Letras do cancioneiro tradicional, as canções, a cultura e o património, material ou imaterial, de todas as regiões do País, um projeto em desenvolvimento. Fontes principais: Lugar ao Sul e A Nossa Rádio.

Brites de Almeida, padeira de Aljubarrota

Brites de Almeida,
Mulher sem rumo nem rota,
Guerreira nas horas vagas,
Padeira de Aljubarrota.

Nasceu em Faro
De família pobrezinha
Mas a fama que ela tinha
Era de ser bicho raro.

Ao desamparo,
Gostava de andar à briga,
Dos homens era inimiga:
Varria-os à bordoada.

À cabeçada,
Era forte como um touro;
Tinha um coração de ouro,
Tão temida como amada.

Quando um soldado
Por ela se apaixonou,
Sincero se declarou:
Queria ser seu namorado.

Apaixonado,
Aceitou-lhe as condições:
Lutarem como leões
P’ra ver quem era mais forte;

Mas quis a sorte
Ser o mancebo o mais fraco;
Ela fez dele um cavaco
E o pobre entregou-se à morte.

Brites de Almeida,
Mulher sem rumo nem rota,
Guerreira nas horas vagas,
Padeira de Aljubarrota.

Conta um jogral
Que abalou para Castela,
Embarcou num barco à vela
Para fugir ao Tribunal;

Mas, sem aviso,
Vieram piratas mouros,
Levaram gente e tesouros,
Foi escrava de improviso;

Foi prisioneira,
Mas num gesto triunfal
Fugiu para Portugal,
Acostou à Ericeira;

E caminheira
Partiu sem rumo nem rota,
Foi parar a Aljubarrota,
Teve ofício de padeira.

Mesmo sem querer
Heroína dos enganos:
Foi guerreira sem saber,
Martírio dos castelhanos,

Nuestros hermanos
Levaram com a pá do forno
E partiram sem retorno
Da terra dos Lusitanos.

Brites de Almeida,
Mulher sem rumo nem rota,
Guerreira nas horas vagas,
Padeira de Aljubarrota.

Brites de Almeida,
Seja História ou seja lenda,
Revelou-se na contenda
Modelo de liberdade.

Fazia pão,
Broa de milho e bolos;
Não sabia marcar golos,
Não foi para o Panteão.

Letra: Carlos Guerreiro
Música: Carlos Guerreiro e Sebastião Antunes
Arranjo: Carlos Guerreiro
Intérprete: Gaiteiros de Lisboa
Versão original: Gaiteiros de Lisboa (in CD “Bestiário”, Uguru, 2019)

Brites de Almeida, padeira de Aljubarrota
Brites de Almeida, padeira de Aljubarrota
Águeda

Passar de Mão

Depois de uma recolha na Serra do Baixo Caramulo levada a cabo por um grupo de aguedenses, liderado por Américo Fernandes, efectuou-se um agradável convívio durante o qual o repentista José Carlos, da aldeia de Falgaroso, da paróquia de Belazaima do Chão, porém da freguesia de Castanheira do Vouga, acompanhado pelo fundo de um regador de onde os seus dedos grossos retiraram um delicado batuque fadista, cantou os seguintes versos:

Eu fui p’ra aqui convidado
P’ra cantar modas antigas,
Mas em troca das cantigas
Fui muito bem tratado:
Enfardei leitão assado;
Buer, também buí bem.
Já dizia a minha mãe:
«Filho, ocupa o teu lugar!
Se houver tolos a pagar,
Não gastes nem um vintém!»

É teoria acertada,
Aproveito a ocasião;
Se me chamarem lambão
Até nem me importo nada.
À troca da desgarrada
Já comi um bom jantar;
Mas não posso cá voltar,
Pois é essa a minha pena:
À conta da minha cena
Ninguém me volta a convidar.

Mas, como eu, estão cá tantos,
Não vieram fazer nada:
Encheram foi a malvada,
Beberam tintos e brancos;
Fora de casa são francos,
Comem até rebentar,
Engolem sem mastigar…
Ah, que grande sofreguidão!
Se lhes dá uma congestão,
Ninguém os pode salvar.

E estes senhores da Bairrada
Vieram muito enganados:
Pagam a conta, coitados,
E não aprenderam nada;
Levam música gravada
Que não dá p’ra aproveitar,
Só se for p’ra recordar
O malogro deste dia,
É p’ra perderem a mania
De quererem coleccionar.

Letra: Tradicional (Falgarosa, Castanheira do Vouga, Águeda, Beira Litoral)
Informante: José Carlos
Recolha: Américo Fernandes (in “Cancioneiro do Concelho de Águeda”, Org. Amílcar da Fonseca Morais, Câmara Municipal de Águeda, 2011 – p. 60-61)
Música: Tradicional (Beira Litoral)
Arranjo: Luís Fernandes
Intérprete: Toques do Caramulo (in CD “Mexe!”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2016)

Águeda
Águeda
Velha Gaiteira

São João

Bailava o Sol, bailava
Ai, na manhã do São João;
Raiavam cordas de amori
Ai, dentro do meu coração.

Naquela relvinha verde
Ai, foi a minha perdição;
Perdi lá o anel d’oiro
Ai, na manhã do São João.

Eu hei-de ir ao São João,
Ai, o meu amori não queri;
Deixai-o ir para fora,
Ai, eu farei o que eu quiseri.

Eu hei-de ir ao São João
Ai, com o meu amori ao lado;
No largo do São João
Ai, fica tudo adimirado.

Letra e música: Tradicional (Idanha-a-Nova, Beira Baixa)
Arranjo: Velha Gaiteira
Intérprete: Velha Gaiteira (in CD “Velha Gaiteira”, Velha Gaiteira/Ferradura, 2010)

Velha Gaiteira
Velha Gaiteira
Malpica do Tejo

Entrudo
+ Senhora do Almurtão

Ó Entrudo, ó Entrudo,
Ó Entrudo chocalheiro,
Que não deixas assentar
As mocinhas ao soalheiro!

Estas casas estão caiadas,
Estas casas estão caiadas.
Quem seria a caiadeira?
Quem seria a caiadeira?

Foi o noivo mai-la noiva,
Foi o noivo mai-la noiva
Com um raminho de oliveira.
Quem seria a caiadeira?

Eu quero ir para o monte,
Eu quero ir para o monte,
Que no monte é que eu estou bem,
Que no monte é que eu estou bem.

Onde não veja ninguém,
Onde não veja ninguém.

Senhora do Almurtão,
Ó minha linda raiana,
Virai costas a Castela!
Não queirais ser castelhana.

Senhora do Almurtão,
Eu p’ró ano não prometo,
Que me morreu o amori;
Ando vestida de preto.

Letra e música: Tradicional (Malpica do Tejo, Castelo Branco, Beira Baixa + Idanha-a-Nova, Beira Baixa)
Arranjo: Velha Gaiteira
Intérprete: Velha Gaiteira (in CD “Velha Gaiteira”, Velha Gaiteira/Ferradura, 2010)

Malpica do Tejo
Malpica do Tejo
Galandum Galundaina, Modas i anzonas

Kyrie Eleison
Kyrie Eeison
Christe Eleison
Christe Eleison
Kyrie Eleison

Pur baixo de la punte
Retomba l rio;
Ye ua lhabadeira
Kus, kus, bulis, bulis!
Kai, kai, minha bida!
Que lhaba trigo,
Que lhaba trigo.

Pur baixo de la punte
Retomba l’água;
Ye ua lhabadeira
Kus, kus, bulis, bulis!
Kai, kai, minha bida!
Que panhos lhaba,
Que panhos lhaba.

Pur baixo de la punte,
Stá la raposa
Remendando sue sáia
Kus, kus, bulis, bulis!
Kai, kai, minha bida!
De çaragoça,
De çaragoça.

Pur baixo de la punte,
Stá Catalina
Remendando sue sáia
Kus, kus, bulis, bulis!
Kai, kai, minha bida!
De costorina,
De costorina.

Letra e música: Popular (Planalto Mirandês, Trás-os-Montes) / Introdução: Canto gregoriano Kyrie XI (Orbis Factor), Sécs. XIV-XVI
Arranjo, orquestração e harmonização do coro: Vasco Pearce de Azevedo
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos com a Orquestra Sinfónica Portuguesa, o Coro do Teatro Nacional de S. Carlos, Armando Possante e coro gregoriano (in CD “Tierra Alantre”, Ocarina, 2014)
Primeira versão [?]: Galandum Galundaina (in CD “Modas i Anzonas”, Açor/Emiliano Toste, 2005)

Glossário:

  1. çaragoça (em português: saragoça) – tecido grosseiro de lã preta, geralmente usado na confecção de roupa dos camponeses. Deve o nome à circunstância de ser fabricado, primitivamente, na cidade aragonesa de Saragoça.
  2. costorina (em português: castorina, do fr. castorine) – nome dado, originalmente, ao tecido feito do pêlo do castor; posteriormente passou também a designar um tecido de lã, leve, macio e sedoso.
Galandum Galundaina, Modas i anzonas
Galandum Galundaina, Modas i anzonas
Torre de Moncorvo

Quetobia Patorra (cantiga das malhas)

A quetobia patorra
Está debaixo do torrão;
A quetobia patorra, ai!
A quetobia patorra
Está debaixo do torrão,
Mas ai! ai! ai! ai! ai!

Moidinha com pancadas
Que lhe deu o gafanhão;
Moidinha com pancadas, ai!
Moidinha com pancadas
Que lhe deu o gafanhão.
Mas ai! ai! ai! ai! ai!

Lá em baixo vem a raposa
Pela rodeira do carro;
Lá em baixo vem a raposa, ai!
Lá em baixo vem a raposa
Pela rodeira do carro;
Mas ai! ai! ai! ai! ai!

Traz os olhos na carcota
E o cu debaixo do rabo;
Traz os olhos na carcota, ai!
Traz os olhos na carcota
E o cu debaixo do rabo.
Mas ai! ai! ai! ai! ai!

O lagarto é pintado
Da cabeça até ao meio;
O lagarto é pintado, ai!
O lagarto é pintado
Da cabeça até ao meio;
Mas ai! ai! ai! ai! ai!

Não sei como às mulheres pode
Com tanta carne no seio;
Não sei como às mulheres pode, ai!
Não sei como às mulheres pode
Com tanta carne no seio.
Mas ai! ai! ai! ai! ai!

Quetobia Patorra (cantiga das malhas)
Letra e música: Popular (Cardanha, Torre de Moncorvo, Trás-os-Montes)
Recolha/transcrição: Maestro Afonso Valentim (de “Coreografia Popular Transmontana – III – O Galandum”, in “Douro Litoral”, Porto, 1953, 5.ª série, VII-VIII; “Cancioneiro Popular Português”, de Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça, Lisboa: Círculo de Leitores, 1981 – p. 120)
Arranjo e orquestração: Carlos Barata
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos com a Orquestra Sinfónica Portuguesa & as Cantadeiras do Vale do Neiva (in CD “Tierra Alantre”, Ocarina, 2014)

Torre de Moncorvo
Torre de Moncorvo
Ronda dos Quatro Caminhos

A roupa do marinheiro
Não é lavada no rio:
É lavada no mar alto
À sombra do seu navio.
Não é lavada no rio.

Sereias que há no mar longe
Não queiram o meu amor,
Que eu deixei em terra firme
Um peito a chorar de dor.
Não queiram o meu amor.

Penso em ti nos sete mares,
Juntos onde o vento for;
Tu não és como a figueira
Que dá fruto sem dar flor.
Juntos onde o vento for.

Espera por mim que eu volto!
Estão os campos por lavrar
E assim fica a nossa vida
Presa a uma vela no mar.
Estão os campos por lavrar.

Letra e música: Popular (Minho)
Arranjo e orquestração: António Prata
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos com a Orquestra Sinfónica Portuguesa (in CD “Tierra Alantre”, Ocarina, 2014)
Primeira versão [?]: Grupo de Cantares de Manhouce ‎(in LP “Aboio”, EMI-VC, 1984)

Ronda dos Quatro Caminhos
Ronda dos Quatro Caminhos
Né Ladeiras

La Lhoba Parda

Indo you mie siêrra arriba,
Delantre de miu ganado,
Repicando lo caldeiro,
Remendando l miu çamarro,
Aparcírun siête lhobos:
Todos siête na niada
Trazien ua lhoba al meio
Que era mais lhieba que parda;
Me quitou ua cordeira
La mejor de la piara.

Era ua cordeira branca,
Filha dua oubeilha negra,
Filha de l melhor maron
Que se passiaba na siêrra.
— «Arriba, arriba, cachorros!
Abaixo, perra gudiana!
Se m’agarrardes la lhoba
La cena tenereis ganha
I se nun me l’agarrardes
Cu’la caiata cenais!»

Siête lhéguas han corrido
Los mius perros por arada
I al fin de las siête lhéguas
La lhoba staba cansada.
— «Toma, perro, la cordeira!
Lhiêba-la pa la piara!»
— «Nun te quiêro la cordeira
Que la tenes lhobadada.
Só te quiêro la tue çamarra
Para fazer ua albarda;

Las tripas para biolas,
Para beiláren las damas;
El rabo para correias,
Para atacarmos las bragas.»
— «Chames tous perros, pastor,
Yá me bou pa las muntanhas!
Direi a ls mius cumpanheiros
Qu’ you nun buolbo a tu’ malhada,
Porque perros cumo ls tous
Nun los ten l Rei de Spanha!»

Letra e música: Popular (Planalto Mirandês, Trás-os-Montes)
Arranjo e orquestração: Pedro Pitta Groz
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos com a Orquestra Sinfónica Portuguesa (in CD “Tierra Alantre”, Ocarina, 2014)
Primeira versão [?]: Né Ladeiras – “Indo por la Sierra” (in CD “Traz os Montes”, AlmaLusa/EMI-VC, 1994)

Né Ladeiras
Né Ladeiras
Rio Minho

Flecha

Bate, bate, coração,
Como um comboio a vapor!
Vou de comboio a Monção
P’ra falar ao meu amor.

Na vidraça
Tudo passa;
Pouca terra, terra vai, ó ai!
Entra a saca,
Sai a vaca,
Dorme a filha, fuma o pai, ó ai!

Voa, Flecha, voa!
Companheiro do rio Minho,
Por terras de verde vinho
Flecha vai.

O meu amor vai lá estar,
Combinámos na estação;
Lá vai o Flecha a apitar
A caminho de Monção.

Na vidraça
Tudo passa;
Pouca terra, terra vai, ó ai!
Entra a saca,
Sai a vaca,
Dorme a filha, fuma o pai, ó ai!

Voa, Flecha, voa!
Companheiro do rio Minho,
Por terras de verde vinho
Flecha vai.

Com a força do calor
Ou com um frio de rachar,
Vou de Monção a Valença
Até Caminha ver o mar.

Na vidraça
Tudo passa;
Pouca terra, terra vai, ó ai!
Entra a saca,
Sai a vaca,
Dorme a filha, fuma o pai, ó ai!

Voa, Flecha, voa!
Companheiro do rio Minho,
Por terras de verde vinho
Flecha vai.

Letra e música: Carlos Guerreiro
Arranjo: Carlos Guerreiro
Intérprete: Gaiteiros de Lisboa
Versão original: Gaiteiros de Lisboa com Segue-me à Capela (in CD “Bestiário”, Uguru, 2019)

Nota: «Tema composto para um espectáculo de comemoração do centenário do comboio Flecha, que uniu Valença do Minho a Monção, organizado pela Câmara Municipal de Monção.» (Carlos Guerreiro)

Rio Minho
Rio Minho
Gaiteiros de Lisboa, Roncos do Diabo

Roncos do Diabo

Com três paus faz-se um bordão,
Com mais um faz-se um ponteiro:
O Demo anima a função
Encarnado num gaiteiro.

O Diabo já é velho
Mas é grande folião:
Na festa mete o bedelho
P’ra animar a bailação.

P’ra aquecer o bailarico
Abre a torneira ao tonel;
O cura dá-lhe um fanico,
Lá se vai o hidromel.

Essa bebida dos anjos
Que agrada tanto ao Demónio
Já tentou S. Cipriano,
S. João e Santo António.

Santo António milagreiro
Fez um pacto com o Demónio:
O Diabo era gaiteiro
E o santo tocava harmónio.

S. João tocava caixa
Com dois paus de marmeleiro;
Mas o delírio das moças
Era a gaita do gaiteiro.

Guinchava como um leitão
Quando se lhe puxa o rabo;
Pela copa do bordão
Jorravam roncos do Diabo.

Era a gaita do Demónio
Que soava endiabrada,
Afinava com o harmónio
Mas não estava homologada.

Estava fora das medidas,
Saía da convenção,
Tinha veias no ponteiro
E dois papos no bordão.

Criação de Belzebu,
Diabólica magia:
Nas voltas da contradança
Quem dançava enlouquecia.

E nas voltas da loucura,
As almas em desatino
Saltavam de corpo em corpo
Errando do seu destino.

O gaiteiro as reunia
Como se junta um rebanho:
Fê-las descer ao Inferno,
No fogo tomaram banho.

E já os corpos em brasa
Iam fazendo das suas,
As vestes esfarrapadas
Mostravam as carnes nuas.

Indulgencia absolutionem
et remitionem peccatorum
tribut ad nobis Dominum.

Com três paus faz-se um bordão,
Com mais um faz-se um ponteiro:
O Demo anima a função
Encarnado num gaiteiro.

As fêmeas eram lascivas:
Ondulantes de paixão,
Corroídas p’lo desejo
Contorciam-se no chão.

No terreiro da função
Os corpos se confundiam:
Seguidores de Belzebu
Das almas santas se serviam.

Foram pela noite fora
Perdidos no bacanal,
Ao som desta banda louca
Até ao Juízo Final.

Indulgencia absolutionem
et remitionem peccatorum
tribut ad nobis Dominum.

Letra e música: Carlos Guerreiro
Arranjo: Carlos Guerreiro
Intérprete: Gaiteiros de Lisboa
Versão original: Gaiteiros de Lisboa (in CD “A História”, Uguru, 2017; CD “Bestiário”, Uguru, 2019)

Gaiteiros de Lisboa, Roncos do Diabo
Gaiteiros de Lisboa, Roncos do Diabo