto Zurca, 2018)

Eis a que tudo deu

[ Mariana ]

Poema: Manuel Alegre
Música: João Braga
Voz: Maria Ana Bobone

Esta gente

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
Dum país liberto
Duma vida limpa
E dum tempo justo

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (adaptado)
Música: Manuel Lima Brummon
Intérprete: Tereza Tarouca (in LP “Portugal Triste”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD “Tereza Tarouca”, col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)

Sophia de Mello Breyner

Sophia de Mello Breyner

Esta gente

(Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Geografia”: II – “Procelária”, Lisboa: Edições Ática, 1967; “Obra Poética”, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015 – p. 508)

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
Dum país liberto
Duma vida limpa
E dum tempo justo

Homem que vês humanas desventuras

[ Soneto XIV ]

Homem que vês humanas desventuras,
Que te prendes à vida e te enamoras,
Que tudo sabes e que tudo ignoras,
Vencido herói de todas as loucuras;

Que te debruças pálido nas horas
Das tuas infinitas amarguras —
E na ambição das coisas mais impuras
És grande simplesmente quando choras;

Que prometes cumprir e que te esqueces,
Que te dás à virtude e ao pecado,
Que te exaltas e cantas e aborreces,

Arquitecto do sonho e da ilusão,
Ridículo fantoche articulado
— Eu sou teu camarada e teu irmão. [bis]

Poema: António Botto (com o primeiro verso modificado)
Música: Fernando Guerra
Arranjo e orquestração: Jorge Costa Pinto
Intérprete: Carlos do Carmo* (in LP “Carlos do Carmo”, Tecla, 1972; LP “Canoas do Tejo”, Edisom, 1984, reed. Movieplay, 1992, 1998, Universal Music, Série ’50 Anos’, 2013)

António Botto

António Botto

Horizonte

[ Estio ]

Horizonte
todo de roda
caiado de sol.
Ao meio
do cerro gretado
esguia cabeça de cobra
olha assobios de lume
sobre espigas amarelas…
(…Campaniços degredados
na vastidão das searas
sonham bilhas de água fria!…)

Poema: Manuel da Fonseca (in “Planície”, Coimbra: Novo cancioneiro, 1941; “Poemas Completos”, Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958; “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 3.ª edição, Lisboa: Portugália Editora, 1969 – p. 97; “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 5.ª edição, Lisboa: Forja, 1975 – p. 108; “Obra Poética”, pref. Mário Dionísio, Lisboa: Editorial Caminho, 1984 – p. 113)
Música: Paulo Ribeiro
Intérprete: Fernando Pardal (in CD “O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis”, de Paulo Ribeiro, Açor/Emiliano Toste, 2017)

Já Bocage não és

[ Bocage ]

Já Bocage não és, nem podes ser,
a alma do que foste é um soneto
português até no jeito de sofrer
transformando a mágoa em doce afecto.

Animaste as tertúlias lisboetas
com as rimas do ciúme mitigado
engrandecendo a fama dos poetas
à custa da tristeza do teu fado.

Sadino, alfacinha e do mundo,
poeta do assombro de uma escrita
que levou o desespero até ao fundo.

Já Bocage não és, nem podes ser,
a alma do que foste é um soneto
português até no jeito de sofrer
transformando a mágoa em doce afecto.

Sadino, alfacinha e do mundo,
poeta do assombro de uma escrita
que levou o desespero até ao fundo.

Bocage deste sonho que se agita
revelando o que tem de mais profundo
por saber que só alma é infinita.

Poema: José Jorge Letria
Música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé (ao vivo no Estúdio 3 da Rádio e Televisão de Portugal, Lisboa)
Versão original: Janita Salomé (in CD “Valsa dos Poetas”, Cantar ao Sol/Ponto Zurca, 2018)

Meu pai tinha sandálias de vento

[ Um Segredo ]

Meu pai tinha sandálias de vento
só agora o sei.
Tinha sandálias de vento
e isto nem sequer é uma maneira de dizer
andava por longe os olhos fugidos a expressão em nenhures
com as miraculosas instantaneidades que nos fazem estar em todos os sítios.

Andava por longe meu pai sonhando errando vadiando
mas toda a sua ausência era
o malogro de o ser
só agora o sei.
Andava por longe ou sentíamo-lo longe
vem dar no mesmo
e no entanto víamo-lo sempre
ali plantado de imobilidade absorta
no cepo de carvalho raiado de negro
a que o caruncho comera o miolo
como as lagartas esvaziam as maçãs
estranhamente quieto murcho resignado
no seu estranho vadiar
os olhos aguados numa tristeza que hoje me dói
como um apelo perdido uma coragem abortada.
Ausência era tão de mágoa urdida tão de fracasso tingida
ausência era
altiva e desolada altiva e triste sobretudo triste
tristeza sim tristeza solene e irremediada
só agora o sei.

Às vezes parecia-me uma águia que atravessa os ares
sulco azul
que nada distingue do azul onde foi sulcado
e por isso nem é águia nem ao menos
o que do seu voo resta para que
o sonho se faça real.
Meu pai era um homem com as nostalgias
do que nunca acontecera e isso minava-o víscera a víscera
como as tais lagartas esfarelam as maçãs
e então sei-o agora calçava as ágeis sandálias
miraculosamente leves soltas imaginosas
indo de acaso em acaso de astro em astro
eram de vento as suas sandálias fabulosas
levando-o aonde mais ninguém poderia chegar.

Os outros não o sabiam nem eu o sabia
só o víamos sentado no cepo velho
raiado de negro como uma estrela fossilizada
por isso tudo era para ele mais irremediável e triste
sei-o agora tarde de mais
tarde de mais é uma dor de remorso
que me consome víscera a víscera
como as tais lagartas esfarelam as maçãs.
Mas de qualquer maneira existe um segredo
de que ambos partilhamos
ciosamente avaramente indecifradamente
como os astutos conspiradores
que fazem do seu segredo
um mágico tesouro inviolado.

Um segredo simples:
o que sentiste pai
sinto-o eu agora por ambos
sinto-o por ti
sinto-o por mim.

Ainda que por ele devorados.

Poema: Fernando Namora (in “Nome para uma Casa”, Venda Nova – Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 16-18)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia (in CD “Sandálias de Vento”, Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)

Não Sei Quantas Almas Tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser
O que segue prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu.

Poema: Fernando Pessoa (ligeiramente adaptado)
Música e arranjo: Paulo Loureiro
Intérprete: Ana Laíns (in CD “Fernando Pessoa: O Fado e a Alma Portuguesa”, Seven Muses/Warner Music, 2013; CD “Portucalis”, Ana Laíns/Seven Muses, 2017)
Versão original: Ana Laíns (in Livro/CD “Os Mensageiros: Antologia de Fernando Pessoa”, Seven Muses, 2012)

Os Mensageiros, Antologia de Fernando Pessoa

Os Mensageiros, Antologia de Fernando Pessoa

Não sei quantas almas tenho

Fernando Pessoa, in “Novas Poesias Inéditas de Fernando Pessoa”, direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno, col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. X, Lisboa: Edições Ática, 1973, 4.ª edição, Lisboa: Edições Ática, 1993 – p. 48

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu.

24-8-1930

No amor também as palavras

[ Também as Palavras ]

No amor também as palavras
são necessárias. Os gestos talvez não bastem.
Nem a chuva lá fora enquanto o amor se inflama.
Nem o sussurro nas árvores quando os corpos serenam.
Nem a melopeia das águas quando as bocas se esmagam.
Nem o fulgor dos olhos quando a paixão se amotina.

Penso no amor e logo invento palavras
e logo as palavras se põem ébrias.
Penso no amor e logo as palavras
se soltam como fogosas aves
a que não pergunto o rumo.

Penso no amor e logo preciso
que as palavras digam
que amor é este em que penso e em que grito.

Poema: Fernando Namora (in “Nome para uma Casa”, Venda Nova – Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 79)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD “Sandálias de Vento”, Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)

O coração de poeta

[ Canção de Embalo para as Virgens dos Portos ]

O coração de poeta é oiro estilhaçado
que vai semeando no seu caminho.
Oiro caído é oiro perdido
que o poeta não volta para o regar.
Vão acenar-lhe da largada
como se ele partisse para o cabo do mundo,
que o horizonte é largo e o mar é fundo
e ele não tornará.
Ondas vencidas são ondas perdidas
que o poeta só tem saudades do que virá.

Em cada praia chegada
há luzes festivas na areia:
a voz de mel do poeta triste
é canto feiticeiro de sereia.
Canta, canta, que a tua voz magoada
tenha a tristeza do bem perdido
dos sonhos azuis que o embalaram.
Ai! que dos olhos da barca
se vêem estrelas a brilhar.
Canta, canta, para o tesoiro perdido
que a esperança lá irá naufragar.

Nem a noite nem o dia o trarão consigo:
o horizonte é largo e o mar é fundo,
há outras paragens, no cabo do mundo,
para ele descobrir e enfeitiçar.

Poema: Fernando Namora (in “Mar de Sargaços, Coimbra: Atlântida, 1939; “As Frias Madrugadas”, Lisboa: Arcádia, 1959, Lisboa: Círculo de Leitores, 1997 – p. 132-133)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia (in CD “Sandálias de Vento”, Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)

Pescador da barca bela

[ Barca Bela ]

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,
Oh pescador?!

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,
Oh pescador?!

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela…
Mas cautela,
Oh pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela…
Mas cautela,
Oh pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Oh pescador.

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela
Oh pescador!

Poema: Almeida Garrett (ligeiramente adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Teresa Silva Carvalho
Arranjo: Thilo Krasmann
Intérprete: Teresa Silva Carvalho* (in EP “Adágio”, Movieplay, 1971; CD “Teresa Silva Carvalho”, Col. O Melhor dos Melhores, vol. 35, Movieplay, 1994; CD “Teresa Silva Carvalho”, Col. Clássicos da Renascença, vol. 63, Movieplay, 2000; CD “Poesia Encantada”, vol. 1, EMI-VC, 2002)

Quando chegaste enfim

[ Tarde Demais ]

Poema: Florbela Espanca
Música: Loic da Silva
Intérprete: Sandra Correia

Quem cantará

[ Regresso ]

Quem cantará vosso regresso morto?
Que lágrimas, que grito hão-de dizer
A desilusão e o peso em vosso corpo?

Portugal tão cansado de morrer
Ininterruptamente e devagar
Enquanto o vento vivo vem do mar.

Quem são os vencedores desta agonia?
Quem os senhores sombrios desta noite
Onde se perde, morre e se desvia
A antiga linha clara e criadora
Do nosso rosto voltado para o dia?

Quem cantará vosso regresso morto?
Que lágrimas, que grito hão-de dizer
A desilusão e o peso em vosso corpo?

Portugal tão cansado de morrer
Ininterruptamente e devagar
Enquanto o vento vivo vem do mar.

Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (adaptado)
Música: Manuel Lima Brummon
Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP “Portugal Triste”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD “Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006)

Tereza Tarouca, Álbum de Recordações

Tereza Tarouca, Álbum de Recordações

Regresso

Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Mar Novo”, Lisboa: Guimarães Editores, 1958; “Obra Poética”, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015 – p. 394-395

Quem cantará vosso regresso morto
Que lágrimas, que grito hão-de dizer
A desilusão e o peso em vosso corpo?

Portugal tão cansado de morrer
Ininterruptamente e devagar
Enquanto o vento vivo vem do mar

Quem são os vencedores desta agonia?
Quem os senhores sombrios desta noite
Onde se perde morre e se desvia
A antiga linha clara e criadora
Do nosso rosto voltado para o dia?

Resina

[ Líricas ]

Resina
urze
vento:
a infância.
Nas narinas
o suor
dos gados
no tapete
de estrume
das quelhas:
a distância.
Nuvem inconstante
dependurada
do lamento
dos sinos:
a ausência.
Casco e pedras
na marcha
ensonada
dos bois longínquos
colinas brandas
na pura luz
saturada
de moitas
diluvianas
inconstante nuvem
no abandono
de um momento:
oh paisagem
dentro dos olhos
vagabundos
oh paisagem esbatida
na sépia
dos retratos
de antigamente.

Poema: Fernando Namora (in “Nome para uma Casa”, Venda Nova – Amadora: Livraria Bertrand, 1984 – p. 13-14, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 11-12)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia (in CD “Sandálias de Vento”, Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)

Fernando Namora

Fernando Namora

Se me Levam Águas

MOTE ALHEIO

Se me levam águas,
nos olhos as levo.

VOLTAS

Se de saudade
morrerei ou não,
meus olhos dirão
de mim a verdade.
Por eles me atrevo
a lançar as águas
que mostrem as mágoas
que nesta alma levo.

As águas que em vão
me fazem chorar,
se elas são do mar
estas de amor são.
Por elas relevo
todas minhas mágoas;
que, se força de águas
me leva, eu as levo.

Todas me entristecem,
todas são salgadas;
porém as choradas
doces me parecem.
Correi, doces águas,
que, se em vós me enlevo,
não doem as mágoas
que no peito levo.

Poema (vilancete em redondilha menor): Luís de Camões (in “Rimas”, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; “Obras de Luís de Camões”, Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 772-773)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília (in LP “La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1”, Moshé-Naïm, 1967; CD “La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours”, EMEN, 1996)

CANÇÃO X

Poema de Luís de Camões (in “Rimas”, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; “Rimas”, texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953, Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD “Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra”, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)

Vinde cá, meu tão certo secretário
dos queixumes que sempre ando fazendo,
papel, com que a pena desafogo!
As sem-razões digamos que, vivendo,
me faz o inexorável e contrário
Destino, surdo a lágrimas e a rogo.
Deitemos água pouca em muito fogo;
acenda-se com gritos um tormento
que a todas as memórias seja estranho.
Digamos mal tamanho
a Deus, ao mundo, à gente e, enfim, ao vento,
a quem já muitas vezes o contei,
tanto debalde como o conto agora;
mas, já que para errores fui nacido,
vir este a ser um deles não duvido.
Que, pois já de acertar estou tão fora,
não me culpem também, se nisto errei.
Sequer este refúgio só terei:
falar e errar sem culpa, livremente.
Triste quem de tão pouco está contente!

Já me desenganei que de queixar-me
não se alcança remédio; mas quem pena,
forçado lhe é gritar se a dor é grande.
Gritarei; mas é débil e pequena
a voz para poder desabafar-me,
porque nem com gritar a dor se abrande.
Quem me dará sequer que fora mande
lágrimas e suspiros infinitos
iguais ao mal que dentro n’alma mora?
Mas quem pode algũa hora
medir o mal com lágrimas ou gritos?
Enfim, direi aquilo que me ensinam
a ira, a mágoa, e delas a lembrança,
que é outra dor por si, mais dura e firme.
Chegai, desesperados, para ouvir-me,
e fujam os que vivem de esperança
ou aqueles que nela se imaginam,
porque Amor e Fortuna determinam
de lhe darem poder para entenderem,
à medida dos males que tiverem.

Quando vim da materna sepultura
de novo ao mundo, logo me fizeram
Estrelas infelices obrigado;
com ter livre alvedrio, mo não deram,
que eu conheci mil vezes na ventura
o melhor, e o pior segui, forçado.
E, para que o tormento conformado
me dessem com a idade, quando abrisse
inda menino, os olhos, brandamente,
mandam que, diligente,
um Menino sem olhos me ferisse.
As lágrimas da infância já manavam
com ũa saudade namorada:
o som dos gritos, que no berço dava,
já como de suspiros me soava.
Co a idade e Fado estava concertado;
porque quando, por caso, me embalavam,
se versos de Amor tristes me cantavam,
logo me adormecia a natureza,
que tão conforme estava co a tristeza.

Foi minha ama ũa fera, que o destino
não quis que mulher fosse a que tivesse
tal nome para mim; nem a haveria.
Assi criado fui, porque bebesse
o veneno amoroso, de menino,
que na maior idade beberia,
e, por costume, não me mataria.
Logo então vi a imagem e semelhança
daquela humana fera tão fermosa,
suave e venenosa,
que me criou aos peitos da esperança;
de que eu vi despois o original,
que de todos os grandes desatinos
faz a culpa soberba e soberana.
Parece-me que tinha forma humana,
mas cintilava espíritos divinos.
Um meneio e presença tinha tal
que se vangloriava todo o mal
na vista dela; a sombra, co a viveza,
excedia o poder da Natureza.

Não sei como sabia estar roubando
cos raios das entranhas, que fugiam
por ela, pelos olhos sutilmente!
Pouco a pouco invencíveis me saíam,
bem como do véu húmido exalando
está o sutil humor o Sol ardente.
Enfim, o gesto puro e transparente,
para quem fica baixo e sem valia
deste nome de belo e de fermoso;
o doce e piadoso
mover de olhos, que as almas suspendia
foram as ervas mágicas, que o Céu
me fez beber; as quais, por longos anos,
noutro ser me tiveram transformado,
e tão contente de me ver trocado
que as mágoas enganava cos enganos;
e diante dos olhos punha o véu
que me encobrisse o mal, que assi creceu,
como quem com afagos se criava
daquele para quem crecido estava.

Que género tão novo de tormento
teve Amor, que não fosse, não somente
provado em mim, mas todo executado?
Implacáveis durezas, que o fervente
desejo, que dá força ao pensamento,
tinham de seu propósito abalado,
e de se ver, corrido e injuriado;
aqui, sombras fantásticas, trazidas
de algũas temerárias esperanças;
as bem-aventuranças
nelas também pintadas e fingidas;
mas a dor do desprezo recebido,
que a fantasia me desatinava,
estes enganos punha em desconcerto;
aqui, o adevinhar e o ter por certo
que era verdade quanto adevinhava,
e logo o desdizer-se, de corrido;
dar às cousas que via outro sentido,
e para tudo, enfim, buscar razões;
mas eram muitas mais as sem-razões.

Pois quem pode pintar a vida ausente,
com um descontentar-me quanto via,
e aquele estar tão longe donde estava;
o falar, sem saber o que dezia;
andar, sem ver por onde, e juntamente
suspirar sem saber que suspirava?
Pois quando aquele mal me atormentava
e aquela dor que das Tartáreas águas
saiu ao mundo, e mais que todas dói,
que tantas vezes soe
duras iras tornar em brandas mágoas;
agora, co furor da mágoa irado,
querer e não querer deixar de amar,
e mudar noutra parte por vingança
o desejo privado de esperança,
que tão mal se podia já mudar;
agora, a saudade do passado
tormento, puro, doce e magoado,
fazia converter estes furores
em magoadas lágrimas de amores.

Que desculpas comigo que buscava
quando o suave Amor me não sofria
culpa na cousa amada, e tão amada!
Enfim, eram remédios que fingia
o medo do tormento que ensinava
a vida a sustentar-se, de enganada.
Nisto ũa parte dela foi passada,
na qual se tive algum contentamento
breve, imperfeito, tímido, indecente,
não foi senão semente
de longo e amaríssimo tormento.
Este curso contino de tristeza,
estes passos tão vãmente espalhados,
me foram apagando o ardente gosto
que tão de siso n’alma tinha posto,
daqueles pensamentos namorados
em que eu criei a tenra natureza,
que do longo costume da aspereza,
contra quem força humana não resiste,
se converteu no gosto de ser triste.

Dest’arte a vida noutra fui trocando;
eu não, mas o destino fero, irado,
que eu ainda assi por outra não trocara.
Fez-me deixar o pátrio ninho amado,
passando o longo mar, que ameaçando
tantas vezes me esteve a vida cara.
Agora, exprimentando a fúria rara
de Marte, que cos olhos quis que logo
visse e tocasse o acerbo fruto seu
(e neste escudo meu
a pintura verão do infesto fogo);
agora, peregrino vago e errante,
vendo nações, linguagens e costumes,
Céus vários, qualidades diferentes,
só por seguir com passos diligentes
a ti, Fortuna injusta, que consumes
as idades, levando-lhe diante
ũa esperança em vista de diamante,
mas quando das mãos cai se conhece
que é frágil vidro aquilo que aparece.

A piadade humana me faltava,
a gente amiga já contrária via,
no primeiro perigo; e, no segundo,
terra em que pôr os pés me falecia,
ar para respirar se me negava,
e faltavam-me, enfim, o tempo e o mundo.
Que segredo tão árduo e tão profundo:
nacer para viver, e para a vida
faltar-me quanto o mundo tem para ela!
E não poder perdê-la,
estando tantas vezes já perdida!
Enfim, não houve transe de fortuna,
nem perigos, nem casos duvidosos,
injustiças daqueles, que o confuso
regimento do mundo, antigo abuso,
faz sobre os outros homens poderosos,
que eu não passasse, atado à grã coluna
do sofrimento meu, que a importuna
perseguição de males em pedaços
mil vezes fez, à força de seus braços.

Não conto tanto males como aquele
que, despois da tormenta procelosa,
os casos dela conta em porto ledo;
que inda agora a Fortuna flutuosa
a tamanhas misérias me compele,
que de dar um só passo tenho medo.
Já de mal que me venha não me arredo,
nem bem que me faleça já pretendo,
que para mim não vale astúcia humana;
de força soberana,
da Providência, enfim, divina, pendo.
Isto que cuido e vejo, às vezes tomo
para consolação de tantos danos.
Mas a fraqueza humana, quando lança
os olhos no que corre, e não alcança
senão memória dos passados anos,
as águas que então bebo, e o pão que como,
lágrimas tristes são, que eu nunca domo
senão com fabricar na fantasia
fantásticas pinturas de alegria.

Que se possível fosse, que tornasse
o tempo para trás, como a memória,
pelos vestígios da primeira idade,
e de novo tecendo a antiga história
de meus doces errores, me levasse
pelas flores que vi da mocidade;
e a lembrança da longa saudade
então fosse maior contentamento,
vendo a conversação leda e suave,
onde ũa e outra chave
esteve de meu novo pensamento,
os campos, as passadas, os sinais,
a fermosura, os olhos, a brandura,
a graça, a mansidão, a cortesia,
a sincera amizade, que desvia
toda a baixa tenção, terrena, impura,
como a qual outra algũa não vi mais…
Ah! vãs memórias, onde me levais
o fraco coração, que ainda não posso
domar este tão vão desejo vosso?

Nõ mais, Canção, nõ mais; que irei falando,
sem o sentir, mil anos. E se acaso
te culparem de larga e de pesada,
não pode ser (lhe dize) limitada
a água do mar em tão pequeno vaso.
Nem eu delicadezas vou cantando
co gosto do louvor, mas explicando
puras verdades já por mim passadas.
Oxalá foram fábulas sonhadas!

Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa

Se olhas a distância

[ Se o Coração Não Cansa ]

Se olhas a distância
talvez julgues que é tarde
e que a rosa se deixou abrir
até ser calafrio
e que tudo é o vazio
sem números nas portas
onde pernoitar de tanta viagem.

Olharás a neve que apagou
as horas e os passos
e a palidez dos espelhos
devorando o silêncio
e o crescer da relva na memória
dos longes coados.
A sombra da cinza
é orvalho
e nele os remos não avançam
no vento fatigado.
Resignado te olhas
fundindo os portos e as lendas
onde a infância gela
na remota espera
de ser desatino.
Mas não
de todas as vezes diz não
para que o tempo se desprenda
nas velas magras.

Se o coração não cansa
nada é tarde
nada.

Poema: Fernando Namora (in “Nome para uma Casa”, Venda Nova – Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 106-107)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia (in CD “Sandálias de Vento”, Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)

Sentada no chão quente

[ Casa de Cacela ]

Sentada no chão quente
Pus um colar de cheiros ao pescoço
Melão maduro
Uva a fermentar
Entranhada nas tábuas dos caixotes
Figos a cair maduros das figueiras
Revendo docemente
Leite das folhas arrancadas
Pôr no dedo uma argola
De sol mágico regresso
Mas não a essa infância
De que fugi correndo
Escondendo a cara com o braço
Figos a cair maduros das figueiras
O galo da avó
Atirava-se aos olhos dos passantes
De quê de quem de quê de quem
De quê me sinto regressar?

Sentada no chão quente
Pus um colar de cheiros ao pescoço
Melão maduro
Uva a fermentar
Entranhada nas tábuas dos caixotes
Figos a cair maduros das figueiras
Revendo docemente
Leite das folhas arrancadas

De quê de quem de quê de quem
De quem me sinto regressar?
A esta terra sim
Decerto mas foi antes
Das casas e das pessoas
Que ela me deu de mamar
Figos a cair maduros das figueiras
O galo da avó
Atirava-se aos olhos dos passantes

Seus sovacos
Seu púbis
Rescendem a uvas pretas
Seus sucos
Leite branco de figos lampos
Na cesta de cana
Sento-me nos ladrilhos frescos do chão
Respiro o fresco da cal
Abro a porta:
Cai-me nos braços o bafo de um Verão
violento
Empurro-o para fora
Fecho a porta
Saboreio
Sorrindo na sombra
A sua ausência

De quê de quem de quê de quem
De quê me sinto regressar?
De quê de quem de quê de quem
De quem me sinto regressar?
De quê de quem de quê de quem
De quê de quem me sinto regressar?
De quê de quem de quê de quem
De quê de quem me sinto regressar?

Poema: Teresa Rita Lopes
Música: Rui Moura
Intérpretes: Rui Moura & Teresa Rita Lopes (in CD “E a Fala se Fez Canto”, IELT – Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, 2005)

Sorrindo interiormente

[ Porque o Melhor ]

Sorrindo interiormente,
co’as pálpebras cerradas,
às águas da torrente
já tão longe passadas.

Rixas, tumultos, lutas,
não me fazerem dano…
alheio às vãs labutas,
às estações do ano.

Passar o estio, o outono,
a poda, a cava e a redra,
e eu dormindo um sono
debaixo duma pedra.

Porque o melhor, enfim,
é não ouvir.
Porque o melhor
é não ouvir nem ver,
passarem sobre mim
e nada me doer.

Melhor até se o acaso
o leito me reserva
no prado extenso e raso
apenas sob a erva.

Ou no serrano mato,
a brigas tão propício,
onde o viver ingrato
dispõe ao sacrifício.

Porque o melhor, enfim,
é não ouvir.
Porque o melhor
é não ouvir nem ver,
passarem sobre mim
e nada me doer.

Roubos, assassinatos!
horas jamais tranquilas,
em brutos pugilatos
fracturam-se as maxilas…

E eu sob a terra firme,
compacta, recalcada,
muito quietinho, a rir-me
de não me doer nada.

Porque o melhor, enfim,
é não ouvir.
Porque o melhor
é não ouvir nem ver,
passarem sobre mim
e nada me doer.

Porque o melhor, enfim,
é não ouvir.
Porque o melhor
é não ouvir nem ver,
passarem sobre mim
e nada me doer.

Poema: Camilo Pessanha (excerto adaptado)
Música: José Barros
Arranjo: José Barros e Miguel Tapadas
Intérprete: José Barros e Navegante
Versão original: José Barros e Navegante (in CD “À’Baladiça”, Tradisom, 2018)

Tinhas a serena grandeza desse mar

[ Sophia ]

Tinhas a serena grandeza desse mar
que em verso se tornava sinfonia,
rumor de búzio e brancura de coral
celebrando cada instante de alegria.

Tinhas da palavra a medida sempre exacta,
a mais certa, a mais justa, a mais perfeita
e eram de oiro e âmbar e de prata
os versos que nasciam dessa colheita.

Tinhas a serena grandeza desse mar
que em verso se tornava sinfonia,
rumor de búzio e brancura de coral
celebrando cada instante de alegria.

Tinhas da palavra a medida sempre exacta,
a mais certa, a mais justa, a mais perfeita
e eram de oiro e âmbar e de prata
os versos que nasciam dessa colheita.

Tinhas a leveza da onda e da ave
e a claridade matinal que anuncia
em cada verso o timbre e a chave
desse mistério chamado poesia.

Tinhas a altiva grandeza do que fica
na memória do que somos e valemos
e a ciência que do verbo faz a casa
da beleza a que todos nos rendemos.

Tinhas a leveza da onda e da ave
e a claridade matinal que anuncia
em cada verso o timbre e a chave
desse mistério chamado poesia.

Tinhas a altiva grandeza do que fica
na memória do que somos e valemos
e a ciência que do verbo faz a casa
da beleza a que todos nos rendemos.

Tinhas a leveza da onda e da ave
e a claridade matinal…

Poema: José Jorge Letria
Música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé (ao vivo no Estúdio 3 da Rádio e Televisão de Portugal, Lisboa)
Versão original: Janita Salomé (in CD “Valsa dos Poetas”, Cantar ao Sol/Ponto Zurca, 2018)

Todo o amor que nos prendera

[ Primavera ]

Todo o amor que nos prendera,
como se fora de cera,
se quebrava e desfazia.
Ai funesta Primavera,
quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia!

E condenaram-me a tanto:
viver comigo o meu pranto,
viver, viver… e sem ti!
Vivendo sem, no entanto,
eu me esquecer desse encanto
que nesse dia perdi…

Pão duro da solidão
é somente o que nos dão,
o que nos dão a comer…
Que importa que o coração
diga que sim ou que não,
se continua a viver?

Todo o amor que nos prendera
se quebrara e desfizera,
em pavor se convertia.
Ninguém fale em Primavera!
Quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia!

Poema: David Mourão-Ferreira
Música: Pedro Rodrigues
Intérprete: Amália Rodrigues (1965, in CD “Segredo”, EMI-VC, 1997; CD “Amália canta David”, Edições Valentim de Carvalho/iPlay, 2011)

David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

Um dia quebrarei todas as pontes

[ As Fontes ]

Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora
A plenitude e o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz, a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.

Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora
A plenitude e o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz, a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.

Irei beber a luz e o amanhecer…
Um voo me atravessa,
E nela cumprirei…
E nela cumprirei…
E nela cumprirei todo o meu ser.

Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (adaptado)
Música e arranjo: Filipe Raposo
Intérprete: Ana Laíns com Filipe Raposo (in CD “Portucalis”, Ana Laíns/Seven Muses, 2017)

As fontes

Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Poesia”, Coimbra: Edição da autora, 1944; “Obra Poética I”, Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – p. 60

Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.

Vens como uma aparição

[ Aparição ]

Vens como uma aparição
apenas vestida com a tua beleza
dos teus gestos tombam as pétalas
que acabaram de abrir
e em mim escorrem como orvalho
que o morno hálito fundiu

vens e entras em mim com a subtileza da nuvem que abraçou o sol
e o bebe inteiro para o ter só seu
ou como lança ardente
que rasga de lava a paisagem amortecida

vens e ficas e incorporas-te
até não haver mais do que uma súplica
nem mais do que um fogo
nem mais do que uns braços
nem mais do que uma boca
nem mais do que um olhar de pálpebras cerradas
todo recolhido no que nele é júbilo e dor
dor de ser breve sabendo-se embora infindável
a vertigem transporta-nos como no poema da Ada Negri
e deixa-nos num lugar que nem é presença
nem ausência
apenas o exacto lugar
onde apenas cabe um corpo que instantes antes eram dois.

Uma folha tomba do plátano diz a Ada.
És tu és tu que me levas pelos ares.

Poema: Fernando Namora (in “Nome para uma Casa”, Venda Nova – Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 104-105)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia (in CD “Sandálias de Vento”, Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)

Camilo Pessanha, poeta

Camilo Pessanha, poeta, na canção portuguesa

Porque o melhor, enfim

(Camilo Pessanha, in “Clepsydra”, Lisboa: Edições Lusitania, 1920; “Clepsidra e Outros Poemas”, Org. João de Castro Osório, 9.ª edição, Lisboa: Editorial Nova Ática, 2003 – p. 76-78)

Porque o melhor, enfim,
É não ouvir nem ver…
Passarem sobre mim
E nada me doer!

— Sorrindo interiormente,
Co’as pálpebras cerradas,
Às águas da torrente
Já tão longe passadas. —

Rixas, tumultos, lutas,
Não me fazem dano…
Alheio às vãs labutas,
Às estações do ano.

Passar o estio, o outono,
A poda, a cava e a redra,
E eu dormindo um sono
Debaixo duma pedra.

Melhor até se o acaso
O leito me reserva
No prado extenso e raso
Apenas sob a erva

Que Abril copioso ensope…
E, esvelto, a intervalos
Fustigue-me o galope
De bandos de cavalos.

Ou no serrano mato,
A brigas tão propício,
Onde o viver ingrato
Dispõe ao sacrifício

Das vidas, mortes duras
Ruam pelas quebradas,
Com choques de armaduras
E tinidos de espadas…

Ou sob o piso, até,
Infame e vil da rua,
Onde a torva ralé
Irrompe, tumultua.

Se estorce, vocifera,
Selvagem nos conflitos,
Com ímpetos de fera
Nos olhos, saltos, gritos…

Roubos, assassinatos!
Horas jamais tranquilas,
Em brutos pugilatos
Fracturam-se as maxilas…

E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada,
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.

Part(Ida)

Vou
para um outro mundo
que não tenha fim
ou uma barca a mais

Vou para um outro dia
que não tenha sombra
sou sabor a sol

Vou para um outro sonho
que não tenha aves
ou palmas de mãos

(PART)IDA – Lectio X [satb (ssaatb)]
Música: Alfredo Teixeira
Poema: Daniel Faria*
Intérprete:
Coro Ricercare
Dir. Pedro Teixeira
Solistas: Raquel Pedra, Ana Baptista

Festival Antena 2, 15 -02-2020, no Salão Nobre do Teatro Nacional de São Carlos

*Daniel Faria, Das madrugadas, in Poesia, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2009.

Daniel Faria, poeta
Daniel Faria, poeta
https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/05/poetas-cantados-camilo-pessanha.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-09 23:34:522025-06-18 11:55:19Canções com grandes poetas
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