O poemário do cancioneiro português (incluindo fado, música tradicional e ligeira) pretende fomentar o gosto da poesia como parceira da música e a divulgação dos poetas cuja importância nem sempre é justamente reconhecida. Fontes: Blogue A Nossa Rádio, Álvaro José Ferreira.

Instrumentos cantados

Campaniça do despique

Campaniça do despique,
Na venda e bailes de roda:
Dedilhando o improviso
Ou trauteando uma moda.

Na rua do velho monte,
Com as moças a bailar
Os passos simples duma dança
E a viola a dedilhar.

Nas feiras e romarias,
Na serra e no alambique,
Na venda e bailes de roda:
Campaniça do despique.

O tocador da viola
É feio mas toca bem;
Se não casar por a prenda,
Formosura não a tem!

Campaniça do despique,
Na venda e bailes de roda:
Dedilhando o improviso,
Ou trauteando uma moda.

Na rua do velho monte,
Com as moças a bailar
Os passos simples duma dança
E a viola a dedilhar.

Nas feiras e romarias,
Na serra e no alambique,
Na venda e bailes de roda:
Campaniça do despique.

Letra e música: Pedro Mestre
Intérprete: Pedro Mestre* (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015)
Outra versão de Pedro Mestre (in DVD “No CCB: Pedro Mestre & Convidados”, Pedro Mestre, 2017)

Ó sino da minha aldeia

Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Letra: Fernando Pessoa (ligeiramente adaptado)
Música: Uxía Senlle e Sérgio Tannus
Arranjo: Quiné Teles
Intérprete: Ela Vaz, com Rui Oliveira (in CD “Eu”, Micaela Vaz, 2017)

O tambor a tocar

[ O Primeiro Canto (dedicado a José Afonso) ]

O tambor a tocar sem parar,
um lugar onde a gente se entrega,
o suor do teu corpo a lavar a terra.
O tambor a tocar sem parar,
o batuque que o ar reverbera,
o suor do teu rosto a lavrar a terra.

Logo de manhãzinha, subindo a ladeira já,
já vai a caminho a Maria Faia…

Azinheiras de ardente paixão
soltam folhas, suaves, na calma
do teu fogo brilhando a escrever na alma.

Estas fontes da nossa utopia
são sementes, são rostos sem véus,
o teu sonho profundo a espreitar dos céus!

Logo de manhãzinha, subindo a ladeira já,
já vai a caminho a Maria Faia,
desenhando o peito moreno, um raminho de hortelã
na frescura dos passos, a eterna paz do Poeta.

Uma pena ilumina o viver
de outras penas de esperança perdida,
o teu rosto sereno a cantar a vida.

Mil promessas de amor verdadeiro
vão bordando o teu manto guerreiro,
hoje e sempre serás o primeiro canto!

Ai, o meu amor era um pastor, o meu amor,
ai, ninguém lhe conheceu a dor.
Ai, o meu amor era um pastor Lusitano,
ai, que mais ninguém lhe faça dano.
Ai, o meu amor era um pastor verdadeiro,
ai, o meu amor foi o primeiro.

Estas fontes da nossa utopia
são sementes, são rostos sem véus,
o teu sonho profundo a espreitar dos céus!

Mil promessas de amor verdadeiro
vão bordando o teu manto guerreiro,
hoje e sempre serás o primeiro canto!

Letra: João Mendonça, Dulce Pontes e António Pinheiro da Silva
Música: Dulce Pontes e Leonardo Amuedo
Intérprete: Dulce Pontes (in CD “O Primeiro Canto”, Polydor B.V. The Netherlands/Universal, 1999)

Quando uma guitarra trina

[ Guitarra ]

Quando uma guitarra trina
Nas mãos de um bom tocador
A própria guitarra ensina
A cantar seja quem for

Eu quero que o meu caixão
Tenha uma forma bizarra
A forma de um coração
A forma de uma guitarra

Guitarra, guitarra querida
Eu venho chorar contigo
Sinto mais suave a vida
Quando tu choras comigo

Letra dos poetas do fado (Popular)
Música: Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão
Intérprete: Madredeus (in CD “Ainda”, EMI-VC, 1995)

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Danças e folias

Dança comigo

Dança comigo, morena
Leveza de pena
Esta dança breve
Dança e rodopia
Solta-me a alegria
De quem nada deve

Acende-me a cara, o rosto
Os lábios de mosto
Riso de marfim
Requebra a cintura
Que és a criatura
Nascida p’ra mim

Vamos, a dança é louca
Dá-me a tua boca
Que este beijo é meu
Dança comigo, amada
Que eu já estou na escada
Que me leva ao céu

Ao som da concertina
(Cinturinha fina
Pele de cetim)
Dança, meu amor
Não sei doutra flor
Que bem dance assim

Dança com fantasia
No fim deste dia
Que se vai embora
No passo da vida
Dancemos, querida
Que é a nossa hora

Vamos, a dança é louca
Dá-me a tua boca
Que este beijo é meu
Dança comigo, amada
Que eu já estou na escada
Que me leva ao céu

Vamos, a dança é louca
Dá-me a tua boca
Que este beijo é meu
Dança comigo, amada
Que eu já estou na escada
Que me leva ao céu

Ah vamos, que a dança é louca
Dá-me a tua boca
Que este beijo é meu
Dança comigo, amada
Que eu já estou na escada
Que me leva ao céu

Letra e música: Aníbal Raposo (2006-09-26)
Intérprete: Aníbal Raposo (in CD “Rocha da Relva”, Aníbal Raposo/Global Point Music, 2013)

Dançava, dançar, dançou

[ Saias das Sete Saias ]

Dançava, dançar, dançou,
Cantou e alegre cantava…
Se a vida alegre voou
A vida triste lhe paga;
Dançava, dançar, dançou,
Cantou e alegre cantava.

Sete saias rompia,
Sete saias rompeu…
Do nascer ao fim do dia
Muitas saias conheceu;
Sete saias rompia,
Sete saias rompeu.

Diz o povo sem lamúrias
Que a terra lhe paga em vida…
Que a morte lhe tira os dias
E só lhe dá a guarida;
Diz o povo sem lamúrias
Que a terra lhe paga em vida.

Sete saias rompia,
Sete saias rompeu…
Do nascer ao fim do dia
Muitas saias conheceu;
Sete saias rompia,
Sete saias rompeu.

Quando as saias compridinhas
No final da ceifa ou monda
Eram todas mais curtinhas,
Quase uma saia redonda…
Quando as saias compridinhas
Eram todas mais curtinhas.

Sete saias rompia,
Sete saias rompeu…
Do nascer ao fim do dia
Muitas saias conheceu;
Sete saias rompia,
Sete saias rompeu.

Da terra se faz a história
Que um povo diz a cantar…
A terra só tem memória
E tem muito p’ra contar;
Da terra se faz a história
Que um povo diz a cantar.

Sete saias rompia,
Sete saias rompeu…
Do nascer ao fim do dia
Muitas saias conheceu;
Sete saias rompia,
Sete saias rompeu.

Letra e música: José Barros
Arranjo: José Barros
Intérprete: Navegante com Janita Salomé (in CD “Meu Bem, Meu Mal”, Tradisom, 2008)

Quantas voltas tem a dança

[ Se Ainda Der para Disfarçar ]

Quantas voltas tem a dança em tantas voltas contadas?
Um segredo de criança escondido em mil gargalhadas
Tantas mãos que foram dadas na ternura de um abraço
Quantas vontades caladas na volta meiga de um passo

Quantas horas de viagem na alegria de te ver?
Quanta falta de coragem, tanta coisa por dizer
E acabamos a esconder, vá-se lá saber porquê
Nestas coisas do querer os sinais são p’ra quem os lê

Dá-me uma dança, faz-me acreditar
Uma lembrança p’ra eu levar
Que eu tenho sempre vontade de voltar e te dizer
Se ainda der p’ra disfarçar
Ensina-me a dançar

Faz de conta que o poente acontece a qualquer hora
Quando a noite se faz quente e um beijo se demora
Já o frio se foi embora ao tocar da tua mão
Que há-de ser de nós agora? Faz sentido: sim ou não?

Dá-me uma dança, faz-me acreditar
Uma lembrança p’ra eu levar
Que eu tenho sempre vontade de voltar e te dizer
Se ainda der p’ra disfarçar
Ensina-me a dançar

É a valsa do começo, é a vida a esvoaçar
É a pele a soltar um arrepio
É uma cor que eu não conheço, um sabor de acreditar
Uma praia cor de um desafio

Dá-me uma dança, faz-me acreditar
Uma lembrança p’ra eu levar
Que eu tenho sempre vontade de voltar e te dizer
Se ainda der p’ra disfarçar
Ensina-me a dançar

Ensina-me a dançar
Ensina-me a dançar
Ensina-me a dançar

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes (in CD “Singular”, Sebastião Antunes & Quadrilha/Alain Vachier Music Editions, 2017)
Versão original: Sebastião Antunes (in CD “Cá Dentro”, Vachier & Associados, 2009)

Sete portadas

[ Baile das Vozes ]

Sete portadas
De pedra,
E mais sete
De madeira

Sete meninas
Sentadas
Outras sete
Na ladeira

Foram lavar
Suas vestes
Toda a noite
Noite inteira

Menina que olhos
Esses que me
Encantam
De maneira

E neste baile
Cruzado,
Sete cruzes
Se transformam,

Em redor
Do seu amado
Sete vénias
Que se
Formam…

Ficam
Bailando
Num pé
E no outro
Saltitando,

Cinco meninas
Saíram
E só duas
Vão ficando!…

E se acordarem
Os santos
Num bailado
De folia

Juntam-se as vozes
À noite
Bailam apenas
De dia!…

Menina que dança
E canta,
E seu canto
É noite fria!

E rodopia cantando,
No seu baile
De alegria!…

Letra: José Flávio Martins
Música: José Flávio Martins e Rui Tinoco
Intérprete: Frei Fado d’El Rei (in CD “Em Concerto”, Açor/Emiliano Toste, 2003)

Vai de roda

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda que é tão breve;
Tenho uns amigos na roda,
Tenho uns amigos na roda,
Deixam a roda mais leve.

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda alguns amores;
Quantos mais amores na roda,
Quantos mais amores na roda
Mais te perseguem as dores.

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda até ao fim;
Já tentei fugir da roda,
Já tentei fugir da roda
Mas ela rodou por mim.

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda sem parar;
Quem nunca esteve na roda,
Quem nunca esteve na roda
Não pode a roda enganar.

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda até ao fim;
Já tentei fugir da roda,
Já tentei fugir da roda
Mas ela rodou por mim.

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda sem parar;
Quem nunca esteve na roda,
Quem nunca esteve na roda
Não pode a roda enganar.

Letra e música: Duarte (Outubro de 2010)
Intérprete: Duarte, com Mara (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018)
Versão original: Duarte (in CD “Sem Dor Nem Piedade”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2015)

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Amores Perdidos

Não queiras

[ Fado Passado ]

Não queiras
Versos lindos de cantar
Nem rosas
Como dias por abrir
O nosso amor passou, amor
O nosso amor não basta
Não basta…

Não digas
Quantas horas foram poucas
Que noites
Duas sombras a alongar
Agora é só sonhar, amor
O nosso amor não canta
Não canta…

Dou voltas
Numa rua que foi nossa
À espera
De uma casa onde morar
A gente vai vivendo, amor
E o nosso amor não passa
Não passa…

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Folhas caídas do Outono

A luz revela as cores da manhã

[ O Outono e a Cidade ]

A luz revela as cores da manhã
e o rio espelha a sombra da cidade.
O Outono vai roubando, pouco a pouco,
a claridade.
Desprendem-se as folhas
bailando no ar, ao sabor da brisa.
Um cheiro a castanhas perfuma a praça,
o voo das pombas seduz quem passa.
Ao longe há um cromatismo, de cores
que vai vestindo de amarelo os plátanos.
Junto à margem dissipa-se a neblina,
é mais um dia frio de Novembro.
Há no Outono suaves melodias,
há uma voz aconchegando os dias,
há palavras… rasgando as madrugadas.

Letra e música: Fernando Dias Marques
Arranjo: Fernando Marques, Steve Fernandes e Jorge Correia
Intérprete: Fernando Marques Ensemble (in CD “(des)Encontros”, Fernando Marques Ensemble, 2016)

Águas passadas do rio

[ Balada do Outono ]

Águas passadas do rio
Meu sono vazio
Não vão acordar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Águas do rio correndo
Poentes morrendo
P’rás bandas do mar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Letra e música: José Afonso
Intérprete: José Afonso (in “Fados de Coimbra e Outras Canções”, Orfeu, 1981, reed. Movieplay, 1987)
Versão original: José Afonso (in EP “Balada do Outono”, Rapsódia, 1960; CD “Os Vampiros”, Edisco, 1987)
Versão instrumental: Rui Pato – viola (in “Baladas e Canções”, de José Afonso, Ofir, 1967; reed. EMI-VC, 1997)

Vento que traz nostalgia

[ Outono na Cidade ]

Vento que traz nostalgia
D’um amor perdido
Nas ruas da vida,
Sombras e melancolia,
Um adeus sentido
De mulher esquecida.
Nas folhas da esperança
Caídas sem dono,
Há passos de criança:
É Outono!

Outono na cidade
Tem gosto de saudade:
É terna despedida que não esquece,
É doce melodia
Que vem no fim do dia
Que o Sol – bom e doirado – ainda aquece.

Cai a folha – folha nua –,
Chuva d’oiro molhando a rua:
Outono na cidade,
Que fria claridade!
Sorriso que desce da Lua!

Gente que corre apressada
Na manhã brumosa,
Sonolenta e fria;
Vida que sonha acordada
A canção formosa,
Luz do meio-dia.
No azul infindo
O povo bem sente
O teu adeus, tão lindo,
Sol poente!

Cai a folha – folha nua –,
Chuva d’oiro molhando a rua:
Outono na cidade,
Que fria claridade!
Sorriso que desce da Lua!

Letra: Ferro Rodrigues e Fernando Santos
Música: Carlos Dias
Intérprete: Max (in EP “Tingo Lingo Lingo”, Decca/VC, 1962; CD “O Melhor de Max: Vol. 2”, EMI-VC, 1993; CD “Max: Essencial”, Edições Valentim de Carvalho/CNM, 2014)

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Primavera

Primavera

Todo o amor que nos prendera,
como se fora de cera,
se quebrava e desfazia.
Ai funesta Primavera,
quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia!

E condenaram-me a tanto:
viver comigo o meu pranto,
viver, viver… e sem ti!
Vivendo sem, no entanto,
eu me esquecer desse encanto
que nesse dia perdi…

Pão duro da solidão
é somente o que nos dão,
o que nos dão a comer…
Que importa que o coração
diga que sim ou que não,
se continua a viver?

Todo o amor que nos prendera
se quebrara e desfizera,
em pavor se convertia.
Ninguém fale em Primavera!
Quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia!

Poema: David Mourão-Ferreira
Música: Pedro Rodrigues
Intérprete: Amália Rodrigues* (1965, in CD “Segredo”, EMI-VC, 1997; CD “Amália canta David”, Edições Valentim de Carvalho/iPlay, 2011)

*Amália Rodrigues – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery:
Raul Nery – 1.ª guitarra portuguesa
José Fontes Rocha – 2.ª guitarra portuguesa
Júlio Gomes – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d’Arcos, em 1965
Engenheiro de som – Hugo Ribeiro

Coordenação do projecto (para a edição do CD “Segredo”) – Manuel Falcão e Jorge Mourinha
Produção – Rui Valentim de Carvalho
Assistente de produção – Inês Penalva
Misturas e restauro digital – Hugo Ribeiro, João Martins e Raul Ribeiro, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d’Arcos, em Setembro de 1997
Masterização – Julius Newel, no estúdio Mission Control, Lisboa, em Outubro de 1997

Maio, maduro Maio

Maio, maduro Maio, quem te pintou?
Quem te quebrou o encanto nunca te amou.
Raiava o sol já no Sul.
E uma falua vinha lá de Istambul.

Sempre depois da sesta chamando as flores.
Era o dia da festa, Maio de amores.
Era o dia de cantar.
E uma falua andava ao longe a varar.

Maio com meu amigo quem dera já.
Sempre no mês do trigo se cantará.
Qu’importa a fúria do mar.
Que a voz não te esmoreça, vamos lutar.

Numa rua comprida El-Rei pastor.
Vende o soro da vida que mata a dor.
Anda ver, Maio nasceu.
Que a voz não te esmoreça, a turba rompeu.

Letra e música: José Afonso
Intérprete: Madredeus (in CD “Ainda”, EMI-VC, 1995)
Versão original: José Afonso (in “Cantigas do Maio”, Orfeu, 1971; reed. Movieplay, 1987, 1996)
Outras versões: Naná Sousa Dias (in “Ousadias”, Polygram, 1986); José Mário Branco, Amélia Muge e João Afonso (in CD “Maio, Maduro Maio”, Columbia/Sony, 1995); Couple Coffee (in CD “Co’as Tamanquinhas do Zeca”, Transformadores, 2007); Cristina Branco (CD “Abril”, Universal, 2007)

Primavera passada

[ Canção amoroso-pastoril ]

Ai lé lé lai lé lá,
Ai lé lé lai ló:
Foi a primeira cantiga
Que me ensinou minha avó.

A Primavera passada
Foi o meu divertimento:
Tomei amores mui cedo,
Logrei-os mui pouco tempo.

Primavera, Primavera,
Tempo de tomar amores;
Não há tempo mais alegre
Que Maio com suas flores.

Primavera, Primavera,
Primavera dos boieiros;
Coitadinhos dos pastores
Que dormem pelos chiqueiros.

Ai lé lé lai lé lá,
Ai lé lé lai ló:
Foi a primeira cantiga
Que me ensinou minha avó.

Ai lé lé lai lé lá,
Ai lé lé lai ló:
Foi a primeira cantiga
Que me ensinou minha avó.

Letra e música: Popular (Paradela, Miranda do Douro, Trás-os-Montes e Alto Douro)
Recolha: Fernando Lopes Graça (in livro “A Canção Popular Portuguesa”, Publicações Europa-América, 1953; 3.ª edição, col. Saber, Publicações Europa-América, s/d. – p. 75)
Intérprete: Cantos d’Aurora (in CD “Sabores”, Cantos d’Aurora, 1996)

Rompe a aurora

[ Primavera Alentejana ]

Rompe a aurora, nasce o dia
Iluminando o montado;
Como um hino à alegria
Houve-se balir o gado.

Roxo, verde e amarelo –
Olho à volta – é o que vejo;
Não há nada assim tão belo,
Ó meu querido Alentejo!

Lindos campos verdejantes
Matizados de papoilas,
Já não são como eram antes
Mondados pelas moçoilas.

Já não são como eram antes
Mondados pelas moçoilas,
Lindos campos verdejantes
Matizados de papoilas.

Perfumados de poejo
Os campos de solidão:
É assim o Alentejo
Que trago no coração.

O melro canta no silvado,
O grilo num buraquinho;
E eu por ti apaixonada,
Alentejo, meu cantinho!

Lindos campos verdejantes
Matizados de papoilas,
Já não são como eram antes
Mondados pelas moçoilas.

Já não são como eram antes
Mondados pelas moçoilas,
Lindos campos verdejantes
Matizados de papoilas.

Poema: Hermínia Gaidão Costa (em memória de Margarida Gaidão)
Música: Hermínia Gaidão Costa e Roda Pé
Arranjo: Roda Pé e Celina da Piedade
Intérprete: Roda Pé (in CD “Escarpados Caminhos”, Public-Art, 2004)

Se deixaste de ser minha

[ Por Morrer Uma Andorinha ]

Se deixaste de ser minha
Não deixei de ser quem era
Por morrer uma andorinha
Não acaba a Primavera
Por morrer uma andorinha
Não acaba a Primavera

Como vês não estou mudado
E nem sequer descontente
Conservo o mesmo presente
E guardo o mesmo passado
Conservo o mesmo presente
E guardo o mesmo passado

Eu já estava habituado
A que não fosses sincera
Por isso eu não fico à espera
De uma ilusão que não tinha
Se deixaste de ser minha
Não deixei de ser quem era
Se deixaste de ser minha
Não deixei de ser quem era

Vivo a vida como dantes
Não tenho menos nem mais
E os dias passam iguais
Aos dias que vão distantes
E os dias passam iguais
Aos dias que vão distantes

Horas, minutos, instantes
Seguem a ordem austera
Ninguém se agarra à quimera
Do que o destino encaminha
Pois por morrer uma andorinha
Não acaba a Primavera
Por morrer uma andorinha
Não acaba a Primavera

Letra: Frederico de Brito
Música: Francisco Viana
Intérprete: Carlos do Carmo* (in “Por Morrer Uma Andorinha”, Philips/Polygram, s/d; “A Arte e a Música de Carlos do Carmo”, Philips/Polygram, 1982; CD/DVD “Carlos do Carmo ao vivo: Coliseu dos Recreios de Lisboa”, Universal, 2004)

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Mares e marés

Mares e marés

Bamo lá ber

Letra e música: Carlos Norton
Intérprete: OrBlua (in Livro/CD “Retratos Cinéticos”, Fungo Azul/Ocarina, 2015)

Bamo lá ber!
Vamos lá ver!
Bamo lá ber!
Vamos lá ver!…

Vamos lá ver!
Bamo lá ber!
Vamos lá ver!
Bamo lá ber!…

Vinha o barco, lá pela ria;
Acostou com maré vazia.
Vinha o pargo,
Vinha a lula,
Vinha o sargo
E o peixe-lua.

Veio a gente para comprar
O que a rede trouxe do mar.
Trouxe um polvo,
Uma cavala
Mais uma bóia
E uma sandália.

Veio o povo para comprar;
Viu o peixe a saltitar.
Salta o choco
E a faneca
Mais a sarda
Para a água.

Vai o homem nos arraiais,
Que a venda não se faz mais.
Foi-se o peixe,
Foi-se o pão…
Mas que sorte!
Maldição!

Volta p’ró mar, ó pescador!
Sai no barco, com teu labor!
Já não há mais,
Acabou.
Lá se foi,
Que ele esgotou.

Vem para terra, com tua barca!
Vende covos, com tua marca!
Faz um sorriso
P’ra o turista
Que o tempo da faina
acabou!

Dentro de um búzio

[ Dessa Ilha ]

dentro de um búzio
cabe todo o mar
dentro desse mar
cabem milhares de búzios
muitos desses búzios
servem p’ra jogar
passam na cabeça
cabem num colar
nessa ilha
posso lhe escutar
o som
que faço soar

dentro da cabeça
uma multidão
onde o mar começa
onde acaba o chão
fora de um corpo
cabe todo o ar
respirar um pouco
já é tanto
dessa ilha
posso partilhar só
o som
que canto

Letra: Arnaldo Antunes
Música: Danças Ocultas
Intérprete: Danças Ocultas* com Dora Morelenbaum (in CD “Dentro Desse Mar”, Danças Ocultas/Sony Music, 2018)

*Danças Ocultas:
Artur Fernandes – acordeão diatónico (melodias)
Filipe Cal – acordeão diatónico (acordes e ritmo harmónico)
Filipe Ricardo – acordeão diatónico (baixos)
Francisco Miguel – acordeão diatónico (contrapontos: respostas às melodias)
Músicos convidados:
Dora Morelenbaum – voz
Jaques Morelenbaum – violoncelo
David Feldman – piano eléctrico
Marcelo Costa – percussões

Em ti a navegar

[ Barca Catraia ]

Em ti a navegar
Na barca, pescador,
Ardentia no mar,
Ancorado amor.

À proa levado
Teu nome escrevi,
Riso afogado
No sal que escorri.

Vento abraçado
Que me leva a voz;
Reverso cantado
O que me traz à foz.

Seja vela alva
A que vai e que vem
E a barca salva
Das tormentas que tem.

Vestida de redes
Por mim adornada,
Desejos e sedes
Na vaga salgada.

Entranhas doridas
E golpes nos dedos;
Amantes queridas,
Rasgados segredos.

Espero, catraia,
Navegando em ti:
Da barca não caia
Nem nos ais que ouvi!

Seja vela alva
A que vai e que vem
E a barca salva
Das tormentas que tem.

Letra e música: Lindolfo Paiva
Intérprete: Dialecto*
Versão original: Dialecto (in CD “Aromas”, Dialecto/Cloudnoise, 2011)

Foram-se as cores

[ Canto Trágico dos Corvos de São Vicente ]

Letra e música: Carlos Norton
Intérprete: OrBlua (in Livro/CD “Retratos Cinéticos”, Fungo Azul/Ocarina, 2015)

Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro…

Madrugada de outono passou rente ao promontório;
Beijou o vento o mar que abraçava o rochedo:
Dia de nascer uma tragédia,
Maldição há muito amaldiçoada;
O casco esventrado solta o monstro
No manto da besta do negrume.

Soprou amargo e revolto, trazido na maré;
Vestia negro e dançava, como seda sobre a água:
Esmaga e volta a atormentar o mar
Nos teus braços da asfixia!
Salta, corvo, da tua barca
Alertar quem te desconhecia!

Já não esvoaçam aromas, só do fumo do negreiro;
Foge o riso do sorriso, fica a alma abandonada:
Fecha portas e portadas!
Lá fora, morte sem canção;
Lenta, espalha a tua calma,
Tenebrosa desolação!

Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro.
Foram-se as cores embora;
Na solidão sopra um negro…

Vai lá ver quem se matou, ou se algum ainda sobrou,
Que o negro tudo cobre nessa lenta agonia!
Tempo de partir, abandonar;
Lamentar a grande tentação;
Longa, a negra noite veio
Tudo adormecer.

Gaivotas em terra

Letra: Mascarenhas Barreto
Música: António dos Santos
Intérprete: António dos Santos (1968) (in CD “O Melhor de António dos Santos”, EMI-VC, 1992)

Gaivotas em terra, de asas fechadas;
marujos sem rumo, num banco dum bar;
barcaças dormentes, no cais ancoradas;
meninas morenas que pensam casar…

Preciso é que voem, que batam as asas;
preciso é que deixem as altas janelas;
preciso é que saiam as portas das casas;
preciso é que soltem amarras e velas…

As asas são duas, se acaso uma ave
quiser cortar céu, lançar-se no ar…
A barca só voga, se a brisa suave
quiser, ternamente, casá-la com o mar…

Marujos sozinhos, pensando outro mundo;
meninas em casa, fiando desejo…
Preciso é que cruzem seu olhar profundo;
preciso é que colem as bocas num beijo!

Mãos de marinheiro não temem procelas,
se houver outras mãos, p’ra além vendaval,
rezando por ele e tecendo outras velas
mais brancas, mais belas, do seu enxoval!

Mar, espuma

[ Canção do Marinheiro ]

Letra: Caetano Filgueiras
Música: José Barros
Arranjo: José Manuel David
Intérprete: Navegante (in CD “Meu Bem, Meu Mal”, Tradisom, 2008)

Mar, espuma, céus e nuvens,
Sargaço, peixes, gaivotas…
Eis aqui os agiotas
Que cercam o nosso balcão!
Já vês, portanto – fragata:
Por falta de compradores,
Nem mesmo nossos amores
Nos saem do coração.

Ai menina!… Tu não sabes
Quanto é bom ser marinheiro!
E ficar com um ar trigueiro
Por aventuras no mar!

Mas isso foi até quando
Virei no bordo de terra,
E te avistei e disse – ferra!
Mas era tarde, bati…
Ao choque da pedra dura
Saltou-me do leme a cana;
Perdi logo a tramontana,
O casco só não perdi…

Ai menina!… Tu não sabes
Quanto é bom ser marinheiro!
E ficar com um ar trigueiro
Por aventuras no mar!

Tem pena de mim, sereia!
Já que não posso em teu porto
Achar o mesmo conforto
Que outrora no mar achei…
A nado põe o meu barco,
Que eu logo e logo outro rumo
Só de guindola e sem prumo,
Te juro, demandarei!

Ai menina!… Tu não sabes
Quanto é bom ser marinheiro!
E ficar com um ar trigueiro
Por aventuras no mar!
[bis]

Por aventuras no mar!
Por aventuras no mar!

Mar

Poema: Miguel Torga (in “Poemas Ibéricos – História Trágico-Marítima”, 1965; “Poesia Completa”, 2000)
Música: ?
Intérprete: João Braga (in CD “Fado Fado”, BMG Portugal, 1997)

Mar!
Tinhas um nome que ninguém temia:
Era um campo macio de lavrar
Ou qualquer sugestão que apetecia…

Mar!
Tinhas um choro de quem sofre tanto
Que não pode calar-se, nem gritar,
Nem aumentar nem sufocar o pranto…

Mar!
Fomos então a ti cheios de amor!
E o fingido lameiro, a soluçar,
Afogava o arado e o lavrador!

Mar!
Enganosa sereia rouca e triste!
Foste tu quem nos veio namorar,
E foste tu depois que nos traíste!

Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de nos tentar
O teu encantamento!

O mar a salgar-nos a vida

[ Quem Anda ao Mar ]

O mar a salgar-nos a vida
E a vida sem sal
O vento a empurrar-nos a alma
Contra o temporal
Mas quando o destino
Foi tudo o que herdámos
Dos nossos avós
É tão pouca a sorte
O vento é tão forte
Que há-de ser de nós?

As mãos presas na corrente
O tempo a passar
O mar a gastar-nos os anos
E o medo a ficar
No fundo das águas
Descansam mil mágoas
Do nosso sofrer
A manhã clareia
A rede vem cheia
Que mais posso eu querer?

Quem anda ao mar
Não tem dia, não tem hora
Nunca sabe quando chega
Nem quando se vai embora

Os dias são como as ondas
É o mesmo vai-e-vem
O mar é como a saudade
Não poupa ninguém
No vazio da praia
Esvoaça uma saia
Cor negra a sofrer
Que se a calma vaga
Que a manhã me traga
A alegria de o ver

Quem anda ao mar
Não tem dia, não tem hora
Nunca sabe quando chega
Nem quando se vai embora

Dizem que o mar também chora
E é como um barco sem ter farol
Chora p’la Lua que se foi embora
Como uma louca, atrás do Sol
E às vezes as fúrias são tantas
Que não há ninguém que as possa acalmar
A não ser a alma daqueles que andam ao mar

Quem anda ao mar
Não tem dia, não tem hora
Nunca sabe quando chega
Nem quando se vai embora

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha*
Versão discográfica anterior: Sebastião Antunes & Quadrilha com Tim (in CD “Perguntei ao Tempo”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2019)
Versão original: Quadrilha (in CD “Entre Luas”, Ovação, 1997)
Outra versão: Quadrilha (in CD “Deixa Que Aconteça: Ao Vivo”, Vachier & Associados/Ovação, 2006)

O mar não é de ninguém

[ Ninguém É Dono do Mar ]

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes (in CD “Singular”, Sebastião Antunes & Quadrilha/Alain Vachier Music Editions, 2017)
Versão original: Quadrilha (in CD “Quarto Crescente”, Vachier & Associados/Ovação, 1999)
Outra versão de Quadrilha (in CD “Deixa Que Aconteça: Ao Vivo”, Vachier & Associados/Ovação, 2006)

O mar não é de ninguém
Ninguém é dono do mar
Nem aqueles que lá sabem navegar

Se eu um dia não voltar
Desenha o meu nome no chão
Pede um desejo às ondas do mar
E guarda-o na tua mão

Sempre que a noite vier
Quando não houver luar
Dá o desejo a uma onda qualquer
E pede-lhe p’ra eu voltar

Trago o destino das águas
No aguardar dos rochedos
Dizem que o tempo é que apaga as mágoas
Quem será que apaga os medos?

O mar não é de ninguém
Ninguém é dono do mar
Nem aqueles que lá sabem navegar

E se depois eu vier
Foi porque o mar te escutou
Deixa os sorrisos correrem p’la praia
Que o temporal acabou

Os búzios soam

[ Segredos do Mar (Mistiká tis Thalassas) ]
Letra e música: Samuel Lopes
Intérprete: Citânia
Versão original: Citânia com Maria Zogopoulou & Vitorino (in Livro/CD “Segredos do Mar”, Seven Muses, 2011)

Os búzios soam o ritmo das marés
A preia-mar dá à costa uma carta de amor
Da minha janela vejo um navio a passar
Um marinheiro lá bem longe diz adeus

A Lua guarda eternos segredos
Mais profanos da nossa paixão
O Mar liberta e solta os medos
Que se escondem no teu coração

A carta dizia amor vou partir
Oxalá um dia te volte a encontrar
No sorriso da lua vejo o teu coração
Ainda sinto o teu cheiro na brisa do mar

A Lua guarda eternos segredos
Mais profanos da nossa paixão
O Mar liberta e solta os medos
Que se escondem no teu coração

Tão bonita és

[ Música de Mar ]

Poema: Pedro Barroso
Música: Imanol (Manuel Eusebio Larzábal Goñi, 1947-2004)
Intérprete: Pedro Barroso (in LP “Pedro Barroso”, Schiu!/Transmédia, 1988)

Tão bonita és, tão bonita estás,
tão bonita és, como vais?
Paro p’ra te ver para lá do olhar
e param-me as mãos a pensar.

Tão pura, tão simples, tão meiga de ouvir:
canto de embalar e dormir,
eixo ribaldeixo como a cantilena
que tu soletraste em pequena.

Tão bonita és, tão bonita estás,
tão bonita és, como vais?
Quando nos invades, quando nos tormentas,
risos, choros, silêncios inventas.

Música e amante mal te conheci,
três vidas num instante vivi;
música de mar que nas ondas vem
toca-me nos dedos também!

Tão bonita és, tão bonita estás,
tão bonita és, como vais?
Como hei-de compor, como hei-de cantar
tanto qu’inda tens p’ra me dar?

Como uma criança canta a tabuada
e junta três sons encantada,
assim te encontramos a ti, melodia,
nós que cinzentamos o dia.

Tão bonita és, tão bonita estás,
tão bonita és, como vais?
Viril, feminina, velhota ou senhora,
riso de menina e doutora.

Nua te despi, nua te deixei
e entre sol e lua cantei.
Como poderemos nós falar de ti
se andamos tão longe e tu aqui?!

Tem mil anos uma história

[ Sete Mares ]

Letra: Francisco Menezes
Música: Sétima Legião
Intérprete: Sétima Legião (in “Mar d’Outubro”, EMI-VC, 1987; reed. 1988)

Tem mil anos uma história
De viver a navegar
Há mil anos de memórias a contar
Ai, cidade à beira-mar
Azul

Se os mares são só sete
Há mais terra do que mar…
Voltarei amor com a força da maré
Ai, cidade à beira-mar
Ao sul

Hoje
Num vento do norte
Fogo de outra sorte
Sigo para o sul
Sete mares

Foram tantas as tormentas
Que tivemos de enfrentar…
Chegarei amor na volta da maré
Ai, troquei-te por um mar
Ao sul

Hoje
Num vento do norte
Fogo de outra sorte
Sigo para o sul
Sete mares

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Casal

A lua nasceu

[ Canção de Embalar ]

A lua nasceu e cresceu no além,
A noite surgiu também.
Faz ó-ó, meu amor,
Porque eu velo por ti!
Só aos anjos a lua sorri.

Tu verás, meu amor,
Como é bom sonhos ter:
Deus te dê os melhores que houver.
Faz ó-ó, meu amor,
Porque eu velo por ti!
Só aos anjos a lua sorri.

E tens, porque eu sei e roguei ao Senhor,
Um sonho de paz e amor.
Meu amor, vai dormir!
Vai dormir e sonhar!
Deixa a lua sorrir lá no ar.

Tu verás, meu amor,
Como é bom sonhos ter:
Deus te dê os melhores que houver.
Faz ó-ó, meu amor
Porque eu velo por ti!
Só aos anjos a lua sorri.

Letra e música: Tradicional
Intérprete: Musica Nostra* (in CD “Cantos da Terra”, Açor/Emiliano Toste, 2009)

Amor com amor se paga

Amor com amor se paga.
Porque não pagas, amor?
Olha que Deus não perdoa
A quem é mau pagador!

Amor, não me escrevas cartas,
Que, bem sabes, não sei ler!
Quando sentires saudades,
Perde um dia e vem-me ver!

Amor com amor se paga:
Nunca vi coisa mais justa;
Paga-me contigo mesma,
Meu amor, pouco te custa!

Ainda depois de morto,
Debaixo do frio chão,
Hás-de achar o teu nome
Escrito no meu coração.

Dá-me um beijo, eu dou-te dois!
A minha paga é dobrada:
É o jeito de quem ama,
Pagar e não dever nada.

Amor com amor se paga:
Nunca vi coisa mais justa;
Paga-me contigo mesma,
Meu amor, pouco te custa!

Amor com amor se paga.
Porque não pagas, amor?
Olha que Deus não perdoa
A quem é mau pagador!

Amor, não me escrevas cartas,
Que, bem sabes, não sei ler!
Quando sentires saudades,
Perde um dia e vem-me ver!

Amor com amor se paga:
Nunca vi coisa mais justa;
Paga-me contigo mesma,
Meu amor, pouco te custa!

Letra: Quadras populares
Música: César Prata
Arranjo: César Prata e Vânia Couto
Intérprete: César Prata e Vânia Couto
Versão original: César Prata e Vânia Couto (in CD “Rezas, Benzeduras e Outras Cantigas”, Sons Vadios, 2019)

Ao meio do quarto

[ Na Volta de um Beijo ]

Ao meio do quarto uma rosa cai no chão
Ao fundo do peito uma letra sem canção
Ao canto da sala guitarras sem bordão
Lá fora do meu peito andas tu e o meu perdão

Sentada cá dentro olho a cruz, está sem pregão
Caiu-me a jarra das mãos, caiu uma rosa de paixão
Fechaste o teu peito, levaste-me o coração
Agora andas tu lá fora, sozinho sem paixão

Chora, chora, e a mim que se me dá!
Chora, chora, e a mim que se me dá!

Eu hei-de ir à romaria pedir a Nossa Senhora
Que me traga o meu amor que anda pelo mundo fora
E assim vê-lo na volta, na volta de um beijo
Eu hei-de vê-lo na volta, na volta de um beijo

Eu hei-de vê-lo na volta, na volta de um beijo
Eu hei-de vê-lo na volta, na volta de um beijo

Eu hei-de vê-lo na volta, na volta de um beijo

Letra: Tradicional e Tiago Curado de Almeida
Música: Tiago Curado de Almeida (com motivo melódico de “Boys Don’t Cry”, da autoria de Robert Smith)
Intérprete: Pensão Flor* (in CD “O Caso da Pensão Flor”, Pensão Flor/Brandit Music, 2013)

* Pensão Flor:
Vânia Couto – voz
Tiago Curado de Almeida – guitarra clássica
Luís Pedro Madeira – piano, acordeão
Manuel Portugal – guitarra portuguesa
Luís Garção Nunes – cordofones (cordas de aço dedilhadas)
Pedro Lopes – viola de fado
Gonçalo Leonardo – contrabaixo
Convidados especiais:
Manuel Rocha – violino
João Ventura – 1.º violino
Daniel Silva – 2.º violino
Filipa Bandeira – viola de arco
Lydia Pinho – violoncelo
Produzido por Luís Pedro Madeira & Tiago Curado de Almeida
Gravado na Casa das Caldeiras (Coimbra), no Estúdio GRB (Coimbra) e no Estúdio HCU (Lisboa)
Misturado por Jorge Barata no Estúdio HCU (Lisboa)

Chamava-se Nini

[ Nini dos Meus Quinze Anos ]

Letra: Fernando Assis Pacheco
Música: Paulo de Carvalho
Intérprete: Paulo de Carvalho* (in LP “Volume I”, 1978; CD “Vida”, Farol, 2006)

Chamava-se Nini
Vestia de organdi
E dançava (dançava)
Dançava só pra mim
Uma dança sem fim
E eu olhava (olhava)

E desde então se lembro o seu olhar
É só pra recordar
Que lá no baile não havia outro igual
E eu ia para o bar
Beber e suspirar
Pensar que tanto amor ainda acabava mal

Batia o coração mais forte que a canção
E eu dançava (dançava)
Sentia uma aflição
Dizer que sim, que não
E eu dançava (dançava)

E desde então se lembro o seu olhar
É só pra recordar
Os quinze anos e o meu primeiro amor
Foi tempo de crescer
Foi tempo de aprender
Toda a ternura que tem o primeiro amor
Foi tempo de crescer
Foi tempo de aprender
Que a vida passa
Mas um homem se recorda, é sempre assim
Nini dançava só pra mim

E desde então se lembro o seu olhar
É só pra recordar
Os quinze anos e o meu primeiro amor
Foi tempo de crescer
Foi tempo de aprender
Toda a ternura que tem o primeiro amor
Foi tempo de crescer
Foi tempo de aprender
Que a vida passa
Mas um homem se recorda, é sempre assim
Nini dançava só pra mim

Chamei-te linda

Chamei-te linda, engraçada
Da graça que Deus te deu
E tu deste uma risada
Quem a não tinha era eu

Que mais eu posso fazer
Fazer eu posso, ai de mim
P’ra um dia te ouvir dizer
Ouvir-te dizer que sim

Deixa-me ao menos a esperança
A derradeira a morrer
“Quem espera sempre alcança”
Foi sempre o que ouvi dizer

És a flor que mais desejo
Das flores do meu roseiral
Quanto, rosa, te não vejo
A vida corre-me mal

Sei que tu és o meu par
Sei que nasceste p’ra mim
Não se devem afastar
Flores do mesmo jardim

Rosa branca, tua cor,
No dia em me quiseres
Farei de ti, meu amor,
A mais feliz das mulheres

És a flor que mais desejo
Das flores do meu roseiral
Quanto, rosa, te não vejo
A vida corre-me mal

Sei que tu és o meu par
Sei que nasceste p’ra mim
Não se devem afastar
Flores do mesmo jardim

Rosa branca, tua cor,
No dia em me quiseres
Farei de ti, meu amor,
A mais feliz das mulheres

Letra e música: Aníbal Raposo (2011-02-13)
Intérprete: Aníbal Raposo (in CD “Rocha da Relva”, Aníbal Raposo/Global Point Music, 2013)

Coração, meu coração

[ Coração Que me Pertence ]

Coração, meu coração
Que sonhavas esta vida,
Por que razão tu paraste?
Não digas que adivinhaste
Na hora da despedida
Desta sublime afeição?

Quantas horas, tantas horas
Esvoaçaste de mansinho
No carinho do meu jeito!
Já nem sabes onde moras,
Descuidado passarinho,
Se no teu se no meu peito.

Fechei meus olhos perdidos,
Não fosse com o desgosto
Rogarem-te alguma praga…
Que os teus hão-de ver, sentidos,
No braseiro do sol-posto
O sangue da minha mágoa.

E no fogo da ambição,
Que ao amor julga que vence,
Queimaste a minha raiz…
Como pode ser feliz
Coração que me pertence
No calor duma outra mão?

Como pode ser feliz
Coração que me pertence
No calor duma outra mão?

Letra e música: Armando Estrela
Intérprete: Tereza Tarouca* (in single “O Mangas / Coração Que me Pertence”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1979; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994)

* Tereza Tarouca – voz
Conjunto de Guitarras de António Chainho:
António Chainho – 1.ª guitarra portuguesa
José Luís Nobre Costa – 2.ª guitarra portuguesa
José Maria Nóbrega – viola
Raul Silva – viola baixo
Produção – António Chainho
Técnico de som – Luís Alcobia

Dei-te um desenho meu

[ Eu gosto de ti ]

Dei-te um desenho meu
Feito com as cores do céu
Pra guardares junto a ti
Sempre que eu for embora

Dei-te um desenho meu (dei-te em desenho meu)
Que não caiu do céu
Com os teus lápis de cor
Juntei o teu amor ao meu

Recordações de belas canções
Contigo, baixinho
Recordações de nós

Sei que o tempo passa, voa
Que eu sinto falta
Mas o caminho é voltar
Sempre
Pra te poder abraçar

Sempre
O meu caminho é voltar pra dizer
Eu gosto de ti
Sim, eu
Eu gosto de
Eu gosto de ti

Dei-te um desenho meu (dei-te em desenho meu)
Feito com as cores do céu
Pra guardares junto a ti sempre que eu for
Embora

Recordações daqueles verões
Contigo, contigo
Recordações de nós

Sei que o tempo passa, voa
Que eu sinto falta
Mas o caminho é voltar
Sempre
Pra poder te abraçar
Sempre

O meu caminho é voltar pra dizer
Eu gosto de ti
Sim, sim eu
Eu gosto de ti
Eu gosto de ti
Sim gosto
Sim, eu
Eu gosto de ti
Eu gosto de ti
Sim, eu
Eu gosto
Eu gosto de ti

Música: Marisa Liz, Tiago Pais Dias
Intérprete: Elas (Áurea, Marisa Liz)

Descobri-te na minha boca

[ Quebranto ]

Descobri-te na minha boca
Na minha pele fria deixada na cama vazia
Encontrei o teu sabor nos meus lábios
Nos lençóis caídos no chão
Na manhã de uma primeira noite
Do teu corpo inundado em mim
Só não estás tu e o meu coração

Saí de casa à vossa procura
Sem eira nem beira
Como vagabunda, sem faro, sem dono
Parei na tua rua onde te encontrei
Pela primeira vez
Entre um copo de vinho e um fado vadio
Só não estás tu e o meu coração

Onde estás, coração?
Esse homem ladrão
Que me fez um quebranto
Canto, suor, engano cigano, um encanto
Coração!
Onde estás, coração?
A vida tropeça nas mãos
Deita-se contigo e foge na madrugada

Perdida, relembro-te à mesa
Entre a neblina do fumo e um sorriso mudo
Como quem pede por mim
Sentei-me, falaste com a guitarra
Primeira vez que te vi
Primeira vez que me dei
Sem pudor nem amor
Até que percebi:
Só não estás tu e o meu coração

E agora só me resta a noite
Sou um corpo dos outros
Sem alma, sem fé nem desdém
Despida de amor
Teu corpo uma canção que não pára
Meu corpo a tua guitarra
Meu fado é um filho perdido
Sozinho nas ruas sem mim
Já não sou eu, perdi o meu coração

Onde estás, coração?
Esse homem ladrão
Que me fez um quebranto
Canto, suor, engano cigano, um encanto
Coração!
Onde estás, coração?
A vida tropeça nas mãos
Deita-se contigo e foge na madrugada

Letra e música: Vânia Couto
Intérprete: Pensão Flor (in CD “O Caso da Pensão Flor”, Pensão Flor/Brandit Music, 2013)

É a tua vida que eu quero bordar

[ A Linha e o Linho ]

É a tua vida que eu quero bordar na minha
Como se eu fosse o pano e tu fosses a linha
E a agulha do real nas mãos da fantasia
Fosse bordando ponto a ponto o nosso dia-a-dia
E fosse aparecendo aos poucos o nosso amor
Os nossos sentimentos loucos, o nosso amor
O zig-zag do tormento, as cores da alegria
A curva generosa da compreensão
Formando a pétala da rosa, da paixão
A tua vida o meu caminho, o nosso amor
Tu és a linha e eu o linho, o nosso amor
A nossa colcha de cama, a nossa toalha de mesa
Reproduzidos no bordado
A casa, a estrada, a correnteza
O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza

A tua vida o meu caminho, o nosso amor
Tu és a linha e eu o linho, o nosso amor
A nossa colcha de cama, a nossa toalha de mesa
Reproduzidos no bordado
A casa, a estrada, a correnteza
O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza

Letra e música: Gilberto Gil
Intérprete: Celina da Piedade
Primeira versão de Celina da Piedade (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)
Versão original: Gilberto Gil (in LP “Extra”, Warner Bros. Records, 1983, reed. WEA Discos, 1995)

Ela tem a boca torta

[ Os embeiçados ]

Ela tem
boca torta
nariz grande
cabelo mal cortado
rói as unhas
usa cunhas
mas eu estou apaixonado

Ele tem
espinhas sardas
pontos negros
e uma boca exagerada
desafina
e desatina
mas eu estou apaixonada

Ela é
ciumenta
rabugenta
embirrenta e tagarela
intriguista
e moralista
mas eu estou louco por ela

Ele faz
cenas gagas
altas fitas
não tem confiança em mim
faz-se caro
faz-me trombas
mas eu gosto dele assim

Diz-se que o amor é cego
deforma tudo a seu jeito
mas eu acho que o amor
descobre o lado melhor
do que parece defeito

Porque eu gosto
gosto dele
e ela gosta
gosta de gostar de mim

Letra: Regina Guimarães
Música: Hélder Gonçalves
Intérprete: Clã

Em tenra laranjeira

[ Fado Laranjeira ]

Em tenra laranjeira, ainda pequenina,
Onde poisava o melro ao declinar do dia,
Depois de te beijar a boca purpurina,
Um nome ali gravei: o teu nome, Maria.

Em volta um coração também com arte e jeito,
Ao circundar teu nome a minha mão gravou:
Esculpi-lhe uma data e o trabalho feito,
Como selo de amor, no tronco lá ficou.

Mas no rugoso tronco eu vejo com saudade
O símbolo do amor que em tempos nos uniu:
Cadeia de ilusões da nossa mocidade
Que o tempo enferrujou e que depois partiu.

E à linda laranjeira, altar pagão do amor,
Que tem a cor da esperança, a cor das esmeraldas,
Vão as noivas colher as simbólicas flores
Para tecer num sonho as virginais grinaldas.

Letra: Júlio César Valente
Música: Alfredo Duarte “Marceneiro” (Fado Alexandrino da Laranjeira)
Arranjo: Filipe Raposo e Marta Pereira da Costa
Intérprete: Marta Pereira da Costa com Camané (in CD “Marta Pereira da Costa”, Marta Pereira da Costa/Parlophone/Warner Music, 2016)
Versão original: Alfredo Marceneiro (in LP “Há Festa na Mouraria”, Columbia/VC, 1965, reed. Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; CD “O Melhor de Alfredo Marceneiro: Vol. 2”, EMI-VC, 1993; CD “Alfredo Marceneiro: Biografias do Fado”, EMI-VC, 1997; CD “Alfredo Marceneiro: Perfil”, Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2010)

Esta noite ao acordar

[ Amor para Dar ]

Esta noite ao acordar
Saltei o muro p’ra ficar por cá
Deixei de ter p’ra ver que ainda há
Amor p’ra dar

Esta noite p’la manhã
Fechei a porta p’ra poder sair
Da cepa torta sem ter p’ra onde ir
E ter de andar

Hoje tive a tentação
De te dizer que sim e porque não
Pedir-te que vás p’ra voltar
Fiquei com a convicção
Que no amor mais vale ser um na mão
Que dois sem amor p’ra dar

  No amor p'ra dar tem de haver amor p'ra dar
  No amor p'ra dar tem de haver amor p'ra dar

Esta tarde ao clarear
Soltei a corda só p’ra me prender
Gritei bem alto p’ra te adormecer
E acordar

Ontem quando eu regressar
Vou dar-te a mão p’ra te deixar partir
Dar-te a razão só p’ra te ver sorrir
E acreditar

No tempo em que acontecer
É bom saber como é bom não saber
De nada p’ra não te contar
E por falar em querer
Gostar de ti e não querer dizer
P’ra nem te deixar duvidar

  No amor p'ra dar tem de haver amor p'ra dar
  No amor p'ra dar tem de haver amor p'ra dar

Ouvi dizer que as lembranças
São novas verdades p’ra nos acordar
Ouvi contar que as mudanças
São novas vontades p’ra nos ajudar

  No amor p'ra dar tem de haver amor p'ra dar
  No amor p'ra dar tem de haver amor p'ra dar (...)

Letra e música: Sebastião Antunes
Arranjo: Gonçalo Pratas
Intérprete: Sebastião Antunes* (in CD “Singular”, Sebastião Antunes & Quadrilha/Alain Vachier Music Editions, 2017)

Esta vida

[ Não Há Dinheiro ]

Esta vida, como vês,
É sempre a ver se chega o fim do mês
Mas por muito que eu não queira
Acaba sempre da mesma maneira

Falta isto, falta aquilo
Eu já nem sei o que é que falta primeiro:
Se é o dinheiro que falta
Ou a falta que me faz ter o dinheiro

A jorna não dá p’ra nada,
E a gente sempre a dizer que tem que dar
Já passaram mais uns dias
E o dinheiro está outra vez a acabar

Não há dinheiro, não há dinheiro!
Andamos nesta conversa o ano inteiro.
Não há dinheiro, não há dinheiro!
É cada um que se amanhe,
Não há dinheiro!

Eu queria falar contigo
Mas não sei como é que te hei-de dizer
Eu fui sempre teu amigo
Não sei se já me estás a perceber

É que a coisa está difícil

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha*
Versão discográfica anterior: Sebastião Antunes & Quadrilha (in CD “Perguntei ao Tempo”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2019)
Versão original: Quadrilha (in CD “Entre Luas”, Ovação, 1997)

Esta voz com que canto

Esta voz com que canto
Vem-me d’alma e o tempo
Ensinou-me o encanto
Do vento.

É a voz de amor
Que vem cá de dentro;
É o grito exterior
Do pensamento.

O meu amor é todo para ti:
Desde que te conheci
Canto os teus olhos, a terra e todo o mundo,
O meu sentimento mais profundo.

O meu amor é todo para ti:
Desde que te conheci
Canto os teus olhos, a terra e todo o mundo,
O meu sentimento mais profundo.

O meu amor é todo para ti:
Desde que te conheci
Canto os teus olhos, a terra e todo o mundo,
O meu sentimento mais profundo.

[ Um Canto de Mim ]

Letra e música: Daniel Pereira
Intérprete: Arrefole (in CD “Veículo Climatizado”, Açor/Emiliano Toste, 2006)

Eu fui, tu foste, ele foi

[ Artes do Futuro ]

Eu fui, tu foste, ele foi
Talvez para sempre
Como é da nossa humana
Condição
Levados todos no acre improviso
Da loucura

Mas tu, diva esquecida
Música que eu faço
e me transcendes
Sentada na berma
do sonho apetecido
voltas a despertar
do vendaval da espera
e regressas ainda hesitante
nos meus dedos

E o amanhã pode já ter acontecido
hoje mesmo aqui, ao fim da tarde

e assim iremos enganando
as artes do futuro

E o amanhã pode já ter acontecido
hoje mesmo aqui, ao fim da tarde

e assim iremos enganando
as artes do futuro

E o amanhã pode já ter acontecido
hoje mesmo aqui, ao fim da tarde

e assim iremos enganando
as artes do futuro

Que o amanhã pode já ter acontecido
hoje mesmo aqui, ao fim da tarde

e assim iremos enganando
as artes do futuro

Letra e música: Pedro Barroso
Intérprete: Pedro Barroso*
Versão original: Pedro Barroso (in CD “Artes do Futuro”, Ovação, 2017)

Eu queria unir as pedras desavindas

[ Não Me Mintas ]

Eu queria unir as pedras desavindas
escoras do meu mundo movediço
aquelas duas pedras perfeitas e lindas
das quais eu nasci forte e inteiriço

Eu queria ter amarra nesse cais
para quando o mar ameaçar a minha proa
e queria vencer todos os vendavais
que se erguem quando o diabo se assoa

Tu querias perceber os pássaros
Voar como o Jardel sobre os centrais
Saber por que dão seda os casulos
Mas isso já eram sonhos a mais

Conta-me os teus truques e fintas
Será que os Nikes fazem voar
Diz-me o que sabes não me mintas
ao menos em ti posso confiar

Agora diz-me agora o que aprendeste
De tanto saltar muros e fronteiras
Olha p’ra mim vê como cresceste
Com a força bruta das trepadeiras

Põe aqui a mão e sente o deserto
Tão cheio de culpas que não são minhas
E ainda que nada à volta bata certo
eu juro ganhar o jogo sem espinhas

Tu querias perceber os pássaros
Voar como o Jardel sobre os centrais
Saber por que dão seda os casulos
Mas isso já eram sonhos a mais

Letra: Carlos Tê
Música: Rui Veloso
Intérprete: Rui Veloso (in filme “Jaime”, de António Pedro Vasconcelos, 1999; CD “O Melhor de Rui Veloso”, EMI-VC, 2000)

Eu toquei o Sol

[ Lencinho Azul ]

Eu toquei o Sol, beijei o luar,
Tropecei no céu e caí no chão;
Percorri o mundo e fui encontrar
À beira do mar o meu coração.

Do que eu sou
Dei-lhe o meu melhor,
Oh meu doce amor!
Oh minha paixão!

Tudo o que era meu vinha no bornal,
Dei-lhe o pão e mel, dei-lhe a minha mão,
Um lencinho azul feito em Portugal
E os versos de sal da minha canção.

Do que eu sou
Dei-lhe o meu melhor,
Oh meu doce amor!
Oh minha paixão!

Rainha de mim quando me entreguei,
Os braços me abriu num chi-coração;
Beijinhos me deu, beijinhos lhe dei:
Quantos já nem sei, mais do que um milhão.

Do que eu sou
Dei-lhe o meu melhor,
Oh meu doce amor!
Oh minha paixão!

Não saí dali, era já manhã,
Seus lábios carmim tal qual um tição;
De si me prendeu, deu-me uma maçã,
Ofereci-lhe o céu, não disse que não.

Do que eu sou
Dei-lhe o meu melhor,
Oh meu doce amor!
Oh minha paixão!

Do que eu sou
Dei-lhe o meu melhor,
Oh meu doce amor!
Oh minha paixão!

Letra: José Fanha
Música: Fernando Pereira
Intérprete: Real Companhia (in CD “Serranias”, Tê, 2013)

Façam roda

[ Conto do Bicho Papão ]

Façam roda, a ver quem vai ao meio!
Cada um com o seu par tira a pedrinha!
Sirumba, acabei eu primeiro!
Ficas tu a tapar, não dá madrinha!

Já ninguém te pergunta quantos queres
Já não ouves ninguém contar um-dó-li-tá
Afinal qual é o dedo que preferes?
Quem está livre, livre está!

Ninguém fala do homem do saco
Ninguém espreita por baixo do colchão
Já ninguém acredita na Côca
Nem no bicho papão

Salta à corda, joga à barra do lenço!
Adivinha o que eu penso, dá partida!
Falua, quem acerta na malha?
Danada da canalha está fugida!

Salta ao eixo a fugir à cabra-cega!
Olha o meu pião mas eu não to dou, não!
Onde é que anda a viuvinha que não chega
E a sardinha a dar na mão?

Ninguém fala do homem do saco
Ninguém espreita por baixo do colchão
Já ninguém acredita na Côca
Nem no bicho papão

Ai se eu pudesse habitar um jogo electrónico
Voltava a ser falado, voltava a assustar!
Imaginem lá qual não era a sensação
De uma ‘app’ com o jogo do regresso do papão!

Ninguém fala do homem do saco
Ninguém espreita por baixo do colchão
Já ninguém acredita na Côca
Nem no bicho papão

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha*
Versão discográfica anterior: Sebastião Antunes & Quadrilha (in CD “Perguntei ao Tempo”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2019)
Versão original: Quadrilha (in CD “Entre Luas”, Ovação, 1997)

Falei-te

[ Jardim de Poetas ]

Falei-te,
Sem querer, de coisas belas
Como quem abre janelas
P’ra lá do horizonte…

E havia no teu olhar firmamento
Para cem vidas por momento
Ao sabor de um mar de Inverno

E tu,
Sem saber, lá tricotavas
Um romance de palavras
Sem certezas nem futuro

E tu
Sonhavas no areal
Com um jardim de poetas
Superiores e verticais
Que, em rigor, nunca existiu

E tu,
Como se fosse há vinte anos,
Subiste ao alto das rochas
Lá, onde pousam as gaivotas
Subiste ao alto das dunas
Onde o vento, e só o vento te possuiu

Cresceu-te no peito um mar de prata
Como se eu fosse alguma vez exemplo
Como se eu fosse, acaso, alguma vez na vida
A perfeição

Mas quando te contei coisas de mim
Daquelas coisas grandes, que vêm cá de dentro
Caíste em ti do sonho e do jardim
E fiz-te então, amiga, esta canção

E tu
Inda sonhas no areal
Com um jardim de poetas
Superiores e verticais
Que, em rigor, nunca existiu

E tu,
Como se fosse há vinte anos,
Sobes ao alto das rochas
Lá, onde pousam as gaivotas
Sobes ao alto das dunas
Onde o vento te possuiu

E tu
Inda sonhas no areal
Com um jardim de poetas
Superiores e verticais
Que, em rigor, nunca existiu

E tu,
Como se fosse há vinte anos,
Sobes ao alto das rochas
Lá, onde pousam as gaivotas
Sobes ao alto das dunas
Onde o vento, e só o vento te possuiu

Poema e música: Pedro Barroso (Golegã, Novembro de 2000)
Intérprete: Pedro Barroso*
Versão original: Pedro Barroso (in CD “Crónicas da Violentíssima Ternura”, Lusogram, 2001)
Outras versões: Pedro Barroso (in CD “De Viva Voz”, Lusogram, 2002); Pedro Barroso (in DVD “40 Anos de Música e Palavras: 1969-2009”, Ovação, 2009) [>> YouTube]; Pedro Barroso (in DVD “Memória do Futuro: Ao vivo no Rivoli”, Ovação, 2013)

Faz-te mar assim

[ Vals’Ilha ]

Faz-te mar assim, calmo!
Abre-me o caminho…
Guia o meu batel!

Ouço alguém chamar longe…
Pudesse eu sair
Para ver Argel!

Quero então dizer-te:
Vou p’ra bem distante,
Valsa então por mim
Aos raios de sol!

Passou tanto tempo
Do tempo que invento…
Toca-me a saudade.

Canta uma gaivota…
Vejo o mar em volta…
Dançarei contigo.

Dança esta vals’ilha
Aos raios de sol!

Letra e música: Jorge Rivotti
Intérprete: Jorge Rivotti
Versão original: Jorge Rivotti (in CD “Canções de Amor Pintadas de Amarelo”, Vachier & Associados, 2010)

Fui ver se um dia te achava

[ Não Sei Nada sobre o Amor ]

Fui ver se um dia te achava no largo, na praça
Quis dizer-te, contar-te e falar-te e de hoje já não passa
Ai, mas quando te vi as palavras fugiram de mim
Parei, sentei, tanto espreitei, só me escondia de ti

Esperei que as palavras voltassem e me levassem até ti
Ai, mas por que raio espero eu aqui?
Foi então que de tanto esperar atrás do largo da praça
Decorei o sorriso mais lindo, já só quero é andar p’ra ti

Ai, mas de tanto tremer, fugiu-me o sorriso de mim
Querem ver que agora até parece que já nem sei dizer
As palavras mais lindas que guardo só por te ver?!
Ai, mas querem lá ver que contigo não sei nada sobre o amor!

Que contigo não sei nada sobre o amor!
Que contigo não sei nada sobre o amor!
Que contigo não sei nada sobre o amor!

Letra e música: Tiago Curado de Almeida
Intérprete: Pensão Flor*
Versão original: Pensão Flor (in CD “O Caso da Pensão Flor”, Pensão Flor/Brandit Music, 2013)

Há já demasiados segredos

[ O Cheiro ]

Há já demasiados segredos nos poros
para eu encher a noite
de ti mesma.

E um oceano imenso não chega
para eu contar todas as arribas deste sal.

A maresia parou, para saber coisas de ti
e eu tinha nas mãos apenas as rosas de ontem,

e não sabia nem onde
nem como
navegar-te.

De longe trouxe a fé que nem eu sabia
e deitei-me em teus leitos de alfazema e alecrim.
Recolhi quando a noite mansa já
amanhecia…
E devagar
– porque a vida nunca deixa de nos matar um pouco
em cada dia –
foi no teu regaço
que eu adormeci de mim.

E acordei inteiro por sentir o teu cheiro
na cama
e enrolei-me nos lençóis, mesmo já sem ti
de corpo inteiro.

Não quero saber de mais
nem tenho que explicar.

É este o cheiro.
Eu quero aqui ficar.
Eu quero aqui ficar.
É este o cheiro.

E acordei inteiro por sentir o teu cheiro
na cama
e enrolei-me nos lençóis, mesmo já sem ti
de corpo inteiro.

Não quero saber de mais
nem tenho que explicar.

É este o cheiro.
Eu quero aqui ficar.
Eu quero aqui ficar.
É este o cheiro.

Poema e música: Pedro Barroso
Intérprete: Pedro Barroso* (ao vivo no Estúdio 3 da Rádio e Televisão de Portugal, Lisboa)
Versão original: Pedro Barroso (in CD “Sensual Idade”, Ovação, 2008)
Outras versões: Pedro Barroso (in DVD “40 Anos de Música e Palavras: 1969-2009”, Ovação, 2009)

Há voos de pássaros nos teus olhos

[ Poema para o Meu Amor ]

Há voos de pássaros nos teus olhos castanhos de sereia
Batuques africanos no balouçar do teu corpo de gazela
E há frutos maduros na tumidez dos teus pequenos seios
E promessas loucas na humidade dos teus lábios entreabertos

Há como um tango argentino no desafio da tua cintura estreita
Há um doce encanto no urdir das tuas trancinhas de menina
E há estranhos sortilégios escondidos nas tuas mãos de fada
E há rouxinóis magoados, tão magoados de cada vez que cantas

Há ondas de ternura neste teu jeito tão suave
E danças peruanas nas tuas ancas pela alba
Há calor dos trópicos no aperto dos teus braços tão sinceros
E uma paz das ilhas no teu macio leito de princesa

Há druidas, de novo, preparando filtros à sombra de carvalhos
E lagos privados onde nadam altivos cisnes brancos
E há luas de fajãs que riscam no mar trilhos de prata
E nascentes de água que brotam do teu riso cristalino

Letra e música: Aníbal Raposo (Praia Formosa, 2003-08-22)
Intérprete: Aníbal Raposo
Primeira versão discográfica: Aníbal Raposo (in CD “Mar de Capelo”, Açor/Emiliano Toste, 2017)

Hoje o dia foi um dia assim

[ Canção de Nanar ]

Hoje o dia foi um dia assim:
Esta sede e vontade de ti.
Se eu pudesse amar-te mais,
Bem sei que a lua ia dançar também.

Quantas horas faltam p’ra te ver
Nesta espera de aprender a ser?
Mais um som no tom do teu brilhar,
Mais um traço ao sol do teu vibrar.

Vem saber que o que vejo em ti
É sal e sopro e luz dentro de mim;
E a música da terra e ar
Ficam uma só no teu pulsar.

Se ainda não sorris, carmim,
Perdoa a minha falta de cetim!
Nas palavras que não escrevi
Vive o amor que não se escreve.

Se ainda não sorris, carmim,
Perdoa a minha falta de cetim!
Nas palavras que não escrevi
Vive o amor que não se escreve…

Mas está aqui.

Letra e música: Teresa Gentil
Intérprete: Celina da Piedade* (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)

* [Créditos gerais do disco:]
Celina da Piedade – voz e acordeão
Alex Gaspar – coros
António Bexiga – viola campaniça, cavaquinho, guitarra eléctrica e piano
Carlos Menezes – baixo eléctrico e contrabaixo
Filipa Ribeiro – coros
João Eleutério – guitarra eléctrica e coros
João Gil – guitarra folk e coros
Marco Pereira – violoncelo
Nilson Dourado – guitarra clássica
Sebastião Santos – bateria
Produção musical – Celina da Piedade e Alex Gaspar
Produtor musical convidado – João Gil
Produção executiva – Alex Gaspar
Gravação e pré-mistura – João Eleutério, no Estúdio Armazém 42, Évora
Mistura final e masterização – João Paulo Nogueira e Alex Gaspar

Já pensei dar-te uma flor

[ Adivinha o quanto gosto de ti ]

Já pensei dar-te uma flor, com um bilhete, mas nem sei o que escrever.
Sinto as pernas a tremer, quando sorris p’ra mim, quando deixo de te ver.
Vem jogar comigo um jogo, eu por ti e tu por mim.
Fecha os olhos e adivinha, quanto é que eu gosto de ti.

Gosto de ti, desde aqui até à lua.
Gosto de ti, desde a Lua até aqui.
Gosto de ti, simplesmente porque gosto.
E é tão bom viver assim.

Ando a ver se me decido, como te vou dizer, como hei-de te contar.
Até já fiz um avião, com um papel azul, mas voou da minha mão.
Vem jogar comigo um jogo, eu por ti e tu por mim.
Fecha os olhos e adivinha, quanto é que eu gosto de ti.

Gosto de ti, desde aqui até à lua.
Gosto de ti, desde a Lua até aqui.
Gosto de ti, simplesmente porque gosto.
E é tão bom viver assim.

Quantas vezes eu parei à tua porta.
Quantas vezes nem olhaste para mim.
Quantas vezes eu pedi que adivinhasses.
Quanto é que eu gosto de ti.

Gosto de ti, desde aqui até à lua.
Gosto de ti, desde a Lua até aqui.
Gosto de ti, simplesmente porque gosto.
E é tão bom viver assim.

Quantas vezes eu parei à tua porta.
Quantas vezes nem olhaste para mim.
Quantas vezes eu pedi que adivinhasses.
Quanto é que eu gosto de ti.

Gosto de ti, desde aqui até à lua.
Gosto de ti, desde a Lua até aqui.
Gosto de ti, simplesmente porque gosto.
E é tão bom viver assim.

André Sardet

Lá na festa da aldeia

Lá na festa da aldeia,
Debaixo da cameleira,
Convidaste-me a dançar:
Tamanha era a borracheira
Que no adro da igreja
Nos chegámos a casar.

No nariz, sinal de perigo,
Quem dorme contigo
Má sorte vai enfrentar:
Mas na festa da aldeia,
Com as vizinhas na soleira,
Eu fui-me enamorar.

Peço aos dias tempo emprestado
P’ra apagar esta recordação;
Na frase sem predicado
Há vírgulas sem cuidado
Entre o sujeito e o coração.

Entre o sujeito e o coração.

Lá na festa da aldeia,
Debaixo da cameleira,
A saia sempre a rodar:
A tua mão que se esgueira
Debaixo da pregadeira…
Eu vermelha, a corar.

No banco, dívidas, assombros;
Fiado não vais em ombros;
Fim do mês, falta-te o ar;
Debaixo da cameleira
Foi grande a ciumeira,
Começámos a namorar.

Peço aos dias tempo emprestado
P’ra apagar esta recordação;
Na frase sem predicado
Há vírgulas sem cuidado
Entre o sujeito e o coração.

Entre o sujeito e o coração.

Mas na festa da aldeia,
Tu de mão na algibeira,
Nós chegámos a casar:
Porque na festa da aldeia
Debaixo da cameleira
Tu puseste-me a dançar.

Peço aos dias tempo emprestado
P’ra apagar esta recordação;
Na frase sem predicado
Há vírgulas sem cuidado
Entre o sujeito e o coração.

Entre o sujeito e o coração.

Letra: Filipa Martins
Música: Rogério Charraz
Arranjo: João Balão
Intérprete: Rogério Charraz (in CD “Não Tenhas Medo do Escuro”, Rogério Charraz/Compact Records, 2016)

Lindos olhos tem Silvina

[ Ai Silvina, Silvininha ]

Lindos olhos tem Silvina,
lindas mãos Silvina tem,
e a cintura da Silvina
é fina como o azevém.

Em Silvina tudo exala
um cheiro de coisa fina,
mas o que a nada se iguala
é a fala da Silvina.

— Porque não cantas, Silvina?
Se a tua voz é tão doce
talvez cantada que fosse
mais doce que a glicerina.

— Não me apetece cantar
e muito menos p’ra ti.
Eu sou nova, tu és velho,
já não és homem p’ra mim.

— Não me tentes, Silvininha,
que eu já nem te olho a direito.
Sou como um ladrão escondido
na azinhaga do teu peito.

— A azinhaga do meu peito
corre entre duas colinas.
E o ladrão do meu amor
tem pé leve e pernas finas.

— Canta, canta, Silvininha,
como se fosse p’ra mim.
Dar-te-ei um lençol de estrelas
e uma enxerga de alecrim.

— Deixa o teu corpo estendido
à terra que o há-de comer.
A tua cama é de pinho,
teus lençóis de entristecer.

— Canta, canta, Silvininha,
uma canção só p’ra mim.
Dar-te-ei um escorpião de oiro
e um aguilhão de marfim.

— Não quero o teu escorpião,
nem de oiro nem de prata.
Quero o meu amor trigueiro
que é firme e não se desata.

— Pois não cantes, Silvininha,
se essa é a tua vontade.
Canto eu, mesmo assim velho,
que o cantar não tem idade.

Hás-de ser tu morta e fria,
cem anos se passarão,
já de ti ninguém se lembra
nem de quem te pôs a mão.

Mas sempre há-de haver quem canta
os versos desta canção:
Ai Silvina, ai Silvininha,
Amor do meu coração.

Letra: António Gedeão (adaptado)
Música: Alain Oulman
Intérprete: Camané (in 2CD “Camané: O Melhor 1995-2013 (Edição Especial)”: CD 1, EMI, 2013)
Versão original (música de José Barros): José Barros e Navegante com Verónica (in CD “Rimances”, JBN, 2001)
Outra versão de José Barros e Navegante, com Isabel Silvestre (in DVD “Cantares do Povo Português”, Ocarina, 2012)

Menina das tranças negras

[ Os Olhos com que Eu te Vejo ]

Menina das tranças negras
Levanta a cara bonita
Que se o caminho tem pedras
A esperança é infinita
Menina das tranças negras
Ai ai, larai, lai ai

Menina dos meus encantos
Princesa do meu destino
Os meus anseios são tantos
Que o meu fado é um desatino
Menina dos meus encantos
Ai ai, larai, lai ai

Mal-me-quer ou bem-me-quer
Muito, pouco ou nada
Eu só quero tudo
O que o amor quiser
Diga o mundo o que disser
Muito, pouco ou nada
Bem-me-queres tudo
Nada mal-me-quer

Senhora dos olhos tristes
Objecto do meu desejo
Eu sei que nunca te vistes
Nos olhos com que eu te vejo
Menina dos olhos tristes
Ai ai, larai, lai ai

Mal-me-quer ou bem-me-quer
Muito, pouco ou nada
Eu só quero tudo
O que o amor quiser
Diga o mundo o que disser
Muito, pouco ou nada
Bem-me-queres tudo
Nada mal-me-quer
Menina dos olhos tristes
Ai ai, larai, larai, lai ai

Mal-me-quer ou bem-me-quer
Muito, pouco ou nada
Eu só quero tudo
O que o amor quiser
Diga o mundo o que disser
Muito, pouco ou nada
Bem-me-queres tudo
Nada mal-me-quer

Letra: J.J. Galvão (José João Oliveira Galvão)
Música: Rui Filipe Reis
Intérprete: Rosa Negra (in CD “Fado Mutante”, iPlay, 2011)

Meu amor disse que eu tinha

[ Cantiga de Seguir ]

Meu amor disse que eu tinha
Uns olhos como gaivotas
E uma boca onde começa
O mar de todas as rotas.

O mundo dá tanta volta;
Quem dera que fora assim
E que, numa dessas voltas,
Tu viesses para mim.

Sei que ele um dia virá,
Assim muito de repente,
Como se o mar e o vento
Nascessem dentro da gente.

Letra: Manuel Alegre (1.ª e 3.ª quadras) e Francisco Menano
Música: Ricardo Ribeiro e Pedro Caldeira Cabral
Intérprete: Ricardo Ribeiro (in CD “Largo da Memória”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2013)

Meu Amor Eterno

Meu Amor Eterno,
Doce verde olhar,
Ilumina o meu caminho!
Acompanha o meu andar!

Meu Amor Eterno,
Mãos de acarinhar,
Segura no teu menino!
Ajuda-me a continuar!

Meu Amor Eterno,
Fada do meu lar,
Alimenta-me a saudade!
Sacia o meu paladar!

Meu Amor Eterno,
Cordão de umbilicar,
Relembra-me do teu cheiro!
Não me deixes de cantar! [bis]

Ema te fez,
Deus te criou,
Paulo te abriu,
José completou.

“Morrer por morrer!”,
Disseste-o assim;
Da tua coragem
Tiveste-me a mim.

Meu Amor Eterno,
Cordão de umbilicar,
Relembra-me do teu cheiro!
Não me deixes de cantar! [3x]

Letra: Rogério Charraz (dedicada à sua Mãe)
Música: Rogério Charraz e Júlio Resende
Arranjo: Júlio Resende
Intérprete: Rogério Charraz (in CD “Não Tenhas Medo do Escuro”, Rogério Charraz/Compact Records, 2016)

Na Rua dos Meus Ciúmes

Na rua dos meus ciúmes,
Onde eu morei e tu moras,
Vi-te passar fora de horas
Com a tua nova paixão;
De mim não esperes queixumes
Quer seja desta ou daquela,
Pois sinto só pena dela
E até lhe dou meu perdão…
Na rua dos meus ciúmes
Deixei o meu coração.

Inda que me custe a vida,
Pensarei com ar sereno
Que esse teu ombro moreno
Beijos de amor vão queimar;
Saudades são fé perdida,
São folhas mortas ao vento
Que eu piso sem um lamento
Na tua rua, ao passar…
Inda que me custe a vida,
Não hás-de ver-me chorar.

Na rua dos meus ciúmes
Deixei o meu coração.

Letra: Nelson de Barros (para a revista “A Vida É Bela”, 1960, Teatro Capitólio)
Música: Frederico Valério
Intérprete: Rua da Lua* (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)
Versão original: Helena Tavares (in EP “Rua dos Meus Ciúmes”, Alvorada, 1960; CD “Helena Tavares”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 7, Movieplay, 1994; CD “Helena Tavares”, col. Clássicos da Renascença, vol. 51, Movieplay, 2000)

Nas coisas do amor

[ Quando a Lua Voltar a Passar ]

Nas coisas do amor
É melhor nem entender
Não é fácil perceber
O que o amor tem p’ra dar ou não
E pode ser duro
É deixar acontecer

Malmequer de bem-querer
Ninguém pode adivinhar
Eu sei que não
Nem precisa de razão
Não é bem um sim ou não
É uma carta bem fechada

Não há-de ser nada
Vai passar e tu nem vês
É levar a vida
Um dia de cada vez
E se calhar tu já nem te vais lembrar
E vai ser já quando a Lua voltar a passar

Vou acreditar que amanhã vai ser melhor
Eu conheço até de cor
O que o amor vai fazer talvez nem sei
Ainda bem que acreditei
Não faz mal se eu arrisquei
E fui bater à porta errada

Não há-de ser nada
Vai passar e tu nem vês
É levar a vida
Um dia de cada vez
E se calhar tu já nem te vais lembrar
E vai ser já quando a Lua voltar a passar

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha*
Primeira gravação discográfica: Sebastião Antunes & Quadrilha com Rubi Machado & Rão Kyao (in CD “Perguntei ao Tempo”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2019)
Versão original: Rubi Machado

Não encontro o teu perfume

[ À Procura de um Perfume ]

Não encontro o teu perfume
Em jardim algum…
Vou plantá-lo aqui mesmo ao lado,
Juntinho a mim!

Não entendo o caminho
Que chega ao pé de ti…
Só sei que um tal destino
Far-me-á chegar aí.

Caminhando vago,
Na rua aqui ao lado,
Encontrei-te enfim!

Aproximei-me de ti…
“Não adies mais o destino!”,
Pensei eu cá só p’ra mim.

Letra e música: Jorge Rivotti
Intérprete: Jorge Rivotti
Versão original: Jorge Rivotti (in CD “Canções de Amor Pintadas de Amarelo”, Vachier & Associados, 2010)

Não sei por que razão

[ Não Rias ]

Não sei por que razão te quero tanto
E é louco por ti meu coração;
Não sei por que razão este meu pranto
Só riso te provoca, sem razão.

Não rias, meu amor,
Da minha grande dor!
Não rias, por favor, do meu sofrer!
Tem cuidado comigo:
Talvez p’ra teu castigo
A sorte à minha porta vá bater.

Podes passar na vida sem cuidados
E fazer juras a mentir;
Mas olha, meu amor, estás enganada:
A vida não é só levada a rir.

Não rias, meu amor,
Da minha grande dor!
Não rias, por favor, do meu sofrer!
Tem cuidado comigo:
Talvez p’ra teu castigo
A sorte à minha porta vá bater.

Não rias, meu amor,
Da minha grande dor!
Não rias, por favor, do meu sofrer!
Tem cuidado comigo:
Talvez p’ra teu castigo
A sorte à minha porta vá bater.

Letra: Ivete Pessoa
Música: Armando Machado (Fado Tertúlia)
Intérprete: Ricardo Ribeiro (in CD “Largo da Memória”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2013)
Versão original: Ivete Pessoa [?]

Não te ver nos meus braços

[ Beijo ]

Não te ver nos meus braços
Por não te ver nos meus braços, meu amor,
Pedi aos rios do meu pranto
Que te levassem do meu canto

Por não te ver nos meus braços
Por não te ver nos meus braços
Pedi aos rios do meu pranto
Que te levassem do meu canto

Mas as marés do teu jeito
Essas marés do teu beijo
Que me agitam o peito
Que me habitam o leito
Só me desfazem o peito
Com esse teu beijo perfeito

Por não te ver nos meus braços
Por não te ver nos meus braços
Despi o corpo do teu cheiro
Lavei a pele do teu beijo

Mas as marés do meu peito
Essas marés do meu peito
Vestiram-me o teu desejo
Levaram-me ao teu leito
Quero esquecer-te a qualquer jeito
Mas tenho um beijo cravado no peito

Mas as marés do meu peito
Essas marés do meu peito
Vestiram-me o teu desejo
Levaram-me ao teu leito
Quero esquecer-te a qualquer jeito
Mas tenho um beijo cravado no peito

Letra e música: Tiago Curado de Almeida
Intérprete: Pensão Flor*
Versão original: Pensão Flor (in CD “O Caso da Pensão Flor”, Pensão Flor/Brandit Music, 2013)

Nunca Marta pressentiu

[ Marta Encruzilhada ]

Nunca Marta pressentiu
A reboque bem sentada
Que o trilho que faz um desvio
Fosse dar à sua estrada

Nunca o sol a torriscou
Nunca à chuva foi molhada
Nunca ao vento esteve ao frio
E nunca a pé foi pela estrada

E nunca o bem esteve tão mal
E nunca o mal veio de frente
Não se faz vida do nada
Não se faz do nada gente

E não se faz do nada gente

E nesse trilho com desvio
O seu reboque não passava
E nunca antes Marta sentiu
E nunca a pé foi pela estrada

E nunca o sol a torriscou
E nunca à chuva foi molhada
E nunca ao vento esteve ao frio
E nunca a pé foi pela estrada

E nunca o bem esteve tão mal
E nunca o mal veio de frente
E não se faz vida do nada
E não se faz do nada gente

E não se faz do nada gente
E não se faz…

E nunca o sol a torriscou
Nunca à chuva foi molhada
Nunca ao vento esteve ao frio
E nunca a pé foi pela estrada

E nunca o bem esteve tão mal
E nunca o mal veio de frente
E não se faz vida do nada
E não se faz do nada gente

E nunca o sol a torriscou
Nunca à chuva foi molhada
Nunca ao vento esteve ao frio
E nunca a pé foi pela estrada

E nunca o bem esteve tão mal
E nunca o mal veio de frente
Não se faz vida do nada
E não se faz do nada gente

Letra e música: Luís Pucarinho
Intérprete: Luís Pucarinho* (in CD “SaiArodada”, Luís Pucarinho/Alain Vachier Music Editions, 2018)

* Luís Pucarinho – guitarras e voz
Afonso Castanheira – contrabaixo
Jéssica Pina – trompete
Mário Lopes – bateria e pad
Ideia original e produção – Luís Pucarinho
Gravado em A’MAR Estúdios (Baleal, Peniche), Estúdio Azul (Évora), Estúdio Nuno e Jaime Romano (Alcácer do Sal) e Estúdio Pé-de-Vento (Foros de Salvaterra, Salvaterra de Magos), de 2016 a 2018
Mistura – Luís Pucarinho e Fernando Nunes (Estúdio Pé-de-Vento)
Masterização – Fernando Nunes

Oh meu amor

[ Um Anjo em Meu Lugar ]

Oh meu amor… tu não vás
Que se tu fores já não há
Nem rosas no meu jardim
Nem sonhos dentro de mim

Ai! Minha dor não tem fim
Se o desamor for sempre assim
Por cada dia esperar
Até o Sol se apagar

Olha, olha o meu olhar
E nele hás-de ver
Que eu só canto este fado
Para não esquecer

E se uma noite sem luar
A tua fé quebrar
Espera um pouco que há-de vir
Um anjo em meu lugar

Amor, amor divino
Vai, vai em liberdade
Que o teu breve destino
É ir com a saudade

Olha, olha o meu olhar
E nele hás-de ver
Que eu só canto este fado
Para não esquecer

Letra: J.J. Galvão (José João Oliveira Galvão)
Música: Rui Filipe Reis
Intérprete: Rosa Negra com Cramol (in CD “Fado Mutante”, iPlay, 2011)

Olha, basta uma nota

[ Basta Um Sorriso ]

Olha, basta uma nota
P’ra dizer que te quero
Um compasso sem tempo
P’ra ver o que ainda espero
Sabendo eu que não vens
Sabendo tu que não me tens

Olha, trago uma ferida
A queimar nos meus lábios
Um pedaço sem cor
Uma ferida aberta
Um gosto imenso de ti
Vais dizendo que não queres
Vais fugindo de manhã
E vais mentindo ao dizer…:
São precisas duas mãos
Para se agarrar um coração

Olha, basta uma nota
P’ra dizer que te quero
Um compasso sem tempo
P’ra ver o que ainda espero
Sabendo eu que não vens
Sabendo tu que não me tens

Diz-me: porque me olhas assim
Quando os corpos não se encontram
Porque choras assim
Se o teu corpo só reclama de paixão
Vais dizendo que não queres
Vais fugindo de manhã
E vais mentindo ao dizer…:
Basta um sorriso para não dizer adeus
Meu amor, basta um sorriso para não dizer adeus [bis]

Letra e música: Tiago Curado de Almeida
Intérprete: Pensão Flor*
Versão original: Pensão Flor (in CD “O Caso da Pensão Flor”, Pensão Flor/Brandit Music, 2013)

Pedes-me o respeito

[ Tenho Tanto p’ra te Dar ]

Pedes-me o respeito
E eu dou
Pedes-me a coragem
E eu sou
Pedes-me o amor
E eu tenho tanto, tanto p’ra te dar

Pedes-me a confiança
E eu dou
Pedes-me a esperança
E eu sou
Pedes-me o amor
E eu tenho tanto, tanto p’ra te dar

Tenho tanto p’ra te dar
No meu canto de amar
Terei sempre na minha voz
A memória do grande que somos nós

Pedes-me a vontade
E eu dou
Pedes-me a unidade
E eu sou
Pedes-me o amor
E eu tenho tanto, tanto p’ra te dar

Pedes-me a alegria
E eu dou
Pedes-me a harmonia
E eu sou
Pedes-me o amor
E eu tenho tanto, tanto p’ra te dar

Tenho tanto p’ra te dar
No meu canto de amar
Terei sempre na minha voz
A memória do grande que somos nós

Pedes-me a paciência
E eu dou
Pedes-me a consciência
E eu sou
Pedes-me o amor
E eu tenho tanto, tanto p’ra te dar

Letra e música: Luís Galrito
Intérprete: Luís Galrito* com Dino d’ Santiago (in CD “Menino do Sonho Pintado”, Kimahera, 2018)

* Luís Galrito – voz e guitarra folk
Dino d’ Santiago – voz, coros
Gabriel Costa – baixo
João Nunes – guitarra
Luís Melgueira – percussões (ovos, bilha de barro)

Pelo fim da tarde

[ Nem Sequer Dei Por Isso ]

Pelo fim da tarde tu sais do emprego
E eu não sei porque é que aqui vim parar
É assim um desassossego
Tento ir sempre onde possas estar

Por sorte tu até sorris
E nem sequer me vens com muitos ‘porquês’
E dizes com um certo ar feliz:
“Com que então, por aqui outra vez?”

Num parque ao domingo
P’lo meio da cidade
Ou num café ao entardecer

Será que é mentira?
Será que é verdade?
Mas o que é que me está acontecer?

Já sei! Não há explicação
A cabeça está num reboliço
Se calhar apaixonei-me por ti
E nem sequer dei por isso

Ao virar da esquina, em qualquer transporte
Acabamos sempre por nos cruzar
E eu acho um caso de sorte
Cada vez que te posso encontrar

Está-me a correr bem, já ganhei o dia
Só porque me dissestes um “olá!”
E gosto da tua ironia
Se perguntas mais uma vez: “Por cá?”

Mensagem trocada, gesto embaraçado
Lá vou eu outra vez a planar
Desculpa, desculpa! Foi número errado
Mas ficamos uma hora a falar

Já sei! Não há explicação
A cabeça está num reboliço
Se calhar apaixonei-me por ti
E nem sequer dei por isso

Tanto melhor quando não se espera
E era bom que fosse como imaginei

Já sei! Não há explicação
A cabeça está num reboliço
Se calhar apaixonei-me por ti
E nem sequer dei por isso

Já sei! Não há explicação
A cabeça está num reboliço
Se calhar apaixonei-me por ti
E nem sequer dei por isso

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha* (ao vivo no Estúdio 3 da Rádio e Televisão de Portugal, Lisboa)
Versão original: Sebastião Antunes & Quadrilha (in CD “Perguntei ao Tempo”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2019)

Por não te ver nos meus braços

[ Beijo ]

Por não te ver nos meus braços
Por não te ver nos meus braços, meu amor,
Pedi aos rios do meu pranto
Que te levassem do meu canto

Por não te ver nos meus braços
Por não te ver nos meus braços
Pedi aos rios do meu pranto
Que te levassem do meu canto

Mas as marés do teu jeito
Essas marés do teu beijo
Que me agitam o peito
Que me habitam o leito
Só me desfazem o peito
Com esse teu beijo perfeito

Por não te ver nos meus braços
Por não te ver nos meus braços
Despi o corpo do teu cheiro
Lavei a pele do teu beijo

Mas as marés do meu peito
Essas marés do meu peito
Vestiram-me o teu desejo
Levaram-me ao teu leito
Quero esquecer-te a qualquer jeito
Mas tenho um beijo cravado no peito

Mas as marés do meu peito
Essas marés do meu peito
Vestiram-me o teu desejo
Levaram-me ao teu leito
Quero esquecer-te a qualquer jeito
Mas tenho um beijo cravado no peito

Letra e música: Tiago Curado de Almeida
Intérprete: Pensão Flor (in CD “O Caso da Pensão Flor”, Pensão Flor/Brandit Music, 2013)

Que bom dar-te a mão

[ Balada para o Meu Amor ]

Que bom dar-te a mão
e juntos para crer
fazer o coração e a senda
de viver no perdão
e no amor
E ao ver-te chegar
com sonhos p’ra me dar
de calma e silêncio vindo
que seja bem-vindo
o meu amor

Existe e ficou aqui
encostado ao meu ombro
Prometeu cuidar de mim
O meu amor está sempre do meu lado
quando a vida atira e queima
e na luta saio magoado

Porta que teima abriu
do paraíso um ser sorriu
e a Eva no jardim resiste
à culpa do pecado que não existe
Trouxe a luz e eis que ensina
que há um braço que segura
na água mole na pedra dura
no bem e no mal o amor perdura

Existe e ficou aqui
encostado ao meu ombro
Prometeu cuidar de mim
O meu amor está sempre do meu lado
quando a vida atira e queima
e na luta saio magoado

Letra e música: Luís Galrito
Intérprete: Luís Galrito* (in CD “Menino do Sonho Pintado”, Kimahera, 2018)

* Luís Galrito – voz
Gabriel Costa – baixo
João Nunes – guitarra
Luís Melgueira – cajón
Filipa Teles – coros

Rasga esses versos

[ Os Meus Versos ]

Rasga esses versos que eu te fiz, Amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada de um momento!
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!…

Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente…

Rasgas os meus versos… Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!…

Poema: Florbela Espanca (in Reliquiae, 1934)
Música: Paulo Valentim
Intérprete: Kátia Guerreiro (in CD “Nas Mãos do Fado”, Ocarina, 2003)

Subir, Subir

Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir
Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir

Mensageiros de Cupido
Eu ando deprimido
Intercedei por mim ao vosso Deus!
Estou de amores com uma catraia
Que p’ra subir a saia
Exige grandes sacrifícios meus

Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir
Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir

Levantei velas à barca
Mas a brisa era parca
Nem deu para agitar o meu corcel
Assim nunca mais te chego
A ter no aconchego
Tirar-te dessa ilha de papel

Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir
Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir

Fiz consulta a feiticeiros
E santos padroeiros
Deixei bruxeiros de cabeça à toa
Findei o consultamento
E como rendimento
Saíram-me (imaginem!) os Gaiteiros de Lisboa

Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir
Subir, subir
lnd’ hei-de conseguir
Morder-te, ó cachopa,
Por dentro do teu vestir

Letra e música: Mário Alves (Vozes da Rádio)
Intérprete: Gaiteiros de Lisboa
Versão discográfica ao vivo dos Gaiteiros de Lisboa, com Vozes da Rádio (in 2CD “Dançachamas: Ao Vivo”: CD 1, Farol Música, 2000)
Versão original: Vozes da Rádio com Gaiteiros de Lisboa (in CD “Mappa do Coração”, Ariola/BMG Portugal, 1997)

Trago um jardim no sentido

[ Jardim dos Sentidos ]

Trago um jardim no sentido,
Por ter sentido o que sinto:
Amor que não faz sentido
Num coração louco e faminto.

No jardim do meu sentido
Nascem cravos cardinais;
Também eu nasci no mundo
P’ra te querer cada vez mais.

No jardim do rei há rosas,
Também há malvas de cheiro;
Não há luz como a do dia,
Nem amor como o primeiro.

Coração louco e faminto,
Rosa que tenho sentido;
Jardim que anda perdido,
Por ter sentido o que sinto.

No jardim do meu sentido
Nascem cravos cardinais;
Também eu nasci no mundo
P’ra te querer cada vez mais.

No jardim do rei há rosas,
Também há malvas de cheiro;
Não há luz como a do dia,
Nem amor como o primeiro.

Por ter sentido o que sinto,
Amor que não faz sentido
Jardim que anda perdido,
Trago um jardim no sentido.

No jardim do meu sentido
Nascem cravos cardinais;
Também eu nasci no mundo
P’ra te querer cada vez mais.

No jardim do rei há rosas,
Também há malvas de cheiro;
Não há luz como a do dia,
Nem amor como o primeiro.

Trago um jardim no sentido…

Letra e música: Pedro Mestre
Intérprete: Pedro Mestre* com António Zambujo (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015)
Outra versão de Pedro Mestre, com António Zambujo (in DVD “No CCB: Pedro Mestre & Convidados”, Pedro Mestre, 2017)

Vem

Vem no vento que envolve a montanha
E lhe esculpe grutas e segredos
Que a cinge e a estreita nas fragas
Vem nas silvas que rasgam os dedos

Como a rocha que na costa aguarda
A tal onda que explode ao morrer
Chicoteando do mar os penhascos
Por mais ásperos que pareçam ser

Vem cantando na verde campina
Terra-mãe de onde nasce o pão
Ondulante seara menina
Como as crinas dos cavalos que vão

Como criança pela mão do avô
Vai para a escola no dia primeiro
Passo a passo alcançar o futuro
Destrinçar o saber verdadeiro

Vem nos braços da rua a cidade
Se for praça de causas perfeitas
E o coração te falar mais verdade
Que as palavras dos outros, tão estreitas

Vem-me aos braços, que eu não me envergonho
Planta o mundo todo qu’inda houver
Traz a alma, que eu trago o meu sonho
E o espanto pode acontecer

Letra e música: Pedro Barroso («Dedicado à minha neta Constança, em nome do Futuro»)
Intérprete: Pedro Barroso*
Versão original: Pedro Barroso (in CD “Artes do Futuro”, Ovação, 2017)

Vem, quero beijar-te o corpo

[ Profano ]

Vem, quero beijar-te o corpo
Quero provar-te o gosto
Quero rasgar-te a pele
Soltar-te o corpo em mim

Que te faço tão profano
Soldado do meu ventre
Que emudece à minha frente
As regras deste amor

Vem pedir-me a preceito
Que te possua em desejo
Que te consuma nesse leito
E desse jeito que é teu

Quando me devoras os sentidos
E me pedes aos ouvidos
Que te amarra, te prenda,
Te bata, te faça assim mulher vulgar

Vem beijar este meu corpo
Vem provar deste meu gosto
Vem rasgar esta pele
E soltar-me o corpo em ti

Que me faço tão profana
Desejo desse teu corpo
Que emudece à tua frente
As regras deste amor

Quero pedir-te a preceito
Que me consumas em desejo
Que me consumas nesse leito
E desse jeito que é teu

Que me devoras os sentidos
Quero pedir-te aos ouvidos
Que me amarres, me prendas,
Me batas, me faças assim mulher vulgar

Letra e música: Tiago Curado de Almeida
Intérprete: Pensão Flor* (in CD “O Caso da Pensão Flor”, Pensão Flor/Brandit Music, 2013)

Vi-te dum vermelho antigo

[ A Minha Cor (Vermelho Antigo) ]

Vi-te dum vermelho antigo,
Trazias a minha cor;
Meus olhos foram contigo
E alguém disse que era amor.

Cor de sangue aveludado,
Cor de seda ou de cetim,
Cor de vinho ou de pecado:
Foi a cor que viste em mim.

De fadista só me viste
Um olhar estranho e sombrio:
Não era ardente nem triste,
Não era vago nem frio.

Tua voz, cor de cantiga,
Espalhava de mãos cheias
Um sabor a raça antiga
Que salta nas minhas veias.

Fosse sede ou fosse amor,
Que importa o que foi, enfim?
Trazias a minha cor,
Nada mais contou p’ra mim.

Letra: Manuel Andrade
Música: Pedro Rodrigues (Fado Pedro Rodrigues de Quadras)
Intérprete: Marta Pereira da Costa* com Hélder Moutinho
Versão discográfica de Hélder Moutinho (com música de Joaquim Campos – Fado Amora) (in CD “Sete Fados e Alguns Cantos”, Ocarina, 1999)
Versão original: João Braga (in EP “Janeiro Proibido”, Aquila, 1968; “Todos os Fados de A a Z: Vol. 12 – Fado Pajem ao Fado Pintadinho”, Movieplay/Visão, 2005; CD “João Braga: Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006)

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Canções de Adeus

Disse-te adeus e morri

Letra: Vasco de Lima Couto
Música: José António Sabrosa
Intérprete: Cristina Branco (in CD “Corpo Iluminado”, Universal, 2001)
Versão original: Amália Rodrigues (in “Vou Dar de Beber à Dor”, Columbia/VC, 1969; reed. EMI-VC, 1992)

Disse-te adeus e morri
E o cais vazio de ti
Aceitou novas marés.
Gritos de búzios perdidos,
Roubaram dos meus sentidos,
A gaivota que tu és.

Gaivota de asas paradas,
Que não sente as madrugadas
E acorda à noite a chorar.
Gaivota que faz o ninho
Porque perdeu o caminho
Onde aprendeu a sonhar.

Preso no ventre do mar
O meu triste respirar
Sofre a invenção das horas.
Pois, na ausência que deixaste,
Meu amor, como ficaste?
Meu amor, como demoras!

Preso no ventre do mar
O meu triste respirar
Sofre a invenção das horas.
Pois, na ausência que deixaste,
Meu amor, como ficaste?
Meu amor, como demoras!

Disse-te adeus

Letra: Manuela de Freitas
Música: Frederico de Brito (Fados dos Sonhos)
Intérprete: Camané (in CD “Uma Noite de Fados”, EMI-VC, 1995)

Disse-te adeus, não me lembro
Em que dia de Setembro
Só sei que era madrugada
A rua estava deserta
E até a lua discreta
Fingiu que não deu por nada

Sorrimos à despedida
Como quem sabe que a vida
É nome que a morte tem
Nunca mais nos encontrámos
E nunca mais perguntámos
Um p’lo outro a ninguém

Que memória ou que saudade
Contará toda a verdade
Do que não fomos capazes
Por saudade ou por memória
Eu só sei contar a história
Da falta que tu me fazes

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Lua Branca

Anoiteceu no meu olhar

[ Garça Perdida ]

Anoiteceu no meu olhar
de feiticeira, de estrela do mar,
de céu, de lua cheia,
de garça perdida na areia.

Anoiteceu no meu olhar,
perdi as penas, não posso voar,
deixei filhos e ninhos,
cuidados, carinhos, no mar…

Só sei voar dentro de mim
neste sonho de abraçar
o céu sem fim,
o mar, a terra inteira!

E trago o mar dentro de mim,
com o céu vivo a sonhar
e vou sonhar até ao fim,
até não mais acordar…

Então, voltarei a cruzar
este céu e este mar,
voarei, voarei sem parar
à volta da terra inteira!

Ninhos faria de lua cheia
e depois, dormiria na areia…

Letra: João Mendonça
Música: Leonardo Amuedo
Intérprete: Dulce Pontes (in CD “O Primeiro Canto”, Polydor, 1999)

Branca era a noite

[ Uma Estrela no Sul ]

Branca era a noite
Uma estrela no sul
A lua cheia
Num céu tão azul
Rendas de espuma no mar, dando à costa um abraço
E este meu coração a bater a compasso…

Que morra o dia
Pois a noite é irmã
Voos tão altos
Na minha fajã
Quero reter essa luz, são momentos escassos
Depois recolher ao meu quarto e apertar-te nos braços

Ai meu amor
Escuta a minha voz
Pensando bem
Quem está como nós?
Grande é o mundo
Tantas vezes bisonho
Mas tão pequeno
Comparado com o sonho…

Branca era a noite
E era roxa a saudade
Dos dias longos…
Que é da mocidade?
Os olhos rasos em águas de recordações
Livres, à solta, sem rédeas estão as emoções

Corre agitada
Esta vida maruja
Águas serenas
Piares de coruja
Há nesta noite tranquila uma bênção no ar
Convite da natureza p’ra a gente se amar

Ai meu amor
Escuta a minha voz
Pensando bem
Quem está como nós?
Grande é o mundo
Tantas vezes bisonho
Mas tão pequeno
Comparado com o sonho…

Branca era a noite
E era roxa a saudade
Dos dias longos…
Que é da mocidade?
Os olhos rasos em águas de recordações
Livres, à solta, sem rédeas estão as emoções

Corre agitada
Esta vida maruja
Águas serenas
Piares de coruja
Há nesta noite tranquila uma bênção no ar
Convite da natureza p’ra a gente se amar

Ai meu amor
Escuta a minha voz
Pensando bem
Quem está como nós?
Grande é o mundo
Tantas vezes bisonho
Mas tão pequeno
Comparado com o sonho…

Letra e música: Aníbal Raposo (2010-01-21)
Intérprete: Aníbal Raposo (in CD “Rocha da Relva”, Aníbal Raposo/Global Point Music, 2013)

Lua branca das ribeiras

[ Lua Branca das Ribeiras ]

Lua branca das ribeiras a quem mostras o caminho
Às bruxas, às feiticeiras ou a quem anda sozinho
A ribeira tem segredos que tu andas a esconder
Hão-de contar-se p’los dedos os que tu me hás-de dizer

Lua branca das ribeiras com quem passas o serão
De companha às fiandeiras à janela do ganhão
À porta das raparigas que não se querem deitar
Vais ensinando as cantigas de quem se há-de apaixonar
Lua branca das ribeiras

Tenho um banco à minha porta onde a lua vai dormir
Já a vi lá com tristeza e a sorrir
Eu dei um segredo à lua para quando ela se deitar
Poder encontrar alguém a quem contar

Lua branca das ribeiras de quem é o teu brilhar
Das moças namoradeiras ou de quem as faz penar
Dos que se enganam na vida p’lo correr da madrugada
Ou de uma alma perdida que passa a noite calada

Se a ribeira me levasse onde a lua vai dormir
Talvez eu por lá contasse tanto que eu ando a sentir
De quem é a cor da lua que nos traz tanto querer
Não é minha nem é tua, é de quem a entender
Lua branca das ribeiras

Tenho um banco à minha porta onde a lua vai dormir
Já a vi lá com tristeza e a sorrir
Eu dei um segredo à lua para quando ela se deitar
Poder encontrar alguém a quem contar

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Quadrilha (in CD “A Cor da Vontade”, Vachier & Associados, 2003)

Ó lua faz-me uma trança

[ À Porta do Mundo ]

Ó lua faz-me uma trança
P’ra de dia desmanchar
Guarda-me a última dança
Quando o fio se acabar

Gosto de ver o teu rosto
Que a mil caminhos se presta
Para uma noite desgosto
Por uma noite de festa

Voltaria à tua terra
Por um mergulho de mar
Entre a cidade e a serra
Fica algures o meu lugar

Este mundo não tem porta
Nem uma chave escondida
Por trás de tudo o que importa
Vem um sentido p’rá vida

Se te fizeres ao caminho
Em horas de arrebol
P’ra fermentar o meu vinho
Traz-me um pedaço de sol

Vamos escrever uma história
Rever um filme a passar
Logo virá à memória
O que eu te queria dar

Será verdade ou mentira
Como um segredo roubado
Sou como a lua que gira
Hei-de dançar ao teu lado

Este mundo não tem porta
Nem uma chave escondida
Por trás de tudo o que importa
Vem um sentido p’rá vida

Letra e música: João Afonso Lima e José Moz Carrapa
Arranjo: Ricardo Dias
Intérprete: Filipa Pais (in CD “À Porta do Mundo”, Vachier & Associados, 2003)

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Canções com bicho

ALENTEJO QUANDO CANTA

[ Eu Ouvi o Passarinho ]

Alentejo quando canta
Peito dado à solidão
Traz a alma na garganta
E o sonho no coração

Eu ouvi um passarinho
Às quatro da madrugada
Cantando lindas cantigas
À porta da sua amada

Por ouvir cantar tão bem
A sua amada chorou
Às quatro da madrugada
Um passarinho cantou
Alentejo, terra rasa
Toda coberta de pão
As suas espigas doiradas
Lembram mãos em oração

Eu ouvi um passarinho
Às quatro da madrugada
Cantando lindas cantigas
À porta da sua amada

Por ouvir cantar tão bem
A sua amada chorou
Às quatro da madrugada
Um passarinho cantou

Alentejo quando canta
Peito dado à solidão
Traz a alma na garganta
E o sonho no coração

Eu ouvi um passarinho
Às quatro da madrugada
Cantando lindas cantigas
À porta da sua amada

Por ouvir cantar tão bem
A sua amada chorou
Às quatro da madrugada
Um passarinho cantou
Alentejo, terra rasa
Toda coberta de pão
As suas espigas doiradas
Lembram mãos em oração

Eu ouvi um passarinho
Às quatro da madrugada
Cantando lindas cantigas
À porta da sua amada

Por ouvir cantar tão bem
A sua amada chorou
Às quatro da madrugada
Um passarinho cantou

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral de Cantares Regionais de Portel (in EP “Cantes de Portel”, Orfeu/Rádio Triunfo, 1984; CD “Cantares Regionais de Portel”, Lusosom, 1993; CD “25 Anos a Cantar Portel”, Ovação, 2004; CD “O Melhor de Grupo Coral de Cantares Regionais de Portel”, Ovação, 2010)

VI POUSADO NUM RAMINHO

[ O Tentilhão ]

Vi pousado num raminho
Numa árvore toda em flor
Um pequeno passarinho
Cantando com muito amor

Era suave e meiguinha
A sua linda canção
A pequena avezinha
Era o lindo tentilhão

E veio-me logo ao sentido
Se as penas do tentilhão
Teriam elas caído
Do meu pobre coração

Julguei mal a ave querida
Através do meu pensar
Pensei que a sua vida
Fosse comer e cantar

Eu não tinha reparado
Ali num outro raminho
Estava mesmo a seu lado
A companheira no ninho

A cuidar dos seus filhinhos
Grande espanto foi o meu
Quando lhe vi dar beijinhos
Como a minha mãe me deu

Tanto trabalho e canseira
Teve aquele passarinho
Com a sua companheira
P’ra fazer ali seu ninho

Vamos todos trabalhar
Povo da minha nação
Para podermos cantar
Como aquele tentilhão

(Constantino José Abreu, “o Caipira”)

DIAS A FIO

[ O Pulo do Lobo ]

Dias a fio andou
Por andar chegou
Em chegando viu
E então sorriu
A sorrir pensou
Por pensar agiu
Ao agir falou

“Diz-me andorinha,
Deste voo teu,
Se é dança ou feitiço,
Se me emprestas a vertigem
Dessa queda livre
Do teu voo raso
Desse baile alado
Sim?”

E saltou,
Ao saltar tremeu
A tremer subiu
Por subir desceu
E então caiu,
A cair bateu
Ao bater sentiu,
Ao sentir pensou

“Diz-me andorinha,
Sentes como eu?
O poder da terra
Na torrente, rodopio
Estilhaço o corpo
Num grito calado
Sob um manto de água
Não?”

E voou

Eu vou dançar à tua porta
Vou acordar o teu sorriso
Quando soprar o vento frio
Eu vou deixar-te sem aviso

Vou partir

Eu hei-de ir por entre as nuvens
Bebendo a chuva, cortando o ar
P’ra descer num voo louco
Rasando as fragas
Cheirando a terra
Beijando o mar

E voou,
Por andar chegou
Ao saltar tremeu
Em chegando viu
E então caiu
Ao sorrir pensou
Ao bater sentiu
Ao agir falou

“Diz-me andorinha,
Deste voo teu,
Se é dança ou feitiço,
Se me emprestas a vertigem
Dessa queda livre
Do teu voo raso
Desse baile alado
Sim?”

E caiu

Eu vou dançar à tua porta
Vou acordar o teu sorriso
Quando soprar o vento frio
Eu vou deixar-te sem aviso

Vou partir

Eu hei-de ir por entre as nuvens
Bebendo a chuva, cortando o ar
P’ra descer num voo louco
Rasando as fragas
Cheirando a terra
Beijando o mar

Vou por entre as nuvens
Bebendo a chuva, cortando o ar
P’ra descer num voo louco
Rasando as fragas
Cheirando a terra
Beijando o mar

Letra e música: Manuel Maio
Intérprete: A Presença das Formigas (in CD “Pé de Vento”, A Presença das Formigas/Careto/XMusic, 2014)

QUANDO A PORTA ENCOSTA

[ A Pena de um Elefante ]

Quando a porta encosta e se fecha, o teu nome não vai
Quero um rosto quente e vago, mas o pecado não sai
Espero na noite fria, agora, uns braços sem dono
Fico pela casa toda à espera do teu retorno

Abre o guarda-fato e leva aquelas tuas promessas
Porque pesam sobre o chão dúvidas descobertas
Enchem todo o espaço, sobranceiro e errante
Dormem sobre a cama, como a pena de um elefante

E só espero que me acorde
Num espirro quase ofegante
Como um elefante enorme

Num sonho mirabolante
La la la la la la
La la la la la la

Como um elefante enorme
Num sonho mirabolante

La la la la la la
La la la la la la

Como um elefante enorme
Num sonho mirabolante

Numa só pegada marcas o teu território
E num céu de lágrimas faço o meu dormitório
Sem pousar a alma na minha almofada
Sinto a lança em África de maneira errada

E só espero que me acorde
Num espirro quase ofegante
Como um elefante enorme
Num sonho mirabolante

La la la la la la
La la la la la la

Como um elefante enorme
Num sonho mirabolante

La la la la la la
La la la la la la

Como um elefante enorme
Num sonho mirabolante

La la la la la la
La la la la la la

Como um elefante enorme
Num sonho mirabolante

La la la la la la
La la la la la la

Letra e música: Jorge Roque
Intérprete: Jorge Roque (in CD “Às Vezes”, Vidisco, 2013)

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