Ali está o rio, Dois homens na margem estão; Se um dá um passo, o outro hesita… Será um valente? O outro não?
Bom negócio faz um deles, Tem o triunfo na mão; Do outro lado do rio Só um come o fruto, o outro não.
Ao outro, passado o p’rigo, Novos castigos virão; Se ambos venceram o rio, Só um tudo ganha, o outro não.
Na margem já conquistada, Só um venceu a valer; Perdeu o outro a saúde, Mas nada ganhou p’ra viver.
Quem diz “nós” saiba ver bem Se diz a verdade ou não; Ambos vencemos o rio, A mim quem me vence é o patrão.
Letra: José Afonso, a partir da versão portuguesa, por Luiz Francisco Rebello, da peça “A Excepção e a Regra”, de Bertolt Brecht (levada à cena pelo Teatro de Amadores da Beira, Moçambique, em 1966) Música: José Afonso Intérprete: José Afonso (in LP “Enquanto Há Força”, Orfeu, 1978, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art’Orfeu Media, 2013, Mais Cinco, 2023)
Reciclanda, reutilização, música e poesia para um mundo melhor
O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.
Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.
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É quando um chão de lama
[ Barca em Chão de Lama ]
É quando um chão de lama se instala e nos comanda que a injustiça avança e a raiva se proclama é quando D. Quixote o peito acende e brama irreverente a espada imorredoura a chama é quando os homens longe repousam distraídos que a cobra traiçoeira lhes tapará os ouvidos e a boca e o saber e a vida tutelar e o mais que for preciso p’ra não deixar pensar
Mas sopra a barca o vento doutra razão de ser e rasga o mar e alcança e rompe e quer viver da ilha p’ra que rumo não há qualquer registo mas diz que viver lá é muito mais que isto
da ilha p’ra que rumo não há qualquer registo mas diz que viver lá é muito mais que isto
Que façam mil favores em crónicas variadas meus olhos e distâncias nunca serão compradas e comam futebol e mostrai-vos ao mundo e engulam três novelas com tal não me deslumbro ocupados de dia com a bicha do guichet entretidos à noite com a santa mãe TV matai-vos por um carro ou p’ra ter lantejoulas que aqui na minha terra cavalgo entre as papoulas
Mas sopra a barca o vento doutra razão de ser e rasga o mar e alcança e rompe e quer viver da ilha p’ra que rumo não há qualquer registo mas diz que viver lá é muito mais que isto
da ilha p’ra que rumo não há qualquer registo mas diz que viver lá é muito mais que isto
E a busca do sucesso e o detergente ideal aquilo é que é progresso agora em Portugal o creme adelgaçante e outras coisas de interesse a escola do miúdo o IVA o IRS e a bolsa e o poder aquilo é mesmo assim se um dia o totoloto ah me calhasse a mim e o tipo aqui do lado morreu ontem de enfarte e uma vez por ano Agosto em toda a parte!
Mas sopra a barca o vento doutra razão de ser e rasga o mar e alcança e rompe e quer viver da ilha p’ra que rumo não há qualquer registo mas diz que viver lá é muito mais que isto
da ilha p’ra que rumo não há qualquer registo mas diz que viver lá é muito mais que isto
Letra e música: Pedro Barroso Intérprete: Pedro Barroso (in CD “Criticamente”, Lusogram, 1999)
Envio-lhe esta missiva
[ Vozes do Sul – Carta à Senhora Dona Europa ]
Envio-lhe esta missiva De profundo desagrado Por vê-la assim cativa De usurários encartados
Sujeita a novos tormentos Subvertidas são as leis Vampiros a sugam sedentos Ceptro na mão velhos reis
As contas dos euro-réis Somam mentiras e medos Já nos tiraram os anéis Mas não nos levam os dedos
Cantando ao sol e à lua Vozes do Sul Já ao fundo da rua Vozes do Sul
As contas dos euro-réis Somam mentiras e medos Já nos tiraram os anéis Mas não nos levam os dedos
Cantando ao sol e à lua Vozes do Sul Já ao fundo da rua Vozes do Sul
Poema e música: Janita Salomé Intérprete: Janita Salomé Versão original: Janita Salomé (in CD “Valsa dos Poetas”, Cantar ao Sol/Ponto Zurca, 2018)
Receosa me sinto
[ Cartão-de-Visita ]
Receosa me sinto, nas cantigas me empenho: faço da escrita uma arma que manejo com engenho.
Finjo que digo o que sei, esqueço o que finjo saber, e sei que sempre cantei esta maneira de ser.
Escrevi canções de amor e ternura, mas outras canções foram pão-de-amargura.
Sei que me falta o tempo p’ra dizer tudo o que penso: se calo chamam-me falsa, se digo não tenho senso.
Não sou espelho de ninguém nem engano no parecer, e sei que sempre cantei esta maneira de ser.
Escrevi canções de amor e ternura, mas outras canções foram pão-de-amargura.
Receosa me sinto, nas cantigas me empenho: faço da escrita uma arma que manejo com engenho.
Finjo que digo o que sei, esqueço o que finjo saber, e sei que sempre cantei esta maneira de ser.
Escrevi canções de amor e ternura, mas outras canções foram pão-de-amargura.
Letra e música: Maria Guinot Intérprete: Maria Guinot (in CD “Tudo Passa”, Medilivro, 2004)
Senhoras e meus senhores
[ Uns Vão Bem e Outros Mal ]
Senhoras e meus senhores, façam roda por favor!…
Senhoras e meus senhores, façam roda por favor, cada um com o seu par! Aqui não há desamores, se é tudo trabalhador o baile vai começar.
Senhoras e meus senhores, batam certos os pezinhos, como bate este tambor! Não queremos cá opressores, se estivermos bem juntinhos vai-se embora o mandador.
Faz lá como tu quiseres, folha seca cai ao chão; eu não quero o que tu queres, que eu sou doutra condição.
De velhas casas vazias, palácios abandonados, os pobres fizeram lares; mas agora todos os dias, os polícias bem armados desocupam os andares.
P’ra que servem essas casas, a não ser p’ra o senhorio viver da especulação? Quem governa faz tábua-rasa, mas lamenta com fastio a crise da habitação. E assim se faz Portugal, uns vão bem e outros mal.
Faz lá como tu quiseres, folha seca cai ao chão; eu não quero o que tu queres, que eu sou doutra condição.
Tanta gente sem trabalho, não tem pão nem tem sardinha e nem tem onde morar; do frio faz agasalho, que a gente está tão magrinha da fome que anda a rapar.
O governo dá solução: manda os pobres emigrar e os emigrantes que regressaram; mas com tanto desemprego, os ricos podem voltar porque nunca trabalharam. E assim se faz Portugal, uns vão bem e outros mal.
Faz lá como tu quiseres, folha seca cai ao chão; eu não quero o que tu queres, que eu sou doutra condição.
E como pode outro alguém, tendo interesses tão diferentes, governar trabalhadores, se aquele que vive bem vivendo dos seus serventes têm diferentes valores?
Não nos venham com cantigas, não cantamos p’ra esquecer; nós cantamos p’ra lembrar que só muda esta vida quando tiver o poder o que vive a trabalhar. Segura bem o teu par, que o baile vai terminar!
Faz lá como tu quiseres, folha seca cai ao chão; eu não quero o que tu queres, que eu sou doutra condição.
Letra e música: Fausto Bordalo Dias Intérprete: Fausto Bordalo Dias (in LP “Madrugada dos Trapeiros”, Orfeu, 1977, reed. Movieplay, 1999)
Hoje há festa na rua, as fitas já estão penduradas A noite é longa, as sardinhas já estão assadas Escrevi no meu balão, antes de o lançar, Uma quadra de S. João só p’ra te falar
Ai, que o Santo António não se zangue Mas eu hoje peço ao S. João Que me traga o meu amor Que o escrevi no meu balão
Tê-lo longe é bem mais duro que alho-porro no nariz Ele anda por aí no mundo e nada me diz O baile começou e eu sem par para dançar O João Maria veio lampeiro com um manjerico p’ra me dar
Mas eu não quis Ai, fado infeliz!
Ai, que o Santo António não se zangue Mas eu hoje peço ao S. João Que me traga o meu amor Que o escrevi no meu balão
Há quadras, há festa, há bailes p’ra dançar Há vinho do Porto e foguetes no ar Mas meu amor não vai voltar Ali vai meu coração na esperança de te encontrar
Na esperança de te encontrar…
Letra e música: Vânia Couto Intérprete: Pensão Flor Versão original: Pensão Flor (in CD “O Caso da Pensão Flor”, Pensão Flor/Brandit Music, 2013)
Pensão Flor
Letras aos Santos Populares
De várias regiões de Portugal
Santo António
Santo António é o primeiro A trazer a gente à rua, Santinho casamenteiro, Juntou o Sol e a Lua.
Santo António de Lisboa
É noite de Santo António Estalam foguetes no ar; Põem o manjerico á janela E vem para a rua dançar.
Fiz quadras a Santo António E até mesmo a São João Para São Pedro vou tentar Mas falta-me inspiração.
Quando chove a tarde inteira Até a noiva molha a luva São Pedro fecha a torneira Não te armes em manda-chuva.
Santo António é a treze São João a vinte e quatro São Pedro a vinte e nove São os Santos Populares Que existem em Portugal.
Há marchas por todo o lado E fogueiras para saltar E as sortes para tirar Há moças por toda a parte Pois elas querem casar.
Santos Populares
Primeiro Santo António; Depois São João; Depois São Pedro Para o fim da reinação.
Ora viva o mês de Junho Viva o mês dos casamentos Quem pedir ao Santo António Não vai perder o seu tempo.
Porque o Santo é casamenteiro Amigo das raparigas A noite de Santo António É a noite das cantigas.
As moças pedem ao Santo Uma coisa que não têm Porque nunca foram amadas Precisam de amar alguém.
Ó meu senhor Santo António Atendei ao meu pedido Eu quero uma companhia Senhor dê-me um bom marido.
Eu agradeço ao meu Santo Te ponho um cravo na mão Vem o dia vinte e quatro O dia de S. João.
S. João é engraçado E tem coisas divertidas Vão á fonte buscar água Para ver as raparigas.
Traz uma infusa na mão De passinho miudinho Para ver as moças chegar Espera lá num cantinho.
A fonte de S. João É uma nascente e tem valor No alto de uma serra Em que S. João é pastor.
Pastando suas ovelhas De bordãozinho na mão Anda sempre acompanhado Quem andar com S. João.
Já lá foi vinte e quatro Vamos para vinte e nove Que tem muito que falar S. Pedro Pescador Tem muitas histórias para contar.
Memórias com História, Governo Regional da Madeira, Secretaria Regional da Educação e Recursos Humanos, Direção Regional de Educação, 2012 1 ed.
Reciclanda
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Vamos todos marchar
Vamos todos marchar Com o manjerico na mão Para oferecer à eleita Do seu terno coração.
Este dia de S. João É um dia bem lembrado Atum, maçaroca e feijão Assim, ele é festejado.
As marchas de S. João Fazemos com alegria Cantamos e bailamos Fazemos uma romaria.
Ó meu S. João de Braga Ó meu belo marinheiro Levai a nossa barca Para o Rio de Janeiro.
Manjericão vira a folha Quando o tempo está do mar E também viro as costas A quem não me sabe amar.
Na janela do meu quarto Não quero manjericão Dá-lhe o sol, vira a folha Faz-me uma grande escuridão.
Recordo-me de ser criança De ir à festa me alegrar Ia-se à igreja ver o S. João Depois, a casa regressar.
A fogueira é para saltar, A brasa para assar, A sardinha é para comer, E o vinho para beber.
O passado é para recordar, O presente para viver, O futuro para aguardar E a sardinha para comer.
São João para ver as moças, Fez uma fonte de prata. As moças não vão lá, São João todo se mata.
Sardinhas e manjericos, ando a cheirar pelo ar. Que tal uma quadra fazer ao meu Santo Popular?
São João, São Joãozinho. Quando não posso com o maior, trago o mais pequenino.
Para fazer a fogueira, vamos buscar pinhas ao Covão. Depois saltamos a fogueira, na noite de São João.
Nas marchas populares Saltam cantigas aos molhos Os corações se alegram Com sorrisos nos olhos.
Neste dia de festa
Neste dia de festa Traz uma cantiga e vem pró arraial Anda rapariga prá nossa festa E brincar no areal.
São os Santos Populares Festa dos balões e manjericos Os cheiros andam no ar E adoçam os namoricos.
Ó meu rico São João Dá-me cá um balão P’ra na roda entrar E cantar uma canção.
Ó meu rico São João Arranja-me um rapaz solteiro Que seja bom e bonito E que tenha muito dinheiro.
Vou pedir-te um milagre Meu São Pedro Padroeiro Dá-nos sol e bom tempo Durante o ano inteiro.
Ó meu rico São João Venho aqui à tua beira Colher uma lenhinha P’ra acender a fogueira.
A São João vou cantar Pois é dele este dia E a todos vou desejar Paz, Amor e Alegria.
São João lindo santinho Os teus caracóis são d’ouro E o teu alvo cordeirinho É o teu maior tesouro.
Chamam-lhe o Santo bonito Isso não sei se ele é Mas nele eu acredito E tenho devota fé.
Se eu saltar a fogueira E queimadinha ficar Não hei-de ser a primeira A com o fogo brincar.
São Pedro
O São Pedro, é um artista, Que diz aos jovens foliões; Usem o beijo como isca Para pescarem corações.
Com tanta gente a pecar Do Jordão até ao Mondego, São Pedro pode ir parar Às portas do desemprego.
Oh! São Pedro pescador… Ai que noite atribulada. Fui pescar com o meu amor, Fiquei com a rede furada.
S. Pedro é pescador Lança ao mar sua barquinha Rema, rema todo o dia E só volta de tardinha.
S. Pedro sente-se feliz Nas ondas no mar sagrado Quem se junta a S. Pedro Anda bem acompanhado.
Eu vejo que são corajosos E suas almas são boas Lançam as redes ao mar Mesmo a volta das canoas.
Parecem ser honestos Trabalham em união Passa Jesus e convida-os Para outra embarcação.
Vamos ao calhau
Vamos ao calhau de S. Jorge Que há-de ser sempre lembrado Porque em dia de S. Pedro Estava sempre acompanhado.
À sessenta anos atrás Eu lembro-me muito bem Vinha gente de S. Jorge e de Santana Também lá cantavam e brincavam Passavam o dia bem.
A última festa que houve Parece que estou a ver A banda de Santana Que foi bonito a valer. E também comes e bebes Melhor não podia haver.
Era uma vez por ano Que esta festa se fazia Pelas voltas do calhau Saíam em romaria.
Ao chegar ao fim da tarde Cantigas por toda a banda Começavam no bailinho E acabavam no charamba.
Eu vou dar por terminado Tenho a caneta na mão Agora já não fazem festas Acabou a tradição.
[ Madeira ]
A fogueira é para saltar
A fogueira é para saltar, A brasa para assar, A sardinha é para comer, E o vinho para beber.
O passado é para recordar, O presente para viver, O futuro para aguardar E a sardinha para comer.
São João para ver as moças, Fez uma fonte de prata. As moças não vão lá, São João todo se mata.
https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/05/sao-joao.jpg400400António Ferreirahttps://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpgAntónio Ferreira2020-05-12 12:31:292025-04-07 19:15:33Canções aos santos populares
E tu quem és? De donde vens? Porque não te chegas mais? Vem cá ver, acreditar que as pessoas são bens reais!
Ser feliz é nunca mais voltar a estar só
No jardim falta uma peça ao dominó
Sê mais um para mostrar como se canta em dó
Aprender como se dança sem levantar pó
O que é meu é p’ra dar Deus não quer tralha no Céu Não há nada p’ra guardar Viver já é um troféu
O que é meu é p’ra dar Deus não quer tralha no Céu Não há nada p’ra guardar Viver já é um troféu
Ser feliz é nunca mais voltar a estar só
No jardim falta uma peça ao dominó
Sê mais um para mostrar como se canta em dó
Aprender como se dança sem levantar pó
Letra: Eugénia Ávila Ramos Música: Tiago Oliveira Intérprete: Rua da Lua (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)
Reciclanda
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Pássaros voam livres
[ Pássaros da Cidade ]
Pássaros voam livres Num impulso de asas Planando em anéis invisíveis Asfixiados pelas nuvens. Pelas nuvens…
Pássaros pairando Em tudo constantes Com gestos de arestas vivas Que se levantam da cidade, Da cidade… E nos refreiam as pulsações, As pulsões, corações.
Cidade, labirinto de esquinas E grades intangíveis. Cidade, labirinto de esquinas E grades intangíveis.
Pássaros voam livres Num impulso de asas Planando em anéis invisíveis Pássaros voam livres Num impulso de asas…
Letra: Joana Lopes Música: António Pedro Intérprete: Musicalbi Versão original: Musicalbi (in CD “Solidão e Xisto”, Musicalbi, 2019)
Porto, coreto da Cordoaria
https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/05/porto-coreto-da-cordoaria-ft-ajf.jpg400400António Ferreirahttps://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpgAntónio Ferreira2020-05-11 22:18:502024-11-11 00:20:06Canções sobre a cidade
Da sua mão sobe o ar ao infinito, de lá treme. A música, por um lado, vê-se; por outro, não se vê. Nada da música se improvisa por acaso. A música corre nas gargantas e pode ser tocada com um só dedo. A música mostra-se feia para os seus pares e bela para os seus ímpares. A música emudece, por vezes, os cantores e deixa-os a sós nos camarins à espera do amigo do carrasco. A música não é a mesma quando ouvida de longe ou quando ouvida de perto. A música não tem explicações a dar a si mesma: isso explica tudo. A música dá asas a quem voa: a quem tem asas para voar. A música faz aos poemas aquilo que os poemas quiseram fazer dela: render-se. E aos outros propõem: rendam-se! Tréguas e batalhas sem ordem de aviso.
A música é tamanha, cabe em qualquer medida.
A música referenda a liberdade? Sim ou não? A música depende dum botão da liberdade e desunha-se a mostrar os efeitos de num dedo a voz humana. A música faz orelhas moucas. A música não se esquece no silêncio: por isso, nos lembramos dela. Permanece em mais que um som. A música vai, por vezes, mais alto e duma torre afunda o eco no centro da terra. A música aguenta-se de pé, dorme sentada, dança e escorrega na cama. A música pausa e pausa, faz das malas a viagem mas se acena, já de longe… A música atira os seus poemas ao mar e recebe-os nas ondas do dia seguinte, nas garrafas outro povo. A música perdeu muitos bons poemas no vento contrário, quem sabe eram bons? A música é uma cópia duma cópia, de cara aberta vai ao fundo e vem à tona por respiração. A música é uma revolução de estilos, é do passarinho herdeira órfã. A música é órfã. Quando nasceu, os seus pais tinham morrido há pouco. É órfã.
A música é tamanha, cabe em qualquer medida.
A música esfrega os dedos em tudo o que der som. A música nunca teve, em si mesma, uma moral; pensa que não pensa e que não perdura. Diz-se que faz muito bem ouvi-la; alguém que pense e que perdure por ela. A música não tem barreiras, mas o amor por ela sim. A música prepara-se, destroçada mas vaidosa, para confessar tudo ao cair do sol. A música chora e ri ao mesmo tempo: uma criança por razões não exactamente compreensíveis. A música quer ser perfeita, sempre que por escolha é imperfeita. Por talento, dá-se a todas: a bondade, a presunção, ressentimento e, mais não fosse, a quatro tempos. A música de repente é a mesma nota repetida e outras vezes. A música mede-se com caneta e gravador. É maior e é menor. A música quando se encontra já lá está. A música nasceu antes de nós termos nascido com ela. A música segue a sua sombra e pela sombra é fácil, não há espelho. Ou é ritmo ou é pausa. Ambos dúbios mas reconhecíveis.
A música é tamanha, cabe em qualquer medida.
A música é feita à janela e aberta vê-se da rua. A música eriça-se ao menor vento, arranha-se a si mesma, ladra ao ar, risca a terra. Gosta mesmo. A música quando a chuva cai com barulho de entre as nuvens, vê-se o mar em dia de acalmia, o que não é explicável nem por norma nem por excepção dos deuses: digamos que são os sons em dia de ofertório. A música vai de rio e desagua: aquece a água doce, rebenta no mar salgado, larga os seus bichos no mar. A música tem duas mãos, é tocada com um só peito e um só dedo. Da música sobe o ar ao infinito. A música tem um só dedo e um só dedo. A música tem um só dedo e um só dedo. Nada da música se improvisa por acaso.
A música é tamanha, cabe em qualquer medida.
Letra e música: Sérgio Godinho Intérprete: Sérgio Godinho (in CD “Mútuo Consentimento”, Universal Music, 2011)
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A Música
[ A Música Inventa o Lume ]
A música está coberta com um manto. E dessa névoa sai um uivo que poisa na água e inventa o lume.
É a voz das fragas e o riso, uma mulher que bate num cântaro para afastar os pássaros dos lagares. De uma cordilheira levanta-se um corvo. A planície, a seu lado, transforma-se num imenso rio onde nascem os limões e a tarde cai como se fosse um toldo de marfim.
A música está coberta com um manto. E dessa névoa sai um uivo que poisa na água e inventa o lume.
É a voz das fragas e o riso, uma mulher que bate num cântaro para afastar os pássaros dos lagares. De uma cordilheira levanta-se um corvo. A planície, a seu lado, transforma-se num imenso rio onde nascem os limões e a tarde cai como se fosse um toldo de marfim.
O lume arde nesta paisagem reencontrada e todos os objectos se viram de repente, em êxtase, anunciando o vinho.
O lume arde nesta paisagem reencontrada e todos os objectos se viram de repente, em êxtase, anunciando o vinho.
Poema: Jaime Rocha Música: Janita Salomé Intérprete: Janita Salomé (ao vivo no Estúdio 3 da Rádio e Televisão de Portugal, Lisboa) Versão original: Janita Salomé com Luanda Cozetti (in CD “Valsa dos Poetas”, Cantar ao Sol/Ponto Zurca, 2018)
Apoiou o arco suavemente
[ Bendita Música ]
Apoiou o arco suavemente sobre as cordas E atacou com toda a naturalidade Mi fá mi ré dó ré mi fá E uma a uma dissecou cada passagem Com preciso e afiado bisturi Fá sol fá mi ré dó ré mi
E espalhou aos quatro ventos os risos e os lamentos Era o sangue posto em pé Sol lá sol fá mi ré dó ré Aprisionado era um grilo que chamava a sua amada: Estou aqui! Fá ré si lá fá dó si lá sol sol lá si
Esquece tudo e vem comigo! Vibrava mágica a voz do músico Parindo música… Música bendita música: Lá dó si si lá sol lá
Em consequência de uma ousada pirueta Que o intérprete salvou com frialdade Mi fá mi ré dó ré mi fá Meu coração foi pelos ares como um cometa Pressentindo que andavas por ali Fá sol fá mi ré dó ré mi
E com a angústia e o talento do final do movimento Não te encontrava. Porquê? Sol lá sol fá mi ré dó ré E entre as cadeiras da segunda galeria, descobriu-te: Eras de mim! Fá ré si lá fá dó si lá sol sol lá si
Esquece tudo e vem comigo! Vibrava mágica a voz do músico Parindo música… Música bendita música: Lá dó si si lá sol lá
Letra e música: Fernando Tordo Arranjo: Josep Mas “Kitflus” Intérprete: Fernando Tordo (in CD “Peninsular”, Fernando Tordo, 1997)
Assim tão simples
[ Música, Música ]
Assim tão simples Tão luminosa Como mulher num dia doce Ai como rosa Assim tão simples Ainda nada Assim te vi e te abracei e fiz-me à estrada
Sem eu saber ali nascia E quem começa já não consegue parar Ali sentia, ali fervia E foi nela que aprendi a navegar
Música Eterna música Maldita música Sempre mulher Música Apassionata Só não te ama quem não sabe acontecer
Música De dia música À noite música Dentro de mim sem eu saber Música Íntima música De madrugada para melhor te conhecer
Música Amor e música Beleza e música Poesia de existir Música Insónia e música Não reconheço outra forma de viver
Como os teus lábios, como um corpo, como dança E a fantasia numa história de criança Assim me minto Assim resisto Pois este mundo de gravatas e favores Ai, de negócios e messias salvadores Ai, meus senhores Nós construímos muito mais que tudo isto
Nós fazemos Música Eterna música Maldita música Sempre mulher Música Apassionata Só não te ama quem não sabe acontecer
Música De dia música À noite música Dentro de mim sem eu saber Música Íntima música De madrugada para melhor te conhecer
Música Amor e música Beleza e música Poesia de existir Música Insónia e música Não reconheço outra forma de viver
Poema e música: Pedro Barroso Intérprete: Pedro Barroso Versão original: Pedro Barroso (in CD “Cantos da Paixão e da Revolta”, Ovação, 2012) Outra versão: Pedro Barroso (in CD/DVD “Memória do Futuro: Ao vivo no Rivoli”, Ovação, 2013)
Pedro Barroso
Eu só quero
[ Música ]
Eu só quero a música, Essa amante incerta, ingrata, Que me vence e persegue, Mais parece que me mata.
Eu deixo-me encantar Na cantiga do bandido, Nas promessas que ela faz Quando faz amor comigo.
Logo me deixo tomar Com fogo e mansidão; Ela pede o que não dá: Cobra em dor e sem razão.
És mais forte do que a força Que me esventra sem quebrar; Dás o sopro, tiras fôlego, Não há como te deixar.
Eu deixo-me encantar Na cantiga do bandido, Nas promessas que ela faz Quando faz amor comigo.
Logo me deixo tomar Com fogo e mansidão; Ela pede o que não dá: Cobra em dor e sem razão.
És mais forte do que a força Que me esventra sem quebrar; Dás o sopro, tiras fôlego, Não há como te deixar.
Quanto mais tomas e prendes, Mais eu tenho p’ra te dar: Abro as portas, desarmada, Para ti, de par em par.
Quanto mais tomas e prendes, Mais eu tenho p’ra te dar: Abro as portas, desarmada, Para ti, de par em par;
Para te fazer a deusa, A reza, o meu altar. Para te fazer a deusa, A reza, o meu altar. Para te fazer a deusa, A reza, o meu altar.
Letra: Ana Barroso Música: José Peixoto Intérprete: Ana Barroso (in CD “Diário”, Ana Barroso, 2014)
Músicos, Cravos e Rosas
É pela música que encantas os sentidos, apurados pelos sonhos mais antigos de entender a emoção e a alegria, provocado o coração, em agonia. Vais levado pelo vento, pelos sons do pensamento.
Cravos são livres, são bravos. Rosas são belas, são prosas.
É pelo som do mar no canto das sereias, que te vão contar compassos e colcheias, mas tu és o tempo forte e o agasalho. Tempo fraco não é sorte, é trabalho. Vais levado pelo vento, pelos sons do pensamento.
Cravos são livres, são bravos. Rosas são belas, são prosas.
Quem te compra cria garras de encantar. Vendes a alma? Essa não se pode comprar. Na viagem pelos sons desta braguesa ouço histórias de uma canção portuguesa. É uma luta contra o vento, não se vende o pensamento.
Cravos são livres, são bravos. Rosas são belas, são prosas.
Cravos e rosas.
Letra e música: José Barros Arranjo: José Barros Intérprete: José Barros e Navegante (in CD “À’Baladiça”, Tradisom, 2018)
José Barros e Navegante, À’Baladiça
https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/05/sergio-godinho-cantautor.jpg400400António Ferreirahttps://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpgAntónio Ferreira2020-05-11 22:10:472024-11-13 04:29:19Canções sobre Música
Acertando o passo ou nem tanto escorregavam do lamento ao canto; Sorrindo ao pisar e às estrelas as promessas ateavam alvas velas.
Ardentias do amor anunciadas vindouras dores eram semeadas; No céu, o néon, luzem pregões, desditas eram. Pintavam corações.
Bulia o baile, buliam as raparigas se levadas nas cantigas e repetidos o par.
Bulia o baile, buliam as raparigas se levadas nas cantigas e repetidos o par.
Eram olhares repetidos, eram perfumes sentidos misturados com o arfar.
Veredas de barro e de fel, aço entrançado, favos de mel, desejos jurados sem hesitar, barca dos sonhos a navegar.
As canções meladas ao ouvido eram cruzadas, no seu sentido; e os passos que davam a saber era o amor louco a acontecer.
Bulia o baile, buliam as raparigas se levadas nas cantigas e repetidos o par.
Bulia o baile, buliam as raparigas se levadas nas cantigas e repetidos o par.
Eram olhares repetidos, eram perfumes sentidos misturados com o arfar.
Letra e música: Lindolfo Paiva Intérprete: Dialecto* (in CD “Aromas”, Dialecto/Cloudnoise, 2011)
Canções de baile
Dança comigo
Dança comigo, morena Leveza de pena Esta dança breve Dança e rodopia Solta-me a alegria De quem nada deve
Acende-me a cara, o rosto Os lábios de mosto Riso de marfim Requebra a cintura Que és a criatura Nascida p’ra mim
Vamos, a dança é louca Dá-me a tua boca Que este beijo é meu Dança comigo, amada Que eu já estou na escada Que me leva ao céu
Ao som da concertina (Cinturinha fina Pele de cetim) Dança, meu amor Não sei doutra flor Que bem dance assim
Dança com fantasia No fim deste dia Que se vai embora No passo da vida Dancemos, querida Que é a nossa hora
Vamos, a dança é louca Dá-me a tua boca Que este beijo é meu Dança comigo, amada Que eu já estou na escada Que me leva ao céu
Vamos, a dança é louca Dá-me a tua boca Que este beijo é meu Dança comigo, amada Que eu já estou na escada Que me leva ao céu
Ah vamos, que a dança é louca Dá-me a tua boca Que este beijo é meu Dança comigo, amada Que eu já estou na escada Que me leva ao céu
Letra e música: Aníbal Raposo (2006-09-26) Intérprete: Aníbal Raposo (in CD “Rocha da Relva”, Aníbal Raposo/Global Point Music, 2013)
Reciclanda
O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.
Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.
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António José Ferreira 962 942 759
Dançava, dançar, dançou
[ Saias das Sete Saias ]
Dançava, dançar, dançou, Cantou e alegre cantava… Se a vida alegre voou A vida triste lhe paga; Dançava, dançar, dançou, Cantou e alegre cantava.
Sete saias rompia, Sete saias rompeu… Do nascer ao fim do dia Muitas saias conheceu; Sete saias rompia, Sete saias rompeu.
Diz o povo sem lamúrias Que a terra lhe paga em vida… Que a morte lhe tira os dias E só lhe dá a guarida; Diz o povo sem lamúrias Que a terra lhe paga em vida.
Sete saias rompia, Sete saias rompeu… Do nascer ao fim do dia Muitas saias conheceu; Sete saias rompia, Sete saias rompeu.
Quando as saias compridinhas No final da ceifa ou monda Eram todas mais curtinhas, Quase uma saia redonda… Quando as saias compridinhas Eram todas mais curtinhas.
Sete saias rompia, Sete saias rompeu… Do nascer ao fim do dia Muitas saias conheceu; Sete saias rompia, Sete saias rompeu.
Da terra se faz a história Que um povo diz a cantar… A terra só tem memória E tem muito p’ra contar; Da terra se faz a história Que um povo diz a cantar.
Sete saias rompia, Sete saias rompeu… Do nascer ao fim do dia Muitas saias conheceu; Sete saias rompia, Sete saias rompeu.
Letra e música: José Barros Arranjo: José Barros Intérprete: Navegante com Janita Salomé (in CD “Meu Bem, Meu Mal”, Tradisom, 2008)
Quantas voltas tem a dança
[ Se Ainda Der para Disfarçar ]
Quantas voltas tem a dança em tantas voltas contadas? Um segredo de criança escondido em mil gargalhadas Tantas mãos que foram dadas na ternura de um abraço Quantas vontades caladas na volta meiga de um passo
Quantas horas de viagem na alegria de te ver? Quanta falta de coragem, tanta coisa por dizer E acabamos a esconder, vá-se lá saber porquê Nestas coisas do querer os sinais são p’ra quem os lê
Dá-me uma dança, faz-me acreditar Uma lembrança p’ra eu levar Que eu tenho sempre vontade de voltar e te dizer Se ainda der p’ra disfarçar Ensina-me a dançar
Faz de conta que o poente acontece a qualquer hora Quando a noite se faz quente e um beijo se demora Já o frio se foi embora ao tocar da tua mão Que há-de ser de nós agora? Faz sentido: sim ou não?
Dá-me uma dança, faz-me acreditar Uma lembrança p’ra eu levar Que eu tenho sempre vontade de voltar e te dizer Se ainda der p’ra disfarçar Ensina-me a dançar
É a valsa do começo, é a vida a esvoaçar É a pele a soltar um arrepio É uma cor que eu não conheço, um sabor de acreditar Uma praia cor de um desafio
Dá-me uma dança, faz-me acreditar Uma lembrança p’ra eu levar Que eu tenho sempre vontade de voltar e te dizer Se ainda der p’ra disfarçar Ensina-me a dançar
Ensina-me a dançar Ensina-me a dançar Ensina-me a dançar
Letra e música: Sebastião Antunes Intérprete: Sebastião Antunes (in CD “Singular”, Sebastião Antunes & Quadrilha/Alain Vachier Music Editions, 2017) Versão original: Sebastião Antunes (in CD “Cá Dentro”, Vachier & Associados, 2009)
Sete saias da Nazaré
Sete portadas
[ Baile das Vozes ]
Sete portadas De pedra, E mais sete De madeira
Sete meninas Sentadas Outras sete Na ladeira
Foram lavar Suas vestes Toda a noite Noite inteira
Menina que olhos Esses que me Encantam De maneira
E neste baile Cruzado, Sete cruzes Se transformam,
Em redor Do seu amado Sete vénias Que se Formam…
Ficam Bailando Num pé E no outro Saltitando,
Cinco meninas Saíram E só duas Vão ficando!…
E se acordarem Os santos Num bailado De folia
Juntam-se as vozes À noite Bailam apenas De dia!…
Menina que dança E canta, E seu canto É noite fria!
E rodopia cantando, No seu baile De alegria!…
Letra: José Flávio Martins Música: José Flávio Martins e Rui Tinoco Intérprete: Frei Fado d’El Rei (in CD “Em Concerto”, Açor/Emiliano Toste, 2003)
Sorvem-me o sangue
[ Trocaram-me a Dança! ]
Sorvem-me o sangue, Deixam-me exangue, Ceifam-me a vida na terra prometida.
Tolhem-me a esperança, Trocam-me a dança, Solta-se o grito na raiva incontida.
Sorvem-me o sangue, Deixam-me exangue, Ceifam-me a vida na terra prometida.
Tolhem-me a esperança, Trocam-me a dança, Solta-se o grito na raiva incontida.
Na dança da vida com o passo trocado, Na dança das fitas estou no filme errado; Destroços de sonhos errantes na serra Espezinham-me a flor…, tenho a Primavera.
Cercam-me o tempo, Varrem-me o alento, Ferem-me o voo, a paixão e o sustento.
Lanço a semente, Rasgo o silêncio, Cerro a decência, declino ser inocente.
Na dança da vida com o passo trocado, Na dança das fitas estou no filme errado; Destroços de sonhos errantes na serra Espezinham-me a flor…, tenho a Primavera.
Cercam-me o tempo, Varrem-me o alento, Ferem-me o voo, a paixão e o sustento.
Letra e música: Álvaro M. B. Amaro Intérprete: Dialecto* (in CD “Aromas”, Dialecto/Cloudnoise, 2011)
Vai ao centro
[ Centro ao centro ]
Vai ao centro, vai ao meio! Agora vou andar Com meu amor em passeio; Agora é que eu vou andar Com meu amor em passeio.
Vá de roda, cantem todas Cada qual sua cantiga! Eu também cantarei… Eu também cantarei uma Que a mocidade me obriga.
Vá de roda, cantem todas Cada qual sua cantiga! Que eu também cantarei uma Que a mocidade me obriga.
Vai ao centro!…
Moda:
Vai de centro ao centro ao centro! Vai de centro ao centro ao meio! Agora é que eu vou andar Com meu amor em passeio.
Com meu amor em passeio, Com meu bem a passear, Vai de centro ao centro ao meio! Agora é que eu vou andar…
Cantiga:
Vá de roda, cantem todos Cada qual sua cantiga! Que eu também cantarei uma Que a mocidade me obriga.
Moda:
Vai de centro ao centro ao centro! Vai de centro ao centro ao meio! Agora é que eu vou andar Com meu amor em passeio.
Com meu amor em passeio, Com meu bem a passear, Vai de centro ao centro ao meio! Agora é que eu vou andar…
Moda:
Vai de centro ao centro ao centro! Vai de centro ao centro ao meio! Agora é que eu vou andar Com meu amor em passeio.
Com meu amor em passeio, Com meu bem a passear, Vai de centro ao centro ao meio! Agora é que eu vou andar…
Cantiga:
Minha mãe, p’ra m’eu casar, Ofereceu-me uma panela; Depois de me ver casada, Partiu-me a cara com ela.
Moda:
Vai de centro ao centro ao centro! Vai de centro ao centro ao meio! Agora é que eu vou andar om meu amor em passeio.
Com meu amor em passeio, Com meu bem a passear, Vai de centro ao centro ao meio! Agora é que eu vou… andar…
Centro ao Centro (dança de roda) Letra e música: Tradicional (Ourique / Castro Verde, Baixo Alentejo) Informantes: Grupo Coral e Etnográfico “As Papoilas do Corvo” (Aldeia do Corvo, Castro Verde), Manuel Bento (Aldeia Nova, Ourique) e Pedro Mestre (Sete, Castro Verde) Recolha: Lia Marchi (in “Caderno de Danças do Alentejo”, Associação Pédexumbo e Olaria Cultural, 2010 – p. 34-35) Intérprete: Aqui Há Baile (in CD “Caderno de Danças do Alentejo – adaptações”, Associação Pédexumbo/Caracol Secreto, 2013)
Papoilas do Alentejo
Vai de roda
Vai de roda, vai de roda, Vai de roda que é tão breve; Tenho uns amigos na roda, Tenho uns amigos na roda, Deixam a roda mais leve.
Vai de roda, vai de roda, Vai de roda alguns amores; Quantos mais amores na roda, Quantos mais amores na roda Mais te perseguem as dores.
Vai de roda, vai de roda, Vai de roda até ao fim; Já tentei fugir da roda, Já tentei fugir da roda Mas ela rodou por mim.
Vai de roda, vai de roda, Vai de roda sem parar; Quem nunca esteve na roda, Quem nunca esteve na roda Não pode a roda enganar.
Vai de roda, vai de roda, Vai de roda até ao fim; Já tentei fugir da roda, Já tentei fugir da roda Mas ela rodou por mim.
Vai de roda, vai de roda, Vai de roda sem parar; Quem nunca esteve na roda, Quem nunca esteve na roda Não pode a roda enganar.
Letra e música: Duarte (Outubro de 2010) Intérprete: Duarte, com Mara (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018) Versão original: Duarte (in CD “Sem Dor Nem Piedade”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2015)
https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/11/sete-saias.jpg400400António Ferreirahttps://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpgAntónio Ferreira2020-05-11 22:05:282024-11-02 06:07:51Canções sobre Dança
Coragem é ter cabeça dura
sem contrair defesas veneráveis
paro, fico tolo, não quero viver
passa tudo quando estou ao pé de ti
e se ela quer só trocar transpiração
não posso dar a minha desprovida
em todo o suor vai um coração
que à partida há-de ter volta após a ida
sacrifica-se a memória e recalco o que passou
isto que aqui está é outra história e vou ser mais do que fui
o tribunal conclui que o réu está bom
heróis do mar
somos tão valentes
mas a paixão dá cabo da força
preciso de ti p’ra ficar perto de mim
passa tudo quando te distrais de ti
e se amanhã me apareceres à frente
com intenções e alma decotada
a transpiração fica cheia de razão
fim do filme, pôr-do-sol de mãos atadas
sacrifica-se a memória e recalco o que passou
isto que aqui está é outra história e vou ser mais do que fui
o tribunal conclui que o réu está bom
o mal que pode correr é inversamente proporcional
ao bem que te pode fazer, ao bem
compro uma matilha p’ra não teres medo de mim
dizes que estás desacreditada
e já não lês histórias da carochinha
tu julgas que não mas sou o teu João Ratão
e mulher podes escrever que vais ser minha
tu julgas que não mas sou o teu João Ratão
e mulher podes escrever que vais ser minha
sacrifica-se a memória e recalco o que passou
isto que aqui está é outra história e vou ser mais do que fui
o tribunal conclui…
o tribunal conclui que o réu está bom
Letra e música: Carlos Oliveira Martins Intérprete: A Caruma* (in CD “Hóstia de Mentol”, Caruma & Alain Vachier/Alain Vachier Music Editions, 2016)
Desenraizado
[ Fado ]
Desenraizado, não sei cantar fado nem sou popular
estou sempre ali perto dum país incerto a apanhar do ar
não sei ser de Alfama, não tenho saudade, eu nem sou daqui
então concentro de fora p’ra dentro a minha raiz
estás desgraçado, rapaz, oxalá não te percas
este país está dentro de ti
encadernado e usado com palavras certas
quem serás tu neste mundo se não és daqui?
beira mal plantado, cantinho encostado com sabor a nós
eu sou neste mundo Portugal profundo que já teve voz
se faço perguntas, se sou ou não fado, se ele já foi meu
passadas vitórias, vivo numa inglória, num país-museu
e tudo o que aqui resta sou só eu
estás desgraçado, rapaz, oxalá não te percas
este país esta dentro de ti
encaixotado e usado com palavras certas
quem serás tu neste mundo se não és daqui?
santificado é o fado de aceitar o fado de ser português
é um Bandarra, é Vieira, Pessoa que cheira a Pedro e Inês
ser Portugal é a sina, maldição divina de gente que crê
ser Portugal é a sina, maldição divina de gente que crê
Letra e música: Carlos Oliveira Martins
Intérprete: Caruma* com José Medeiros (in CD “Hóstia de Mentol”, Caruma & Alain Vachier/Alain Vachier Music Editions, 2016)
Estás armado em parvo
[ Minar a Liberdade ]
Estás armado em parvo mas está tudo bem
vou ali num instante desmembrar alguém
vícios separados do tutano
limpo o coração muito muito bem
energia dura sem pátria ou poluição
pura das entranhas mas fora da pele não
e eu não fui
chega-te p’ra lá, toma lá dá cá
vais-me abandonar e eu vou já atrás
sarilhos que metem aviões
e sexo são arranca-corações
não te vejo aqui mas está cheio de ti aqui
esgueiraste o veneno e tu pensas que eu não vi
mas não sou tão drogada assim
eu não fui
eu sei que tudo passa e que vem tudo outra vez
sou da tua raça mas em fraco e tu não vês
isto de ser gente um p’ró outro
mais valia sermos tortos
e amar tudo de uma vez
aí está ele a minar a liberdade
estraguei outra vez depressa de mais
vais-te alimentar de mim com vontade
sou bicho-de-conta por medo de mim
mas é que se não for às cegas não vou
se não for com trapos e malas não vou
e escuto um grande “não” quando sussurras que sim
o teu magnetismo explica tanto cinismo
e a ser alguém que sejas tu
eu não fui
eu sei que tudo passa e que vem tudo outra vez
sou da tua raça mas em fraco e tu não vês
isto de ser gente um p’ró outro
mais valia sermos tortos
e amar tudo de uma vez
aí está ele a minar a liberdade
aí está ele a minar a liberdade
aí está ele a minar a liberdade
aí está ele a minar a liberdade
estás armado em parvo mas está tudo bem
vou ali num instante desmembrar alguém
vícios separados do tutano
eu não fui
Letra e música: Carlos Oliveira Martins Intérprete: A Caruma* (in CD “Hóstia de Mentol”, Caruma & Alain Vachier/Alain Vachier Music Editions, 2016)
Quando dizes que a cerveja
[ Magnetismo em Riste ]
Quando dizes que a cerveja fez-te apaixonar por mim
foi por ela que deixaste de gostar de mim assim
que a boémia dá-me charme
que sou magnetismo em riste
que sou suor e sou carne
e sou ressaca de triste
ansioso e mal amado
estou de fora a ver-me a ser
sou assim encurralado
com bons modos a “des-ser”
catadupa em dissonante
por mais cantigas que cante
vou morrer sem mudar nada
dou-me armas e bagagens
dormente de encharcado
faço quatro mil viagens
e não vou p’ra nenhum lado
quero ser sem comprimidos
quero que sejas de mim
esperar mais é dar-me a morte
medicada pelo fim
canto de pupilas gastas
hipertenso cheio de sede
amanhã não me procures
amanhã não tenho rede
catadupa em dissonante
por mais cantigas que cante
vou morrer sem mudar nada
sei saltar de corpo em corpo
encarnado em ser melhor
sei ser um corpo no teu corpo
nasci a saber de cor
sou moldado a respirar
mando rajadas de sangue
e sai tudo disparado
e sai tão embriagado
vai montanha-russa abaixo
educado em pequenez
esfrego o pai-nosso do corpo
e sou puro duma vez
catadupa em dissonante
por mais cantigas que cante
vou morrer sem mudar nada
Letra e música: Carlos Oliveira Martins
Intérprete: Caruma* com José Medeiros (in CD “Hóstia de Mentol”, Caruma & Alain Vachier/Alain Vachier Music Editions, 2016)
Ri sozinho de paspalhice
[ Projecto Internacional ]
Ri sozinho de paspalhice, chorei de devagar e disse:
«Isto não devia acontecer
dizeres que me amas
e depois que em duas semanas não acontece amor»
quero a minha casa
os braços dos meus
senti-me pujante de burro
eu num canto a olhar p’ra nada
a soluçar em nada
voltaste atrás assim:
«I was blind»
isso é dum filme
«I could not see»
é cantiga dos U2
e dormimos com arrepios
de tanto drama espojados na nossa cama
a fazer de conta amor
não sei, acho que isto já se partiu
eu já não suspiro e suspirar é bom
estar apaixonado em Budapeste
e ficar a leste sozinho com a maior das penas de estar sozinho
mas já sei o que faço aqui
espero a hora de virar daqui
não sou o teu projecto internacional
isso é dum filme
“I could not see”
é cantiga dos U2
e dormimos com arrepios
de tanto drama espojados na nossa cama
a fazer de conta amor
Letra e música: Carlos Oliveira Martins Intérprete: A Caruma* (in CD “Hóstia de Mentol”, Caruma & Alain Vachier/Alain Vachier Music Editions, 2016)
Saltei p’ra ver
[ Boa Educação Imoral ]
Saltei p’ra ver
estou dentro de tão boa educação
emparedada de redondo
a arrastar a solidão de ser antigo
faça o favor de ser quem é
não tem de ser o que faz
faça o favor de usar juízo
desligar dispositivo e gostar mais de andar por cá
cansei de ser
borrego nesta imensa multidão
carecida de vontade
extremamente encarecida
há pão e vinho
santificado é o Senhor
que me santifica a bilha
chupa a teta e faz-me um filho
baptizados que hão-de vir têm a vida vencida
carcomido à nascença
e o teu Deus em contrapeso
que tapa o Sol com hóstias de mentol
boa educação imoral
não pode haver vontade em fabricar vontades, não
podia ser
tão bem encarrilhado em alemão
vida com chave na mão
empenhado até projeccionar a alma
suicidar a emoção
anti-anti-depressiva
bebo vinho a toda a hora
adormeço de vergonha a vontade de ser vida
carcomido à nascença
e o teu Deus em contrapeso
que tapa o Sol com hóstias de mentol
boa educação imoral
não pode haver vontade em fabricar vontades
não pode haver vontade em fabricar vontades
não pode haver vontade em fabricar vontades, não
Letra e música: Carlos Oliveira Martins
Intérprete: A Caruma* (in CD “Hóstia de Mentol”, Caruma & Alain Vachier/Alain Vachier Music Editions, 2016)
Tenho dinheiro p’ra trinta caixões
[ Trinta Caixões ]
Tenho dinheiro p’ra trinta caixões e nem um é para mim
tenho dinheiro p’ra trinta caixões e são todos por ti
está descansada que vives mil anos
mas com calminha p’ra não causar danos
tenho dinheiro p’ra trinta caixões e são todos por ti
vou tratar do meu casulo
afastar a gente má
que há quem viva neste mundo
e há quem queira andar só por cá
aquele já é doutor
e apregoa falsidade
algemados gritam alto:
«Viva a nossa liberdade!»
mãe, ó da guarda, ele não me liga mais
mãe, estou à venda a quem me oferecer mais
tenho planos nesta vida de ter carro, casa e pão
se não for com este jovem, homem velho não diz “não”
gosto mais de mim assim
a saber que sei gostar
gosto ainda bem de ti
mas não sei pagar pr’amar
somos todos tão fofinhos
eu sem ti não sei viver
venha daí o corpinho
isso eu sei fazer render
está descansada, vives mil anos
mas com calminha, cuidado com os danos
dança-me o corridinho com sapato velho
ai que acumulas a vida com a sorte da morte que p’ra ti não vem
mãe, ó da guarda, ele não me liga mais
mãe, estou à venda a quem me oferecer mais
tenho planos nesta vida de ter carro, casa e pão
se não for com este jovem, homem velho não diz…
tenho dinheiro p’ra trinta caixões e é tudo p’ra mim
Letra e música: Carlos Oliveira Martins
Intérprete: A Caruma* (in CD “Hóstia de Mentol”, Caruma & Alain Vachier/Alain Vachier Music Editions, 2016)
Troca-se o visto por dito
[ Visto por Dito ]
Troca-se o visto por dito
que cá na casa que fiz
gasta-se guito e imito
toda a gente a ser feliz
cada conta com seu conto
cada rei com seu carrasco
há polícia e Carnaval
para garantir o tasco
sapatinho no Natal
sandália o ano todo
o vento muda de Leste
e sou sempre eu que me lixo
carapaus e caviar
às vezes na mesma mesa
uns tostões, outros milhões
a cantar “A Portuguesa”
mandas na marca da minha sardinha
mas não mandas nada do que me vai cá na pinha
dizes p’ra ti: «sou tão inteligente!»
um dia destes ainda vais ouvir da gente
cantoria no Rossio, escanzelada a pontapé
a conversa vai madura na esquina do meu café
estremunhada acorda a banca, promessas de terror
amanhã colecta o fisco a gente a fazer amor
com tanta saliva fresca, com tanto sangue miúdo
sou da Jota não sei quê e já pareço graúdo
o sistema está assim bem montado em comité
tenho três paredes falsas com olho que tudo vê
mandas na marca da minha sardinha
mas não mandas nada do que me vai cá na pinha
dizes p’ra ti: «sou tão inteligente!»
um dia destes ainda vais ouvir da gente
ah que isto agora é um sonho mau
dissonância, arrastadeira, cantadeira, a maluqueira é tanta
que um dia vai tudo a pau
contam-se os mortos no fim
que a haver um fim vai ser com graça
que a desgraça não existe
que o que existe é ser feliz
mandas na marca da minha sardinha
mas não mandas nada do que me vai cá na pinha
dizes p’ra ti: «sou tão inteligente!»
um dia destes ainda vais ouvir…
um dia destes ainda vais ouvir…
um dia destes ainda vais ouvir da gente
Letra e música: Carlos Oliveira Martins Intérprete: A Caruma* (in CD “Hóstia de Mentol”, Caruma & Alain Vachier/Alain Vachier Music Editions, 2016)
Vivo como um chulo à consignação
[ Bêbado ]
Vivo como um chulo à consignação
vendo lixo rico – é a minha obsessão
sentaste-te em cima da alma
agora queres comprar-me com mais calma
chulas-me a saúde e eu perco-me doente
quero mais de ti além de só saliva quente
atrofio o teu caminho, nunca foi o nosso
dá-me p’ra virar daqui sempre que posso
tudo tem de ser como tem de ser
conheci-te a tempo de te esquecer tão bem
dá-me mais um copo, juro desta é que me vou
sei que é sempre o mesmo a esta hora mas eu vou
disse-lhe três vezes que sou torto, parvo e bêbado
o bêbado não precisa de amigos nem tu precisas dum bêbado
tira-me este cheiro a sol e vinho velho
é sempre nesta altura que me queres levar p’rá cama
faço contas para decidir quando te beijo
e estou sempre ali preso na lama
tudo tem de ser como tem de ser
conheci-te a tempo de te esquecer tão bem
dá-me mais um copo, juro desta é que me vou
sei que é sempre o mesmo a esta hora mas eu vou
disse-lhe três vezes que sou torto, parvo e bêbado
o bêbado não precisa de amigos nem tu precisas de mim
nem tu precisas de mim
tudo tem de ser como tem de ser
conheci-te a tempo de te esquecer tão bem
dá-me mais um copo, juro desta é que me vou
sei que é sempre o mesmo a esta hora mas eu vou
disse-lhe três vezes que sou torto, parvo e bêbado
o bêbado não precisa de amigos nem tu precisas dum bêb…
sai daqui e deixa-me cair que eu vou cair
não há mais conversa, porque estás a insistir?
disse quatro vezes que sou torto, parvo e bêbado
o bêbado não precisa de amigos nem tu precisas de mim
Letra e música: Carlos Oliveira Martins
Intérprete: A Caruma* (in CD “Hóstia de Mentol”, Caruma & Alain Vachier/Alain Vachier Music Editions, 2016)
https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/05/caruma.jpg400400António Ferreirahttps://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpgAntónio Ferreira2020-05-11 21:37:012023-05-02 13:23:49Poemário Folk
A lonjura é um degredo Sem grades para assaltar; Sem olhos, sem mãos, segredo, Boca calada de amar.
É mar que afunda a fragata, É cotovia sem voz; É um orvalho sem prata Letra sem rosto, sem foz.
É lágrima, é destempero, É tabuada aldrabada; Diário do desespero, Diário branco, sem nada.
Um chapéu cheio de traça, A sina contada à toa; A lonjura é uma desgraça, Não há dor que tanto doa.
Letra: Joaquim Sarmento Música: João Black (Fado Menor do Porto) Intérprete: Helena Sarmento Versão original: Helena Sarmento (in CD “Lonjura”, Helena Sarmento, 2018)
A minha alma está doente
[ Confirmação ]
A minha alma está doente, Quiseram em vão curá-la E quantos ingenuamente Tentaram amortalhá-la!
Fizeram cerco e, no meio De toda aquela muralha, Eu (que sofria!) cantava… Não me servira a mortalha!
E à medida que o segredo Vinha em meus lábios poisar-se, | Embriagado, eu cantava… Não me servira o disfarce!
Mas, por fim, vendo, talvez, Que nenhum remédio havia Deram à minha surdez O nome de poesia…
Poema: Pedro Homem de Mello (ligeiramente adaptado) Música: Renato Varela (Fado Meia-Noite) Intérprete: Tereza Tarouca (in LP “Fado e Folclore”, RCA Victor, 1970)
Reciclanda
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Cai a noite na cidade
[ Fado da Saudade ]
Cai a noite na cidade, / que me encanta, Na minha velha Lisboa, / de outra vida; E com um nó de saudade, / na garganta, | bis Escuto um fado que se entoa, / à despedida. |
Foi nas tabernas de Alfama, / em hora triste, Que nasceu esta canção, / o seu lamento; Na memória dos que vão, / tal como o vento, | bis No olhar de quem se ama, / e não desiste. |
Quando brilha a antiga chama, / ou sentimento, Oiço este mar que ressoa, / enquanto canta; E da Bica à Madragoa, / num momento, Volta sempre esta ansiedade, / da partida; Cai a noite na cidade, / que me encanta, Na minha velha Lisboa, / de outra vida.
Quem vive só do passado, / sem motivo, Fica preso a um destino, / que o invade; Mas na alma deste fado, / sempre vivo, | bis Cresce um canto cristalino, / sem idade. |
É por isso que imagino, / em liberdade, Uma gaivota que voa, / renascida; E já nada me magoa, / ou desencanta, Nas ruas desta cidade, / amanhecida; Mas com um nó de saudade, / na garganta, Escuto um fado que se entoa, / à despedida.
Letra: Fernando Pinto do Amaral Música: Popular e Alfredo Duarte “Marceneiro” (Fado Menor com versículo) Intérprete: Carlos do Carmo (in CD “À Noite”, 2.ª edição, Universal Music Portugal, 2008)
CONFIRMAÇÃO
(Pedro Homem de Mello, in “Eu Hei-de Voltar um Dia”, Lisboa: Edições Ática, 1966, reimp. 1999 – p. 63)
A minha alma está doente, Quiseram em vão curá-la E quantos ingenuamente Tentaram amortalhá-la! Formaram cerco e, no meio De toda aquela muralha, Eu (que sofria!) cantava… Não me servira a mortalha! E à medida que o segredo Vinha em meus lábios poisar-se, Embriagado, eu cantava… Não me servira o disfarce! Mas, por fim, vendo, talvez, Que nenhum remédio havia Deram à minha surdez O nome de poesia…
À rapariga mais nova
[ Testamento ]
À rapariga mais nova Do bairro mais velho e escuro, Deixo meus brincos lavrados Em cristal límpido e puro.
E àquela virgem esquecida, Sonhando alto uma lenda, Deixo o meu vestido branco Todo tecido de renda.
E este meu rosário antigo, De contas da cor dos céus, Ofereço-o àquele amigo Que não acredita em Deus.
E os livros, rosários meus Das contas d’outro sofrer, São para os homens humildes Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos, Esses que são só de dor, E aqueles que são de esperança São para ti, meu amor.
P’ra que tu possas, um dia, Com passos feitos de lua, Oferecê-los às crianças Que encontrares em cada rua.
Poema: Alda Lara (adaptado) Música: Popular (Fado Menor) Intérprete: Tereza Tarouca (in EP “O Riso Que me Deste”, RCA Victor, 1967; LP “Os Melhores Fados de Tereza Tarouca”, RCA Camden, 1978; 2LP “Álbum de Recordações”: LP 1, Polydor/PolyGram, 1985; CD “Temas de Ouro da Música Portuguesa”, Polydor/PolyGram, 1992; CD “Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006; CD “Tereza Tarouca”, col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)
TESTAMENTO
(Alda Lara, in “Poemas”, Sá da Bandeira, Angola: Imbondeiro, 1966, reed. Braga: APPACDM, 1997, 2005)
À prostituta mais nova do bairro mais velho e escuro, deixo os meus brincos, lavrados em cristal, límpido e puro… E àquela virgem esquecida, rapariga sem ternura sonhando algures uma lenda, deixo o meu vestido branco, o meu vestido de noiva, todo tecido de renda… Este meu rosário antigo ofereço-o àquele amigo que não acredita em Deus… E os livros, rosários meus das contas de outro sofrer, são para os homens humildes que nunca souberam ler. Quanto aos meus poemas loucos, esses, que são de dor sincera e desordenada… esses, que são de esperança, desesperada mas firme, deixo-os a ti, meu amor… Para que, na paz da hora, em que a minha alma venha beijar de longe os teus olhos, vás por essa noite fora, com passos feitos de lua, oferecê-los às crianças que encontrares em cada rua…
Caía a tarde
[ O Bêbado e a Equilibrista ]
Caía a tarde feito um viaduto E um bêbado trajando luto me lembrou Carlitos A lua, tal qual a dona de um bordel, Pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel E nuvens, lá no mata-borrão do céu, Chupavam manchas torturadas, que sufoco! Louco, um bêbado com chapéu-côco Fazia irreverências mil p’rá noite do Brasil, meu Brasil Que sonha com a volta do irmão do Henfil Com tanta gente que partiu num rabo-de-foguete Chora a nossa pátria, mãe gentil Choram Marias e Clarices no solo do Brasil Mas sei que uma dor assim pungente Não há-de ser inutilmente a esperança Dança na corda bamba de sombrinha E em cada passo dessa linha pode se machucar Azar, a esperança equilibrista Sabe que o show de todo o artista tem que continuar
Letra: Aldir Blanc Música: João Bosco (a partir da música “Smile”, de Charles Chaplin, composta para a banda sonora do filme “Tempos Modernos”, 1936) Intérprete: Helena Sarmento* Versão original: Helena Sarmento (in CD “Lonjura”, Helena Sarmento, 2018) Versão original: João Bosco (in LP “Linha de Passe”, RCA Victor, 1979, reed. RCA, 2004) Outra versão: Elis Regina (in LP “Elis, Essa Mulher”, Warner Bros. Records, 1979, reed. Warner Music Brasil/WEA Music, 1989)
Ciganos
Ciganos! Vou cantar, não a beleza Dos vossos corações que não conheço. Mas esse busto de medalha e preço Que nem é carne vã, nem alma acesa!
Saúdo em vós o corpo, unicamente, Desumano e cruel como uma chama! Em vós, saúdo a graça omnipotente Do lírio que ainda flor por entre a lama.
A vossa vida não pertence ao rei. Não mutilaste estradas verdadeiras. Quem ama a liberdade odeia a lei Que deu à terra a foice das fronteiras.
E, enquanto o aroma e a brisa e até as almas Ficam irmãs das pérolas roubadas, As mãos dos homens que vos são negadas Tremem quando passais. Mas batem palmas.
As mãos dos homens que vos são negadas Tremem quando passais. Mas batem palmas.
Poema: Pedro Homem de Mello (excerto adaptado) Música: José Belo Marques (Fado Fora d’Horas) Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP “Tereza Tarouca Canta Pedro Homem de Mello”, Edisom, 1989; CD “Teresa Tarouca”, col. Clássicos da Renascença, vol. 15, Movieplay, 2000; CD “Tereza Tarouca”, col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)
CIGANOS
(Pedro Homem de Mello, in “Miserere”, Porto, 1948; “Poesias Escolhidas”, col. Biblioteca de Autores Portugueses, Lisboa: IN-CM, 1983 – p. 110)
Ciganos! Vou cantar, não a beleza Dos vossos corações que não conheço. Mas esse busto de medalha e preço Que nem é carne vã, nem alma acesa! Saúdo em vós o corpo, unicamente, Desumano e cruel como o dum bicho! Em vós, saúdo a graça omnipotente Do lírio que ainda flor por entre o lixo. Eu vos saúdo, pela poesia, Que nasceu pura e não se acaba mais. E pelo ritmo ardente que inebria Meus olhos como fios que enlaçais! A vossa vida não pertence ao rei. Não mutilaste estradas verdadeiras. Quem ama a liberdade odeia a lei Que deu à terra a foice das fronteiras. E, enquanto o aroma e a brisa e até as almas Ficam irmãs das pérolas roubadas, As mãos dos homens que vos são negadas Tremem quando passais. Mas batem palmas.
Era um Redondo Vocábulo
Era um redondo vocábulo Uma soma agreste Revelavam-se ondas Em maninhos dedos Polpas seus cabelos Resíduos de lar Nos degraus de Laura A tinta caía No móvel vazio Convocando farpas Chamando o telefone Matando baratas A fúria crescia Clamando vingança Nos degraus de Laura No quarto das danças Na rua os meninos Brincavam e Laura Na sala de espera Inda o ar educa…
Era um redondo vocábulo Uma soma agreste Revelavam-se ondas Em maninhos dedos Polpas seus cabelos Resíduos de lar Nos degraus de Laura A tinta caía No móvel vazio Convocando farpas Chamando o telefone Matando baratas A fúria crescia Clamando vingança Nos degraus de Laura No quarto das danças Na rua os meninos Brincavam e Laura Na sala de espera Inda o ar educa…
Nos degraus de Laura No quarto das danças Nos degraus de Laura No quarto das danças
Letra e música: José Afonso Intérprete: Helena Sarmento Versão original: Helena Sarmento (in CD “Lonjura”, Helena Sarmento, 2018)
Éramos três
[ A Rapariga das Violetas ]
Éramos três quando passou por nós quando passou por nós com o cesto das violetas. Disse a primeira: como vai cansada, e descalça, coitada, coitada! Disse a outra: tão suja e desgrenhada, olhem os pés sem cor, as unhas pretas!
Eu, a terceira… eu não disse nada, não disse nada, não disse nada. … Que lindas as violetas!
Poema: Fernanda de Castro (adaptado) Música: Manuel Lima Brummon Intérprete: Tereza Tarouca (in LP “Portugal Triste”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD “Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006)
A rapariga das violetas
(Fernanda de Castro, in “Exílio”, Lisboa: Livraria Bertrand, 1952 – p. 93)
Éramos três quando passou por nós com o cesto das violetas. Disse a primeira: como vai cansada, e descalça, coitada! Disse a outra: tão suja e desgrenhada, olhem os pés sem cor, as unhas pretas!
Eu, a terceira… eu não disse nada. … Que lindas as violetas!
Fado
Ao passar pelo ribeiro Onde, às vezes, me debruço, Fitou-me alguém. Corpo inteiro, Curvado com um soluço!
Que palidez nesse rosto Sob o lençol do Luar! Tal e qual quem, ao Sol-Posto, Estivera a agonizar…
E aquelas pupilas baças Acaso seriam minhas? Meu amor, quando me enlaças, Porventura as adivinhas?
Deram-me, então, por conselho, Tirar de mim o sentido. Mas, depois, vendo-me ao espelho, Cuidei que tinha morrido!
Poema: Pedro Homem de Mello (ligeiramente adaptado) Música: José Marques do Amaral (Fado José Marques do Amaral) Intérprete: Tereza Tarouca (in LP “Fado e Folclore”, RCA Victor, 1970)
FADO
(Pedro Homem de Mello, in “As Perguntas Indiscretas”, Porto: Editorial Domingos Barreira, 1968; “Poesias Escolhidas”, col. Biblioteca de Autores Portugueses, Lisboa: IN-CM, 1983 – p. 295)
Ao passar pelo ribeiro Onde, às vezes, me debruço, Fitou-me alguém. Corpo inteiro, Curvado como um soluço!
Que palidez nesse rosto Sob o lençol do Luar! Tal e qual quem, ao Sol-Posto, Estivera a agonizar…
Aquelas pupilas baças Acaso seriam minhas? Meu amor, quando me enlaças, Porventura as adivinhas?
Deram-me, então, por conselho, Tirar de mim o sentido. Mas, depois, vendo-me ao espelho, Cuidei que tinha morrido!
Fica longe o sol que vi
[ Quadras da Minha Solidão ]
Fica longe o sol que vi aquecer meu corpo outrora… Como é breve o sol daqui! E como é longa esta hora!…
Donde estou vejo partir quem parte certo e feliz. Só eu fico. E sonho ir rumo ao sol do meu país…
Por isso as asas dormentes suspiram por outro céu. Mas ai delas! tão doentes não podem voar mais eu…
que comigo, preso a mim, tudo quanto sei de cor… Chamem-lhe nomes sem fim, por todos responde a dor.
E assim, no pulso dos dias, sinto chegar outro Outono… Passam as horas esguias, levando o meu abandono…
Poema: Alda Lara (excerto) Música: Jaime Santos (Fado da Bica) Intérprete: Tereza Tarouca (in LP “Fado e Folclore”, RCA Victor, 1970)
QUADRAS DA MINHA SOLIDÃO
(Alda Lara, in “Poemas”, Sá da Bandeira, Angola: Imbondeiro, 1966, reed. Braga: APPACDM, 1997, 2005)
Fica longe o sol que vi aquecer meu corpo outrora… Como é breve o sol daqui! E como é longa esta hora!…
Donde estou vejo partir quem parte certo e feliz. Só eu fico. E sonho ir rumo ao sol do meu país…
Por isso as asas dormentes suspiram por outro céu. Mas ai delas! tão doentes não podem voar mais eu…
que comigo, preso a mim, tudo quanto sei de cor… Chamem-lhe nomes sem fim, por todos responde a dor.
Mas dor de quê? dor de quem, se nada tenho a sofrer?… Saudade?… Amor?… Sei lá bem! É qualquer coisa a morrer…
E assim, no pulso dos dias, sinto chegar outro Outono… Passam as horas esguias, levando o meu abandono…
Lá vem num corcel
[ Trovas do Meu Povo ]
Lá vem num corcel o príncipe real vem saber dos favos vem medir o mel
vem ver os pastores pastarem o gado são seus os pastores e é seu todo o prado
Lá vem num cavalo o senhor regedor vem ver como cumprem as ordem do rei
pela terra alheia vem ver lavradores vê o que semeiam vem contar as flores
Lá vem num burrico o senhor abade vem pedir prás almas prás almas salvar
são suas as almas que o povo lhas deu partilha por todos a fé que perdeu
Lá vem todo o povo a pé no povoado de Cristo nos ombros à cruz arrancado
pois Cristo resiste não morre entre o povo porque em cada um há sempre um Cristo novo
La, la, la…
Letra: Manuel Lima Brummon Música: Luís Alexandre Intérprete: Tereza Tarouca (in LP “Portugal Triste”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD “Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006)
Lavava no rio, lavava
Lavava no rio, lavava, Gelava-me o frio, gelava, Quando ia ao rio lavar! Passava fome, passava, Chorava também, chorava Ao ver minha mãe chorar!
Cantava também, cantava! Sonhava também, sonhava! E na minha fantasia Tais coisas fantasiava, Que esquecia que chorava, Que esquecia que sofria!
Já não vou ao rio lavar, Mas continuo a chorar! Já não sonho o que sonhava! Se já não lavo no rio, Porque me gela este frio Mais do que então me gelava?
Ai, minha mãe, minha mãe, Que saudades desse bem, Do mal que então conhecia! Dessa fome que eu passava, Do frio que nos gelava E da minha fantasia!
Já não temos fome, mãe, Mas já não temos também O desejo de a não ter! Já não sabemos sonhar, Já andamos a enganar O desejo de morrer!
Letra: Amália Rodrigues Música: José Fontes Rocha Intérprete: Joana Amendoeira (in CD “Amor Mais Perfeito: Tributo a José Fontes Rocha”, CNM, 2012) Versão original: Amália Rodrigues (in LP “Gostava de Ser Quem Era”, Valentim de Carvalho, 1980, reed. EMI-VC, 1995, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; “Amália 50 Anos”: CD “Amália Mais os Poetas Populares”, EMI-VC, 1989; 2CD “O Melhor de Amália”: vol. III – “Fado da Saudade”: CD 2, EMI-VC, 2003)
Joana Amendoeira, Amor Mais Perfeito
Meu país esperando
[ Portugal Triste ]
Meu país esperando na esquina do tempo de braços abertos a todo o momento vou seguindo sempre calculando os passos e se o que criei desfaço e refaço meus olhos despertos abrem-se para o mundo e eu caio em mim cada vez mais fundo
Meu país perdido na esquina do tempo triste Portugal tão pequeno e imenso pois eu te garanto, país, que este povo traz no coração sempre um amor novo
Não quero que pensem que já me perdi nem quero que julguem que fujo de mim tenho lucidez para poder viver eu sou vertical, não me hão-de torcer sempre fui mais forte quando me quiseram tornar serva ou fraca e nunca me venceram
Tenho a dimensão do que quero alcançar e nada que fiz tenho a lamentar pois para me encontrar ainda vos digo que nunca vendi meu cantar de amigo
Portugal que eu canto deixa a boca amarga mas eu estou bem firme, não estou derrotada
Letra e música: Manuel Lima Brummon Intérprete: Tereza Tarouca (in LP “Portugal Triste”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD “Tereza Tarouca”, col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)
Mordi a Tua Mão
Mordi a tua mão, depois morri; Caí sobre o teu corpo inanimado: Que importa se estou preso ou se prendi! Quem morre assim não tem que ser julgado.
Mordi a tua mão, depois morri; Passei por um lugar que não tem nome, Que fica muito além do que sofri: Maior que a dor, que o mar, maior que a fome.
Beijei a tua mão, depois vivi; Deixei-me ali ficar de olhos fechados. Ainda perguntei: “Tu estás aqui?”; Depois dormi nos braços arranhados.
Letra: Duarte Música: Alfredo Duarte “Marceneiro” (Fado CUF) Intérprete: Duarte (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018)
Nesse teu olhar magoado
[ Espero a Morte a Cantar ]
Nesse teu olhar magoado Vejo a cor dos olhos meus; Tem a dor um tom pisado Que é o tom dos olhos teus.
Sofro a dor por te querer Esquecendo que te perdi, Mas um dia quis te ver E louca d’amor fugi.
Nos meus olhos vivem ainda Saudades dum olhar teu; No meu peito vive infinda Essa dor que em ti viveu.
Hoje canto de amargura Já cansada de te amar, E vencida pela tortura Espero a morte a cantar.
Letra: Francisco Pessoa Música: Joaquim Campos (Fado Amora) Intérprete: Tereza Tarouca (in EP “Saudade, Silêncio e Sombra”, RCA Victor, 1964)
No silêncio do meu quarto
[ Um Fado para Fred Astaire ]
No silêncio do meu quarto… de incerteza Não vos sei dizer se morro… ou ressuscito; Faz-se noite quando parto… com tristeza E talvez peça socorro… mas não grito.
Quem diria que os teus pés… de bailarino Entrariam para a história… da saudade, E que meio de viés… por teu destino Brindarias à memória… que me invade?!
Quase toco a tua mão… presa ao ecrã, Mas tropeço nos meus passos… sem esperança; Não existe solidão… nem amanhã Quando danço nos teus braços… de criança.
Eu é que sou a menina,… mas não quero, E não vou mudar de idade… e ai de mim Se a memória só termina… e volta a zero Quando acabar a saudade… que é sem fim.
Letra: Tiago Torres da Silva Música: Popular e Alfredo Duarte “Marceneiro” (Fado Menor com Versículo) Intérprete: Cristina Nóbrega Versão discográfica de Cristina Nóbrega (in CD “Um Fado para Fred Astaire”, Watch & Listen, 2014) Versão original: Deolinda Rodrigues (inédita)
Deolinda Rodrigues fadista
O Cristo inerte
[ Não Fui Eu ]
O Cristo inerte preso à cruz A luz da vela que O reduz À sombra triste na parede entrecortada
Dos lábios solta-se, indulgente A prece inútil do não-crente Entre palavras que por fim não dizem nada
Não fui eu, não fui eu Não deixei a porta aberta Não fui eu, não fui eu Ficou-me a casa deserta
Há como um fugidio rumor De passos no corredor Induzem na minh’alma a dor da esperança vã
Sinais do tempo a humedecer A voz que teima enrouquecer E o corpo dorido pela noite no divã
Não fui eu, não fui eu Não deixei a porta aberta Não fui eu, não fui eu Ficou-me a casa deserta
Como esta febre me destrói Perdido amor, quanto me dói Desceste em mim o cruel manto da tristeza
Em cada noite morro, amor E a solidão faz-me maior Mal amanhece e volta o medo que anoiteça
Não fui eu, não fui eu Não deixei a porta aberta Não fui eu, não fui eu Ficou-me a casa deserta
Letra e música: Jorge Fernando Intérprete: Rua da Lua (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)
O fado
[ Fado da Consagração ]
O fado, fado nascido em Lisboa, É voz de pena que soa, Mágoa que do peito vem; O fado é bairro velho que chora, Alfama que se enamora E contra o amor que tem.
O fado é canto de feiticeiro, É Alfredo Marceneiro, É um dom, uma expressão; E é fado guitarra que nos murmura Tudo aquilo que perdura Bem dentro do coração.
Ao fado Lisboa diz o que sente, Vai nele a alma da gente Pois é ele o seu condão.
O fado, fado que invade a cidade, É nostalgia, saudade, Mal e bem, sorte a azar; O fado é rumo de caravelas, E somos nós e são elas Que andamos a namorar.
O fado é modo da nossa gente, O passado e o presente, O porvir, esse também; Pois fado é este jeito, esta briga De chorar numa cantiga Um amor, tudo e ninguém.
E é fado aquele encanto profundo Que vai daqui pelo mundo E que ao mundo soa bem.
O fado é canto de feiticeiro, É Alfredo Marceneiro, É um dom, uma expressão; E é fado guitarra que nos murmura Tudo aquilo que perdura Bem dentro do coração.
Ao fado Lisboa diz o que sente, Vai nele a alma da gente Pois é esse o seu condão.
Letra: Guilherme Pereira da Rosa Música: Frederico Valério Intérprete: Fernanda Maria (grav. 1963, in CD “Grande Noite de Fados: Festa de Homenagem a Alfredo Marceneiro”, EMI-VC, 1998)
Por ti cheguei a amar o desumano
[ A Outra Face da Alegria ]
Por ti cheguei a amar o desumano e fiz da minha angústia amor total vi florir primaveras todo o ano nunca ninguém te amou com amor igual
Por ti bastava a sombra fugidia do teu olhar no meu insatisfeito e tudo o que não tinha pressentia como quem tem dois corações no peito
Por ti reinventei lindas palavras nas mãos tive oiro e estrelas só por ti e nada te bastou, nada aceitavas mas roubaste o melhor que havia em mim
Por ti gastei a face da alegria e andei morrendo um pouco em toda a parte embriagaste a luz de cada dia os dias mais belos da minha idade
Letra e música: Manuel Lima Brummon Intérprete: Tereza Tarouca (in LP “Portugal Triste”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD “Tereza Tarouca”, col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)
Quem dorme à noite comigo?
[ Medo ]
Quem dorme à noite comigo? É meu segredo. Mas se insistirem lhes digo: O medo mora comigo, Mas só o medo, mas só o medo.
E cedo, porque me embala Num vai-e-vem de solidão, É com o silêncio que fala: Com voz que move onde estala E nos perturba a razão.
Gritar? Quem pode salvar-me Do que está dentro de mim? Gostava até de matar-me, Mas eu sei que ele há-de esperar-me Ao pé da ponte do fim.
Poema: Reinaldo Ferreira Música: Alain Oulman Intérprete: Júlio Resende com Amália Rodrigues (in CD “Amália por Júlio Resende”, Edições Valentim de Carvalho, 2013) Versão original: Amália Rodrigues (grav. 1966, CD “Segredo”, EMI-VC, 1997; 2CD “O Melhor de Amália: Vol. II – Tudo Isto É Fado”: CD 1, EMI-VC, 2000; Livro/4CD “O Melhor de Amália”: CD 3, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)
Talvez a solidão se torne um mito
[ Um Quê de Eternidade ]
Talvez a solidão se torne um mito pr’àqueles que se entregam à saudade, pois se uma tem um pouco de infinito a outra tem um quê de eternidade.
A solidão não sabe de quem gosta: por isso é que elas andam sempre juntas, porque uma é a pergunta sem resposta e a outra é a resposta sem perguntas.
Mas é com a saudade que me entendo, porque ela se apaixona só por quem descobre em cada verso que vai lendo que a solidão não gosta de ninguém.
Não sei porque é que vai baixando a voz, nem sei porque é que esconde o que revela, mas sei que se ela diz gostar de nós já não aceita que gostemos dela.
Letra: Tiago Torres da Silva Música: Raul Pereira (Fado Zé Grande) Intérprete: Cristina Nóbrega Versão original: Cristina Nóbrega (in CD “Um Fado para Fred Astaire”, Watch & Listen, 2014)
Cristina Nóbrega, Um fado para Fred Astaire
Um malmequer desfolhei
[ Malmequer Desfolhado ]
Um malmequer desfolhei, Nunca tal tivesse feito; Não sabia o que já sei, Tinha-te ainda no peito!
P’ra saber s’inda era meu O homem que eu tanto amei, Com os olhas fitos no céu Um malmequer desfolhei!
E da flor fui arrancando Esperanças que fora deito; E agora eu estou chorando… Nunca tal tivesse feito!
Julgando ter-te na vida E seres p’ra mim minha lei, Passava o tempo iludida… Não sabia o que já sei!
Sonhava meu coração, E agora sonho desfeito Vivendo da ilusão… Tinha-te ainda no peito!
Letra: D. António de Bragança Música: Francisco Viana (Fado Francisco Viana ou Fado Mouraria do Vianinha) Intérprete: Tereza Tarouca (in EP “Mouraria”, RCA Victor, 1963; LP “Os Melhores Fados de Tereza Tarouca”, RCA Camden, 1978)
https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/05/helena-sarmento-fado.jpg400400António Ferreirahttps://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpgAntónio Ferreira2020-05-11 21:16:222025-06-13 17:51:08Poemário de fado
— Vieste lá da Galiza Com vontade de cantar; Trouxeste uma sanfona E romances de encantar.
E agora que aqui estás, Mostra a tua habilidade! Não és cego, nem tens cão E vives numa cidade.
— Eu veño lá de lonxe, Catro horas de camiño, Para cantar e tocar Os romances do ceguiño.
Como non hai unha feira Podemos, enton, gravar: Esta é unha maneira Da memória conservar.
Isso, sim, é de valor! Boa ideia, genial: Tocar as canções de cego Da Galiza e Portugal!
Isso, sim, é de valor! Boa ideia, genial: Tocar as canções de cego Da Galiza e Portugal!
Letra e música: César Prata Intérpretes: Ariel Ninas & César Prata* (in CD “Cantos de Cego da Galiza e Portugal”, aCentral Folque, 2016)
Reciclanda
O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.
Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.
Contacte-nos:
António José Ferreira 962 942 759
https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/05/sons-vadios-cantos-de-cego-da-galiza-e-de-portugal.jpg400400António Ferreirahttps://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpgAntónio Ferreira2020-05-10 20:23:322024-11-13 11:16:55Canções à desgarrada
Acredito em pouca coisa que venha escrita em loiça, dessa de pôr na parede.
Acredito mais no desempenho da laranja que apanho, que como e me mata a sede.
Acredito nas façanhas, muito menos nas patranhas de quem faz só porque sim.
Acredito nas crianças, no meu ventre são esperanças de um futuro sem fim.
Acredito na loucura de quem pede mais ternura e vira costas à guerra.
Acredito na fé dos outros que às vezes abrem poços só para encontrar mais terra.
Acredito no Caetano, no Zambujo que é meu mano, em todas as vozes calmas.
Acredito na poesia e também na aletria, em tod’os adoçantes de almas.
Acredito na minha mãe, ela que sofreu bem para que eu fosse como sou.
Crente nos frutos e flores, nos mais impossíveis amores; onde o Sol mais brilhar eu estou.
Eu estou Eu estou Eu estou Eu estou Eu estou
Letra: Celina da Piedade Música: Alex Gaspar Intérprete: Celina da Piedade (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)
Era não era
[ Era Não Era do Tamanho de um Pardal ]
Era não era Foi deixado ao abandono Num dia quente de Outono No meio de um meloal Era não era Sei lá eu se era ou não era Só sei que os lados da esfera Cortam mais do que um punhal
São mais ou menos Cento e vinte e quatro lados Redondinhos, afiados Do tamanho de um pardal Mas sem as penas Nem as partes comestíveis Nem a caixa dos fusíveis Nem a corda do estendal
Era não era Palmilhei o mar profundo Sem parar um só segundo P’ra apanhar estrelas do céu No meio das nuvens Nadei eu entre os rochedos Cheio de frio e de medos Ao sabor do macaréu
Os macaréus São umas ondas muito altas Da família das pernaltas E maiores do que um pardal Mas sem as penas Nem as partes comestíveis Nem a caixa dos fusíveis Nem a corda do estendal
São mais ou menos Cento e vinte e quatro lados Redondinhos, afiados Do tamanho de um pardal Mas sem as penas Nem as partes comestíveis Nem a caixa dos fusíveis Nem a corda do estendal
Os macaréus São umas ondas muito altas Da família das pernaltas E maiores do que um pardal Mas sem as penas Nem as partes comestíveis Nem a caixa dos fusíveis Nem a corda do estendal
Era não era Diz o nabo p’ra o repolho: “Tu não me franzas o olho Que eu de ti não tenho medo!” Era não era Diz a ameixa p’ra a cenoura: “Vou para Paredes de Coura, Vou partir de manhã cedo”
Uma linda terra Do concelho de Alcobaça Só conhece quem lá passa Junto à tasca do Pardal Mas sem as penas Nem as partes comestíveis Nem a caixa dos fusíveis Nem a corda do estendal
São mais ou menos Cento e vinte e quatro lados Redondinhos, afiados Do tamanho de um pardal Mas sem as penas Nem as partes comestíveis Nem a caixa dos fusíveis Nem a corda do estendal
Os macaréus São umas ondas muito altas Da família das pernaltas E maiores do que um pardal Mas sem as penas Nem as partes comestíveis Nem a caixa dos fusíveis Nem a corda do estendal
São mais ou menos Cento e vinte e quatro lados Redondinhos, afiados Do tamanho de um pardal Mas sem as penas Nem as partes comestíveis Nem a caixa dos fusíveis Nem a corda do estendal
Os macaréus São umas ondas muito altas Da família das pernaltas E maiores do que um pardal Mas sem as penas Nem as partes comestíveis Nem a caixa dos fusíveis Nem a corda do estendal
Os macaréus…
Letra e música: Carlos Guerreiro Intérprete: Gaiteiros de Lisboa Versão original: Gaiteiros de Lisboa (in CD “Macaréu”, Aduf Edições, 2002; CD “A História”, Uguru, 2017)
Reciclanda
O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.
Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.
Contacte-nos:
António José Ferreira 962 942 759
Fez sábado quinta-feira
Fez sábado quinta-feira, P’ra lá d’Évora três semanas, Estive dez dias num Verão Nas Américas Romanas.
Embarquei em dois caleiros Na baía de Lisboa; Arribei, fui dar a Goa, Desembarquei em Alenquer; Casei com sete mulheres, Falta uma p’rá primeira; Fui dar à Ilha Terceira, Com três dias numa hora; Abalei e vim-me embora, Fez sábado quinta-feira.
Agarrei nos alforginhos, Pus um pão em quatro enxacas, Na gamela duas vacas E na borracha toucinho; Um açafate com vinho, Trinta metros de banana; Dei passos à americana, Fui passar a Ayamonte; Abalei hoje, cheguei ‘onte’ P’ra lá d’Évora três semanas.
Eu já estive em Erapouca, Numa ocharia empregado; Foi-se um carro carregado Numa abóbora canoca; Um mosquito com um boi na boca Cem léguas em proporção; Atirei-lhe um bofetão Que pelo ar o fez ir; À espera dele cair Estive dez dias num Verão.
Fui soldado, assentei praça No 15 de Sapadores; Maquinista de vapores Na carreira de Alcobaça; Venci o Forte da Graça, Também a Vila de Terena E as províncias arraianas, Venci toda a nobrezia; Bati-me com a Turquia Nas Américas Romanas.
Fez sábado quinta-feira, P’ra lá d’Évora três semanas, Estive dez dias num Verão Nas Américas Romanas.
Letra: Popular Música: José Manuel David Intérprete: Gaiteiros de Lisboa Versão original: Gaiteiros de Lisboa com Luís Espinho e João Paulo Sousa (Adiafa) (in CD “Avis Rara”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2012; CD “A História”, Uguru, 2017)
Lá no adro da igreja
[ Abaladiça ]
Lá no adro da igreja Pára o Chico Pintaínho Pede a Deus que bem proteja Quem lhe der mais um copinho
Tem o filho para Lisboa A mulher já lhe morreu Não lhe anda a vida boa Foi pró vinho que lhe deu
A Isaura é metediça Com um lado reverente Quando pode está na missa Mas diz mal de toda a gente
Pode ser que seja fé Ou que goste do prior Tira bicas no café Bem pingadas sem pudor
Vai mais uma abaladiça Outro dedo de conversa Esta agora pago eu Depois tu e vice-versa Dedilhando a campaniça São dez cordas de saudade À saúde dos que estamos E de quem está na cidade
É na Tasca do João Que a malta vai ao petisco Há tomate, azeite e pão E tremoço por marisco
Ninguém sai desconsolado Por não ter o que comer Bota abaixo um abafado Para a gente se aquecer
Vai mais uma abaladiça…
Letra: José Fialho Gouveia Música: Rogério Charraz Intérprete: Rogério Charraz
Manhã na minha ruela
[ Dia de Folga ]
Intérprete: Ana Moura
Manhã na minha ruela, sol pela janela. O Sr. jeitoso dá tréguas ao berbequim. O galo descansa. Ri-se a criança, Hoje não há birras, a tudo diz que sim. O casal em guerra do segundo andar Fez as pazes, está lá fora a namorar.
Cada dia é um bico d’obra, Uma carga de trabalhos. Faz-nos falta renovar Baterias. Há razões de sobra Para celebrarmos hoje com um fado que se empolga. É dia de folga!
Sem pressa de ar invencível, saia, saltos, rímel, Vou descer à rua, pode o trânsito parar. O guarda desfruta, a fiscal não multa. Passo e o turista, faz por não atrapalhar. Dona Laura hoje vai ler o jornal. Na cozinha está o esposo de avental.
Cada dia é um bico d’obra Uma carga de trabalhos. Faz-nos falta renovar Baterias. Há razões de sobra Para celebrarmos hoje com um fado que se empolga. É dia de folga!
Folga de ser-se quem se é E de fazer tudo porque tem que ser. Folga para ao menos uma vez A vida ser como nos apetecer.
Cada dia é um bico d’obra, Uma carga de trabalhos. Faz-nos falta renovar Baterias. Há razões de sobra Para a tristeza ir de volta e o fado celebrar.
Cada dia é um bico d’obra Uma carga de trabalhos. Faz-nos falta renovar Baterias. Há razões de sobra Para celebrarmos hoje com um fado que se empolga. É dia de folga!
Este é o fado que se empolga No dia de folga, No dia de folga.
No Império das aves raras
[ Avejão ]
No Império das aves raras Quem não tem penas é Rei; Entre pêgas e araras Os Patos-Bravos são Lei.
A terra dos Patos-Bravos Parece mais um vespeiro: Andam todos à bicada Para chegar ao poleiro.
Por sobre a terra, por sobre o mar O Grande Irmão zela por nós: A sua sombra é protectora, Já vem dos egrégios avós.
Na terra dos papagaios Quem não tem poleiro é pato; Andam todos à bicada Só p’ra ficar no retrato.
No reino das trepadoras O papagaio é Senhor: Mesmo até sem saber ler Qualquer papagaio é Doutor.
Por sobre a terra, por sobre o mar O Grande Irmão zela por nós: A sua sombra é protectora, Já vem dos egrégios avós.
Voar mais alto que os outros, Esse era o sonho do galo: Roubar as asas ao Pégaso E voar como um cavalo.
Mas o galo de ser galo É ter o chão junto à barriga; Para alcançar o poleiro Tem que usar de muita intriga.
Por sobre a terra, por sobre o mar O Grande Irmão zela por nós: A sua sombra é protectora, Já vem dos egrégios avós.
No reino dos voadores Impera a grande anarquia, E a barata voadora Já tem lugar de chefia.
A passarada oprimida Só deseja que isto mude, Mas as aves de rapina Cada vez têm mais saúde.
Por sobre a terra, por sobre o mar O Grande Irmão zela por nós: A sua sombra é protectora, Já vem dos egrégios avós.
Letra e música: Carlos Guerreiro Intérprete: Gaiteiros de Lisboa Versão original: Gaiteiros de Lisboa com Sérgio Godinho & Armando Carvalhêda (in CD “Avis Rara”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2012)
As forças em parada desfilam junto à tribuna de honra que é composta por cinquenta poleiros, onde estão representadas as espécies ornitológicas democraticamente nomeadas pelo marechal Avejão. Desfilam, neste momento, o esquadrão Falcão e o esquadrão Abutre, garantes da paz, da ordem, da liberdade e da segurança. À sua passagem, o marechal Avejão perfila-se no seu poleiro e erguendo a asa direita saúda as tropas em sinal de respeito e gratidão.
Ó Ana, Vem Ver
Ó Ana, vem ver! Ó Ana, vem ver! Há fogo no mar e os peixes a arder! La ri lo lela! Ó Ana, vem ver!
Oh alto e oh alto, oh alto, piu piu! Passarinho novo da mão me fugiu! La ri lo lela, oh alto, piu piu!
Senhora Maria, senhora Maria, O seu galo canta e o meu assobia! La ri lo lela, senhora Maria!
Galo
Oh alto e oh alto, oh alto e oh alto! Quanto mais acima maior é o salto! La ri lo lela, oh alto e oh alto!
Ó Ana, vem ver! Ó Ana, vem ver! Há fogo no mar e os peixes a arder! La ri lo lela! Ó Ana, vem ver!
Senhora Maria, senhora Maria, O seu galo canta e o meu assobia! La ri lo lela, senhora Maria!
Oh alto e oh alto, oh alto, piu piu! Passarinho novo da mão me fugiu! La ri lo lela, oh alto, piu piu!
Eu quero, eu quero, eu quero, eu queria Dormir uma noite contigo, Maria! La ri lo lela, eu quero, eu queria!…
Letra e música: Tradicional (Beira Interior) Intérprete: Real Companhia (in CD “Orgulhosamente Nós!”, Lusogram, 2000)
O Judas teve sarampo
[ Quando Judas Teve Sarampo ]
O Judas teve sarampo, Herodes teve bexigas; Pilatos teve sezões, O Caifás teve lombrigas.
O Judas quando nasceu Foi de uma velha gaiteira, O Diabo foi parteira; Quando Judas rescendeu Foi padrinho um pigmeu Para o livrar do quebranto. A todos causou espanto Tal era a figura horrenda, Mas só o Diabo se lembra E Judas teve sarampo.
O Judas teve sarampo, Herodes teve bexigas; Pilatos teve sezões, O Caifás teve lombrigas.
Letra: Popular (Monte Real, Leiria, Alta Estremadura); adap. Carlos Guerreiro Música: Carlos Guerreiro Intérprete: Gaiteiros de Lisboa Versão original: Gaiteiros de Lisboa (in CD “Macaréu”, Aduf Edições, 2002; CD “A História”, Uguru, 2017)
Quem quer brincar
[ Brincar aos Fados ]
Quem quer brincar a uma nova brincadeira, Que não tem índios, nem polícias, nem ladrões E toda a gente pode brincar à primeira, Basta saber cantarolar duas canções.
Uma vassoura pode ser uma viola, Uma guitarra pode ser feita em cartão: É muito fácil… basta usar tesoura e cola Para dar asas à tua imaginação.
Uma cortina faz de xaile improvisado E num instante nasce um palco no quintal; Até o gato que não quer ser chateado É a plateia que te aplaude no final.
Então tu escolhes um CD… põe-lo baixinho E em ‘karaoke’, em ‘playback’ ou a cantar És a Amália, a Mariza ou a Carminho E vais aos fados… mesmo que seja a brincar.
Letra: Tiago Torres da Silva Música: Bernardo Lino Teixeira (Fado Ginguinha) Intérprete: Camané (in CD “Brincar aos Fados”, Farol Música, 2014) Outra versão: Rodrigo Costa Félix
Subir, Subir
Subir, subir lnd’ hei-de conseguir Morder-te, ó cachopa, Por dentro do teu vestir Subir, subir lnd’ hei-de conseguir Morder-te, ó cachopa, Por dentro do teu vestir
Mensageiros de Cupido Eu ando deprimido Intercedei por mim ao vosso Deus! Estou de amores com uma catraia Que p’ra subir a saia Exige grandes sacrifícios meus
Subir, subir lnd’ hei-de conseguir Morder-te, ó cachopa, Por dentro do teu vestir Subir, subir lnd’ hei-de conseguir Morder-te, ó cachopa, Por dentro do teu vestir
Levantei velas à barca Mas a brisa era parca Nem deu para agitar o meu corcel Assim nunca mais te chego A ter no aconchego Tirar-te dessa ilha de papel
Subir, subir lnd’ hei-de conseguir Morder-te, ó cachopa, Por dentro do teu vestir Subir, subir lnd’ hei-de conseguir Morder-te, ó cachopa, Por dentro do teu vestir
Fiz consulta a feiticeiros E santos padroeiros Deixei bruxeiros de cabeça à toa Findei o consultamento E como rendimento Saíram-me (imaginem!) os Gaiteiros de Lisboa
Subir, subir lnd’ hei-de conseguir Morder-te, ó cachopa, Por dentro do teu vestir Subir, subir lnd’ hei-de conseguir Morder-te, ó cachopa, Por dentro do teu vestir
Letra e música: Mário Alves (Vozes da Rádio) Intérprete: Gaiteiros de Lisboa Versão discográfica ao vivo dos Gaiteiros de Lisboa, com Vozes da Rádio (in 2CD “Dançachamas: Ao Vivo”: CD 1, Farol Música, 2000) Versão original: Vozes da Rádio com Gaiteiros de Lisboa (in CD “Mappa do Coração”, Ariola/BMG Portugal, 1997)
Tubarão tinha dentes de tainha
[ Tamboril ]
Tubarão tinha dentes de tainha E a tainha tinha dentes de tambor Toca traz tempo chuva tempestade Tubarão trincou um touro nos taleigos da vontade
Tubarão tinha o tímpano trocado E trocado estava o tempo todo o ano Toca traz tempo chuva tempestade Tubarão tamborilou ‘inda a missa ia a metade
Tubarão traficou-se em tamboril Troca-tintas com retoque teatral Toca terça, quarta, quinta, noite e dia Travestido no Entrudo c’uma tromba de enguia
Tamboril teve tísica ao contrário Já tossia como tosse o tubarão Toca terça, quarta, quinta, noite e dia Tamboril entubarou num atalho p’rá Turquia
Tubarão tinha dentes de tainha E a tainha tinha dentes de tambor Toca traz tempo chuva tempestade Tubarão trincou um touro nos taleigos da vontade
Tubarão tinha o tímpano trocado E trocado estava o tempo todo o ano Toca traz tempo chuva tempestade Tubarão tamborilou ‘inda a missa ia a metade
Tubarão traficou-se em tamboril Troca-tintas com retoque teatral Toca terça, quarta, quinta, noite e dia Travestido no Entrudo c’uma tromba de enguia
Tamboril teve tísica ao contrário Já tossia como tosse o tubarão Toca terça, quarta, quinta, noite e dia Tamboril entubarou num atalho p’rá Turquia
Letra: Miguel Cardina Música: Pedro Damasceno e Celso Bento Arranjo: Diabo a Sete e Julieta Silva Intérprete: Diabo a Sete (in CD “Figura de Gente”, Sons Vadios, 2016)
https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/05/brincar-aos-fados.jpg400400António Ferreirahttps://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpgAntónio Ferreira2020-05-10 03:16:122024-11-02 06:11:36Canções de humor
A minha canção é verde. Sempre de verde a cantei. De verde cantei ao Povo E fui de verde, de verde, Cantar à mesa do Rei.
Tive um amor — triste sina! Amar é perder alguém… Desde então, ficou mais verde Tudo em mim: a voz, o olhar… E o meu coração também!
Deu-me a vida, além do luto, Amor à margem da lei… Amigos são inimigos. — Paga-me! disseram todos. Só eu de verde fiquei.
A minha canção é verde [bis] — Canção à margem da lei… A minha canção é verde, Verde como este poema Que por meu mal te cantei!
A minha canção é verde, Verde, verde, verde, verde… Mas… porque é verde? — Não sei…
Poema: Pedro Homem de Mello (adaptado) Música: Carlos da Maia (Fado Perseguição) Intérprete: Tereza Tarouca (in EP “O Riso Que me Deste”, RCA Victor, 1967; 2LP “Álbum de Recordações”: LP 1, Polydor/PolyGram, 1985; CD “Temas de Ouro da Música Portuguesa”, Polydor/PolyGram, 1992; CD “Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006; CD “Tereza Tarouca”, col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)
A noite caiu
[ Poema da Utopia ]
A noite caiu sem manchas e sem culpa. Os homens largaram as máscaras de bons actores. Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde. No alto, a utópica Lua vela comigo E sonha coalhar de branco as sombras do mundo. Um palhaço, a seu lado, sopra no ventre dos búzios. Noite! se o espectáculo findou Deixa-nos também dormir.
Poema: Fernando Namora (in “Relevos”, Coimbra: Portugália, 1937; “As Frias Madrugadas”, Lisboa: Arcádia, 1959, Lisboa: Círculo de Leitores, 1997 – p. 50) Música: Francisco Ceia Intérprete: Francisco Ceia (in CD “Sandálias de Vento”, Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)
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A Voz Que Eu Tenho
A voz que eu tenho, como pensamento, Veio de longe, devagar e triste; Veio rasando os areais do vento Onde a palavra amor ainda existe.
Respirou com o povo as madrugadas, Soube do mar e foi beber o mar; E gritou no silêncio das estradas A solidão que eu tenho p’ra vos dar.
Cresce-me a voz nesta prisão do encanto, Com a amizade que me faz viver; E sem saber se me entendeis, eu canto A presença do amor e a dor de o ter.
Poema: Vasco de Lima Couto Música: Júlio Proença (Fado Esmeraldinha) Intérprete: Carlos do Carmo (in LP “Carlos do Carmo”, Tecla, 1970, reed. Edisom, 1984, Movieplay, 2003, Série “Carlos do Carmo 50 Anos”, Vol. 01, Universal Music, 2013)
CANÇÃO VERDE
(Pedro Homem de Mello, in “Adeus”, Porto, 1951 p. 25-27; “Poesias Escolhidas”, col. Biblioteca de Autores Portugueses, Lisboa: IN-CM, 1983 – p. 131-132)
A minha canção é verde. Sempre de verde a cantei. De verde cantei ao Povo E fui de verde vestido Cantar à mesa do Rei.
Porque foi verde o meu canto? Porque foi verde? — Não sei…
Verde, verde, verde, verde, Verde, verde, em vão, cantei! — Lindo moço! — disse o Povo. — Verde moço! — disse El-Rei.
Porque me chamaram verde? Porque foi? Porquê? — Não sei…
Tive um amor — triste sina! Amar é perder alguém… Desde então, ficou mais verde Tudo em mim: a voz, o olhar, Cada passo, cada beijo… E o meu coração também!
Coração! Porque és tão verde? Porque és verde assim também?
Deu-me a vida, além do luto, Amor à margem da lei… Amigos são inimigos. — Paga-me! disseram todos. Só eu de verde fiquei.
Porque fiquei eu de verde? Porque foi isto? — Não sei…
A minha canção é verde — Canção à margem da lei… Verde, ingénua, verde e moça, Como a voz deste poema Que por meu mal vos cantei!
A minha canção é verde, Verde, verde, verde, verde… Mas… porque é verde? — Não sei…
Ai Flores do Verde Pino
(cantiga de amigo)
– Ai flores, ai flores do verde pino, se sabedes novas do meu amigo? Ai Deus, e u é?
Ai flores, ai flores do verde ramo, se sabedes novas do meu amado? Ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amigo, aquel que mentiu do que pôs comigo?
Se sabedes novas do meu amado, aquel que mentiu do que mi há jurado? Ai Deus, e u é?
– Vós me preguntades polo voss’amigo? Eu bem vos digo que é san’e vivo. Ai Deus, e u é?
Vós me preguntades polo voss’amado? Eu bem vos digo que é vivo e sano. Ai Deus, e u é?
Eu bem vos digo que é san’e vivo e seerá vosc’ant’o prazo saído.
Eu bem vos digo que é vivo e sano e seerá vosc’ant’o prazo passado. Ai Deus, e u é?
Eu bem vos digo que é san’e vivo e seerá vosc’ant’o prazo saído.
Eu bem vos digo que é vivo e sano e seerá vosc’ant’o prazo passado. Ai Deus, e u é?
Ai flores, ai flores do verde pino…
Poema: D. Dinis (ligeiramente adaptado) Música: Helena de Alfonso e Jose Lara Gruñeiro Arranjo: Paulo Loureiro Intérprete: Ana Laíns (in CD “Portucalis”, Ana Laíns/Seven Muses, 2017) Versão original: Barahúnda / voz de Helena de Alfonso (in CD “Al Sol de la Hierba”, Nufolk/GalileoMC, 2002)
D. Dinis
Poema (cantiga de amigo): D. Dinis (in “cancioneiro da Biblioteca Nacional”, B 568 / “cancioneiro da Vaticana”, V 171) Música: Frederico de Freitas Intérprete: Segréis de Lisboa [in CD “O Alaúde na Península Ibérica (Séc. XV-XXI), Manuel Morais, 2023]
Ai flores, ai flores do verde pino
(D. Dinis, 1261-1325, in “cancioneiro da Biblioteca Nacional”, B 568; “cancioneiro da Vaticana”, V 171)
– Ai flores, ai flores do verde pino, se sabedes novas do meu amigo? Ai Deus, e u é?
Ai flores, ai flores do verde ramo, se sabedes novas do meu amado? Ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amigo, aquel que mentiu do que pôs conmigo? Ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amado, aquel que mentiu do que mi há jurado? Ai Deus, e u é?
– Vós me preguntades polo voss’amigo e eu ben vos digo que é san’e vivo. Ai Deus, e u é?
Vós me preguntades polo voss’amado e eu ben vos digo que é viv’e sano. Ai Deus, e u é?
E eu ben vos digo que é san’e vivo e seerá vosc’ant’o prazo saído. Ai Deus, e u é?
E eu ben vos digo que é viv’e sano e seerá vosc’ant’o prazo passado. Ai Deus, e u é?
Glossário:
– pino: pinheiro. – sabedes: sabeis. – novas: notícias. – Ai Deus, e u é?: Ai Deus, e onde está? – do que pôs comigo: sobre aquilo que combinou comigo (o encontro sob os pinheiros). – sano: são, saudável. – seerá vosc’ant’o prazo saído: estará convosco antes de terminar o prazo.
Anda o Sol na minha rua
Anda o Sol na minha rua, Cada vez até mais tarde, A ver se pergunta à Lua A razão por que não arde.
Tanto quer saber porquê, Mas depois fica calado; E nunca ninguém os vê Andarem de braço dado.
Se me persegues de dia, Se à noite sempre me deixas, Não digas que é fantasia A razão das minhas queixas.
Só andas enciumado Quando eu não te apareço, Mas se me tens a teu lado Nem ciúmes te mereço!
Anda o Sol na minha rua, Cada vez até mais tarde, A ver se pergunta à Lua A razão por que não arde.
Letra: David Mourão-Ferreira Música: José Fontes Rocha Intérprete: Joana Amendoeira (in CD “Amor Mais Perfeito: Tributo a José Fontes Rocha”, CNM, 2012) Primeira versão (com música de José Fontes Rocha): Amália Rodrigues (in EP “Ai Chico, Chico”, Columbia/VC, 1969; LP “Anda o Sol na Minha Rua” (compilação), Valentim de Carvalho, 1977; CD “Ai Chico, Chico” (compilação), col. Caravela, EMI-VC, 1996; 2CD “O Melhor de Amália”: vol. III – “Fado da Saudade”: CD 1, EMI-VC, 2003; CD “Amália Canta David”, Edições Edições Valentim de Carvalho/iPlay, 2011) Versão original (com música de Joaquim Campos): Mercês da Cunha Rego (in EP “Mercês da Cunha Rego (Fado dos Ninhos)”, Áquila, 1968; CD “Mercês da Cunha Rego [e] Teresa Siqueira”, col. Fados do Fado, vol. 49, Movieplay, 1998)
David Mourão-Ferreira
Antes que o Inverno chegue
[ Canto Tardio ]
Antes que o Inverno chegue volto a ser cigarra. Canto. Da laboriosa agonia me liberto e exalto. Canto sem cessar o tempo temendo e saboreando o tempo, galo da aurora que não tem tempo de acordar dormindo De celeiro vazio, canto, surdo aos lobos e aos ratos que esgadanham o restolho. Canto no Outono, que é oiro velho e um rosto rugoso e macio. Canto só porque é tarde para o canto e a cantar adio o que tarde veio. Cantando abro-me às formigas e ofereço-lhes o indigesto banquete para que a morrer cantando me devorem vivo.
Fernando Namora
Poema: Fernando Namora (in “Marketing”, Mem Martins: Publicações Europa-América, 1969, Lisboa: Círculo de Leitores, 1997 – p. 99) Música: Francisco Ceia Intérprete: Francisco Ceia (in CD “Sandálias de Vento”, Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)
Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
[ Poema Destinado a Haver Domingo ]
Bastam-me as cinco pontas de uma estrela E a cor de um navio em movimento. E como ave, ficar parada a vê-la. E como flor, qualquer odor no vento.
Basta-me a lua ter aqui deixado Um luminoso fio de cabelo Para levar o céu todo enrolado Na discreta ambição do meu novelo.
Só há espigas a crescer comigo Numa seara p’ra passear a pé Essa distância achada p’lo trigo Que me dá só o pão daquilo que é.
Deixem ao dia a cama num domingo Para deitar um lírio que lhe sobre. E a tarde cor-de-rosa num flamingo Seja o tecto da casa que me cobre.
Baste o que o tempo traz na sua anilha Como uma rosa traz Abril no seio. E que o mar dê o fruto duma ilha Onde o Amor por fim tenha recreio.
Só há espigas a crescer comigo Numa seara p’ra passear a pé Essa distância achada p’lo trigo Que me dá só o pão daquilo que é.
Daquilo que é. Daquilo que é. Daquilo que é.
Poema: Natália Correia (ligeiramente adaptado) Música: Aníbal Raposo Intérprete: Musica Nostra* (in CD “Cantos da Terra”, Açor/Emiliano Toste, 2009) Versão original: Aníbal Raposo (in CD “Maré Cheia”, MM Music, 1999)
POEMA DESTINADO A HAVER DOMINGO
(Natália Correia, in “Passaporte”, Lisboa: Edição da autora, 1958; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 205; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 153-154)
Bastam-me as cinco pontas duma estrela E a cor dum navio em movimento. E como ave, ficar parada a vê-la. E como flor, qualquer odor no vento.
Basta-me a lua ter aqui deixado Um luminoso fio do cabelo Para levar o céu todo enrolado Na discreta ambição do meu novelo.
Só há espigas a crescer comigo Numa seara para passear a pé Esta distância achada pelo trigo Que me dá só o pão daquilo que é.
Deixem ao dia a cama dum domingo Para deitar um lírio que lhe sobre. E a tarde cor-de-rosa num flamingo Seja o tecto da casa que me cobre.
Baste o que o tempo traz na sua anilha Como uma rosa traz Abril no seio. E que o mar dê o fruto duma ilha Onde o Amor por fim tenha recreio.
Bóiam leves, desatentos
[ Vestígios ]
Bóiam leves, desatentos, Meus pensamentos de mágoa Como, no sono dos ventos, As algas, cabelos lentos Do corpo morto das águas.
À tona d’águas paradas, Bóiam como folhas mortas. São coisas pedindo nadas, São pós que dançam nas portas Das casas abandonadas.
Sono de ser, sem remédio, Vestígio do que não foi, Leve mágoa, breve tédio, Não sei se pára, se flui; Não sei se existe ou se dói.
Poema: Fernando Pessoa (adaptado) Música: Joaquim Campos (Fado Tango) Intérprete: Tereza Tarouca (in LP “Fado e Folclore”, RCA Victor, 1970)
Bóiam leves, desatentos
(Fernando Pessoa, 4-8-1930, “Poesias de Fernando Pessoa”, col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. I, Lisboa: Edições Ática, 1942, 15.ª edição, 1995 – p. 120-121)
Bóiam leves, desatentos, Meus pensamentos de mágoa Como, no sono dos ventos, As algas, cabelos lentos Do corpo morto das águas.
Bóiam como folhas mortas À tona de águas paradas. São coisas vestindo nadas, Pós remoinhando nas portas Das casas abandonadas.
Sono de ser, sem remédio, Vestígio do que não foi, Leve mágoa, breve tédio, Não sei se pára, se flui; Não sei se existe ou se dói.
Dia Não
De paisagens mentirosas De luar e alvoradas De perfumes e de rosas De vertigens disfarçadas
Que o poema se desnude De tais roupas emprestadas Seja seco, seja rude Como pedras calcinadas
Que não fale em coração Nem de coisas delicadas Que diga não quando não Que não finja mascaradas
De vergonha se recolha Se as faces tiver molhadas Para seus gritos escolha As orelhas mais tapadas
E quando falar de mim Em palavras amargadas Que o poema seja assim Portas e ruas fechadas
Ah! que saudades do sim Nestas quadras desoladas!
Poema: José Saramago (in “Os Poemas Possíveis”, Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 24-25) Música: Luís Cília Intérprete: Luís Cília (in LP “La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1”, Moshé-Naïm, 1967; CD “La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours”, EMEN, 1996)
Versão de Manuel Freire
Poema: José Saramago (in “Os Poemas Possíveis”, Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 24-25) Música: Luís Cília Intérprete: Manuel Freire (in LP “Devolta”, Diapasão/Lamiré, 1978)
José Saramago, escritor e poeta
Do cardo que carda a gente
[ Cantilena ]
Do cardo que carda a gente nele se vê a roupa pouca corpo tosco tosca terra nele se escuta a voz ausente
Da água que fura a pedra vão lamento gasto tempo dura água que vai dentro do mais oculto da serra
Da saliva que o mar bebe sonho leve ondas tontas luas ocas que nos seguem na palidez das lucernas
Do povo que pesa os ares asas vagas bater de asas sono ébrio que braveja no crepitar das miragens
Na mão que enxuga a dor morre a ira cansa a fera da semente que diz não iça a torre seca a hera
Povo povo quem te chama tem a espora no dizer cada quimera esvaída no deserto vai morrer
Poema: Fernando Namora (in “Nome para uma Casa”, Venda Nova – Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 165-166) Música: Francisco Ceia Intérprete: Francisco Ceia (in CD “Sandálias de Vento”, Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)
Dolente
[ Música na Praia ]
Dolente indolente no mar indo no mar vindo na espuma se abrindo espreguiçada dolente toada brasileira que dorme desperta indo e vindo vindo e indo que acorda sonhando dormindo gemendo espreguiçada na areia melopeia brasileira voz quente na praia ensonada no mar bocejando voz quente quebrando quebrando cansada de ir morrendo mas tão viva sendo na praia extasiada
Poema: Fernando Namora (in “Nome para uma Casa”, Venda Nova – Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 154-155) Música: Francisco Ceia Intérprete: Francisco Ceia* (in CD “Sandálias de Vento”, Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)
Dos meus poetas
[ Aos Meus Poetas ]
Dos meus poetas recebo a alma em cada palavra.
Suspenso, o vocábulo espera; a respiração trémula solta um ciciar inseguro anunciando o mistério da melodia.
Dos meus poetas recebo a alma em cada palavra.
Música, alimento de música (os meus poetas) atingem em cheio o que de mais oculto cegamente procuro numa íntima busca…
Música, alimento de música (os meus poetas) atingem em cheio o que de mais oculto cegamente procuro numa íntima busca deliciosamente eterna…
Poema e música: Janita Salomé Intérprete: Janita Salomé (ao vivo no Estúdio 3 da Rádio e Televisão de Portugal, Lisboa) Versão original: Janita Salomé com Catarina Molder (in CD “Valsa dos Poetas”, Cantar ao Sol/Ponto Zurca, 2018)
Eis a que tudo deu
[ Mariana ]
Poema: Manuel Alegre Música: João Braga Voz: Maria Ana Bobone
Esta gente
Esta gente cujo rosto Às vezes luminoso E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos Ora me lembra reis
Faz renascer meu gosto De luta e de combate Contra o abutre e a cobra O porco e o milhafre
Pois a gente que tem O rosto desenhado Por paciência e fome É a gente em quem Um país ocupado Escreve o seu nome
E em frente desta gente Ignorada e pisada Como a pedra do chão E mais do que a pedra Humilhada e calcada
Meu canto se renova E recomeço a busca Dum país liberto Duma vida limpa E dum tempo justo
Esta gente cujo rosto Às vezes luminoso E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos Ora me lembra reis
Faz renascer meu gosto De luta e de combate Contra o abutre e a cobra O porco e o milhafre
Pois a gente que tem O rosto desenhado Por paciência e fome É a gente em quem Um país ocupado Escreve o seu nome
Pois a gente que tem O rosto desenhado Por paciência e fome É a gente em quem Um país ocupado Escreve o seu nome
Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (adaptado) Música: Manuel Lima Brummon Intérprete: Tereza Tarouca (in LP “Portugal Triste”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD “Tereza Tarouca”, col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)
Sophia de Mello Breyner
Esta gente
(Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Geografia”: II – “Procelária”, Lisboa: Edições Ática, 1967; “Obra Poética”, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015 – p. 508)
Esta gente cujo rosto Às vezes luminoso E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos Ora me lembra reis
Faz renascer meu gosto De luta e de combate Contra o abutre e a cobra O porco e o milhafre
Pois a gente que tem O rosto desenhado Por paciência e fome É a gente em quem Um país ocupado Escreve o seu nome
E em frente desta gente Ignorada e pisada Como a pedra do chão E mais do que a pedra Humilhada e calcada
Meu canto se renova E recomeço a busca Dum país liberto Duma vida limpa E dum tempo justo
Homem que vês humanas desventuras
[ Soneto XIV ]
Homem que vês humanas desventuras, Que te prendes à vida e te enamoras, Que tudo sabes e que tudo ignoras, Vencido herói de todas as loucuras;
Que te debruças pálido nas horas Das tuas infinitas amarguras — E na ambição das coisas mais impuras És grande simplesmente quando choras;
Que prometes cumprir e que te esqueces, Que te dás à virtude e ao pecado, Que te exaltas e cantas e aborreces,
Arquitecto do sonho e da ilusão, Ridículo fantoche articulado — Eu sou teu camarada e teu irmão. [bis]
Poema: António Botto (com o primeiro verso modificado) Música: Fernando Guerra Arranjo e orquestração: Jorge Costa Pinto Intérprete: Carlos do Carmo* (in LP “Carlos do Carmo”, Tecla, 1972; LP “Canoas do Tejo”, Edisom, 1984, reed. Movieplay, 1992, 1998, Universal Music, Série ’50 Anos’, 2013)
António Botto
Horizonte
[ Estio ]
Horizonte todo de roda caiado de sol. Ao meio do cerro gretado esguia cabeça de cobra olha assobios de lume sobre espigas amarelas… (…Campaniços degredados na vastidão das searas sonham bilhas de água fria!…)
Poema: Manuel da Fonseca (in “Planície”, Coimbra: Novo cancioneiro, 1941; “Poemas Completos”, Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958; “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 3.ª edição, Lisboa: Portugália Editora, 1969 – p. 97; “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 5.ª edição, Lisboa: Forja, 1975 – p. 108; “Obra Poética”, pref. Mário Dionísio, Lisboa: Editorial Caminho, 1984 – p. 113) Música: Paulo Ribeiro Intérprete: Fernando Pardal (in CD “O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis”, de Paulo Ribeiro, Açor/Emiliano Toste, 2017)
Já Bocage não és
[ Bocage ]
Já Bocage não és, nem podes ser, a alma do que foste é um soneto português até no jeito de sofrer transformando a mágoa em doce afecto.
Animaste as tertúlias lisboetas com as rimas do ciúme mitigado engrandecendo a fama dos poetas à custa da tristeza do teu fado.
Sadino, alfacinha e do mundo, poeta do assombro de uma escrita que levou o desespero até ao fundo.
Já Bocage não és, nem podes ser, a alma do que foste é um soneto português até no jeito de sofrer transformando a mágoa em doce afecto.
Sadino, alfacinha e do mundo, poeta do assombro de uma escrita que levou o desespero até ao fundo.
Bocage deste sonho que se agita revelando o que tem de mais profundo por saber que só alma é infinita.
Poema: José Jorge Letria Música: Janita Salomé Intérprete: Janita Salomé (ao vivo no Estúdio 3 da Rádio e Televisão de Portugal, Lisboa) Versão original: Janita Salomé (in CD “Valsa dos Poetas”, Cantar ao Sol/Ponto Zurca, 2018)
Meu pai tinha sandálias de vento
[ Um Segredo ]
Meu pai tinha sandálias de vento só agora o sei. Tinha sandálias de vento e isto nem sequer é uma maneira de dizer andava por longe os olhos fugidos a expressão em nenhures com as miraculosas instantaneidades que nos fazem estar em todos os sítios.
Andava por longe meu pai sonhando errando vadiando mas toda a sua ausência era o malogro de o ser só agora o sei. Andava por longe ou sentíamo-lo longe vem dar no mesmo e no entanto víamo-lo sempre ali plantado de imobilidade absorta no cepo de carvalho raiado de negro a que o caruncho comera o miolo como as lagartas esvaziam as maçãs estranhamente quieto murcho resignado no seu estranho vadiar os olhos aguados numa tristeza que hoje me dói como um apelo perdido uma coragem abortada. Ausência era tão de mágoa urdida tão de fracasso tingida ausência era altiva e desolada altiva e triste sobretudo triste tristeza sim tristeza solene e irremediada só agora o sei.
Às vezes parecia-me uma águia que atravessa os ares sulco azul que nada distingue do azul onde foi sulcado e por isso nem é águia nem ao menos o que do seu voo resta para que o sonho se faça real. Meu pai era um homem com as nostalgias do que nunca acontecera e isso minava-o víscera a víscera como as tais lagartas esfarelam as maçãs e então sei-o agora calçava as ágeis sandálias miraculosamente leves soltas imaginosas indo de acaso em acaso de astro em astro eram de vento as suas sandálias fabulosas levando-o aonde mais ninguém poderia chegar.
Os outros não o sabiam nem eu o sabia só o víamos sentado no cepo velho raiado de negro como uma estrela fossilizada por isso tudo era para ele mais irremediável e triste sei-o agora tarde de mais tarde de mais é uma dor de remorso que me consome víscera a víscera como as tais lagartas esfarelam as maçãs. Mas de qualquer maneira existe um segredo de que ambos partilhamos ciosamente avaramente indecifradamente como os astutos conspiradores que fazem do seu segredo um mágico tesouro inviolado.
Um segredo simples: o que sentiste pai sinto-o eu agora por ambos sinto-o por ti sinto-o por mim.
Ainda que por ele devorados.
Poema: Fernando Namora (in “Nome para uma Casa”, Venda Nova – Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 16-18) Música: Francisco Ceia Intérprete: Francisco Ceia (in CD “Sandálias de Vento”, Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)
Não Sei Quantas Almas Tenho
Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem achei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê, Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo, Torno-me eles e não eu. Cada meu sonho ou desejo É do que nasce e não meu. Sou minha própria paisagem, Assisto à minha passagem, Diverso, móbil e só, Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo Como páginas, meu ser O que segue prevendo, O que passou a esquecer. Noto à margem do que li O que julguei que senti. Noto à margem do que li O que julguei que senti. Releio e digo: «Fui eu?» Deus sabe, porque o escreveu.
Poema: Fernando Pessoa (ligeiramente adaptado) Música e arranjo: Paulo Loureiro Intérprete: Ana Laíns (in CD “Fernando Pessoa: O Fado e a Alma Portuguesa”, Seven Muses/Warner Music, 2013; CD “Portucalis”, Ana Laíns/Seven Muses, 2017) Versão original: Ana Laíns (in Livro/CD “Os Mensageiros: Antologia de Fernando Pessoa”, Seven Muses, 2012)
Os Mensageiros, Antologia de Fernando Pessoa
Não sei quantas almas tenho
Fernando Pessoa, in “Novas Poesias Inéditas de Fernando Pessoa”, direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno, col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. X, Lisboa: Edições Ática, 1973, 4.ª edição, Lisboa: Edições Ática, 1993 – p. 48
Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem achei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê, Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo, Torno-me eles e não eu. Cada meu sonho ou desejo É do que nasce e não meu. Sou minha própria paisagem, Assisto à minha passagem, Diverso, móbil e só, Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo Como páginas, meu ser O que segue não prevendo, O que passou a esquecer. Noto à margem do que li O que julguei que senti. Releio e digo: «Fui eu?» Deus sabe, porque o escreveu.
24-8-1930
No amor também as palavras
[ Também as Palavras ]
No amor também as palavras são necessárias. Os gestos talvez não bastem. Nem a chuva lá fora enquanto o amor se inflama. Nem o sussurro nas árvores quando os corpos serenam. Nem a melopeia das águas quando as bocas se esmagam. Nem o fulgor dos olhos quando a paixão se amotina.
Penso no amor e logo invento palavras e logo as palavras se põem ébrias. Penso no amor e logo as palavras se soltam como fogosas aves a que não pergunto o rumo.
Penso no amor e logo preciso que as palavras digam que amor é este em que penso e em que grito.
Poema: Fernando Namora (in “Nome para uma Casa”, Venda Nova – Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 79) Música: Francisco Ceia Intérprete: Francisco Ceia* (in CD “Sandálias de Vento”, Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)
O coração de poeta
[ Canção de Embalo para as Virgens dos Portos ]
O coração de poeta é oiro estilhaçado que vai semeando no seu caminho. Oiro caído é oiro perdido que o poeta não volta para o regar. Vão acenar-lhe da largada como se ele partisse para o cabo do mundo, que o horizonte é largo e o mar é fundo e ele não tornará. Ondas vencidas são ondas perdidas que o poeta só tem saudades do que virá.
Em cada praia chegada há luzes festivas na areia: a voz de mel do poeta triste é canto feiticeiro de sereia. Canta, canta, que a tua voz magoada tenha a tristeza do bem perdido dos sonhos azuis que o embalaram. Ai! que dos olhos da barca se vêem estrelas a brilhar. Canta, canta, para o tesoiro perdido que a esperança lá irá naufragar.
Nem a noite nem o dia o trarão consigo: o horizonte é largo e o mar é fundo, há outras paragens, no cabo do mundo, para ele descobrir e enfeitiçar.
Poema: Fernando Namora (in “Mar de Sargaços, Coimbra: Atlântida, 1939; “As Frias Madrugadas”, Lisboa: Arcádia, 1959, Lisboa: Círculo de Leitores, 1997 – p. 132-133) Música: Francisco Ceia Intérprete: Francisco Ceia (in CD “Sandálias de Vento”, Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)
Pescador da barca bela
[ Barca Bela ]
Pescador da barca bela, Onde vais pescar com ela, Que é tão bela, Oh pescador?!
Pescador da barca bela, Onde vais pescar com ela, Que é tão bela, Oh pescador?!
Não vês que a última estrela No céu nublado se vela? Colhe a vela, Oh pescador!
Deita o lanço com cautela, Que a sereia canta bela… Mas cautela, Oh pescador!
Deita o lanço com cautela, Que a sereia canta bela… Mas cautela, Oh pescador!
Não se enrede a rede nela, Que perdido é remo e vela Só de vê-la, Oh pescador.
Pescador da barca bela, Inda é tempo, foge dela, Foge dela Oh pescador!
Poema: Almeida Garrett (ligeiramente adaptado) [texto original >> abaixo] Música: Teresa Silva Carvalho Arranjo: Thilo Krasmann Intérprete: Teresa Silva Carvalho* (in EP “Adágio”, Movieplay, 1971; CD “Teresa Silva Carvalho”, Col. O Melhor dos Melhores, vol. 35, Movieplay, 1994; CD “Teresa Silva Carvalho”, Col. Clássicos da Renascença, vol. 63, Movieplay, 2000; CD “Poesia Encantada”, vol. 1, EMI-VC, 2002)
Quando chegaste enfim
[ Tarde Demais ]
Poema: Florbela Espanca Música: Loic da Silva Intérprete: Sandra Correia
Quem cantará
[ Regresso ]
Quem cantará vosso regresso morto? Que lágrimas, que grito hão-de dizer A desilusão e o peso em vosso corpo?
Portugal tão cansado de morrer Ininterruptamente e devagar Enquanto o vento vivo vem do mar.
Quem são os vencedores desta agonia? Quem os senhores sombrios desta noite Onde se perde, morre e se desvia A antiga linha clara e criadora Do nosso rosto voltado para o dia?
Quem cantará vosso regresso morto? Que lágrimas, que grito hão-de dizer A desilusão e o peso em vosso corpo?
Portugal tão cansado de morrer Ininterruptamente e devagar Enquanto o vento vivo vem do mar.
Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (adaptado) Música: Manuel Lima Brummon Intérprete: Tereza Tarouca* (in LP “Portugal Triste”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD “Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006)
Tereza Tarouca, Álbum de Recordações
Regresso
Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Mar Novo”, Lisboa: Guimarães Editores, 1958; “Obra Poética”, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015 – p. 394-395
Quem cantará vosso regresso morto Que lágrimas, que grito hão-de dizer A desilusão e o peso em vosso corpo?
Portugal tão cansado de morrer Ininterruptamente e devagar Enquanto o vento vivo vem do mar
Quem são os vencedores desta agonia? Quem os senhores sombrios desta noite Onde se perde morre e se desvia A antiga linha clara e criadora Do nosso rosto voltado para o dia?
Resina
[ Líricas ]
Resina urze vento: a infância. Nas narinas o suor dos gados no tapete de estrume das quelhas: a distância. Nuvem inconstante dependurada do lamento dos sinos: a ausência. Casco e pedras na marcha ensonada dos bois longínquos colinas brandas na pura luz saturada de moitas diluvianas inconstante nuvem no abandono de um momento: oh paisagem dentro dos olhos vagabundos oh paisagem esbatida na sépia dos retratos de antigamente.
Poema: Fernando Namora (in “Nome para uma Casa”, Venda Nova – Amadora: Livraria Bertrand, 1984 – p. 13-14, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 11-12) Música: Francisco Ceia Intérprete: Francisco Ceia (in CD “Sandálias de Vento”, Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)
Fernando Namora
Se me Levam Águas
MOTE ALHEIO
Se me levam águas, nos olhos as levo.
VOLTAS
Se de saudade morrerei ou não, meus olhos dirão de mim a verdade. Por eles me atrevo a lançar as águas que mostrem as mágoas que nesta alma levo.
As águas que em vão me fazem chorar, se elas são do mar estas de amor são. Por elas relevo todas minhas mágoas; que, se força de águas me leva, eu as levo.
Todas me entristecem, todas são salgadas; porém as choradas doces me parecem. Correi, doces águas, que, se em vós me enlevo, não doem as mágoas que no peito levo.
Poema (vilancete em redondilha menor): Luís de Camões (in “Rimas”, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; “Obras de Luís de Camões”, Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 772-773) Música: Luís Cília Intérprete: Luís Cília (in LP “La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 1”, Moshé-Naïm, 1967; CD “La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours”, EMEN, 1996)
CANÇÃO X
Poema de Luís de Camões (in “Rimas”, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; “Rimas”, texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953, Coimbra: Livraria Almedina, 2005) Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD “Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra”, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)
Vinde cá, meu tão certo secretário dos queixumes que sempre ando fazendo, papel, com que a pena desafogo! As sem-razões digamos que, vivendo, me faz o inexorável e contrário Destino, surdo a lágrimas e a rogo. Deitemos água pouca em muito fogo; acenda-se com gritos um tormento que a todas as memórias seja estranho. Digamos mal tamanho a Deus, ao mundo, à gente e, enfim, ao vento, a quem já muitas vezes o contei, tanto debalde como o conto agora; mas, já que para errores fui nacido, vir este a ser um deles não duvido. Que, pois já de acertar estou tão fora, não me culpem também, se nisto errei. Sequer este refúgio só terei: falar e errar sem culpa, livremente. Triste quem de tão pouco está contente!
Já me desenganei que de queixar-me não se alcança remédio; mas quem pena, forçado lhe é gritar se a dor é grande. Gritarei; mas é débil e pequena a voz para poder desabafar-me, porque nem com gritar a dor se abrande. Quem me dará sequer que fora mande lágrimas e suspiros infinitos iguais ao mal que dentro n’alma mora? Mas quem pode algũa hora medir o mal com lágrimas ou gritos? Enfim, direi aquilo que me ensinam a ira, a mágoa, e delas a lembrança, que é outra dor por si, mais dura e firme. Chegai, desesperados, para ouvir-me, e fujam os que vivem de esperança ou aqueles que nela se imaginam, porque Amor e Fortuna determinam de lhe darem poder para entenderem, à medida dos males que tiverem.
Quando vim da materna sepultura de novo ao mundo, logo me fizeram Estrelas infelices obrigado; com ter livre alvedrio, mo não deram, que eu conheci mil vezes na ventura o melhor, e o pior segui, forçado. E, para que o tormento conformado me dessem com a idade, quando abrisse inda menino, os olhos, brandamente, mandam que, diligente, um Menino sem olhos me ferisse. As lágrimas da infância já manavam com ũa saudade namorada: o som dos gritos, que no berço dava, já como de suspiros me soava. Co a idade e Fado estava concertado; porque quando, por caso, me embalavam, se versos de Amor tristes me cantavam, logo me adormecia a natureza, que tão conforme estava co a tristeza.
Foi minha ama ũa fera, que o destino não quis que mulher fosse a que tivesse tal nome para mim; nem a haveria. Assi criado fui, porque bebesse o veneno amoroso, de menino, que na maior idade beberia, e, por costume, não me mataria. Logo então vi a imagem e semelhança daquela humana fera tão fermosa, suave e venenosa, que me criou aos peitos da esperança; de que eu vi despois o original, que de todos os grandes desatinos faz a culpa soberba e soberana. Parece-me que tinha forma humana, mas cintilava espíritos divinos. Um meneio e presença tinha tal que se vangloriava todo o mal na vista dela; a sombra, co a viveza, excedia o poder da Natureza.
Não sei como sabia estar roubando cos raios das entranhas, que fugiam por ela, pelos olhos sutilmente! Pouco a pouco invencíveis me saíam, bem como do véu húmido exalando está o sutil humor o Sol ardente. Enfim, o gesto puro e transparente, para quem fica baixo e sem valia deste nome de belo e de fermoso; o doce e piadoso mover de olhos, que as almas suspendia foram as ervas mágicas, que o Céu me fez beber; as quais, por longos anos, noutro ser me tiveram transformado, e tão contente de me ver trocado que as mágoas enganava cos enganos; e diante dos olhos punha o véu que me encobrisse o mal, que assi creceu, como quem com afagos se criava daquele para quem crecido estava.
Que género tão novo de tormento teve Amor, que não fosse, não somente provado em mim, mas todo executado? Implacáveis durezas, que o fervente desejo, que dá força ao pensamento, tinham de seu propósito abalado, e de se ver, corrido e injuriado; aqui, sombras fantásticas, trazidas de algũas temerárias esperanças; as bem-aventuranças nelas também pintadas e fingidas; mas a dor do desprezo recebido, que a fantasia me desatinava, estes enganos punha em desconcerto; aqui, o adevinhar e o ter por certo que era verdade quanto adevinhava, e logo o desdizer-se, de corrido; dar às cousas que via outro sentido, e para tudo, enfim, buscar razões; mas eram muitas mais as sem-razões.
Pois quem pode pintar a vida ausente, com um descontentar-me quanto via, e aquele estar tão longe donde estava; o falar, sem saber o que dezia; andar, sem ver por onde, e juntamente suspirar sem saber que suspirava? Pois quando aquele mal me atormentava e aquela dor que das Tartáreas águas saiu ao mundo, e mais que todas dói, que tantas vezes soe duras iras tornar em brandas mágoas; agora, co furor da mágoa irado, querer e não querer deixar de amar, e mudar noutra parte por vingança o desejo privado de esperança, que tão mal se podia já mudar; agora, a saudade do passado tormento, puro, doce e magoado, fazia converter estes furores em magoadas lágrimas de amores.
Que desculpas comigo que buscava quando o suave Amor me não sofria culpa na cousa amada, e tão amada! Enfim, eram remédios que fingia o medo do tormento que ensinava a vida a sustentar-se, de enganada. Nisto ũa parte dela foi passada, na qual se tive algum contentamento breve, imperfeito, tímido, indecente, não foi senão semente de longo e amaríssimo tormento. Este curso contino de tristeza, estes passos tão vãmente espalhados, me foram apagando o ardente gosto que tão de siso n’alma tinha posto, daqueles pensamentos namorados em que eu criei a tenra natureza, que do longo costume da aspereza, contra quem força humana não resiste, se converteu no gosto de ser triste.
Dest’arte a vida noutra fui trocando; eu não, mas o destino fero, irado, que eu ainda assi por outra não trocara. Fez-me deixar o pátrio ninho amado, passando o longo mar, que ameaçando tantas vezes me esteve a vida cara. Agora, exprimentando a fúria rara de Marte, que cos olhos quis que logo visse e tocasse o acerbo fruto seu (e neste escudo meu a pintura verão do infesto fogo); agora, peregrino vago e errante, vendo nações, linguagens e costumes, Céus vários, qualidades diferentes, só por seguir com passos diligentes a ti, Fortuna injusta, que consumes as idades, levando-lhe diante ũa esperança em vista de diamante, mas quando das mãos cai se conhece que é frágil vidro aquilo que aparece.
A piadade humana me faltava, a gente amiga já contrária via, no primeiro perigo; e, no segundo, terra em que pôr os pés me falecia, ar para respirar se me negava, e faltavam-me, enfim, o tempo e o mundo. Que segredo tão árduo e tão profundo: nacer para viver, e para a vida faltar-me quanto o mundo tem para ela! E não poder perdê-la, estando tantas vezes já perdida! Enfim, não houve transe de fortuna, nem perigos, nem casos duvidosos, injustiças daqueles, que o confuso regimento do mundo, antigo abuso, faz sobre os outros homens poderosos, que eu não passasse, atado à grã coluna do sofrimento meu, que a importuna perseguição de males em pedaços mil vezes fez, à força de seus braços.
Não conto tanto males como aquele que, despois da tormenta procelosa, os casos dela conta em porto ledo; que inda agora a Fortuna flutuosa a tamanhas misérias me compele, que de dar um só passo tenho medo. Já de mal que me venha não me arredo, nem bem que me faleça já pretendo, que para mim não vale astúcia humana; de força soberana, da Providência, enfim, divina, pendo. Isto que cuido e vejo, às vezes tomo para consolação de tantos danos. Mas a fraqueza humana, quando lança os olhos no que corre, e não alcança senão memória dos passados anos, as águas que então bebo, e o pão que como, lágrimas tristes são, que eu nunca domo senão com fabricar na fantasia fantásticas pinturas de alegria.
Que se possível fosse, que tornasse o tempo para trás, como a memória, pelos vestígios da primeira idade, e de novo tecendo a antiga história de meus doces errores, me levasse pelas flores que vi da mocidade; e a lembrança da longa saudade então fosse maior contentamento, vendo a conversação leda e suave, onde ũa e outra chave esteve de meu novo pensamento, os campos, as passadas, os sinais, a fermosura, os olhos, a brandura, a graça, a mansidão, a cortesia, a sincera amizade, que desvia toda a baixa tenção, terrena, impura, como a qual outra algũa não vi mais… Ah! vãs memórias, onde me levais o fraco coração, que ainda não posso domar este tão vão desejo vosso?
Nõ mais, Canção, nõ mais; que irei falando, sem o sentir, mil anos. E se acaso te culparem de larga e de pesada, não pode ser (lhe dize) limitada a água do mar em tão pequeno vaso. Nem eu delicadezas vou cantando co gosto do louvor, mas explicando puras verdades já por mim passadas. Oxalá foram fábulas sonhadas!
Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel, em 1995 Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa
Se olhas a distância
[ Se o Coração Não Cansa ]
Se olhas a distância talvez julgues que é tarde e que a rosa se deixou abrir até ser calafrio e que tudo é o vazio sem números nas portas onde pernoitar de tanta viagem.
Olharás a neve que apagou as horas e os passos e a palidez dos espelhos devorando o silêncio e o crescer da relva na memória dos longes coados. A sombra da cinza é orvalho e nele os remos não avançam no vento fatigado. Resignado te olhas fundindo os portos e as lendas onde a infância gela na remota espera de ser desatino. Mas não de todas as vezes diz não para que o tempo se desprenda nas velas magras.
Se o coração não cansa nada é tarde nada.
Poema: Fernando Namora (in “Nome para uma Casa”, Venda Nova – Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 106-107) Música: Francisco Ceia Intérprete: Francisco Ceia (in CD “Sandálias de Vento”, Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)
Sentada no chão quente
[ Casa de Cacela ]
Sentada no chão quente Pus um colar de cheiros ao pescoço Melão maduro Uva a fermentar Entranhada nas tábuas dos caixotes Figos a cair maduros das figueiras Revendo docemente Leite das folhas arrancadas Pôr no dedo uma argola De sol mágico regresso Mas não a essa infância De que fugi correndo Escondendo a cara com o braço Figos a cair maduros das figueiras O galo da avó Atirava-se aos olhos dos passantes De quê de quem de quê de quem De quê me sinto regressar?
Sentada no chão quente Pus um colar de cheiros ao pescoço Melão maduro Uva a fermentar Entranhada nas tábuas dos caixotes Figos a cair maduros das figueiras Revendo docemente Leite das folhas arrancadas
De quê de quem de quê de quem De quem me sinto regressar? A esta terra sim Decerto mas foi antes Das casas e das pessoas Que ela me deu de mamar Figos a cair maduros das figueiras O galo da avó Atirava-se aos olhos dos passantes
Seus sovacos Seu púbis Rescendem a uvas pretas Seus sucos Leite branco de figos lampos Na cesta de cana Sento-me nos ladrilhos frescos do chão Respiro o fresco da cal Abro a porta: Cai-me nos braços o bafo de um Verão violento Empurro-o para fora Fecho a porta Saboreio Sorrindo na sombra A sua ausência
De quê de quem de quê de quem De quê me sinto regressar? De quê de quem de quê de quem De quem me sinto regressar? De quê de quem de quê de quem De quê de quem me sinto regressar? De quê de quem de quê de quem De quê de quem me sinto regressar?
Poema: Teresa Rita Lopes Música: Rui Moura Intérpretes: Rui Moura & Teresa Rita Lopes (in CD “E a Fala se Fez Canto”, IELT – Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, 2005)
Sorrindo interiormente
[ Porque o Melhor ]
Sorrindo interiormente, co’as pálpebras cerradas, às águas da torrente já tão longe passadas.
Rixas, tumultos, lutas, não me fazerem dano… alheio às vãs labutas, às estações do ano.
Passar o estio, o outono, a poda, a cava e a redra, e eu dormindo um sono debaixo duma pedra.
Porque o melhor, enfim, é não ouvir. Porque o melhor é não ouvir nem ver, passarem sobre mim e nada me doer.
Melhor até se o acaso o leito me reserva no prado extenso e raso apenas sob a erva.
Ou no serrano mato, a brigas tão propício, onde o viver ingrato dispõe ao sacrifício.
Porque o melhor, enfim, é não ouvir. Porque o melhor é não ouvir nem ver, passarem sobre mim e nada me doer.
Roubos, assassinatos! horas jamais tranquilas, em brutos pugilatos fracturam-se as maxilas…
E eu sob a terra firme, compacta, recalcada, muito quietinho, a rir-me de não me doer nada.
Porque o melhor, enfim, é não ouvir. Porque o melhor é não ouvir nem ver, passarem sobre mim e nada me doer.
Porque o melhor, enfim, é não ouvir. Porque o melhor é não ouvir nem ver, passarem sobre mim e nada me doer.
Poema: Camilo Pessanha (excerto adaptado) Música: José Barros Arranjo: José Barros e Miguel Tapadas Intérprete: José Barros e Navegante Versão original: José Barros e Navegante (in CD “À’Baladiça”, Tradisom, 2018)
Tinhas a serena grandeza desse mar
[ Sophia ]
Tinhas a serena grandeza desse mar que em verso se tornava sinfonia, rumor de búzio e brancura de coral celebrando cada instante de alegria.
Tinhas da palavra a medida sempre exacta, a mais certa, a mais justa, a mais perfeita e eram de oiro e âmbar e de prata os versos que nasciam dessa colheita.
Tinhas a serena grandeza desse mar que em verso se tornava sinfonia, rumor de búzio e brancura de coral celebrando cada instante de alegria.
Tinhas da palavra a medida sempre exacta, a mais certa, a mais justa, a mais perfeita e eram de oiro e âmbar e de prata os versos que nasciam dessa colheita.
Tinhas a leveza da onda e da ave e a claridade matinal que anuncia em cada verso o timbre e a chave desse mistério chamado poesia.
Tinhas a altiva grandeza do que fica na memória do que somos e valemos e a ciência que do verbo faz a casa da beleza a que todos nos rendemos.
Tinhas a leveza da onda e da ave e a claridade matinal que anuncia em cada verso o timbre e a chave desse mistério chamado poesia.
Tinhas a altiva grandeza do que fica na memória do que somos e valemos e a ciência que do verbo faz a casa da beleza a que todos nos rendemos.
Tinhas a leveza da onda e da ave e a claridade matinal…
Poema: José Jorge Letria Música: Janita Salomé Intérprete: Janita Salomé (ao vivo no Estúdio 3 da Rádio e Televisão de Portugal, Lisboa) Versão original: Janita Salomé (in CD “Valsa dos Poetas”, Cantar ao Sol/Ponto Zurca, 2018)
Todo o amor que nos prendera
[ Primavera ]
Todo o amor que nos prendera, como se fora de cera, se quebrava e desfazia. Ai funesta Primavera, quem me dera, quem nos dera ter morrido nesse dia!
E condenaram-me a tanto: viver comigo o meu pranto, viver, viver… e sem ti! Vivendo sem, no entanto, eu me esquecer desse encanto que nesse dia perdi…
Pão duro da solidão é somente o que nos dão, o que nos dão a comer… Que importa que o coração diga que sim ou que não, se continua a viver?
Todo o amor que nos prendera se quebrara e desfizera, em pavor se convertia. Ninguém fale em Primavera! Quem me dera, quem nos dera ter morrido nesse dia!
Poema: David Mourão-Ferreira Música: Pedro Rodrigues Intérprete: Amália Rodrigues (1965, in CD “Segredo”, EMI-VC, 1997; CD “Amália canta David”, Edições Valentim de Carvalho/iPlay, 2011)
David Mourão-Ferreira
Um dia quebrarei todas as pontes
[ As Fontes ]
Um dia quebrarei todas as pontes Que ligam o meu ser, vivo e total, À agitação do mundo do irreal, E calma subirei até às fontes.
Irei até às fontes onde mora A plenitude e o límpido esplendor Que me foi prometido em cada hora, E na face incompleta do amor.
Irei beber a luz e o amanhecer, Irei beber a voz, a voz dessa promessa Que às vezes como um voo me atravessa, E nela cumprirei todo o meu ser.
Um dia quebrarei todas as pontes Que ligam o meu ser, vivo e total, À agitação do mundo do irreal, E calma subirei até às fontes.
Irei até às fontes onde mora A plenitude e o límpido esplendor Que me foi prometido em cada hora, E na face incompleta do amor.
Irei beber a luz e o amanhecer, Irei beber a voz, a voz dessa promessa Que às vezes como um voo me atravessa, E nela cumprirei todo o meu ser.
Irei beber a luz e o amanhecer… Um voo me atravessa, E nela cumprirei… E nela cumprirei… E nela cumprirei todo o meu ser.
Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (adaptado) Música e arranjo: Filipe Raposo Intérprete: Ana Laíns com Filipe Raposo (in CD “Portucalis”, Ana Laíns/Seven Muses, 2017)
As fontes
Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Poesia”, Coimbra: Edição da autora, 1944; “Obra Poética I”, Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – p. 60
Um dia quebrarei todas as pontes Que ligam o meu ser, vivo e total, À agitação do mundo do irreal, E calma subirei até às fontes.
Irei até às fontes onde mora A plenitude, o límpido esplendor Que me foi prometido em cada hora, E na face incompleta do amor.
Irei beber a luz e o amanhecer, Irei beber a voz dessa promessa Que às vezes como um voo me atravessa, E nela cumprirei todo o meu ser.
Vens como uma aparição
[ Aparição ]
Vens como uma aparição apenas vestida com a tua beleza dos teus gestos tombam as pétalas que acabaram de abrir e em mim escorrem como orvalho que o morno hálito fundiu
vens e entras em mim com a subtileza da nuvem que abraçou o sol e o bebe inteiro para o ter só seu ou como lança ardente que rasga de lava a paisagem amortecida
vens e ficas e incorporas-te até não haver mais do que uma súplica nem mais do que um fogo nem mais do que uns braços nem mais do que uma boca nem mais do que um olhar de pálpebras cerradas todo recolhido no que nele é júbilo e dor dor de ser breve sabendo-se embora infindável a vertigem transporta-nos como no poema da Ada Negri e deixa-nos num lugar que nem é presença nem ausência apenas o exacto lugar onde apenas cabe um corpo que instantes antes eram dois.
Uma folha tomba do plátano diz a Ada. És tu és tu que me levas pelos ares.
Poema: Fernando Namora (in “Nome para uma Casa”, Venda Nova – Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 104-105) Música: Francisco Ceia Intérprete: Francisco Ceia (in CD “Sandálias de Vento”, Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)
Camilo Pessanha, poeta, na canção portuguesa
Porque o melhor, enfim
(Camilo Pessanha, in “Clepsydra”, Lisboa: Edições Lusitania, 1920; “Clepsidra e Outros Poemas”, Org. João de Castro Osório, 9.ª edição, Lisboa: Editorial Nova Ática, 2003 – p. 76-78)
Porque o melhor, enfim, É não ouvir nem ver… Passarem sobre mim E nada me doer!
— Sorrindo interiormente, Co’as pálpebras cerradas, Às águas da torrente Já tão longe passadas. —
Rixas, tumultos, lutas, Não me fazem dano… Alheio às vãs labutas, Às estações do ano.
Passar o estio, o outono, A poda, a cava e a redra, E eu dormindo um sono Debaixo duma pedra.
Melhor até se o acaso O leito me reserva No prado extenso e raso Apenas sob a erva
Que Abril copioso ensope… E, esvelto, a intervalos Fustigue-me o galope De bandos de cavalos.
Ou no serrano mato, A brigas tão propício, Onde o viver ingrato Dispõe ao sacrifício
Das vidas, mortes duras Ruam pelas quebradas, Com choques de armaduras E tinidos de espadas…
Ou sob o piso, até, Infame e vil da rua, Onde a torva ralé Irrompe, tumultua.
Se estorce, vocifera, Selvagem nos conflitos, Com ímpetos de fera Nos olhos, saltos, gritos…
Roubos, assassinatos! Horas jamais tranquilas, Em brutos pugilatos Fracturam-se as maxilas…
E eu sob a terra firme, Compacta, recalcada, Muito quietinho. A rir-me De não me doer nada.
Part(Ida)
Vou para um outro mundo que não tenha fim ou uma barca a mais
Vou para um outro dia que não tenha sombra sou sabor a sol
Vou para um outro sonho que não tenha aves ou palmas de mãos
(PART)IDA – Lectio X [satb (ssaatb)] Música: Alfredo Teixeira Poema: Daniel Faria* Intérprete: Coro Ricercare Dir. Pedro Teixeira Solistas: Raquel Pedra, Ana Baptista
Festival Antena 2, 15 -02-2020, no Salão Nobre do Teatro Nacional de São Carlos
*Daniel Faria, Das madrugadas, in Poesia, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2009.
Daniel Faria, poeta
https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/05/poetas-cantados-camilo-pessanha.jpg400400António Ferreirahttps://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpgAntónio Ferreira2020-05-09 23:34:522025-06-18 11:55:19Canções com grandes poetas