Mares e marés

Mares e marés

Bamo lá ber

Letra e música: Carlos Norton
Intérprete: OrBlua (in Livro/CD “Retratos Cinéticos”, Fungo Azul/Ocarina, 2015)

Bamo lá ber!
Vamos lá ver!
Bamo lá ber!
Vamos lá ver!…

Vamos lá ver!
Bamo lá ber!
Vamos lá ver!
Bamo lá ber!…

Vinha o barco, lá pela ria;
Acostou com maré vazia.
Vinha o pargo,
Vinha a lula,
Vinha o sargo
E o peixe-lua.

Veio a gente para comprar
O que a rede trouxe do mar.
Trouxe um polvo,
Uma cavala
Mais uma bóia
E uma sandália.

Veio o povo para comprar;
Viu o peixe a saltitar.
Salta o choco
E a faneca
Mais a sarda
Para a água.

Vai o homem nos arraiais,
Que a venda não se faz mais.
Foi-se o peixe,
Foi-se o pão…
Mas que sorte!
Maldição!

Volta p’ró mar, ó pescador!
Sai no barco, com teu labor!
Já não há mais,
Acabou.
Lá se foi,
Que ele esgotou.

Vem para terra, com tua barca!
Vende covos, com tua marca!
Faz um sorriso
P’ra o turista
Que o tempo da faina
acabou!

Dentro de um búzio

[ Dessa Ilha ]

dentro de um búzio
cabe todo o mar
dentro desse mar
cabem milhares de búzios
muitos desses búzios
servem p’ra jogar
passam na cabeça
cabem num colar
nessa ilha
posso lhe escutar
o som
que faço soar

dentro da cabeça
uma multidão
onde o mar começa
onde acaba o chão
fora de um corpo
cabe todo o ar
respirar um pouco
já é tanto
dessa ilha
posso partilhar só
o som
que canto

Letra: Arnaldo Antunes
Música: Danças Ocultas
Intérprete: Danças Ocultas* com Dora Morelenbaum (in CD “Dentro Desse Mar”, Danças Ocultas/Sony Music, 2018)

*Danças Ocultas:
Artur Fernandes – acordeão diatónico (melodias)
Filipe Cal – acordeão diatónico (acordes e ritmo harmónico)
Filipe Ricardo – acordeão diatónico (baixos)
Francisco Miguel – acordeão diatónico (contrapontos: respostas às melodias)
Músicos convidados:
Dora Morelenbaum – voz
Jaques Morelenbaum – violoncelo
David Feldman – piano eléctrico
Marcelo Costa – percussões

Em ti a navegar

[ Barca Catraia ]

Em ti a navegar
Na barca, pescador,
Ardentia no mar,
Ancorado amor.

À proa levado
Teu nome escrevi,
Riso afogado
No sal que escorri.

Vento abraçado
Que me leva a voz;
Reverso cantado
O que me traz à foz.

Seja vela alva
A que vai e que vem
E a barca salva
Das tormentas que tem.

Vestida de redes
Por mim adornada,
Desejos e sedes
Na vaga salgada.

Entranhas doridas
E golpes nos dedos;
Amantes queridas,
Rasgados segredos.

Espero, catraia,
Navegando em ti:
Da barca não caia
Nem nos ais que ouvi!

Seja vela alva
A que vai e que vem
E a barca salva
Das tormentas que tem.

Letra e música: Lindolfo Paiva
Intérprete: Dialecto*
Versão original: Dialecto (in CD “Aromas”, Dialecto/Cloudnoise, 2011)

Foram-se as cores

[ Canto Trágico dos Corvos de São Vicente ]

Letra e música: Carlos Norton
Intérprete: OrBlua (in Livro/CD “Retratos Cinéticos”, Fungo Azul/Ocarina, 2015)

Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro…

Madrugada de outono passou rente ao promontório;
Beijou o vento o mar que abraçava o rochedo:
Dia de nascer uma tragédia,
Maldição há muito amaldiçoada;
O casco esventrado solta o monstro
No manto da besta do negrume.

Soprou amargo e revolto, trazido na maré;
Vestia negro e dançava, como seda sobre a água:
Esmaga e volta a atormentar o mar
Nos teus braços da asfixia!
Salta, corvo, da tua barca
Alertar quem te desconhecia!

Já não esvoaçam aromas, só do fumo do negreiro;
Foge o riso do sorriso, fica a alma abandonada:
Fecha portas e portadas!
Lá fora, morte sem canção;
Lenta, espalha a tua calma,
Tenebrosa desolação!

Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro…

Vai lá ver quem se matou, ou se algum ainda sobrou,
Que o negro tudo cobre nessa lenta agonia!
Tempo de partir, abandonar;
Lamentar a grande tentação;
Longa, a negra noite veio
Tudo adormecer.

Gaivotas em terra

Letra: Mascarenhas Barreto
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos (1968) (in CD “O Melhor de António dos Santos”, EMI-VC, 1992)

Gaivotas em terra, de asas fechadas;
marujos sem rumo, num banco dum bar;
barcaças dormentes, no cais ancoradas;
meninas morenas que pensam casar…

Preciso é que voem, que batam as asas;
preciso é que deixem as altas janelas;
preciso é que saiam as portas das casas;
preciso é que soltem amarras e velas…

As asas são duas, se acaso uma ave
quiser cortar céu, lançar-se no ar…
A barca só voga, se a brisa suave
quiser, ternamente, casá-la com o mar…

Marujos sozinhos, pensando outro mundo;
meninas em casa, fiando desejo…
Preciso é que cruzem seu olhar profundo;
preciso é que colem as bocas num beijo!

Mãos de marinheiro não temem procelas,
se houver outras mãos, p’ra além vendaval,
rezando por ele e tecendo outras velas
mais brancas, mais belas, do seu enxoval!

Mar, espuma

[ Canção do Marinheiro ]

Letra: Caetano Filgueiras
Música: José Barros
Arranjo: José Manuel David
Intérprete: Navegante (in CD “Meu Bem, Meu Mal”, Tradisom, 2008)

Mar, espuma, céus e nuvens,
Sargaço, peixes, gaivotas…
Eis aqui os agiotas
Que cercam o nosso balcão!
Já vês, portanto – fragata:
Por falta de compradores,
Nem mesmo nossos amores
Nos saem do coração.

Ai menina!… Tu não sabes
Quanto é bom ser marinheiro!
E ficar com um ar trigueiro
Por aventuras no mar!

Mas isso foi até quando
Virei no bordo de terra,
E te avistei e disse – ferra!
Mas era tarde, bati…
Ao choque da pedra dura
Saltou-me do leme a cana;
Perdi logo a tramontana,
O casco só não perdi…

Ai menina!… Tu não sabes
Quanto é bom ser marinheiro!
E ficar com um ar trigueiro
Por aventuras no mar!

Tem pena de mim, sereia!
Já que não posso em teu porto
Achar o mesmo conforto
Que outrora no mar achei…
A nado põe o meu barco,
Que eu logo e logo outro rumo
Só de guindola e sem prumo,
Te juro, demandarei!

Ai menina!… Tu não sabes
Quanto é bom ser marinheiro!
E ficar com um ar trigueiro
Por aventuras no mar!
[bis]

Por aventuras no mar!
Por aventuras no mar!

Mar

Poema: Miguel Torga (in “Poemas Ibéricos – História Trágico-Marítima”, 1965; “Poesia Completa”, 2000)
Música: ?
Intérprete: João Braga (in CD “Fado Fado”, BMG Portugal, 1997)

Mar!
Tinhas um nome que ninguém temia:
Era um campo macio de lavrar
Ou qualquer sugestão que apetecia…

Mar!
Tinhas um choro de quem sofre tanto
Que não pode calar-se, nem gritar,
Nem aumentar nem sufocar o pranto…

Mar!
Fomos então a ti cheios de amor!
E o fingido lameiro, a soluçar,
Afogava o arado e o lavrador!

Mar!
Enganosa sereia rouca e triste!
Foste tu quem nos veio namorar,
E foste tu depois que nos traíste!

Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de nos tentar
O teu encantamento!

O mar a salgar-nos a vida

[ Quem Anda ao Mar ]

O mar a salgar-nos a vida
E a vida sem sal
O vento a empurrar-nos a alma
Contra o temporal
Mas quando o destino
Foi tudo o que herdámos
Dos nossos avós
É tão pouca a sorte
O vento é tão forte
Que há-de ser de nós?

As mãos presas na corrente
O tempo a passar
O mar a gastar-nos os anos
E o medo a ficar
No fundo das águas
Descansam mil mágoas
Do nosso sofrer
A manhã clareia
A rede vem cheia
Que mais posso eu querer?

Quem anda ao mar
Não tem dia, não tem hora
Nunca sabe quando chega
Nem quando se vai embora

Os dias são como as ondas
É o mesmo vai-e-vem
O mar é como a saudade
Não poupa ninguém
No vazio da praia
Esvoaça uma saia
Cor negra a sofrer
Que se a calma vaga
Que a manhã me traga
A alegria de o ver

Quem anda ao mar
Não tem dia, não tem hora
Nunca sabe quando chega
Nem quando se vai embora

Dizem que o mar também chora
E é como um barco sem ter farol
Chora p’la Lua que se foi embora
Como uma louca, atrás do Sol
E às vezes as fúrias são tantas
Que não há ninguém que as possa acalmar
A não ser a alma daqueles que andam ao mar

Quem anda ao mar
Não tem dia, não tem hora
Nunca sabe quando chega
Nem quando se vai embora

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha*
Versão discográfica anterior: Sebastião Antunes & Quadrilha com Tim (in CD “Perguntei ao Tempo”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2019)
Versão original: Quadrilha (in CD “Entre Luas”, Ovação, 1997)
Outra versão: Quadrilha (in CD “Deixa Que Aconteça: Ao Vivo”, Vachier & Associados/Ovação, 2006)

O mar não é de ninguém

[ Ninguém É Dono do Mar ]

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes (in CD “Singular”, Sebastião Antunes & Quadrilha/Alain Vachier Music Editions, 2017)
Versão original: Quadrilha (in CD “Quarto Crescente”, Vachier & Associados/Ovação, 1999)
Outra versão de Quadrilha (in CD “Deixa Que Aconteça: Ao Vivo”, Vachier & Associados/Ovação, 2006)

O mar não é de ninguém
Ninguém é dono do mar
Nem aqueles que lá sabem navegar

Se eu um dia não voltar
Desenha o meu nome no chão
Pede um desejo às ondas do mar
E guarda-o na tua mão

Sempre que a noite vier
Quando não houver luar
Dá o desejo a uma onda qualquer
E pede-lhe p’ra eu voltar

Trago o destino das águas
No aguardar dos rochedos
Dizem que o tempo é que apaga as mágoas
Quem será que apaga os medos?

O mar não é de ninguém
Ninguém é dono do mar
Nem aqueles que lá sabem navegar

E se depois eu vier
Foi porque o mar te escutou
Deixa os sorrisos correrem p’la praia
Que o temporal acabou

Os búzios soam

[ Segredos do Mar (Mistiká tis Thalassas) ]
Letra e música: Samuel Lopes
Intérprete: Citânia
Versão original: Citânia com Maria Zogopoulou & Vitorino (in Livro/CD “Segredos do Mar”, Seven Muses, 2011)

Os búzios soam o ritmo das marés
A preia-mar dá à costa uma carta de amor
Da minha janela vejo um navio a passar
Um marinheiro lá bem longe diz adeus

A Lua guarda eternos segredos
Mais profanos da nossa paixão
O Mar liberta e solta os medos
Que se escondem no teu coração

A carta dizia amor vou partir
Oxalá um dia te volte a encontrar
No sorriso da lua vejo o teu coração
Ainda sinto o teu cheiro na brisa do mar

A Lua guarda eternos segredos
Mais profanos da nossa paixão
O Mar liberta e solta os medos
Que se escondem no teu coração

Tão bonita és

[ Música de Mar ]

Poema: Pedro Barroso
Música: Imanol (Manuel Eusebio Larzábal Goñi, 1947-2004)
Intérprete: Pedro Barroso (in LP “Pedro Barroso”, Schiu!/Transmédia, 1988)

Tão bonita és, tão bonita estás,
tão bonita és, como vais?
Paro p’ra te ver para lá do olhar
e param-me as mãos a pensar.

Tão pura, tão simples, tão meiga de ouvir:
canto de embalar e dormir,
eixo ribaldeixo como a cantilena
que tu soletraste em pequena.

Tão bonita és, tão bonita estás,
tão bonita és, como vais?
Quando nos invades, quando nos tormentas,
risos, choros, silêncios inventas.

Música e amante mal te conheci,
três vidas num instante vivi;
música de mar que nas ondas vem
toca-me nos dedos também!

Tão bonita és, tão bonita estás,
tão bonita és, como vais?
Como hei-de compor, como hei-de cantar
tanto qu’inda tens p’ra me dar?

Como uma criança canta a tabuada
e junta três sons encantada,
assim te encontramos a ti, melodia,
nós que cinzentamos o dia.

Tão bonita és, tão bonita estás,
tão bonita és, como vais?
Viril, feminina, velhota ou senhora,
riso de menina e doutora.

Nua te despi, nua te deixei
e entre sol e lua cantei.
Como poderemos nós falar de ti
se andamos tão longe e tu aqui?!

Tem mil anos uma história

[ Sete Mares ]

Letra: Francisco Menezes
Música: Sétima Legião
Intérprete: Sétima Legião (in “Mar d’Outubro”, EMI-VC, 1987; reed. 1988)

Tem mil anos uma história
De viver a navegar
Há mil anos de memórias a contar
Ai, cidade à beira-mar
Azul

Se os mares são só sete
Há mais terra do que mar…
Voltarei amor com a força da maré
Ai, cidade à beira-mar
Ao sul

Hoje
Num vento do norte
Fogo de outra sorte
Sigo para o sul
Sete mares

Foram tantas as tormentas
Que tivemos de enfrentar…
Chegarei amor na volta da maré
Ai, troquei-te por um mar
Ao sul

Hoje
Num vento do norte
Fogo de outra sorte
Sigo para o sul
Sete mares

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