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Alentejo na Primavera
Baixo Alentejo

Canções do Baixo Alentejo

A flor da branca amora

[ Marcela, Marcelinha ]

A flor da branca amora
Cai na água, faz-se em espuma;
Aqui está quem te namora
Sem falsidade nenhuma.

Lá nos campos, verdes campos,
Eu fui apanhar marcela,
Daquela mais miudinha,
Daquela mais amarela.

Daquela mais amarela,
Daquela mais miudinha,
Lá nos campos, verdes campos,
A marcela, marcelinha.

Fui beber à clara fonte,
Por baixo da flor da murta;
Fui mais por ver os teus olhos,
Que a sede não era muita.

Lá nos campos, verdes campos,
Eu fui apanhar marcela,
Daquela mais miudinha,
Daquela mais amarela.

Daquela mais amarela,
Daquela mais miudinha,
Lá nos campos, verdes campos,
A marcela, marcelinha.

Letra e música: Tradicional (Baixo Alentejo)
Intérprete: Afonso Dias
Primeira versão de Afonso Dias, com Teresa Silva (in CD “Andanças & Cantorias”, Bons Ofícios – Associação Cultural, 2016)

A flor da branca amora

[ Marcela, Marcelinha ]

A flor da branca amora
Cai na água, faz-se em espuma;
Aqui está quem te namora
Sem falsidade nenhuma.

Lá nos campos, verdes campos,
Eu fui apanhar marcela,
Daquela mais miudinha,
Daquela mais amarela.

Daquela mais amarela,
Daquela mais miudinha,
Lá nos campos, verdes campos,
A marcela, marcelinha.

Fui beber à clara fonte,
Por baixo da flor da murta;
Fui mais por ver os teus olhos,
Que a sede não era muita.

Lá nos campos, verdes campos,
Eu fui apanhar marcela,
Daquela mais miudinha,
Daquela mais amarela.

Daquela mais amarela,
Daquela mais miudinha,
Lá nos campos, verdes campos,
A marcela, marcelinha.

Letra e música: Tradicional (Baixo Alentejo)
Intérprete: Afonso Dias
Primeira versão de Afonso Dias, com Teresa Silva (in CD “Andanças & Cantorias”, Bons Ofícios – Associação Cultural, 2016)

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A luta é de quem trabalha

[ Ceifeira ]

A neve já está bem perto

[ O Padrinho ]

A neve já está bem perto
Daquela grande montanha
Virgem Maria é a mãe
E São José a acompanha

São José a acompanha
E acompanha o Deus Menino
Virgem Maria é a mãe
E São José é o padrinho

Diabo a Sete

Letra e música: Tradicional (Elvas, Alto Alentejo)
Intérprete: Diabo a Sete (in CD “Parainfernália”, Açor/Emiliano Toste, 2007)

Adeus, malvas

[ O Triste ]

Adeus, malvas…
Adeus, malvas…
Adeus, malvas do Rossio!
Tarde ou nun…
Tarde ou nunca as pisarei.

Adeus, moças…
Adeus, moças…
Adeus, moças do meu tempo!
Tarde ou nun…
Tarde ou nunca voltarei.

Ó Triste, ó Triste,
Ó Triste, três vezes triste!
Ó Triste, ó Triste,
P’ra onde irá?

O rico…
O rico…
O rico se compadeça
Da desgra…
Da desgraça do Zé Brás.

A desgraça…
A desgraça…
A desgraça do Zé Brás
Foi a mor…
Foi a morte do Paneiro.

Com um lenço…
Com um lenço…
Com um lenço se enforcou
Às grades…
Às grades do Limoeiro.

Algum dia eu era

[ Erva-Cidreira ]

Algum dia eu era,
E agora já não,
Da tua roseira
O melhor botão.

Ó erva-cidreira
Que estás no alpendre,
Quanto mais se rega
Mais a folha pende.

Mais a folha pende,
Mais a rosa cheira;
Que ‘tás no alpendre,
Ó erva-cidreira.

Os olhos que olham
P’ró chão de repente,
Esses é que são
Os que enganam a gente.

Ó erva-cidreira
Que estás no alpendre,
Quanto mais se rega
Mais a folha pende.

Mais a folha pende,
Mais a rosa cheira;
Que ‘tás no alpendre,
Ó erva-cidreira.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Arranjo: Monda e Ruben Alves
Intérprete: Monda (in CD “Monda”, Monda/Tánaforja, 2016)

Anda cá

[ Pombinha Branca ]

Anda cá, se tu queres ver!
Verás o que ainda não viste:
Verás dois olhos alegres
Chorando lágrimas tristes.

Oh minha pombinha branca,
Onde queres, amor, que eu vá?
É de noite, faz escuro,
Eu sozinho não vou lá.

Eu sozinho não vou lá,
Eu sozinho lá não vou;
Oh minha pombinha branca,
P’ra te amar inda aqui estou.

No quarto aonde eu durmo
Tudo são penas voando:
Umas causadas por mim,
Outras estás-mas tu causando.

Oh minha pombinha branca,
Onde queres, amor, que eu vá?
É de noite, faz escuro,
Eu sozinho não vou lá.

Eu sozinho não vou lá,
Eu sozinho lá não vou;
Oh minha pombinha branca,
P’ra te amar inda aqui estou.

Letra e música: Tradicional do Baixo Alentejo (aprendida com o grupo Modas à Margem do Tempo, em Évora)
Arranjo: Celina da Piedade e músicos participantes
Intérprete: Celina da Piedade (in 2CD “Em Casa”: CD1, Celina da Piedade/Melopeia, 2012)

Anda cá, José se queres

Anda cá, José se queres
a tua roupa lavada,
ai, paga a uma lavadeira
qu’eu não sou tua criada.

Qu’eu não sou tua criada,
qu’eu não sou criada tua.
Ai, Ó José se me não queres,
ai, põe o chapéu, vai prá rua.

Põe o chapéu, vai prá rua,
põe o chapéu, vai prá estrada.
Ai, anda cá, José se queres
ai, a tua roupa lavada.

(Popular – Alentejo)

Aqui ninguém tem trabalho

[ Terra de Catarina (Baleizão, Baleizão)]

Aqui ninguém tem trabalho
E há muito para fazer:
Vieram de toda a parte,
Não tinham pão p’ra comer.

Ó Baleizão, Baleizão!
Ó terra de Catarina,
Onde nasceu e morreu
Por uma bala assassina,
Por uma bala assassina
Cravada no coração;
Ó terra de Catarina!
Ó Baleizão, Baleizão!

Tinha no peito a coragem,
Trazia os filhos na mão;
Ó terra de Catarina!
Ó Baleizão, Baleizão!

Ó Baleizão, Baleizão!

Ó terra de Catarina,
Onde nasceu e morreu
Por uma bala assassina,
Por uma bala assassina
Cravada no coração;
Ó terra de Catarina!
Ó Baleizão, Baleizão!

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Arranjo: Há Lobos Sem Ser na Serra
Intérprete: Há Lobos Sem Ser na Serra
Primeira versão do grupo Há Lobos Sem Ser na Serra (in CD “Cantares do Sul e da Utopia”, Há Lobos Sem Ser na Serra/Alain Vachier Music Editions, 2016)

A ribeira quando enche

A ribeira quando enche
Leva o junco acamado
Traz-me tu em teu sentido
Que eu te trago em meu cuidado

A ribeira quando enche
Vai de pedrinha em pedrinha
O homem que leva a barca
Leva seu bem na barquinha

Leva seu bem na barquinha
Inda lhe digo outra vez
Quem namora sempre alcança
Um beijinho, dois ou três

Dizem que a folha do trigo
É maior que a da cevada
Também a minha amizade
Ao pé da tua é dobrada

(Popular – Alentejo)

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Canções do Alentejo

Canções do Alentejo

Canções do Alentejo

Acorda se estás dormindo

[ Janeiras de Évora ]

(Chegada à porta)

Acorda se estás dormindo
Nesse sono tão profundo,
Às portas te estão pedindo
P’rás almas do outro mundo.

E as almas do outro mundo
Batem aos vossos portados,
Acorda se queres ouvir
Das almas os tristes brados.

Tristes brados dão as almas
Isto é tudo bem certo,
P’ra quem vive arrependido
Está o sacramento aberto.

As almas do outro mundo,
Elas te mandam pedir,
Que lhes leves as esmolas
Q’elas não podem cá vir.

(Despedida)

E as esmolas que vós destes,
Se as destes com devoção,
Na terra terás o prémio
Lá no céu a salvação.

Letra e música: Popular (Alto Alentejo)
Recolha: Fernando Costa (em Évora, junto da Sra. Helena Jesus Grilo)
Intérprete: Roda Pé (in CD “Escarpados Caminhos”, public-art, 2004)

Adeus, Maria

— «Adeus, Maria, até quando,
Eu até quando não sei;
Cá ando no Ultramar, a pensar
No dia em que voltarei.

Espera por mim, se quiseres…
Faz o que tu entenderes;
Acho que deves pensar em casar,
Eu posso por cá morrer.

Ninguém o pode saber,
É uma carta fechada…
E depois te chamarão, pois então,
Viúva sem seres casada.»

— «Ó António, Deus te guie
Nos campos do Ultramar!
Eu penso em ti, cá solteira, há quem queira
Se tu nunca mais voltares.

Espero por ti, meu amor,
Eu d’outro não quero ser!
Nunca mais me casarei, que eu bem sei,
Serei tua até morrer!

A carta que me mandaste
Com um conselho imprudente…
Meu amor, para contigo eu te digo:
‘Inda fiquei mais ardente.»

Meu amor, para contigo eu te digo:
‘Inda fiquei mais ardente.»

Letra: António Pardelha
Música: Monda
Intérprete: Monda
Versão original: Monda com Katia Guerreiro (in CD “Monda”, Monda/TáNaForja, 2016)

Ai lei ai lari lari ló lé

[ O Deus Menino ]

Ai lei ai lari lari ló lé,
Jesus, Maria,
Jesus, Maria, José

Entrai pastorinhos, entrai
Por esses portais sagrados.
Vindo ver a Deus Menino,
Numas palhinhas,
Numas palhinhas deitado.

Se quereis criado,
Tratai-o com mimo,
Dêem-lhe leite,
Que ele é pequenino,
Tragam-lhe leite,
Para o Deus menino.

Letra e música: Popular (Baixo Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ceifeiros de Cuba” (in CD “Musical Traditions of Portugal”, Ed. Smithsonian Folkways, 1994)

Alecrim, alecrim aos molhos

Alecrim, alecrim aos molhos
por causa de ti
choram os meus olhos

Ai, meu amor,
quem te disse a ti
que a flor do monte
era o alecrim

Alecrim, alecrim doirado
que nasce no monte
sem ser semeado

Ai, meu amor,
quem te disse a ti
que a flor do monte
era o alecrim

Letra e música: Popular (Baixo Alentejo)
Versão instrumental: Opus Ensemble (in “Temas do cancioneiro Português”, EMI Classics, 1987, reed. 1998)

Almodôvar, nossa terra

Almodôvar, nossa terra
Quando eu de ti vivo ausente
O meu coração encerra
Uma saudade ardente

Uma saudade ardente
O meu coração encerra
Quando eu de ti vivo ausente
Almodôvar nossa terra

(Popular – Baixo Alentejo)

Ao passar a ribeirinha

[ Água Sobe, Água Desce ]

Ao passar a ribeirinha,
Água sobe, água desce;
Dei a mão ao meu amor
Antes que ninguém soubesse.

Se tu és o meu amor,
Dá-me cá abraços teus!
Se não és o meu amor,
Saúdinha, adeus, adeus!

À frente do amor,
Brincas tu, brincarei eu;
Anda cá para meus braços!
Ninguém te quer mais do que eu.

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Intérprete: Aqui Há Baile (in CD “Caderno de Danças do Alentejo – adaptações”, Associação Pédexumbo/Caracol Secreto, 2013)

Ao romper da bela aurora

Ao romper da bela aurora
Sai o pastor da choupana
Vem gritando em altas vozes
Muito padece quem ama

Muito padece quem ama
Mais padece quem adora
Sai o pastor da choupana
Ao romper da bela aurora

Toda a vida fui pastor
Toda a vida guardei gado
Tenho uma nódoa no peito
De me encostar ao cajado

Ao romper da bela aurora
Sai o pastor da choupana
Vem gritando em altas vozes
Muito padece quem ama

Muito padece quem ama
Mais padece quem adora
Sai o pastor da choupana
Ao romper da bela aurora

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Ganhões de Castro Verde (in CD “É Tão Grande o Alentejo”, ACA “Os Ganhões”, 1997)

Aqui onde canto e ardo

[ Passarinho da charneca ]

Aqui onde canto e ardo
entre papoulas e cardo.
Sete palmos de charneca
são o tamanho de um home
medido em anos de fome,
pesado em anos de seca,
esquecido que teve nome
e que, sendo a morte certa,
vida desta não é d’home,
vida desta não é d’home,
passarinho da charneca.

Passarinho da charneca
entrou na gaiola aberta.
Já tem os olhos cegados
para que cante melhor
que o dono não é cantor.
Traz os colmilhos cerrados
vontades de mandador
e porque é dos mal mandados
julga assim mandar melhor
nos que lhe estão sujeitados,
passarinho da charneca.

Criei o corpo comendo
desta terra da charneca
ao entrar na cova aberta.
Só estou pagando o que devo,
eu sou devedor à terra.
A terra me está devendo,
a terra me está devendo.
A terra paga-me em vida,
Eu pago à terra em morrendo,
eu pago à terra em morrendo,
passarinho da charneca.

Letra: Tradicional – Alentejo / João Pedro Grabato Dias
Música: Amélia Muge
Intérprete: Amélia Muge (in CD “Todos os Dias”, Columbia/Sony, 1994)

Às vezes me ponho eu

[ A Vila de Castro Verde ]

Às vezes me ponho eu
Na minha vida a pensar:
Quem eu era, quem eu sou,
Ao que eu havia de chegar!

A vila de Castro Verde
És uma estrela brilhante:
Como ela outra não há,
És a mesma que eras dantes.

És a mesma que eras dantes
Desta vila aproximada;
És uma estrela brilhante
Que está na História gravada.

Ó coração, não te assustes!
Quando ouvires cantar bem,
Entra e pede licença
Para cantares também!

A vila de Castro Verde
És uma estrela brilhante:
Como ela outra não há,
És a mesma que eras dantes.

És a mesma que eras dantes
Desta vila aproximada;
És uma estrela brilhante
Que está na História gravada.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in CD “Modas”, Robi Droli, 1994; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD1, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)

As vozes da minha fala

[ Portel Estás Satisfeito ]

As vozes da minha fala,
Como eram já não são:
Fazem a mesma diferença
Que o Inverno faz do Verão.

Portel estás satisfeito
Em ver teus filhos brilhar,
E até choras de contente
Em os ouvindo cantar.

Minha fala é baixinha,
Não a posso alevantar;
E mesmo assim, sendo baixinha,
Já m’a quiseram comprar.

Portel estás satisfeito
Em ver teus filhos brilhar,
E até choras de contente
Em os ouvindo cantar.

Em os ouvindo cantar
Até bate a mão no peito;
Em ver teus filhos brilhar
Portel estás satisfeito.

Brota a água

Brota a água da pedra bruta:
Sua luta, labuta,
De tudo dessedentar;
Ganha altura, desmesura
De tanto querer ser mar.

Corre campos, cria formas
Que nem ousara sonhar;
Dança ritmos, canta trovas
Antes de chegar ao mar.

A ciência que o mar tem
Não tem nada de pasmar:
Não há regato nem rio
Que ao mar não vá parar.

Brota a água da pedra bruta:
Sua luta, labuta,
De tudo dessedentar;
Ganha altura, desmesura
De tanto querer ser mar.

Corre campos, cria formas
Que nem ousara sonhar;
Dança ritmos, canta trovas
Antes de chegar ao mar.

Brota a água da pedra bruta:
Sua luta, labuta,
De tudo dessedentar;
Ganha altura, desmesura
De tanto querer ser mar.

Corre campos, cria formas
Que nem ousara sonhar;
Dança ritmos, canta trovas
Antes de chegar ao mar.

Letra e música: Pedro Mestre
Intérprete: Pedro Mestre com Janita Salomé (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015)
Outra versão de Pedro Mestre com Janita Salomé (in DVD “No CCB: Pedro Mestre & Convidados”, Pedro Mestre, 2017)

Caminhos do Alentejo

Caminhos do Alentejo.
Terra bravia de fomes
com piteiras aceradas
como pontas de navalhas
em esperas de encruzilhadas!
Caminhos do Alentejo.
Desde valados e sebes,
searas, vilas, aldeias
e chuvas e descampados
— caminhos do Alentejo
desde menino vos piso!

Poema: Manuel da Fonseca (excerto inicial da parte I de “Para um poema a Florbela”)
Música: Paulo Ribeiro
Arranjo: Jorge Moniz
Intérprete: Paulo Ribeiro
Versão original: Paulo Ribeiro com Vitorino (in CD “O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis”, Açor/Emiliano Toste, 2017)

Campaniça do despique

Campaniça do despique,
Na venda e bailes de roda:
Dedilhando o improviso
Ou trauteando uma moda.

Na rua do velho monte,
Com as moças a bailar
Os passos simples duma dança
E a viola a dedilhar.

Nas feiras e romarias,
Na serra e no alambique,
Na venda e bailes de roda:
Campaniça do despique.

O tocador da viola
É feio mas toca bem;
Se não casar por a prenda,
Formosura não a tem!

Campaniça do despique,
Na venda e bailes de roda:
Dedilhando o improviso,
Ou trauteando uma moda.

Na rua do velho monte,
Com as moças a bailar
Os passos simples duma dança
E a viola a dedilhar.

Nas feiras e romarias,
Na serra e no alambique,
Na venda e bailes de roda:
Campaniça do despique.

Letra e música: Pedro Mestre
Intérprete: Pedro Mestre (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015)
Outra versão de Pedro Mestre (in DVD “No CCB: Pedro Mestre & Convidados”, Pedro Mestre, 2017)

Canta alentejano

Canta alentejano, canta,
o teu canto é oração,
tens a alma na garganta
solidão, ai não, ai não!

Solidão, ai não, ai não!
Quem canta, seu mal espanta.
O teu canto é oração:
canta, alentejano, canta!

Eu gosto muito de ouvir
cantar a quem aprendeu.
Houvera quem me ensinara,
quem aprendia era eu!

Popular alentejano

Cantam as filhas da Rosa

[ Filhas da Rosa ]

Cantam as filhas da Rosa,
Respondem lá do jardim:
Olaré, quem canta, canta assim!

A minha fala não é
A mesma que era algum dia:
Quem ouvia a minha fala
E o meu nome conhecia.

Cantam as filhas da Rosa,
Respondem lá do jardim:
Olaré, quem canta, canta assim!

E o cantar parece bem,
E é uma prenda bonita:
Não empobrece ninguém
Assim como não enrica.

Cantam as filhas da Rosa,
Respondem lá do jardim:
Olaré, quem canta, canta assim!

Se eu soubesse cantar bem
Nunca estaria calado;
Mesmo assim cantando mal
Não vivo desmarginado.

Cantam as filhas da Rosa,
Respondem lá do jardim:
Olaré, quem canta, canta assim!

Não julgues por eu cantar
Que a vida alegre me corre;
Eu sou como o passarinho:
Tanto canta até que morre.

Cantam as filhas da Rosa,
Respondem lá do jardim:
Olaré, quem canta, canta assim!

Letra e música: Tradicional (Baixo Alentejo)
Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha com grupo Alma Alentejana (in CD “Proibido Adivinhar”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2015)

Chamava-se Catarina

Em Memória de uma Camponesa Assassinada
– Cantar Alentejano

Chamava-se Catarina,
O Alentejo a viu nascer;
Serranas viram-na em vida,
Baleizão a viu morrer.

Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr;
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou.

Acalma o furor, campina,
Que o teu pranto não findou!
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou.

Aquela pomba tão branca
Todos a querem p’ra si;
Ó Alentejo queimado,
Ninguém se lembra de ti!

Aquela andorinha negra
Bate as asas p’ra voar;
Ó Alentejo esquecido,
Inda um dia hás-de cantar!

Letra: António Vicente Campinas
Música: Carlos Paredes (“Em Memória de uma Camponesa Assassinada”) e José Afonso (“Cantar Alentejano”)
Intérprete: Mariana Abrunheiro com o Grupo Coral “Estrelas do Sul” de Portel (in Livro/CD “Cantar Paredes”, Mariana Abrunheiro/BOCA – Palavras Que Alimentam, 2015)
Versão original (“Em Memória de uma Camponesa Assassinada”): Carlos Paredes (1973) (in CD “Na Corrente”, EMI-VC, 1996, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; Livro/4CD “O Mundo Segundo Carlos Paredes: Integral 1958-1993”: CD3 – “Danças”, EMI-VC, 2003)
Versão original (“Cantar Alentejano”): José Afonso (in LP “Cantigas do Maio”, Orfeu, 1971, 1982, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art’Orfeu Media, 2012)

Como podem ser iguais

[ Só Uma Pena Me Existe ]

[Cantiga:]
Como podem ser iguais
Os dedos das nossas mãos,
Se há filhos dos mesmos pais
Que não parecem irmãos?

[Moda:]
Só uma pena me existe,
Minha doce saudade:
É olhar para o teu rosto,
Ver-te assim tão pouca idade.

Ver-te assim tão pouca idade,
Ver-te assim tão criancinha;
Só uma pena me existe,
Minha doce jovenzinha.

[Cantiga:]
Lá por trás daquele outeiro,
Nasce o sol e nasce a lua;
Ando à procura, não acho
Cara mais linda que a tua.

[Moda:]
Só uma pena me existe,
Minha doce saudade:
É olhar para o teu rosto,
Ver-te assim tão pouca idade.

Ver-te assim tão pouca idade,
Ver-te assim tão criancinha;
Só uma pena me existe,
Minha doce jovenzinha.

Só uma pena me existe,
Minha doce saudade:
É olhar para o teu rosto,
Ver-te assim tão pouca idade.

Ver-te assim tão pouca idade,
Ver-te assim tão criancinha;
Só uma pena me existe,
Minha doce jovenzinha.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Arranjo: Monda e Ruben Alves
Intérprete: Monda
Versão original: Monda com Rui Veloso (in CD “Monda”, Monda/TáNaForja, 2016)

Dançando, puleando

Dançando, puleando, brinca mais ele!
Dançando, puleando, brinca mais ela!
Dançando, puleando, brinca mais ele!
És uma rosa amarela!

Anda daí, vem dançar
Em cima deste ladrilho!
Anda agora muito em moda
Colher a flor ao junquilho.

Dançando, puleando, brinca mais ele!
Dançando, puleando, brinca mais ela!
Dançando, puleando, brinca mais ele!
És uma rosa amarela!

Quando eu vejo uma velhinha
Com as saias a arrojar,
Lembra-me a minha avozinha
No seu modesto trajar.

Dançando, puleando, brinca mais ele!
Dançando, puleando, brinca mais ela!
Dançando, puleando, brinca mais ele!
És uma rosa amarela!

Dizem do amor que mata…
Ai quem me dera morrer!
Vale mais morrer de amores
Do que de amores padecer.

Dançando, puleando, brinca mais ele!
Dançando, puleando, brinca mais ela!
Dançando, puleando, brinca mais ele!
És uma rosa amarela!

Dançando, puleando, brinca mais ele!
Dançando, puleando, brinca mais ela!
Dançando, puleando, brinca mais ele!
És uma rosa amarela!…

Letra e música: Tradicional (Baixo Alentejo)
Arranjo: Artesãos da Música
Intérprete: Artesãos da Música
Versão discográfica dos Artesãos da Música (in CD “Puleando”, Artesãos da Música/ARMA, 2012)

De dia sonho contigo

[ Vira do Dia ]

De dia sonho contigo,
À noite aqui te quero;
Esquecer-te não consigo,
De não te ter desespero.

Oh meu amor, quem te vira
Trinta dias cada mês,
Sete dias da semana,
Cada instante uma vez!

Nasce o dia, vem a noite,
Põe-se o Sol, torna-se a pôr;
Vejo-te, torno-te a ver
Cada vez com mais amor.

Nasce o dia, vem a noite,
Põe-se o Sol, torna-se a pôr;
Vejo-te, torno-te a ver
Cada vez com mais amor.

Acordo, sonho contigo,
Fecho os olhos, só te vejo;
Firme como o firmamento
Só o bem que nos desejo.

É num sonho que começa
O amor na vida inteira;
Quem me dera viver sempre
A sonhar desta maneira.

Nasce o dia, vem a noite,
Põe-se o Sol, torna-se a pôr;
Vejo-te, torno-te a ver
Cada vez com mais amor.

Nasce o dia, vem a noite,
Põe-se o Sol, torna-se a pôr;
Vejo-te, torno-te a ver
Cada vez com mais amor.

É num sonho que começa
O amor na vida inteira;
Quem me dera viver sempre
A sonhar desta maneira.

Nasce o dia, vem a noite,
Põe-se o Sol, torna-se a pôr;
Vejo-te, torno-te a ver
Cada vez com mais amor.

Nasce o dia, vem a noite,
Põe-se o Sol, torna-se a pôr;
Vejo-te, torno-te a ver
Cada vez com mais amor.

Letra: Tradicional do Alentejo, Macadame e Catarina Gouveia
Música: Macadame
Intérprete: Macadame
Versão original: Macadame (in Livro/CD “Firmamento”, Macadame, 2016)

Debaixo do lenço azul

[ Maria Campaniça ]

Debaixo do lenço azul com sua barra amarela
os lindos olhos que tem!
Mas o rosto macerado
de andar na ceifa e na monda
desde manhã ao sol-posto,
mas o jeito
de mãos torcendo o xaile nos dedos
é de mágoa e abandono…
Ai Maria Campaniça,
levanta os olhos do chão
que eu quero ver nascer o sol!

Poema: Manuel da Fonseca (in “Rosa-dos-Ventos”, Lisboa: Imprensa Baroeth, 1940; “Poemas Completos”, Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958; “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 3.ª edição, Lisboa: Portugália Editora, 1969 – p. 38; “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 5.ª edição, Lisboa: Forja, 1975 – p. 60)
Música: Paulo Ribeiro
Arranjo: Jorge Moniz
Intérprete: Paulo Ribeiro
Versão original: Paulo Ribeiro (in CD “O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis”, Açor/Emiliano Toste, 2017)

Deixei de olhar p’ra quem fui

[ Cantiga do Tempo Novo ]

Deixei de olhar p’ra quem fui,
Do passado estou ausente;
Às vezes mais vale a pena
Rir de tudo o que faz pena
Da alma triste da gente.

Vou lançar mãos à aventura,
Correr noutra direcção;
Quanto mais nos lamentamos
Ainda mais presos ficamos
E nos dói o coração.

Quando me ponho a pensar
Em alguém que tanto quis,
Já não me sento a chorar
E até me dá p’ra cantar
Modas que um dia lhe fiz.

Agora sinto-me livre,
Sem nada p’ra me prender:
E vou pela estrada fora
Rumo ao sul, vou sem demora,
Basta o sol p’ra me aquecer.

A nossa vida é um mar
Com muitas marés e vagas:
Não temos nada a perder,
O melhor mesmo é viver
Combatendo as nossas mágoas.

Tenho o mundo à minha espera,
Há ilhas por descobrir:
E há uma vontade nova,
Um tempo que se renova,
Novo amor que vai surgir.

Letra e música: Paulo Ribeiro
Arranjo: Há Lobos Sem Ser na Serra
Intérprete: Há Lobos Sem Ser na Serra
Primeira versão do grupo Há Lobos Sem Ser na Serra (in CD “Cantares do Sul e da Utopia”, Há Lobos Sem Ser na Serra/Alain Vachier Music Editions, 2016)
Versão original: Paulo Ribeiro com o Grupo Coral e Etnográfico “Os Camponeses de Pias” (in CD “Aqui Tão Perto do Sol”, EMI-VC, 2002)
Outra versão de Paulo Ribeiro (in CD “Canções 1998-2002”, Paulo Ribeiro, 2014)

Deste-me uma pêra verde

[ Calimero e a Pêra Verde (hanter-dro) ]

Deste-me uma pêra verde,
Estava a meio de amadurar;
Pêra verde, minha verde pêra,
Não me venhas enganar!

Não me venhas enganar!
A mim não me enganas, não!
Pêra verde, minha verde pêra,
Amor do meu coração.

O amor quando se perde
É como a nódoa da amora:
Só com outra amora verde
A nódoa se vai embora.

Deste-me uma pêra verde,
Estava a meio de amadurar;
Pêra verde, minha verde pêra,
Não me venhas enganar!

Não me venhas enganar!
A mim não me enganas, não!
Pêra verde, minha verde pêra,
Amor do meu coração.

Pediste-me uma laranja,
Meu pai não tem laranjal;
Se queres um limão doce
Vai à porta do meu quintal!

Deste-me uma pêra verde,
Estava a meio de amadurar;
Pêra verde, minha verde pêra,
Não me venhas enganar!

Não me venhas enganar!
A mim não me enganas, não!
Pêra verde, minha verde pêra,
Amor do meu coração.

Deste-me uma pêra verde,
Estava a meio de amadurar;
Pêra verde, minha verde pêra,
Não me venhas enganar!

Não me venhas enganar!
A mim não me enganas, não!
Pêra verde, minha verde pêra,
Amor do meu coração.

Letra: Tradicional do Baixo Alentejo (aprendida com Pedro Mestre e o grupo coral feminino “As Papoilas do Corvo”)
Música: Pascale Rubens (para o duo Naragonia) + Tradicional do Baixo Alentejo (aprendida com Pedro Mestre e o grupo coral feminino “As Papoilas do Corvo”)
Intérprete: Celina da Piedade
Versões originais: Celina da Piedade (in 2CD “Em Casa”: CD 1, Celina da Piedade/Melopeia, 2012)
Celina da Piedade com Naragonia (in 2CD “Em Casa”: CD2, Celina da Piedade/Melopeia, 2012)

Diz a laranja ao limão

Diz a laranja ao limão:
“Qual de nós será mais doce?”
Sou fiel ao meu amor,
Assim ele p’ra mim fosse.

Assim ele p’ra mim fosse,
Fiel ao meu coração;
“Qual de nós será mais doce?”,
Diz a laranja ao limão.

Diz a laranja ao limão:
“Qual de nós será mais doce?”
Sou fiel ao meu amor,
Assim ele p’ra mim fosse.

Assim ele p’ra mim fosse,
Fiel ao meu coração;
“Qual de nós será mais doce?”,
Diz a laranja ao limão.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Arranjo: Monda e Ruben Alves
Intérprete: Monda (in CD “Monda”, Monda/Tánaforja, 2016)
Primeira versão: Vitorino (in LP “Não Há Terra Que Resista: Contraponto”, Orfeu, 1979, reed. Movieplay, 1991)

Dizem pr’aí que chegou

[ Maria da Rocha ]

Dizem pr’aí que chegou
A liberdade apressada;
Eu inda não dei por nada,
Continuo sendo o que sou.

No Alentejo eu trabalho
Cultivando a dura terra;
Vou fumando o meu cigarro,
Vou cumprindo o meu horário
Lançando a semente à terra.

Maria da Rocha,
Do alto rochedo.
Quem namora a Rocha,
Quem namora a Rocha
Namora sem medo.

Namora sem medo,
Medo de ninguém.
Maria da Rocha,
Maria da Rocha,
Da Rocha, meu bem.

Quem me dera a lua
Que nasce no mar:
Fosse à tua rua
De véu branco e nua
P’ra te namorar.

P’ra te namorar,
Quem me dera um dia
Guardar o luar
Que tens no olhar,
Meu amor, Maria.

Maria da Rocha,
Do alto rochedo.
Quem namora a Rocha,
Quem namora a Rocha
Namora sem medo.

Namora sem medo,
Medo de ninguém.
Maria da Rocha,
Maria da Rocha,
Da Rocha, meu bem.

Letra: Vitorino (quadra “Dizem pr’aí que chegou”), Popular (Alentejo), e João Monge (quintilhas “Quem me dera a lua” e “P’ra te namorar”)
Música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Duarte
Versão original: Duarte (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018)

Dorme, meu menino d’oiro

[ Aurora Tem um Menino ]

Dorme, meu menino d’oiro!
Oh meu lindo amor!
Não chores a tua sorte,
Oh meu lindo amor!
Oh meu lindo bem!

Que eu de ti nunca me perco,
Oh meu lindo amor!
Minha estrela do norte,
Oh meu lindo amor!
Oh meu lindo bem!

Aurora tem um menino
Mas tão pequenino;
O pai quem será?
É o Zé da Aroeira
Que vai p’rá Figueira,
Mais tarde virá.

No adro de São Vicente,
Onde há tanta gente,
Aurora não está;
Cala-te, Aurora, não chores,
Que o pai da criança
Mais tarde virá!

Cala-te, Aurora, não chores,
Que o pai da criança
Mais tarde virá!

Letra: Tradicional do Alentejo, e Celina da Piedade e Alex Gaspar (duas estrofes iniciais)
Música: Tradicional do Alentejo
Intérprete: Celina da Piedade
Primeira versão de Celina da Piedade (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)

É alegre e sonhadora

[ Andei a guardar o gado ]

É alegre e sonhadora
A canção alentejana:
Cantada ao romper de aurora
Nas margens do Guadiana.

Andei a guardar o gado
Em tempos que já lá vão:
Deixei a vida do campo,
Trabalho na construção.

Trabalho na construção,
Já não me encosto ao cajado;
Em tempos que já lá vão
Andei a guardar o gado.

O Alentejo é que é
O celeiro da nação;
Nós somos alentejanos,
Somos da terra do pão.

Andei a guardar o gado
Em tempos que já lá vão:
Deixei a vida do campo,
Trabalho na construção.

Trabalho na construção,
Já não me encosto ao cajado;
Em tempos que já lá vão
Andei a guardar o gado.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD2, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)

É linda a dama a dançar

[ A vinda do rei a Beja ]

É linda a dama a dançar
É linda a rosa em botão
É lindo o Sol a raiar
Na linda manhã de Verão

Ai que festa! Que linda festa!
Como esta não se usou
A vinda do Rei a Beja
Foi o que mais m’agradou

Viva o Rei, viva a Rainha
Vivam todos com prazer
Uma festa como esta
Já Beja não torna a ver

Desejava, desejava
Ninguém sabe o meu desejo
Desejava, linda rosa
Em teu rosto dar um beijo

(Popular – Baixo Alentejo)

É tão lindo ver no campo

[ Trigueirinha alentejana ]

É tão lindo ver no campo
Tão linda ceifando
Trigueirinha alentejana
Numa mão levas a foice
Tão linda ceifando
Noutra canudos de cana

Com seu traje à camponesa
Tão linda ceifando
Sempre de chapéu ao lado
Cantando lindas cantigas
Tão linda ceifando
As espigas do pão sagrado

(Popular – Alentejo)

Entrai, pastores

Entrai, pastores, entrai
Por este portal sagrado!
Vinde ver o Deus-Menino
Entre palhinhas deitado!

Li, ai li, ai li, ai lé!
Jesus, Maria, José.

Entre os portais de Belém
Está uma árvore de Jassé,
Com três letrinhas que dizem:
Jesus, Maria, José.

Li, ai li, ai li, ai lé!
O Menino nascido é.

Letra e música: Tradicional (Peroguarda, Ferreira do Alentejo, Baixo Alentejo)
Recolha: Michel Giacometti (“Entrai, pastores, entrai”, in LP “Alentejo”, série “Antologia da Música Regional Portuguesa”, Arquivos Sonoros Portugueses/Michel Giacometti, 1965; 5CD “Portuguese Folk Music”: CD 4 – Alentejo, Strauss, 1998; 6CD “Música Regional Portuguesa”: CD 5 – Alentejo, col. Portugal Som, Numérica, 2008)
Intérprete: Cardo-Roxo (in CD “Alvorada”, Cardo-Roxo, 2015)

Estando eu na minha loja

[ João Brandão ]

Estando eu na minha loja,
Encostado ao meu balcão,
Mais brando…
Encostado ao meu balcão,

Ouvi uma voz dizer:
«Vais preso, João Brandão!»
Mais brando…
«Vais preso, João Brandão!»

Passarinho prisioneiro,
Pela tua liberdade;
Mais brando…
Pela tua liberdade.

Eu cantando peço a Deus:
Não haja aqui falsidade!
Mais brando…
Não haja aqui falsidade!

Estando eu na minha loja,
Encostado ao meu balcão,
Mais brando…
Encostado ao meu balcão,

Ouvi uma voz dizer:
«Vais preso, João Brandão!»
Mais brando…
«Vais preso, João Brandão!»
Mais brando…
«Vais preso, vais p’rá prisão!»

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Arranjo: Há Lobos Sem Ser na Serra
Intérprete: Há Lobos Sem Ser na Serra
Primeira versão do grupo Há Lobos Sem Ser na Serra (in CD “Cantares do Sul e da Utopia”, Há Lobos Sem Ser na Serra/Alain Vachier Music Editions, 2016)

Eu aprendi a cantar

[ Mondadeira Alentejana ]

[Cantiga primeira:]

Eu aprendi a cantar
Lavrando em terra molhada,
Lá na solidão dos campos
Pensando em ti minha amada.

[Moda:]

Mondadeira alentejana
Com seu lenço tapa o rosto:
Anda à calma, chuva e vento
Desde o nascer ao sol-posto.

Desde o nascer ao sol-posto,
Do trabalho nasce a fama;
Com seu lenço tapa o rosto,
Mondadeira alentejana.

[Cantiga segunda:]

É alegre e sonhadora
A canção alentejana:
Cantada ao romper de aurora
Nas margens do Guadiana.

[Moda:]

Mondadeira alentejana
Com seu lenço tapa o rosto:
Anda à calma, chuva e vento
Desde o nascer ao sol-posto.

Desde o nascer ao sol-posto,
Do trabalho nasce a fama;
Com seu lenço tapa o rosto,
Mondadeira alentejana.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde”* (in CD “É Tão Grande o Alentejo”, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 1997; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD 2, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)

* Ponto – Manuel Pancadas
Alto – Manuel Pontes

Eu ia não sei p’ra onde

[ Que Bonito Que Seria ]

Eu ia não sei p’ra onde,
Encontrei não sei quem era:
Encontrei o mês de Abril
Procurando a Primavera.

Que bonito que seria
Se houvesse compreensão:
Os Homens não se matavam
E davam-se como irmãos.

É tão linda a liberdade
Até que chegou o dia;
Se houvesse compreensão
Então, que bonito que seria!

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Arranjo: Há Lobos Sem Ser na Serra
Intérprete: Há Lobos Sem Ser na Serra
Primeira versão do grupo Há Lobos Sem Ser na Serra (in CD “Cantares do Sul e da Utopia”, Há Lobos Sem Ser na Serra/Alain Vachier Music Editions, 2016)

Eu ouvi um passarinho

[ Alentejo ]

1. Eu ouvi um passarinho
às quatro da madrugada,
Cantando lindas cantigas
à porta da sua amada.

2. Ao ouvir cantar tão bem
a sua amada chorou.
Às quatro da madrugada
o passarinho cantou.

3. Alentejo quando canta,
vê quebrada a solidão;
traz a alma na garganta
e o sonho no coração.

4. Alentejo, terra rasa,
toda coberta de pão;
a sua espiga doirada
lembra mãos em oração.

Eu só quero que me fales

[ Afã ]

Eu só quero que me fales
De cantigas e de vinho;
Deixa lá e não te rales,
Deus perdoa o descaminho!

Eu só quero que me fales
De cantigas e de vinho;
Deixa lá e não te rales,
Deus perdoa o descaminho!

Deixa essa gente vã
Com conversas e intrigas.
Elas não interessam nada
Pois o meu maior afã
É beber minha golada
De vinho na tarde vã,
Ao som de belas cantigas.

Poema: Al-Mu’tamid (1040-1095); trad. Adalberto Alves (in “O Meu Coração É Árabe: A Poesia Luso-Árabe”, Lisboa: Assírio & Alvim, 1987, 2.ª edição, 1991 – p. 151)
Música: Paulo Ribeiro e Pedro Frazão
Arranjo: Há Lobos Sem Ser na Serra
Intérprete: Há Lobos Sem Ser na Serra
Primeira versão do grupo Há Lobos Sem Ser na Serra (in CD “Cantares do Sul e da Utopia”, Há Lobos Sem Ser na Serra/Alain Vachier Music Editions, 2016) [gravado na sala A Bruxa Teatro, Évora, Fev. 2017 ]
Versão original: Anonimato (in CD “Anonimato”, Heaven Sound, 1993)
Outras versões: Paulo Ribeiro (in CD “Aqui Tão Perto do Sol”, EMI-VC, 2002); Paulo Ribeiro (in CD “Canções 1998-2002”, Paulo Ribeiro, 2014)

Eu subi àquele monte

[ Altinho ]

Eu subi àquele monte
para ver se te esquecia;
Quanto mais alta estava
mais o meu amor crescia.

Quero ir para o altinho
que eu daqui não vejo bem;
Quero ir ver o meu amor
se ele adora mais alguém.

Se ele adora mais alguém,
se ele me ama a mim sozinha,
que eu daqui não vejo bem,
quero ir para o altinho.

que eu daqui não vejo bem,
quero ir para o altinho.

Letra: Tradicional do Alentejo, e Celina da Piedade e Alex Gaspar (quadra “Eu subi àquele monte”)
Música: Tradicional do Alentejo, e Toon Van Mierlo e Pascale Rubens
Intérprete: Celina da Piedade
Primeira versão de Celina da Piedade (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)

Évora doce

Évora doce
Negro vestido
Por capelinhas
Cercada d’ouro
Trigo em tesouro
Mulher rainha

Guardas histórias
Guerras e amores
Por ti vividas
E tens no quarto
Cercando a praça
Mil avenidas

São tuas mágoas
Que são escutadas
Quando da Sé
Por entre as horas
Amargurada
Bates o pé

E os teus cabelos
Ficam mais belos
Quando tu vês
Capas traçadas
Numa guitarra
Cantando o que és

Évora doce
Negro vestido
Por capelinhas
Cercada d’ouro
Trigo em tesouro
Mulher rainha

Envergonhada
Se o Alentejo
Lhe pede um beijo
E às escondidas
P’ra ninguém ver
Mata o desejo

Letra e música: Duarte
Intérprete: Duarte (in CD “Aquelas coisas da Gente”, JBJ & Viceversa, 2009)
Primeira versão: Duarte (in CD “Fados Meus”, Ovação, 2004)

Fez sábado quinta-feira

Fez sábado quinta-feira,
P’ra lá d’Évora três semanas,
Estive dez dias num Verão
Nas Américas Romanas.

Embarquei em dois caleiros
Na baía de Lisboa;
Arribei, fui dar a Goa,
Desembarquei em Alenquer;
Casei com sete mulheres,
Falta uma p’rá primeira;
Fui dar à Ilha Terceira,
Com três dias numa hora;
Abalei e vim-me embora,
Fez sábado quinta-feira.

Agarrei nos alforginhos,
Pus um pão em quatro enxacas,
Na gamela duas vacas
E na borracha toucinho;
Um açafate com vinho,
Trinta metros de banana;
Dei passos à americana,
Fui passar a Ayamonte;
Abalei hoje, cheguei ontem
P’ra lá d’Évora três semanas.

Eu já estive em Erapouca,
Numa ocharia empregado;
Foi-se um carro carregado
Numa abóbora canoca;
Um mosquito com um boi na boca
Cem léguas em proporção;
Atirei-lhe um bofetão
Que pelo ar o fez ir;
À espera dele cair
Estive dez dias num Verão.

Fui soldado, assentei praça
No 15 de Sapadores;
Maquinista de vapores
Na carreira de Alcobaça;
Venci o Forte da Graça,
Também a Vila de Terena
E as províncias arraianas,
Venci toda a nobrezia;
Bati-me com a Turquia
Nas Américas Romanas.

Fez sábado quinta-feira,
P’ra lá d’Évora três semanas,
Estive dez dias num Verão
Nas Américas Romanas.

Letra: Popular
Música: José Manuel David
Arranjo e direcção musical: José Manuel David
Intérprete: Gaiteiros de Lisboa com Luís Espinho e João Paulo Sousa (Adiafa) (in CD “Avis Rara”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2012)

Foi Conde da Vidigueira

[ Conde da Vidigueira ]

Foi Conde da Vidigueira
Um herói alentejano
Com seus barcos de madeira
Não temeu o oceano

Esse herói de grande fama
Na Índia içou bandeira
O grande Vasco da Gama
Foi Conde da Vidigueira

(Popular – Vidigueira, Baixo Alentejo)

Folheia-se o caderno e eis o sul

[ Alentejo ]

Folheia-se o caderno e eis o sul
E o sul é a palavra. E a palavra
Desdobra-se
No espaço com suas letras de
Solstício e de solfejo
Além de ti
Além do Tejo

Verás o rio e talvez o azul
Não o de Mallarmé: soma de branco e de vazio
Mas aquela grande linha onde o abstracto
Começa lentamente a ser o
Sul

Outro é o tempo
Outra a medida

Tão grande a página
Tão curta a escrita

Entre o achigã e a perdiz
Entre chaparro e choupo

Tanto país
E tão pouco

Solidão é companheira
E de senhor são seus modos
Rei do céu de todos
E de chão nenhum

À sombra de uma azinheira
Há sempre sombra para mais um

Na brancura da cal o traço azul
Alentejo é a última utopia

Todas as aves partem para o sul
Todas as aves: como a poesia

Manuel Alegre (Alentejo e ninguém)

Gosto muito dos teus olhos

[ O Mocho ]

Gosto muito dos teus olhos, ó Maria,
Muito mais gosto dos meus;
Se não fossem os meus olhos, ó Maria,
Não podia amar os teus.

O triste do mocho piava,
Ó lari, lariava,
Em cima da melancia, ó Maria;
Maria, Maria, Maria Capitôa
Dos montes, tiroli, ó terrim, tim, tim;
As mulheres são a alegria de mim.

Eu não quero mais amar, ó Maria,
Que eu do amar tenho medo;
Eu não quero arriscar, ó Maria,
A pagar o que eu não devo.

O triste do mocho piava,
Ó lari, lariava,
Em cima da melancia, ó Maria;
Maria, Maria, Maria Capitôa
Dos montes, tiroli, ó terrim, tim, tim;
As mulheres são a alegria de mim.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Arranjo: Monda
Intérprete: Monda (in CD “Monda”, Monda/Tánaforja, 2016)

Grândola, vila morena

Grândola, vila morena,
terra da fraternidade,
o povo é quem mais ordena
dentro de ti, ó cidade.

Dentro de ti, ó cidade,
o povo é quem mais ordena,
terra da fraternidade,
Grândola, vila morena.

Em cada esquina um amigo,
em cada rosto igualdade,
Grândola, vila morena,
t erra da fraternidade.

Terra da fraternidade,
Grândola, vila morena,
em cada rosto igualdade,
o povo é quem mais ordena.

À sombra duma azinheira
que já não sabia a idade,
jurei ter por companheira,
Grândola, a tua vontade.

Grândola, a tua vontade
jurei ter por companheira,
à sombra duma azinheira
que já não sabia a idade.

Letra e música: José Afonso
Intérprete: José Afonso (in “Cantigas do Maio”, Orfeu, 1971; reed. Movieplay, 1987)

Há ondas, meu bem

[ Sou das Ondas ]

Há ondas, meu bem, há ondas,
Há ondas sem ser no mar:
Há ondas no teu cabelo,
Há ondas no teu olhar.

Sou das ondas, sou das ondas,
Sou das ondas, sou do mar;
Meu amor já me deixou,
Meu amor vai-me deixar.

Nas ondas do mar, lá fora,
Aprendi eu a cantar
Numa barquinha doirada,
Ó meu bem, a navegar.

Há ondas, meu bem, há ondas,
Há ondas sem ser no mar:
Há ondas no teu cabelo,
Há ondas no teu olhar.

Sou das ondas, sou das ondas,
Sou das ondas, sou do mar;
Meu amor já me deixou,
Meu amor vai-me deixar.

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Intérprete: Paulo Ribeiro

Há um sobreiro velhinho

[ Sobreiro Velhinho ]

Há um sobreiro velhinho
Que nasceu à meia-encosta:
É a casa dos pardais,
Malhada dos animais,
Faz sombra que o pastor gosta.

Faz sombra que o pastor gosta
Nos dias quentes de Verão;
Põe o seu gado ao acarro,
Da cortiça faz um tarro,
Corta a lenha, faz carvão.

Corta a lenha, faz carvão
E nasce um novo raminho
Da Primavera ao Inverno;
Deus queira que seja eterno,
Há um sobreiro velhinho.

O sobreiro é obrigado
A sustentar a cortiça;
Quem não ama de vontade,
Seja qual for a idade,
Não se obriga por justiça.

Há um sobreiro velhinho
Que nasceu à meia-encosta:
É a casa dos pardais,
Malhada dos animais,
Faz sombra que o pastor gosta.

Faz sombra que o pastor gosta
Nos dias quentes de Verão;
Põe o seu gado ao acarro,
Da cortiça faz um tarro,
Corta a lenha, faz carvão.

Corta a lenha, faz carvão
E nasce um novo raminho
Da Primavera ao Inverno;
Deus queira que seja eterno,
Há um sobreiro velhinho.

Letra e música: Martinho Marques
Arranjo: José Manuel David
Intérprete: Pedro Mestre com Pedro Calado & Rancho de cantadores de Aldeia Nova de São Bento (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015)
Outra versão de Pedro Mestre com Pedro Calado & Rancho de cantadores de Aldeia Nova de São Bento (in DVD “No CCB: Pedro Mestre & Convidados”, Pedro Mestre, 2017)

Já lá vem o Sol nascendo

[ Sarapateado ]

Já lá vem o Sol nascendo
Por entre as nuvens sombrias;
Como pode o Sol ser velho
Se nasce todos os dias?

Se eu for presa por cantar
Não calarei a garganta!
Eu sou como o passarinho
Que até na gaiola canta.

Ai sim, meu bem, sarapatear!
Quem quiser bailar traga bom calça…,
Traga bom calça…, traga bom calçado!
Ai sim, meu bem, sarapateado.

Meu coração é um quarto
Que tudo lhe cabe dentro:
Vai ouvindo, arrecadando…
Falará quando for tempo.

Ai sim, meu bem, sarapatear!
Quem quiser bailar traga bom calça…,
Traga bom calça…, traga bom calçado!
Ai sim, meu bem, sarapateado.

Semeei no meu jardim…
Só cravos são mais de mil;
Os cravos que lá nasceram
São cravos do mês de Abril.

Ai sim, meu bem, sarapatear!
Quem quiser bailar traga bom calça…,
Traga bom calça…, traga bom calçado!
Ai sim, meu bem, sarapateado.

Ai sim, meu bem, sarapatear!
Quem quiser bailar traga bom calça…,
Traga bom calça…, traga bom calçado!
Ai sim, meu bem, sarapateado.

Letra e música: Tradicional (Baixo Alentejo)
Recolhas: José Alberto Sardinha (1984, “Portugal – Raízes Musicais”: CD5 – Estremadura, Ribatejo e Alentejo, BMG/JN, 1997) e José Leite de Vasconcelos (quadras “Já lá vem o Sol nascendo”, “Meu coração é um quarto” e “Semeei no meu jardim”, in “Cancioneiro Popular Português”, 3 vols., Coimbra: Universidade de Coimbra, 1975-1984)
Intérprete: Macadame (ao vivo no Teatro da Luz, Lisboa)
Primeira versão de Macadame (in Livro/CD “Firmamento”, Macadame, 2016)

Já são horas da merenda

Já são horas da merenda;
Ai, vamo-nos a merendar
Gaspachinho com vinagre,
Ai, para o peito refrescar!

Já se vai o Sol a pôr
Ai, para trás do cabecinho;
Bem quisera o nosso amo
Ai, prendê-lo c’um baracinho.

Já são horas da merenda;
Ai, vamo-nos a merendar
Gaspachinho com vinagre,
Ai, para o peito refrescar!

Já se vai o Sol a pôr
Ai, para trás do cabecinho;
Bem quisera o nosso amo
Ai, prendê-lo c’um baracinho.

Letra e música: Tradicional
Recolha: Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça
Intérprete: Macadame
Primeira versão de Macadame (in Livro/CD “Firmamento”, Macadame, 2016)

Lá nos campos

[ Eu fui apanhar marcela ]

Lá nos campos, verdes campos
Eu fui apanhar marcela
Daquela mais miudinha
Daquela mais amarela

Daquela mais amarela
Daquela mais miudinha
Lá nos campos, verdes campos
A marcela, a marcelinha

(Popular – Alentejo)

Lá traz a cegonha

[ Popular alentejana ]

Lá traz a cegonha
no bico o raminho.
Que seja bem-vinda
branquinha, tão linda
ao seu velho ninho.

Senhora cegonha,
como tem passado?
Não há quem a veja
voar p’rá Igreja,
pousar no telhado.

Quando chega o Outono
e o bando levanta,
anuncia a hora
que se vai embora,
leva a meia branca.

Lá vai Serpa, lá vai Moura

[ Se Fores ao Alentejo ]

Lá vai Serpa, lá vai Moura
E as Pias ficam no meio;
Em chegando à minha terra
Não há que haver arreceio.

Não há que haver arreceio,
Lá vai Serpa, lá vai Moura,
Lá vai Serpa, lá vai Moura
E as Pias ficam no meio.

Se fores ao Alentejo,
Não leves vinho nem pão!
Leva o coração aberto
E o teu filho pela mão!

Se fores ao Alentejo,
Não leves vinho nem pão!
Leva a rosa da justiça
E o teu filho pela mão!

Lá vai Serpa, lá vai Moura
E as Pias ficam no meio;
Em chegando à minha terra
Não há que haver arreceio.

Não há que haver arreceio,
Lá vai Serpa, lá vai Moura,
Lá vai Serpa, lá vai Moura
E as Pias ficam no meio.

Letra: Popular (Baixo Alentejo) e Eduardo Olímpio
Música: Edmundo Silva
Intérprete: Francisco Naia (in CD “Francisco Naia e a Ronda Campaniça”, Francisco Naia/Ovação, 2012)

Lá vai uma embarcação

Lá vai uma embarcação
Por esses mares fora;
Por aqueles que lá vão
Há muita gente que chora.

Há muita gente que chora
Com mágoas no coração;
Por esses mares fora
Lá vai uma embarcação.

Ó mar alto, ó mar alto,
Ó mar alto sem ter fundo!
Mais vale andar no mar alto
Que nem nas bocas do mundo.

Lá vai uma embarcação
Por esses mares fora;
Por aqueles que lá vão
Há muita gente que chora.

Há muita gente que chora
Com mágoas no coração;
Por esses mares fora
Lá vai uma embarcação.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in CD “O Círculo Que Leva a Lua”, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2003; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD2, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)
Outra versão: Rão Kyao & Os Ganhões de Castro Verde (in CD “Rão Kyao & Riccardo Tesi: Live in Sete Sóis”, Associação Sete Sóis Sete Luas, 2005)

Lembra-me o tempo passado

[ O Almocreve ]

Lembra-me o tempo passado,
Tudo se vai acabando:
O boi puxando o arado,
O almocreve cantando…

O almocreve cantando
Semeando o verde prado.
Quando vejo alguém lavrando
Lembra-me o tempo passado.

A vida do almocreve
É uma vida arriscada:
Ao descer uma ladeira,
Ao cerrar duma carrada.

Lembra-me o tempo passado,
Tudo se vai acabando:
O boi puxando o arado,
O almocreve cantando…

O almocreve cantando
Semeando o verde prado.
Quando vejo alguém lavrando
Lembra-me o tempo passado.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in CD “Modas”, Robi Droli, 1994; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD1, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)

Linda cara que tu tens

[ Fadinho Alentejano ]

Linda cara que tu tens, já sei,
Quando chegas noite fora.
À espera à porta de casa,
Está o teu pai que te adora.

Lindos olhos tem o mocho, piu,
Quando a noite vem chegando.
P’ra deixar passar a noite,
Uma moda eu vou cantando.

Muda a água às azeitonas,
Rega bem os teus tomates,
Tem lá cuidado com a horta!
O cravo já está no vaso,
Sim, senhora, por acaso.

Abalaste para Lisboa, pois,
Deixaste-me ao pé da porta.
Tu seguiste o teu caminho,
A minha alma ficou torta.

Quando cheguei ao Barreiro, já fui,
Lisboa estava fechada.
Voltei p’ra casa a cantar,
Uma vida abençoada.

Muda a água às azeitonas,
Rega bem os teus tomates,
Tem lá cuidado com a horta!
O cravo já está no vaso,
Sim, senhora, por acaso.

Letra e música: Paulo de Carvalho
Intérprete: Ricardo Ribeiro
Versão original: Ricardo Ribeiro com o Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in CD “Hoje É Assim, Amanhã Não Sei”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2016)

Maldita sociedade

[ Camponês Alentejano ]

Maldita sociedade,
Estás tão mal organizada:
Quem não trabalha tem tudo,
Quem trabalha não tem nada!

Camponês alentejano,
Camponês agricultor:
Tu trabalhas todo o ano,
Dás produto ao lavrador.

Dás produto ao lavrador,
Tua vida é um engano:
É tão triste o teu valor,
Camponês alentejano!

Todo o homem que trabalha
Não deve nada a ninguém:
Aquele que nada faz
Deve tudo quanto tem.

Camponês alentejano,
Camponês agricultor:
Tu trabalhas todo o ano,
Dás produto ao lavrador.

Dás produto ao lavrador,
Tua vida é um engano:
É tão triste o teu valor,
Camponês alentejano!

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in CD “É Tão Grande o Alentejo”, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 1997; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD2, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)

Mariana canta ao despique

[ Ti Mariana ]

Mariana canta ao despique:
Fez do cante a sua lida,
Ali p’rós lados de Ourique,
Nessa planície perdida.

Nessa planície perdida,
Nesse Alentejo adorado,
Ti Mariana achou a vida
E fez do cante o seu fado.

E fez do cante o seu fado,
Cantando com o coração;
As modas vão dando brado
Ao velho estilo baldão.

Quem canta seu mal espanta,
É o ditado que o diz;
Cantar afina a garganta,
Povo que canta é feliz.

Mariana canta ao despique:
Fez do cante a sua lida,
Ali p’rós lados de Ourique,
Nessa planície perdida.

Nessa planície perdida,
Nesse Alentejo adorado,
Ti Mariana achou a vida
E fez do cante o seu fado.

E fez do cante o seu fado,
Cantando com o coração;
As modas vão dando brado
Ao velho estilo baldão.

A viola campaniça,
Em meus dedos dedilhando,
Acompanha sem preguiça
Qualquer Mariana cantando.

Mariana canta ao despique:
Fez do cante a sua lida,
Ali p’rós lados de Ourique,
Nessa planície perdida.

Nessa planície perdida,
Nesse Alentejo adorado,
Ti Mariana achou a vida
E fez do cante o seu fado.

E fez do cante o seu fado,
Cantando com o coração;
As modas vão dando brado
Ao velho estilo baldão.

Letra: Rosa Guerreiro Dias
Música: José Manuel David
Intérprete: Pedro Mestre (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015)

Menina estás à janela

Menina estás à janela
Com o teu cabelo à lua
Não me vou daqui embora
Sem levar uma prenda tua

Sem levar uma prenda tua
Sem levar uma prenda dela
Com o teu cabelo à lua
Menina estás à janela

Os olhos requerem olhos
E os corações, corações
E os meus requerem os teus
Em todas as ocasiões

Letra e música: Popular (Alentejo)
Recolha e adaptação: Vitorino
Intérprete: Vitorino
Versão original: Vitorino (in “Semear Salsa ao Reguinho”, Orfeu, 1975; reed. Movieplay, 1999)
Versão instrumental: Opus Ensemble (in “Temas do cancioneiro Português”, EMI Classics, 1987; reed. 1998)

Mértola dormia frente ao Guadiana

[ Em Mértola ]

Mértola dormia frente ao Guadiana
branca, branca, branca
torre de menagem, torre de vigia
de quem mais se ama
iam nas pedrinhas, pequeninos rios
do suor da terra alentejana
para lá dos montes, pertinho da raia
onde a terra passa a ser estranha

Com um sol a pique frente a uma mesquita
branca, branca, branca
subindo ao castelo, subindo à vigia
vendo o panorama
pr’além das muralhas, para aquém dos montes
prendiam-se os olhos à bonita
ficavam nos verdes, ficavam nos brancos
ficavam nos tempos da Moirama

Suando pestanas, frente a uma cegonha
branca, branca, branca
Mértola corria frente ao Guadiana
por quem se derrama
o sol que há nos olhos, o mel que há no peito
a dor que há no corpo de quem sonha
com o sabor das ervas, no cheiro das águas
no voltar a ver a quem mais se ama

Ia viajante frente à moradia
branca, branca, branca
ia sendo moira, noiva tão serena
e alma cigana
o lenço voando, batia no rosto
no silêncio olhava o que não via
para lá da terra, para lá dos montes
nunca mais veria a tarde calma

Mértola dormia frente ao Guadiana
branca, branca, branca
torre de vigia, torre de menagem
a quem mais se ama
iam nas pedrinhas, pequeninos rios
do amor à terra alentejana
para lá dos montes, pertinho da raia
onde a terra passa a ser Espanha

Poema e música: Teresa Muge
Intérprete: Amélia Muge (in CD “Múgica”, UPAV, 1992)

Minha mãe, estou de abalada

[ Minha Mãe, Sou um Mainante ]

Minha mãe, estou de abalada:
Parto já, neste instante;
Adeus, minha mãe amada,
Vou p’rá vida de mainante.

De manta ao ombro e bordão,
Trilho caminhos de amargura:
Tenho fome, não tenho pão,
Durmo assim na noite escura.

Rompe o sol de manhãzinha
E o povoado é distante:
Cantando p’ra ti, mãezinha,
Esta vida de mainante.

As lágrimas não me apagam
As queixas e os martírios:
Só as estrelas acalmam,
À noite, os meus delírios.

De manta ao ombro e bordão,
Trilho caminhos de amargura:
Tenho fome, não tenho pão,
Durmo assim na noite escura.

Rompe o sol de manhãzinha
E o povoado é distante:
Cantando p’ra ti, mãezinha,
Esta vida de mainante.

O meu chão é chão barrento
Pisado com ternura,
De quem dorme ao relento
E faz dele a sepultura.

Letra: Romão Janeiro
Música: Paulo Ribeiro
Intérprete: Paulo Ribeiro
Versão original: Grupo Coral “Os Mainantes” de Pias (in CD “Entre Mestres e Aprendizes”, de Grupo Coral e Etnográfico “Os Camponeses de Pias” & “Os Mainantes”, Açor/Emiliano Toste, 2016)

Moreninha alentejana

– Moreninha alentejana,
quem te fez, morena, assim?
– Foi o sol da Primavera
que caía sobre mim.

Que caía sobre mim,
que andava a ceifar o trigo.
– Moreninha alentejana,
por que não casas comigo?

Por que não casas comigo?
Por que não casas com ela?
– Quem te fez, morena, assim?
– Foi o sol da Primavera.

Morreu Francisco Romão

[ Francisco Romão ]

Morreu Francisco Romão
Que pelas ruas cantava;
Já morreu aquele amigo
Que era quem tanto estimava.

Que era quem tanto estimava,
Que era quem estimava tanto.
Morreu Francisco Romão,
Já pelas ruas não canto.

Morreu Francisco Romão
Que pelas ruas cantava;
Já morreu aquele amigo
Que era quem tanto estimava.

Que era quem tanto estimava,
Que era quem estimava tanto.
Morreu Francisco Romão,
Já pelas ruas não canto.

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Arranjo: Há Lobos Sem Ser na Serra
Intérprete: Há Lobos Sem Ser na Serra* (in CD “Cantares do Sul e da Utopia”, Há Lobos Sem Ser na Serra/Alain Vachier Music Editions, 2016)

TERRA

Luz que actua

[ Gaia de Saia ]

Luz que actua, Lua cheia em ti, faz querer viver mais
Expões o corpo receptivo à noite, dons de fértil musa

Iluminar põe o clima a subir, noite de clara Lua
Numa dança de saia rodada a sorrir, que essa tua vida é tua

Mãe dos homens que gera vida e luz
Gaia Deusa, musa, Mulher nua
Não se tomba, não se deixa cair
Que essa tua, que essa tua vida, que essa tua vida é tua

Mãos de força vergam o tempo a teimar, a lutar sem desistir
Tais direitos nem se devem questionar, direito a se expressar

Ser um ventre e um colo protector, e voluntária na sua dor
Ser mulher é existir entre os iguais, é resistir muito mais

Mãe dos homens que gera vida e luz
Gaia Deusa, musa, Mulher nua
Não se tomba, nem se deixa cair
Que essa tua vida é tua, vida é tua

Mãe dos homens que gera vida e luz
Gaia Deusa, Mulher nua
Não se tomba, nem se deixa cair
Que essa tua, que essa tua vida, que essa tua vida é tua

Letra e música: Luís Pucarinho
Intérprete: Luís Pucarinho* (in CD “SaiArodada”, Luís Pucarinho/Alain Vachier Music Editions, 2018)

Nunca Marta pressentiu

[ Marta Encruzilhada ]

Nunca Marta pressentiu
A reboque bem sentada
Que o trilho que faz um desvio
Fosse dar à sua estrada

Nunca o sol a torriscou
Nunca à chuva foi molhada
Nunca ao vento esteve ao frio
E nunca a pé foi pela estrada

E nunca o bem esteve tão mal
E nunca o mal veio de frente
Não se faz vida do nada
Não se faz do nada gente

E não se faz do nada gente

E nesse trilho com desvio
O seu reboque não passava
E nunca antes Marta sentiu
E nunca a pé foi pela estrada

E nunca o sol a torriscou
E nunca à chuva foi molhada
E nunca ao vento esteve ao frio
E nunca a pé foi pela estrada

E nunca o bem esteve tão mal
E nunca o mal veio de frente
E não se faz vida do nada
E não se faz do nada gente

E não se faz do nada gente
E não se faz…

E nunca o sol a torriscou
Nunca à chuva foi molhada
Nunca ao vento esteve ao frio
E nunca a pé foi pela estrada

E nunca o bem esteve tão mal
E nunca o mal veio de frente
E não se faz vida do nada
E não se faz do nada gente

E nunca o sol a torriscou
Nunca à chuva foi molhada
Nunca ao vento esteve ao frio
E nunca a pé foi pela estrada

E nunca o bem esteve tão mal
E nunca o mal veio de frente
Não se faz vida do nada
E não se faz do nada gente

Letra e música: Luís Pucarinho
Intérprete: Luís Pucarinho* (in CD “SaiArodada”, Luís Pucarinho/Alain Vachier Music Editions, 2018)

Luís Pucarinho, SaiArodada

* Luís Pucarinho – guitarras e voz
Afonso Castanheira – contrabaixo
Jéssica Pina – trompete
Mário Lopes – bateria e pad
Ideia original e produção – Luís Pucarinho
Gravado em A’MAR Estúdios (Baleal, Peniche), Estúdio Azul (Évora), Estúdio Nuno e Jaime Romano (Alcácer do Sal) e Estúdio Pé-de-Vento (Foros de Salvaterra, Salvaterra de Magos), de 2016 a 2018
Mistura – Luís Pucarinho e Fernando Nunes (Estúdio Pé-de-Vento)
Masterização – Fernando Nunes

Na sociologia do vinho

Na sociologia do vinho
é que se brinda!
É de azeite a gordura
que agradece
a quentura da lã
ventre de linho
e o gosto da azeitona
verde, verde.

No suor do cajado
lã de ovelha
firma-se o peito, esteva
velha.

Nas patas do rafeiro é
que se alonga
a geometria do sul
desfeita em cal
e a rijeza dos nervos já
perdida.

A cegonha já acena um
bater de asas.
Sangrado o campo, mirradas
são as casas.
Não são homens; são sombra
toda sal,
Só vultos de lentidão
ferida.

É no traço do sul que mais
se acolhe
o ermo das lonjuras
desenhadas:
A sombra, o silêncio
e a tristeza
de tristezas mal
balbuciadas.

Geométrico sul, cal
e planura
Loiro de água verde
adormecida.
Quem te dará um alento
uma saída
de alma clara em
escancarada alvura?

Só no cantar do sul
o tempo dura…

Letra: Afonso Dias
Intérprete: Afonso Dias (in CD “Geometria do Sul”, Edere, 2002)

Namorei sempre à tardinha

[ A Moda do Chegadinho ]

Namorei sempre à tardinha
Certas moças da minha aldeia:
Fosse magra, fosse gordinha,
Bonita ou menos feia.

Chegadinha, chegadinha a mim,
Chegadinho, chegadinho a ela;
Chegadinho, chegadinha, chegadinhos
Ao postigo e à janela.

Brinquei com uma, brinquei com duas,
Duas, três, quatro ou cinco;
Brinquei contigo, brinquei com ela,
Já sou casado e agora já não brinco.

Chegadinha, chegadinha a mim,
Chegadinho, chegadinho a ela;
Chegadinho, chegadinha, chegadinhos
Ao postigo e à janela.

Sou casado e com juízo,
Mas não deixo de pensar
Quando vejo moças catitas
À janela a namorar.

Chegadinha, chegadinha a mim,
Chegadinho, chegadinho a ela;
Chegadinho, chegadinha, chegadinhos
Ao postigo e à janela.

Letra e música: Francisco Naia
Intérprete: Francisco Naia (in CD “Francisco Naia e a Ronda Campaniça”, Francisco Naia/Ovação, 2012)

Namorei uma costureira

[ Zuca, Zuca ]

Namorei uma costureira
Pelo buraco da chave;
Ela estava zuca, zuca,
Ela estava zuca, zuca;
“Esta porta não se abre!”

“Esta porta não se abre,
Ela é muito má de abrir!”
Ela estava zuca, zuca,
Ela estava zuca, zuca,
E a mamã estava dormir.

A mamã estava a dormir,
E a mamã estava deitada;
Ela estava zuca, zuca,
Ela estava zuca, zuca,
Era já de madrugada.

Era já de madrugada,
Era ao nascer do Sol;
Ela estava zuca, zuca,
Ela estava zuca, zuca,
E o cu dela era um fole.

O cu dela era um fole
E a barriga era um sarilho;
Ela estava zuca, zuca,
Ela estava zuca, zuca
Com o dedo no gatilho.

Letra e música: Tradicional (Baixo Alentejo)
Adaptação: Pedro Mestre
Arranjo: José Manuel David
Intérprete: Pedro Mestre* (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015)
Outra versão de Pedro Mestre (in DVD “No CCB: Pedro Mestre & Convidados”, Pedro Mestre, 2017)

Não é a ceifa que mata

Terra Sagrada do Pão

Não é a ceifa que mata
Nem os calores do Verão
É a erva unha-gata
O cardo pica na mão

Alentejo, Alentejo
Terra sagrada do pão
Eu hei-de ir ao Alentejo
Inda que seja no Verão

Ver o doirado do trigo
Na imensa solidão
Alentejo, Alentejo
Terra sagrada do pão

Eu sou devedor à terra
A terra me está devendo
A terra paga-me em vida
Eu pago à terra em morrendo

(Popular – Alentejo)

Não quero mais nada no mundo

[ Nos Campos de Castro Verde ]

[Cantiga:]

Não quero mais nada no mundo
Senão uma sepultura:
Para sepultar meus olhos
Que nasceram sem ventura.

[Moda:]

Nos campos de Castro Verde
Houve uma grande batalha:
Onde D. Afonso Henriques
Ganhou a sua medalha.

Ganhou a sua medalha,
Sem abrigo de parede:
Deu a luz a Portugal
Nos campos de Castro Verde.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in LP “Os Ganhões de Castro Verde”, Metro-Som, 1980, reed. Metro-Som, 1997; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD 1, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)
Outra versão do Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde”* (in CD “Modas”, Robi Droli, 1994)

Nasce o Sol no Alentejo

Nasce o Sol no Alentejo,
Nasce água clara na fonte;
Nasce em mim a saudade
Da lareira do teu monte.

Quem me dera ser o trigo
Que ciranda na peneira,
E poder andar contigo
Cirandando a vida inteira.

Não há cravo como o branco
Que até no cheirar é doce,
Nem amor como o primeiro
Se ele fingido não fosse.

Pelas estrelas da noite
Regulam-se os marinheiros,
E eu pelos teus lindos olhos
Que são astros mais certeiros.

Às ceifeiras nunca digas
Madrigais no teu cantar,
Pois se vão em tais cantigas
Fica o trigo por ceifar.

Eu não sei por que motivo
Tu me recusas um beijo!…
Ao menos sei porque vivo
Tão preso ao teu Alentejo.

Ronda dos Quatro Caminhos, Outras Terras

Letra e música: Popular (Alentejo)
Recolha: José Alberto Sardinha
Arranjo: António Prata, com Carlos Barata e Pedro Fragoso
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos (in 2CD “Alçude”: CD1, Ovação, 2001)
Primeira versão da Ronda dos Quatro Caminhos (in CD “Outras Terras”, Ronda dos Quatro Caminhos, 1999)

No Alentejo eu trabalho

[ É tão grande o Alentejo ]

No Alentejo eu trabalho
Cultivando a dura terra;
Vou fumando o meu cigarro,
Vou cumprindo o meu horário
Lá na encosta da serra.

É tão grande o Alentejo,
Tanta terra abandonada!
A terra é que dá o pão:
Para bem desta nação
Devia ser cultivada.

Tem sido sempre esquecido
À margem ao sul do Tejo:
Há gente desempregada,
Tanta terra abandonada!
É tão grande o Alentejo!

Trabalha, homem, trabalha
Se queres ter o teu valor!
Os calos são os anéis,
Os calos são os anéis
Do homem trabalhador.

É tão grande o Alentejo,
Tanta terra abandonada!
A terra é que dá o pão:
Para bem desta nação
Devia ser cultivada.

Tem sido sempre esquecido
À margem ao sul do Tejo:
Há gente desempregada,
Tanta terra abandonada!
É tão grande o Alentejo!

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in CD “É Tão Grande o Alentejo”, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 1997; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD2, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)
Outra versão: Dulce Pontes & Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in CD “O Primeiro Canto”, de Dulce Pontes, Polydor B.V. the Netherlands/Universal, 1999; CD “O Círculo Que Leva a Lua”, do Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde”, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2003)

No nosso Alentejo

[ Trigueira de raça ]

No nosso Alentejo
é tão lindo ouvir
cantar as ceifeiras,
ver as mondadeiras
no campo a sorrir.

Trigueira de raça,
quem te fez assim
ceifando os trigais,
ouvindo os teus ais
com pena de mim?

Eu por ti chorando
alegre e cantando
sinto o teu desejo,
linda trigueirinha,
linda alentejana,
dá-me cá um beijo.

À sombra da silva
é que eu adormeço
sonhando contigo.
Linda alentejana,
eu não te mereço.

Popular Alentejano

No tempo da Primavera

No tempo da Primavera,
há lindas flores no prado.
Canta, ó lindo passarinho,
ao nascer do sol doirado.

Ao nascer do Sol doirado,
Ó meu amor, quem me dera,
Pisando os mimosos prados
No tempo da Primavera.

Letra e música: Popular (Baixo Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ceifeiros de Cuba” (in CD “Musical Traditions of Portugal”, col. Traditional Music of the World, vol. 9, Smithsonian Folkways/International Institute for Traditional Music, 1994)

Nove casas

[ Aldeia ]

Nove casas,
duas ruas,
ao meio das ruas
um largo,
ao meio do largo
um poço de água fria.

Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo
que quando alguém grita para longe
um nome familiar
se assustam pombos bravos
e acordam ecos no descampado.

Poema: Manuel da Fonseca (in “Planície”, Coimbra: Novo cancioneiro, 1941; “Poemas Completos”, Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958; “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 2.ª edição, Lisboa: Portugália Editora, 1963 – p. 93; “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 5.ª edição, Lisboa: Forja, 1975 – p. 106)
Música: Paulo Ribeiro
Intérprete: Paulo Ribeiro com Manuel João Vieira (in CD “O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis”, Açor/Emiliano Toste, 2017)

Poemas de Manuel da Fonseca, canções de Paulo Ribeiro
Poemas de Manuel da Fonseca, canções de Paulo Ribeiro

Ó Alentejo dos pobres

[ Margem Sul (Canção Patuleira) ]

Ó Alentejo dos pobres,
reino da desolação,
não sirvas quem te despreza,
é tua a tua nação.

Não vás a terras alheias
lançar sementes de morte.
É na terra do teu pão
que se joga a tua sorte.

Terra sangrenta de Serpa,
terra morena de Moura,
vilas de angústia em botão,
doce raiva em Baleizão.

Ó margem esquerda do Verão
mais quente de Portugal,
margem esquerda deste amor
feito de fome e de sal.

A foice dos teus ceifeiros
trago no peito gravada,
ó minha terra morena
como bandeira sonhada.

Terra sangrenta de Serpa,
terra morena de Moura,
vilas de angústia em botão,
doce raiva em Baleizão.

Adriano Correia de Oliveira, Margem Sul

Poema: Urbano Tavares Rodrigues
Música: Adriano Correia de Oliveira
Intérprete: Adriano Correia de Oliveira (in “Margem Sul”, Orfeu, 1967; “Obra Completa”, Movieplay, 1994)

Ó Ana

Ó Ana, ó Ana, ó Ana,
Dá um jeitinho à cintura!
Lá na tua terra, ó Ana,
Nem a tua mãe te atura!

Nem a tua mãe te atura
Nem o S. Bartolomeu!
Ó Ana, ó Ana, ó Ana,
Tu és minha e eu sou teu!

Tu és minha e eu sou teu!
Eu sou teu e tu és minha!
Ó Ana, ó Ana, ó Ana,
Dá lá mais uma voltinha!

Muito gosto eu de ver
As pernas às raparigas:
Se são grossas ou delgadas,
Se são curtas ou compridas!

Ó Ana, ó Ana, ó Ana,
Dá um jeitinho à cintura!
Lá na tua terra, ó Ana,
Nem a tua mãe te atura!

Nem a tua mãe te atura
Nem o S. Bartolomeu!
Ó Ana, ó Ana, ó Ana,
Tu és minha e eu sou teu!

Tu és minha e eu sou teu!
Eu sou teu e tu és minha!
Ó Ana, ó Ana, ó Ana,
Dá lá mais uma voltinha!

Meu amor é pequenino:
Às escuras não no acho;
Uma pulga deu-lhe um coice:
Deitou-o da cama abaixo.

Ó Ana, ó Ana, ó Ana,
Dá um jeitinho à cintura!
Lá na tua terra, ó Ana,
Nem a tua mãe te atura!

Nem a tua mãe te atura
Nem o S. Bartolomeu!
Ó Ana, ó Ana, ó Ana,
Tu és minha e eu sou teu!

Tu és minha e eu sou teu!
Eu sou teu e tu és minha!
Ó Ana, ó Ana, ó Ana,
Dá lá mais uma voltinha!

Já dormi na tua cama,
Já mijei no teu penico,
Já te tirei três vinténs…
Nem por isso estou mais rico.

Ó Ana, ó Ana, ó Ana,
Dá um jeitinho à cintura!
Lá na tua terra, ó Ana,
Nem a tua mãe te atura!

Nem a tua mãe te atura
Nem o S. Bartolomeu!
Ó Ana, ó Ana, ó Ana,
Tu és minha e eu sou teu!

Tu és minha e eu sou teu!
Eu sou teu e tu és minha!
Ó Ana, ó Ana, ó Ana,
Dá lá mais uma voltinha!

Letra e música: Tradicional (Baixo Alentejo)
Arranjo: Artesãos da Música
Intérprete: Artesãos da Música
Versão discográfica dos Artesãos da Música (in CD “Puleando”, Artesãos da Música/ARMA, 2012)

Ó águia que vais tão alta

Ó águia que vais tão alta,
voando de pólo em pólo,
leva-me ao céu onde eu tenho
a mãe que me trouxe ao colo.

A mãe que me trouxe ao colo
ficou-me fazendo falta,
voando de pólo em pólo,
ó águia que vais tão alta.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Afonso Dias
(in CD “Geometria do Sul”, Edere, 2002)

O Alentejo é que é

[ Cidades, Vilas e Montes ]

O Alentejo é que é
O celeiro da nação;
Nós somos alentejanos,
Nós somos alentejanos,
Somos da terra do pão.

É linda a Reforma Agrária
Nos campos do Alentejo:
Aumentou a produção,
Deu para todos mais pão,
É isso que eu mais invejo.

Cidades, vilas e montes,
Unidade a trabalhar:
Só assim a reacção,
Gente má sem coração,
Nunca mais pode passar.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in LP “Os Ganhões de Castro Verde”, Metro-Som, 1980, reed. Metro-Som, ?; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD1, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)

O Alentejo não tem sombras

[ As Flores da Nossa Terra ]

O Alentejo não tem sombras
Se não as que vêm do céu;
E o camponês tem abrigo,
E o camponês tem abrigo
Às abas do seu chapéu.

Flores da nossa terra
Que abandonaram as mães
Numa linda romaria
Feita com muita alegria:
Foram dar a Guimarães.

Foram dar a Guimarães,
Recordação que se encerra;
Abandonaram as mães
E foram a Guimarães
Flores da nossa terra.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in LP “Os Ganhões de Castro Verde”, Metro-Som, 1980, reed. Metro-Som, ?; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD1, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)

Ó Estação de Ourique

Ó Estação de Ourique
Onde eu tive amores!
Onde há pirolitos
E também há flores.

Tem um largo ao meio
Mesmo na estação,
Param os comboios
Que vão p’ra Garvão.

Salta a malta nova
Vinda no furgão;
Grita o maquinista
E o chefe da estação.

E os moços pequenos
Sempre a saltitar;
Ficam para o balho,
Querem é dançar!

Vêm do Carregueiro
Casével e Aivados;
Da vila de Ourique
Chegam convidados.

Muito bem trajados
De Castro chegando,
Vêm cantadores
Modas entoando.

Cantam aos amores
Que estão espreitando;
E a tasca do Mendes
Já está esperando.

Ali num cantinho
Vão servindo copos:
Há sempre bom vinho
Chouriço e tremoços.

O chefe da estação
Junta a filharada
Com banjos, violão
E voz afinada.

Começam as danças
No Salão dos Nobres:
Velhos e crianças
E ricos e pobres.

Ai a balhação!
Aì a brincadeira!
Já está na estação
O comboio p’rá Funcheira.

Seguem seus destinos,
Uns ficam deitados:
Parecem meninos
Muito embriagados.

Ó Estação de Ourique
Onde eu tive amores!
Onde há pirolitos
E também há flores.

Tem um largo ao meio
Mesmo na estação,
Param os comboios
Que vão p’ra Garvão.

Salta a malta nova
Vinda no furgão;
Grita o maquinista
E o chefe da estação.

E os moços pequenos
Sempre a saltitar;
Ficam para o balho,
Querem é dançar!

Letra e música: Francisco Naia
Intérprete: Francisco Naia (in CD “Francisco Naia e a Ronda Campaniça”, Francisco Naia/Ovação, 2012)

O mar deixou o Alentejo

[ Se fores ao Alentejo ]

O mar deixou o Alentejo
onde trouxe canções de oiro
mas volta a matar saudades
mas ondas do trigo loiro.

Se fores ao Alentejo,
vai vai vai vai vai.
Não te esqueças, dá-lhe um beijo,
ai ai ai ai.

Nas capelas e nos montes
há sorrisos de brancura
onde fala a voz de Deus
na voz da cal e da alvura.

Sobe o sol e abrasa a terra
a fecundar as espigas
à sombra das azinheiras
na dolência das cantigas.

Por lonjuras e planuras,
oh solidão, solidão,
eu quero paz no trabalho
p’ra poder ganhar o pão.

Popular do Alentejo

Ó moças façam arquinhos

Arquinhos (II)

Ó moças façam arquinhos!
Ó moças façam arcadas!
P’ra passar o meu benzinho,
P’ra passar a minha amada.

P’ra passar a minha amada,
P’ra passar o meu benzinho,
Ó moças façam arquinhos!
Ó moças façam arcadas!

Ó moças façam arquinhos!
Ó moças façam arcadas!
P’ra passar o meu benzinho,
P’ra passar a minha amada.

P’ra passar a minha amada,
P’ra passar o meu benzinho,
Ó moças façam arquinhos!
Ó moças façam arcadas!

Ó moças façam arquinhos!
Ó moças façam arcadas!
P’ra passar o meu benzinho,
P’ra passar a minha amada.

P’ra passar a minha amada,
P’ra passar o meu benzinho,
Ó moças façam arquinhos!
Ó moças façam arcadas!

Cadernos de Danças do Alentejo

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Intérprete: Aqui Há Baile (in CD “Caderno de Danças do Alentejo – adaptações”, Associação Pédexumbo/Caracol Secreto, 2013)

O Sol é que alegra o dia

[ Menina Florentina ]

O Sol é que alegra o dia
Pela manhã quando nasce
Ai de nós o que seria
Se o Sol um dia faltasse

Ó menina Florentina
És a flor que em meu peito domina
Seu amante delirante
De viagem chegou neste instante

Já cá está o tiroliroliro tiroliroliro
Já cá está o tiroliroliro tiroliroló
Já cá está o tiroliroliro ó amor
Tiroliroliro abre a porta, ó branca flor

Não me inveja de quem tem
Carros, parelhas e montes
Só me inveja de quem bebe
Água em todas as fontes

Ó menina Florentina
És a flor que em meu peito domina
Seu amante delirante
De viagem chegou neste instante

Já cá está o tiroliroliro tiroliroliro
Já cá está o tiroliroliro tiroliroló
Já cá está o tiroliroliro ó amor
Tiroliroliro abre a porta, ó branca flor

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Janita Salomé / Grupo “Vozes do Sul”* (in CD “Vozes do Sul: uma celebração do cante alentejano” , Capella, 2000)

Ó terra morena deitada ao sol

[ Fado do Alentejo ]

Ó terra morena deitada ao sol,
Quero ser a alma do ganhão,
Cheia de horizonte, cântico de fonte,
Catedral do trigo, azeite e pão!

Ó terra morena deitada ao sol,
Quero ser a alma da cegonha
Que sobe no vento e ouve o lamento
Do homem que, ao sul, trabalha e sonha!

Alentejo das casas de cal,
Alentejo do sobro e do sal;
Alentejo poejo, alecrim,
Alentejo das terras sem fim.

Ó terra morena deitada ao sol,
Quero ser a alma do sobreiro:
Estática, selvagem, dona da paisagem
Afrontando o tempo a corpo inteiro!

Alentejo das casas de cal,
Alentejo do sobro e do sal;
Alentejo poejo, alecrim,
Alentejo das terras sem fim.

Ó terra morena deitada ao sol,
Quero ser a alma do ganhão,
Cheia de horizonte, cântico de fonte,
Catedral do trigo, azeite e pão!

Letra: Rosa Lobato de Faria
Música: Rão Kyao
Arranjo: Rabih Abou-Khalil
Intérprete: Ricardo Ribeiro* (in CD “Largo da Memória”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2013)
Primeira versão de Ricardo Ribeiro: Rão Kyao & Ricardo Ribeiro (in 2CD “Em’Cantado”: CD 1, Universal, 2009)
Versão original: Manuel de Almeida – “Alma do Ganhão” (in CD “Fado”, Movieplay, 1996)

Olha o passarinho

Letra e música: Popular do Alentejo
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos (in CD “Terra de Abrigo”, Ocarina, 2003) .

Olha o passarinho
que bem que ele canta.
Quando está cantando,
parece que tem
uma guitarra na garganta.

E olha o rouxinol
vai fazer o ninho
dentro do balsedo
p’ra cantar sem medo,
olha o passarinho!

E a moda vai alta,
não lhe posso chegar.
Cantem-na baixinho,
mais devagarinho
que eu quero cantar.

Olhos marotos

[ Vai Colher a Silva ]

Olhos marotos
Que já foram meus
Agora são doutro
Paciência adeus

Vai colher a silva
Vai lindo amor vai
Se ela te picar
Não digas ai ai

Não digas ai ai
Não digas ai ui
Vai colher a silva
Vai que eu também já fui

Ó coração praia
Das embarcações
Onde desembarcam
As minhas paixões

Vai colher a silva
Vai lindo amor vai
Se ela te picar
Não digas ai ai

Não digas ai ai
Não digas ai ui
Vai colher a silva
Vai que eu também já fui

Letra e música: Popular (Baixo Alentejo)
Arranjo: Pedro Fragoso
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos / Grupo Coral Guadiana de Mértola (in CD “Sulitânia”, Ocarina, 2007)

Oliveira e Parreirinha

[ A Tasca do Encalha ]

Oliveira e Parreirinha
Encontram o Tó Careca:
Com a dor que se avizinha
Vão beber uma caneca.

Dão a mão ao Zé Padeiro,
E o braço ao Quim Margarida;
Chamam o Chico Pedreiro,
Vão afogar-se em bebida.

Abraçam-se p’lo caminho,
Até à Tasca do Encalha:
Lá o tintol é fresquinho
E à volta ninguém se espalha.

Tintol, caracol,
Tintão, carrascão,
Com rodelas de limão;
Verdinho, verducho,
Verdete, verdacho,
Mas que graça que eu te acho!

Venha lá outra rodada
Com tapinhas e tremoços!
O tintol é tão maduro
Que até arreganha os ossos.

Vira lá mais um copinho!
Tira outro do briol!
Traz alcagoita torrada
E um pires de caracol!

Diz o Quim para o Oliveira,
Pondo um ar grave no rosto:
«Que uma boa bebedeira
Mata-nos qualquer desgosto!»

Tintol, caracol,
Tintão, carrascão,
Com rodelas de limão;
Verdinho, verducho,
Verdete, verdacho,
Mas que graça que eu te acho!

Mas que graça que eu te acho!…

Letra e música: Francisco Naia
Intérprete: Francisco Naia com Vitorino (in CD “Francisco Naia e a Ronda Campaniça”, Francisco Naia/Ovação, 2012)

Ora ponha aqui

[ Pezinho dos Caçadores ]

Ora ponha aqui,
Ora ponha aqui o seu pezinho!
Ora ponha aqui,
Ora ponha aqui ao pé do meu!

Ai ao tirar,
Ai ao tirar o seu pezinho,
Ai um abraço,
E um abraço lhe dou eu!

Ai dizem mal,
Ai dizem mal dos caçadores,
Ai por matarem,
Por matarem os pardais…

Ai os teus olhos,
Os teus olhos, meu amor,
Ainda matam,
Ainda matam muito mais!

Ora ponha aqui,
Ponha aqui o seu pezinho!
Ora ponha aqui,
Ponha aqui ao pé do meu!

Ai ai ao tirar,
Ao tirar o seu pezinho,
Um abraço lhe dou eu!

Ai dizem mal,
Dizem mal dos caçadores,
Por matarem os pardais…

Os teus olhos, meu amor,
Ainda matam,
Ainda matam muito mais!

Ora ponha aqui o seu pezinho!
Ora ponha aqui ao pé do meu!

Ao tirar o seu pezinho,
Ai um abraço lhe dou eu!

Ai dizem mal dos caçadores,
Por matarem os pardais…

Os teus olhos, meu amor,
Ainda matam muito mais!

Letra e música: Tradicional (Ourique / Castro Verde, Baixo Alentejo)
Informantes: Manuel Bento (Aldeia Nova, Ourique) e Pedro Mestre (Sete, Castro Verde)
Recolha: Lia Marchi (in “Caderno de Danças do Alentejo”, Associação Pédexumbo e Olaria Cultural, 2010 – p. 53)
Intérprete: Aqui Há Baile (in CD “Caderno de Danças do Alentejo – adaptações”, Associação Pédexumbo/Caracol Secreto, 2013)

Olival alentejano
Olival alentejano
 

Papoilas vermelhas

[ Querido Alentejo ]

Papoilas vermelhas
Criadas ao vento
São cravos de Abril:
Deixai-os florir
No meu pensamento.

Querido Alentejo,
Minha terra amada:
Eu nunca me esqueço
De seres Alentejo,
És sempre lembrada.

Teus cravos vermelhos
Já não murcharão;
Tens o privilégio
De seres Alentejo,
Celeiro da nação.

Vem o mês de Abril,
Cresce a saudade;
Vem o nosso povo
E a cantar de novo:
«Viva a liberdade!»

Querido Alentejo,
Minha terra amada:
Eu nunca me esqueço
De seres Alentejo,
És sempre lembrada.

Teus cravos vermelhos
Já não murcharão;
Tens o privilégio
De seres Alentejo,
Celeiro da nação.

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Arranjo: Há Lobos Sem Ser na Serra
Intérprete: Há Lobos Sem Ser na Serra
Primeira versão do grupo Há Lobos Sem Ser na Serra (in CD “Cantares do Sul e da Utopia”, Há Lobos Sem Ser na Serra/Alain Vachier Music Editions, 2016)

Pelo toque da viola

Intérprete: Rancho de cantadores de Aldeia Nova de São Bento

Penteei o meu cabelo

[Moda:]

Penteei o meu cabelo,
Penteei-o para trás,
Com uma travessa nova
Que me deu o meu rapaz.

Que me deu o meu rapaz
Toda cheia de pedrinhas;
Penteei o meu cabelo,
Ficou-me todo às ondinhas.

Ficou-me todo às ondinhas,
Ficou-me todo ondulado;
Penteei o meu cabelo
Para trás e para o lado.

[ Cantiga: ]

Há ondas, meu bem, há ondas,
Há ondas sem ser no mar:
Há ondas no teu cabelo,
Há ondas no teu olhar.

Penteei o meu cabelo,
Penteei-o para trás,
Com uma travessa nova
Que me deu o meu rapaz.

Que me deu o meu rapaz
Toda cheia de pedrinhas;
Penteei o meu cabelo,
Ficou-me todo às ondinhas.

Ficou-me todo às ondinhas,
Ficou-me todo ondulado;
Penteei o meu cabelo
Para trás e para o lado.

[ Cantiga: ]

Há ondas, meu bem, há ondas,
Há ondas sem ser no mar:
Há ondas no teu cabelo,
Há ondas no teu olhar.

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Intérprete: Aqui Há Baile (in CD “Caderno de Danças do Alentejo – adaptações”, Associação Pédexumbo/Caracol Secreto, 2013) [Gravado no Festival Andanças, Castelo de Vide, 21 Ago. 2013
Introdução: Grupo Coral Feminino “As Papoilas do Corvo”, ensaiado por Pedro Mestre

Por eu ser alentejano

[ Há Lobos Sem Ser na Serra ]

Por eu ser alentejano,
Alguém me chamou ladrão:
Foi o que eu nunca chamei
A quem me roubava o pão.

Há lobos sem ser na serra,
Eu ainda não sabia…
Debaixo do arvoredo
Trabalham com valentia.

Trabalham com valentia
Cada um na sua arte;
Eu ainda não sabia:
Há lobos em toda parte.

Maldita sociedade,
Estás tão mal organizada:
Quem não trabalha tem tudo,
Quem trabalha não tem nada!

Há lobos sem ser na serra,
Eu ainda não sabia…
Debaixo do arvoredo
Trabalham com valentia.

Trabalham com valentia
Cada um na sua arte;
Eu ainda não sabia:
Há lobos em toda parte.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in CD “O Círculo Que Leva a Lua”, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2003; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD2, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)

Quando eu tinha 15 anos

[ Camponês alentejano ]

Intérprete: Grupo Coral Vozes da Aldeia

Quando o melro assobia

[ Castro Verde É Nossa Terra ]

Quando o melro assobia,
Escondido nos silvados:
Quer de noite, quer de dia,
São lindos os seus trinados.

Castro Verde é nossa terra!
Ai quem nos dera lá estarmos agora
P’rá mocidade, com saudade,
Ouvir cantar como ouvi outrora.

Terra bela
Tão desejada!
Casa singela
De branco caiada!

Eu nunca esqueço
Que foste meu berço,
Lindo cantinho
Desta pátria amada!

Grupo Coral de Castro Verde “Os Ganhões da nossa terra”

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in LP “Castro Verde É Nossa Terra”, Valentim de Carvalho, 1975; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD1, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)

Que é da casaquinha?

[ Casaquinha (dança marcada) ]

Que é da casaquinha?
(Oli doli doli dó!)
Está toda rasgada.
(Ó purum pum pum!)

Já não vai à missa,
(Oli doli doli dó!)
Sem ser amanhada.
(Ó purum pum pum!)

Que é da casaquinha?
(Oli doli doli dó!)
Está toda rasgada.
(Ó purum pum pum!)

Já não vai à missa,
(Oli doli doli dó!)
Sem ser amanhada.
(Ó purum pum pum!)

Que é da casaquinha?
(Oli doli doli dó!)
Está toda rasgada.
(Ó purum pum pum!)

Já não vai à missa,
(Oli doli doli dó!)
Sem ser amanhada.
(Ó purum pum pum!)

Que é da casaquinha?
(Oli doli doli dó!)
Está toda rasgada.
(Ó purum pum pum!)

Já não vai à missa,
(Oli doli doli dó!)
Sem ser amanhada.
(Ó purum pum pum!)

Que é da casaquinha?
(Oli doli doli dó!)
Está toda rasgada.
(Ó purum pum pum!)

Já não vai à missa,
(Oli doli doli dó!)
Sem ser amanhada.
(Ó purum pum pum!)

Que é da casaquinha?
(Oli doli doli dó!)
Está toda rasgada.
(Ó purum pum pum!)

Já não vai à missa,
(Oli doli doli dó!)
Sem ser amanhada.
(Ó purum pum pum!)

Letra e música: Tradicional (Ourique / Castro Verde, Baixo Alentejo)
Informantes: Manuel Bento (Aldeia Nova, Ourique) e Pedro Mestre (Sete, Castro Verde)
Recolhas: Lia Marchi (in “Caderno de Danças do Alentejo”, Associação Pédexumbo e Olaria Cultural, 2010 – p. 46-48)
Intérprete: Aqui Há Baile (in CD “Caderno de Danças do Alentejo – adaptações”, Associação Pédexumbo/Caracol Secreto, 2013)

Quem disse que o Alentejo

[ É Tarde, Vou-me Deitar ]

Quem disse que o Alentejo
Vive de costas p’ró mar
Não viu aquilo que eu vejo
Não viu aquilo que eu vejo
Nas ondas do teu olhar

Ceifeira, os teus cabelos
Enrodilhados ao vento
São baraços de novelos
São baraços de novelos
Que esvoaçam pelo tempo

São teus olhos dois barquinhos
Onde vão pescar os meus
Como as searas do mar
Como as searas do mar
Que se agitam num adeus
É tarde, vou-me deitar
É tarde, vou-me deitar
e sonhar com os olhos teus
É tarde, vou-me deitar
É tarde, vou-me deitar
e sonhar com os olhos teus

Lá longe, no horizonte
Onde o Sol se vai deitar
O trigo serve de ponte
O trigo serve de ponte
Entre a terra e entre o mar

De dia guardo o rebanho
À noite sou marinheiro
Faço veleiros com sonhos
Faço veleiros com sonhos
Navego por mar trigueiro

São teus olhos dois barquinhos
Onde vão pescar os meus
Como as searas do mar
Como as searas do mar
Que se agitam num adeus
É tarde, vou-me deitar
É tarde, vou-me deitar
e sonhar com os olhos teus
É tarde, vou-me deitar
É tarde, vou-me deitar
e sonhar com os olhos teus

É tarde, vou-me deitar
É tarde, vou-me deitar
e sonhar com os olhos teus
É tarde, vou-me deitar
É tarde, vou-me deitar
e sonhar com os olhos teus
É tarde, vou-me deitar
É tarde, vou-me deitar
e sonhar com os olhos teus
É tarde, vou-me deitar
É tarde, vou-me deitar
e sonhar com os olhos teus

Luís Galrito, Menino do Sonho Pintado

Letra e música: Paulo Abreu de Lima
Intérprete: Luís Galrito com João Afonso (in CD “Menino do Sonho Pintado”, Kimahera, 2018)

Quem trabalha e mata a fome

[ Bem Podia a Andorinha ]

Quem trabalha e mata a fome
Não come o pão de ninguém;
Mas quem não trabalha e come,
Come sempre o pão de alguém.

Bem podia a andorinha
Fazer paragem no chão;
Bem podia o meu amor
Ser firme ao meu coração.

Ser firme ao meu coração,
Ser firme e não me enganar;
Bem podia a andorinha
Fazer paragem no ar.

Bem podia quem tem muito
Repartir por quem não tem:
O rico ficava rico
E o pobre ficava bem.

Bem podia a andorinha
Fazer paragem no chão;
Bem podia o meu amor
Ser firme ao meu coração.

Ser firme ao meu coração,
Ser firme e não me enganar;
Bem podia a andorinha
Fazer paragem…

Letra: António Aleixo (1.ª quadra) e tradicional do Baixo Alentejo
Música: Tradicional (Baixo Alentejo)
Intérprete: Afonso Dias
Primeira versão de Afonso Dias, com Teresa Silva (in CD “Andanças & Cantorias”, Bons Ofícios – Associação Cultural, 2016)

Quem tiver olhos azuis

[ Fui-te Ver, Estavas Lavando ]

[ Cantiga: ]

Quem tiver olhos azuis
Bem os pode arrecadar:
Os olhos azuis são poucos,
São custosos de alcançar.

[ Moda: ]

Fui-te ver, estavas lavando
No rio sem assabão;
Lavas em água de rosas,
Fica-te o cheiro na mão.

Fica-te o cheiro na mão,
Fica-te o cheiro no fato;
Se eu morrer e tu ficares,
Adora-me o meu retrato!

Adora-me o meu retrato,
Adora meu coração!
Fui-te ver, estavas lavando
No rio sem assabão.

[ Cantiga: ]

Menina, tire a camisa [bis]
Que tem à sua janela!
A camisa sem a dona [bis]
Lembra-me a dona sem ela.

[ Moda: ]

Fui-te ver, estavas lavando
No rio sem assabão;
Lavas em água de rosas,
Fica-te o cheiro na mão.

Fica-te o cheiro na mão,
Fica-te o cheiro no fato;
Se eu morrer e tu ficares,
Adora-me o meu retrato!

Adora-me o meu retrato,
Adora meu coração!
Fui-te ver, estavas lavando
No rio sem assabão.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Arranjo: Monda e Ruben Alves
Intérprete: Monda (in CD “Monda”, Monda/Tánaforja, 2016)

Quero ir para o altinho

[ Moda: ]

Quero ir para o altinho
Que eu daqui não vejo bem;
Quero ir ver do meu amor
Se ele adora mais alguém.

Se ele adora mais alguém
Ou se ele ama a mim sozinho;
Que eu daqui não vejo bem,
Quero ir para o altinho.

[ Cantiga: ]

A alegria de uma vida
É amar só o nosso bem;
Nasce a dor e fica a vida
Sem sentido e sem ninguém.

Fica a vida sem sentido
E só a morte é companheira;
Ai de mim, o que farei
Agora com a vida inteira?!

Letra e música: Tradicional (Baixo Alentejo)
Arranjo: António Prata
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos (in 2CD “Alçude”: CD 1, Ovação, 2001)
Primeira versão da Ronda dos Quatro Caminhos (in LP “Amores de Maio”, Contradança, 1986, reed. Ovação, 1992, 1997)

Ribeira vai cheia

Ribeira vai cheia
e o barco não anda.
Tenho o meu amor
lá daquela banda.

Lá daquela banda
e eu cá deste lado;
ribeira vai cheia
e o barco parado.

(Popular – Alentejo)

Roendo uma laranja na falésia

[ Porto Covo ]

Roendo uma laranja na falésia
Olhando o mundo azul à minha frente,
Ouvindo um rouxinol nas redondezas,
No calmo improviso do poente

Em baixo fogos trémulos nas tendas
Ao largo as águas brilham como prata
E a brisa vai contando velhas lendas
De portos e baías de piratas

Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Covo

A lua já desceu sobre esta paz
E reina sobre todo este luzeiro
À volta toda a vida se compraz
Enquanto um sargo assa no brazeiro

Ao longe a cidadela de um navio
Acende-se no mar como um desejo
Por trás de mim o bafo do destino
Devolve-me à lembrança do Alentejo

Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Covo

Roendo uma laranja na falésia
Olhando à minha frente o azul escuro
Podia ser um peixe na maré
Nadando sem passado nem futuro

Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Covo

Rui Veloso, O Concerto Acústico

Letra: Carlos Tê
Música: Rui Veloso
Intérprete: Rui Veloso (in “Rui Veloso”, EMI-VC, 1986; “Ao Vivo”, EMI-VC, 1988; “O Concerto Acústico”, EMI, 2003)

Rompe a aurora

[ Primavera alentejana ]

Rompe a aurora, nasce o dia
iluminando o montado.
Como um hino à alegria
ouve-se balir o gado.

Roxo, verde e amarelo,
olho à volta é o que vejo.
Não há nada assim tão belo,
ó meu querido Alentejo.

Refrão:
Lindos campos verdejantes
matizados de papoilas,
já não são como eram antes
mondados pelas moçoilas.

Perfumados de poejo
os campos de solidão,
é assim o Alentejo
que trago no coração.

O melro canta no silvado,
o grilo no buraquinho,
e eu por ti apaixonado,
Alentejo, meu cantinho.

Roda Pé, Escarpados Caminhos

Refrão

Poema: Hermínia Gaidão Costa (em memória de Margarida Gaidão)
Música: Hermínia Costa / Rodapé
Intérprete: Roda Pé (in CD “Escarpados Caminhos”, 2004

Rosa Branca Desmaiada

Rosa branca desmaiada,
Onde deixaste o cheiro?
Deixei-o no meu quintal,
À sombra do limoeiro.

À sombra do limoeiro,
Por não ter sido regada.
Onde deixaste o cheiro,
Rosa branca desmaiada?

Ó luar da meia-noite,
Não digas à minha amada
Que eu passei à rua dela
Às quatro da madrugada!

Às quatro da madrugada
Que eu passei à rua dela.
Ó luar da meia-noite,
Não digas à minha amada!

Letra e música: Tradicional (Baixo Alentejo)
Intérprete: Real Companhia (in CD “Orgulhosamente Nós!”, Lusogram, 2000)

Roubei-te um beijo

Intérprete: De Moda em Moda

Rouxinol repenica o cante

Rouxinol repenica o cante
ao passar da passadeira.
Nunca mais tornas a Beja, oh ai,
sem passares à Vidigueira,

sem passares à Vidigueira,
sem ires beber ao falcante
e ao passar da passadeira, oh ai,
rouxinol repenica o cante.

Eu gosto muito de ouvir
cantar a quem aprendeu.
Se houvera quem me ensinara, oh ai,
quem aprendia era eu.

Rouxinol repenica o cante
ao passar da passadeira.
Nunca mais tornas a Beja, oh ai,
sem passares à Vidigueira.

Sem passares à Vidigueira,
sem ires beber ao falcante
e ao passar da passadeira, oh ai,
rouxinol repenica o cante.

Letra e música: Popular; adaptação: Vitorino
Intérprete: Vitorino (in “Os Malteses”, Orfeu, 1977; “Negro Fado”, EMI-VC, 1988)

Vitorino, Os Malteses

Santa Cruz é a nossa terra

Santa Cruz é a nossa terra
Beja é o nosso distrito,
O concelho é Almodôvar
Não há nada mais bonito.

Santa Cruz é a nossa terra
Rodeada de olivais,
Com suas casas branquinhas
E os seus antigos beirais.

E os seus antigos beirais
É a nossa tradição,
Santa Cruz é a nossa terra
Terra da nossa paixão.

Aldeia de Santa Cruz
É terra que eu mais invejo,
Ficas à beira da serra
Mesmo ao sul do Alentejo.

Santa Cruz é a nossa terra
Rodeada de olivais,
Com suas casas branquinhas
E os seus antigos beirais.

E os seus antigos beirais
É a nossa tradição,
Santa Cruz é a nossa terra
Terra da nossa paixão.

(Popular – Santa Cruz, Baixo Alentejo)

Santa Vitória, Ervidel

[ O Homem da Campaniça (Ao Ricardo Fonseca) ]

Santa Vitória, Ervidel:
Minha cantiga é castiça,
Minha voz doce de mel,
Meus dedos na campaniça.

Rosa, Mariana, Maria:
Todas me ouviram cantar,
Fosse de noite ou de dia
Ou com um sol de abrasar.

Rasguei modas e cantares,
Dízimas disse, que eu fiz;
Andei por muitos lugares
Ora alegre ora infeliz.

Andei com moças brejeiras,
Mulheres feitas, ricas donas;
Dormi com elas nas eiras
E na apanha de azeitonas.

Inda hoje eu sou falado
Da serra à charneca inteira,
Pelo homem da campaniça
Tocando à sua maneira.

Com a minha campaniça
Nas tabernas, no baldão,
Toda a gente me conhece
De Beja a Corte Malhão…

Letra e música: Francisco Naia
Intérprete: Francisco Naia (in CD “Francisco Naia e a Ronda Campaniça”, Francisco Naia/Ovação, 2012)

Sambombita, sambombita

Sambombita, sambombita
Yo te tengo que romper!
A la puerta de mi novia
No quisiste tocar bien.

Abre la tristeza que pasa por mi,
Las mozas del baile me dicen así:

Pandereterita, moza,
Pandereterás,
No te vayas
Sí no quieres
Que yo me muera!

Esta noche es Nochebuena,
Es noche de hacer briñuelos;
Mas mi madre no los hace
Porque no tiene dinero.

Abre la tristeza que pasa por mi,
Las mozas del baile me dicen así:

Pandereterita, moza,
Pandereterás,
No te vayas
Sí no quieres
Que yo me muera!

Los ratones de mi casa
Tienen la fea costumbre
De rascar a los cojones
Con el gancho de la lumbre.

Abre la tristeza que pasa por mi,
Las mozas del baile me dicen así:

Pandereterita, moza,
Pandereterás,
No te vayas
Sí no quieres
Que yo me muera!

Al subir las escaleras
Te vi las ligas azules,
Y un poco más arriba…
Sábado, domingo y lunes.

Abre la tristeza que pasa por mi,
Las mozas del baile me dicen así:

Pandereterita, moza,
Pandereterás,
No te vayas
Sí no quieres
Que yo me muera!

Letra e música: Tradicional (Barrancos, Baixo Alentejo)
Arranjo: Artesãos da Música
Intérprete: Artesãos da Música
Versão discográfica dos Artesãos da Música (in CD “Puleando”, Artesãos da Música/ARMA, 2012)

São chegados os Três Reis

[ Reis ]

São chegados os Três Reis
à porta do lavrador
Se tem a mulher bonita
a filha é uma flor

Que cavalos são aqueles
que fazem sombra no Mar
São os três do Oriente
que a Jesus vão adorar

O menino chora, chora
porque anda descalcinho
Haja quem lhe dê as meias
que eu lhe dou os sapatinhos

Nossa Senhora lavava
e São José estendia
E o menino chorava
com o frio que fazia

Calai-vos meu menino
calai-vos meu amor
Isto são navalhinhas
que cortam sem dor

Saíram as três Marias
de noite pelo luar
Em busca do Deus menino
sem No poderem achar

Foram-No achar em Roma
vestidinho no altar
Com cálix d’oiro na mão
missa nova quer cantar

E dai-la esmola e… e dai-la esmola bem dada
Para quem, para quem vier pedir
que ela lhe, que ele lhe sirva de escada
Para quando, para quando ao céu subir

Letra e música: Popular (Redondo – Alentejo)
Intérprete: Janita Salomé / cantadores de Redondo* (in CD “Vozes do Sul: uma celebração do cante alentejano”, Capella, 2000)

Se eu for preso por cantar

[ Sarapateado ]

Se eu for preso por cantar
Não calarei a garganta;
Eu sou como o passarinho
Que até na gaiola canta.

Vai sim, meu bem, sarapatear!
Quem quiser bailar traga bom calça…,
Traga bom calça…, traga bom calçado!
Vai sim, meu bem, sarapateado. [bis]

À porta da minha sogra
Vem uma silva nascendo;
Todos passam, não se enleiam,
Só eu na silva me prendo.

Vai sim, meu bem, sarapatear!
Quem quiser bailar traga bom calça…,
Traga bom calça…, traga bom calçado!
Vai sim, meu bem, sarapateado. [bis]

Vai sim, meu bem, sarapatear!
Quem quiser bailar traga bom calça…,
Traga bom calça…, traga bom calçado!
Vai sim, meu bem, sarapateado. [4x]

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Arranjo: Há Lobos Sem Ser na Serra
Intérprete: Há Lobos Sem Ser na Serra
Primeira versão do grupo Há Lobos Sem Ser na Serra (in CD “Cantares do Sul e da Utopia”, Há Lobos Sem Ser na Serra/Alain Vachier Music Editions, 2016)

Há lobos sem ser na serra, Cantares do Sul e da Utopia

Se fores ao Alentejo

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão:
Leva o coração aberto,
E ao lado do coração
Leva a rosa da justiça
E o teu filho pela mão.

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão.
Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão.

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão:
Leva o teu braço liberto
Para abraçar teu irmão;
Esse irmão que está tão perto
Do teu aperto de mão
E que tão longe amanhece
Nos campos da solidão.

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão.

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão:
Leva a alegria de seres
Irmão de quem vai parir
Uma seara de trigo,
Uma charneca a florir,
Um rebanho e um abrigo
E um amanhã que há-de vir
Como se fosse outro amigo
Dentro do sol, a sorrir.

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão.

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão:
Leva o coração aberto
E o teu filho pela mão.
Leva o coração aberto
E o teu filho pela mão.

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão.
Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão.

Letra: Eduardo Olímpio
Música: Carlos Alberto Moniz
Intérprete: Carlos Alberto Moniz
Versão original: Carlos Alberto Moniz (in Livro/2CD “O Vinho dos Poetas”: CD 2, Carlos Alberto Moniz/Ovação, 2014)

Se fores ao mar pescar

Se fores ao mar pescar,
Pesca-me uma margarida!
Margarida, és meu amor,
Que andava no mar perdida.

Que andava no mar perdida,
No meio de água salgada;
Pesca-me uma margarida,
Margarida, és minha amada!

Letra e música: Tradicional (Beja, Baixo Alentejo)
Recolha: Michel Giacometti (in LP “Alentejo”, série “Antologia da Música Regional Portuguesa”, Arquivos Sonoros Portugueses/Michel Giacometti, 1965; 5CD “Portuguese Folk Music”: CD 4 – Alentejo, Strauss, 1998)
Intérprete: Macadame* (in Livro/CD “Firmamento”, Macadame, 2016)

Semeei salsa ao reguinho

[ Semear Salsa ao Reguinho ]

Semeei salsa ao reguinho
Hortelã daquela banda
Para lograr os teus carinhos
Tive que andar em demanda

Tive que andar em demanda
Para lograr os teus carinhos
Hortelã daquela banda
Semeei salsa ao reguinho

Não julgues por eu cantar
Que a vida alegre me corre
Eu sou como um passarinho
Tanto canta até que morre

Letra e música: Popular (Alentejo)
Recolha e arranjo: Vitorino
Intérprete: Vitorino (in “Semear Salsa ao Reguinho”, Orfeu, 1975; reed. Movieplay, 1999; CD “Ao Vivo A Preto e Branco”, Magic Music/Som Livre, 2007)

Vitorino, Semear Salsa ao Reguinho

Senhora que és padroeira

[ Nossa Senhora do Carmo ]

Senhora que és padroeira
Da nossa terra hospitaleira

Nossa Senhora do Carmo
Que está no seu altar
Todos lá vamos ajoelhar
E a cantar, a cantar
Vamos rezar

Oremos p’la nossa voz
Nossa Senhora rogai por nós

Nossa Senhora do Carmo
Que está no seu altar
Todos lá vamos ajoelhar
E a cantar, a cantar
Vamos rezar

Unidos a uma voz
Nossa Senhora rogai por nós

Nossa Senhora do Carmo
Que está no seu altar
Todos lá vamos ajoelhar
E a cantar, a cantar
Vamos rezar

(Popular – Alentejo)

Silva, Silva, Enleio, Enleio

Castro Verde

Castro Verde

[ dança encadeada ]

Moda:

Silva, silva, enleio, enleio!
Silva, silva, enleado, enleado!
Não me venhas cá dizer,
Ó sim, sim, meu bem-amado!

Ó sim, sim, meu bem-amado!
Ó sim, sim, ó meu recreio!
Silva, silva, enleado, enleado!
Silva, silva, enleio, enleio!

Letra e música: Tradicional (Castro Verde, Baixo Alentejo)
Informantes: Grupo Coral Feminino “As Atabuas” (São Marcos da Ataboeira, Castro Verde) e Pedro Mestre (Sete, Castro Verde)
Recolha: Lia Marchi (in “Caderno de Danças do Alentejo”, Associação Pédexumbo e Olaria Cultural, 2010 – p. 42-45)
Intérprete: Aqui Há Baile (in CD “Caderno de Danças do Alentejo – adaptações”, Associação Pédexumbo/Caracol Secreto, 2013)

Castro Verde
Castro Verde

Solidão, ai dão, ai dão

Solidão, ai dão, ai dão,
Para mim quer sim, quer não;
Vem a morte e leva a gente,
Quem não há-de ter paixão?

Quem não há-de ter paixão?
Quem paixão não há-de ter?
Solidão, ai dão, ai dão,
Resistir até morrer.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Bernardo Charrua “Calabaça” (in CD “Monda”, de Monda*, Monda/Tánaforja, 2016)

Suspirava por te ver

[ Ó Menina Florentina ]

Suspirava por te ver,
Já matei a saudade.
Muito custa uma ausência
P’ra quem ama na verdade.

Ó menina Florentina,
És a flor que em meu peito domina!
Seu amante, delirante,
De viagem chegou nesse instante.

Já cá está tiro-liro-li, tiro-liro-lé!
Já cá está tiro-liro-li, tiro-liro-ló!
Já cá está tiro-liro-li, meu amor,
Tiro-liro-li abre a porta, ó branca flor!

Anda cá para meus braços,
Se tu vida queres ter!
Os meus braços dão saúde
A quem está para morrer.

Ó menina Florentina,
És a flor que em meu peito domina!
Seu amante, delirante,
De viagem chegou nesse instante.

Já cá está tiro-liro-li, tiro-liro-lé!
Já cá está tiro-liro-li, tiro-liro-ló!
Já cá está tiro-liro-li, meu amor,
Tiro-liro-li abre a porta, ó branca flor!

Graças a Deus que chegou
Quem eu desejava ver:
Deu palavra, não faltou,
Assim é que deve ser.

Ó menina Florentina,
És a flor que em meu peito domina!
Seu amante, delirante,
De viagem chegou nesse instante.

Já cá está tiro-liro-li, tiro-liro-lé!
Já cá está tiro-liro-li, tiro-liro-ló!
Já cá está tiro-liro-li, meu amor,
Tiro-liro-li abre a porta, ó branca flor!

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Intérpretes: Ana Tomás & Ricardo Fonseca (in CD “Canções de Labor e Lazer”, Ana Tomás & Ricardo Fonseca, 2017)

Tá preso o João Brandão

[ Mais Brando João Brandão ]

‘Tá preso o João Brandão
Às grades do Limoeiro;
Mais brando…
Às grades do Limoeiro.

Era rico, agora é pobre…
Olha o que faz o dinheiro!
Mais brando…
Olha o que faz o dinheiro!

Estando eu na minha loja,
Encostadinho ao balcão,
Mais brando…
Encostadinho ao balcão,

Ouvi uma voz dizer:
“‘Tá preso o João Brandão.”
Mais brando…
“‘Tá preso o João Brandão.”

Ouvi uma voz dizer:
“‘Tá preso o João Brandão.”
Mais brando…
Mais Brando João Brandão.

Monda – grupo de cante alentejano

Letra: Popular (Alentejo)
Música: Monda
Intérprete: Monda com o Grupo de cantadores de Portel (in CD “Monda”, Monda/TáNaForja, 2016)

Trago um jardim no sentido

[ Jardim dos Sentidos ]

Trago um jardim no sentido,
Por ter sentido o que sinto:
Amor que não faz sentido
Num coração louco e faminto.

No jardim do meu sentido
Nascem cravos cardinais;
Também eu nasci no mundo
P’ra te querer cada vez mais.

No jardim do rei há rosas,
Também há malvas de cheiro;
Não há luz como a do dia,
Nem amor como o primeiro.

Coração louco e faminto,
Rosa que tenho sentido;
Jardim que anda perdido,
Por ter sentido o que sinto.

No jardim do meu sentido
Nascem cravos cardinais;
Também eu nasci no mundo
P’ra te querer cada vez mais.

No jardim do rei há rosas,
Também há malvas de cheiro;
Não há luz como a do dia,
Nem amor como o primeiro.

Por ter sentido o que sinto,
Amor que não faz sentido,
Jardim que anda perdido,
Trago um jardim no sentido.

No jardim do meu sentido
Nascem cravos cardinais;
Também eu nasci no mundo
P’ra te querer cada vez mais.

No jardim do rei há rosas,
Também há malvas de cheiro;
Não há luz como a do dia,
Nem amor como o primeiro.

Trago um jardim no sentido…

Letra e música: Pedro Mestre
Intérprete: Pedro Mestre com António Zambujo (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015)
Outra versão de Pedro Mestre com António Zambujo (in DVD “No CCB: Pedro Mestre & Convidados”, Pedro Mestre, 2017)

Uma estrela se foi pôr

[ Canção ao Menino ]

Uma estrela se foi pôr
Em cima duma cabana
A cabana era pequena
Não cabiam todos três
Adoravam o menino
Cada um da sua vez

E abram-se lá essas portas
Ainda não estão bem abertas
Que nasceu o Deus menino
Vou-lhe dar as Boas Festas

Boas Festas meus senhores
Boas Festas lhes vou dar
Que nasceu o Deus menino
Alta noite de Natal

E alta Noite de Natal
Noite de santa alegria
Que nasceu o Deus menino
Filho da Virgem Maria

Senhora dona da casa
Deixe-se estar que está bem
Mande-nos dar a esmola
Por essa rosa que aí tem

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in CD “Terra de Abrigo”, Ocarina, 2003)

Ronda dos Quatro Caminhos, Terra de Abrigo

Vai ao centro, vai ao meio

Vai ao centro, vai ao meio!
Agora vou andar
Com o meu amor em passeio;
Agora é que eu vou andar
Com meu amor em passeio.

Vá de roda, cantem todas
Cada qual sua cantiga!
Eu também cantarei,
Eu também cantarei uma
Que a mocidade me obriga.

Vá de roda, cantem todas
Cada qual sua cantiga!
Que eu também cantarei uma
Que a mocidade me obriga.

Vai ao centro…

[ Moda: ]

Vai de centro ao centro ao centro!
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou andar
Com meu amor em passeio.

Com meu amor em passeio,
Com meu bem a passear,
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou andar.

[ Cantiga: ]

Vá de roda, cantem todos
Cada qual sua cantiga!
Que eu também cantarei uma
Que a mocidade me obriga.

[ Moda: ]

Vai de centro ao centro ao centro!
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou andar
Com meu amor em passeio.

Com meu amor em passeio,
Com meu bem a passear,
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou andar.

[ Moda: ]

Vai de centro ao centro ao centro!
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou andar
Com meu amor em passeio.

Com meu amor em passeio,
Com meu bem a passear,
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou andar.

[ Cantiga: ]

Minha mãe, p’ra m’eu casar,
Ofereceu-me uma panela;
Depois de me ver casada,
Partiu-me a cara com ela.

[ Moda: ]

Vai de centro ao centro ao centro!
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou andar
Com meu amor em passeio.

Com meu amor em passeio,
Com meu bem a passear,
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou andar.

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Intérprete: Aqui Há Baile (in CD “Caderno de Danças do Alentejo – adaptações”, Associação Pédexumbo/Caracol Secreto, 2013)

Vai colher a rosa

Vai colher a rosa
Vai colhê-la, vai.
Se ela te picar
Não digas ai ai.

Não digas ai ai
Não digas ai ui
Vai colher a rosa
Vai, vai que eu também fui.

O meu lindo amor
Já não me visita
É certo que tem
Outra mais bonita.

Outra mais bonita
Outro bem querer.
O meu lindo amor
Já não me vem ver.

(Popular – Alentejo)

Vamos nós seguindo

Vamos nós seguindo,
por esses campos fora…
Que a manhã vem vindo
dos lados da aurora.

Dos lados da aurora
a manhã vem vindo.
Por esses campos fora,
vamos nós seguindo.

(Popular – Alentejo)

Venho da ilha dos vidros

[ Ilha dos Vidros ]

[Moda:]

Venho da ilha dos vidros,
Da praia dos diamantes;
Vivo no mundo perdido
Pelos teus olhos brilhantes.

Pelos teus olhos brilhantes,
Pelo teu rosto de prata;
Ter amores não me custa,
Deixá-los é que me mata.

[Cantiga:]

Os teus olhos é que são
A causa de eu te querer bem:
Que não me deixam tomar
Amizade a mais ninguém.

[Moda:]

Venho da ilha dos vidros,
Da praia dos diamantes;
Vivo no mundo perdido
Pelos teus olhos brilhantes.

Pelos teus olhos brilhantes,
Pelo teu rosto de prata;
Ter amores não me custa,
Deixá-los é que me mata.

[Cantiga:]

A paixão me há-de matar,
É o mais certo que eu tenho:
Não me há-de deixar gozar
Um amor que eu faço empenho.

[Moda:]

Venho da ilha dos vidros,
Da praia dos diamantes;
Vivo no mundo perdido
Pelos teus olhos brilhantes.

Pelos teus olhos brilhantes,
Pelo teu rosto de prata;
Ter amores não me custa,
Deixá-los é que me mata.

Venho da ilha dos vidros,
Da praia dos diamantes;
Vivo no mundo perdido
Pelos teus olhos brilhantes.

Pelos teus olhos brilhantes,
Pelo teu rosto de prata;
Ter amores não me custa,
Deixá-los é que me mata.

Letra e música: Tradicional (Baixo Alentejo)
Arranjo: José Manuel David
Intérprete: Pedro Mestre* com cantadores do Sul (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015)
Outras versões com Pedro Mestre: Grupo de Violas Campaniças (in CD “Ilha dos Vidros”, Associação de Cante Alentejano “Os Cardadores”, 2006); 4uatro ao Sul (in CD “Demudado em Tudo”, 4uatro ao Sul/Ocarina, 2011); Pedro Mestre com 4uatro ao Sul (in DVD “No CCB: Pedro Mestre & Convidados”, Pedro Mestre, 2017)

Pedro Mestre, Campaniça do Despique

Vim do campo

[ Tira o Capotinho ]

Vim do campo, já ceei;
Hoje vou dar uma voltinha:
Vou à venda, bebo um copo,
Regresso de manhãzinha.

Esta noite, nem me eu deito
Sem primeiro ouvir cantar;
Gosto de ouvi-lo bem feito
E em certo particular.

Tira o capotinho, sim, sim!
Esta noite havemos ver;
Tira o capotinho, sim, sim,
Esta noite ao amanhecer!

Esta noite soprou vento
Com pontinhas de suão:
Abriram-se as rosas todas
Dentro do teu coração.

Para ver a minha amada,
Espreitei à sua janela;
Ela já estava deitada,
Fui-me embora a pensar nela.

Tira o capotinho, sim, sim!
Esta noite havemos ver;
Tira o capotinho, sim, sim,
Esta noite ao amanhecer!

O cantar de madrugada
É uma coisa excelente:
Acorda quem está dormindo,
Alegra quem está doente.

Toda a noite eu andei
Por estradas tão medonhas,
Sempre sonhando contigo;
Só comigo tu não sonhas…

Tira o capotinho, sim, sim!
Esta noite havemos ver;
Tira o capotinho, sim, sim,
Esta noite ao amanhecer!

Letra: Popular (Baixo Alentejo) e Francisco Naia
Música: Popular (Baixo Alentejo)
Intérprete: Francisco Naia (in CD “Francisco Naia e a Ronda Campaniça”, Francisco Naia/Ovação, 2012)

Francisco Naia e a Ronda Campaniça
https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/09/alentejo-foto-winelands-portugal.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-09 16:26:122024-04-08 15:06:33Canções do Baixo Alentejo
Alto Alentejo, Castelo de Évora Monte
Baixo Alentejo

Canções do Alto Alentejo

Canções do Alto Alentejo

Letras

A neve já está bem perto

[ O Padrinho ]

A neve já está bem perto
Daquela grande montanha
Virgem Maria é a mãe
E São José a acompanha

São José a acompanha
E acompanha o Deus Menino
Virgem Maria é a mãe
E São José é o padrinho

Letra e música: Tradicional (Elvas, Alto Alentejo)
Intérprete: Diabo a Sete (in CD “Parainfernália”, Açor/Emiliano Toste, 2007)

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Pode ser do seu interesse o Musorbis, sítio do património musical dos concelhos.

Adeus, malvas

[ O Triste ]

Adeus, malvas…
Adeus, malvas…
Adeus, malvas do Rossio!
Tarde ou nun…
Tarde ou nunca as pisarei.

Adeus, moças…
Adeus, moças…
Adeus, moças do meu tempo!
Tarde ou nun…
Tarde ou nunca voltarei.

Ó Triste, ó Triste,
Ó Triste, três vezes triste!
Ó Triste, ó Triste,
P’ra onde irá?

O rico…
O rico…
O rico se compadeça
Da desgra…
Da desgraça do Zé Brás.

A desgraça…
A desgraça…
A desgraça do Zé Brás
Foi a mor…
Foi a morte do Paneiro.

Com um lenço…
Com um lenço…
Com um lenço se enforcou
Às grades…
Às grades do Limoeiro.

Ainda trago um gosto a trigo

[ Toada do Alentejo ]

Ainda trago um gosto a trigo atrás de mim
Que se me agarrou à alma ao nascer
Sou como um carreiro longe de ter fim
Como quem ceifou searas sem saber

Sou lá de onde ninguém fala, das marés
De onde o horizonte queima o olhar
Por paixão ainda trago a arder nos pés
O calor de uma seara por cortar

Já cantei desde a nascente até à hora do sol-pôr
Já naveguei nas ribeiras ao luar
Ai Alentejo quem te amou não te esqueceu
Inda se ouvem os teus ecos nas cantilenas do sol

O sol deu-me histórias velhas p’ra contar
Que eu guardei de manhãzinha ao pé dum rio
Em Janeiro roubei mantas ao luar
E a um pastor roubei um tarro e um assobio

Já corri atrás dos corvos
Já me escondi nos trigais
Ouvi rolas nos sobreiros a arrulhar
Ai Alentejo quem te amou não te esqueceu
Inda se ouvem os teus ecos cada vez que a lua cai

Letra e música: Sebastião Antunes
Arranjo: Gonçalo Pratas
Intérprete: Sebastião Antunes* com Pedro Mestre (in CD “Singular”, Sebastião Antunes & Quadrilha/Alain Vachier Music Editions, 2017)
Versão original: Quadrilha (in CD “Quarto Crescente”, Vachier & Associados/Ovação, 1999; CD “Lembranças do Meu Alentejo” (compilação), Ovação, 2012)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Algum dia eu era

[ Erva-Cidreira ]

Algum dia eu era,
E agora já não,
Da tua roseira
O melhor botão.

Ó erva-cidreira
Que estás no alpendre,
Quanto mais se rega
Mais a folha pende.

Mais a folha pende,
Mais a rosa cheira;
Que ‘tás no alpendre,
Ó erva-cidreira.

Os olhos que olham
P’ró chão de repente,
Esses é que são
Os que enganam a gente.

Ó erva-cidreira
Que estás no alpendre,
Quanto mais se rega
Mais a folha pende.

Mais a folha pende,
Mais a rosa cheira;
Que ‘tás no alpendre,
Ó erva-cidreira.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Arranjo: Monda e Ruben Alves
Intérprete: Monda (in CD “Monda”, Monda/Tánaforja, 2016)

Anda cá

[ Pombinha Branca ]

Anda cá, se tu queres ver!
Verás o que ainda não viste:
Verás dois olhos alegres
Chorando lágrimas tristes.

Oh minha pombinha branca,
Onde queres, amor, que eu vá?
É de noite, faz escuro,
Eu sozinho não vou lá.

Eu sozinho não vou lá,
Eu sozinho lá não vou;
Oh minha pombinha branca,
P’ra te amar inda aqui estou.

No quarto aonde eu durmo
Tudo são penas voando:
Umas causadas por mim,
Outras estás-mas tu causando.

Oh minha pombinha branca,
Onde queres, amor, que eu vá?
É de noite, faz escuro,
Eu sozinho não vou lá.

Eu sozinho não vou lá,
Eu sozinho lá não vou;
Oh minha pombinha branca,
P’ra te amar inda aqui estou.

Letra e música: Tradicional do Baixo Alentejo (aprendida com o grupo Modas à Margem do Tempo, em Évora)
Arranjo: Celina da Piedade e músicos participantes
Intérprete: Celina da Piedade (in 2CD “Em Casa”: CD1, Celina da Piedade/Melopeia, 2012)

Anda cá, José se queres

Anda cá, José se queres
a tua roupa lavada,
ai, paga a uma lavadeira
qu’eu não sou tua criada.

Qu’eu não sou tua criada,
qu’eu não sou criada tua.
Ai, Ó José se me não queres,
ai, põe o chapéu, vai prá rua.

Põe o chapéu, vai prá rua,
põe o chapéu, vai prá estrada.
Ai, anda cá, José se queres
ai, a tua roupa lavada.

(Popular – Alentejo)

Aqui ninguém tem trabalho

[ Terra de Catarina (Baleizão, Baleizão)]

Aqui ninguém tem trabalho
E há muito para fazer:
Vieram de toda a parte,
Não tinham pão p’ra comer.

Ó Baleizão, Baleizão!
Ó terra de Catarina,
Onde nasceu e morreu
Por uma bala assassina,
Por uma bala assassina
Cravada no coração;
Ó terra de Catarina!
Ó Baleizão, Baleizão!

Tinha no peito a coragem,
Trazia os filhos na mão;
Ó terra de Catarina!
Ó Baleizão, Baleizão!

Ó Baleizão, Baleizão!

Ó terra de Catarina,
Onde nasceu e morreu
Por uma bala assassina,
Por uma bala assassina
Cravada no coração;
Ó terra de Catarina!
Ó Baleizão, Baleizão!

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Arranjo: Há Lobos Sem Ser na Serra
Intérprete: Há Lobos Sem Ser na Serra
Primeira versão do grupo Há Lobos Sem Ser na Serra (in CD “Cantares do Sul e da Utopia”, Há Lobos Sem Ser na Serra/Alain Vachier Music Editions, 2016)

A ribeira quando enche

A ribeira quando enche
Leva o junco acamado
Traz-me tu em teu sentido
Que eu te trago em meu cuidado

A ribeira quando enche
Vai de pedrinha em pedrinha
O homem que leva a barca
Leva seu bem na barquinha

Leva seu bem na barquinha
Inda lhe digo outra vez
Quem namora sempre alcança
Um beijinho, dois ou três

Dizem que a folha do trigo
É maior que a da cevada
Também a minha amizade
Ao pé da tua é dobrada

(Popular – Alentejo)

Acorda se estás dormindo

[ Janeiras de Évora ]

(Chegada à porta)

Acorda se estás dormindo
Nesse sono tão profundo,
Às portas te estão pedindo
P’rás almas do outro mundo.

E as almas do outro mundo
Batem aos vossos portados,
Acorda se queres ouvir
Das almas os tristes brados.

Tristes brados dão as almas
Isto é tudo bem certo,
P’ra quem vive arrependido
Está o sacramento aberto.

As almas do outro mundo,
Elas te mandam pedir,
Que lhes leves as esmolas
Q’elas não podem cá vir.

(Despedida)

E as esmolas que vós destes,
Se as destes com devoção,
Na terra terás o prémio
Lá no céu a salvação.

Letra e música: Popular (Alto Alentejo)
Recolha: Fernando Costa (em Évora, junto da Sra. Helena Jesus Grilo)
Intérprete: Roda Pé (in CD “Escarpados Caminhos”, public-art, 2004)

Adeus, Maria

— «Adeus, Maria, até quando,
Eu até quando não sei;
Cá ando no Ultramar, a pensar
No dia em que voltarei.

Espera por mim, se quiseres…
Faz o que tu entenderes;
Acho que deves pensar em casar,
Eu posso por cá morrer.

Ninguém o pode saber,
É uma carta fechada…
E depois te chamarão, pois então,
Viúva sem seres casada.»

— «Ó António, Deus te guie
Nos campos do Ultramar!
Eu penso em ti, cá solteira, há quem queira
Se tu nunca mais voltares.

Espero por ti, meu amor,
Eu d’outro não quero ser!
Nunca mais me casarei, que eu bem sei,
Serei tua até morrer!

A carta que me mandaste
Com um conselho imprudente…
Meu amor, para contigo eu te digo:
‘Inda fiquei mais ardente.»

Meu amor, para contigo eu te digo:
‘Inda fiquei mais ardente.»

Letra: António Pardelha
Música: Monda
Intérprete: Monda
Versão original: Monda com Katia Guerreiro (in CD “Monda”, Monda/TáNaForja, 2016)

Ao passar a ribeirinha

[ Água Sobe, Água Desce ]

Ao passar a ribeirinha,
Água sobe, água desce;
Dei a mão ao meu amor
Antes que ninguém soubesse.

Se tu és o meu amor,
Dá-me cá abraços teus!
Se não és o meu amor,
Saúdinha, adeus, adeus!

À frente do amor,
Brincas tu, brincarei eu;
Anda cá para meus braços!
Ninguém te quer mais do que eu.

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Intérprete: Aqui Há Baile (in CD “Caderno de Danças do Alentejo – adaptações”, Associação Pédexumbo/Caracol Secreto, 2013)

Ao romper da bela aurora

Ao romper da bela aurora
Sai o pastor da choupana
Vem gritando em altas vozes
Muito padece quem ama

Muito padece quem ama
Mais padece quem adora
Sai o pastor da choupana
Ao romper da bela aurora

Toda a vida fui pastor
Toda a vida guardei gado
Tenho uma nódoa no peito
De me encostar ao cajado

Ao romper da bela aurora
Sai o pastor da choupana
Vem gritando em altas vozes
Muito padece quem ama

Muito padece quem ama
Mais padece quem adora
Sai o pastor da choupana
Ao romper da bela aurora

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Ganhões de Castro Verde (in CD “É Tão Grande o Alentejo”, ACA “Os Ganhões”, 1997)

Aqui onde canto e ardo

[ Passarinho da charneca ]

Aqui onde canto e ardo
entre papoulas e cardo.
Sete palmos de charneca
são o tamanho de um home
medido em anos de fome,
pesado em anos de seca,
esquecido que teve nome
e que, sendo a morte certa,
vida desta não é d’home,
vida desta não é d’home,
passarinho da charneca.

Passarinho da charneca
entrou na gaiola aberta.
Já tem os olhos cegados
para que cante melhor
que o dono não é cantor.
Traz os colmilhos cerrados
vontades de mandador
e porque é dos mal mandados
julga assim mandar melhor
nos que lhe estão sujeitados,
passarinho da charneca.

Criei o corpo comendo
desta terra da charneca
ao entrar na cova aberta.
Só estou pagando o que devo,
eu sou devedor à terra.
A terra me está devendo,
a terra me está devendo.
A terra paga-me em vida,
Eu pago à terra em morrendo,
eu pago à terra em morrendo,
passarinho da charneca.

Letra: Tradicional – Alentejo / João Pedro Grabato Dias
Música: Amélia Muge
Intérprete: Amélia Muge (in CD “Todos os Dias”, Columbia/Sony, 1994)

Às vezes me ponho eu

[ A Vila de Castro Verde ]

Às vezes me ponho eu
Na minha vida a pensar:
Quem eu era, quem eu sou,
Ao que eu havia de chegar!

A vila de Castro Verde
És uma estrela brilhante:
Como ela outra não há,
És a mesma que eras dantes.

És a mesma que eras dantes
Desta vila aproximada;
És uma estrela brilhante
Que está na História gravada.

Ó coração, não te assustes!
Quando ouvires cantar bem,
Entra e pede licença
Para cantares também!

A vila de Castro Verde
És uma estrela brilhante:
Como ela outra não há,
És a mesma que eras dantes.

És a mesma que eras dantes
Desta vila aproximada;
És uma estrela brilhante
Que está na História gravada.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in CD “Modas”, Robi Droli, 1994; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD1, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)

As vozes da minha fala

[ Portel Estás Satisfeito ]

As vozes da minha fala,
Como eram já não são:
Fazem a mesma diferença
Que o Inverno faz do Verão.

Portel estás satisfeito
Em ver teus filhos brilhar,
E até choras de contente
Em os ouvindo cantar.

Minha fala é baixinha,
Não a posso alevantar;
E mesmo assim, sendo baixinha,
Já m’a quiseram comprar.

Portel estás satisfeito
Em ver teus filhos brilhar,
E até choras de contente
Em os ouvindo cantar.

Em os ouvindo cantar
Até bate a mão no peito;
Em ver teus filhos brilhar
Portel estás satisfeito.

Brota a água

Brota a água da pedra bruta:
Sua luta, labuta,
De tudo dessedentar;
Ganha altura, desmesura
De tanto querer ser mar.

Corre campos, cria formas
Que nem ousara sonhar;
Dança ritmos, canta trovas
Antes de chegar ao mar.

A ciência que o mar tem
Não tem nada de pasmar:
Não há regato nem rio
Que ao mar não vá parar.

Brota a água da pedra bruta:
Sua luta, labuta,
De tudo dessedentar;
Ganha altura, desmesura
De tanto querer ser mar.

Corre campos, cria formas
Que nem ousara sonhar;
Dança ritmos, canta trovas
Antes de chegar ao mar.

Brota a água da pedra bruta:
Sua luta, labuta,
De tudo dessedentar;
Ganha altura, desmesura
De tanto querer ser mar.

Corre campos, cria formas
Que nem ousara sonhar;
Dança ritmos, canta trovas
Antes de chegar ao mar.

Letra e música: Pedro Mestre
Intérprete: Pedro Mestre com Janita Salomé (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015)
Outra versão de Pedro Mestre com Janita Salomé (in DVD “No CCB: Pedro Mestre & Convidados”, Pedro Mestre, 2017)

Caminhos do Alentejo

Caminhos do Alentejo.
Terra bravia de fomes
com piteiras aceradas
como pontas de navalhas
em esperas de encruzilhadas!
Caminhos do Alentejo.
Desde valados e sebes,
searas, vilas, aldeias
e chuvas e descampados
— caminhos do Alentejo
desde menino vos piso!

Poema: Manuel da Fonseca (excerto inicial da parte I de “Para um poema a Florbela”)
Música: Paulo Ribeiro
Arranjo: Jorge Moniz
Intérprete: Paulo Ribeiro
Versão original: Paulo Ribeiro com Vitorino (in CD “O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis”, Açor/Emiliano Toste, 2017)

Campaniça do despique

Campaniça do despique,
Na venda e bailes de roda:
Dedilhando o improviso
Ou trauteando uma moda.

Na rua do velho monte,
Com as moças a bailar
Os passos simples duma dança
E a viola a dedilhar.

Nas feiras e romarias,
Na serra e no alambique,
Na venda e bailes de roda:
Campaniça do despique.

O tocador da viola
É feio mas toca bem;
Se não casar por a prenda,
Formosura não a tem!

Campaniça do despique,
Na venda e bailes de roda:
Dedilhando o improviso,
Ou trauteando uma moda.

Na rua do velho monte,
Com as moças a bailar
Os passos simples duma dança
E a viola a dedilhar.

Nas feiras e romarias,
Na serra e no alambique,
Na venda e bailes de roda:
Campaniça do despique.

Letra e música: Pedro Mestre
Intérprete: Pedro Mestre (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015)
Outra versão de Pedro Mestre (in DVD “No CCB: Pedro Mestre & Convidados”, Pedro Mestre, 2017)

Canta alentejano

Canta alentejano, canta,
o teu canto é oração,
tens a alma na garganta
solidão, ai não, ai não!

Solidão, ai não, ai não!
Quem canta, seu mal espanta.
O teu canto é oração:
canta, alentejano, canta!

Eu gosto muito de ouvir
cantar a quem aprendeu.
Houvera quem me ensinara,
quem aprendia era eu!

Popular alentejano

Chamava-se Catarina

Em Memória de uma Camponesa Assassinada
– Cantar Alentejano

Chamava-se Catarina,
O Alentejo a viu nascer;
Serranas viram-na em vida,
Baleizão a viu morrer.

Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr;
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou.

Acalma o furor, campina,
Que o teu pranto não findou!
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou.

Aquela pomba tão branca
Todos a querem p’ra si;
Ó Alentejo queimado,
Ninguém se lembra de ti!

Aquela andorinha negra
Bate as asas p’ra voar;
Ó Alentejo esquecido,
Inda um dia hás-de cantar!

Letra: António Vicente Campinas
Música: Carlos Paredes (“Em Memória de uma Camponesa Assassinada”) e José Afonso (“Cantar Alentejano”)
Intérprete: Mariana Abrunheiro com o Grupo Coral “Estrelas do Sul” de Portel (in Livro/CD “Cantar Paredes”, Mariana Abrunheiro/BOCA – Palavras Que Alimentam, 2015)
Versão original (“Em Memória de uma Camponesa Assassinada”): Carlos Paredes (1973) (in CD “Na Corrente”, EMI-VC, 1996, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; Livro/4CD “O Mundo Segundo Carlos Paredes: Integral 1958-1993”: CD3 – “Danças”, EMI-VC, 2003)
Versão original (“Cantar Alentejano”): José Afonso (in LP “Cantigas do Maio”, Orfeu, 1971, 1982, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art’Orfeu Media, 2012)

Como podem ser iguais

[ Só Uma Pena Me Existe ]

[Cantiga:]
Como podem ser iguais
Os dedos das nossas mãos,
Se há filhos dos mesmos pais
Que não parecem irmãos?

[Moda:]
Só uma pena me existe,
Minha doce saudade:
É olhar para o teu rosto,
Ver-te assim tão pouca idade.

Ver-te assim tão pouca idade,
Ver-te assim tão criancinha;
Só uma pena me existe,
Minha doce jovenzinha.

[Cantiga:]
Lá por trás daquele outeiro,
Nasce o sol e nasce a lua;
Ando à procura, não acho
Cara mais linda que a tua.

[Moda:]
Só uma pena me existe,
Minha doce saudade:
É olhar para o teu rosto,
Ver-te assim tão pouca idade.

Ver-te assim tão pouca idade,
Ver-te assim tão criancinha;
Só uma pena me existe,
Minha doce jovenzinha.

Só uma pena me existe,
Minha doce saudade:
É olhar para o teu rosto,
Ver-te assim tão pouca idade.

Ver-te assim tão pouca idade,
Ver-te assim tão criancinha;
Só uma pena me existe,
Minha doce jovenzinha.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Arranjo: Monda e Ruben Alves
Intérprete: Monda
Versão original: Monda com Rui Veloso (in CD “Monda”, Monda/TáNaForja, 2016)

De dia sonho contigo

[ Vira do Dia ]

De dia sonho contigo,
À noite aqui te quero;
Esquecer-te não consigo,
De não te ter desespero.

Oh meu amor, quem te vira
Trinta dias cada mês,
Sete dias da semana,
Cada instante uma vez!

Nasce o dia, vem a noite,
Põe-se o Sol, torna-se a pôr;
Vejo-te, torno-te a ver
Cada vez com mais amor.

Nasce o dia, vem a noite,
Põe-se o Sol, torna-se a pôr;
Vejo-te, torno-te a ver
Cada vez com mais amor.

Acordo, sonho contigo,
Fecho os olhos, só te vejo;
Firme como o firmamento
Só o bem que nos desejo.

É num sonho que começa
O amor na vida inteira;
Quem me dera viver sempre
A sonhar desta maneira.

Nasce o dia, vem a noite,
Põe-se o Sol, torna-se a pôr;
Vejo-te, torno-te a ver
Cada vez com mais amor.

Nasce o dia, vem a noite,
Põe-se o Sol, torna-se a pôr;
Vejo-te, torno-te a ver
Cada vez com mais amor.

É num sonho que começa
O amor na vida inteira;
Quem me dera viver sempre
A sonhar desta maneira.

Nasce o dia, vem a noite,
Põe-se o Sol, torna-se a pôr;
Vejo-te, torno-te a ver
Cada vez com mais amor.

Nasce o dia, vem a noite,
Põe-se o Sol, torna-se a pôr;
Vejo-te, torno-te a ver
Cada vez com mais amor.

Letra: Tradicional do Alentejo, Macadame e Catarina Gouveia
Música: Macadame
Intérprete: Macadame
Versão original: Macadame (in Livro/CD “Firmamento”, Macadame, 2016)

Debaixo do lenço azul

[ Maria Campaniça ]

Debaixo do lenço azul com sua barra amarela
os lindos olhos que tem!
Mas o rosto macerado
de andar na ceifa e na monda
desde manhã ao sol-posto,
mas o jeito
de mãos torcendo o xaile nos dedos
é de mágoa e abandono…
Ai Maria Campaniça,
levanta os olhos do chão
que eu quero ver nascer o sol!

Poema: Manuel da Fonseca (in “Rosa-dos-Ventos”, Lisboa: Imprensa Baroeth, 1940; “Poemas Completos”, Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958; “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 3.ª edição, Lisboa: Portugália Editora, 1969 – p. 38; “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 5.ª edição, Lisboa: Forja, 1975 – p. 60)
Música: Paulo Ribeiro
Arranjo: Jorge Moniz
Intérprete: Paulo Ribeiro
Versão original: Paulo Ribeiro (in CD “O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis”, Açor/Emiliano Toste, 2017)

Deixei de olhar p’ra quem fui

[ Cantiga do Tempo Novo ]

Deixei de olhar p’ra quem fui,
Do passado estou ausente;
Às vezes mais vale a pena
Rir de tudo o que faz pena
Da alma triste da gente.

Vou lançar mãos à aventura,
Correr noutra direcção;
Quanto mais nos lamentamos
Ainda mais presos ficamos
E nos dói o coração.

Quando me ponho a pensar
Em alguém que tanto quis,
Já não me sento a chorar
E até me dá p’ra cantar
Modas que um dia lhe fiz.

Agora sinto-me livre,
Sem nada p’ra me prender:
E vou pela estrada fora
Rumo ao sul, vou sem demora,
Basta o sol p’ra me aquecer.

A nossa vida é um mar
Com muitas marés e vagas:
Não temos nada a perder,
O melhor mesmo é viver
Combatendo as nossas mágoas.

Tenho o mundo à minha espera,
Há ilhas por descobrir:
E há uma vontade nova,
Um tempo que se renova,
Novo amor que vai surgir.

Letra e música: Paulo Ribeiro
Arranjo: Há Lobos Sem Ser na Serra
Intérprete: Há Lobos Sem Ser na Serra
Primeira versão do grupo Há Lobos Sem Ser na Serra (in CD “Cantares do Sul e da Utopia”, Há Lobos Sem Ser na Serra/Alain Vachier Music Editions, 2016)
Versão original: Paulo Ribeiro com o Grupo Coral e Etnográfico “Os Camponeses de Pias” (in CD “Aqui Tão Perto do Sol”, EMI-VC, 2002)
Outra versão de Paulo Ribeiro (in CD “Canções 1998-2002”, Paulo Ribeiro, 2014)

Deixo-te ao postigo

[ Amores de Jericó ]

Deixo-te ao postigo
Um lenço e uma rosa;
Vou partir p’ra longe,
Partir sem demora.

Não chores por mim!
Eu não o mereço:
Sou sombra fugaz
Mas não te esqueço.

Não queiras saber
O que eu não te digo:
Sou fora-da-lei,
Sou mais que um bandido.

Não venhas por mim
Que eu não sei amar!
Com a faca nos dentes
Meu verbo é zarpar.

O Sol já desponta,
Vai-se a madrugada:
O perigo espreita;
Adeus, minha amada!

Não quero teus ais,
Ouve o que eu te digo:
Ande eu onde andar,
Estarás sempre comigo.

Não queiras saber
O que eu não te digo:
Sou fora-da-lei,
Sou mais que um bandido.

Não venhas por mim
Que eu não sei amar!
Com a faca nos dentes
Meu verbo é zarpar.

Não queiras saber
O que eu não te digo:
Sou fora-da-lei,
Sou mais que um bandido.

Não venhas por mim
Que eu não sei amar!
Com a faca nos dentes
Meu verbo é zarpar.

Letra e música: Celina da Piedade e Alex Gaspar
Intérprete: Celina da Piedade (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)

Diz a laranja ao limão

Diz a laranja ao limão:
“Qual de nós será mais doce?”
Sou fiel ao meu amor,
Assim ele p’ra mim fosse.

Assim ele p’ra mim fosse,
Fiel ao meu coração;
“Qual de nós será mais doce?”,
Diz a laranja ao limão.

Diz a laranja ao limão:
“Qual de nós será mais doce?”
Sou fiel ao meu amor,
Assim ele p’ra mim fosse.

Assim ele p’ra mim fosse,
Fiel ao meu coração;
“Qual de nós será mais doce?”,
Diz a laranja ao limão.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Arranjo: Monda e Ruben Alves
Intérprete: Monda (in CD “Monda”, Monda/Tánaforja, 2016)
Primeira versão: Vitorino (in LP “Não Há Terra Que Resista: Contraponto”, Orfeu, 1979, reed. Movieplay, 1991)

Dizem pr’aí que chegou

[ Maria da Rocha ]

Dizem pr’aí que chegou
A liberdade apressada;
Eu inda não dei por nada,
Continuo sendo o que sou.

No Alentejo eu trabalho
Cultivando a dura terra;
Vou fumando o meu cigarro,
Vou cumprindo o meu horário
Lançando a semente à terra.

Maria da Rocha,
Do alto rochedo.
Quem namora a Rocha,
Quem namora a Rocha
Namora sem medo.

Namora sem medo,
Medo de ninguém.
Maria da Rocha,
Maria da Rocha,
Da Rocha, meu bem.

Quem me dera a lua
Que nasce no mar:
Fosse à tua rua
De véu branco e nua
P’ra te namorar.

P’ra te namorar,
Quem me dera um dia
Guardar o luar
Que tens no olhar,
Meu amor, Maria.

Maria da Rocha,
Do alto rochedo.
Quem namora a Rocha,
Quem namora a Rocha
Namora sem medo.

Namora sem medo,
Medo de ninguém.
Maria da Rocha,
Maria da Rocha,
Da Rocha, meu bem.

Letra: Vitorino (quadra “Dizem pr’aí que chegou”), Popular (Alentejo), e João Monge (quintilhas “Quem me dera a lua” e “P’ra te namorar”)
Música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Duarte
Versão original: Duarte (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018)

Dorme, meu menino d’oiro

[ Aurora Tem um Menino ]

Dorme, meu menino d’oiro!
Oh meu lindo amor!
Não chores a tua sorte,
Oh meu lindo amor!
Oh meu lindo bem!

Que eu de ti nunca me perco,
Oh meu lindo amor!
Minha estrela do norte,
Oh meu lindo amor!
Oh meu lindo bem!

Aurora tem um menino
Mas tão pequenino;
O pai quem será?
É o Zé da Aroeira
Que vai p’rá Figueira,
Mais tarde virá.

No adro de São Vicente,
Onde há tanta gente,
Aurora não está;
Cala-te, Aurora, não chores,
Que o pai da criança
Mais tarde virá!

Cala-te, Aurora, não chores,
Que o pai da criança
Mais tarde virá!

Letra: Tradicional do Alentejo, e Celina da Piedade e Alex Gaspar (duas estrofes iniciais)
Música: Tradicional do Alentejo
Intérprete: Celina da Piedade
Primeira versão de Celina da Piedade (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)

É alegre e sonhadora

[ Andei a guardar o gado ]

É alegre e sonhadora
A canção alentejana:
Cantada ao romper de aurora
Nas margens do Guadiana.

Andei a guardar o gado
Em tempos que já lá vão:
Deixei a vida do campo,
Trabalho na construção.

Trabalho na construção,
Já não me encosto ao cajado;
Em tempos que já lá vão
Andei a guardar o gado.

O Alentejo é que é
O celeiro da nação;
Nós somos alentejanos,
Somos da terra do pão.

Andei a guardar o gado
Em tempos que já lá vão:
Deixei a vida do campo,
Trabalho na construção.

Trabalho na construção,
Já não me encosto ao cajado;
Em tempos que já lá vão
Andei a guardar o gado.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD2, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)

É tão lindo ver no campo

[ Trigueirinha alentejana ]

É tão lindo ver no campo
Tão linda ceifando
Trigueirinha alentejana
Numa mão levas a foice
Tão linda ceifando
Noutra canudos de cana

Com seu traje à camponesa
Tão linda ceifando
Sempre de chapéu ao lado
Cantando lindas cantigas
Tão linda ceifando
As espigas do pão sagrado

(Popular – Alentejo)

Estando eu na minha loja

[ João Brandão ]

Estando eu na minha loja,
Encostado ao meu balcão,
Mais brando…
Encostado ao meu balcão,

Ouvi uma voz dizer:
«Vais preso, João Brandão!»
Mais brando…
«Vais preso, João Brandão!»

Passarinho prisioneiro,
Pela tua liberdade;
Mais brando…
Pela tua liberdade.

Eu cantando peço a Deus:
Não haja aqui falsidade!
Mais brando…
Não haja aqui falsidade!

Estando eu na minha loja,
Encostado ao meu balcão,
Mais brando…
Encostado ao meu balcão,

Ouvi uma voz dizer:
«Vais preso, João Brandão!»
Mais brando…
«Vais preso, João Brandão!»
Mais brando…
«Vais preso, vais p’rá prisão!»

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Arranjo: Há Lobos Sem Ser na Serra
Intérprete: Há Lobos Sem Ser na Serra
Primeira versão do grupo Há Lobos Sem Ser na Serra (in CD “Cantares do Sul e da Utopia”, Há Lobos Sem Ser na Serra/Alain Vachier Music Editions, 2016)

Eu ia não sei p’ra onde

[ Que Bonito Que Seria ]

Eu ia não sei p’ra onde,
Encontrei não sei quem era:
Encontrei o mês de Abril
Procurando a Primavera.

Que bonito que seria
Se houvesse compreensão:
Os Homens não se matavam
E davam-se como irmãos.

É tão linda a liberdade
Até que chegou o dia;
Se houvesse compreensão
Então, que bonito que seria!

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Arranjo: Há Lobos Sem Ser na Serra
Intérprete: Há Lobos Sem Ser na Serra
Primeira versão do grupo Há Lobos Sem Ser na Serra (in CD “Cantares do Sul e da Utopia”, Há Lobos Sem Ser na Serra/Alain Vachier Music Editions, 2016)

Eu ouvi um passarinho

[ Alentejo ]

1. Eu ouvi um passarinho
às quatro da madrugada,
Cantando lindas cantigas
à porta da sua amada.

2. Ao ouvir cantar tão bem
a sua amada chorou.
Às quatro da madrugada
o passarinho cantou.

3. Alentejo quando canta,
vê quebrada a solidão;
traz a alma na garganta
e o sonho no coração.

4. Alentejo, terra rasa,
toda coberta de pão;
a sua espiga doirada
lembra mãos em oração.

Eu só quero que me fales

[ Afã ]

Eu só quero que me fales
De cantigas e de vinho;
Deixa lá e não te rales,
Deus perdoa o descaminho!

Eu só quero que me fales
De cantigas e de vinho;
Deixa lá e não te rales,
Deus perdoa o descaminho!

Deixa essa gente vã
Com conversas e intrigas.
Elas não interessam nada
Pois o meu maior afã
É beber minha golada
De vinho na tarde vã,
Ao som de belas cantigas.

Poema: Al-Mu’tamid (1040-1095); trad. Adalberto Alves (in “O Meu Coração É Árabe: A Poesia Luso-Árabe”, Lisboa: Assírio & Alvim, 1987, 2.ª edição, 1991 – p. 151)
Música: Paulo Ribeiro e Pedro Frazão
Arranjo: Há Lobos Sem Ser na Serra
Intérprete: Há Lobos Sem Ser na Serra
Primeira versão do grupo Há Lobos Sem Ser na Serra (in CD “Cantares do Sul e da Utopia”, Há Lobos Sem Ser na Serra/Alain Vachier Music Editions, 2016) [gravado na sala A Bruxa Teatro, Évora, Fev. 2017 ]
Versão original: Anonimato (in CD “Anonimato”, Heaven Sound, 1993)
Outras versões: Paulo Ribeiro (in CD “Aqui Tão Perto do Sol”, EMI-VC, 2002); Paulo Ribeiro (in CD “Canções 1998-2002”, Paulo Ribeiro, 2014)

Eu subi àquele monte

[ Altinho ]

Eu subi àquele monte
para ver se te esquecia;
Quanto mais alta estava
mais o meu amor crescia.

Quero ir para o altinho
que eu daqui não vejo bem;
Quero ir ver o meu amor
se ele adora mais alguém.

Se ele adora mais alguém,
se ele me ama a mim sozinha,
que eu daqui não vejo bem,
quero ir para o altinho.

que eu daqui não vejo bem,
quero ir para o altinho.

Letra: Tradicional do Alentejo, e Celina da Piedade e Alex Gaspar (quadra “Eu subi àquele monte”)
Música: Tradicional do Alentejo, e Toon Van Mierlo e Pascale Rubens
Intérprete: Celina da Piedade
Primeira versão de Celina da Piedade (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)

Évora doce

Évora doce
Negro vestido
Por capelinhas
Cercada d’ouro
Trigo em tesouro
Mulher rainha

Guardas histórias
Guerras e amores
Por ti vividas
E tens no quarto
Cercando a praça
Mil avenidas

São tuas mágoas
Que são escutadas
Quando da Sé
Por entre as horas
Amargurada
Bates o pé

E os teus cabelos
Ficam mais belos
Quando tu vês
Capas traçadas
Numa guitarra
Cantando o que és

Évora doce
Negro vestido
Por capelinhas
Cercada d’ouro
Trigo em tesouro
Mulher rainha

Envergonhada
Se o Alentejo
Lhe pede um beijo
E às escondidas
P’ra ninguém ver
Mata o desejo

Letra e música: Duarte
Intérprete: Duarte (in CD “Aquelas coisas da Gente”, JBJ & Viceversa, 2009)
Primeira versão: Duarte (in CD “Fados Meus”, Ovação, 2004)

Fez sábado quinta-feira

Fez sábado quinta-feira,
P’ra lá d’Évora três semanas,
Estive dez dias num Verão
Nas Américas Romanas.

Embarquei em dois caleiros
Na baía de Lisboa;
Arribei, fui dar a Goa,
Desembarquei em Alenquer;
Casei com sete mulheres,
Falta uma p’rá primeira;
Fui dar à Ilha Terceira,
Com três dias numa hora;
Abalei e vim-me embora,
Fez sábado quinta-feira.

Agarrei nos alforginhos,
Pus um pão em quatro enxacas,
Na gamela duas vacas
E na borracha toucinho;
Um açafate com vinho,
Trinta metros de banana;
Dei passos à americana,
Fui passar a Ayamonte;
Abalei hoje, cheguei ontem
P’ra lá d’Évora três semanas.

Eu já estive em Erapouca,
Numa ocharia empregado;
Foi-se um carro carregado
Numa abóbora canoca;
Um mosquito com um boi na boca
Cem léguas em proporção;
Atirei-lhe um bofetão
Que pelo ar o fez ir;
À espera dele cair
Estive dez dias num Verão.

Fui soldado, assentei praça
No 15 de Sapadores;
Maquinista de vapores
Na carreira de Alcobaça;
Venci o Forte da Graça,
Também a Vila de Terena
E as províncias arraianas,
Venci toda a nobrezia;
Bati-me com a Turquia
Nas Américas Romanas.

Fez sábado quinta-feira,
P’ra lá d’Évora três semanas,
Estive dez dias num Verão
Nas Américas Romanas.

Letra: Popular
Música: José Manuel David
Arranjo e direcção musical: José Manuel David
Intérprete: Gaiteiros de Lisboa com Luís Espinho e João Paulo Sousa (Adiafa) (in CD “Avis Rara”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2012)

Folheia-se o caderno e eis o sul

[ Alentejo ]

Folheia-se o caderno e eis o sul
E o sul é a palavra. E a palavra
Desdobra-se
No espaço com suas letras de
Solstício e de solfejo
Além de ti
Além do Tejo

Verás o rio e talvez o azul
Não o de Mallarmé: soma de branco e de vazio
Mas aquela grande linha onde o abstracto
Começa lentamente a ser o
Sul

Outro é o tempo
Outra a medida

Tão grande a página
Tão curta a escrita

Entre o achigã e a perdiz
Entre chaparro e choupo

Tanto país
E tão pouco

Solidão é companheira
E de senhor são seus modos
Rei do céu de todos
E de chão nenhum

À sombra de uma azinheira
Há sempre sombra para mais um

Na brancura da cal o traço azul
Alentejo é a última utopia

Todas as aves partem para o sul
Todas as aves: como a poesia

Manuel Alegre (Alentejo e ninguém)

Gosto muito dos teus olhos

[ O Mocho ]

Gosto muito dos teus olhos, ó Maria,
Muito mais gosto dos meus;
Se não fossem os meus olhos, ó Maria,
Não podia amar os teus.

O triste do mocho piava,
Ó lari, lariava,
Em cima da melancia, ó Maria;
Maria, Maria, Maria Capitôa
Dos montes, tiroli, ó terrim, tim, tim;
As mulheres são a alegria de mim.

Eu não quero mais amar, ó Maria,
Que eu do amar tenho medo;
Eu não quero arriscar, ó Maria,
A pagar o que eu não devo.

O triste do mocho piava,
Ó lari, lariava,
Em cima da melancia, ó Maria;
Maria, Maria, Maria Capitôa
Dos montes, tiroli, ó terrim, tim, tim;
As mulheres são a alegria de mim.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Arranjo: Monda
Intérprete: Monda (in CD “Monda”, Monda/Tánaforja, 2016)

Grândola, vila morena

Grândola, vila morena,
terra da fraternidade,
o povo é quem mais ordena
dentro de ti, ó cidade.

Dentro de ti, ó cidade,
o povo é quem mais ordena,
terra da fraternidade,
Grândola, vila morena.

Em cada esquina um amigo,
em cada rosto igualdade,
Grândola, vila morena,
t erra da fraternidade.

Terra da fraternidade,
Grândola, vila morena,
em cada rosto igualdade,
o povo é quem mais ordena.

À sombra duma azinheira
que já não sabia a idade,
jurei ter por companheira,
Grândola, a tua vontade.

Grândola, a tua vontade
jurei ter por companheira,
à sombra duma azinheira
que já não sabia a idade.

Letra e música: José Afonso
Intérprete: José Afonso (in “Cantigas do Maio”, Orfeu, 1971; reed. Movieplay, 1987)

Há ondas, meu bem

[ Sou das Ondas ]

Há ondas, meu bem, há ondas,
Há ondas sem ser no mar:
Há ondas no teu cabelo,
Há ondas no teu olhar.

Sou das ondas, sou das ondas,
Sou das ondas, sou do mar;
Meu amor já me deixou,
Meu amor vai-me deixar.

Nas ondas do mar, lá fora,
Aprendi eu a cantar
Numa barquinha doirada,
Ó meu bem, a navegar.

Há ondas, meu bem, há ondas,
Há ondas sem ser no mar:
Há ondas no teu cabelo,
Há ondas no teu olhar.

Sou das ondas, sou das ondas,
Sou das ondas, sou do mar;
Meu amor já me deixou,
Meu amor vai-me deixar.

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Intérprete: Paulo Ribeiro

Há um sobreiro velhinho

[ Sobreiro Velhinho ]

Há um sobreiro velhinho
Que nasceu à meia-encosta:
É a casa dos pardais,
Malhada dos animais,
Faz sombra que o pastor gosta.

Faz sombra que o pastor gosta
Nos dias quentes de Verão;
Põe o seu gado ao acarro,
Da cortiça faz um tarro,
Corta a lenha, faz carvão.

Corta a lenha, faz carvão
E nasce um novo raminho
Da Primavera ao Inverno;
Deus queira que seja eterno,
Há um sobreiro velhinho.

O sobreiro é obrigado
A sustentar a cortiça;
Quem não ama de vontade,
Seja qual for a idade,
Não se obriga por justiça.

Há um sobreiro velhinho
Que nasceu à meia-encosta:
É a casa dos pardais,
Malhada dos animais,
Faz sombra que o pastor gosta.

Faz sombra que o pastor gosta
Nos dias quentes de Verão;
Põe o seu gado ao acarro,
Da cortiça faz um tarro,
Corta a lenha, faz carvão.

Corta a lenha, faz carvão
E nasce um novo raminho
Da Primavera ao Inverno;
Deus queira que seja eterno,
Há um sobreiro velhinho.

Letra e música: Martinho Marques
Arranjo: José Manuel David
Intérprete: Pedro Mestre com Pedro Calado & Rancho de cantadores de Aldeia Nova de São Bento (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015)
Outra versão de Pedro Mestre com Pedro Calado & Rancho de cantadores de Aldeia Nova de São Bento (in DVD “No CCB: Pedro Mestre & Convidados”, Pedro Mestre, 2017)

Já são horas da merenda

Já são horas da merenda;
Ai, vamo-nos a merendar
Gaspachinho com vinagre,
Ai, para o peito refrescar!

Já se vai o Sol a pôr
Ai, para trás do cabecinho;
Bem quisera o nosso amo
Ai, prendê-lo c’um baracinho.

Já são horas da merenda;
Ai, vamo-nos a merendar
Gaspachinho com vinagre,
Ai, para o peito refrescar!

Já se vai o Sol a pôr
Ai, para trás do cabecinho;
Bem quisera o nosso amo
Ai, prendê-lo c’um baracinho.

Letra e música: Tradicional
Recolha: Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça
Intérprete: Macadame
Primeira versão de Macadame (in Livro/CD “Firmamento”, Macadame, 2016)

Lá nos campos

[ Eu fui apanhar marcela ]

Lá nos campos, verdes campos
Eu fui apanhar marcela
Daquela mais miudinha
Daquela mais amarela

Daquela mais amarela
Daquela mais miudinha
Lá nos campos, verdes campos
A marcela, a marcelinha

(Popular – Alentejo)

Lá traz a cegonha

[ Popular alentejana ]

Lá traz a cegonha
no bico o raminho.
Que seja bem-vinda
branquinha, tão linda
ao seu velho ninho.

Senhora cegonha,
como tem passado?
Não há quem a veja
voar p’rá Igreja,
pousar no telhado.

Quando chega o Outono
e o bando levanta,
anuncia a hora
que se vai embora,
leva a meia branca.

Lá vai uma embarcação

Lá vai uma embarcação
Por esses mares fora;
Por aqueles que lá vão
Há muita gente que chora.

Há muita gente que chora
Com mágoas no coração;
Por esses mares fora
Lá vai uma embarcação.

Ó mar alto, ó mar alto,
Ó mar alto sem ter fundo!
Mais vale andar no mar alto
Que nem nas bocas do mundo.

Lá vai uma embarcação
Por esses mares fora;
Por aqueles que lá vão
Há muita gente que chora.

Há muita gente que chora
Com mágoas no coração;
Por esses mares fora
Lá vai uma embarcação.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in CD “O Círculo Que Leva a Lua”, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2003; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD2, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)
Outra versão: Rão Kyao & Os Ganhões de Castro Verde (in CD “Rão Kyao & Riccardo Tesi: Live in Sete Sóis”, Associação Sete Sóis Sete Luas, 2005)

Lembra-me o tempo passado

[ O Almocreve ]

Lembra-me o tempo passado,
Tudo se vai acabando:
O boi puxando o arado,
O almocreve cantando…

O almocreve cantando
Semeando o verde prado.
Quando vejo alguém lavrando
Lembra-me o tempo passado.

A vida do almocreve
É uma vida arriscada:
Ao descer uma ladeira,
Ao cerrar duma carrada.

Lembra-me o tempo passado,
Tudo se vai acabando:
O boi puxando o arado,
O almocreve cantando…

O almocreve cantando
Semeando o verde prado.
Quando vejo alguém lavrando
Lembra-me o tempo passado.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in CD “Modas”, Robi Droli, 1994; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD1, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)

Linda cara que tu tens

[ Fadinho Alentejano ]

Linda cara que tu tens, já sei,
Quando chegas noite fora.
À espera à porta de casa,
Está o teu pai que te adora.

Lindos olhos tem o mocho, piu,
Quando a noite vem chegando.
P’ra deixar passar a noite,
Uma moda eu vou cantando.

Muda a água às azeitonas,
Rega bem os teus tomates,
Tem lá cuidado com a horta!
O cravo já está no vaso,
Sim, senhora, por acaso.

Abalaste para Lisboa, pois,
Deixaste-me ao pé da porta.
Tu seguiste o teu caminho,
A minha alma ficou torta.

Quando cheguei ao Barreiro, já fui,
Lisboa estava fechada.
Voltei p’ra casa a cantar,
Uma vida abençoada.

Muda a água às azeitonas,
Rega bem os teus tomates,
Tem lá cuidado com a horta!
O cravo já está no vaso,
Sim, senhora, por acaso.

Letra e música: Paulo de Carvalho
Intérprete: Ricardo Ribeiro
Versão original: Ricardo Ribeiro com o Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in CD “Hoje É Assim, Amanhã Não Sei”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2016)

Maldita sociedade

[ Camponês Alentejano ]

Maldita sociedade,
Estás tão mal organizada:
Quem não trabalha tem tudo,
Quem trabalha não tem nada!

Camponês alentejano,
Camponês agricultor:
Tu trabalhas todo o ano,
Dás produto ao lavrador.

Dás produto ao lavrador,
Tua vida é um engano:
É tão triste o teu valor,
Camponês alentejano!

Todo o homem que trabalha
Não deve nada a ninguém:
Aquele que nada faz
Deve tudo quanto tem.

Camponês alentejano,
Camponês agricultor:
Tu trabalhas todo o ano,
Dás produto ao lavrador.

Dás produto ao lavrador,
Tua vida é um engano:
É tão triste o teu valor,
Camponês alentejano!

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in CD “É Tão Grande o Alentejo”, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 1997; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD2, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)

Maldita sociedade, estás tão mal organizada

[ Há Lobos sem Ser na Serra ]

Maldita sociedade,
Estás tão mal organizada!
Quem não trabalha tem tudo,
Quem trabalha não tem nada.

Há lobos sem ser na serra,
Eu ainda não sabia;
Debaixo de um arvoredo
Trabalham com valentia.

Trabalham com valentia
Cada qual a sua terra;
Eu ainda não sabia
Que há lobos sem ser na serra.

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Arranjo: Há Lobos Sem Ser na Serra
Intérprete: Há Lobos Sem Ser na Serra (in CD “Cantares do Sul e da Utopia”, Há Lobos Sem Ser na Serra/Alain Vachier Music Editions, 2016)

Mariana canta ao despique

[ Ti Mariana ]

Mariana canta ao despique:
Fez do cante a sua lida,
Ali p’rós lados de Ourique,
Nessa planície perdida.

Nessa planície perdida,
Nesse Alentejo adorado,
Ti Mariana achou a vida
E fez do cante o seu fado.

E fez do cante o seu fado,
Cantando com o coração;
As modas vão dando brado
Ao velho estilo baldão.

Quem canta seu mal espanta,
É o ditado que o diz;
Cantar afina a garganta,
Povo que canta é feliz.

Mariana canta ao despique:
Fez do cante a sua lida,
Ali p’rós lados de Ourique,
Nessa planície perdida.

Nessa planície perdida,
Nesse Alentejo adorado,
Ti Mariana achou a vida
E fez do cante o seu fado.

E fez do cante o seu fado,
Cantando com o coração;
As modas vão dando brado
Ao velho estilo baldão.

A viola campaniça,
Em meus dedos dedilhando,
Acompanha sem preguiça
Qualquer Mariana cantando.

Mariana canta ao despique:
Fez do cante a sua lida,
Ali p’rós lados de Ourique,
Nessa planície perdida.

Nessa planície perdida,
Nesse Alentejo adorado,
Ti Mariana achou a vida
E fez do cante o seu fado.

E fez do cante o seu fado,
Cantando com o coração;
As modas vão dando brado
Ao velho estilo baldão.

Letra: Rosa Guerreiro Dias
Música: José Manuel David
Intérprete: Pedro Mestre (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015)

Menina estás à janela

Menina estás à janela
Com o teu cabelo à lua
Não me vou daqui embora
Sem levar uma prenda tua

Sem levar uma prenda tua
Sem levar uma prenda dela
Com o teu cabelo à lua
Menina estás à janela

Os olhos requerem olhos
E os corações, corações
E os meus requerem os teus
Em todas as ocasiões

Letra e música: Popular (Alentejo)
Recolha e adaptação: Vitorino
Intérprete: Vitorino
Versão original: Vitorino (in “Semear Salsa ao Reguinho”, Orfeu, 1975; reed. Movieplay, 1999)
Versão instrumental: Opus Ensemble (in “Temas do cancioneiro Português”, EMI Classics, 1987; reed. 1998)

Mértola dormia frente ao Guadiana

[ Em Mértola ]

Mértola dormia frente ao Guadiana
branca, branca, branca
torre de menagem, torre de vigia
de quem mais se ama
iam nas pedrinhas, pequeninos rios
do suor da terra alentejana
para lá dos montes, pertinho da raia
onde a terra passa a ser estranha

Com um sol a pique frente a uma mesquita
branca, branca, branca
subindo ao castelo, subindo à vigia
vendo o panorama
pr’além das muralhas, para aquém dos montes
prendiam-se os olhos à bonita
ficavam nos verdes, ficavam nos brancos
ficavam nos tempos da Moirama

Suando pestanas, frente a uma cegonha
branca, branca, branca
Mértola corria frente ao Guadiana
por quem se derrama
o sol que há nos olhos, o mel que há no peito
a dor que há no corpo de quem sonha
com o sabor das ervas, no cheiro das águas
no voltar a ver a quem mais se ama

Ia viajante frente à moradia
branca, branca, branca
ia sendo moira, noiva tão serena
e alma cigana
o lenço voando, batia no rosto
no silêncio olhava o que não via
para lá da terra, para lá dos montes
nunca mais veria a tarde calma

Mértola dormia frente ao Guadiana
branca, branca, branca
torre de vigia, torre de menagem
a quem mais se ama
iam nas pedrinhas, pequeninos rios
do amor à terra alentejana
para lá dos montes, pertinho da raia
onde a terra passa a ser Espanha

Poema e música: Teresa Muge
Intérprete: Amélia Muge (in CD “Múgica”, UPAV, 1992)

Minha mãe, estou de abalada

[ Minha Mãe, Sou um Mainante ]

Minha mãe, estou de abalada:
Parto já, neste instante;
Adeus, minha mãe amada,
Vou p’rá vida de mainante.

De manta ao ombro e bordão,
Trilho caminhos de amargura:
Tenho fome, não tenho pão,
Durmo assim na noite escura.

Rompe o sol de manhãzinha
E o povoado é distante:
Cantando p’ra ti, mãezinha,
Esta vida de mainante.

As lágrimas não me apagam
As queixas e os martírios:
Só as estrelas acalmam,
À noite, os meus delírios.

De manta ao ombro e bordão,
Trilho caminhos de amargura:
Tenho fome, não tenho pão,
Durmo assim na noite escura.

Rompe o sol de manhãzinha
E o povoado é distante:
Cantando p’ra ti, mãezinha,
Esta vida de mainante.

O meu chão é chão barrento
Pisado com ternura,
De quem dorme ao relento
E faz dele a sepultura.

Letra: Romão Janeiro
Música: Paulo Ribeiro
Intérprete: Paulo Ribeiro
Versão original: Grupo Coral “Os Mainantes” de Pias (in CD “Entre Mestres e Aprendizes”, de Grupo Coral e Etnográfico “Os Camponeses de Pias” & “Os Mainantes”, Açor/Emiliano Toste, 2016)

Moreninha alentejana

– Moreninha alentejana,
quem te fez, morena, assim?
– Foi o sol da Primavera
que caía sobre mim.

Que caía sobre mim,
que andava a ceifar o trigo.
– Moreninha alentejana,
por que não casas comigo?

Por que não casas comigo?
Por que não casas com ela?
– Quem te fez, morena, assim?
– Foi o sol da Primavera.

Na sociologia do vinho

Na sociologia do vinho
é que se brinda!
É de azeite a gordura
que agradece
a quentura da lã
ventre de linho
e o gosto da azeitona
verde, verde.

No suor do cajado
lã de ovelha
firma-se o peito, esteva
velha.

Nas patas do rafeiro é
que se alonga
a geometria do sul
desfeita em cal
e a rijeza dos nervos já
perdida.

A cegonha já acena um
bater de asas.
Sangrado o campo, mirradas
são as casas.
Não são homens; são sombra
toda sal,
Só vultos de lentidão
ferida.

É no traço do sul que mais
se acolhe
o ermo das lonjuras
desenhadas:
A sombra, o silêncio
e a tristeza
de tristezas mal
balbuciadas.

Geométrico sul, cal
e planura
Loiro de água verde
adormecida.
Quem te dará um alento
uma saída
de alma clara em
escancarada alvura?

Só no cantar do sul
o tempo dura…

Letra: Afonso Dias
Intérprete: Afonso Dias (in CD “Geometria do Sul”, Edere, 2002)

Namorei sempre à tardinha

[ A Moda do Chegadinho ]

Namorei sempre à tardinha
Certas moças da minha aldeia:
Fosse magra, fosse gordinha,
Bonita ou menos feia.

Chegadinha, chegadinha a mim,
Chegadinho, chegadinho a ela;
Chegadinho, chegadinha, chegadinhos
Ao postigo e à janela.

Brinquei com uma, brinquei com duas,
Duas, três, quatro ou cinco;
Brinquei contigo, brinquei com ela,
Já sou casado e agora já não brinco.

Chegadinha, chegadinha a mim,
Chegadinho, chegadinho a ela;
Chegadinho, chegadinha, chegadinhos
Ao postigo e à janela.

Sou casado e com juízo,
Mas não deixo de pensar
Quando vejo moças catitas
À janela a namorar.

Chegadinha, chegadinha a mim,
Chegadinho, chegadinho a ela;
Chegadinho, chegadinha, chegadinhos
Ao postigo e à janela.

Letra e música: Francisco Naia
Intérprete: Francisco Naia (in CD “Francisco Naia e a Ronda Campaniça”, Francisco Naia/Ovação, 2012)

Não é a ceifa que mata

Terra Sagrada do Pão

Não é a ceifa que mata
Nem os calores do Verão
É a erva unha-gata
O cardo pica na mão

Alentejo, Alentejo
Terra sagrada do pão
Eu hei-de ir ao Alentejo
Inda que seja no Verão

Ver o doirado do trigo
Na imensa solidão
Alentejo, Alentejo
Terra sagrada do pão

Eu sou devedor à terra
A terra me está devendo
A terra paga-me em vida
Eu pago à terra em morrendo

(Popular – Alentejo)

Nasce o Sol no Alentejo

Nasce o Sol no Alentejo,
Nasce água clara na fonte;
Nasce em mim a saudade
Da lareira do teu monte.

Quem me dera ser o trigo
Que ciranda na peneira,
E poder andar contigo
Cirandando a vida inteira.

Não há cravo como o branco
Que até no cheirar é doce,
Nem amor como o primeiro
Se ele fingido não fosse.

Pelas estrelas da noite
Regulam-se os marinheiros,
E eu pelos teus lindos olhos
Que são astros mais certeiros.

Às ceifeiras nunca digas
Madrigais no teu cantar,
Pois se vão em tais cantigas
Fica o trigo por ceifar.

Eu não sei por que motivo
Tu me recusas um beijo!…
Ao menos sei porque vivo
Tão preso ao teu Alentejo.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Recolha: José Alberto Sardinha
Arranjo: António Prata, com Carlos Barata e Pedro Fragoso
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos (in 2CD “Alçude”: CD1, Ovação, 2001)
Primeira versão da Ronda dos Quatro Caminhos (in CD “Outras Terras”, Ronda dos Quatro Caminhos, 1999)

No Alentejo eu trabalho

[ É tão grande o Alentejo ]

No Alentejo eu trabalho
Cultivando a dura terra;
Vou fumando o meu cigarro,
Vou cumprindo o meu horário
Lá na encosta da serra.

É tão grande o Alentejo,
Tanta terra abandonada!
A terra é que dá o pão:
Para bem desta nação
Devia ser cultivada.

Tem sido sempre esquecido
À margem ao sul do Tejo:
Há gente desempregada,
Tanta terra abandonada!
É tão grande o Alentejo!

Trabalha, homem, trabalha
Se queres ter o teu valor!
Os calos são os anéis,
Os calos são os anéis
Do homem trabalhador.

É tão grande o Alentejo,
Tanta terra abandonada!
A terra é que dá o pão:
Para bem desta nação
Devia ser cultivada.

Tem sido sempre esquecido
À margem ao sul do Tejo:
Há gente desempregada,
Tanta terra abandonada!
É tão grande o Alentejo!

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in CD “É Tão Grande o Alentejo”, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 1997; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD2, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)
Outra versão: Dulce Pontes & Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in CD “O Primeiro Canto”, de Dulce Pontes, Polydor B.V. the Netherlands/Universal, 1999; CD “O Círculo Que Leva a Lua”, do Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde”, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2003)

No nosso Alentejo

[ Trigueira de raça ]

No nosso Alentejo
é tão lindo ouvir
cantar as ceifeiras,
ver as mondadeiras
no campo a sorrir.

Trigueira de raça,
quem te fez assim
ceifando os trigais,
ouvindo os teus ais
com pena de mim?

Eu por ti chorando
alegre e cantando
sinto o teu desejo,
linda trigueirinha,
linda alentejana,
dá-me cá um beijo.

À sombra da silva
é que eu adormeço
sonhando contigo.
Linda alentejana,
eu não te mereço.

Popular Alentejano

No tempo da Primavera

No tempo da Primavera,
há lindas flores no prado.
Canta, ó lindo passarinho,
ao nascer do sol doirado.

Ao nascer do sol doirado,
ó meu amor, quem me dera
pisando os mimosos prados
no tempo da Primavera.

Ó Alentejo dos pobres

[ Margem Sul (Canção Patuleira) ]

Ó Alentejo dos pobres,
reino da desolação,
não sirvas quem te despreza,
é tua a tua nação.

Não vás a terras alheias
lançar sementes de morte.
É na terra do teu pão
que se joga a tua sorte.

Terra sangrenta de Serpa,
terra morena de Moura,
vilas de angústia em botão,
doce raiva em Baleizão.

Ó margem esquerda do Verão
mais quente de Portugal,
margem esquerda deste amor
feito de fome e de sal.

A foice dos teus ceifeiros
trago no peito gravada,
ó minha terra morena
como bandeira sonhada.

Terra sangrenta de Serpa,
terra morena de Moura,
vilas de angústia em botão,
doce raiva em Baleizão.

Poema: Urbano Tavares Rodrigues
Música: Adriano Correia de Oliveira
Intérprete: Adriano Correia de Oliveira (in “Margem Sul”, Orfeu, 1967; “Obra Completa”, Movieplay, 1994)

Ó águia que vais tão alta

Ó águia que vais tão alta,
voando de pólo em pólo,
leva-me ao céu onde eu tenho
a mãe que me trouxe ao colo.

A mãe que me trouxe ao colo
ficou-me fazendo falta,
voando de pólo em pólo,
ó águia que vais tão alta.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Afonso Dias
(in CD “Geometria do Sul”, Edere, 2002)

O Alentejo é que é

[ Cidades, Vilas e Montes ]

O Alentejo é que é
O celeiro da nação;
Nós somos alentejanos,
Nós somos alentejanos,
Somos da terra do pão.

É linda a Reforma Agrária
Nos campos do Alentejo:
Aumentou a produção,
Deu para todos mais pão,
É isso que eu mais invejo.

Cidades, vilas e montes,
Unidade a trabalhar:
Só assim a reacção,
Gente má sem coração,
Nunca mais pode passar.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in LP “Os Ganhões de Castro Verde”, Metro-Som, 1980, reed. Metro-Som, ?; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD1, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)

O Alentejo não tem sombras

[ As Flores da Nossa Terra ]

O Alentejo não tem sombras
Se não as que vêm do céu;
E o camponês tem abrigo,
E o camponês tem abrigo
Às abas do seu chapéu.

Flores da nossa terra
Que abandonaram as mães
Numa linda romaria
Feita com muita alegria:
Foram dar a Guimarães.

Foram dar a Guimarães,
Recordação que se encerra;
Abandonaram as mães
E foram a Guimarães
Flores da nossa terra.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in LP “Os Ganhões de Castro Verde”, Metro-Som, 1980, reed. Metro-Som, ?; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD1, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)

Ó Estação de Ourique

Ó Estação de Ourique
Onde eu tive amores!
Onde há pirolitos
E também há flores.

Tem um largo ao meio
Mesmo na estação,
Param os comboios
Que vão p’ra Garvão.

Salta a malta nova
Vinda no furgão;
Grita o maquinista
E o chefe da estação.

E os moços pequenos
Sempre a saltitar;
Ficam para o balho,
Querem é dançar!

Vêm do Carregueiro
Casével e Aivados;
Da vila de Ourique
Chegam convidados.

Muito bem trajados
De Castro chegando,
Vêm cantadores
Modas entoando.

Cantam aos amores
Que estão espreitando;
E a tasca do Mendes
Já está esperando.

Ali num cantinho
Vão servindo copos:
Há sempre bom vinho
Chouriço e tremoços.

O chefe da estação
Junta a filharada
Com banjos, violão
E voz afinada.

Começam as danças
No Salão dos Nobres:
Velhos e crianças
E ricos e pobres.

Ai a balhação!
Aì a brincadeira!
Já está na estação
O comboio p’rá Funcheira.

Seguem seus destinos,
Uns ficam deitados:
Parecem meninos
Muito embriagados.

Ó Estação de Ourique
Onde eu tive amores!
Onde há pirolitos
E também há flores.

Tem um largo ao meio
Mesmo na estação,
Param os comboios
Que vão p’ra Garvão.

Salta a malta nova
Vinda no furgão;
Grita o maquinista
E o chefe da estação.

E os moços pequenos
Sempre a saltitar;
Ficam para o balho,
Querem é dançar!

Letra e música: Francisco Naia
Intérprete: Francisco Naia (in CD “Francisco Naia e a Ronda Campaniça”, Francisco Naia/Ovação, 2012)

O mar deixou o Alentejo

[ Se fores ao Alentejo ]

O mar deixou o Alentejo
onde trouxe canções de oiro
mas volta a matar saudades
mas ondas do trigo loiro.

Se fores ao Alentejo,
vai vai vai vai vai.
Não te esqueças, dá-lhe um beijo,
ai ai ai ai.

Nas capelas e nos montes
há sorrisos de brancura
onde fala a voz de Deus
na voz da cal e da alvura.

Sobe o sol e abrasa a terra
a fecundar as espigas
à sombra das azinheiras
na dolência das cantigas.

Por lonjuras e planuras,
oh solidão, solidão,
eu quero paz no trabalho
p’ra poder ganhar o pão.

Popular do Alentejo

Ó meu São João Baptista

[ São João de Alpalhão ]

Ó meu São João Baptista!
Ó meu Baptista João!
Vamos ir à água nova
Na noite de São João!

São João baptiza Cristo,
Cristo baptiza João:
Ambos foram baptizados
Lá no rio do Jordão.

São João p’ra ver as moças
Fez uma fonte de prata;
As moças não vão a ela,
São João todo se mata.

Meu divino São João
Que na mão tem a bandeira!
Vamos ir ao rosmaninho
P’ra fazermos uma fogueira!

Letra e música: Tradicional (Alpalhão, Nisa, Alto Alentejo)
Intérprete: Segue-me à Capela
Primeira versão de Segue-me à Capela (in Livro/CD “San’Joanices, Paganices e Outras Coisas de Mulher”, Segue-me à Capela/Fundação GDA/Tradisom, 2015)

Ó Minha Amora Madura

Ó minha amora madura,
Ai diz-me quem te amadurou.
Foi o sol, foi a geada,
Ai foi o calor que ela apanhou.

Ó minha amora madura,
Ai diz-me quem te amadurou.
Foi o sol, foi a geada,
Ai foi o calor que ela apanhou.

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Intérprete: Afonso Dias* com Teresa Silva (in CD “Andanças & Cantorias”, Bons Ofícios – Associação Cultural, 2016)
Primeira versão: José Afonso (in LP “Eu Vou Ser Como a Toupeira”, Orfeu, 1972, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art’Orfeu Media, 2012)

Ó moças façam arquinhos

Arquinhos (II)

Ó moças façam arquinhos!
Ó moças façam arcadas!
P’ra passar o meu benzinho,
P’ra passar a minha amada.

P’ra passar a minha amada,
P’ra passar o meu benzinho,
Ó moças façam arquinhos!
Ó moças façam arcadas!

Ó moças façam arquinhos!
Ó moças façam arcadas!
P’ra passar o meu benzinho,
P’ra passar a minha amada.

P’ra passar a minha amada,
P’ra passar o meu benzinho,
Ó moças façam arquinhos!
Ó moças façam arcadas!

Ó moças façam arquinhos!
Ó moças façam arcadas!
P’ra passar o meu benzinho,
P’ra passar a minha amada.

P’ra passar a minha amada,
P’ra passar o meu benzinho,
Ó moças façam arquinhos!
Ó moças façam arcadas!

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Intérprete: Aqui Há Baile (in CD “Caderno de Danças do Alentejo – adaptações”, Associação Pédexumbo/Caracol Secreto, 2013)

O Sol é que alegra o dia

[ Menina Florentina ]

O Sol é que alegra o dia
Pela manhã quando nasce
Ai de nós o que seria
Se o Sol um dia faltasse

Ó menina Florentina
És a flor que em meu peito domina
Seu amante delirante
De viagem chegou neste instante

Já cá está o tiroliroliro tiroliroliro
Já cá está o tiroliroliro tiroliroló
Já cá está o tiroliroliro ó amor
Tiroliroliro abre a porta, ó branca flor

Não me inveja de quem tem
Carros, parelhas e montes
Só me inveja de quem bebe
Água em todas as fontes

Ó menina Florentina
És a flor que em meu peito domina
Seu amante delirante
De viagem chegou neste instante

Já cá está o tiroliroliro tiroliroliro
Já cá está o tiroliroliro tiroliroló
Já cá está o tiroliroliro ó amor
Tiroliroliro abre a porta, ó branca flor

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Janita Salomé / Grupo “Vozes do Sul”* (in CD “Vozes do Sul: uma celebração do cante alentejano” , Capella, 2000)

Ó terra morena deitada ao sol

[ Fado do Alentejo ]

Ó terra morena deitada ao sol,
Quero ser a alma do ganhão,
Cheia de horizonte, cântico de fonte,
Catedral do trigo, azeite e pão!

Ó terra morena deitada ao sol,
Quero ser a alma da cegonha
Que sobe no vento e ouve o lamento
Do homem que, ao sul, trabalha e sonha!

Alentejo das casas de cal,
Alentejo do sobro e do sal;
Alentejo poejo, alecrim,
Alentejo das terras sem fim.

Ó terra morena deitada ao sol,
Quero ser a alma do sobreiro:
Estática, selvagem, dona da paisagem
Afrontando o tempo a corpo inteiro!

Alentejo das casas de cal,
Alentejo do sobro e do sal;
Alentejo poejo, alecrim,
Alentejo das terras sem fim.

Ó terra morena deitada ao sol,
Quero ser a alma do ganhão,
Cheia de horizonte, cântico de fonte,
Catedral do trigo, azeite e pão!

Letra: Rosa Lobato de Faria
Música: Rão Kyao
Arranjo: Rabih Abou-Khalil
Intérprete: Ricardo Ribeiro (in CD “Largo da Memória”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2013)
Primeira versão de Ricardo Ribeiro: Rão Kyao & Ricardo Ribeiro (in 2CD “Em’Cantado”: CD 1, Universal, 2009)
Versão original: Manuel de Almeida – “Alma do Ganhão” (in CD “Fado”, Movieplay, 1996)

Olha o passarinho

Olha o passarinho
que bem que ele canta.
Quando está cantando,
parece que tem
uma guitarra na garganta.

E olha o rouxinol
vai fazer o ninho
dentro do balsedo
p’ra cantar sem medo,
olha o passarinho!

E a moda vai alta,
não lhe posso chegar.
Cantem-na baixinho,
mais devagarinho
que eu quero cantar.

Letra e música: Popular do Alentejo
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos (in CD “Terra de Abrigo”, Ocarina, 2003) .

Oliveira e Parreirinha

[ A Tasca do Encalha ]

Oliveira e Parreirinha
Encontram o Tó Careca:
Com a dor que se avizinha
Vão beber uma caneca.

Dão a mão ao Zé Padeiro,
E o braço ao Quim Margarida;
Chamam o Chico Pedreiro,
Vão afogar-se em bebida.

Abraçam-se p’lo caminho,
Até à Tasca do Encalha:
Lá o tintol é fresquinho
E à volta ninguém se espalha.

Tintol, caracol,
Tintão, carrascão,
Com rodelas de limão;
Verdinho, verducho,
Verdete, verdacho,
Mas que graça que eu te acho!

Venha lá outra rodada
Com tapinhas e tremoços!
O tintol é tão maduro
Que até arreganha os ossos.

Vira lá mais um copinho!
Tira outro do briol!
Traz alcagoita torrada
E um pires de caracol!

Diz o Quim para o Oliveira,
Pondo um ar grave no rosto:
«Que uma boa bebedeira
Mata-nos qualquer desgosto!»

Tintol, caracol,
Tintão, carrascão,
Com rodelas de limão;
Verdinho, verducho,
Verdete, verdacho,
Mas que graça que eu te acho!

Mas que graça que eu te acho!…

Letra e música: Francisco Naia
Intérprete: Francisco Naia com Vitorino (in CD “Francisco Naia e a Ronda Campaniça”, Francisco Naia/Ovação, 2012)

Ora ponha aqui

[ Pezinho dos Caçadores ]

Ora ponha aqui,
Ora ponha aqui o seu pezinho!
Ora ponha aqui,
Ora ponha aqui ao pé do meu!

Ai ao tirar,
Ai ao tirar o seu pezinho,
Ai um abraço,
E um abraço lhe dou eu!

Ai dizem mal,
Ai dizem mal dos caçadores,
Ai por matarem,
Por matarem os pardais…

Ai os teus olhos,
Os teus olhos, meu amor,
Ainda matam,
Ainda matam muito mais!

Ora ponha aqui,
Ponha aqui o seu pezinho!
Ora ponha aqui,
Ponha aqui ao pé do meu!

Ai ai ao tirar,
Ao tirar o seu pezinho,
Um abraço lhe dou eu!

Ai dizem mal,
Dizem mal dos caçadores,
Por matarem os pardais…

Os teus olhos, meu amor,
Ainda matam,
Ainda matam muito mais!

Ora ponha aqui o seu pezinho!
Ora ponha aqui ao pé do meu!

Ao tirar o seu pezinho,
Ai um abraço lhe dou eu!

Ai dizem mal dos caçadores,
Por matarem os pardais…

Os teus olhos, meu amor,
Ainda matam muito mais!

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Intérprete: Aqui Há Baile (in CD “Caderno de Danças do Alentejo – adaptações”, Associação Pédexumbo/Caracol Secreto, 2013)

Papoilas vermelhas

[ Querido Alentejo ]

Papoilas vermelhas
Criadas ao vento
São cravos de Abril:
Deixai-os florir
No meu pensamento.

Querido Alentejo,
Minha terra amada:
Eu nunca me esqueço
De seres Alentejo,
És sempre lembrada.

Teus cravos vermelhos
Já não murcharão;
Tens o privilégio
De seres Alentejo,
Celeiro da nação.

Vem o mês de Abril,
Cresce a saudade;
Vem o nosso povo
E a cantar de novo:
«Viva a liberdade!»

Querido Alentejo,
Minha terra amada:
Eu nunca me esqueço
De seres Alentejo,
És sempre lembrada.

Teus cravos vermelhos
Já não murcharão;
Tens o privilégio
De seres Alentejo,
Celeiro da nação.

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Arranjo: Há Lobos Sem Ser na Serra
Intérprete: Há Lobos Sem Ser na Serra
Primeira versão do grupo Há Lobos Sem Ser na Serra (in CD “Cantares do Sul e da Utopia”, Há Lobos Sem Ser na Serra/Alain Vachier Music Editions, 2016)

Moda:

Penteei o meu cabelo,
Penteei-o para trás,
Com uma travessa nova
Que me deu o meu rapaz.

Que me deu o meu rapaz
Toda cheia de pedrinhas;
Penteei o meu cabelo,
Ficou-me todo às ondinhas.

 

Moda:

Penteei o meu cabelo,
Penteei-o para trás,
Com uma travessa nova
Que me deu o meu rapaz.

Que me deu o meu rapaz
Toda cheia de pedrinhas;
Penteei o meu cabelo,
Ficou-me todo às ondinhas.

Ficou-me todo às ondinhas,
Ficou-me todo ondulado;
Penteei o meu cabelo
Para trás e para o lado.

Cantiga:

Há ondas, meu bem, há ondas,
Há ondas sem ser no mar:
Há ondas no teu cabelo,
Há ondas no teu olhar.

Moda:

Penteei o meu cabelo,
Penteei-o para trás,
Com uma travessa nova
Que me deu o meu rapaz.

Que me deu o meu rapaz
Toda cheia de pedrinhas;
Penteei o meu cabelo,
Ficou-me todo às ondinhas.

Ficou-me todo às ondinhas,
Ficou-me todo ondulado;
Penteei o meu cabelo
Para trás e para o lado.

Cantiga:

Há ondas, meu bem, há ondas,
Há ondas sem ser no mar:
Há ondas no teu cabelo,
Há ondas no teu olhar.

Moda:

Penteei o meu cabelo,
Penteei-o para trás,
Com uma travessa nova
Que me deu o meu rapaz.

Que me deu o meu rapaz
Toda cheia de pedrinhas;
Penteei o meu cabelo,
Ficou-me todo às ondinhas.

Ficou-me todo às ondinhas,
Ficou-me todo ondulado;
Penteei o meu cabelo
Para trás e para o lado.

Cantiga:

Há ondas, meu bem, há ondas,
Há ondas sem ser no mar:
Há ondas no teu cabelo,
Há ondas no teu olhar.

Caderno de Danças do Alentejo
Caderno de Danças do Alentejo

Por eu ser alentejano

[ Há Lobos Sem Ser na Serra ]

Por eu ser alentejano,
Alguém me chamou ladrão:
Foi o que eu nunca chamei
A quem me roubava o pão.

Há lobos sem ser na serra,
Eu ainda não sabia…
Debaixo do arvoredo
Trabalham com valentia.

Trabalham com valentia
Cada um na sua arte;
Eu ainda não sabia:
Há lobos em toda parte.

Maldita sociedade,
Estás tão mal organizada:
Quem não trabalha tem tudo,
Quem trabalha não tem nada!

Há lobos sem ser na serra,
Eu ainda não sabia…
Debaixo do arvoredo
Trabalham com valentia.

Trabalham com valentia
Cada um na sua arte;
Eu ainda não sabia:
Há lobos em toda parte.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in CD “O Círculo Que Leva a Lua”, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2003; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD2, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)

Quando o melro assobia

[ Castro Verde É Nossa Terra ]

Quando o melro assobia,
Escondido nos silvados:
Quer de noite, quer de dia,
São lindos os seus trinados.

Castro Verde é nossa terra!
Ai quem nos dera lá estarmos agora
P’rá mocidade, com saudade,
Ouvir cantar como ouvi outrora.

Terra bela
Tão desejada!
Casa singela
De branco caiada!

Eu nunca esqueço
Que foste meu berço,
Lindo cantinho
Desta pátria amada!

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in LP “Castro Verde É Nossa Terra”, Valentim de Carvalho, 1975; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD1, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)

Quem tiver olhos azuis

[ Fui-te Ver, Estavas Lavando ]

[ Cantiga: ]

Quem tiver olhos azuis
Bem os pode arrecadar:
Os olhos azuis são poucos,
São custosos de alcançar.

[ Moda: ]

Fui-te ver, estavas lavando
No rio sem assabão;
Lavas em água de rosas,
Fica-te o cheiro na mão.

Fica-te o cheiro na mão,
Fica-te o cheiro no fato;
Se eu morrer e tu ficares,
Adora-me o meu retrato!

Adora-me o meu retrato,
Adora meu coração!
Fui-te ver, estavas lavando
No rio sem assabão.

[ Cantiga: ]

Menina, tire a camisa [bis]
Que tem à sua janela!
A camisa sem a dona [bis]
Lembra-me a dona sem ela.

[ Moda: ]

Fui-te ver, estavas lavando
No rio sem assabão;
Lavas em água de rosas,
Fica-te o cheiro na mão.

Fica-te o cheiro na mão,
Fica-te o cheiro no fato;
Se eu morrer e tu ficares,
Adora-me o meu retrato!

Adora-me o meu retrato,
Adora meu coração!
Fui-te ver, estavas lavando
No rio sem assabão.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Arranjo: Monda e Ruben Alves
Intérprete: Monda (in CD “Monda”, Monda/Tánaforja, 2016)

Ribeira vai cheia

Ribeira vai cheia
e o barco não anda.
Tenho o meu amor
lá daquela banda.

Lá daquela banda
e eu cá deste lado;
ribeira vai cheia
e o barco parado.

(Popular – Alentejo)

Rompe a aurora

[ Primavera alentejana ]

Rompe a aurora, nasce o dia
iluminando o montado.
Como um hino à alegria
ouve-se balir o gado.

Roxo, verde e amarelo,
olho à volta é o que vejo.
Não há nada assim tão belo,
ó meu querido Alentejo.

Refrão:
Lindos campos verdejantes
matizados de papoilas,
já não são como eram antes
mondados pelas moçoilas.

Perfumados de poejo
os campos de solidão,
é assim o Alentejo
que trago no coração.

O melro canta no silvado,
o grilo no buraquinho,
e eu por ti apaixonado,
Alentejo, meu cantinho.

Refrão

Poema: Hermínia Gaidão Costa (em memória de Margarida Gaidão)
Música: Hermínia Costa / Rodapé
Intérprete: Roda Pé (in CD “Escarpados Caminhos”, 2004)

Rouxinol repenica o cante

Rouxinol repenica o cante
ao passar da passadeira.
Nunca mais tornas a Beja, oh ai,
sem passares à Vidigueira,

sem passares à Vidigueira,
sem ires beber ao falcante
e ao passar da passadeira, oh ai,
rouxinol repenica o cante.

Eu gosto muito de ouvir
cantar a quem aprendeu.
Se houvera quem me ensinara, oh ai,
quem aprendia era eu.

Rouxinol repenica o cante
ao passar da passadeira.
Nunca mais tornas a Beja, oh ai,
sem passares à Vidigueira.

Sem passares à Vidigueira,
sem ires beber ao falcante
e ao passar da passadeira, oh ai,
rouxinol repenica o cante.

Letra e música: Popular; adaptação: Vitorino
Intérprete: Vitorino (in “Os Malteses”, Orfeu, 1977; “Negro Fado”, EMI-VC, 1988)

Santa Vitória, Ervidel

[ O Homem da Campaniça (Ao Ricardo Fonseca) ]

Santa Vitória, Ervidel:
Minha cantiga é castiça,
Minha voz doce de mel,
Meus dedos na campaniça.

Rosa, Mariana, Maria:
Todas me ouviram cantar,
Fosse de noite ou de dia
Ou com um sol de abrasar.

Rasguei modas e cantares,
Dízimas disse, que eu fiz;
Andei por muitos lugares
Ora alegre ora infeliz.

Andei com moças brejeiras,
Mulheres feitas, ricas donas;
Dormi com elas nas eiras
E na apanha de azeitonas.

Inda hoje eu sou falado
Da serra à charneca inteira,
Pelo homem da campaniça
Tocando à sua maneira.

Com a minha campaniça
Nas tabernas, no baldão,
Toda a gente me conhece
De Beja a Corte Malhão…

Letra e música: Francisco Naia
Intérprete: Francisco Naia (in CD “Francisco Naia e a Ronda Campaniça”, Francisco Naia/Ovação, 2012)

São chegados os Três Reis

[ Reis ]

São chegados os Três Reis
à porta do lavrador
Se tem a mulher bonita
a filha é uma flor

Que cavalos são aqueles
que fazem sombra no Mar
São os três do Oriente
que a Jesus vão adorar

O menino chora, chora
porque anda descalcinho
Haja quem lhe dê as meias
que eu lhe dou os sapatinhos

Nossa Senhora lavava
e São José estendia
E o menino chorava
com o frio que fazia

Calai-vos meu menino
calai-vos meu amor
Isto são navalhinhas
que cortam sem dor

Saíram as três Marias
de noite pelo luar
Em busca do Deus menino
sem No poderem achar

Foram-No achar em Roma
vestidinho no altar
Com cálix d’oiro na mão
missa nova quer cantar

E dai-la esmola e… e dai-la esmola bem dada
Para quem, para quem vier pedir
que ela lhe, que ele lhe sirva de escada
Para quando, para quando ao céu subir

Letra e música: Popular (Redondo – Alentejo)
Intérprete: Janita Salomé / cantadores de Redondo (in CD “Vozes do Sul: uma celebração do cante alentejano”, Capella, 2000)

São saias

[ Saias dos Foros ]

São saias, meu bem, são saias;
São saias que andam na moda.
Segura-te, amor, não caias
Qu’ elas têm pouca roda!

Segura-te, amor, não caias
Qu’ elas têm pouca roda!
São saias, meu bem, são saias;
São saias que andam na moda.

Oh maçã encarnadinha
Bicada do rouxinol,
Se não fosses tão baixinha
Eras mais linda que o Sol!

Se não fosses tão baixinha
Eras mais linda que o Sol,
Oh maçã encarnadinha
Bicada do rouxinol!

Nos foros da Fonte Santa
Não se pode namorar:
De dia as velhas à porta,
À noite os cães a ladrar.

De dia as velhas à porta,
À noite os cães a ladrar.
Nos foros da Fonte Santa
Não se pode namorar.

Estas é que são as saias
Que cantam em Portugal:
Trouxeram-nas as ceifeiras
Na ponta do avental.

Trouxeram-nas as ceifeiras
Na ponta do avental;
Estas é que são as saias
Que cantam em Portugal.

Letra e música: Tradicional (Alto Alentejo)
Intérprete: Real Companhia (in CD “Orgulhosamente Nós!”, Lusogram, 2000)

Alto Alentejo, Castelo de Évora Monte
Alto Alentejo, Castelo de Évora Monte

São João se adormiceu

São João se adormiceu
No colo da sua tia;
Ricorda, João, ricorda,
Que amanhã é o teu dia!

No altar di São João
Há um copi de água benta;
São João subiu ao Céu
A pidiri por toda a gente.

Letra e música: Tradicional (Reguengos de Monsaraz, Alto Alentejo)
Recolha: Michel Giacometti (in “Portuguese Folk Music”: CD 4 – Alentejo, Strauss, 1998; “Música Regional Portuguesa”: CD 5 – Alentejo, col. Portugal Som, Numérica, 2008)
Intérprete: O Baú (in CD “Achega-te”, O Baú, 2012)

São saias, senhor

[ Saias de Abril ]

São saias, senhor, são saias
Para varar ao sol-pôr;
Se não varas as searas
O balho será pior.

As portas que Abril abriu
Ninguém as pode fechar;
Se não fosse a liberdade
Não podia aqui cantar.

São saias, senhor, são saias
Para varar ao sol-pôr;
Se não varas as searas
O balho será pior.

As portas que Abril abriu
Ninguém as pode fechar;
Se não fosse a liberdade
Não podia aqui pensar.

São saias, senhor, são saias
Para varar ao sol-pôr;
Se não varas as searas
O balho será pior.

São saias, senhor, são saias
Para varar ao sol-pôr;
Se não varas as searas
O balho será pior.

Letra: Tradicional do Alto Alentejo (refrão) e Há Lobos Sem Ser na Serra
Música: Tradicional (Alto Alentejo)
Arranjo: Há Lobos Sem Ser na Serra
Intérprete: Há Lobos Sem Ser na Serra
Primeira versão do grupo Há Lobos Sem Ser na Serra (in CD “Cantares do Sul e da Utopia”, Há Lobos Sem Ser na Serra/Alain Vachier Music Editions, 2016)
Primeira versão: Vitorino com Sheila Charlesworth – “São Saias, Senhor, São Saias” (in LP “Semear Salsa ao Reguinho”, Orfeu, 1975, reed. Movieplay, 1999; CD “Vitorino”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 43, Movieplay, 1994)

Se a morte fosse interesseira

[ Canta o Melro no Silvado – Amora Madura ]

Se a morte fosse interesseira,
Ai de nós o que seria:
O rico comprava a morte,
Só o po… só o pobre é que morria.

Canta o melro no silvado
E o rouxinol na ribeira;
Ó minha pombinha branca,
Quero ir… quero ir à tua beira.

Quero ir à tua beira,
Quero viver a teu lado;
Rola o pombo na azinheira,
Canta o par… canta o pardal no telhado.

Ó minha amora madura
quem foi que te amadurou?
Foi o sol e foi a lua
(Ó rique tique, piquenino)
e o calor que ela apanhou.

E o calor que ela apanhou
lá naquela chapadinha;
Ó minha amora madura,
(Ó rique tique, piquenino)
minha amora madurinha.

Ó minha amora madura
quem foi que te amadurou?
Foi o sol e foi a lua
(Ó rique tique, piquenino)
e o calor que ela apanhou.

E o calor que ela apanhou
lá naquela chapadinha;
Ó minha amora madura,
(Ó rique tique, piquenino)
minha amora madurinha.

Letra e música: Tradicional (“Canta o Melro no Silvado” – Alentejo / “Amora Madura” – Tôr, Loulé, Algarve)
Intérprete: Afonso Dias* (in CD “Andanças & Cantorias”, Bons Ofícios – Associação Cultural, 2016)

Se eu for preso por cantar

[ Sarapateado ]

Se eu for preso por cantar
Não calarei a garganta;
Eu sou como o passarinho
Que até na gaiola canta.

Vai sim, meu bem, sarapatear!
Quem quiser bailar traga bom calça…,
Traga bom calça…, traga bom calçado!
Vai sim, meu bem, sarapateado. [bis]

À porta da minha sogra
Vem uma silva nascendo;
Todos passam, não se enleiam,
Só eu na silva me prendo.

Vai sim, meu bem, sarapatear!
Quem quiser bailar traga bom calça…,
Traga bom calça…, traga bom calçado!
Vai sim, meu bem, sarapateado. [bis]

Vai sim, meu bem, sarapatear!
Quem quiser bailar traga bom calça…,
Traga bom calça…, traga bom calçado!
Vai sim, meu bem, sarapateado. [4x]

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Arranjo: Há Lobos Sem Ser na Serra
Intérprete: Há Lobos Sem Ser na Serra
Primeira versão do grupo Há Lobos Sem Ser na Serra (in CD “Cantares do Sul e da Utopia”, Há Lobos Sem Ser na Serra/Alain Vachier Music Editions, 2016)

Se fores ao Alentejo

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão:
Leva o coração aberto,
E ao lado do coração
Leva a rosa da justiça
E o teu filho pela mão.

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão.
Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão.

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão:
Leva o teu braço liberto
Para abraçar teu irmão;
Esse irmão que está tão perto
Do teu aperto de mão
E que tão longe amanhece
Nos campos da solidão.

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão.

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão:
Leva a alegria de seres
Irmão de quem vai parir
Uma seara de trigo,
Uma charneca a florir,
Um rebanho e um abrigo
E um amanhã que há-de vir
Como se fosse outro amigo
Dentro do sol, a sorrir.

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão.

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão:
Leva o coração aberto
E o teu filho pela mão.
Leva o coração aberto
E o teu filho pela mão.

Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão.
Se fores ao Alentejo
Não leves vinho nem pão.

Letra: Eduardo Olímpio
Música: Carlos Alberto Moniz
Intérprete: Carlos Alberto Moniz
Versão original: Carlos Alberto Moniz (in Livro/2CD “O Vinho dos Poetas”: CD 2, Carlos Alberto Moniz/Ovação, 2014)

Semeei salsa ao reguinho

[ Semear Salsa ao Reguinho ]

Semeei salsa ao reguinho
Hortelã daquela banda
Para lograr os teus carinhos
Tive que andar em demanda

Tive que andar em demanda
Para lograr os teus carinhos
Hortelã daquela banda
Semeei salsa ao reguinho

Não julgues por eu cantar
Que a vida alegre me corre
Eu sou como um passarinho
Tanto canta até que morre

Letra e música: Popular (Alentejo)
Recolha e arranjo: Vitorino
Intérprete: Vitorino (in “Semear Salsa ao Reguinho”, Orfeu, 1975; reed. Movieplay, 1999; CD “Ao Vivo A Preto e Branco”, Magic Music/Som Livre, 2007)

Senhora que és padroeira

[ Nossa Senhora do Carmo ]

Senhora que és padroeira
Da nossa terra hospitaleira

Nossa Senhora do Carmo
Que está no seu altar
Todos lá vamos ajoelhar
E a cantar, a cantar
Vamos rezar

Oremos p’la nossa voz
Nossa Senhora rogai por nós

Nossa Senhora do Carmo
Que está no seu altar
Todos lá vamos ajoelhar
E a cantar, a cantar
Vamos rezar

Unidos a uma voz
Nossa Senhora rogai por nós

Nossa Senhora do Carmo
Que está no seu altar
Todos lá vamos ajoelhar
E a cantar, a cantar
Vamos rezar

(Popular – Alentejo)

Sol baixinho

[ Moda de baile ]

Sol baixinho, sol baixinho,
Sol baixinho também queima;
Eu hei-de amar, sol baixinho,
Só p’ra seguir uma teima.

Cravo branco, não me prendas,
Que eu não tenho quem me solte!
Não sejas tu, cravo branco,
Causante da minha morte!

O meu pai é tocador,
Minha mãe é cantadeira:
Eu sou filho deles ambos,
Canto da mesma maneira.

Eu gosto muito de estar
Onde estão as raparigas:
Uma canta, outra baila
E a outra ouve as cantigas.

Letra e música: Popular (ilha de Santa Maria, Açores)
Recolha: Artur Santos (campanha de 1958) (in CD “O Folclore Musical nas Ilhas dos Açores: Antologia Sonora da Ilha de Santa Maria”, Açor/Emiliano Toste, 2002) [canta Virgínia de Andrade Cabral, acompanhada por violas de arame tocadas por António Augusto Cabral e João Soares
Arranjo: António Prata
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos (in 2CD “Alçude”: CD 1, Ovação, 2001)
Primeira versão da Ronda dos Quatro Caminhos (in CD “Recantos”, Polygram, 1996)
Outra versão da Ronda dos Quatro Caminhos com Orquestra Sinfonietta de Lisboa (in DVD/CD “Ao Vivo no Centro Cultural de Belém”, Ocarina, 2005) [ao vivo na TV Galicia com as Adufeiras de Monsanto, vozes do Alentejo e Orquestra Sinfonietta de Lisboa

Solidão, ai dão, ai dão

Solidão, ai dão, ai dão,
Para mim quer sim, quer não;
Vem a morte e leva a gente,
Quem não há-de ter paixão?

Quem não há-de ter paixão?
Quem paixão não há-de ter?
Solidão, ai dão, ai dão,
Resistir até morrer.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Bernardo Charrua “Calabaça” (in CD “Monda”, de Monda*, Monda/Tánaforja, 2016)

Suspirava por te ver

[ Ó Menina Florentina ]

Suspirava por te ver,
Já matei a saudade.
Muito custa uma ausência
P’ra quem ama na verdade.

Ó menina Florentina,
És a flor que em meu peito domina!
Seu amante, delirante,
De viagem chegou nesse instante.

Já cá está tiro-liro-li, tiro-liro-lé!
Já cá está tiro-liro-li, tiro-liro-ló!
Já cá está tiro-liro-li, meu amor,
Tiro-liro-li abre a porta, ó branca flor!

Anda cá para meus braços,
Se tu vida queres ter!
Os meus braços dão saúde
A quem está para morrer.

Ó menina Florentina,
És a flor que em meu peito domina!
Seu amante, delirante,
De viagem chegou nesse instante.

Já cá está tiro-liro-li, tiro-liro-lé!
Já cá está tiro-liro-li, tiro-liro-ló!
Já cá está tiro-liro-li, meu amor,
Tiro-liro-li abre a porta, ó branca flor!

Graças a Deus que chegou
Quem eu desejava ver:
Deu palavra, não faltou,
Assim é que deve ser.

Ó menina Florentina,
És a flor que em meu peito domina!
Seu amante, delirante,
De viagem chegou nesse instante.

Já cá está tiro-liro-li, tiro-liro-lé!
Já cá está tiro-liro-li, tiro-liro-ló!
Já cá está tiro-liro-li, meu amor,
Tiro-liro-li abre a porta, ó branca flor!

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Intérpretes: Ana Tomás & Ricardo Fonseca (in CD “Canções de Labor e Lazer”, Ana Tomás & Ricardo Fonseca, 2017)

Tá preso o João Brandão

[ Mais Brando João Brandão ]

‘Tá preso o João Brandão
Às grades do Limoeiro;
Mais brando…
Às grades do Limoeiro.

Era rico, agora é pobre…
Olha o que faz o dinheiro!
Mais brando…
Olha o que faz o dinheiro!

Estando eu na minha loja,
Encostadinho ao balcão,
Mais brando…
Encostadinho ao balcão,

Ouvi uma voz dizer:
“‘Tá preso o João Brandão.”
Mais brando…
“‘Tá preso o João Brandão.”

Ouvi uma voz dizer:
“‘Tá preso o João Brandão.”
Mais brando…
Mais Brando João Brandão.

Letra: Popular (Alentejo)
Música: Monda
Intérprete: Monda com o Grupo de cantadores de Portel (in CD “Monda”, Monda/TáNaForja, 2016)

Trago um jardim no sentido

[ Jardim dos Sentidos ]

Trago um jardim no sentido,
Por ter sentido o que sinto:
Amor que não faz sentido
Num coração louco e faminto.

No jardim do meu sentido
Nascem cravos cardinais;
Também eu nasci no mundo
P’ra te querer cada vez mais.

No jardim do rei há rosas,
Também há malvas de cheiro;
Não há luz como a do dia,
Nem amor como o primeiro.

Coração louco e faminto,
Rosa que tenho sentido;
Jardim que anda perdido,
Por ter sentido o que sinto.

No jardim do meu sentido
Nascem cravos cardinais;
Também eu nasci no mundo
P’ra te querer cada vez mais.

No jardim do rei há rosas,
Também há malvas de cheiro;
Não há luz como a do dia,
Nem amor como o primeiro.

Por ter sentido o que sinto,
Amor que não faz sentido,
Jardim que anda perdido,
Trago um jardim no sentido.

No jardim do meu sentido
Nascem cravos cardinais;
Também eu nasci no mundo
P’ra te querer cada vez mais.

No jardim do rei há rosas,
Também há malvas de cheiro;
Não há luz como a do dia,
Nem amor como o primeiro.

Trago um jardim no sentido…

Letra e música: Pedro Mestre
Intérprete: Pedro Mestre com António Zambujo (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015)
Outra versão de Pedro Mestre com António Zambujo (in DVD “No CCB: Pedro Mestre & Convidados”, Pedro Mestre, 2017)

Uma estrela se foi pôr

[ Canção ao Menino ]

Uma estrela se foi pôr
Em cima duma cabana
A cabana era pequena
Não cabiam todos três
Adoravam o menino
Cada um da sua vez

E abram-se lá essas portas
Ainda não estão bem abertas
Que nasceu o Deus menino
Vou-lhe dar as Boas Festas

Boas Festas meus senhores
Boas Festas lhes vou dar
Que nasceu o Deus menino
Alta noite de Natal

E alta Noite de Natal
Noite de santa alegria
Que nasceu o Deus menino
Filho da Virgem Maria

Senhora dona da casa
Deixe-se estar que está bem
Mande-nos dar a esmola
Por essa rosa que aí tem

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in CD “Terra de Abrigo”, Ocarina, 2003)

‘Tá preso o João Brandão

Mais Brando João Brandão

‘Tá preso o João Brandão
Às grades do Limoeiro;
Mais brando…
Às grades do Limoeiro.

Era rico, agora é pobre…
Olha o que faz o dinheiro!
Mais brando…
Olha o que faz o dinheiro!

Estando eu na minha loja,
Encostadinho ao balcão,
Mais brando…
Encostadinho ao balcão,

Ouvi uma voz dizer:
“Está preso o João Brandão.”
Mais brando…
“Está preso o João Brandão.”

Ouvi uma voz dizer:
“‘Tá preso o João Brandão.”
Mais brando…
Mais Brando João Brandão.

Letra: Popular (Alentejo)
Música: Monda
Intérprete: Monda com o Grupo de cantadores de Portel (in CD “Monda”, Monda/Tánaforja, 2016)

Vai ao centro, vai ao meio

Vai ao centro, vai ao meio!
Agora vou andar
Com o meu amor em passeio;
Agora é que eu vou andar
Com meu amor em passeio.

Vá de roda, cantem todas
Cada qual sua cantiga!
Eu também cantarei,
Eu também cantarei uma
Que a mocidade me obriga.

Vá de roda, cantem todas
Cada qual sua cantiga!
Que eu também cantarei uma
Que a mocidade me obriga.

Vai ao centro…

[ Moda: ]

Vai de centro ao centro ao centro!
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou andar
Com meu amor em passeio.

Com meu amor em passeio,
Com meu bem a passear,
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou andar.

[ Cantiga: ]

Vá de roda, cantem todos
Cada qual sua cantiga!
Que eu também cantarei uma
Que a mocidade me obriga.

[ Moda: ]

Vai de centro ao centro ao centro!
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou andar
Com meu amor em passeio.

Com meu amor em passeio,
Com meu bem a passear,
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou andar.

[ Moda: ]

Vai de centro ao centro ao centro!
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou andar
Com meu amor em passeio.

Com meu amor em passeio,
Com meu bem a passear,
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou andar.

[ Cantiga: ]

Minha mãe, p’ra m’eu casar,
Ofereceu-me uma panela;
Depois de me ver casada,
Partiu-me a cara com ela.

[ Moda: ]

Vai de centro ao centro ao centro!
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou andar
Com meu amor em passeio.

Com meu amor em passeio,
Com meu bem a passear,
Vai de centro ao centro ao meio!
Agora é que eu vou andar.

Letra e música: Tradicional (Alentejo)
Intérprete: Aqui Há Baile (in CD “Caderno de Danças do Alentejo – adaptações”, Associação Pédexumbo/Caracol Secreto, 2013)

Vai colher a rosa

Vai colher a rosa
Vai colhê-la, vai.
Se ela te picar
Não digas ai ai.

Não digas ai ai
Não digas ai ui
Vai colher a rosa
Vai, vai que eu também fui.

O meu lindo amor
Já não me visita
É certo que tem
Outra mais bonita.

Outra mais bonita
Outro bem querer.
O meu lindo amor
Já não me vem ver.

(Popular – Alentejo)

Vamos nós seguindo

Vamos nós seguindo,
por esses campos fora…
Que a manhã vem vindo
dos lados da aurora.

Dos lados da aurora
a manhã vem vindo.
Por esses campos fora,
vamos nós seguindo.

(Popular – Alentejo)

Verão

[ Verão, Alentejo e os Homens ]

Verão,
A brasa dourada e celeste
Queima este solo agreste
Doirando mais a espigas;
Ceifeiros, corpos curvados
Cortando e atando em molhos
A bênção loira da vida.

Meu Alentejo,
Enquanto isto se processa,
O sol ferino e sem pressa
Queima mais a tez bronzeada;
O suor rasga a camisa,
Homem queimado mais fica,
E a vida é feita de brasas.

O calor caustica os corpos,
Os ceifeiros vão ceifando
Sem parar o seu labor;
O seu cantar é dolente,
É certo que é boa gente,
É verdade e tem mais sol.

Música: Manuel Conde Fialho
Letra: Egídio Manuel dos Santos

(Informação de Nelson Conde, filho de Manuel Conde Fialho)

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/03/alto-alentejo_castelo-de-evora-monte.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-06 23:21:202024-11-02 06:51:03Canções do Alto Alentejo
Campino
Ribatejo

Canções do Ribatejo

Nesta terra há um rio

[ Fado Ribatejo ]

Nesta terra há um rio antigo de saudade
que nos dá vida e sonho e encantamento
e a paz que o campo tem e a verdade
de quem vive outro sítio, outro momento.

Ter o Tejo aqui, assim, ao pé da porta
é um berço de força e de saber.
Traz-se ao peito o gosto da paixão
enquanto o sol nos fala ao entardecer.

Viver assim é outro modo, outra maneira,
outra vida, outro sonho a comandar.
Passa o tempo escorregando à minha beira,
cantam-se fados à noite para lembrar

E o sol e a gente e o campo e a cidade
e a cheia, esse chão de água a cobrir tudo
e a alma imensa de um povo sem idade
não mudes tu, meu povo, que eu não mudo.

Nesta pátria Ribatejo se ama e canta
se dança, se trabalha e se resiste
e onde o peito alcance haverá chama
ninguém é mais alegre nem mais triste.

E doce e forte e sereno ao mesmo tempo
como os cavalos ao longe, ao pôr do sol
existe aqui um templo que é eterno
na lenda e no feitiço do Almourol.

E o sol e a gente e o campo e a cidade
e a cheia, esse chão de água a cobrir tudo
e a alma imensa de um povo sem idade
não mudes tu, meu povo, que eu não mudo.

Letra e música: Pedro Barroso
Intérprete: João Chora (in CDs “João Chora”, 1999; “Ao Vivo na Chamusca”, 2001)

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No Ribatejo

[ Canção do Ribatejo ]

Intérprete: João Chora

João Chora

João Chora

João Chora, cantor

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/09/campinos-foto-folclore-pt.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-06 23:10:022023-05-02 12:28:40Canções do Ribatejo
Amendoeiras em flor no Algarve
Algarve

Canções do Algarve

Canções do Algarve

Letras

A virgem de Guadalupe

A virgem de Guadalupe
Quando vai pela ribeira,
Descalcinha pela areia
Parece uma rianceira.

Ondinhas vêm,
Ondinhas vêm,
Ondinhas vêm do mar,
Não te vás à rianceira
Não te vás amariar.

Cada vez que passo a ponte
Sempre te encontro lavando,
A formosura que tu tens
A água a vai levando.

Ondinhas vêm,
Ondinhas vêm,
Ondinhas vêm do mar,
Não te vás à rianceira
Não te vás amariar.

Letra e música: Popular
Intérprete: Roda Pé (in CD “Escarpados Caminhos”, public-art, 2004)

Rodapé

Abalei aqui por abaixo

[ Oração à Virgem ]

Abalei aqui por abaixo
Com o três horas serão
Encontrei a Virgem Pura
Com um ramalhete na mão.

Eu lhe pedi uma folhinha
E ela me disse que não
Eu lhe tornei a pedir
E me deu seu bem do cordão.

Zebelinha tecedeira
Tece-me este cordão
Que me deu a Virgem Pura
Sexta-Feira da Paixão.

Santo Antóino é meu pai
E São Francisco é meu irmão
Os anjinhos meus parentes
Ó que linda geração!

Popular – voz masculina (Monchique, Algarve)
Recolha de José Alberto Sardinha (1981) (in CD n.º 6 de “Portugal: Raízes Musicais”, JN/BMG, 1997)

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Ai que saudade tenho do meu canto

Ai que saudade tenho do meu canto, da minha terra!
Só vejo o mar adentro e o céu a te apartar.

Ai esta vida corre e roda, roda, ai, a moer;
Não há razão, mãe, para voltar sem que fazer.

Eu hei-de ir, eu hei-de voltar à terra, ao meu lugar!
Voltar à minha mãe, ao teu regaço, ao meu penar!

Meus olhos choram longe, ai, tão cansados de esperar…
Ai esta vida corre e roda, roda, ai, a moer;
Mas eu hei-de voltar à minha terra, ao meu lugar!

Meus olhos choram longe, ai, tão cansados de esperar…
Mas eu hei-de voltar à minha terra, ao meu lugar!

Letra: Macadame
Música: Tradicional (Loulé, Algarve)
Recolha: José Alberto Sardinha (“Janeiras”, in “Portugal – Raízes Musicais”: CD 6 – Algarve e Ilhas, BMG/JN, 1997)
Intérprete: Macadame
Versão original: Macadame (in Livro/CD “Firmamento”, Macadame, 2016)

Algarve, o nome me está lembrando

[ Santa Maria, a Sem-Par ]

Algarve, o nome me está lembrando
Algarve, e a brisa passa a cantar.
E as sombras leva-as o vento voltando.
Silêncio, dizem as ondas do mar.

Morenas em bandos sobre açoteias
Janelas abertas sobre um palmar
Já vejo de longe as altas ameias
Já vejo Santa Maria, a Sem-Par.

Algarve, jardim de rosas vermelhas
Algarve, brancura de pedra e cal
Cidade dentro dum pátio sem telhas
Dormindo debaixo de um laranjal.

Nas praias, dedos de finas areias
Teu nome lembram ao vento a passar
Já vejo de longe as altas ameias
Já vejo Santa Maria, a Sem-Par.

Letra: José Afonso
Música: António Vinagre
Intérprete: Grupo Coral de Portimão (in CD “Algarve”, Tradisom, 200?)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Algarve, serras mansas

Algarve, serras mansas onduladas
aos poucos aplanando-se em campinas,
praias de areia e rochas arrendadas,
verdes sapais e manchas de salinas

E o mar, mais pronto a calmas que a furores
às traineiras levando os pescadores,
peixes brilhando em raras pedrarias
e o mar, mais pronto a calmas que a furores

Às traineiras levando os pescadores
peixes brilhando em raras pedrarias,
matos floridos, árvores variadas,
farrobas, figos, amêndoas e citrinas.

Terras vermelhas, hortas afogadas
n’águas doces de noras e de minas
e o céu, tonto de sol, pintado a cores
de inverosímeis, múltiplos fulgores

Jardim das mil e uma fantasias
e o céu, tonto de sol, pintado a cores
de inverosímeis, múltiplos fulgores,
jardim das mil e uma fantasias.

Letra: António Balté
Música: António Vinagre
Intérprete: Grupo Coral de Portimão (in CD “Algarve”, Tradisom, 200?)

Atira, caçador, atira

Atira, caçador, atira,
Lá no meio da parada!
O meu amor é galucho,
Atira mas não mata nada.

Atira mas não mata nada,
Atira, não mata ninguém,
Lá no meio da parada
Do quartel de Belém.

Atira, caçador, atira,
Lá no meio da parada!
O meu amor é galucho,
Atira mas não mata nada.

Atira mas não mata nada,
Atira, não mata ninguém,
Lá no meio da parada
Do quartel de Belém.

Eu fui caçar à tapada,
Cheguei lá muito feliz;
Encontrei a minha amada
E matei uma perdiz.

Sou galucho de infantaria,
Sou tropa no Alentejo
E sinto muita alegria
Quando na rua te vejo.

Atira, caçador, atira,
Lá no meio da parada!
O meu amor é galucho,
Atira mas não mata nada.

Atira mas não mata nada,
Atira, não mata ninguém,
Lá no meio da parada
Do quartel de Belém.

Eu fui-te ver ao montado
Sentada à porta do monte,
Com os teus olhos brilhantes
À espreita do horizonte.

Tinhas um sorriso aberto
Perfumando a atmosfera;
Eras a mais linda flor
Que me trouxe a Primavera.

Atira, caçador, atira,
Lá no meio da parada!
O meu amor é galucho,
Atira mas não mata nada.

Atira mas não mata nada,
Atira, não mata ninguém,
Lá no meio da parada
Do quartel de Belém.

Letra: Popular e Francisco Naia
Música: Popular
Intérprete: Francisco Naia (in CD “Francisco Naia e a Ronda Campaniça”, Francisco Naia/Ovação, 2012)

Canta na beirada andorinha

[ Laranjinha Doce ]

Canta na beirada andorinha
Chega a primavera e o amor
Uma vida inteira
Duas à espera
Noites sem dormir p’ra um beijo teu

Mil horas passadas sem saber
Horas, dias sem fim, o meu amor
Cantando dizia, noite e melodia
Pareceu-me um ano
Um só dia

Está chegando o tempo [do] ramo em flor
Laranjinha doce, meu amor
Espero por ti
Canto por aí
Vem cair, à noite, nos braços meus
Espero por ti
Canto por aí
Vem cair, à noite, nos braços meus

Nota: «”Laranjinha Doce”, Amor, Moça bonita, romance Algarvio…» (Zé Francisco)

Letra e música: José Francisco Vieira
Intérprete: Zé Francisco & Orquestra Azul (in CD “Caminho de Mar e Luz”, José Francisco Vieira/Alain Vachier Music Editions, 2013)

Da beira-sonho lês

[ Amante do Mar ]

Da beira-sonho lês
o mar que tens aos pés
Lagos que és pátria de Gil e Frei Gonçalo;
poiso de mareantes
albergaste infantes
e à aventura afrontaste o mar alto;
de pele salgada vens
com o ar quente de quem
dos horizontes bebe o cheiro e a magia;
ó loira do meu Sul
minha fronteira azul
cais de embarque, proa e guia.

Fronteira de sonhos
aberta para o mar
em jeito sensual e quente;
velha majestade
com a tua idade
devias ser mais prudente;
tiveste aventuras
e hoje com as loucuras
do teu passado altaneiro
ainda continuas
amante do mar
e amor de marinheiro.

Da beira-sonho lês
o mar que tens aos pés
Lagos que és pátria de Gil e Frei Gonçalo;
poiso de mareantes
albergaste infantes
e à aventura afrontaste o mar alto;
de pele salgada vens
com o ar quente de quem
dos horizontes bebe o cheiro e a magia;
ó loira do meu sul
minha fronteira azul
cais de embarque, proa e guia.

Fronteira de sonhos
aberta para o mar
em jeito sensual e quente;
velha majestade
com a tua idade
devias ser mais prudente;
tiveste aventuras
e hoje com as loucuras
do teu passado altaneiro
ainda continuas
amante do mar
e amor de marinheiro.

Da beira-sonho lês
o mar que tens aos pés
Lagos que és pátria de Gil e Frei Gonçalo;
poiso de mareantes
albergaste infantes
e à aventura afrontaste o mar alto;
de pele salgada vens
com o ar quente de quem
dos horizontes bebe o cheiro e a magia;
ó loira do meu Sul
minha fronteira azul
cais de embarque, proa e guia.

Letra e música: Afonso Dias
Poema dito da autoria de Sophia de Mello Breyner Andresen (excerto de “Lagos II”, 1975, in “O Nome das Coisas”, Lisboa: Moraes Editores, 1977)
Intérprete: Afonso Dias com Tânia Silva (in CD “O Mar ao Fundo”, Bons Ofícios – Associação Cultural, 2015)

Da serra veste perfumes

[ De Sol a Sul ]

Da serra veste perfumes,
do levante inquietações.
Do tempo lhe vêm famas
do mar as consolações.

Velha Romana, Tuaregue,
maruja, aventureira,
dos mares sabida e da vida
sabe tudo, de matreira.

Minha loira, meu azul
faz-te ao mar, despe esse manto
de nevoeiro e de sal,
desnuda-te do quebranto
de seres ponto de partir.

Navega com rumo a ti,
descobre-te em Portugal,
teu porto é de hoje e aqui.
Velhas profecias,
meu 29 de Agosto.
Meu queijo de figo,
sueste agreste,
sol posto.
Meu Infante
navegante.
Cheiro a sardinha
no rosto.
Cidade, eu te escuto
tu me acolhes,
tu me afagas.
Regaço de mãe,
doce carícia de algas.
Varanda de sol a sul.
Gente firme não se cala.
Que o sonho se faça
pouco a pouco,
passo a passo.
Que a tristeza afogue
na largueza dum abraço.
Que a alegria canse
este cansaço.
É hoje que a gente
vai dizer como é que quer,
seja o bicho homem
ou o bicho seja mulher.
E que venha por bem
quem vier.

Letra e música: Afonso Dias
Intérprete: Afonso Dias / Trupe Barlaventina (in CD “Lendas do País do Sul“, Concertante, 1999; CD “Geometria do Sul”, Edere, 2002)

Lendas do País do Sul

Deus te salve, ó Rosa

– Deus te salve, ó Rosa
Claro Serafim,
Pastora formosa,
Que fazeis aqui?
– Estou guardando o meu gado,
Que eu aqui “deixi”.

– Deixai vosso gado,
Que eu o guardarei,
Quero ser vosso criado,
Linda flor, meu bem.

– Não quero criados
De meias de seda;
Não quero que as “arrompa”
Cá por estas estevas.

– Sapato e meia,
Tudo “arromparei”,
Para ser vosso criado,
Linda flor, meu bem.

– Vá-se já embora,
(E) não me dê mais penas,
Que daqui a nada vem meu amo
Trazer-me a merenda.

– Venha cá, senhora,
(E) Venha cá correndo
Que o amor é louco
Já me vai vencendo…

Letra e música: Tradicional (Aljezur – Algarve)
Recolha: Michel Giacometti
Intérprete: Chuchurumel (in CD “Posta Restante”, Edição de autor, 2007)

Chuchurumel, Posta Restante

Eia, Abu Bacre

[ Evocação a Silves ]

Eia, Abu Bacre, saúda os meus lares em Silves
e pergunta-lhes se,
como penso, ainda se recordam de mim.

Saúda o Palácio das Varandas da parte de um donzel
que sente perpétua saudade daquele alcácer.

Ali moravam guerreiros como leões e brancas
gazelas. E em que belas selvas e em que belos covis.

Quantas noites passei divertindo-me à sua sombra
com mulheres de cadeiras opulentas e talhe fatigado
brancas e morenas que produziam na minha alma
o efeito das espadas refulgentes e das lanças obscuras!

Quantas noites passei deliciosamente junto a um
recôncavo do rio
com uma donzela cuja pulseira rivalizava
com a curva da corrente!

O tempo passava e ela servia-me o vinho do seu olhar
e outras vezes o do seu vaso e outras o da sua boca.

As cordas do seu alaúde feridas pelo plectro estremeciam-me
como se ouvisse a melodia das espadas nos tendões
do colo inimigo.

Ao retirar o seu manto, descobriu o talhe, florescente ramo
de salgueiro, como se abre o botão para mostrar a flor.

Eduardo Ramos, Cantico para Al Mutamid

Poema de Al-Mutamid (in “Portugal na Espanha Árabe”, vol. 1 – Geografia e Cultura, de António Borges Coelho, 1989)
Recitado por Afonso Dias / Trupe Barlaventina (in CD “Lendas do País do Sul”, Concertante, 1999)
Outras versões: António Baeta de Oliveira / Eduardo Ramos (in CD “Andalusino”, InforArte, 1999); Eduardo Ramos (in CD “Cântico para Al-Mutamid”, Ed. de Autor, 2005)

Eu já fui à tua horta

Eu já fui à tua horta
Eu já fui teu hortelão
Já comi da tua fruta
Não sei s’outros comeram ou não

Já foste à minha horta
Mas eu nunca lá te vi
Já comeste da minha fruta
Só num vento que t’eu vi

‘Tás pr’aí de boca aberta
Cara de sardinha crua
Se esta casa fosse minha
Punha-te já no meio da rua

Letra e música: Popular (Algarve)
Arranjo: Eduarda Alves; Margarida Guerreiro
Intérprete: Moçoilas (in CD “Já Cá Vai Roubado”, 2001)

Moçoilas, Já cá vai roubado

Faça “ai, ai”, meu menino

[ Embalo do Algarve ]

Faça “ai, ai”, meu menino,
Que a mãezinha logo vem!
Foi lavar os cueirinhos
À fontinha de Belém.

Vai-te embora, papá negro,
De cima desse telhado!
Deixa dormir o menino,
Está no sono descansado.

Embala, José, embala!
Embala suavemente,
Entretendo o inocente
Com esta cantiga em verso!

Dorme, dorme, meu menino,
Que a mãezinha logo vem!
Dorme, dorme, meu menino,
Que a mãezinha, ai, logo vem!

Letra e música: Tradicional (Alvor, Portimão, Algarve)
Recolha: Michel Giacometti (“Faça ‘ai, ai’, meu menino”, in LP “Algarve”, série “Antologia da Música Regional Portuguesa”, Arquivos Sonoros Portugueses/Michel Giacometti, 1962; 5CD “Portuguese Folk Music”: CD 5 – Algarve, Strauss, 1998; 6CD “Música Regional Portuguesa”: CD 6 – Algarve, col. Portugal Som, Numérica, 2008)
Intérprete: Segue-me à Capela*
Primeira versão de Segue-me à Capela (in Livro/CD “San’Joanices, Paganices e Outras Coisas de Mulher”, Segue-me à Capela/Fundação GDA/Tradisom, 2015)

Ir à bóia de Santana

[ Bóia de Sentença ]

Ir à bóia de Santana
Tinha a sentença rezada
Essa bóia da sentença
Que por mim foi baptizada

Quem me rezou a sentença
Foi o meu patrão ratado
Tem mesmo cara de fome
E tem o nariz furado

Medicamentos me pôs
Lá na caixa de farmácia
P’ra os senhores vou contar
Até lhe acham graça

Um pouco de algodão
E “eneivaquim” contada
Pôs umas gotas de álcool
De mercúrio não me deu nada

Lá parti para a viagem
P’ra Freetown, ir pescar
Ir à ilha das bananas
São muitas horas p’lo mar

Tudo pode acontecer
Pode vir bem ou vir mal
Pode a gente adoecer
Ou apanhar temporal

Quando os patrões se opuseram
Esses homens nem falaram
Lá foram para a sentença
Foram e nem piaram

Esses que vão p’ra a sentença
Vão porque são obrigados
Mas a mim não mandam eles
Comigo estão enganados

Tanto que eles diziam
E nada os via fazer
Essas palavras serviam
P’ra outros homens perder

Garganta de rouxinóis
Com olhinhos de aldrabões
Dentes de mentirosos
E boca de trapalhões

Garganta de rouxinóis
Com olhinhos de aldrabões
Dentes de mentirosos
E boca de trapalhões

Trapalhões, trapalhões,
Trapalhões, trapalhões,
Trapalhões, trapalhões…

Letra: Hermínio José Machado
Música: José Francisco Vieira
Intérprete: Zé Francisco & Orquestra Azul (in CD “Caminho de Mar e Luz”, José Francisco Vieira/Alain Vachier Music Editions, 2013)

“Leva, Leva!” (in LP “Algarve”, série “Antologia da Música Regional Portuguesa”, Arquivos Sonoros Portugueses/Michel Giacometti, 1962; “Portuguese Folk Music”: CD 5 – Algarve, Portugal Som/Strauss, 1998; “Música Regional Portuguesa”: CD 6 – Algarve, Portugal Som/Numérica, 2008)

Manelzinho

Manelzinho, ora você chora…
Você chora, alguém lhe deu.
Qual seria a falsa ingrata
Que o Manelzinho ofendeu?

Tocam nos sinos no Porto
E o meu coração é teu.
Qual seria a falsa ingrata
Que o Manelzinho ofendeu?

Manelzinho, ora você chora…
Você chora, alguém lhe deu.
Qual seria a falsa ingrata
Que o Manelzinho ofendeu?

Anda lá para diante
Que eu atrás de ti não vou!
Não me pede o coração
Amar a quem me deixou.

Manelzinho, ora você chora…
Você chora, alguém lhe deu.
Qual seria a falsa ingrata
Que o Manelzinho ofendeu?

Manelzinho, ora você chora…
Você chora, alguém lhe deu.
Qual seria a falsa ingrata
Que o Manelzinho ofendeu?

Letra e música: Tradicional (Algarve)
Arranjo: Artesãos da Música
Intérprete: Artesãos da Música
Versão discográfica dos Artesãos da Música (in CD “Puleando”, Artesãos da Música/ARMA, 2012)

Mestre Zé cantou um dia

[ Faz Cá Falta a Armação ]

Mestre Zé cantou um dia
Teu nome, Maria Faia
Pouca gente então sabia
Dos índios da Meia-Praia
Gente honrada e lutadora
Em Lagos, Luz e meia arraia

Também nós somos do Sul
Da Vila Santa Luzia
Já cá canta o Ti Saul
E a velha sabedoria
Faz cá falta a armação
O saveiro e o calão

Os velhos lobos do mar
Que agora ficam em terra
Mandou a Europa de lá
Abateram embarcações
Os senhores da nova guerra
Mandam mais, são os patrões

Em Espanha fazem-se ao mar
E nós parados a ver
Na lota manda o espanhol
Onde exerce o seu poder
Enfrentemos mar e sol
Mais vale quebrar que torcer

Se há fé de tudo mudar
Em cada volta do mundo
Se o sal da baixa-mar
É igual ao que há no fundo
Vamos de novo lutar
Com a força do deus Neptuno

Também nós somos do Sul
Da Vila Santa Luzia
Já cá canta o Ti Saul
E a velha sabedoria
Faz cá falta a armação
O saveiro e o calão

Letra: Nuno Manuel Faria
Música: José Francisco Vieira
Intérprete: Zé Francisco & Orquestra Azul (in CD “Caminho de Mar e Luz”, José Francisco Vieira/Alain Vachier Music Editions, 2013)

Meu Algarve, cheio de luz

Meu Algarve, cheio de luz,
és o sol que me ilumina,
u ma estrela que reluz,
o amor que me domina.

És o meu sol branco e doirado
a tua luz me seduz,
paraíso inconquistado,
meu Algarve, minha luz.

És o sol que me ilumina,
minha flor, meu girassol,
a semente que germina,
meu Algarve, cheio de sol.

És uma estrela a brilhar
a minha constelação,
um jardim à beira-mar,
a minha flor em botão.

Letra: Maria José Fraqueza
Música: António Vinagre
Intérprete: Grupo Coral de Portimão (in CD “Algarve”, Tradisom, 200?)

Meu Algarve das baladas

[ Corridinho, corridinho ]

Meu Algarve das baladas
Não és bem como te cantam
Mais que moiras encantadas
Tens moiras que nos encantam

Corridinho, corridinho
Antes que a morte apareça
Corridinho, corridinho
Vamos lá viver depressa.

Cava a terra, pisa o mosto
Puxa a rede e continua
A ‘balhar’ até dá gosto
O suor que a gente sua

Corre, pula, rodopia
Até manhanita, moça
Já alugámos o dia
Mas a noite é toda nossa.

Tia Anica da Fuzeta
Tia Anica de Loulé
Da barra da saia preta
Ou da caixa de rapé.

Fala, fala se és capaz
Cantorica, bailarica,
Que no céu não poderás
Já sem corpo, Tia Anica

Letra: Leonel Neves
Música: António Vinagre
Intérprete: Grupo Coral de Portimão (in CD “Algarve”, Tradisom, 200?)

Meu Algarve encantador

I. Meu Algarve encantador,
P’ra o poeta e p’ra o pintor
Tens motivos de sobejo…
Até eu, se tivesse arte,
Queria ao mundo mostrar-te
Como te sinto e te vejo.

II. Meu Algarve encantador,
A parte da tua alegria,
Tens o encanto, a magia,
Das amendoeiras em flor.

III. Meu q’rido Algarve, em Janeiro,
Ao turista endinheirado,
Escondes o corpo ulcerado
No fatinho domingueiro.

IV. Só vêem flores os olhos
Desses ilustres senhores,
Mas no Algarve, os abrolhos
São muito mais do que as flores.

V. Mas quem, como eu, o conhece,
Sabe que ele, infelizmente,
Por dentro é muito diferente
Do que por fora parece.

(António Aleixo, in Este Livro Que Vos Deixo, 1969)

Milho verde, milho verde

Deu-me a mim muito trabalho

Milho verde, milho verde
Milho verde, maçaroca
À sombra do milho verde
Namorei uma cachopa

Namorei uma cachopa
Namorei um rapazinho
À sombra do milho verde
Milho verde, miudinho

Milho verde, milho verde
Milho verde, folha larga
À sombra do milho verde
Namorei uma fidalga

Namorei uma fidalga
Namorei o meu amor
Milho verde, milho verde
E à sombra não faz calor

Nem chove nem faz calor
Nem chove nem cai orvalho
E o amor para ser meu
Deu-me a mim muito trabalho

Letra e música: Popular (Algarve)
Arranjo: Eduarda Alves; Margarida Guerreiro
Intérprete: Moçoilas (in CD “Já Cá Vai Roubado”, 2001)

Não há noite mais alegre

Não há noite mais alegre
Que a noite de Natal
Onde nasceu Deus Menino
Antes do galo cantar

Deu o galo três cantadas
Deu o menino nascido
Bendito seja o ventre
Qu’o trouxe nove meses escondido

E a mula como era maldosa
Destapava-o com a ferradura
Mas o boi como era manso
Destapava-o com a armadura

Deus a bem disse ao aboio
Deus lhe deu a bênção
Toda a terra aqui milagre
Toda ela cheira a pão

Sejam altas, sejam baixas
Sejam nada as dê lição
Cada bago dê um moio
Cada moio dê um milhão

Letra e música: Popular (Algarve)
Arranjo: Eduarda Alves; Margarida Guerreiro; José Martins
Intérprete: Moçoilas (in CD “Já Cá Vai Roubado “, 2001)

No Garb realça o azul deuses morenos

As Hespérides são moças algarvias

No Garb realça o azul deuses morenos
À doçura dos figos submetidos.
Vieram gregos. Ficaram Sarracenos.
Nardos enfolham seus nomes esquecidos.

À noite ordenham luas nos terraços,
Dão leite à sombra. Abrolham os perfumes.
Silêncio. Só de um lírio ouvem-se os passos.
Madruga a pesca, rompe um mar de lumes.

Esvoaçam suas túnicas de abelhas
Entre vinhas, seus bêbados recintos;
E quando a amendoeira nas orelhas
Põe flores, deram-lhe os deuses esses brincos.

Vem de turbante o sol e toma posse
De corpos, cactos, milhos e vinhedos.
Excita o açúcar na batata-doce
E despe as almas gregas dos penedos.

Ouro firme, crepúsculos de cinabre
Senhorio de azul. Balcões mouriscos.
Ferve a prata na pesca. O cheiro abre
No ar quente uma vulva de mariscos.

Jardins da Hespéria? Ninfeu de ondas macias,
O mar. As ninfas guardam os pomares.
As Hespérides são moças algarvias
Todas jasmim, da testa aos calcanhares.

Garb de praia e pele magia e lendas,
Branco de extasiadas geometrias.
Absorto o tempo. São gregas as calendas
Com pálpebras de mouras gelosias.

Laranjas, cal, areia e rocha ardente
Têm sede da luz que dá mais vida.
Índigos deuses. Ardor. Tudo é presente.
Causa clara de beira-mar garrida.

Poema de Natália Correia (in “O Armistício”, 1985)
Recitado por Afonso Dias (in CD “Geometria do Sul”, Edere, 2002)
Outra Versão: Carla Moreira / Trupe Barlaventina (in CD “O Perfume da Palavra”, Concertante, 1999)

No Palácio das Varandas

[ Do Palácio das Varandas ]

No Palácio das Varandas
namorei moiras de sonho
escrevi meus versos de luz.
De ruiva cor eram o trono
e o sangue que me sangraram
com espadas sombras de cruz.
Naveguei Arade abaixo
‘té ao azul que gritava
Valentias de aventura.

Em preparos de abalada
do abrigo da enseada
fiz-me ao sonho e à sepultura
trepei agruras de pedra
espojei-me em areias de seda
nadei águas de amargura
Levei os cheiros do monte
plantei estevas no horizonte
flori o mar e a lonjura.

Num tempo antigo de igreja
a santidade da inveja
impôs-se a golpes de espada,
neste sul, do sul sobeja
mais geometria das almas
do que agressões de cruzada.
O Guadiana é travesso
e faz caber num só verso
um povo de duas águas.

Em capital de canções
manda o baile de emoções
esta orgia de poetas.
A velha Garb se ufana
de em mistérios ser estranha
como convém aos profetas.
A velha Garb se ufana
de em mistérios ser estranha
como convém aos profetas.

Hoje o Garb é ribeirinho
e o montanheiro, sozinho
é velhice e sais de pedra.
Da beira-mar para o sol
há que acender o farol
do norte que aponta a serra.
Da beira-mar para o sol
há que acender o farol
do norte que aponta a serra.

Letra: Afonso Dias
Música: Alfredo Correeiro
Intérprete: Afonso Dias (in CD “Geometria do Sul”, Edere, 2002)

Nome de Maria

Nome de Maria
Tão bonito é
Salva-me a minha alma
Que ela vossa é

Que ela vossa é
Sempre o há-de ser
Salva-me a minha alma
Quando eu morrer

Quando eu morrer
Quando eu acabar
Salva-me a minha alma
Para bom lugar

Para bom lugar
Para o Paraíso
Salva-me a minha alma
Dia do Juízo

Dia do Juízo
Para a eternidade
Salva-me a minha alma
Mãe da Piedade

Mãe da Piedade
Senhora das Dores
Salva-me a minha alma
Mãe dos pecadores

Mãe dos pecadores
Senhora da Luz
Salva-me a minha alma
Meu doce Jesus

Meu doce Jesus
Mãe do Nazareno
Salva-me a minha alma
Para sempre, Ámen.

E Jesus é meu
E eu quero ser vosso
Por isso lhe rezo
Este Pai-Nosso.

Popular – voz feminina (Monchique, Algarve)
Recolha de José Alberto Sardinha (1981) (in CD n.º 6 de “Portugal: Raízes Musicais”, JN/BMG, 1997)

Ó água que vais correndo

[ Verde-Gaio ]

Ó água que vais correndo
Mansamente vagarosa,
Passa pelo meu jardim,
Rega-me lá uma rosa!

Água da Fóia corre alta,
Por canais vai à cidade;
Eu não sou rica, mas tenho
Amores à minha vontade.

O ladrão do Verde-Gaio
Foi-se gabar à rainha
Que era dono do morgado
E nem sequer sapatos tinha.

E nem sequer sapatos tinha
Nem dinheiro para os comprar;
O ladrão do Verde-Gaio
Foi-me falso no amar.

Eu tenho à minha janela
O que tu não tens à tua:
Um vaso de violetas
Que perfuma toda a rua.

Bem sei que me andais mirando
Por debaixo do chapéu;
Se eu não sou do vosso gosto
Quem quer anjos vai ao céu.

O ladrão do Verde-Gaio
Foi-se gabar à rainha
Que era dono do morgado
E nem sequer sapatos tinha.

E nem sequer sapatos tinha
Nem dinheiro para os comprar;
O ladrão do Verde-Gaio
Foi-me falso no amar.

O ladrão do Verde-Gaio
Foi-se gabar à rainha
Que era dono do morgado
E nem sequer sapatos tinha.

E nem sequer sapatos tinha
Nem dinheiro para os comprar;
O ladrão do Verde-Gaio
Foi-me falso no amar.

Letra e música: Tradicional (Algarve)
Intérprete: Afonso Dias com Teresa Silva
Primeira versão de Afonso Dias, com Teresa Silva (in CD “Andanças & Cantorias”, Bons Ofícios – Associação Cultural, 2016)

O Algarve é branco

O Algarve é branco, manchado
De espuma branca do mar
Quando o mar endiabrado
Anda com ela a brincar

O Algarve é branco
Nas belas chaminés tão rendilhadas
Das suas casas singelas
Todas de branco caiadas

O Algarve é branco nas praias
Quando as ondas, uma a uma
As vestem de brancas saias
Feitas de rendas de espuma

O Algarve é branco
Nas velas dos seus barcos navegando
Em mar azul, sem procelas
Que de branco o vão pintando

O Algarve é branco nos dias
Que as amendoeiras em flor
Lembram neve em terras frias
Tão semelhantes na cor

O Algarve é branco
À noitinha, quando a lua, ao despertar,
Enche a paisagem inteirinha
De luz branca de luar

O Algarve é branco
À noitinha, quando a lua, ao despertar,
Enche a paisagem inteirinha
De luz branca de luar

Letra: Elisa Maçanita
Música: António Vinagre
Intérprete: Grupo Coral de Portimão (in CD “Algarve”, Tradisom, 200?)

Ó Maria, vem bailar

[ Bailarico Algarvio (Corridinho) ]

– Ó Maria, vem bailar o corridinho!
– Ó Manel, não me faltes ao respeito!
– Ó Maria, que as penas do teu peitinho…
E eu não sou Maneleto!
– Ó Maneleto, que eu já te tenho dito:
Cá comigo só se baila com preceito!
– Ó Maria, não sejas tão esquisita,
Que bailamos ao toque da concertina!
Raios me parta se há alguma mais bonita,
Ai que tem como tu a pele tão fina…

Que bem que bailas, ó Maria, mas que bem!
Andas no ar como uma pena levezinha.
Só tenho pena que as penas que o peito tem,
Só tenho pena que as penas não sejam minhas…

Que bem que bailas, ó Maria, mas que bem!
Andas no ar como uma pena levezinha.
Só tenho pena que as penas que o peito tem,
Só tenho pena que as penas não sejam minhas…

– Ó Maria, vem bailar o corridinho!
– Ó Manel, não me faltes ao respeito!
– Ó Maria, que as penas do teu peitinho…
E eu não sou Maneleto!
– Ó Maneleto, que eu já te tenho dito:
Cá comigo só se baila com preceito!
– Ó Maria, não sejas tão esquisita,
Que bailamos ao toque da concertina!
Raios me parta se há alguma mais bonita,
Ai que tem como tu a pele tão fina…

Que bem que bailas, ó Maria, mas que bem!
Andas no ar como uma pena levezinha.
Só tenho pena que as penas que o peito tem,
Só tenho pena que as penas não sejam minhas…

Que bem que bailas, ó Maria, mas que bem!
Andas no ar como uma pena levezinha.
Só tenho pena que as penas que o peito tem,
Só tenho pena que as penas não sejam minhas…

Letra e música: Tradicional (Tavira, Algarve)
Recolha: Grupo Folclórico de Tavira
Intérprete: Cardo-Roxo (in CD “Alvorada”, Cardo-Roxo, 2015)

Cardo-roxo, Alvorada

O Sol é que alegra o dia

[ Arquinhos ]

Cantiga:

O Sol é que alegra o dia
Pela manhã quando nasce;
Ai de nós o que seria
Se o Sol um dia faltasse!

Moças, façam arquinhos!
Moças, façam arcadas
P’ra passar o meu benzinho,
P’ra passar a minha amada!

P’ra passar a minha amada,
O meu benzinho,
Moças, arquinhos!
Moças, arcadas!

P’ra passar o meu benzinho,
A minha amada, |
Moças, arquinhos!
Moças, arcadas!

O meu benzinho…

A minha amada…

Arquinhos (dança de roda)
Letra e música: Tradicional (Ourique / Castro Verde, Alentejo)
Informantes: Grupo Coral e Etnográfico “As Papoilas do Corvo” (Aldeia do Corvo), Manuel Bento (Aldeia Nova) e Pedro Mestre (Sete)
Recolha: Lia Marchi (in “Caderno de Danças do Alentejo”, Associação Pédexumbo e Olaria Cultural, 2010 – p. 36-37)
Intérprete: Aqui Há Baile (in CD “Caderno de Danças do Alentejo – adaptações”, Associação Pédexumbo/Caracol Secreto, 2013)

Ó Sol, vibrante sol

[ O meu Algarve ]

Ó Sol, vibrante sol, do meu Algarve de oiro,
que fazes palpitar os peitos e os jardins
no mesmo grande amor, fecundo, imorredoiro,
que rebenta, na Vida, em olhos e jasmins:
ó Sol que pões no Céu um brilho violento
e fazes chamejar, ao longe, os horizontes,
que pões fogo no ar e pões brasas no vento
e que vais calcinar a epiderme aos montes,
adoro a tua luz vigorosa e sadia,
que modula no campo a música das cores,
que rega, em nossa alma, os cactos da Alegria
e esculpe nas sementes os bustos das flores.
Cai-me sobre o olhar: banha-me em teu fulgor,
ó Sol que pões no Céu um latejante azul:
Dá-me a tua alegria e dá-me o teu vigor,
ó Sol, imortal sol, do meu país do Sul…

Poema (excerto): João Lúcio (in “O Meu Algarve”, 1905)
Música: Pedro Guerreiro
Intérprete: Carla Moreira / Trupe Barlaventina (in CD ” Lendas do País do Sul “, Concertante, 1999)

Olá vizinha prenda o seu galo

Olá vizinha prenda o seu galo
Qu’a minha galinha ricócó
Quer namorá-lo
Quer namorá-lo
Eu não m’importa
Galo à janela ricócó
Galinha à porta

Cró, cró, cró
A galinha foi-se embora
E o galinho ficou só

Letra e música: Popular (Algarve)
Arranjo: Margarida Guerreiro; Teresa Muge
Vassouras: Eduarda Alves, Margarida Guerreiro, Teresa Colaço, Teresa Muge
Intérprete: Moçoilas (in CD “Já Cá Vai Roubado”, 2001)

Perguntei ao Sol

[ Ponta nova do Algarve ]

Perguntei ao Sol se viu
E à lua se conheceu,
Às estrelas se encontraram
Um amor que já foi meu.

Ponta nova do Algarve
Está feita numa romã,
Onde o meu amor passeia
Domingo pela manhã.

Domingo pela manhã
Na segunda-feira à tarde,
Está feita numa romã
Ponta nova do Algarve.

O meu amor é aquele
Que não me tira o chapéu,
Tem a porta para a rua
E o telhado para o céu.

Ponta nova do Algarve
Está feita numa romã,
Onde o meu amor passeia
Domingo pela manhã.

Domingo pela manhã
Na segunda-feira à tarde,
Está feita numa romã
Ponta nova do Algarve.

Letra e música: Popular (Algarve)
Recolha: José Alberto Sardinha (Castro Marim, 1994) (in CD n.º 6 de “Portugal – Raízes Musicais”, ed. JN/BMG, 1997)
Intérprete: Diabo a Sete (in CD “Parainfernália”, Açor/Emiliano Toste, 2007)

Praia da Rocha

[ Fado de Portimão ]

Praia da Rocha, guitarra
Doirada que o mar dedilha
Ferragudo e a maravilha
Do castelo junto à barra

Mas quer chova ou faça sol
Quer o mar deixe ou não deixe
A cidade é um anzol
Portimão sonha com peixe

Como a foz do rio Arade
Como o cais de Portimão
Há-de haver tão lindos, há-de,
Mas mais lindos é que não.

Ah! Se o luar não vier
Às redes de Portimão
Luar de peixe a morrer
Antes do fim do Verão.

“Vá fome”
Diz Zé Fataça
Que outrora foi pescador
E é agora engraxador
Junto ao coreto da praça

Então a fome é verdade
E alguns vão buscar seu pão
A mil léguas do Arade
E do cais de Portimão.

Como a foz do rio Arade
Como o cais de Portimão
Há-de haver tão lindos, há-de,
Mas mais lindos é que não.

Letra: Leonel Neves
Música: António Vinagre
Intérprete: Grupo Coral de Portimão (in CD “Algarve”, Tradisom, 200?)

Quatro horas da madrugada

[ Naufragou Valentina ]

Quatro horas da madrugada
Barcos p’rá pesca iam
Naufragou Valentina
Barco de Santa Luzia

Apelido Cavalo Raio
Que tanta fama deixou
À barra de Vila Real
Esse barco naufragou

Veio o vento de repente
Que nem um remate de bola
O barco que os salvou
Foi uma parelha espanhola

Aldemiro de Mateus
Seria o primeiro a faltar
Pela forte maresia
Arrebatado pelo mar

Manuel Milho e Joaquim
De suas mulheres se lembraram
Até que chegou a parelha
Que os naufragados salvava

Naufragou Valentina
Barco de Santa Luzia
O barco que os salvou
Barco de Punta Umbria

Para que fique na ideia
Esta grande e triste imagem
Se chegarem a naufragar
Nunca percam a coragem

Com toda a força gritava
Na maior aflição
O mestre fez desmerecer
A sua tripulação

Naufragou Valentina
Barco de Santa Luzia
O barco que os salvou
Barco de Punta Umbria

Naufragou Valentina
Barco de Santa Luzia
O barco que os salvou
Barco de Punta Umbria

Letra: Hermínio José Machado
Música: José Francisco Vieira
Intérprete: Zé Francisco & Orquestra Azul (in CD “Caminho de Mar e Luz”, José Francisco Vieira/Alain Vachier Music Editions, 2013)

Quem vive nos ardis da ilusão

Quem vive nos ardis da ilusão
E, assim, vai fugindo do amigo
Poderá encontrar consolação?

Quando será que estarei
Livre de desdém tão fero
Cujos fortes esquadrões
Me dão guerra que eu não quero.
Juro pela luz altaneira
Que em suas tranças se divisa:
Não sou cobra traiçoeira
Das que mudam de camisa.

De negras madeixas
Amo uma gazela
Um sol é o seu rosto
E palmeira é ela
De ancas opulentas.
Há entre seus lábios
De néctar o gosto.
Ó sede, se intentas
Sua boca beijar
Não o vais lograr.
Ó sede, se intentas
Sua boca beijar.

No encanto não tem
Rival tal senhora,
E fora do sonho,
Quem bela assim fora?
Qual espadas seus olhos
Lhe brilham; e rosas
Lhe enfeitam a face
Na sombra vistosas
Mas se as vais olhar
As farás murchar.
Lhe enfeitam a face
Na sombra as rosas.

Dá paz ao ardor
De quem te deseja.
Contenta o amor
E faz dom de ti,
Vamos lá, sorri,
Quando a boca beija.
Me disse na hora:
“Pecar me refreia”
Respondi-lhe: “Ora!
Não é coisa feia.”
Me disse na hora:
“Pecar me refreia”

Uma vez era noite
De bem longa festa.
Eu adormeci
E ela acordou-me com esta:
“Teu sono vai longo,
Toca a levantar!”
Então me beijou
E eu pus-me a cantar:
“Fazem reviver
Teus lábios a arder!”.
Então me beijou
E eu pus-me a cantar.

Dá paz ao ardor
De quem te deseja.
Contenta o amor
E faz dom de ti,
Vamos lá, sorri,
Quando a boca beija.
Me disse na hora:
“Pecar me refreia”
Respondi-lhe: “Ora!
Não é coisa feia.”
Me disse na hora:
“Pecar me refreia”

Uma vez era noite
De bem longa festa.
Eu adormeci
E ela acordou-me com esta:
“Teu sono vai longo,
Toca a levantar!”
Então me beijou
E eu pus-me a cantar:
“Fazem reviver
Teus lábios a arder!”.
Então me beijou
E eu pus-me a cantar.

Eduardo Ramos, Andalusino

Poema (adaptado): Al-Mutamid (in “O Meu Coração é Árabe”, de Adalberto Alves)
Música: Eduardo Ramos
Intérprete: Eduardo Ramos (in CD “Andalusino”, InforArte, 1999; CD “Cântico para Al-Mutamid”, Ed. de Autor, 2005)

Rio Guadiana

Rio Guadiana, que vais p’ró mar
Correm-te as águas tão gentis
Em terra estranha…
Toma cuidado, olha que em Espanha
Criam-se as mágoas que me inquietam
Dum pesadelo…

Frescas manhãs em Abril
Onde andarão lembranças mil…

Clara Joana foi-se hoje embora
Deixa a saudade num portado
Ninguém a chora
A felicidade é coisa simples
Vai de barquinha rio abaixo
Nunca mais torna…

Frescas manhãs em Abril
Onde andarão lembranças mil…

Espelho da cara da nossa gente
Tira a confiança a quem te mente
Ai se te vejo no Alentejo
Sem laranjais, sem trigo d’oiro
És a fonte dos meus receios

Frescas manhãs em Abril
Onde andarão lembranças mil…

Vitorino, Flor de la Mar

Letra e música: Vitorino
Intérprete: Vitorino (in “Flor de La Mar”, EMI-VC, 1983; reed. 1992)

Siga a roda, siga ela

[ Romance da Donzela Guerreira ]

(“Siga a roda, siga ela,
Que agora se vai contar
A história duma donzela
Que à guerra vai guerrear!”)

– As guerras se apregoaram
Entre França e Aragão:
Ai de mim que já sou velho,
Sem ter um filho varão!…
Sem ter um filho varão!… ­

Responde a filha mais moça
Com toda a resolução:
– Venham armas e cavalos
Que eu serei filho varão. –

(“A roda sempre a girar,
Que a história vai começar!”)
– Tendes as tranças compridas,
Filha, conhecer-vos-ão.
– Venham pentes e tesouras,
Vê-las-eis cair no chão!
Vê-las-eis cair no chão!

– Tendes os olhos garridos,
Filha, conhecer-vos-ão.
– Quando passar pela armada
Porei os olhos no chão!

(“Vai rodando sem parar,
Que o baile está a animar!”)

– Tendes peitos muito altos,
Filha, conhecer-vos-ão.
– Venham fardas apertadas,
Que eles logo abaixarão!
Que eles logo abaixarão!

– Tendes as mãos muito finas,
Filha, conhecer-vos-ão.
– Venham já guantes de ferro,
De lá nunca sairão!

(“A donzela triunfou
E prá guerra caminhou!
Logo o capitão da armada
Dos seus olhos se encantou…
E julgando-a disfarçada,
Em casa se aconselhou.”)

– Convidai-o vós, meu filho,
Para convosco dormir;
Que se ele for mulher,
Não se há-de querer despir.

– Linda cama pra mulher,
Mas ai, quem a fora convidar…
Mas dois homens numa cama?
Quem os mandará açoitar!

(“Sem mais nada descobrir,
Torna ele a insistir.”)

– Convidai-o vós, meu filho,
Para ir ao rio nadar;
Que se ele for mulher,
Logo se há-de acobardar.

– Águas doces são pra damas,
Mas ai, quem as fora convidar…
Porém, não servem pra homens
Senão as águas do mar!

(“Roda agora c’o seu par,
Que a história vai terminar!”)

Monta, monta, cavaleiro,
Se me queres acompanhar;
Se quereis ser o meu marido,
Minha mão te quero dar!
Minha mão te quero dar!

Sete anos andei na guerra
Mas ai, E fiz de filho varão;
Ninguém me conheceu nunca
Senão o meu capitão:
Conheceu-me pelos olhos,
Que por outra coisa não!

Letra: Tradicional
Música: Vítor Reino
Intérprete: Maio Moço (in CD “Canto Maior, Tradisom, 2002)
Outras versões: Amélia Muge – Donzela Guerreira (in CD “Novas Vos Trago”, Tradisom, 1998); José Barros e Navegante – “Donzela que vai à guerra” (in CD “Rimances”, JBN, 2001)

Tem o poial de um vizinho

[ Toada de Aljezur ]

Tem o poial de um vizinho
o telhado de outro ao fundo:
entre eles passa um caminho
de ambos e de todo o mundo.

Topo das casas-escadas:
Castelo, quem lá te pôs?
Cobres moiras encantadas,
descobres várzeas de arroz.

Sonhar rosas, pedir cravos
bom é que aos pobres se oiça…
Que os corpos sejam escravos,
as almas são outra loiça!

Que os corpos sejam escravos,
as almas são outra loiça!
Sonhar rosas, pedir cravos
bom é que aos pobres se oiça…

Eis a capital da Serra
do Espinhaço de Cão!
Mato com nódoas de terra,
muita pedra, pouco pão.

Mato com nódoas de terra,
muita pedra, pouco pão.
Eis a capital da Serra
do Espinhaço de Cão!

Vila de Aljezur,
arrasada sejas
de cravos e rosas
até às igrejas!

(Se nada valem os montes
que o concelho anda a lavrar,
talvez venda os horizontes
que tem à beira do mar…)

(Talvez venda os horizontes
que tem à beira do mar…
Se nada valem os montes
que o concelho anda a lavrar.)

Vila de Aljezur,
arrasada sejas
de cravos e rosas
até às igrejas!

Que faz tanta casa junta
subindo uma encosta louca?
Diz talvez que a gente é muita,
diz talvez que a terra é pouca.

Diz talvez que a gente é muita,
diz talvez que a terra é pouca.
Que faz tanta casa junta
subindo uma encosta louca?

Vila de Aljezur,
arrasada sejas
de cravos e rosas
até às igrejas!

Letra: Leonel Neves
Música: Afonso Dias
Intérprete: Afonso Dias com Tânia Silva (in CD “O Mar ao Fundo”, Bons Ofícios – Associação Cultural, 2015)

Vai, minha lanchinha à vela

[ Lanchinha à Vela ]

Vai, minha lanchinha à vela
Lá longe o horizonte
Vejo nuvens de esperança
Notícias de Levante

Se o mar a mim me engana
Tormentas, tempestades
Vai, minha lanchinha à vela
Antes que seja tarde

Trago cheiro a maresia
Gengibre e fruta sã
Levo a brisa pela proa
Rainha, minha romã

Vai, minha lanchinha à vela
Que a noite não tem fim
Vai buscar a chama eterna
Canela e alecrim

Vai, minha lanchinha, vai
Por mares e marés
Vai em busca de bonança
Mostrar quem tu és

Vai, minha lanchinha à vela
Lá longe o horizonte
Vejo nuvens de esperança
Notícias de Levante [3x]

Letra e música: José Francisco Vieira
Intérprete: Zé Francisco & Orquestra Azul (in CD “Caminho de Mar e Luz”, José Francisco Vieira/Alain Vachier Music Editions, 2013)

Vê-se ranchos de raparigas

[ Al Algarve ]

Vê-se ranchos de raparigas
a desfolhar uma rosa,
cantando lindas cantigas,
formando bailes de roda.

Refrão:

Ai, Algarve, tens amendoeiras floridas!
Ai, Algarve, tens o nome da canção!
Ai, Algarve, tens tão lindas raparigas!
Ai, Algarve, tens tão lindo Portimão!

Envolvidas na canção
fazem arraiais de feira,
gritam “viva Portimão”,
viva a flor da amendoeira.

Envolvida nas cantigas
só eu ficarei no pó
que as amendoeiras despidas
causam pena, metem dó.

Letra: Anónimo
Música: António Vinagre
Intérprete: Grupo Coral de Portimão (in CD “Algarve”, Tradisom, 200?)

Vimos dar as Boas Festas

Vimos dar as Boas Festas,
Já que Deus as nos deixou:
É nascido o Deus-Menino,
De manhã se baptizou.

Depois dele baptizado
Nesse tão humano dia,
Para a Glória foi levado
Com prazer e alegria.

Letra e música: Popular (Algarve / Estremadura)
Recolha: José Alberto Sardinha
Intérprete: Maio Moço (in CD “Canto Maior, Tradisom, 2002)

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/09/algarve-foto-sapo-viagens.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-06 23:11:402024-11-02 06:49:11Canções do Algarve
Ilha da Madeira
Madeira

Canções da Madeira

Canções da Madeira

Letras

A nossa Ponta do Pargo

A nossa Ponta do Pargo,
ela nove sítios tem,
começando pelo Lombo,
no Amparo a nossa mãe.

Depois segue a Lombadinha,
Salão de Cima também,
a Igreja de S. Pedro,
por padroeiro se tem.

E segue o Salão de Baixo,
grande valor nele encerra,
nele temos o farol,
que alumia o mar e a serra.

Mais o sitio do Serrado,
e a Ribeira da Vaca,
depois a Lombada Velha,
E o Cabo a que remata.

Esta nossa freguesia,
é zona de agricultura,
Também se canta e baila,
que a vida no campo é dura.

É a batata e a semilha
e o trigo para o nosso pão.
Também cultivamos vinho,
com foice e enxada na mão.

Se cultivam hortaliças.
Também os nossos legumes
e criamos animais,
com tradições e costumes.

Também temos boa fruta,
que é o pêro e a maçã
e com esforço e trabalho,
de toda esta gente sã.

Com trabalhos e canseiras,
plantamos nossas flores,
toda esta Ponta do Pargo,
Cantam a Deus seus louvores.

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A ponta de São Lourenço

A ponta de São Lourenço
É mais além um nadinha
Foi onde o rei deu à costa
Dentro das pernas da rainha.

Adeus ilha da Madeira
As costas te vou voltando
Não sei o que deixo nela
Que os meus olhos vão chorando.

À Paúl tão grande
Ao longe parece bem
Eu só queria ter
O que no Paúl tem.

A semana a cobiçar

[ Mourisca do Caniçal ]

A semana a cobiçar,
De amor ela me cobiça…
Se não lograr os teus olhos
Domingo não vou à missa!

No adro da igreja, naquele apertão,
O lenço que tinha roubaram-mo da mão.
Garota de seda de trinta mil cores…
Quem deitavas, velha, a voz de namoro?

Se não sabes onde eu moro…
Eu moro ali além,
Numa casinha de palha,
Sozinho mais minha mãe.

No adro da igreja, naquele apertão,
O lenço que tinha roubaram-mo da mão.
Garota de seda de trinta mil cores…
Quem deitavas, velha, a voz de namoro?

Ó senhor de longe, longe,
Ó senhor, d’onde vens?
Venho passar o Natal,
Natal, a casa da minha mãe.
Quem não entrar no caminho
P’ró ano já cá não vem.

No adro da igreja, naquele apertão,
O lenço que tinha roubaram-mo da mão.
Garota de seda de trinta mil cores…
Quem deitavas, velha, a voz de namoro?

São quatro p’ra baile
E cinco p’ra perto;
Eu brinco contigo
E dá-me tudo certo.

Letra e música: Tradicional (Madeira)
Recolha: Artur Andrade e António Aragão
Intérprete: Real Companhia (in CD “Orgulhosamente Nós!”, Lusogram, 2000)
Primeira versão [?]: Encontros da Eira (in CD “Retalhos de Tradição”, Almasud Records, 1998; CD “O Melhor dos Encontros da Eira”, Vidisco, 2002)

Caniçal
Caniçal (Madeira)

Da minha janela à tua

Da minha janela à tua
Do teu coração ao meu
Podia andar um navio
O navegador seria eu.

Ó mar alto, ó mar alto
Ó mar alto sem ter fundo
Mais vale andar no mar alto
Que andar nas bocas do mundo.

Quando o sobreiro der baga
A cortiça for para o fundo
Então se há-de acabar
Estas más línguas do mundo.

Se o mar fosse de azeite
Como é de água salgada
Eu ia lá fora e vinha
Sem pagar frete nem nada.

Sem pagar frete nem nada
Meu amor para o Brasil
Não pagava o passaporte
Meu amor sem de lá vir.

O meu amor me deixou só
Para amar outra menina
Mas as lágrimas que eu choro
Sai-me da testa para cima.

O meu amor me deixou só
Não por nada que eu fizesse
Foi só para amar uma louca
Isto é, casos que acontecem.

Trabalhai, dobrai o corpo
Se queres ser alguém
Olhai que nas eras de hoje
Quem não trabalha não tem.

Casei-me para descansar
Tomei dobrada canseira
Mais valia que eu tivesse
Em casa do meu pai solteira.

Tu dizes que eu sou tua
Em que papel assinei
O mundo dá muita volta
Deus sabe eu de quem serei.

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Embala, preta, embala

[ Embalo da Madeira ]

Embala, preta, embala!
Embala-m’ esta menina,
Que a menina vai dormir
Porqu’ ela é pequenina!

E também tu, Maria,
Pede àquela cotovia
Que fale mais devagar,
Não vá João acordar!

Calai-vos, águas do moinho!
Mário, fala mais baixinho!
Deixa o menino dormir,
’tá no primeiro soninho.

Letra e música: Tradicional (Serra d’Água, Madeira)
Informante: Serafina da Silva (canto)
Recolha: Manuel Rocha (“Embalo”, in CD “Povo Que Canta: Recolhas Etnográficas num Portugal Desconhecido (2000/2003)”, faixa 11, EMI-VC, 2003)
Intérprete: Segue-me à Capela (in Livro/CD “San’Joanices, Paganices e Outras Coisas de Mulher”, Segue-me à Capela/Fundação GDA/Tradisom, 2015)

Era um anjo

Era um anjo, era um anjo
Meu Deus que eu tanto amei
Confesso que ainda o amo
E nunca o esquecerei.

Eu subi à ameixieira
Para apanhar uma ameixa
Arranjei um pechãozinho
O pai quer, a mão não deixa.

Nevoeiro, nevoeiro
Vai pr’a trás do teu palheiro,
Que hoje faço-te um bolo
E amanhã faço um brindeiro.

Ah mê Deus qu’eu já não posso
Subir a esta ladeira
Quand’eu chegar ao chãozinho
Eu vou dar uma carreira.

Há três dias que eu não como
Há quatro que não bebo vinho
Há cinco que eu não alcanço
Da tua boca um beijinho.

Esta é a moda da Ciranda

[ A Ciranda ]

Esta é a moda da Ciranda
É uma moda bem ligeira
Pra juntar as raparigas,
Como o trigo na joeira.

Coro

Ó Ciranda, ó cirandinha,
Vamos nos a cirandar
Vamos dar a meia volta,
Meia volta vamos dar.
Vamos dar a outra meia,
Adiante troca o par.

Adiante e troca o par,
Que o meu par já está trocado.
O amor que Deus me deu,
Aqui o tenho a meu lado.

A ciranda me convida
Para eu ir ao Cirão
Fiar uma maçaroca
Do mais fino algodão.

Vamos cantar a ciranda
Para animar este povo
Para alegria de todos
Desde o mais velho ao mais novo.

Estava a bela infanta

[ Cantiga da guerra ]

Estava a bela Infanta
No seu jardim assentada
Com pente de ouro fino
Os seus cabelos penteava.

Deitou os olhos ao mar
Viu vir uma grande armada
Capitão que nela vinha
Muito bem a guardava.

Dizei-me vós capitão
Dessa tão formosa armada
Se vistes o meu marido
Na terra que Deus pisava.

Anda tanto cavalheiro
Naquela terra sagrada
Mas dizei-me vós senhora
Os sinais que ele levava.

Levava cavalo branco
De selim de prata dourada
Na ponta da sua lança
A cruz ele levava.

Eu sou de cá

Eu sou de cá, você de lá
Sou do lado da lagoa
De dia não tenho tempo
Há noite vou de canoa.

Dei um beijo, ela zangou-se
Dei outro ela sorriu
O terceiro que lhe dei
Foi ela que me pediu.

Refrão

Eu queria passar o rio
Do rio da Assomada
Eu queria falar com a moça
A velha é que me atrapalha.

Refrão

Dei um beijo numa preta
Cheirou-me a café torrado
Foi o beijo mais gostoso
Que a minha boca têm dado.

Refrão

A minha canoazinha
Que anda à roda de vapor
Ainda está para nascer
Quem vai ser o meu amor.

Refrão

No meio daquele mar
Está uma parreira de uvas
Não há faca que as corte
Lá se perdem de maduras.

Foram dizer a meu pai

Foram dizer a meu pai
Que eu namorava bem
Também o meu pai no seu tempo
Namorou a minha mãe.

Se eu quisesse amores
Tinha mais de um cento
Bonecos de palha
Cabeças de vento.

O meu amor ontem à noite
Pela vida me jurou
Que se ia deitar ao mar
Se ele vai eu cá não vou.

Foram dizer ao meu pai
Que eu namorava alto
Também meu pai no seu tempo
Namorou três e quatro.

No tempo que eu te amava
Não amava a mais ninguém
Amava noventa e nove
Contigo fazia cem.

Foram dizer a meu pai
Que eu casava no Lanço
Leve diabo quem lhe disse
Que nunca tenha descanso.

Dizes que te vais embora
O meu coração não te quita
Se eu procurar hei-de achar
Outra cara mais bonita.

Não passes à minha porta
Nem a pé nem a cavalo
Que o meu pai é lavrador
Não quer genro fidalgo.

No meio daquele mar
Está um pinheiro florido
Não há nada mais bonito
Que a mulher e o seu marido.

Se eu quisesse amores
Que me têm dado
Tinha a casa cheia
Até ao telhado.

O anel que tu me deste
Era de vidro e quebrou-se
A amizade que eu te tinha
Era de água e derramou-se.

Subi à ameixieira
Para apanhar uma bela ameixa
Fui falar à rapariga
O pai quer a mãe não deixa.

Deitei o limão correndo
À tua porta parou
Quando o limão tem malícia
Que fará quem o deitou.

Ó meu amor vem cá à noite
Tenho ceia para te dar
É café e milho frito
E beijinhos ao caminhar.

Se fores daqui para fora
Diz para que terra vais
Deixa-me o teu nome escrito
Numa pedrinha no cais.

Meu amor, ó meu amor
Que agravo de mim tiveste?
O terreiro já tem erva
Há tanto que aqui não vieste.

O meu amor diz que vinha
Diz que vinha, mas não veio
Amanhã pelas nove horas
Tenho carta no correio.

O meu amor vai-se embora
Não vale a pena chorar
A melhor coisa a fazer
É pôr outro em seu lugar.

Já lá vai o sol abaixo
Com Maria pela mão
Maria vai rosadinha
Manuel cor de limão.

Rapariga do diabo
Deus te queira dar saúde
Andava para te enganar
Rapariga nunca pude.

Tenho um castanheiro na serra
Não lhe ponhas o machado
Que a sombra do castanheiro
Tem o meu amor deitado.

Ajudai-me a cantar
Que eu não posso cantar só
O meu coração magoado
Só dele pode haver dó.

Os meus olhos de chorar
Já nenhuma graça tem
Já avisei os meus olhos
Que não chorem por ninguém.

Dei-lhe um limão correndo
Pela rua nova abaixo
Quanto mais o limão corre
Quantos mais amores acho.

Madeira

Madeira
É tão linda assim
É como uma linda rosa
Plantada no meu jardim.

Madeira toda
Cercada de mar
Toda ela é um jardim
Para os Madeirenses cheirar.

Os que visitam a Madeira
Ficam muito encantados
Em ver as lindas montanhas
E os seus lindos prados.

A Madeira é um jardim
No mundo não há igual
Suas belezas não têm fim
É filha de Portugal.

Nas serras do norte
Respiramos ar puro
Eu muito lá passei
É por isso que eu juro.

Fazem-se muitos remédios
Com o mel das abelhinhas
Quando dão à luz os bebés
As mulheres ficam meninas.

Madeira és
Para mim um jardim em flor
Onde colhi muitas flores
Para o altar do Senhor.

Madeira em ti
Está minha terra natal
Onde vivi e aprendi
A fugir de todo o mal.

Meu amor, o teu lencinho

Meu amor o teu lencinho
Guardo com muito carinho
Nunca mais te esqueças dele
Recorda na despedida.

Quando a minha partida
Me acenas com ele.
Vou pedir à Virgem Santa
Que me dê coragem tanta.

Que abrande a minha dor
Desse seu branco lencinho
Ter enxerga do bercinho
Onde embala o nosso amor.

Não sei o que fiz à Lua

Não sei o que fiz à Lua
Não me dá no terreiro
Vou mandá-la prender
Nas grades de um limoeiro.

Não sei o que fiz à Lua
Não me dá claridade
Vou mandá-la prender
Na cadeia da cidade.

Amarrei o sol à lua
Na ponta de um guardanapo
O sol era pequenino
Fugiu-me para um buraco.

Não te encostes à parreira

[ Em Tempo de Vindimas ]

Não te encostes à parreira
Qu’a parreira larga pó!
Encosta-te à minha cama:
Sou solteiro e durmo só!

Ai, venha vinho, venha vinho!
Venha mais meio galão!
Quem quiser beber vinho
Ponha a boca ao garrafão.

Ai, venha vinho, venha vinho!
Venha mais meia canada!
Quem quiser beber vinho
Ponha a boca na levada.

Ai Maria! Ai Maria!
Não é coisa que se faça:
Tu queres é beber o vinho
Daqui da minha cabaça.

Minha mãe não quer que eu beba
Nem vinho nem aguardente;
Nada no mundo me alegra,
Só contigo estou contente.

Se tu quiseres qu’eu cante,
Dá-me um copo de vinho!
Que o vinho é coisa santa,
Faz o cantar miudinho!

Se os senhores querem qu’eu cante,
Dêem-me vinho ou dinheiro!
Qu’esta minha gargantinha
Não é fole de ferreiro!

Se os senhores querem qu’eu cante,
Dêem-me vinho ou dinheiro!
Qu’esta minha gargantinha
Não é fole de ferreiro!

Letra: Popular (quadras recolhidas por Lília Mata, no Sítio da Ribeira dos Pretetes, Caniço, Santa Cruz, Ilha da Madeira)
Música: Carlos Alberto Moniz
Intérprete: Carlos Alberto Moniz
Versão original: Carlos Alberto Moniz (in Livro/2CD “O Vinho dos Poetas”: CD 2, Carlos Alberto Moniz/Ovação, 2014)

No meio daquele mar

No meio daquele mar
Tem uma parreira de uvas
Não há faca que as corte
Já se perdem de maduras.

A parreira dá-me um cacho
O cacho dá-me um baguinho
Quero fazer água pé
Já que meu pai não tem vinho.

Vim-me embora para a cidade
Que o campo já me aborrece
Dentro da cidade eu tenho
Quem penas por mim padece.

Subi ao céu numa escada
E desci num cacho de uvas
Só Deus é que pode ajudar
Estas pobres viúvas.

Meu amor vem cá à noite
Tenho uma coisa para lhe dar
Cafezinho, milho frito
E um beijinho ao caminhar.

O meu amor era um cravo

O meu amor era um cravo
Que aquele craveiro deu
E todo o mundo tem inveja
Daquele cravo ser meu.

Mandei fazer um jaleque
No Pico da Band’Além
Se não casares comigo
Não casas com mais ninguém.

Maria porque não tens
Uma cédula com’as outras?
A vontade era boa…
As moedas eram poucas!

Ó minha mãe

Ó minha mãe, minha mãe
Não me chame sua folha
Chama-me uma destravada
Que nasci para a triste vida.

Minha mãe, minha mãe
Triste vida sem mulher
É bonita corre a fama
É feia ninguém a quer.

Lua, lua
Lua, luar
Pega o meu filhinho
Ajuda-me a criar.

Quando eu era pequenina
Minha mãe me aninhava
Até eu adormecia
Com beijos que ela me dava.

Manuel mais Maria
São filhos da mesma mãe
Manuel é mais bonito
Maria que culpa tem?

Quando eu nasci à noite
Nem uma estrela brilhava
A lua minha madrinha
Lá no céu me alumiava.

Oh meu amor

Oh meu amor, meu querido,
Amor do meu coração,
Quem me dera te poder ver,
Que nunca mais te vi não.

Se tu visses o que eu vi,
Lá no Rio de Janeiro,
O macaco a bater palmas,
Na testa do sapateiro.

Mariquinhas da levada,
Rega o teu manjericão,
Que hoje eu sou levadeiro,
Amanhã serei ou não.

Quando estiver a morrer

Quando estiver para morrer
E para deixar esta vida
Jesus, Maria e José
Hão-de ser minha guarida.

Hão-de rodear-me o leito
Com carinho maternal
P’ra que as forças do inferno
Não possam fazer-lhe mal.

Jesus e a mãe santíssima
Mais o meu Pai São José
Com amor hão-de dizer-me:
Não foi vã a tua fé.

Todos três hão-de fazer-me
Ao morrer Cruz na testa,
São José fechar-me os olhos
A morte para mim é festa.

Que bom é deixar o mundo
Amparado por teus pés
Maria, Jesus e José
Não me deixarão jamais.

São Vicente

[ Hino de São Vicente ]

São Vicente, São Vicente
Capelinha à beira mar
Não esqueças São Vicente
Ande lá por onde andar.

Vem cá assim
Não fujas de ao pé de mim
Vem cá assim
Não fujas de ao pé de mim.

Com o povo de São Vicente
Nem a polícia se mete
Vamos todos prá rambóia
Nem que chovam canivetes.

São Vicente, te és linda terra

São Vicente tu és linda terra
Tu és minha, tu és singular
Não esqueças São Vicente
Andes lá por onde andar

Tens costumes bem antigos
Que honram a tua gente
Por toda a parte tem fama
O jaqué de São Vicente

Tuas serras alterneiras
Olhando o fundo da ribeira
Tuas paisagens verdejantes
As mais lindas da Madeira.

São Vicente mora no calhau
Casinha de pedra portinha de pau.

Sapato que a mim não serve

Sapato que a mim não serve,
Fora do meu pé deitei,
Não mim importa que outro logre,
Amores que eu rejeitei.

Se eu tivesse não pedia,
Coisa nenhuma a ninguém,
Como não tenho peço,
Uma filha a quem as tem.

Ó melro-preto vadio,
Vai cantar a onde quer,
É como o rapaz solteiro,
Enquanto não tem mulher.

Namorar não é pecado,
A quem é desimpedido,
Namorar homens casados,
É um desvairado sentido.

Em frente de mim estão olhos
Olhos que me estão matando
Tu vais dar contas a Deus
Das penas que me estás dando.

Todas nós formamos berço

Todas nós formamos um berço
Para Jesus adormecer
Em nós todas um sacrário
Para conosco ele cantar.

Trigo louro, trigo louro
Empresta-me a tua cor
Quero ir ao Calisberto
Servir a Nosso Senhor.

Cantiguinhas que eu sabia
Todas o vento me levou
Só as de Nossa Senhora
Na memória me ficou.

Carlos Alberto Moniz
https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/09/madeira-cabo-girao.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-06 23:13:052024-11-02 06:48:05Canções da Madeira
Aveiro
Beira Litoral

Canções da Beira Litoral

Canções da Beira Litoral

Letras

A água do rio leva

A água do rio leva
Violetas ao comprido;
Ainda ontem me disseram
Que não casavas comigo.

Que não casavas comigo,
Que m’andavas a enganar;
Não hei-de casar contigo,
Nem se a morte me levar.

Eu casar contigo sim,
Mas por ora ainda não;
Amanhã por esta hora
Te darei o sim ou o não.

Amor, se queres que eu t’escreva
Dá-me a tua direcção!
Sou dali, de Óis da Ribeira,
Maria da Conceição.

Letra e música: Tradicional (Beira Litoral)
Intérprete: Toques do Caramulo (in CD “Retoques”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2011)

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Loja Meloteca, recursos musicais criativos para a infância

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Pode ser do seu interesse o Musorbis, sítio do património musical dos concelhos, ou o Instrumentário Português, que já contém 100 instrumentos tradicionais no País.

Ao correr da queda de água

[ Fraga da Pena ]

Ao correr da queda de água
Fui lavar o sentimento:
Deixei acalmar a mágoa
Enquanto escutava o vento.

A saltar entre os penedos,
As águas vão ensinando
As lembranças e os segredos
Que a serra vai murmurando.

E as penas quem as apaga
Para a alma ficar serena?
Penas grandes como a fraga
São como a Fraga da Pena.

E as penas quem as apaga
Para a alma ficar serena?
Penas grandes como a fraga
São como a Fraga da Pena.

Enquanto a tarde se deita
Nas sombras da penedia,
A água aos poucos ajeita
O raiar do novo dia.

Trigueira de água nos dedos
Desce da serra apressada:
Vem a cantar pelos penedos
Para me saudar à chegada.

Enquanto a noite me afaga,
Enquanto a lua me acena,
Adormeço ao som da fraga:
Ao som da Fraga da Pena.

Enquanto a noite me afaga,
Enquanto a lua me acena,
Adormeço ao som da fraga:
Ao som da Fraga da Pena.

E as penas quem as apaga
Para a alma ficar serena?
Penas grandes como a fraga
São como a Fraga da Pena.

Enquanto a noite me afaga,
Enquanto a lua me acena,
Adormeço ao som da fraga:
Ao som da Fraga da Pena.

Letra: Sebastião Antunes
Música: Fernando Pereira
Intérprete: Real Companhia
Versão original: Real Companhia com Ana Laíns (in CD “Serranias”, Tê, 2013; CD “20 Anos Já Cá Cantam” (compilação), Tê, 2016)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Eu fui à barra do Porto

[ Real Caninha ]

Eu fui à barra do Porto
Com vento norte-suão,
Ó real caninha!
Com vento norte-suão,
Só para ver se alcançava
A filha do capitão.

Eu fui à barra do Porto
Com vento norte-nordeste,
Ó real caninha!
Com vento norte-nordeste,
Só para ver se alcançava
A filha do contramestre.

Tenho rendas que me rendem,
Não quero mais trabalhar,
Ó real caninha!
Não quero mais trabalhar;
Tenho um navio no Porto
Com janelas para o mar.

Eu fui à barra do Porto
Com vento norte-suão,
Ó real caninha!
Com vento norte-suão,
Só para ver se alcançava
A filha do capitão.

Letra e música: Tradicional (Beira Litoral)
Intérprete: Toques do Caramulo
Primeira versão discográfica de Toques do Caramulo (in CD “Toques do Caramulo É ao Vivo!”, d’Orfeu Associação Cultural, 2007)

Eu fui p’ra aqui convidado

[ Passar de Mão ]

Depois de uma recolha na Serra do Baixo Caramulo levada a cabo por um grupo de aguedenses, liderado por Américo Fernandes, efectuou-se um agradável convívio durante o qual o repentista José Carlos, da aldeia de Falgaroso, da paróquia de Belazaima do Chão, porém da freguesia de Castanheira do Vouga, acompanhado pelo fundo de um regador de onde os seus dedos grossos retiraram um delicado batuque fadista, cantou os seguintes versos:

Eu fui p’ra aqui convidado
P’ra cantar modas antigas,
Mas em troca das cantigas
Fui muito bem tratado:
Enfardei leitão assado;
Buer, também buí bem.
Já dizia a minha mãe:
«Filho, ocupa o teu lugar!
Se houver tolos a pagar,
Não gastes nem um vintém!»

É teoria acertada,
Aproveito a ocasião;
Se me chamarem lambão
Até nem me importo nada.
À troca da desgarrada
Já comi um bom jantar;
Mas não posso cá voltar,
Pois é essa a minha pena:
À conta da minha cena
Ninguém me volta a convidar.

Mas, como eu, estão cá tantos,
Não vieram fazer nada:
Encheram foi a malvada,
Beberam tintos e brancos;
Fora de casa são francos,
Comem até rebentar,
Engolem sem mastigar…
Ah, que grande sofreguidão!
Se lhes dá uma congestão,
Ninguém os pode salvar.

E estes senhores da Bairrada
Vieram muito enganados:
Pagam a conta, coitados,
E não aprenderam nada;
Levam música gravada
Que não dá p’ra aproveitar,
Só se for p’ra recordar
O malogro deste dia,
É p’ra perderem a mania
De quererem coleccionar.

Letra: Tradicional (Falgarosa, Castanheira do Vouga, Águeda, Beira Litoral)
Informante: José Carlos
Recolha: Américo Fernandes (in “cancioneiro do Concelho de Águeda”, Org. Amílcar da Fonseca Morais, Câmara Municipal de Águeda, 2011 – p. 60-61)
Música: Tradicional (Beira Litoral)
Arranjo: Luís Fernandes
Intérprete: Toques do Caramulo (in CD “Mexe!”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2016)

Eu no mar e tu no mar

[ É um ar que lhe dá ]

Eu no mar e tu no mar
Ai, andamos ambos perdidos:
Eu no mar desses teus olhos,
Ai, tu no mar dos meus sentidos.

É um ar que lhe dá,
É um ar que lhe deu;
Ai, é um ar que lhe dá,
Quem vira sou eu.

Quem me fora linho fino
Ai, ou retrós de qualquer cor
Para andar no teu peitinho
Ai, a servir de apertador.

É um ar que lhe dá,
É um ar que lhe deu;
Ai, é um ar que lhe dá,
Quem vira sou eu.

Julgavas que eu te queria,
Ai, olha o engano do mundo:
É que os meus olhos já navegam
Ai, noutro pocinho mais fundo.

É um ar que lhe dá,
É um ar que lhe deu;
Ai, é um ar que lhe dá,
Quem vira sou eu.

As noras gemem coitadas
Ai, quando lhes falta a corrente:
Também eu gemo e suspiro
Ai, quando tenho o amor ausente.

É um ar que lhe dá,
É um ar que lhe deu;
Ai, é um ar que lhe dá,
Quem vira sou eu.

É um ar que lhe dá…

Letra e música: Tradicional (Beira Litoral)
Intérprete: Toques do Caramulo (in CD “Retoques”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2011)

Fala-me, Rosa

Fala-me, Rosa, a mim sozinha!
Verás como ficas coradinha.
Fala-me, Rosa, a mim sozinha!
Verás como ficas coradinha.

Coradinha, olé, ó linda,
Coradinha, olé limão!
Toma lá esta laranja
Que eu dou-te o meu coração!

Fala-me, Rosa, a mim sozinha!
Verás como ficas coradinha.
Fala-me, Rosa, a mim sozinha!
Verás como ficas coradinha.

Quem perdeu o que eu achei:
Um lencinho de assoar?
Tinha três nós de ciúme,
Custaram-me a desatar.

Fala-me, Rosa, a mim sozinha!
Verás como ficas coradinha.
Fala-me, Rosa, a mim sozinha!
Verás como ficas coradinha.

Coradinha, olé, ó linda,
Coradinha, olé limão!
Dá-me os teus braços, ó Rosa,
Que eu dou-te o meu coração!

Fala-me, Rosa, a mim sozinha!
Verás como ficas coradinha.
Fala-me, Rosa, a mim sozinha!
Verás como ficas coradinha.

Quem perdeu o que eu achei:
Um lencinho quase novo?
Em cada ponta um suspiro
E no meio um ai que eu morro.

Fala-me, Rosa, a mim sozinha!
Verás como ficas coradinha.
Fala-me, Rosa, a mim sozinha!
Verás como ficas coradinha.

Letra e música: Tradicional (Beira Litoral)
Intérprete: Toques do Caramulo (in CD “Retoques”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2011)

Morro de amor pelas águas da ria

[ Fado Moliceiro ]

Morro de amor
pelas águas da ria;
esta espuma de dor
eu não sabia.

Sou moliceiro
do teu lodo fecundo;
sou a Ria de Aveiro,
o sal do mundo.

Vara comprida,
tamanho da vida;
braço de mar,
a lavrar,
a lavrar.

Morro de amor
nesta rede que teço
e é no sal do suor
que eu aconteço.

Para além da salina
o horizonte me ensina
que há muito mar,
muito mar
para lavrar!
para lavrar!

Poema: José Carlos Ary dos Santos
Música: Carlos Paredes
Intérprete: Mariana Abrunheiro (in Livro/CD “Cantar Paredes”, Mariana Abrunheiro/BOCA – Palavras Que Alimentam, 2015)
Versão original: Carlos do Carmo (in LP “Um Homem no País”, Philips/Polygram, 1983, reed. Philips/Polygram, 1984, Universal, 2000, 2013; Livro/4CD “O Mundo Segundo Carlos Paredes: Integral 1958-1993”: CD5 – “Improvisos”, EMI-VC, 2003)

Nasci em terras de xisto

[ Serra do Açor ]

Nasci em terras de xisto
À beira do rio Ceira
Em lugar de Balsa sem Porto
Numa Serra onde o Açor pousou
Em leito de feno dormi

Cresci na terra do Sorgaço
Correndo em lameiros verdejantes
Ouvi o sopro dos ventos
Junto ao correr das levadas
Vi noite sem luar

Ouvi histórias de bruxaria
Lendas de lobisomens
D’almocreves e mouras encantadas
Vi sementeiras e colheitas
As malhas e debulhas

Saltei fogueiras de rosmaninho
Acendi o madeiro de Natal
Cantei janeiras pelo povoado
Cheirei alecrim e loureiro
Bebi chá de sabugueiro

Nadei nas águas do Alva
Na ponte que tem três entradas
Em Avô, terra de poetas,
Cantei baladas ao luar
Até o galo cantar

Que importa ser acordado
Dos sonhos desta noite
Pela coruja que é a Surga
Ou pelo sino da capela
Tudo isto existe, tudo isto é belo
Nada mudou, tudo está como era dantes…

Letra e música: Fernando Pereira
Intérprete: Real Companhia
Versão anterior: Real Companhia (in CD “Serranias”, Tê, 2013;
Versão original: Real Companhia (in CD “Real Companhia”, Profissom, 1997; CD “20 Anos Já Cá Cantam” (compilação), Tê, 2016)
Outras versões: Real Companhia (in CD “Em Tons de Pastel”, Tê, 2004); Real Companhia (in CD “Em Forma de Abraço”, Tê, 2005)

Nunca te ouvira

[ Ó Pedras Desta Calçada ]

Nunca te ouvira, nem conhecera,
Nunca te eu dera um sinal de amor:
Vem aos meus braços que eu dou-te um beijo!
Vem os meus beijos, linda flor!

Ó pedras desta calçada,
Levantai-vos e dizei
Quem vos passeia à noite,
Que de dia eu bem sei!

Ó pedras desta calçada,
Levantai-vos e dizei
Quem vos passeia à noite,
Que de dia eu bem sei!

Nunca te ouvira, nem conhecera,
Nunca te eu dera um sinal de amor:
Aos meus braços, aos meus beijos,
Aos meus braços, linda flor!

Ó pedras desta calçada,
Levantai-vos e dizei
Quem vos passeia à noite,
Que de dia eu bem sei!

Letra e música: Tradicional (Beira Litoral)
Intérprete: Toques do Caramulo
Primeira versão discográfica de Toques do Caramulo (in CD “Toques do Caramulo É ao Vivo!”, d’Orfeu Associação Cultural, 2007)

Ó Bairrada

[ Vira Bairrês ]

Ó Bairrada, ó Bairrada,
Terra da minha Paixão,
Onde eu tenho os meus amores,
Ninguém me diga que não!
Terra da Minha Paixão!

Corri Arcos e Três Arcos,
Famalicão, Anadia…
Ao cruzeiro de Sangalhos
Fui encontrar quem eu queria;
Famalicão, Anadia…

Almas Santas da Areosa,
Dizei-me onde morais
Entre Aguada e Vidoeiro,
No meio dos pinheirais!
Dizei-me onde morais!

Letra e música: Tradicional (Bairrada, Beira Litoral)
Arranjo: Luís Fernandes
Intérprete: Toques do Caramulo
Primeira versão discográfica de Toques do Caramulo (in CD “Mexe!”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2016)

O brio das raparigas

O brio das raparigas,
Ela é minha namorada;
Ó i ó ai, diz a filha para a mãe:
Ó i ó ai, quero uma saia bordada.

Quero uma saia bordada,
Também quero fina meia;
Ó i ó ai, sapatinho à papo-seco,
Ó i ó ai, é bonita, não é feia.

O meu amor não é este
O meu amor traz chapéu;
Ó i ó ai, o meu amor ao pé deste
Ó i ó ai, parece um anjo do Céu.

O brio do rapaz novo
É o chapéu derrubado;
Ó i ó ai, corrente d’ouro ao peito,
Ó i ó ai, o cabelo ondulado.

Não sei se te diga “adeus”,
Se te diga “vou-me embora”;
Ó i ó ai, dizer adeus é saudoso,
Ó i ó ai, quem diz adeus logo chora.

Letra e música: Tradicional (Beira Litoral)
Intérprete: Toques do Caramulo com Sara Vidal (in CD “Retoques”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2011)

O lugar de Macieira

O lugar de Macieira (ó ai ó larilolela)
Tem ladeiras a subir: (ó ai)
Quem lá tem os seus amores, (ó ai ó larilolela)
Vai ao céu e torna a vir. (ó ai)

O lugar de Outeiro da Vila (ó ai ó larilolela)
Tem carreiros de formigas (ó ai)
Aonde os rapazes vão (ó ai ó larilolela)
Vigiar as raparigas. (ó ai)

O lugar de Macieira (ó ai ó larilolela)
Tem ladeiras a subir: (ó ai)
Quem lá tem os seus amores, (ó ai ó larilolela)
Vai ao céu e torna a vir. (ó ai)

O lugar de Outeiro da Vila (ó ai ó larilolela)
Tem carreiros de formigas (ó ai)
Aonde os rapazes vão (ó ai ó larilolela)
Vigiar as raparigas. (ó-ó-ó ai)

Quem está sem amores sou eu; (larilolela)
Paciência, ó coração! (ó ai)
Não tenho p’ra quem olhar, (ó ai ó larilolela)
Deito os meus olhos ao chão. (ó-ó-ó ai)

Na Urgueira nasce o Sol, (ó ai ó larilolela)
No Ribeiro faz calor; (ó ai)
No lugar de Macieira (ó ai ó larilolela)
É que brilha o meu amor. (ó-ó-ó ai)

Quem está sem amores sou eu; (ó ai ó larilolela)
Paciência, ó coração! (ó ai)
Não tenho p’ra quem olhar, (ó ai ó larilolela)
Deito os meus olhos ao chão. (ó ai)

Na Urgueira nasce o Sol, (ó ai ó larilolela)
No Ribeiro faz calor; (ó ai)
No lugar de Macieira (ó ai ó larilolela)
É que brilha o meu amor. (ó-ó-ó ai)

Letra e música: Tradicional (Beira Litoral)
Arranjo: Luís Fernandes
Intérprete: Toques do Caramulo
Primeira versão discográfica de Toques do Caramulo, com Elíseo Parra (in CD “Mexe!”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2016)

Macieira de Alcoba

Macieira de Alcoba

Ó trigueirinha

Ó trigueirinha, trigueirinha engraçada,
Ó trigueirinha, só tu és a minha amada!
Ó trigueirinha, trigueirinha do calor,
Ó trigueirinha, só tu és o meu amor!

Chamaste-me trigueirinha…
Trigueirinha é do pó da eira;
Hás-de me ver ao domingo
Como a rosa na roseira.

Ó trigueirinha, trigueirinha engraçada,
Ó trigueirinha, só tu és a minha amada!
Ó trigueirinha, trigueirinha do calor,
Ó trigueirinha, só tu és o meu amor!

Trigueirinha engraçada
Todo o mundo a cobiça:
Como domingo na igreja
Quem a vê não ouve a missa.

Ó trigueirinha, trigueirinha engraçada,
Ó trigueirinha, só tu és a minha amada!
Ó trigueirinha, trigueirinha do calor,
Ó trigueirinha, só tu és o meu amor!

Trigueirinha, trigueirinha,
Assim me chama o meu Pedro…
Não sou linda de espantar
Nem feia que meta medo.

Ó trigueirinha engraçada,
Ó trigueirinha, só tu és a minha amada!
…do calor,
Ó trigueirinha, ó meu amor!

Ó trigueirinha engraçada,
Ó trigueirinha, só tu és a minha amada!
…do calor,
Ó trigueirinha, ó meu amor!

Letra e música: Tradicional (Beira Litoral)
Intérprete: Toques do Caramulo (in CD “Retoques”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2011)

Olé, ó senhora mãe

Olé, ó senhora mãe,
Aquela menina agrada-me bem!
Olé, ó senhora mãe!

Olé, ó senhor, dai, dai
Uma esmola a mim, que eu não tenho pai!
Olé, ó senhor, dai, dai!

Letra e música: Tradicional (Talhadas, Sever do Vouga, Beira Litoral)
Recolha: Michel Giacometti (in LP “Beira Alta, Beira Baixa, Beira Litoral”, série “Antologia da Música Regional Portuguesa”, Arquivos Sonoros Portugueses/Michel Giacometti, 1970; 5CD “Portuguese Folk Music”: CD 3 – Beiras, Strauss, 1998; 6CD “Música Regional Portuguesa”: CD 4 – Beiras, col. Portugal Som, Numérica, 2008)
Intérprete: Segue-me à Capela (ao vivo no Teatro da Luz, Lisboa)
Primeira versão de Segue-me à Capela (in Livro/CD “San’Joanices, Paganices e Outras Coisas de Mulher”, Segue-me à Capela/Fundação GDA/Tradisom, 2015)

Olha para a água!

Olha para a água!
Ri-te para mim!
Põe o pé na areia!
Faz assim, assim!

Meu amor não anda
Nada satisfeito:
Põe o pé na areia,
Faz assim a eito

Olha para a água!
Ri-te para mim!
Põe o pé na areia!
Faz assim, assim!

Letra e música: Tradicional (Beira Litoral)
Intérprete: Toques do Caramulo com o Coro Infantil EMtrad (in CD “Retoques”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2011)

Onde vais, Maria Alice?

[ Maria Alice ]

«Onde vais, Maria Alice?
Onde vais tu a chorar?»
Vou chamar o meu marido,
Está na taberna a jogar.

Está na taberna a jogar
Com uma grande bebedeira:
Se eu casei para estar sozinha
Mais valia estar solteira.

Mais valia estar solteira,
Solteirinha estava bem:
Estava à sombra de meu pai,
Carinhos de minha mãe.

«Onde vais, Maria Alice?
Onde vais tu a chorar?»
Ai! ai! ai!
Ai! ai! ai!
Ai! ai! ai!

Letra e música: Tradicional (Beira Litoral)
Arranjo: Luís Fernandes
Intérprete: Toques do Caramulo
Primeira versão discográfica de Toques do Caramulo (in CD “Mexe!”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2016)

Pedrinhas da fonte

Pedrinhas da fonte cheiram a limão,
Eu tenho na sina de amar o João.

Sim, sim, Mariquinhas, sim!
Não, não, Mariquinhas, não!

Deixa amar quem ama,
Não tenhas paixão!

Pedrinhas da fonte cheiram a café,
Eu tenho na sina de amar o José.

Sim, sim, Mariquinhas, sim!
Não, não, Mariquinhas, não!
Deixa amar quem ama,
Não tenhas paixão!

Letra e música: Tradicional (Beira Litoral)
Intérprete: Toques do Caramulo com Sara Vidal (in CD “Retoques”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2011)

Padre-Nosso que organizais festas

[ Padre-Nosso dos Músicos ]

Padre-Nosso que organizais festas:
Santificado seja o vosso dinheiro;
Venha a nós o vosso arame;
Seja feita a nossa vontade tanto no salão como no coreto;

Perdoai-nos algum toque falso
Ou alguma nota desafinada,
Assim como nós vos perdoamos o pedido de abatimento no preço,
E livrai-nos de festas gratuitas e a seco.

Ámen.

Letra: Tradicional (Águeda, Beira Litoral)
Informante: David Fernandes
Música: Hermeto Pascoal
Intérpretes: David Fernandes / Hermeto Pascoal & Aline Morena (2009, in CD “Mexe!”, de Toques do Caramulo, faixa 6, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2016)

Senhora do Livramento

Senhora do Livramento,
Livrai o meu namorado
Que me vai deixar sozinha
Ai meu Jesus, ai meu Jesus!
Pela vida de soldado!

As vossas tranças, Senhora,
São loiras como as espigas;
Senhora do Livramento,
Ai meu Jesus, ai meu Jesus!
Protegei as raparigas!

Hei-de bordar a toalha,
Senhora, do vosso altar,
E a camisa do meu noivo
Ai meu Jesus, ai meu Jesus!
Quando me for a casar.

Senhora do Livramento…
Senhora do Livramento…

Letra e música: Tradicional (Beira Litoral)
Arranjo: Luís Fernandes e Manuel Maio
Intérprete: Toques do Caramulo
Primeira versão discográfica de Toques do Caramulo (in CD “Mexe!”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2016)

Toma lá esta Laranja!

[ Laranjinha ]

Toma lá esta Laranja!
Não digas que eu que ta dei!
Eu não tenho um laranjal,
Dizem que eu que a roubei.

Dizem que eu que a roubei
E acredita o povo todo;
A laranja foi criada
No laranjal do meu sogro.

No laranjal do meu sogro,
No quintal da minha avó:
O laranjal do meu sogro
Deu esta laranja só.

Letra e música: Tradicional (Beira Litoral)
Intérprete: Toques do Caramulo (in CD “Retoques”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2011)

Verde-Gaio, Pena Verde

[ Pena Verde ]

Verde-Gaio, Pena Verde,
Verde-Gaio, Pena Verde,
Pena, Verde-Gaio, Pena,
Gaio, Pena Verde, Gaio.

Verde-Gaio, Pena Verde,
(Ai!) Vem cantar ao meu jardim!
Põe o pé na manjerona,
(Ai!) O bico no alecrim!

Não há nada que mais cresça
(Ai!) Como o pé da melancia!
Quem tem o amor ausente
(Ai!) Chora de noite e de dia.

O Verde-Gaio é meu
(Ai!) Que me custou bom dinheiro:
Custou-me quatro vinténs
(Ai!) Lá no Rio de Janeiro.

Verde-Gaio, Pena Verde,
Verde-Gaio, Pena Verde,
Pena, Verde-Gaio, Pena,
Gaio, Pena Verde, Gaio.

Verde-Gaio, Pena Verde,
(Ai!) Empresta-me o teu vestido!
O meu vestido são penas,
(Ai!) Em penas ando vestido.

Ó terra da minha terra,
(Ai!) Sombra da minha ramada!
Eu hei-de voltar a ela
(Ai!) Ou solteira ou casada!

Verde-Gaio, Pena Verde,
Verde-Gaio, Pena Verde,
Pena, Verde-Gaio, Pena,
Gaio, Pena Verde, Gaio.

Letra e música: Tradicional (“Verde-Gaio” de Casal d’Álvaro, Espinhel, Águeda, Beira Litoral)
Arranjo: Luís Fernandes
Intérprete: Toques do Caramulo (in CD “Mexe!”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2016)

Gaio-verde
Gaio-verde
https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/09/aveiro.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-06 23:15:032024-11-02 06:46:59Canções da Beira Litoral
Rosa
Natureza

Canções de flores

Canções de flores

Letras

De fragâncias feiticeiras

[ Canção perfumada ]

[ Manjerico: ]

De fragrâncias feiticeiras,
este aroma que há em mim
é p’ra carícias ligeiras,
para dedos de cetim.

Manjerico – eu sou assim,
eu sou flor que se não cheira,
mas perfuma a noite inteira;
Sou mais doce que o jasmim.

Dá-me um afago de mão
e depois acaricia
quem mais queiras, e confia
que eu lhe aqueço o coração.

[ Jasmim: ]

Não sei se vivo se é sonho,
tem brilho doce de estrela,
tem luz e cor e eu componho
a minh’alma só por ela.

Algo entre brisa e perfume
passa tão perto de mim:
é coisa entre flor e lume,
um improvável jasmim.

Não sei se vivo se é sonho,
tem brilho doce de estrela,
tem luz e cor e eu componho
a minh’alma só por ela.

Algo entre brisa e perfume
passa tão perto de mim:
é coisa entre flor e lume,
um improvável jasmim.

Letra: Afonso Dias (“Manjerico”) e Maria da Conceição Silveira (“Jasmim”)
Música: Afonso Dias
Intérprete: Afonso Dias com Teresa Silva (in CD “Andanças & Cantorias”, Bons Ofícios – Associação Cultural, 2016)

De rosa branca ao peito

[ Rosa Branca ]

De Rosa ao peito na roda
Eu bailei com quem calhou
Tantas voltas dei bailando
Que a rosa se desfolhou

Quem tem, quem tem
Amor a seu jeito
Colha a rosa branca
Ponha a rosa ao peito

Ó roseira, roseirinha
Roseira do meu jardim
Se de rosas gostas tanto
Porque não gostas de mim?

Autores: José de Jesus Guimarães/Resende Dias
Intérprete: Mariza

Dizer-te namorada

[ Teu Nome Simplesmente ]

Dizer-te namorada será pouco,
Chamar-te companheira não me basta;
Quisera dar-te um nome bem mais louco
Porque a palavra amante já está gasta.

Teu nome é um sorriso na manhã,
Uma rima de sol na minha mão,
Que sabe a Primavera e a romã
Com travo de hortelã e de limão.

Quisera amor-perfeito, minha amiga,
Chamar-te verde nome: Alecrim!
Mas tu, além de flor, és a cantiga
No chão deste poema que há em mim.

Assim eu gasto os dias à procura
De um nome que não seja feito à toa,
E com palavras gastas de ternura
Chamo-te, simplesmente, só Lisboa!

Letra: Mário Rainho
Música: José Fontes Rocha
Intérprete: Joana Amendoeira (in CD “Amor Mais Perfeito: Tributo a José Fontes Rocha”, CNM, 2012)
Versão original: Maria Armanda (in LP/CD “Simplesmente”, Discossete, 1991)

Maria Armanda, Simplesmente
Maria Armanda, Simplesmente

Dó-me ser a flor do cardo

[ Flor do Cardo ]

Dói-me ser a flor do cardo,
Não ter a mão de ninguém;
Tenho a estranha natureza
De florir com a tristeza
E com ela me dar bem.

Dói-me o Tejo e dói-me a Lua,
Dói-me a luz dessa aguarela;
Tudo o que foi criação
Se transforma em solidão
Visto da minha janela.

O tempo não me diz nada,
Já nada em mim se consome;
Não sou princípio nem fim,
Já nada chama por mim,
Até me dói o meu nome.

Dói-me ser a flor do cardo,
Não ter a mão de ninguém;
Hei-de ser cravo encarnado
Que vive em pé separado
E acaba na mão de alguém.

Letra: João Monge
Música: Joaquim Campos (Fado Tango)
Intérprete: Aldina Duarte (in CD “Crua”, EMI Music Portugal, 2006)

Eu vi a buganvília

[ Buganvília ]

Eu vi a buganvília a dançar na ventania
a trepar numa janela
Eu vi a buganvília entre o acender da lua
e o encanto da manhã

Eu vi a buganvília de noite junto ao lago
a molhar o seu sorriso
Sonhara que morrera nos ramos da buganvília
nos tons do seu vestido

Eu vi a buganvília a fazer do teu vermelho
um bordado marinheiro
Quando encontras o sol no branco da cal
te pões de amarelo

Quando encontras o sol no branco da cal…

Eu vi a buganvília a dançar na ventania
a trepar numa janela
Eu vi a buganvília entre o acender da lua
e o encanto da manhã

Eu vi a buganvília de noite junto ao lago
a molhar o seu sorriso
Sonhara que morrera nos ramos da buganvília
nos tons do seu vestido

Eu vi a buganvília a fazer do teu vermelho
um bordado marinheiro
Quando encontras o sol no branco da cal
te pões de amarelo

Eu vi a buganvília a dançar na ventania
a trepar numa janela
Eu vi a buganvília entre o acender da lua
e o encanto da manhã

Letra e música: João Afonso Lima
Intérprete: João Afonso com Mafalda Serrano (in CD “Missangas”, Mercury/Polygram, 1997, reed. Universal Music, 2017)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e a qualidade de vida dos idosos.

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Muito bem parece

[Moda:]

Muito bem parece
Raminho de flores
Gravado no peito,
Gravado no peito
Dos trabalhadores.

Dos trabalhadores,
Dos oficiais…
No meu lindo amor,
No meu lindo amor
Inda brilha mais.

[Cantiga:]

Algum dia eu era,
Agora já não,
Da tua roseira,
Da tua roseira
O melhor botão.

[Moda:]

Muito bem parece
Raminho de flores
Gravado no peito,
Gravado no peito
Dos trabalhadores.

Dos trabalhadores,
Dos oficiais…
No meu lindo amor,
No meu lindo amor
Inda brilha mais.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde”* (in CD “Modas”, Robi Droli, 1994; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD 1, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)

Na mesma campa nasceram

[ Lenda das Rosas ]

Na mesma campa nasceram
Duas roseiras a par;
Conforme o vento as movia,
Iam-se as rosas beijar.

Deu uma rosas vermelhas,
Desse vermelho que os sábios
Dizem ser a cor dos lábios
Onde o amor põe centelhas;
Da outra, gentis parelhas
De rosas brancas vieram;
Só nisso diferentes eram,
Nada mais as diferençou:
A mesma seiva as criou,
Na mesma campa nasceram.

Dizem contos magoados
Que aquele triste coval
Fora leito nupcial
De dois jovens namorados,
Que no amor contrariados
Ali se foram finar,
E continuaram a amar
Lá no Além, todavia:
E por isso ali havia
Duas roseiras a par.

A lenda simples, singela,
Conta mais: que as rosas brancas
Eram as mãos puras, francas,
Da desditosa donzela;
E ao querer beijar as mãos dela,
Como na vida o fazia,
A boca dele se abria
Em rosas de rubra cor
E segredavam o amor,
Conforme o vento as movia.

Quando as crianças passavam
Junto à linda sepultura,
Toda a gente afirma e jura
Que as rosas brancas coravam
E as vermelhas se fechavam
Para ninguém lhes tocar;
Mas que, alta noite, ao luar,
Entre um séquito de goivos,
Tal qual os lábios dos noivos,
Iam-se as rosas beijar.

Letra: João Linhares Barbosa
Música: Popular e Maria Teresa de Noronha (Fado da Horas)
Arranjo: José Pracana
Intérprete: José Pracana (in EP “Lenda das Rosas”, Parlophone/VC, 1972; 2CD “Biografia do Fado”: CD 2, EMI-VC, 1994)

Sete dias da semana

Sete dias da semana
Vou mandá-los dividir
Com cantigas de amor,
Menina, se queres ouvir.

A segunda é pelo trevo
Que nasce pelo chão
Também o meu amor nasce
Da raiz do coração.

A terça-feira é pela rosa
Que nasce na Primavera
Desejava eu saber
A tua intenção qual era.

Quarta-feira é pela água
Que rega a bela verdura
Também rega esses teus olhos
Que têm tanta formosura.

Quinta-feira é pela perpétua
Que dá flor excelente
Falo bem ao meu amor
Às vezes também me mente.

Sexta é pelo alecrim
Carregadinho de flor
Dentro do meu coração
Não existe outro amor.

Sábado é pelo cravo
Que dá flor encarnada
Eu só queria um beijinho
E não queria mais nada.

Tradicional da Madeira, com adaptações

Rosa
Rosa
https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/05/rosa.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-01 11:40:352025-06-12 20:24:23Canções de flores
Searinhas da FestaNelson Veríssimo, 2019
Religião

Canções de Natal

Canções de Natal

Letras

Cebolas, semilhas

[ Romagem da Missa do Galo ]

Cebolas, semilhas,
Também batatinhas,
Pimentas e alhos,
Galinhas e galos,
Ovos e trigo,
Laranjas, cuscuz…
Tudo aqui trazemos.
Desculpa, Jesus!

Ó meu Menino Jesus,
Desculpa ser poucochinho:
O carro não leva mais,
O ‘chaufer’ é pequenino!

Quem nasceu na manjedoura
Foi o Menino Jesus!
Eu p’ra o ano, se for viva,
Trago um prato de cuscuz.

Cebolas, semilhas,
Também batatinhas,
Pimentas e alhos,
Galinhas e galos,
Ovos e trigo,
Laranjas, cuscuz…
Tudo aqui trazemos.
Desculpa, Jesus!

Cebolas, semilhas,
Também batatinhas,
Pimentas e alhos,
Galinhas e galos,
Ovos e trigo,
Laranjas, cuscuz…
Tudo aqui trazemos.
Desculpa, Jesus!

Ó meu Menino Jesus,
Que nasceu num curralinho,
Aqui trago esta lembrança
Que comprei ao meu vizinho.

Do bairrinho da Lombada
Só vem este comerzinho…
Mas é de boa vontade
Que ofer’cemos ao Menino.

Cebolas, semilhas,
Também batatinhas,
Pimentas e alhos,
Galinhas e galos,
Ovos e trigo,
Laranjas, cuscuz…
Tudo aqui trazemos.
Desculpa, Jesus!

Letra (quadras populares): Tradicional (Ponta Delgada, São Vicente, Madeira)
Recolha: Horácio Bento de Gouveia
Música: Tradicional (Calheta, Madeira)
Recolha: João Arnaldo Rufino da Silva
Adaptação: Xarabanda (2001)
Intérprete: Xarabanda (in CD “Cantigas ao Menino Jesus: Natal Tradicional Madeirense”, Associação Musical e Cultural Xarabanda, 2002)

Da Serra Veio um Pastor

Da serra veio um pastor,
À minha porta bateu;
Trouxe uma carta que diz
Que o Deus-Menino nasceu.

Essa notícia tivemos
À meia-noite seria;
Por isso, nós vamos dar
Os parabéns a Maria.

Também diz a tal cartinha
Que a Virgem estava a chorar,
Por não ter uma roupinha
Com que o pudesse abafar.

A carta diz que Ele está
Nas campinas de Belém,
Numa caminha de palhas,
Sozinho sem mais ninguém.

Essa notícia tivemos
Logo que cantou o galo,
E deixámos nossos campos
Para virmos adorá-Lo.

Ó meu Menino Jesus,
Meu lindo amor-perfeito,
Se Vós tendes frio, vinde,
Vinde parar ao meu peito!

Nos braços da Bela Aurora
Vejo o Menino brincando,
Com a mãozinha de fora
Todo o mundo abençoando.

Letra e música: Tradicional (Boaventura, São Vicente, Madeira)
Recolha: Xarabanda (1988)
Intérprete: Xarabanda (in CD “Cantigas ao Menino Jesus: Natal Tradicional Madeirense”, Associação Musical e Cultural Xarabanda, 2002)

Deus do Céu mandou-me aqui

[ Anunciação do Anjo (aos Pastores) ]

Deus do Céu mandou-me aqui
Anunciar aos pastores
Que em Belém nasceu Jesus:
Vinde cantar seus louvores!

Participo a vós, pastores,
A maior das alegrias:
Que ali mesmo, em Belém,
Já é nascido o Messias!

Que será, o que será?
Ora pois, que há-de ser?
É por certo o Deus-Menino
Que acaba de nascer.

Despontou a vossa esperança,
Despontou a vossa luz,
Acabaram vossas queixas:
Entre nós está Jesus!

P’ra conhecer o Menino
Eu vou dar-vos uns sinais:
Está deitado num presépio
Encostado aos animais.

Que será, o que será?
Ora pois, que há-de ser?
É, por certo, o Deus-Menino
Que acaba de nascer.

Ele estará deitadinho
Nas palhinhas de um curral,
Embrulhado em paninhos:
Tudo isto é o sinal.

Agora vou p’ra Belém
Adorar o nosso Deus…
Correi todos, ide vê-lo!
Até logo, adeus, adeus!

Que será, o que será?
Ora pois, que há-de ser?
É, por certo, o Deus-Menino
Que acaba de nascer.

Letra e música: Tradicional (Cabeço da Oliveira, Ponta Delgada, São Vicente, Madeira)
Informante: Eulália de Freitas
Recolha: Xarabanda (1996)
Intérprete: Xarabanda (in CD “Cantigas ao Menino Jesus: Natal Tradicional Madeirense”, Associação Musical e Cultural Xarabanda, 2002)

Entre as portas de Belém

[ Cante ao Menino ]

Entre as portas da Belém
Está uma mulher cosendo;
Está fazendo as camisinhas
P’ró Deus-Menino em nascendo.

O Deus-Menino nasceu
Numa noite de Natal,
Ali junto à meia-noite
Antes do galo cantar.

Letra e música: Popular (Baixo Alentejo)
Intérprete: Rancho Coral e Etnográfico de Vila Nova de São Bento (in livro/CD “Cante ao Menino, janeiras, Reis do Concelho de Serpa”, Confraria do Cante Alentejano, 2019)

Meia-Noite Dada

Meia-noite dada,
Meia-noite em pino,
Cantavam os galos,
Nascia o Menino.

Meia-noite dada,
Meia-noite em pino,
Cantavam os galos,
Chorava o Menino.

Chorava o Menino,
Como um enjeitado
Em lapa da serra,
Não num povoado.

A Virgem Lhe disse
Com mui grande dor:
«Calai-vos, meu Filho
Jesus, meu Amor…

Que não tenho berço!
E quem T’o faria?
Dormi Vós no feno
Desta estrebaria!»

Menino tão rico,
Que tão pobre estais
Deitado no feno
Entre os animais!

Os filhos dos homens,
Em berço doirado…
E Vós, meu Menino,
Em palhas deitado!

Em palhas deitado,
Tão pobre, esquecido…
Filho de uma rosa,
De um cravo nascido.

Letra e música: Tradicional (Câmara de Lobos, Madeira) (in livro “cânticos Religiosos do Natal Madeirense”, de João Arnaldo Rufino da Silva, Direcção-Regional dos Assuntos Culturais, 1998)
Intérprete: Xarabanda (in CD “Cantigas ao Menino Jesus: Natal Tradicional Madeirense”, Associação Musical e Cultural Xarabanda, 2002)

Menino Jesus

[ Ó Viva Jesus! ]

Menino Jesus,
Dizei à mamã
Que mate o porquinho,
Que a Festa já vem!

E o que levaremos 
Para Lhe of’recer?
Bolinhos do caco
E mel para comer.

Ó viva Jesus,
José e Maria!
Ora viva, viva
A nossa romaria!

Menino tão rico,
Tão pobre que estás
Deitado nas palhas
Entre os animais!

E olhai para Ele:
A graça que tem!
Tanto se parece
Com a sua Mãe!

Ó viva Jesus,
José e Maria!
Ora viva, viva
A nossa romaria!

Maria e José
Com Ele lá estão:
Aquilo é que é
Uma satisfação!

Meu rico Menino,
Meu amor profundo,
Dê-nos bom Natal
E a paz no mundo!

Ó viva Jesus,
José e Maria!
Ora viva, viva
A nossa romaria!

Letra e música: Tradicional (Paul do Mar, Calheta, Madeira)
Informante: Maria Lucília Abreu Gouveia
Recolha: Xarabanda (1982)
Intérprete: Xarabanda (in CD “Cantigas ao Menino Jesus: Natal Tradicional Madeirense”, Associação Musical e Cultural Xarabanda, 2002)

Ó meu Menino Jesus

Ó meu Menino Jesus
Dizei-me que Noite é esta.
Hoje é Noite de Natal
E amanhã Dia de Festa.
I
Tocam os sinos em Belém
Vamos todos a correr
Vamos ver o Deus Menino
Que acabou de nascer.
II
Entrai pastorinhos,
Por este portão sagrado,
Vamos ver o Deus Menino
Que está numas palhinhas deitado.
III
Menino Jesus
Ditoso é quem vos ama.
Quem toma amor com Jesus
Não dorme amanhã na cama.

I
Nossa Senhora faz meias,
Com linha feita de luz,
O novelo é lua cheia,
As meias são para Jesus.
II
As meias são para Jesus,
A linha é feita do alto.
Para quem fazia ela as meias
Se Cristo anda descalço?
III
Não chores mais Meu Menino
Que a mãezinha logo vem
Foi lavar os cueirinhos
À fontinha de Belém.114

I
Ó Meu Menino Jesus
Que é dos vossos sapatinhos?
Esqueci-me na ribeira
Onde lavei os pezinhos.
II
Correi pastorinhos
Vamos a Belém
Beijar o Menino
Que a Virgem tem.

Oh! Duas falas deu Maria

[ Oração ao Menino Jesus ]

Oh! Duas falas deu Maria,
Meu Menino Jesus,
Quando nasceu Menino:
«Oh! Vem-te cá, meu bago d’oiro,
Meu Menino Jesus,
Meu sacramento divino!»

Oh! Cantigas cantavam-me já,
Meu Menino Jesus,
Quando embalava Jesus:
«Calai-Vos, meu filho, não chores,
Meu Menino Jesus,
Que haverás de morrer na cruz!»

Oh! Menino, vamos ao Céu,
Meu Menino Jesus,
Numa escadinha de prata!
Oh! Visitai Jesus Menino,
Meu Menino Jesus,
Menino Jesus da lapa!

Oh! Menino, vamos ao Céu,
Meu Menino Jesus,
Numa escadinha de oiro!
O Vosso poder é tão grande,
Meu Menino Jesus,
Governai o mundo todo!

Oh! Ai ó lari la lai la!
Oh! Ai ó lari ló ló!
Oh! Ai ó lari la lai la!
Oh! Ai ó lari ló ló!
Oh! Ai ó lari la lai la!
Oh! Ai ó lari ló ló!
Oh! Ai ó lari la lai la!
Oh! Ai ó lari ló ló!
Oh! Ai ó lari la lai la!
Oh! Ai ó lari ló ló!

Letra e música: Tradicional (Ribeira Seca, Machico, Madeira)
Informantes: Maria José Ferreira Clemente, Cristina Ferreira Clemente, Serafina Ferreira Clemente, Rosa Marques
Recolha: António Aragão e Artur Andrade (1970)
Arquivo: DRAC (Direcção-Regional dos Assuntos Culturais)
Intérprete: Xarabanda (in CD “Cantigas ao Menino Jesus: Natal Tradicional Madeirense”, Associação Musical e Cultural Xarabanda, 2002)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

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Pastorinhos do Deserto

Pastorinhos do deserto,
Correi todos a Belém
Adorar o Deus-Menino
Nos braços da Virgem mãe!

Os anjos primeiro pegam
No Menino Deus nascido:
Não deixais cair no chão
Em seus braços entretido!

Depois a Virgem Maria
Nos seus braços o recebe;
Como mãe, lhe beija a face
Mais alva que a pura neve!

Foste nascer numa gruta,
Ó grande Rei das nações!…
Vinde derreter a frieza
Dos nossos duros corações!

Estas águas cristalinas
Vão direitas parar ao mar…
Vou lavar as minhas mãos
Para no Menino pegar.

Letra e música: Tradicional (Ribeira Seca, Machico, Madeira)
Informantes: Maria José Ferreira Clemente, Cristina Ferreira Clemente, Serafina Ferreira Clemente e Rosa Marques
Recolha: António Aragão e Artur Andrade (1970)
Arquivo: DRAC (Direcção-Regional dos Assuntos Culturais)
Intérprete: Xarabanda (in CD “Cantigas ao Menino Jesus: Natal Tradicional Madeirense”, Associação Musical e Cultural Xarabanda, 2002)

Vinde já

I
Vinde já, meu Deus Menino,
Nascer no meu coração,
Tomai dele inteira posse,
Tomai-o na vossa mão.
II
Meia noite já é dada
Prazer santo respiremos
Em honra ao Filho da Virgem
Alegres hinos cantemos.
III
Do varão nasceu a vara
Da vara nasceu a flor,
Da flor nasceu Maria,
De Maria o Redentor.
IV
Pastorinhos do deserto
Correi todos, ide ver
A pobreza da lapinha
Onde Cristo quis nascer.

Tradicional da Madeira

Searinhas da Festa
Searinhas da Festa, Natal na Madeira
https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/05/searinhas-da-festa-nelson-verissimo-funchal-noticias.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-01 11:06:542025-06-15 18:43:42Canções de Natal
São Martinho de Tours
Festas

Canções de São Martinho

Canções a São Martinho

Letras de canções sobre a festa, sobre o magustos e as castanhas

Asso a castanha

Asso a castanha
no meu fogareiro.
E quem é que a ganha?
É quem tiver dinheiro.

Tiro a castanha
do meu fogareiro.
E quem é que a ganha?
Quem for um bom parceiro.

(António José Ferreira, Outono Encantado)

Caem castanhas

Caem castanhas
do castanheiro antigo.
Quero partilhá-las
com o melhor amigo.

Caem castanhas,
dezenas e centenas.
Há castanhas grandes,
há médias, há pequenas.

(António José Ferreira, Musatividades)

Cai a castanha

Cai a castanha
do velho castanheiro.
E quem é que a ganha?
É quem chegar primeiro!

Cai a castanha
No campo de erva verde.
Castanha escondida,
Castanha que se perde.

(António José Ferreira, Musatividades 3)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

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Cai a castanha,
é de quem a apanha;
cai a castanhinha,
talvez seja minha.

É castanha crua,
deve ser a tua;
esta é bem assada,
para a minha amada.

Esta é cozida,
é boa comida;
se é bem descascada,
não restará nada.

(António José Ferreira, O Ritmo e a Rima)

Castanhas, castanhas

Castanhas, castanhas,
Assadinhas com sal,
Quentinhas, quentinhas,
Que não te façam mal!

Saltitam, crepitam,
Toma lá e dá cá.
S. Martinho sem vinho,
Castanhas não há.

Chega o outono

Chega o outono,
a castanha é rainha.
Uma será tua,
a outra será minha.

Caem castanhas
do castanheiro antigo.
Quero partilhá-las
com o melhor amigo.

(António José Ferreira, Musatividades 1)

Descasca a castanha

Descasca a castanha
muito bem descascadinha.
Verás que, dentro da casca,
há outra casca castanha clarinha.

(Destrava a Língua)

No Verão de São Martinho

No Verão de São Martinho
todos gostam de saltar
e as castanhas, na fogueira,
também ficam a pular.

Uma vez, o São Martinho,
viajava a cavalo.
Encontrou um sem abrigo
e quis logo ajudá-lo.

São Martinho deu a capa
àquele pobre mendigo
e o sol fez um milagre
porque também é amigo.

(António José Ferreira, Música e Cidadania)

Pelo S. Martinho

Pelo S. Martinho
Eu faço um magusto.
Estalam castanhas
Mas eu não me assusto.

Ai vamos assar castanhas
Que é dia de S. Martinho;
Castanhas quentes e boas
Ai, eu te dou com carinho!

Pelo S. Martinho
Que ando a fazer?
Assando o bacalhau
Para se comer!

São Martinho de Tours

São Martinho de Tours

S. Martinho indo nos montes

S. Martinho indo nos montes…
A cavalgar encontrou um pobre
Que lhe pediu uma esmola.
Como ele não tinha nada para lhe dar
Cortou a capa para o abafar.

Que dia de Outono tão belo!
É dia de S. Martinho.
Comemos bacalhau e castanhas
E tomamos uns copinhos de vinho.

Castanheiro dá castanhas
Menina, parta os ouriços!
Se adoecer
Não diga que são feitiços.

Ó meu rico São Martinho

Ó meu rico São Martinho
Ó meu adorado santo
Dá-me castanhas e vinho
É coisa que eu gosto tanto.

És padroeiro do meu pai
Serás sempre também meu
Quando a pipa a meio vai
Eu já espero um milagre teu.

São Martinho milagroso
São Martinho da alegria
Todos vivem ansiosos
Esperam pelo seu dia.

Foi São Martinho
Que trinta pipas encheu
Com um só cacho
E ainda bagos cresceu.

[ Tradicional da Madeira ]

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/05/sao-martinho-de-tours.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-01 09:04:332024-11-13 11:19:34Canções de São Martinho
Pastor alentejanoPostal antigo, pormenor
Trabalho

Canções de trabalho

Canções de trabalho

Letras

A azeitona por ser preta

A azeitona por ser preta
Ai, vai-se a moer ao lagar;
Também eu por ser trigueira
Ai, na terra me hei-de eu casar.

A oliveira pequenina
Ai, que azeitona pode dar?
Um baguinho, até dois
Ai, até muito carregar.

Nós andamos na vindima,
Ai, que lindos cachos que saem!
Havemos de pendurá-los,
Ai, todo o tempo sabem bem.

A azeitona por ser preta
Ai, vai-se a moer ao lagar;
Também eu por ser trigueira
Ai, na terra me hei-de eu casar.

A oliveira pequenina
Ai, que azeitona pode dar?
Um baguinho, até dois
Ai, até muito carregar.

Nós andamos na vindima,
Ai, que lindos cachos que saem!
Havemos de pendurá-los,
Ai, todo o tempo sabem bem.

Letra e música: Tradicional (Outeiro, Sertã, Beira Baixa)
Recolha: Armando Leça (1939-40)
Intérprete: Ai! (in CD “Lavra, Boi, Lavra: Canções de Trabalho”, Ai!/Coruja do Mato, 2015)

Ramo de oliveira
Ramo de oliveira

De mão na anca

[ Fado Varina ]

De mão na anca,
descompõem a freguesa:
atrás da banca,
chamam-lhe gosma e burguesa.
Mas nessa voz,
como insulto à portuguesa,
há o sal de todos nós,
há ternura e há beleza.
Do alto mar
chega o pregão que se alastra:
têm ondas no andar
quando embalam a canastra.

Minha varina,
que chinelas por Lisboa!
Em cada esquina
é o mar que se apregoa.
Nas escadinhas
dás mais cor aos azulejos,
quando apregoas sardinhas
que me sabem como beijos.
Os teus pregões
são iguais à claridade:
caldeirada de canções
que se entorna na cidade.

Os teus pregões
são iguais à claridade:
caldeirada de canções
que se entorna na cidade.

Cordões ao peito,
numa luta que é honrada;
a sogra a jeito
na cabeça levantada.
De perna nua,
com provocante altivez,
descobrindo o mar da rua
que esse, sim, é português.
São as varinas
dos poemas do Cesário
a vender a ferramenta
de que o mar é o operário.

Minha varina,
que chinelas por Lisboa!
Em cada esquina
é o mar que se apregoa.
Nas escadinhas
dás mais cor aos azulejos,
quando apregoas sardinhas
que me sabem como beijos.
Os teus pregões
nunca mais ganham idade:
versos frescos de Camões
com salada de saudade.

Os teus pregões
nunca mais ganham idade:
versos frescos de Camões
com salada de saudade.

Letra: José Carlos Ary dos Santos
Música: Mário Moniz Pereira
Intérprete: Carlos do Carmo* (in LP “Um Homem na Cidade”, Trova/Movieplay Portuguesa, 1977, reed. Fatum/UPAV, 1991, Philips/Polygram, 1995, Série “Carlos do Carmo 50 Anos”, Vol. 06, Universal Music Portugal, 2013; 2CD/DVD “Fado Maestro”: CD 2, Universal Music Portugal, 2008; 10 livro/CD “100 Canções, Uma Vida”: CD 2 – “Lisboa”, Universal Music Portugal/Público, 2010)

Dezembro

[ O Cavador ]

Dezembro, noite, canta o galo…
Rouco na treva canta o galo…
Aldeão não durmas!… Vai chamá-lo,
Miséria negra, vai chamá-lo!…
— Oh, dor! oh, dor! oh, dor! —
Bate-lhe à porta, é teu vassalo,
Que traga a enxada, é teu vassalo,
Fantasma negro, o cavador!

Vem roxa a estrela d’alvorada…
Vem morta a estrela d’alvorada —
Montanhas nuas sob a geada!…
Hirtas, de bronze, sob a geada!…
— Oh, dor! oh, dor! oh, dor! —
Torvo, inclinado sobre a enxada,
Rasga as montanhas com a enxada,
Fantasma negro, o cavador!

Cavou, cavou desde que é dia…
Cavou, cavou… Bateu meio-dia…
De pé na encosta erma e bravia,
Triste na encosta erma e bravia,
— Oh, dor! oh, dor! oh, dor! —
Largando a enxada, «Ave-Maria!…»
Reza em silêncio… «Ave-Maria!…»
Fantasma negro, o cavador!

Cavou cem montes… que é do trigo?
Gerou seis bocas… que é do trigo?
Bateu a Fome ao seu postigo…
Bateu a Morte ao seu postigo…
— Oh, dor! oh, dor! oh, dor! —
«Que a paz de Deus seja comigo!…
Que a paz de Deus seja comigo!…»
Disse, expirando, o cavador!

Poema: Guerra Junqueiro (excerto adaptado)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília (in LP “La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 2”, Moshé-Naïm, 1969; CD “La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours”, EMEN, 1996)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Ai, ó gentinha desta terra

[ Moda de Malhar ]

Ai, ó gentinha desta terra,
Ai, venham ver a grande malha!

Umas ceifam, outras erguem
E outras seguram…
E outras seguram…
E outras seguram a palha.

Ai, nosso amo anda agastado,
Ai, é por ver o sol baixinho.

Estamos ao cimo da eira,
Ai, venha a botelha…
Ai, venha a botelha…
Ai, venha a botelha do vinho!

Ai, lá baixo vem a raposa
Ai, com seu rabo pelo chão,

Procurar aos lenhadores
Se têm um carneiro…
Se têm um carneiro…
Se tem um carneiro ou não.

Nosso amo tem uma vaca,
Ai, também tem um bezerrinho:

A vaca chama-se Andurra
E o bezerro vem…
E o bezerro vem…
E o bezerro vem ao vinho.

Ai, já roubaram ao moleiro
Ai, a filha pelo telhado:

Julgavam que era presunto
Que estava depen…
Que estava depen…
Que estava dependurado.

Moda de Malhar
Letra e música: Tradicional (Cedovim, Vila Nova de Foz Côa, Beira Alta)
Intérprete: Ai!* (in CD “Lavra, Boi, Lavra: Canções de Trabalho”, Ai!/Coruja do Mato, 2015)

César Prata
César Prata

Amaduraram-se os cachos

[ Vindimeiro ]

Amaduraram-se os cachos
torna o tempo da vindima
bagos novos
bagos novos
arde-lhes o oiro em cima

vergam-se as vides pesadas
bagos ciosos se animam
vindimeiro
vindimando
vinho moço em velha vinha

Vindimeiro vindimado
quem te vindima a ansiedade?
cachos verdes quem tos dera
para vindimares a saudade

tens mais sede de vindima
do que tem a farta uva
a sede de ser colhida
se cai a primeira chuva

Como cachos para o lagar
saltam os seios às vindimeiras
bagos cheios
bagos cheios
de desejo e bebedeiras

anda a serpente da terra
na dança das parras soltas
vindimeiras
vindimadas
rebentam bagos na boca

Vindimeiro vindimado
quem te vindima a ansiedade?
cachos verdes quem tos dera
para vindimares a saudade

tens mais sede de vindima
do que tem a farta uva
a sede de ser colhida
se cai a primeira chuva

tens mais sede de vindima
do que tem a farta uva
a sede de ser colhida
se cai a primeira chuva

Letra: Manuel Lima Brummon
Música: Vítor Manuel Rodrigues
Intérprete: Tereza Tarouca (in LP “Portugal Triste”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD “Teresa Tarouca”, col. Clássicos da Renascença, vol. 15, Movieplay, 2000)

Ao meu ceifãozinho novo

Ao meu ceifãozinho novo
Olha lá como ceifas
Não cortes os meus dedos
São penas que tu me dás.

Fui à ceifa do Porto Santo
Fui à igrejinha dos profetas
Olhei para o altar e vi
O padre em cuecas.

Fui à ceifa ao Porto Santo
À fama do bom ceifar
Fui para amarrar as gavelas
Puseram-me a respigar.

Fui à ceifa ao Porto Santo
Com as cearas amarelas
As moças me deram fitas
Para amarrar as gavelas.

Fiz a cama na feiteira
Travesseiro na giesta
De que serve a cama boa
Se o travesseiro não presta.

Tradicional da Madeira

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Apanhámos este trigo

Apanhámos este trigo
e colhemos a nossa aveia,
falámos da nossa vida,
deixámos a vida alheia.

Eu subi à ladeira,
ó João canta comigo:
És um botão de rosa,
botão de cravo sou eu,

assobia cana verde,
assobia de nó em nó,
a falar com o meu amor,
julgava que estava só.

Quando eu comecei a amar,
foi numa segunda-feira,
fui amando e fui gostando,
amei a semana inteira!

Ó que lindo chapéu preto
naquela cabeça vai,
ó que lindo rapazinho
era genro para ser de meu pai!

Passei à tua porta,
pus a mão na fechadura,
estavas dentro, não falaste,
coração de pedra dura.

(Tradicional da Madeira, cantigas que se cantavam quando se apanhava o trigo.)

As lavadeiras

As lavadeiras sempre a lavar
Muito ligeiras roupas a corar
Ligeiras são com alegria,
O ganha-pão de cada dia.

Sou vaidosa não me chames
Faz favor de se calar
Na ribeira de João Gomes,
Minha roupa vou lavar.

Minha roupa estou lavando
Com isso eu tenho alegria,
Eu sou sempre lavadeira
Ganho o pão de cada dia.

Tradicional da Madeira

Bela ceifeira

Bela ceifeira d’outrora
Elas linda mesmo trigueira
E quando eu te olho agora
Nem pareces tu ceifeira

Nos teus tempos de moçoila
Eras tu, ó linda cara
A mais bonita papoila
Que se via pela seara

Tinhas cabelos loirinhos
Como espigas nos trigais
Mas hoje são tão branquinhos
Como linho ou talvez mais

Numa tarde de sol quente
Em ceifa do Zé das Navas
Eu atava alegremente
O trigo que tu ceifavas

Eu já no fim de Junho
Tu não te lembras, amiga
Em que tu de foice em punho
Me cantaste esta cantiga

Ao atares estas gavelas
Agora as que ceifo aqui
Repara que dentro delas
Vão beijinhos para ti

Minha resposta, afinal
Já não me recorda toda
Sei que dia do Natal
Foi a nossa bela boda

Passou o tempo, discordámos
Era dia de Santo André
À lareira conversávamos
Sobre a vinda de um bebé

Eu desejava um menino
Tu uma menina, e depois
Por milagre divino
Fomos brindados os dois

Essa menina, porém
És mesmo o retrato teu
O menino, sabe-lo bem,
Esse não, esse é o meu

Nossa casa tão modesta
Pequenina mas tão bela
Tem sempre um ar de festa
Paz e amor dentro dela

Anos, já lá vão setenta
Sempre pobre, mas enfim
Qualquer coisa me contenta
Até quem me fala assim:

“Onde vai, de braço dado,
Senhor Nuno com Ti Arriça?”
Respondo, muito animando:
“É domingo, vou à missa.”

Constantino José Abreu, “o Caipira”

Bóia, bóia, binha

Bóia, bóia, binha,
que faz assim, assim.
1. Ora agora a costureira
faz assim, assim, assim.

2. o alfaiate

3. o sapateiro

4. a brunideira

Santo Tirso, Douro Litoral

Corta, minha foice

[ Cantiga da Ceifa ]

Corta, minha foice, corta
Ai, neste pão tão miudinho!
Ai, quem houver de andar p’ra outrem
Ai, há-de andar com cuidadinho!

Por cima se ceifa o pão,
Ai, por baixo fica o restolho.
Ai, menina não se ‘namore
Ai, do rapaz que empisca o olho!

O rapaz do chapéu preto
Ai, precisa a cara partida:
Ai, por baixo do chapéu preto
Ai, pisca o olho à rapariga.

Quem me dera já cá noite:
Ai, o pão da ceia na mão,
Ai, o dinheiro na algibeira,
Ai, o amor no coração.

Corta, minha foice, corta
Ai, neste pão tão miudinho!
Ai, quem houver de andar p’ra outrem
Ai, há-de andar com cuidadinho!

Letra e música: Tradicional (Fernão Joanes, Guarda, Beira Alta)
Intérprete: Ai!* (in CD “Lavra, Boi, Lavra: Canções de Trabalho”, Ai!/Coruja do Mato, 2015)
Outra versão com César Prata: César Prata – “Cantiga da Ceifa e Nome de Maria” (in CD “Futuras Instalações”, César Prata/RequeRec, 2014)

César Prata
César Prata

De onde vieste agora

[ Cantiga de apanhar o trigo ]

De onde vieste agora
Boca cheia de alegria
A tua cara merece
Trinta beijos cada dia.

Da minha janela à tua
Um saltinho de uma cobra
Eu gostava de chamar
Tua mãe por minha sogra.

Eu mandei buscar lá fora
O que não há na Madeira,
Uma cangalha de cornos
Para te fincar na caveira.

Minha mãe para me casar
Prometeu-me quanto tinha,
Depois de me ver casada
Deu-me uma agulha sem linha.

Trigo louro, trigo louro
Trigo de palha amarela,
De baixo do trigo loiro
Namorei uma donzela.

Trigo loiro trigo loiro
Trigo de palha dourada,
Debaixo do trigo loiro
Namorei uma casada.

Trigo loiro, trigo loiro
Quem me dera a tua cor,
Para andar nos calos santos
Servir a Deus Nosso Senhor.

Deitei um limão correndo
À tua porta parou,
Quando o limão te quer bem
Que fará quem o deitou.

Semeei no meu quintal
O brio das raparigas,
Nasceu-me uma rosa branca
Cercada de margaridas.

Cantiguinhas que eu sabia
Todas me têm esquecido,
Agora me têm esquecido
Na apanhadinha do trigo.

Minha mãe mandou-me à lenha
Trouxe lenha de giesta,
Minha mãe ficou contente
Para cozer o pão da festa.

Tradicional da Madeira

E oh lera

[ Lerar o Gado ]

E oh lera, oh!
Inda Lucinda, oh andas oh?!
Diz-me onde andas com as ovelhas,
Lá vou ter!
E oh lera!

E oh lera, oh!
Inda Zulmira, oh andas oh?!
Ando noutra rua ali oer,
Vem cá ter!
E oh lera!

E oh lera, oh!
Inda Lucinda, pois sim oer!
Então vou lá ter,
Guarda-me da tua merenda!
E oh lera!

E oh lera, oh!
Inda Zulmira, ohi, pois sim!
E oh lera!

E oh lera, oh!
Inda Lucinda, oheu, adeus!
E oh lera!

Letra e música: Tradicional (Vouzela, Beira Alta)
Intérprete: Ai! (in CD “Lavra, Boi, Lavra: Canções de Trabalho”, Ai!/Coruja do Mato, 2015)

Lavra, boi, lavra
Lavra, boi, lavra

Elas lavam

[ As lavadeiras ]

Elas lavam, elas lavam,
Elas lavam sem parar.

Põe aqui o teu pezinho,
põe aqui na brincadeira.
Vamos ver as lavadeiras
a lavarem na Ribeira.

Elas esfregam, elas esfregam,
Elas esfregam sem parar.
Elas torcem, elas torcem,
Elas torcem sem parar.

Elas dobram, elas dobram,
Elas dobram sem parar.
Elas falam, elas falam,
Elas falam sem parar.

Tradicional da Madeira

Ele não é empregado da aplicação

[ Escravo do Patrão ]

Autor: Luís Varatojo
Intérprete: Luta Livre

Eu sou o Xico pastor

Eu sou o Xico pastor
Minha vida é guardar gado
Eu juro que tenho amor
Às ovelhinhas que guardo

São todas de bom tamanho
Lindas e bem arraçadas
E das trezentas do rebanho
Tenho oito baptizadas

É a Má e a Princesa
A Churra e a Vaidosa
A Manca, a Baronesa
A Bonita e a Gulosa

A Cabresto, a mais gorducha
Que traz o maior chocalho
É vendida baratucha
É machorra, vai para o talho

Um borrego temporão
Que lá tenho com a lã vasta
Eu direi ao meu patrão
Para o deixar para casta

Meu ajuda vai à fonte
Traz notícias da aldeia
À noitinha vai ao monte
Com o tarro buscar a ceia

Durmo no alto da serra
Do São Miguel até Março
São vistas da minha terra
As fogueiras que ali faço

Deitado na minha choça
Vejo em noites luarentas
Lá no pino duma rocha
As corujas agoirentas

E a raposa esperta
Quer-me um borrego roubar
Meu canito está alerta
Não a deixa aproximar

Ao chegar o santo dia
Eu fico cheio de alegria
Olho o prado, é um jardim
A minha flauta a tocar
Passarinhos a cantar
É tão bom viver assim

Constantino José Abreu, “o Caipira”

Eu sou o Zé da enxada

Eu sou o Zé da enxada
Caminhando de madrugada
Oiço a linda cotovia
Voando alto sem a ver
O seu canto quer dizer:
“Vem aí um novo dia”

Ao passar junto ao silvado
Abala o melro assustado
Lá foge o espertalhão
O rouxinol não se espanta
Em vez de fugir canta
A sua linda canção

Chego ao lugar destinado
De pão como um bocado
Sentado a descansar
Nasce o sol e de repente
Diz o manajeiro: “Ó gente,
Nós temos de ir a trabalhar!”

Vou-me à enxada agarrar
E então começo a cavar
Com vontade e valentia
Assim que chega o sol-posto
Eu volto a casa com gosto
Para junto da Maria

Chego, as boas-noites dou
A seguir, lavar-me vou
Já está na mesa a ceia
Enquanto eu estou ceando
A Maria está contando
Novidades da aldeia

Esta vida para mim
Espinhosa, mas enfim
Mas vivo com alegria
Tem sido e continua
A enxada e a charrua
Darem-me o pão de cada dia

Constantino José Abreu, “o Caipira”

Foge a minha mocidade

[ Lamento do Camponês ]

Foge a minha mocidade
E a tua foge também;
E ninguém tem caridade
Da vida que a gente tem.

Cavo em terra não minha
As ânsias de oiro do meu senhor,
Que desabrocham e crescem
Regadas com o meu suor.

As rugas da minha face
São fundos golpes que eu senti,
Todas as vezes que à vida
Esperançado sorri.

Haja paz e alegria,
Pois que a tristeza
Nunca aos homens deu o pão!

Vê que na maior pobreza
Nunca pode um bom cristão
Esquecer-se que é mais santo
Viver com resignação.

Haja paz e alegria,
Pois que a tristeza
Nunca aos homens deu o pão!

Ouço conselhos que apagam
Todo o sentido do meu viver,
E aos poucos sinto o meu corpo
Sobre a terra pender.

E assim eu vou uma à uma
Nesse chão frio aprofundar
A cova grande que um dia
Há-de então ser o meu lar.

Haja paz e alegria,
Pois que a tristeza
Nunca aos homens deu o pão!

Vê que na maior pobreza
Nunca pode um bom cristão
Esquecer-se que é mais santo
Viver com resignação.

Haja paz e alegria,
Pois que a tristeza
Nunca aos homens deu o pão!

Haja paz e alegria,
Pois que a tristeza
Nunca aos homens deu o pão!

Letra: Popular (1.ª quadra) e Onésimo Teotónio Almeida
Música: Popular
Arranjo: Carlos Sousa
Intérprete: Belaurora / introdução por Folia do Maranhão (in CD “Achados do Tempo”, Açor/Emiliano Toste, 2003)

Fui ao Douro à vindimas

Fui ao douro às vindimas,
não achei que vindimar.
Vindimaram-me as costelas.
Olha o que lá fui ganhar!

Retira-te das janelas.
Retira-te do balcão.
Vem comigo p’ràs vindimas,
amor do meu coração.

Fui ao douro às vindimas,
pagaram-me a trinta réis.
Vim pela feira do Pêso;
empreguei-os em anéis.

Não se me dá que vindimem
videirinha que eu podei.
Não se me dá que outros logrem
o que eu por gosto deixei.

Não se me dá que vindimem,
nem também de vindimar.
Só me dá das tristes noites
que se passam no lagar.

Vindimas no Douro

Vindimas no Douro

Tradicional do Minho

Lavra, boi, lavra

Lavra, boi, lavra
No chão da Portela!
Repica, repica
Na vaca amarela!
Ei, boi a lavrar!
Ei, boi!

Lavra, boi, lavra
No chão do Vilar!
Comer e beber
E toca a virar!
Ei, boi a lavrar!
Ei, boi!

Lavra, boi, lavra!
Não digas que não!
Repica, repica,
Rodinha no chão!
Ei, boi a lavrar!
Ei, boi!

Lavra, boi, lavra
No chão da Portela!
Repica, repica
Na vaca amarela!
Ei, boi a lavrar!
Ei, boi!

Letra e música: Tradicional (São Martinho de Crasto, Ponte da Barca, Minho)
Recolha: Gonçalo Sampaio (1890-1925, in “cancioneiro Popular Português”, de Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça, Lisboa: Círculo de Leitores, 1981 – p. 103)
Intérprete: Ai!* (in CD “Lavra, Boi, Lavra: Canções de Trabalho”, Ai!/Coruja do Mato, 2015)
Outra versão com César Prata: César Prata (in CD “Futuras Instalações”, César Prata/RequeRec, 2014)

Igreja Matriz de São Martinho de Crasto

Igreja Matriz de São Martinho de Crasto

Linda ceifeira

Linda ceifeira
Loira e trigueira
Gosto de ti
Teu rosto, linda flor
Encantador
Outro não vi

Ao ver-te no mês de Junho
De foice em punho
Ceifando o trigo
Dás alegria aos meus olhos
Fazendo molhos
Canto contigo

Com o chapéu desabado
Rosto suado
Sorrindo estás
Mas tantas vezes ceifando
Andas pensando
No teu rapaz

À sombra da oliveira
Linda ceifeira
À sesta dormes
Debaixo do sol ardente
Ceifas contente
O pão que comes

Constantino José Abreu, “o Caipira”

Meus Senhores

[Moda:]

Meus senhores, eu venho à praça
Este meu corpo oferecer,
Este meu corpo-carcaça
De se comprar e vender!

De se comprar e vender 
Por bem se negociar, 
No negócio de render 
Sem ter nele nada a ganhar… 

[ Cantiga: ]

É tempo de se ceifar
Trigos, cevadas e fenos…
Quem dá mais pelo meu suar?
Quem dá mais ou quem dá menos? 

Letra: Vicente Rodrigues (1910-1982)
Música: Modas à Margem do Tempo
Intérprete: Modas à Margem do Tempo (in CD “Cantarolices”, Associ’Arte, 2003)

Na ponte da viola

Na ponte da viola (bis),
toda a gente passa lá (bis).
Lavadeiras fazem assim,
sapateiros fazem assim,
caçadores fazem assim,
camponeses fazem assim.

Lárálálá.

Não se me dá que vindimem

Não se me dá que vindimem
Vinhas que eu já vindimei
Não se me dá que outros logrem
Ai amores que já rejeitei.

Fui um ano à vindima
Pagaram-me a trinta réis
Dei um vintém ao barqueiro
Ai vim p’ra casa com dez réis.

Pela folha da videira
Conheço eu a latada.
Faço-me dasatendida
Ai a mim não me escapa nada.

Eu estou debaixo da latada
Nem à sombra nem ao sol.
Estou ao pé do meu amor
Ai não há regalo maior.

Letra e música: Popular (Monsanto, Beira Baixa)
Recolha: Fernando Lopes Graça
Intérprete: Né Ladeiras e Luís Represas
Outras versões: Jorge Lomba (in CD “Jorge Lomba”, UPAV, 1990); Contrabando (in CD “Fresta”, 2000); Filipa Pais (in CD “À Porta do Mundo”, Vachier & Associados, 2003)

Numa terra distante

[ A Menina da Canastra ]

Numa terra distante
Viviam tranquilos sem grande mudança
Os campos eram campos
O vinho macio, a água era mansa

E a menina da canastra
Tanta neve e ela passa
Pelo caminho mais longo
Segue o cheiro da fumaça

Segue o carreiro do maninho
Rosmaninho, avelãs, o cheiro a pão

Dia de animação,
O espeto na mão, o bicho sebado
Rezas e devoção,
Bruxarias, magia, tudo está destinado

E a menina da canastra
Tanta neve e ela passa
Pelo caminho mais longo
Segue o cheiro da fumaça

Segue, como a roca faz o fio,
Segue a lua que ilumina a escuridão

O desejo desceu à terra
De caravela por entre a serra

Um partiu e depois
Emigraram mais dois para fugir à desgraça
Do sustento que dá semear tanto pranto
Lavrar o que embaraça

Mas a menina da canastra
Tanta neve e ela passa
Pelo caminho mais longo
Segue o cheiro da fumaça

Segue o carreiro do maninho
Rosmaninho, avelãs, o cheiro a pão

O desejo desceu à terra
De caravela por entre a serra

Como a roca faz o fio
Assim vai a sua dor
E de fio-a-pavio
Partem para mal menor

Caravela do desejo
Traz-lhe do céu uma flor
A canastra da menina
Não tem pão, só tem suor

Como a roca faz o fio
Assim vai a sua dor
E de fio-a-pavio
Partem para mal menor

Caravela do desejo
Traz-lhe do céu uma flor
A canastra da menina
Não tem pão, só tem suor

Como a roca faz o fio
Assim vai a sua dor
E de fio-a-pavio
Partem para mal menor

Caravela do desejo
Traz-lhe do céu uma flor
A canastra da menina
Não tem pão, só tem suor

A menina…

Letra e música: André Cardoso
Intérprete: A Presença das Formigas com Amélia Muge (in CD “Ciclorama”, A Presença das Formigas, 2011)

Ó Margarida moleira

1. Ó Margarida moleira,
dá-me da tua farinha.
Ai, ai, ai, que a quero peneirar
ai, ai, ai, pela nova peneirinha.

2. Ó Margarida moleira,
a tua farinha é boa;
ai ai ai, se agora não tens moída
ai, ai, ai, dá-me então da tua broa.

3. Ó Margarida moleira
tens moinho de moer;
ai, ai, ai, p’ra moer quem te quer bem,
ai, ai, ai, não tens pouco que fazer.

4. Ó Margarida moleira,
amostra-me o teu moinho;
ai, ai, ai, quero ver se ele trabalha,
ai, ai, ai, devagar ou ligeirinho.

Cabeceiras de Basto, Minho

O que é feito das mondadeiras?

O que é feito das mondadeiras
Que no Verão eram ceifeiras
E apanhavam a azeitona?
Onde estão os passarinhos
A cantar entre os raminhos,
Nas árvores aqui da zona?

As rolas fazendo o ninho,
Grandes bandos de estorninhos,
Para nós são uma saudade;
Até as lindas perdizes
E as vaidosas codornizes
São já uma raridade.

Já ninguém dorme nas eiras,
Por modo as debulhadeiras
Que ao trigo fazem tudo.
As danças, ai que saudade
Os bailes da Sociedade
Quando chegava o Entrudo!

Dizem-nos, por brincadeira,
Que esta terra hospitaleira
Tem brilhantes tradições;
Por todos é adorada,
Por muitos é visitada
E fica em seus corações.

Letra: José Correia
Música: Armando Torrão
Intérprete: Pedro Mestre (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015)
Outra versão de Pedro Mestre (in DVD “No CCB: Pedro Mestre & Convidados”, Pedro Mestre, 2017)

Ora bate, padeirinha

Ora bate, padeirinha,
ora bate o pé no chão.
Ora bate, padeirinha,
amor do meu coração.

Fui à fonte p’ra te ver,
fui ao rio p’ra te falar.
Nem na fonte nem no rio
nunca te pude encontrar.

Os moleiros deste açude

[ Canção de Açude – Poema em Cor ]

Os moleiros deste açude, os moleiros deste açude,
Os moleiros deste açude, os moleiros deste açude…

Os moleiros deste açude adoram a virgem de branco
Os moleiros deste açude adoram a virgem vermelha
Os moleiros deste açude adoram a virgem de verde
Os moleiros deste açude adoram a virgem de preto

Branco, vermelho, amarelo, preto
Branco, verde, azul, preto

De sol a sol, a trabalhar
Tanto suor e sem tempo para o limpar
Tanta farinha na minha mão
Bem moidinha vai formar um grande pão

Eu não pertenço a esta aldeia
Vim para aqui p’ra fazer o meu pé-de-meia
Ai este rio corre p’ró mar
Tão fugidio não pára p’ra descansar

‘Tou tão cansado de labutar
Ai esta nora que não pára de girar

Branco, vermelho, amarelo, preto
Branco, verde, azul, preto

Letra: Rodrigo Crespo e Tânia Cardoso
Música: Rodrigo Crespo
Intérprete: Canto Ondo (in CD “Entre o Alto do Peito e as Campainhas da Garganta”, A Monda – Associação Cultural/Canto Ondo, 2016)

Primavera das Flores

[ A Primavera ]

Primavera das flores
Como esta não há mais
A Primavera vai e volta sempre
A mocidade não volta mais.

Ai borda rica filha, borda, borda
Ai borda rica filha, borda, bem
Em casa rica filha todos bordam Refrão
Borda o pai borda a filha borda a mãe
E eu também.

Bordadeira madeirense

Bordadeira madeirense

Quem quiser regar

[ Cantiga de Rega ]

Quem quiser regar
que regue
Ai cá lhe fica
o regador

Palavra dada
Eu tenho
Ai esta noite
Ao meu amor

A palavra
É igual à água
Que há no regador
Rega todo este chão
Conversador

E com palavras
Nós vamos regando
Este longe que então
Faz o perto crescer
E dar seu pão

Tradicional portuguesa e Amélia Muge / Tradicional

Raparigas camponesas

[ Raparigas Mondadeiras ]

Raparigas camponesas,
Ao rigor do temporáli
Não há vento que as queime
Nem sol que lhes faça máli.

Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!

Raparigas mondadeiras,
Andai lá com cuidadinho,
Que manda o nosso patrão!
Mondai lá bem o triguinho!

Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!
Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!

Raparigas mondadeiras,
Vamos todas a cantári!
Já lá vem nossa patroa
A trazer-nos o jantári.

Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!
Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!

Já lá vem a noite em baixo,
Já lá vem nossa alegria;
Tristeza p’ra o nosso amo,
Que já se lhe acaba o dia.

Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!
Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!
Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!
Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!
Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!
Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!

Letra e música: Tradicional (Penha Garcia, Idanha-a-Nova, Beira Baixa)
Recolha: GEFAC (Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra)
Intérprete: Brigada Victor Jara / voz solo de Catarina Moura (in Livro/11CD “Ó Brigada!: Discografia Completa da Brigada Victor Jara – 40 Anos”: CD Extra, Tradisom, 2015)

Rema

Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema, lanchinha
P’ró alto mar

Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema, lanchinha
P’ró alto mar

Rema que rema
No mar irado
Gostar de ti
É um triste fado

Rema que rema
Na calmaria
Senhor S. Pedro
És o meu guia

Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema, lanchinha
P’ró alto mar

Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema, lanchinha
P’ró alto mar

Rema que rema
Pelo mar fora
Segure o leme
Nossa Senhora

Rema que rema
P’ró areal
Se te não vejo
Passo bem mal

Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema, lanchinha
P’ró alto mar

Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema, lanchinha
P’ró alto mar

Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema, lanchinha
P’ró alto mar

Letra e música: Aníbal Raposo (2000-08-07)
Intérprete: Aníbal Raposo (in CD “Rocha da Relva”, Aníbal Raposo/Global Point Music, 2013)

Senhora Dona Anica

1. Senhora Dona Anica,
venha abaixo ao seu jardim.
Venha ver as lavadeiras
a fazer assim, assim.

2. Senhora Dona Anica,
venha abaixo ao seu jardim.
Venha ver as costureiras
a fazer assim, assim.

3. Senhora Dona Anica,
venha abaixo ao seu jardim.
Venha ver os jardineiros
a fazer assim, assim.

4. Senhora Dona Anica,
venha abaixo ao seu jardim.
Venha ver os sapateiros
a fazer assim, assim.

5. Senhora Dona Anica,
venha abaixo ao seu jardim.
Venha ver as brunideiras
a fazer assim, assim.

6. Senhora Dona Anica,
venha abaixo ao seu jardim.
Venha ver os carpinteiros
a fazer assim, assim.

7. Senhora Dona Anica,
venha abaixo ao seu jardim.
Venha ver as cozinheiras
a fazer assim, assim.

Stando la molinera

[ Molinera ]

Stando la molinera
Sentadita en su molino…
Passou por alla un soldado, olé! olé!
Vengo de moler el trigo.
Que vengo de moler, morena.

Que vengo de moler, morena,
De los molinos de abajo…
Dormí con la molinera, olé! olé!
No me ha cobrado el trabajo.
Que vengo de moler, morena.

Que vengo de moler, morena,
De los molinos de arriba…
Dormí con la molinera, olé! olé!
No me ha cobrado la maquia.
Que vengo de moler, morena.

Que vengo de moler, morena,
De los molinos del frente…
Dormí con la molinera, olé! olé!
Se enteró toda la gente.
Que vengo de moler, morena.

Que vengo de moler, morena,
De los molinos azules…
Dormí con la molinera, olé! olé!
Sabado, domingo y lunes.
Que vengo de moler, morena.

Letra e música: Tradicional (Trás-os-Montes)
Intérprete: Ai! (in CD “Ai!”, Ai!/RequeRec, 2013)

Sua o martelo

[ Instrumentos de Trabalho ]

Sua o martelo nas mãos
como soa uma navalha
instrumentos de trabalho
em dedos que nunca falham

Instrumentos de trabalho
ou mortes de mão primeiro
Cresce o tempo no trabalho
de um martelo de ferreiro

Primeiro os mortos são peso
(ferro no sangue não fere)
Instrumentos de trabalho
de um calor que não requer

Desespero não é palavra
nem será nunca instrumento
A mão recobra o metal
de material nos dedos

Dado o trabalho transpira
a fome de um operário
instrumento de acidente
na justiça de um salário

Semidesliza o arado
que o camponês não acusa
Ou comemora a semente
com as mãos sem armadura

Movimento de calor
nos músculos que se recusam
Sol a sol de instrumentos
ou mortes de qualquer cura

Sua o martelo nas mãos
como soa uma navalha
instrumentos de trabalho
em dedos que nunca falham

Dado o trabalho transpira
a fome de um operário
instrumento de acidente
na justiça de um salário

Semidesliza o arado
que o camponês não acusa
Ou comemora a semente
com as mãos sem armadura

Poema: Maria Teresa Horta (adaptado)
Música: Lindolfo Paiva
Intérprete: Dialecto* (in CD “Aromas”, Dialecto/Cloudnoise, 2011)

Instrumentos de trabalho

(Maria Teresa Horta, in “Cronista Não É Recado”, Lisboa: Guimarães Editores, 1967; “Poesia Reunida”, pref. Maria João Reynaud, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009 – p. 262-63)

Instrumentos de trabalho
ou mortes
de mão primeiro

Cresce o tempo no
trabalho
de um martelo de ferreiro

Primeiro
os mortos são peso
(ferro no sangue não fere)

Instrumentos de trabalho
de um calor
que não requer

Desespero não é palavra
nem será nunca
instrumento

A mão recobra
o metal
de material nos dedos

Dado o trabalho transpira
a fome de um operário
instrumento de acidente
na justiça de um salário

Semidesliza o arado
que o camponês
não acusa

Ou comemora
a semente
com as mãos sem armadura

Movimento de calor
nos músculos
que se recusam

Sol a sol
de instrumentos
ou mortes de qualquer cura

Sua o martelo nas mãos
como soa uma navalha
instrumentos de trabalho
em dedos que nunca falham

Toda a vida fui pastor

1. Toda a vida fui pastor,
toda a vida guardei gado.
Tenho uma mágoa no peito, ai, ai,
de me encostar ao cajado.

2. De me encostar ao cajado,
lá pelos campos a rigor.
Toda a vida guardei gado, ai ai!
Toda a vida fui pastor.

3. Meu lírio roxo do campo,
criado na Primavera,
desejava amor saber, ai, ai,
a tua intenção qual era.

4. A tua intenção qual era
desejava amor saber.
Meu lírio roxo do campo, ai, ai,
quem te pudera colher.

Mel. trad. Alentejo

Trigo loiro

[ Cantiga de ceifa ]

Trigo loiro, trigo loiro,
Ai! Quem me dera o teu valor!
Que entrara no cálice de oiro
Ai! Onde entra Nosso Senhor.

Trigo loiro, trigo loiro,
Ai! Quem me dera o teu valor!
Levara a cruz ao Calvário
Ai! Como fez Nosso Senhor.

Trigo loiro, trigo loiro,
Ai! Quem me dera o teu valor!
Que entrara no cálice de oiro
Ai! Onde entra Nosso Senhor.

Trigo loiro, trigo loiro,
Ai! Quem me dera o teu valor!
Levara a cruz ao Calvário
Ai! Como fez Nosso Senhor.

Letra e música: Tradicional (Gonçalo, Guarda, Beira Alta)
Intérprete: Ai! (in CD “Ai!”, Ai!/RequeRec, 2013)
Outras versões com César Prata: Chuchurumel – “Canção da Ceifa” (in CD “No Castelo de Chuchurumel”, Chuchurumel/Luzlinar, 2005); Ai! (in CD “Lavra, Boi, Lavra: Canções de Trabalho”, Ai!/Coruja do Mato, 2015)

Vamos apanhar o trigo [ Este trigo ]

Vamos apanhar o trigo
Vamos escolher da aveia
Falamos na nossa vida
Deixamos a vida alheia.

Este trigo está bom trigo
Parece trigo de relva
Calai a boca menina
Deus do céu é que governa.

Nossa Senhora do Monte
É madrinha de João
Eu também sou afilhada
Da Virgem da Conceição

Esta noite vai dar vento
Também vai dar viração
As rosas vão voar
Não vai ficar nem um botão.

Este trigo está bom trigo
As favas estão mais falidas
Os olhos do meu amor
É a flor das raparigas.

Tradicional da Madeira

Vamos apanhar o trigo [ Trigo louro ]

[ Trigo Louro ]

Vamos apanhar o trigo
Vamos lhe escolher a veia
Cuidamos da nossa vida
Deixemos a vida alheia.

Trigo louro, trigo louro
Empresta-me a tua cor
Quero ir ao sacrário
Oferecer a Nosso Senhor.

Trigo louro, trigo louro
Trigo da folha amarela
Debaixo do trigo louro
Namorei uma donzela.

Trigo louro, trigo louro
Trigo da folha estreita
A apanhar o trigo louro
Namorei uma sujeita.

Trigo louro, trigo louro
Trigo da folha miúda
Debaixo do trigo louro
Namorei uma viúva.

Tradicional da Madeira

Vamos todos a cantar

[ As profissões ]

Vamos todos a cantar,
estas nossas profissões,
neste grupo que é alegre,
com bailados e canções.

Eu aqui sou bordadeira,
neste pano vou bordar,
que o bordado da Madeira,
é para se exportar.

Eu sou um agricultor,
com a enxada na mão,
é que a vida no campo,
também é uma profissão.

Também vamos começar,
aqui todos trabalhando,
com amor a esta vida,
alegres também cantando.

Eu também vou fiar linho,
de estopa e de tomentos,
e nesta história do linho,
se passam muito tormentos.

Eu que debulho o milho,
é o que eu vou fazer,
isto é o comer do pobre,
temos que o defender.

Todo o homem que trabalha,
honra a pátria e aos seus,
havendo comida em casa,
todos dão graças a Deus.

Também eu vou fazer tricot,
isto para me entreter,
temos nós que trabalhar,
para se poder viver.

Também vou apanhar erva,
para os meus animais,
esta foi a bela arte,
que me deram os meus pais.

E todos nós trabalhámos,
para se poder comer,
e nós também cantamos,
é para nos entreter.

Neste lugar sou ceifeira,
do trigo que é o nosso pão,
eu apanho muito sol,
que é neste tempo de verão.

Eu também sou marceneiro,
que é uma arte fina,
sou eu que faço os móveis,
desde a sala até às cozinhas.

Todas estas profissões,
quem trabalha tem saúde,
o trabalho vem dos velhos,
e passa para a juventude.

Foi a ovelha que deu,
esta lã que vou fiar,
mas neste trabalho falta,
é lavá-la e cardar.

Eu trabalho de pedreiro,
é com areia e cimento,
para fazer nossas casas,
para se abrigar do tempo.

Tradicional da Madeira

Vi-te a trabalhar

[ Que Força É Essa? ]

Vi-te a trabalhar o dia inteiro,
construir as cidades pr’a os outros,
carregar pedras, desperdiçar
muita força p’ra pouco dinheiro!
Vi-te a trabalhar o dia inteiro,
muita força p’ra pouco dinheiro!…

Que força é essa?
Que força é essa
que trazes nos braços,
que só te serve para obedecer,
que só te manda obedecer?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo,
que te põe de bem com outros
e de mal contigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?

Não me digas que não me compr’endes!
Quando os dias se tornam azedos,
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes!
Não me digas que não me compr’endes!…

Que força é essa?
Que força é essa
que trazes nos braços,
que só te serve para obedecer,
que só te manda obedecer?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo,
que te põe de bem com outros
e de mal contigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?

Vi-te a trabalhar o dia inteiro,
construir as cidades pr’a os outros,
carregar pedras, desperdiçar
muita força p’ra pouco dinheiro!
Vi-te a trabalhar o dia inteiro,
muita força p’ra pouco dinheiro!…

Que força é essa?
Que força é essa
que trazes nos braços,
que só te serve para obedecer,
que só te manda obedecer?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo,
que te põe de bem com outros
e de mal contigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?

Letra e música: Sérgio Godinho (in LP “Os Sobreviventes”, Guilda da Música/Sassetti, 1972, reed. Philips/Polygram, 1990, Universal, 2001, 2019)

Pastor alentejano

Pastor alentejano

https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2020/05/pastor-alentejano-postal-antigo-quadrado.jpg 400 400 António Ferreira https://www.meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-MELOTECA-300x86.jpg António Ferreira2020-05-01 08:31:482025-06-13 17:36:14Canções de trabalho
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