O poemário do cancioneiro português (incluindo fado, música tradicional e ligeira) pretende fomentar o gosto da poesia como parceira da música e a divulgação dos poetas cuja importância nem sempre é justamente reconhecida. Fontes: Blogue A Nossa Rádio, Álvaro José Ferreira.

Ovelhas

As ovelhas, lá no prado

[ Ovelhudas ]

As ovelhas, lá no prado,
Terão todas seu pastar,
Terão todas seu pastar
No que o prado tem p’ra dar;

O pasto será de todas,
Mas de cada o paladar,
Mas de cada o paladar
No que o prado tem p’ra dar.

Ovelhudas e lanudas
Que o prado transformam em lã:
Lã fofa da cor da neve
Cardada à luz da manhã.

Bom ou mau ou muito ou pouco,
Nada escapa ao seu olhar,
Nada escapa ao seu olhar;
Param, andam a pastar…

E se o prado está pior
O seu melhor vão buscar,
O seu melhor vão buscar;
Param, andam a pastar…

Ovelhudas e lanudas
Que o prado transformam em lã:
Lã fofa da cor da neve
Cardada à luz da manhã.

Lá vai uma, lá vão duas,
Todas num só carreirinho,
Todas num só carreirinho;
Lá vêm, lá vão mansinho…

Olham as ervas do chão,
Ruminam devagarinho,
Ruminam devagarinho;
Lá vêm, lá vão mansinho…

Ovelhudas e lanudas
Que o prado transformam em lã:
Lã fofa da cor da neve
Cardada à luz da manhã.

Letra e música: Amélia Muge
Intérprete: Segue-me à Capela
Versão original: Segue-me à Capela (in Livro/CD “San’Joanices, Paganices e Outras Coisas de Mulher”, Segue-me à Capela/Fundação GDA/Tradisom, 2015)

Quero um cavalo

Quero um cavalo de várias cores,
Quero-o depressa que vou partir.
Esperam-me prados com tantas flores,
Que só cavalos de várias cores
Podem servir.

Quero uma sela feita de restos
Dalguma nuvem que ande no céu.
Quero-a evasiva – nimbos e cerros –
Sobre os valados, sobre os aterros,
Que o mundo é meu.

Quero que as rédeas façam prodígios:
Voa, cavalo, galopa mais,
Trepa às camadas do céu sem fundo,
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo,
Para onde tendem as catedrais.

Deixem que eu parta, agora, já,
Antes que murchem todas as flores.
Tenho a loucura, sei o caminho,
Mas como posso partir sozinho
Sem um cavalo de várias cores?

Poema de Reinaldo Ferreira (in “Poemas”, 1960)
Recitado por Afonso Dias
Também cantado por António Pedro Braga (Orfeu, 1972)

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Formiga

A formiga no carreiro

Letra e música: José Afonso
Intérprete: José Afonso (in “Venham Mais Cinco”, Orfeu, 1973; reed. Movieplay, 1987)

A formiga no carreiro
vinha em sentido contrário,
caiu ao Tejo
ao pé dum septuagenário.

Larpou, trepou às tábuas
que flutuavam nas águas
e de cima duma delas
virou-se p’ró formigueiro:
“Mudem de rumo!
Já lá vem outro carreiro.”

A formiga no carreiro
vinha em sentido diferente.
Caiu à rua
no meio de toda a gente,
buliu, abriu as gâmbias
para trepar às varandas
e de cima duma delas
virou-se pró formigueiro:
“Mudem de rumo!
Já lá vem outro carreiro.”

A formiga no carreiro
andava à roda da vida.
Caiu em cima
Duma espinhela caída
furou, furou à brava
numa cova que ali estava
e de cima duma delas
virou-se pró formigueiro:
“Mudem de rumo!
Já lá vem outro carreiro.”

Com as pernas já cansadas

António José Ferreira
Adaptado da fábula de La Fontaine

Com as pernas já cansadas
e a barriga tão vazia,
a raposa viu uns cachos
e deu pulos de alegria.

Tentava apanhar as uvas,
mas cansava-se em vão
e a alegria que tivera
tornou-se desilusão.

Enganando-se a si mesma
por já não conseguir tê-las,
disse então que eram verdes,
só cães podiam comê-las.

Mas quando, ao ir-se embora,
ouviu um leve ruído,
voltou-se com a esperança
de um bago ter caído.

Dias a fio andou

[ O Pulo do Lobo ]

Dias a fio andou
Por andar chegou
Em chegando viu
E então sorriu
A sorrir pensou
Por pensar agiu
Ao agir falou

“Diz-me andorinha,
Deste voo teu,
Se é dança ou feitiço,
Se me emprestas a vertigem
Dessa queda livre
Do teu voo raso
Desse baile alado
Sim?”

E saltou,
Ao saltar tremeu
A tremer subiu
Por subir desceu
E então caiu,
A cair bateu
Ao bater sentiu,
Ao sentir pensou

“Diz-me andorinha,
Sentes como eu?
O poder da terra
Na torrente, rodopio
Estilhaço o corpo
Num grito calado
Sob um manto de água
Não?”

Letra e música: Manuel Maio
Intérprete: A Presença das Formigas* (in CD “Pé de Vento”, A Presença das Formigas/Careto/XMusic, 2014)

Durante todo o Verão

António José Ferreira
Adaptado da fábula “A cigarra e a formiga”

Durante todo o Verão,
que bem cantou a cigarra;
de dia, ‘stava na praia,
à noite, ia para a farra.

Ficou no campo a formiga,
pensando no seu celeiro.
O esforço do seu trabalho,
rendeu-lhe um bom mealheiro.

O Inverno só trouxe frio
e nada para comer:
à porta do formigueiro
foi a cigarra bater.

– Durante todo o verão
cantei p’ra te alegrar:
dá-me um pouco de comida
para eu poder jantar.

– Enquanto te divertias,
eu ‘stava a trabalhar.
Cantavas todos os dias,
agora vai lá dançar.

Eu sou o cão D. Pantaleão

Letra e música: José Barata Moura

– Eu sou o cão D. Pantaleão!
– E eu sou um cão apenas cão… (bis)

– Tenho um barbeiro e uma criada,
um casaco e uma almofada!
– E eu cá não tenho nada!

– Eu sou o cão D. Pantaleão!
– E eu sou um cão apenas cão… (bis)

– Tenho uma casa aquecida,
boa cama e comida!
– Não é lá muito boa a minha vida…

– Eu sou o cão D. Pantaleão!
– E eu sou um cão apenas cão… (bis)

– Tenho sombrinha e cachecol,
luvas e chapéu mole!
– Eu cá tanto ando à chuva como ao sol.

– Eu sou o cão D. Pantaleão!
– E eu sou um cão apenas cão… (bis)

– Tenho uma coleira amarela,
que parece uma estrela!
– Mas eu cá não gosto da trela!

– Eu sou o cão D. Pantaleão!
– E eu sou um cão apenas cão… (bis)

Intérprete: José Barata Moura

Havia um pescador

Texto: António José Ferreira

Havia um pescador,
um pescador havia.

Um dia foi à pesca,
foi fraca a pescaria.

Pescou só um peixinho,
levou-o à Maria.

Quando chegou a casa,
ouviu o que não queria.

– Se fosse um peixe grande,
que almoço não daria!

– O peixe é pequenino
e muito cresceria!

José pegou no balde,
deitou o peixe à ria.

Lamentava-se o pavão

António José Ferreira
Adaptado da fábula de La Fontaine

Lamentava-se o pavão
de não cantar nada bem,
de não ter a voz bonita
que o rouxinol sempre tem.

– Não reclames – disse Deus -,
pavãozinho despeitado!
Não vês que, p’las tuas cores,
és famoso em todo o lado?

Cada um tem seu encanto:
a águia tem a coragem,
o melro tem o seu canto,
o pavão rica plumagem.

A ave compreendeu:
não se podia queixar.
Ninguém é perfeito em tudo,
em tudo há que se alegrar.

Muitas nozes e avelãs

António José Ferreira
Adaptado da fábula de La Fontaine

Muitas nozes e avelãs
tinha o Senhor Esquilo:
lembrou-se de partilhar
alguns frutos do seu silo.

Pegou na melhor bandeja,
para as nozes of’recer,
e mandou o seu filhote
ao vizinho, a correr.

Quando viram a bandeja
os olhos do seu vizinho,
nem se lembraram das nozes
of’recidas com carinho.

Nem o esquilo viu de volta
a bandeja preferida,
nem na casa do vizinho
houve prenda parecida.

No meio de uma floresta

António José Ferreira
Adaptado da fábula de La Fontaine

No meio de uma floresta,
um veado adoeceu.
Um grupo dos seus amigos
foi ver o que aconteceu.

Foram para socorrê-lo,
ou talvez o consolar,
para cumprir o dever
de o amigo ajudar.

No fim da sua visita,
tiveram um bom repasto:
e da erva do veado,
quase não deixaram rasto.

Com pouco alimento perto,
aquele velho veado,
morreu ainda mais cedo,
infeliz, esfomeado.

No ramo de um arbusto

António José Ferreira
Adaptado da fábula de La Fontaine

No ramo de um arbusto,
o corvo mostrava um queijo:
a raposa aproximou-se
atraída p’lo desejo.

Muito esperta, a raposa
passou a elogiar o corvo,
as suas penas e o canto,
e até a forma de andar.

Cego pelo seu orgulho,
o corvo pôs-se a cantar:
o queijo caiu do bico
e à raposa foi parar.

O leão, o rei da selva

António José Ferreira
Adaptado da fábula de La Fontaine

O leão, o rei da selva,
perdeu forças e poder:
tornou-se apenas um velho
preparado p’ra morrer.

Os burros davam-lhe coices
e os lobos davam dentadas;
gazelas faziam troça
e os bois davam cornadas.

Mal conseguia rugir
o cansado rei leão:
chegara a hora de os fracos
lhe poderem dizer não.

Um dia, o Senhor Lobo

António José Ferreira

Um dia, o Senhor Lobo
que andava a passear,
avistou o Capuchinho
e foi logo perguntar:

– Aonde vais, ó menina,
com essa linda cestinha?
– Vou levar um bolo e mel
à minha rica avozinha.

Mais depressa foi o lobo
à casa da avozinha
enquanto ia praticando
falar com voz de netinha.

(Alguém bate à porta)

– Quem está a bater à porta?
– É a tua qu’rida netinha.
– Ai meu Deus, é o lobo mau.
– Não te como, avozinha.

(Entretanto, o Capuchinho Vermelho chega a casa da avó e vai ter com ela. )

– Que grandes são os teus olhos!
– São para te observar!
– Que grande é o teu nariz!
– É p’ra melhor te cheirar!

– Que fofas as tuas mãos!
– São p’ra melhor te tocar!
– Que grande é a tua boca!
– É p’ra melhor te beijar!

Os deuses da Grécia antiga

António José Ferreira

Os deuses da Grécia antiga
eram gente como nós:
casavam-se, tinham filhos,
não gostavam de estar sós.

Plim plim (lira)

Zeus, o grande pai dos deuses,
do Olimpo era o Senhor.
Era casado com Hera,
que tinha muito amor.

Saxapum (pratos)

Os deuses de antigamente
contavam-se por dezenas.
Do Olimpo adoravam
ver os jogos em Atenas.

Te te te (trombeta)

Poseidon, irmão de Zeus,
era o rei dos oceanos.
Se fazia tempestades
assustavam-se os humanos.

Tum tum (tambor)

Artémis, filha de Zeus,
protegia os animais.
Bebia néctar puro
como seus irmãos e pais.

Té té té té (trombeta)

Deméter, irmã de Zeus,
passou por muita aventura.
Gostava muito de plantas,
protegia a agricultura.

Fi fi fi (flauta)

Um pescador foi à pesca

António José Ferreira
Adaptado da fábula de La Fontaine

1. Um pescador foi à pesca
com vontade de pescar
todo o peixe que pudesse
para comer ao jantar.

2. Pescou cinco bons robalos,
e apanhou uma enguia
que lhe encheram a sacola
e lhe deram alegria.

3. Viu, por fim, um robalinho
preso no anzol, a chorar:
– Sou ainda muito novo,
não darei grande manjar.

4. – Mais vale um peixe no saco
que um cardume a nadar.
– Mas, se pescas todo o peixe,
que vais amanhã pescar?

5. O pescador quis levá-la,
mas a tempo percebeu:
– Se não há peixes no rio,
amanhã, que pesco eu?

Uma rã, que era vaidosa

António José Ferreira
Adaptado da fábula de La Fontaine

1. Uma rã, que era vaidosa,
viu no campo uma vitela,
admirou o seu tamanho
e quis ser igual a ela.

2. Deixou logo o seu charquinho,
começou a engordar,
tanto era o seu desejo
de à vitela se igualar.

3. A rã perguntava às outras
se já era grande e bela,
mas estava muito longe
do tamanho da vitela.

4. Tanto a rã inchou de inveja
que um dia rebentou:
não foi uma rã feliz
nem à vaca se igualou.

Uma vez, uma pastora

1. Uma vez, uma pastora,
larau, larau, larito,
com o leite do seu gado
mandou fazer um queijito.

Mas o gato espreitava,
larau, larau, larito,
mas o gato espreitava
com sentido no queijito.

E aqui metia a pata
larau, larau, larito,
e aqui metia a pata
e além o focinhito.

A pastora, de zangada,
larau, larau, larito,
a pastora de zangada
castigou o seu gatito.

E aqui termina a estória,
larau, larau, larito,
e aqui termina a estória
da pastora e do queijito.

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Três reis magos

O cantar dos reis, também chamado “reisadas”, é uma secular tradição portuguesa que acontece entre o Natal (25 de dezembro) e o dia de Reis (6 de janeiro), assumindo características diferenciadoras em certas regiões.  Acompanhados por instrumentos musicais, grupos de amigos e conhecidos (reiseiros) vão de casa em entoando cantigas com que se deseja boas festas e um feliz ano novo e se pede um donativo. As janeiras têm o foco no desejar um bom ano e não tanto no nascimento de Jesus. As tradicionais janeiras e cantares ao Menino assumem no concelho de Faro a forma particular de encontros de charolas, amplamente participados.

Na linha das tradições musicais portuguesas (e no âmbito de Educação Musical e de Música), podem ser manifestação de empatia com a comunidade educativa. Na escola, as quadras podem ser preparadas com os alunos, atividade que fomenta a criatividade e o gosto da poesia.

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A cabana está fechada

1. A cabana está fechada,
o Menino está lá dentro.
Vinde dar as Boas Festas.
Ó que lindo nascimento.

Vamos todos, vamos todos,
vamos todos a Belém
adorar o Deus Menino
que Nossa Senhora tem.

A cantar-vos as janeiras

A cantar-vos as janeiras
aqui estamos reunidos.
Desejamos um bom ano
aos amigos mais queridos.

1. Vivam os colegas,
e os professores,
os auxiliares
e educadores.

Versão das janeiras “Boas festas, boas festas” destinada à escola.

Agora que eu vou cantar

Agora que eu vou cantar,
viva o meu atrevimento.
Quem não me quiser ouvir
bote os ouvidos ao vento.

Por bem cantar, mal não digas
dos que a voz aqui levantam,
pois uns cantam o que sabem
e outros sabem o que cantam.

Popular do Alentejo

Alegres cantam os sinos

1. Alegres cantam os sinos
nesta noite de Natal
em que Jesus veio ao mundo
para nos livrar do mal.

Vinde, pastores, correi a Belém,
ver na lapinha Jesus nosso bem.
Vinde adorar o Menino,
Vinde todos a Belém.

2. Glória a Deus nas alturas,
estão anjos a cantar.
Vinde adorar o Menino
que nasceu p’ra nos salvar.

3. Ó meu menino Jesus,
nascidinho na probreza,
tomai posse da minha alma
que é toda a minha riqueza.

Cantar. 1964, 4ª ed., 162-163.

Aqui estamos nós

Aqui estamos nós
Neste belo dia
Cantando as janeiras
Com muita alegria.

P’ra a nossa família
E p’ra toda a gente
Que o ano novo
seja excelente.

2. Para os colegas
E os professores,
Os auxiliares
E educadores…

3. Que os nossos amigos
Tenham amizade,
Muita alegria
E felicidade.

Aqui estamos nós todos reunidos

Aqui estamos nós
todos reunidos
cantando as janeiras
aos nossos amigos,
sem nenhum interesse
com muita amizade,
cantando as janeiras
à sociedade.

Somos cá da terra
e vimos cantar,
dar as boas festas
p’ra vos alegrar.
Neste ano novo
que Deus nos ajude,
nos dê muita paz
e muita saúde.

1. Somos bons amigos
e vimos cantar
dar as boas festas
p’ra vos alegrar.
Neste novo ano
que Deus nos ajude,
nos dê muita paz
e muita saúde.

2. ‘Stamos a acabar,
temos de partir
mas jamais iremos
sem nos despedir.
Senhores da casa
batam-nos as palmas,
sejam lá bondosos
pelas vossas almas.

Aqui vêm as três rosinhas

Aqui vêm as três rosinhas
quatro ou cinco ou seis
se o senhor nos dá licença
vimos-lhe cantar os reis

Os três reis do oriente
já chegaram a Belém
visitar o Deus Menino
que Nossa Senhora tem.

O menino está no berço
coberto c’o cobertor
e os anjinhos estão cantando
louvado sej’o Senhor.

O Senhor por ser Senhor
nasceu nos tristes palheiros,
deixou cravos, deixou rosas,
deixou lindos travesseiros.

Você diz que tem bom vinho
có có có,
venha-nos dar de beber,
rintintin,
florin-tintin,
traililairó.

Donões, Montalegre, Trás-os-Montes

Aqui vimos, aqui estamos

Aqui vimos, aqui estamos,
aqui vimos, bem sabeis,
vimos dar as boas festas
e também cantar os reis.

1. Pastores, pastores,
vamos todos a Belém
visitar Maria
e Jesus também.

2. Nasceu o Menino Jesus,
nasceu para nos salvar;
vamos todos a Belém,
o verdadeiro lugar.

3. Quem diremos nós que viva
no raminho de oliveira?
Viva o Senhor Alberto
e viva a família inteira.

Final:
Pastores, pastores,
vamos a Belém
visitar Maria
e Jesus também.

Trad. Louredo/Resende, Portugal

Boas festas

Boas festas, boas festas
aos amigos vimos dar.
Um bom ano, um bom ano
vos queremos desejar.

1. Ó vós que dormis
em cama macia,
já nasceu o filho
da Virgem Maria.

Boas festas, boas festas

1. Boas festas, boas festas
tenha vossa senhoria,
com boas entradas de ano
com prazer e alegria.

Vamos todos juntos,
todos reunidos
dar as Boas Festas
aos nossos amigos.

2. Como alegres passarinhos
a nossa vida é cantar
e aos senhores desta casa
queremos saudar.

3. Vivam todos meus senhores,
vivam todos em geral.
Deus lhes dê um ano novo
isento de todo o mal.

Cantar 1964, 4ª ed. 158-159.

Boas noites

Boas noites, boas noites,
boas noites de alegria,
que lhas manda o Rei da Glória,
filho da Virgem Maria.

Naquela relvinha,
c ’o vento gelou,
a mãe de Jesus
tão pura ficou.

Dominus excelsis Deo,
que já é nascido
O que nove meses
andou escondido.

De quem é o chapeuzinho
Qu’além ‘stá pendurado?
É do senhor José
que Deus o faça um cravo.

De quem é o vestidinho
cosido com seda branca?
É da senhora Susana
que Deus a faça uma santa.

De quem será é o pente d’oiro
Que se achou no arvoredo?
É da senhora Clara
que lhe caiu do cabelo.

De quem eram as liguinhas
que se acharam entre as ervas?
Eram da senhora Rosa
que lhe caíram das pernas.

De quem seriam eram as botinhas
que estavam no sapateiro?
Eram do senhor Custódio
que as pagou c’o seu dinheiro.

Levante-se lá, senhora
do seu banco de cortiça.
Venha-nos dar as janeiras,
ou morcela ou chouriça.

Levante-se lá, senhora,
desse seu rico banquinho,
Venha-nos dar as janeiras
em louvor do Deus Menino.

Levante-se lá, senhora,
desse seu rico assento.
Venha-nos dar as janeiras
em louvor do Nascimento.

Levante-se lá, senhora,
desse seu banco de prata,
Venha-nos dar as janeiras
que está um frio que mata.

(Se demoram a dar as Janeiras…)

Levante-se lá, senhora
dessa cadeirinha torta.
Venha-nos dar as Janeiras
se não batemos-lhe à porta.

(Se dão as Janeiras, cantam a despedida.)

Despedida, despedida,
despedida quero dar.
Os senhores desta casa
bem nos podem desculpar.

(Se não dão as janeiras)

Esta casa não é alta,
tem apenas um andar.
Estes barbas de farelo
nada têm p’ra nos dar.

Esta casa é bem alta,
forradinha de papel.
O senhor que nela mora
É um grande furriel.

Esta casa é bem alta,
forradinha a papelão.
O senhor que nela mora
é um grande forretão.

(Trelinca a martelo
torna a trelincar.
Estes barbas de chibo
não têm que nos dar.)

(Quando vão comer as janeiras)

Naquela relvinha,
naquela lameira,
detrás da fontinha
se come a Janeira.

Gloria in excelsis Deo,
que já é nascido
O que nove meses
andou escondido.

Recolha de várias com base na de Vale de Lobo, BB – Etnografia da Beira, I vol., Jaime Lopes Dias, 2ª ed. Empresa Nacional de Publicidade, Lisboa 1944, 159. Pequenas adaptações.

Boas noites, meus senhores

Boas noites, meus senhores,
Boas noites vimos dar.
Vimos pedir as Janeiras
Se no-las quiserem dar.

Aqui vimos, aqui vimos,
Aqui vimos bem sabeis.
Vimos dar as boas festas
E também cantar os reis.

Ano Novo, Ano Novo,
Ano Novo, melhor ano.
Vimos cantar as Janeiras
Como é de lei cada ano.

Levante, linda senhora
Desse banquinho de prata.
Venha-nos dar as Janeiras
Que está um frio que mata.

As Janeiras são cantadas
Do Natal até aos Reis.
Olhai lá por vossa casa
Se há coisa que nos deis.

Cá estamos à sua porta

Cá estamos à sua porta,
um grupo de amigos seus.
Falar bem nada nos custa:
santa noite lhe dê Deus.

Que tenha um próspero ano
e não esqueça a virtude.
Que tenha muita alegria
e outra tanta saúde.

A quem tanto bem nos faz
Deus livre de pena e dano.
Fiquem com Deus, passem bem!
Até ao próximo ano!

Adapt.
Aqui ‘stou à sua porta
mais dois camaradas meus.
Falar bem nada nos custa:
santas noites lhes dê Deus.

Venho lhes dar os bons anos
que pelas festas não pude.
Venho ao fim de saber
novas da sua saúde.

Trad. Portugal, Peroguarda

Cantemos

Cantemos, cantemos,
cantemos com alegria.
Vimos dar as Boas Festas
à nossa freguesia.

1. A senhora desta casa
está sentada num banquinho.
Venha o prato das filhoses
e o garrafão do vinho.

2. A senhora que aqui mora
seria boa pessoa
se nos trouxesse presunto
e um pedaço de broa.

Cantemos todos lindas canções

Cantemos todos lindas canções.
Louvam a Deus os corações.
Já é nascido, haja alegria!,
o Deus menino, Avé Maria.

Entrai, pastores, entrai
por esse portal sagrado.
Vinde adorar o menino
numas palhinhas deitado.

Da serra veio um pastor
à minha porta bateu.
Trouxe uma carta que diz:
“O Deus menino nasceu!”

Pela oferta que nos deram,
o nosso muito obrigado.
Tenham um bom ano novo
de paz e amor recheado.

Debaixo de uma oliveira

Debaixo de uma oliveira,
um anjo do céu dizia:
a todos os moradores
muita paz e alegria!

1. As janeiras são cantadas
em janeiro pelos Reis.
Nasceu um lindo menino,
o seu nome já o sabeis.

2. Boas festas, boas festas
vos dizemos neste dia;
vós dais-nos as janeirinhas,
nós trazemos a alegria.

3. A todos os que aqui ‘stão
a ouvir-nos a cantar,
nós desejamos bom ano
e saúde a transbordar.

Trad. Portugal

Em Belém, à meia noite

1. Em Belém, à meia noite,
noite de tanta alegria
já nasceu o Deus Menino,
Filho da Virgem Maria.

Pastores, pastores,
vinde todos a Belém
adorar o Deus Menino,
que Nossa Senhora tem.

2. Viva lá, senhora Amélia
raminho de amendoeira.
‘Inda neste mundo anda
já no céu tem a cadeira.

3. Viva lá, o menino Diogo
que lá está juntinho à brasa.
Venha-nos dar as janeiras
que é o morgado da casa.

4. Viva lá, senhor Armando
raminho de salsa crua.
Quando vai para a igreja
alumia toda a rua.

5. A todos que aí estão
ao redor dessa fogueira,
santa paz lhes desejamos
‘té à hora derradeira.

Cf. Cantar. 1964, 4ª ed., 152-153.

Esta casa é tão alta

Esta casa é tão alta,
É forrada de papelão.
Aos senhores que cá moram,
Deus lhe dê a salvação.

Esta noite

Esta noite é de Janeiras.
Cantemos com alegria.
Já nasceu o Deus Menino
Filho da Virgem Maria,

Filho da Virgem Maria
Numas palhinhas deitado.
Deu à luz esta criança
O Deus Menino Sagrado.

Estou a ver a dona de casa
Pelo buraco da fechadura.
Venha-me dar a esmola
Que o frio já não se atura.

Quando vinha aí em baixo
Topei com uma cortiça.
Logo o meu coração disse
Que aqui davam uma chouriça.

Autor: Diogo Graça Carolino
Alvalade – Sado

Esta noite é de Janeiras

Esta noite é de Janeiras
e dum grande merecimento
por ser a noite primeira
em que Deus passou tormento.

Os tormentos que passou,
eu lhes digo a verdade:
o seu sangue derramou
p ’ra salvar a sociedade.

Um raminho, dois raminhos,
um raminho de salsa crua.
Ao pé da tua cama
nasce o sol e põe-se a lua.
Daqui donde estou bem vejo
um canivete a bailar
para cortar a chouriça
que a senhora me há-de dar.

Esta noite é de janeiras, in Cancioneiro Popular Português, Michel Giacometti; F. Lopes-Graça. Círculo de Leitores 1981, 46.

Esta noite é de Janeiras, é de grande mer’cimento

Esta noite é de janeiras,
é de grande mer’cimento.
Por ser a noite primeira
em que Deus passou tormento.

Os tormentos que passou
de Sua livre vontade,
o Seu Sangue derramou
p’ra salvar a Cristandade.

O Seu Sangue derramou,
Seu Sangue derramaria
p’ra salvar a Cristandade,
São Pedro, Santa Maria!

Ao fim de séculos passados,
foram ver a sepultura.
Acharam ossos mirrados,
o sinal da criatura!

Esta noite de Ano Novo
é de tão alto valor.
Deus lhe dê muita saúde
e pão ao Sr. Doutor!

Viva o Sr. Dr. Carlos
que vela p’los pobrezinhos
Deus lhe dê muita saúde
pra criar os seus filhinhos!

Esta casa está juncada
com junquilhos da ribeira.
Viva o dono desta casa,
mais a sua companheira!

Esta casa está juncada
com ramos de erva cidreira.
Deus lhe dê muita saúde,
e à sua família inteira!

Janeiras, in Cancioneiro de Serpa, M. Rita Ortigão P. Cortez, Ed. C.M. Serpa 1994, 366-367.

Inda agora

‘Inda agora aqui cheguei,
já começo a cantar.
‘Inda não pedi licença,
não sei se ma querem dar.

Pastores, Pastores,
vinde todos a Belém
adorar o Deus Menino
que Nossa Senhora tem.

Levante-se lá, ó senhora,
desse seu lindo banquinho.
Venha o prato das filhoses
e uma garrafa de vinho.

Levante-se lá, ó senhora
dessa cadeira de prata,
Venha-nos dar as janeiras
que está um frio que mata.

Inda agora aqui cheguei

Inda agora aqui cheguei,
mal pus o pé na escada,
logo o meu coração disse:
aqui mora gente honrada.

Ó irmãos na caridade,
notícias vos trago eu:
às doze horas da noite
o Deus Menino nasceu.

Nasceu numas tristes palhas
como nasce o cordeirinho.
Por causa dos meus pecados
foi preso ao madeirinho.

De quem é a bengalinha
que está ali no bengaleiro?
É do patrão desta casa
que é um bom cavalheiro.

Já os campos averdegam

Já os campos averdegam
noite e dia à bela luz.
Ó que lindo nascimento
teve o menino Jesus.

Andámos de casa em casa
por atalhos e caminhos,
os corações sempre em brasa
como outrora os pastorinhos.

2. Ó meu menino Jesus,
meu lindo amor perfeito,
se vós tendes frio
vinde parar ao meu peito.

Já os três reis vão chegando

1. Já os três reis vão chegando
à lapinha de Belém
adorar o Deus Menino
que Nossa Senhora tem.

Com muitas graças
aqui viemos
as boas festas
lhes cantaremos.

2. A cabana era pequena,
não cabiam todos três;
adoraram o Menino
cada um por sua vez.

3. Nossa Senhora lhe disse:
– Filho meu, que te farei?!
Não tenho cama nem berço,
nos braços te criarei.

Já os três reis são chegados

1. Já os três reis são chegados
às portas do Oriente
visitar o Deus Menino,
Senhor Deus omnipotente.

2. Já os três reis são chegados
à lapinha de Belém,
visitar o Deus Menino
que a Nossa Senhora tem.

3. Nossa Senhora Lhe disse:
– Filho meu, que Te farei?
Não tenho cama nem berço,
nos braços te criarei.

4. Estas casas são bem altas,
têm defronte um laranjal.
Viva quem está dentro delas,
vivam todos em geral.

Meia noite dada

1. Meia noite dada,
meia noite em pino,
cantavam os galos,
nascia o Menino.

2. Chorava o Menino
como um enjeitado,
em lapa da serra,
não no povoado.

3. Menino tão rico
que pobre estais!…
Deitado no feno,
entre animais!

4. Os filhos dos homens
em berço doirado,
e Vós, meu Menino,
em palhas deitado!

5. Em palhas deitado,
tão pobre esquecido,
filho de uma rosa,
de um cravo nascido.

6. E do Oriente
os três reis vieram.
Oiro, incenso e mirra
lhe ofereceram.

Nesta casa há amor

Nesta casa há amor,
junta-se a paz à lareira
para ouvir cantar em grupo
cantadores, cantadeiras.

1. Vimos cantar as janeiras
Do tempo da nossa avó.
Somos gente das aldeias
unidas num grupo só.

2. Nos braços da bela aurora
vejo o menino brincando
com a mãozinha de fora
todo o Mundo abençoando.

Neste dia de Janeiro

Neste dia de Janeiro
nós cá ‘stamos a cantar.
Um bom ano para todos
vos queremos desejar.

É nascido o Deus Menino,
Filho da Virgem Maria.
Cantemos em seus louvores
nossos hinos de alegria.

Cf. Cantar, 1964, 4ªed., 176.

Nós aqui vimos

Nós aqui vimos,
todos reunidos,
dar as Boas Festas
aos nossos amigos.

Não é com interesse
mas com amizade
dar as Boas Festas
à sociedade.

Sobreirinho ramalhudo
que nos dás a bolota,
se tens filhos ou criados
mandai-nos abrir a porta.

Pela oferta que nos deram
o nosso muito obrigado.
O nosso rancho agradece
nós p’ró ano cá voltamos

Modivas, Ourém

Nós somos os três reis

1. Nós somos os três reis
que vimos do Oriente
trazer as boas festas
com paz p’ra toda a gente.
Nós somos os três reis
guiados por uma luz.
Adoramos o Deus Menino
que se chama Jesus.

2. Nós somos os três reis,
Baltazar e Gaspar.
Também o Belchior
O veio adorar.
Nós somos os três reis
guiados por uma luz.
E trouxemos três presentes
p’ro Menino Jesus.

Ó da casa, nobre gente

Ó da casa, nobre gente,
escutareis e ouvireis
Das bandas do Oriente
são chegados três reis.

São três reis, são três c’roados,
vinde ver quem vos c’roou,
e mais quem vos ordenou
no vosso santo caminho.

Mandou Deus, por uma estrela
que lhe ensinasse o caminho;
a estrelinha foi pousar
no alto duma cabana…

A cabana era pequena,
não cabiam todos três;
adoraram Deus Menino
cada um por sua vez.

Todos Lhe ofereceram
ouro e mirra e incenso;
não lhe ofereceram mais nada
porque Ele era Deus imenso.

Tradicional de Cinfães, Portugal

Ó de casa, alta nobreza

Ó de casa, alta nobreza,
mandai-nos abrir a porta,
ponde a toalha na mesa
com caldo quente da horta!

Teni, ferrinhos de prata,
ao toque desta sanfona!
Trazemos ovos de prata
fresquinhos, prá vossa dona.

Senhora dona de casa,
à ilharga do seu Joaquim,
vermelha como uma brasa
e alva como um jasmim!

Vimos honrar a Jesus
numas palhinhas deitado:
o candeio está sem luz
numa arribana de gado.

Mas uma estrela dianteira
arde no céu, que regala!
A palha ficou trigueira,
os pastorinhos sem fala.

Dá-lhe calorzinho a vaca,
o carvoeiro uma murra,
a velha o que traz na saca,
seus olho mansos a burra.

Já as janeiras vieram,
os Reis estão a chegar,
Os anos amadurecem:
estamos para durar!

Já lá vem Dom Melchior
sentado no seu camelo
cantar as loas de cor
ao cair do caramelo.

Ó incenso, mirra e oiro,
que cheirais e luzis tanto,
não valeis aquele tesoiro
do nosso Menino santo!

Abride a porta ao peregrino,
que vem de num longe, à neve,
de ver nascer o Menino
nas palhinhas do preseve.

Acabou-se esta cantiga,
vamos agora à chacota:
já enchemos a barriga,
sigamos nossa derrota!

Rico vinho, santa broa
calça o fraco, veste os nus!
Voltaremos a Lisboa
pró ano, querendo Jesus.

Recolha de Vitorino Nemésio (1901-1978)

O Menino está deitado

1. O Menino está deitado
com Maria e José.
Cantamos nós com os anjos:
“Gloria tibi Domine”. .

2. Entrai, pastores, entrai
na lapinha de Belém.
Adorai o Deus Menino
que nasceu p’ra nosso bem.

Cf. Cantar. 1964, 4ª ed.

Os pastores vão andando

Os pastores vão andando,
andando sempre à porfia
a ver quem chega primeiro
aos pés da Virgem Maria.

Boas festas, meus senhores,
festas de tanta alegria.
Já nasceu o Deus Menino,
Filho da Virgem Maria.

Para quem está ouvindo
esta nossa melodia,
pedimos ao Deus Menino
lhes dê paz e alegria.

Aqui ‘stou à sua porta
c’um pé frio e outro quente.
Venha dar-nos as janeiras,
um copinho de aguardente.

Cantar. 1964, 4ª ed., 174-175.

Que estás a fazer, criança

Que estás a fazer, criança,
sentado na pedra fria?
Estou à espera do menino
Filho divino à luz do dia.

1. Andamos de casa em casa
por atalhos e caminhos,
os corações sempre em brasa
como outrora os pastorinhos.

2. Vimos dar as Boas Festas,
Boas Festas vimos dar,
que nasceu o Deus menino
nas palhinhas ao luar.

Senhora dona da casa

Senhora dona da casa
Deixe-se estar que está bem.
Mande-nos dar a esmola
Pela rosa que aí tem.

1. Abram-se lá essas portas
Ainda não estão bem abertas
Que nasceu o Deus menino
Vou-lhe dar as boas festas.

2. Boas festas meus senhores
Boas festas lhes vou dar.
Que nasceu o Deus menino
Nesta noite de Natal.

3. Nesta noite de Natal
Noite de santa alegria
Já nasceu o Deus menino
Filho da Virgem Maria

Senhores, nós vos trazemos

1. Senhores, nós vos trazemos
a mensagem de Belém:
nasceu já o Deus Menino
e Maria é sua mãe.

2. Nas bandas do Oriente
Uma estrelinha brilhou
E guiando os três reis Magos
Sobre o presépio poisou.

Nestas noites de Natal
como é bom pelo luar
vir até vós meus senhores
lindas janeiras cantar.

3. Tudo acorre à lapinha
para adorar o Senhor.
Não deixemos nós também
de cantar o seu louvor.

4. Como somos mensageiros,
não podemos demorar.
A boa nova iremos
a outros anunciar.

5. Levantai-vos, vinde ver-nos
e trazei-nos as janeiras
porque esta noite está fria,
só nos sabem as fogueiras.

6. Vamos dar a despedida
até ao ano que vem.
Fiquem-se com Deus, senhores,
e sua divina mãe.

Letra: Delmar Barreiros, Cantar. 1964, 4ª ed, p. 166-167.

Um Ano Novo entrou

Um Ano Novo entrou,
as Janeiras vamos cantar
pedindo a vossa bondade
de quem nos queira ajudar.

Janeiras, lindas janeiras,
senhores vimos cantar.
Boas Festas e alegria
vos queremos desejar.

Que todos os Mirenses
Tenham muitas felicidades,
presentes e ausentes
de todas as idades.

Senhores não demoreis
que é muito frio o luar,
Vinde-nos dar as Janeiras
que nós temos de caminhar.

Boas noites meus senhores
até p’ró ano que vem.
Alegria e paz em Deus
e na Virgem, Sua Mãe.

Vamos cantar as janeiras

Vamos cantar as janeiras,
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras.

Vamos cantar orvalhadas,
Vamos cantar orvalhadas.
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas casadas.

Vira o vento e muda a sorte,
Vira o vento e muda a sorte.
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte.

Muita neve cai na serra,
Muita neve cai na serra.
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra.

Quem tem a candeia acesa,
Quem tem a candeia acesa.
Rabanadas pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza.

Já nos cansa esta lonjura,
Já nos cansa esta lonjura.
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à ventura.

José Afonso

Vimos cantar as janeiras

Vimos cantar as janeiras
desejando neste dia
um bom ano para toda a escola
com saúde e alegria.

Vimos cantar as janeiras
desejando neste dia
um bom ano p’ra toda a família
com saúde e alegria.

Vimos cantar as janeiras
desejando neste dia
um bom ano para os moradores
desta linda freguesia.

Vimos cantar as janeiras
desejando neste dia
um bom ano para toda a gente
com saúde e alegria.

Para a melodia de janeiras de José Afonso

Vinde, pastores

Vinde, pastores, depressa
que já nasceu o Menino.
Já se cumpriu a promessa,
vamos a tocar o sino.

1. Janeiras, lindas janeiras,
janeiras da minha aldeia.
Sois quais estrelas fagueiras
nas noites de lua cheia.

2. Janeiras, lindas janeiras
senhores, vimos cantar.
Boas Festas e alegrias
vos queremos desejar.

3. Sopram os ventos da serra,
caem estrelas do céus,
Alegre-se toda a terra,
nasceu o Menino Deus.

4. Senhores, não demoreis,
que é muito frio o luar.
Vinde-nos dar as Janeiras,
que temos de caminhar.

5. Levantai-vos da lareira
e vinde depressa ver
a grandiosa fogueira
que o Menino há-de aquecer.

6. Ó Janeiras de Vilar
Como vós não há igual.
Dais consoada aos pobres
nestas noites de Natal.

7. A mensagem de Natal
a todos dê luz e amor.
Oxalá por toda a vida
vos guie com seu fulgor.

8. Boas noites, meus senhores,
até para o ano que vem.
Alegria e paz em Deus
e na Virgem sua Mãe.

Letra: J. Geraldes, Cantar. 1964, 4ª ed., 169-171.

Viva lá

Viva lá, minha senhora,
casaquinho de veludo;
Quando mete a mão ao bolso,
tem dinheiro para tudo.

Refrão:
Boas Festas, Boas Festas,
vos dizemos neste dia.
Venham-nos dar as Janeiras,
com prazer e alegria.

Viva lá, minha senhora,
no seu livrinho a ler;
Quando vai para a janela,
parece o sol a nascer.

Viva lá, minha senhora,
linda estrela do norte.
Que Deus a deixe criar
para uma boa sorte.

Levante-se lá, minha senhora,
desse banco de cortiça.
Venha-nos dar as Janeiras,
ou de carne, ou de chouriça.

Alegrias populares, vol. II, Jaime Pinto Pereira, Ed. autor 1967, 22
Vila Verde, Tourais

Viva lá, minha senhora

Viva lá, minha senhora,
Raminho de salsa crua.
Quando chega à janela
Põe-se o sol e nasce a lua.

Viva lá minha senhora
Linda boquinha de riso,
Linda maçã camoesa
Criada no paraíso.

Ó que estrela tão brilhante
Que vem dos lados do norte.
À família desta casa
Deus lhe dê a melhor sorte.

De quem é o anel d’oiro
Com pedrinhas no Redol.
É do menino João
Que é bonito como o sol.

Viva lá menina Rita.
Suas faces são romãs.
Seus olhos são mais galantes
Do que a estrela da manhã.

Ó que estrela tão brilhante
Que vem dos lados do norte.
À família desta casa
Deus lhe dê a melhor sorte.

A silva que nasce à porta
Vai beber à cantadeira.
Levante daí senhora
Venha-nos dar a Janeira.

Alegrai-vos companheiros
Que já sinto gente andar.
É a senhora da casa
Que nos vem a convidar.

Ó que estrela tão brilhante
Que vem dos lados do norte.
À família desta casa
Deus lhe dê a melhor sorte.

QUADRAS INTRODUTÓRIAS

Boas noites, boas noites,
boas noites de alegria,
que lhas manda o Rei da Glória,
filho da Virgem Maria.

Os três reis do oriente
já chegaram a Belém
visitar o Deus Menino
que Nossa Senhora tem.

Cá estamos à sua porta,
um grupo de amigos seus.
Falar bem nada nos custa:
santa noite lhe dê Deus.

Andámos de casa em casa
por atalhos e caminhos,
os corações sempre em brasa
como outrora os pastorinhos.

O menino está no berço
coberto c’o cobertor
e os anjos estão cantando
louvado seja o Senhor.

Aqui ‘stou à sua porta
mais dois camaradas meus.
Falar bem nada nos custa:
santas noites lhes dê Deus.

Venho lhes dar os bons anos
que pelas festas não pude.
Venho ao fim de saber
novas da sua saúde.

QUADRAS PARA REFRÃO

A cantar-vos as janeiras
aqui estamos reunidos.
Desejamos um bom ano
aos amigos mais queridos.

Aqui vimos, aqui estamos
A cantar, já o sabeis.
vimos dar as boas festas
e também cantar os reis.

Boas festas, boas festas
aos amigos vimos dar.
Um bom ano, um bom ano
vos queremos desejar.

QUADRAS PARA VIVAS

Viva lá quem nos escuta,
vivam todos em geral.
Deus vos dê um ano novo
E a todo o Portugal.

Como aqueles passarinhos
que estão sempre a cantar.
Aos senhores desta casa
nós queremos saudar.

Boas festas, boas festas
tenha vossa senhoria,
com boas entradas de ano
com prazer e alegria.

Quem diremos nós que viva
no raminho de oliveira?
Viva o Senhor Alberto
e viva a família inteira.

Por bem cantar, mal não digas
dos que a voz aqui levantam,
pois uns cantam o que sabem
e outros sabem o que cantam.

Boas noites, meus senhores,
Boas noites vimos dar.
Vimos pedir as Janeiras
Se no-las quiserem dar.

As Janeiras são cantadas
Do Natal até aos Reis.
Olhai lá por vossa casa
Se há coisa que nos deis.

Levante, linda senhora
desse banquinho de prata.
Venha-nos dar as Janeiras
que está um frio que mata.

De quem é o vestidinho
cosido com seda branca?
É da senhora Susana
que Deus a faça uma santa.

De quem seriam eram as botinhas
que estavam no sapateiro?
Eram do senhor Custódio
que as pagou c’o seu dinheiro.

Levante-se lá, senhora
do seu banco de cortiça.
Venha-nos dar as janeiras,
ou morcela ou chouriça.

Levante-se lá, senhora,
desse seu rico assento.
Venha-nos dar as janeiras
em louvor do Nascimento.

Levante-se lá, senhora
dessa cadeirinha torta.
Venha-nos dar as Janeiras
se não batemos-lhe à porta.

DESPEDIDA

Que tenha um próspero ano
e não esqueça a virtude.
Que tenha muita alegria
e outra tanta saúde.

A quem tanto bem nos faz
Deus livre de pena e dano.
Fiquem com Deus, passem bem!
Até ao próximo ano!

Despedida, despedida,
despedida quero dar.
Os senhores desta casa
bem nos podem desculpar.

Esta casa não é alta,
tem apenas um andar.
Estes barbas de farelo
nada têm p’ra nos dar.

Esta casa é bem alta,
forradinha a papelão.
O senhor que nela mora
Tem um grande coração.

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Sagrada Família

A todos, feliz Natal

A todos, feliz Natal 
e um bom Ano Novo.

1. Já pus no presépio
o que é importante
e no meu pinheiro
uma bola brilhante.

2. Já tenho uma ideia
para dar um presente.
E sei que o Natal
há-de ser diferente.

3. Já tenho receita
para o pão de ló
e vou fazer doces
com a mãe e a avó.

Letra: António José Ferreira
Música: Melodia inglesa

A todos um bom Natal

A todos um bom Natal,
a todos um bom Natal.
Que seja um bom Natal para todos nós.
Que seja um bom Natal para todos nós.

1. No Natal pela manhã
ouvem-se os sinos tocar
e há uma grande alegria no ar.

2. Nesta manhã de Natal
há em todos os países,
muitos milhões de meninos felizes

3. Vão aos saltos pela casa
descalços ou em chinelas,
procurar as suas prendas tão belas.

4. Depois há danças de roda
as crianças dão as mãos.
No Natal todos se sentem irmãos.

5. Se isso fosse verdade
para todos os meninos
era bom ouvir os sinos a cantar.

Alegrem-se os céus e a terra

Alegrem-se os céus e a terra,
cantemos com alegria
que nasceu o Deus Menino,
Filho da Virgem Maria!

1. Entrai, pastores, entrai,
por este portal sagrado.
Vinde adorar o Menino
numas palhinhas deitado.

2. Entrai, pastores, entrai,
por este portal adentro;
vinde adorar o Menino
no seu santo nascimento.

3. Vinde todos, vinde todos,
à lapinha de Belém
adorar o Deus menino
que nasceu p’ra nosso bem.

Linhares, Beira Alta

Cai a neve branca

1. Cai a neve branca
sobre a natureza
e na terra inteira
há paz e beleza.

2. Em tudo há doçura,
tudo é irreal
quando é meia noite,
noite de Natal.

3. Uma estrelinha
de uma estranha luz
anuncia ao mundo:
já nasceu Jesus.

Beijai o Menino

Beijai o Menino!
Beijai-o agora!
Beijai o Menino
De Nossa Senhora!

Beijai o Menino!
Beijai-o agora!
Beijai o Menino
De Nossa Senhora!

Beijai o Menino!
Beijai-o no pé!
Beijai o Menino
De S. José!

São os filhos dos homens
Em berços doirados…
E vós, meu Menino,
Em palhinhas deitado.

Em palhinhas deitado,
Em palhinhas esquecido…
Filho de uma rosa,
De um cravo nascido.

Beijai o Menino!
Beijai-o agora!
Beijai o Menino
De Nossa Senhora!

Sois manso cordeiro
Que estais nessa cruz,
Com os braços abertos;
Perdoai-nos, Jesus!

Letra e música: Tradicional (Trás-os-Montes)
Adaptação: José Barros
Arranjo: José Manuel David e José Barros
Intérprete: Navegante (in CD “Meu Bem, Meu Mal”, Tradisom, 2008)
Outra versão de Navegante (in CD “Cantigas Tradicionais Portuguesas de Natal e Janeiras”, José Barros/MediaFactory, 2009)

Cantam os anjos sem cessar

1. Cantam os anjos sem cessar:
já é Natal.
Tocam os sinos sem parar,
já é Natal.
Reis vão ao presépio,
com lindos presentes.
Todos cantamos sem cessar,
já é Natal.

2. Cantam os anjos sem cessar:
nasceu Jesus.
Tocam os sinos sem parar:
nasceu Jesus.
Vão também pastores
com os seus presentes.
Todos cantamos sem cessar:
nasceu Jesus.

Letra: António José Ferreira
Música: Melodia inglesa

Dim dom, sinos a tocar

1. Dim dom, sinos a tocar
e anjos a cantar.
Dim dom, sinos a tocar
e reis a caminhar.

Gloria. Hosana in excelsis.

2. Dim dom, sinos a tocar
e luzes a brilhar.
Dim dom, sinos a tocar,
e gente a partilhar.

Letra: António José Ferreira
Música: Melodia tradicional

É Natal, Deus Menino nasceu

É Natal, Deus Menino nasceu.
Vê-se ao longe uma estrela a brilhar.
São os Reis, são os Reis, são os Reis.
Vêm a Belém para O visitar.

Entrai pastores entrai

Entrai pastores entrai,
por este portal sagrado.
Vinde adorar o Menino
numas palhinhas deitado!

Pastorinhos do deserto
todos correm para O ver
Trazem mil e um presente
para o Menino comer!

Ó meu Menino Jesus
convosco é que eu estou bem
Nada neste mundo quero,
nada me parece bem!

Alegrem-se os Céus e a Terra,
cantemos com alegria
Que nasceu o Deus Menino,
filho da Virgem Maria!

Deus Menino já nasceu,
andai ver o Rei dos Reis.
Ele é quem governa o Céu,
quer que vós O adoreis!

Ó meu Menino Jesus
que lindo amor perfeito.
Se vem muito cansadinho,
vem descansar em meu peito!

Natal da Beira

Está na hora do menino deitar

Está na hora do menino deitar
e na chaminé pôr os sapatinhos.
Já é noite, o Pai Natal vai chegar
para a todos deixar presentinhos.
Cedo acordo ouço os sinos a tocar
e levanto-me alegre aos saltinhos.

Devagar para ninguém acordar
vou contente ver os meus presentinhos.

Lá-lá-lá-lá-lá-lá-lá-lá-lá-lá-lá-lá…

Devagar para ninguém acordar
vou contente ver os meus presentinhos.

Eu hei-de dar ao Menino

[ Arre, Burriquito! ]

Eu hei-de dar ao Menino
Uma fitinha p’ró chapéu;
Ele também me há-de dar
Um lugarzinho no Céu.

Olhei para o Céu,
Estava estrelado;
Vi o Deus-Menino

Em palhas deitado.
Em palhas deitado,
Em palhas estendido;
Filho duma Rosa,
Dum Cravo nascido.

Arre, burriquito!
Vamos a Belém
Ver o Deus-Menino
Que a Senhora tem!

Que a Senhora tem,
Que a Senhora adora;
Arre, burriquito!
Vamo-nos lá embora!

Eu hei-de dar ao Menino
Uma fitinha p’ró boné;
Ele também me há-de dar
Prendinhas na chaminé.

Olhei para o Céu,
Estava estrelado;
Vi o Deus-Menino
Em palhas deitado.

Em palhas deitado,
Em palhas estendido;
Filho duma Rosa,
Dum Cravo nascido.

Arre, burriquito!
Vamos a Belém
Ver o Deus-Menino
Que a Senhora tem!

Que a Senhora tem,
Que a Senhora adora;
Arre, burriquito!
Vamo-nos lá embora!

Olhei para o Céu,
Estava estrelado;
Vi o Deus-Menino
Em palhas deitado.

Em palhas deitado,
Em palhas estendido;
Filho duma Rosa,
Dum Cravo nascido.

Arre, burriquito!
Vamos a Belém
Ver o Deus-Menino
Que a Senhora tem!

Que a Senhora tem,
Que a Senhora adora;
Arre, burriquito!
Vamo-nos lá embora!

Letra e música: Tradicional
Arranjo: Artesãos da Música
Intérprete: Artesãos da Música

Faça “ai, ai”, meu menino

[ Embalo do Algarve ]

Faça “ai, ai”, meu menino,
Que a mãezinha logo vem!
Foi lavar os cueirinhos
À fontinha de Belém.

Vai-te embora, papá negro,
De cima desse telhado!
Deixa dormir o menino,
Está no sono descansado.

Embala, José, embala!
Embala suavemente,
Entretendo o inocente
Com esta cantiga em verso!

Dorme, dorme, meu menino,
Que a mãezinha logo vem!
Dorme, dorme, meu menino,
Que a mãezinha, ai, logo vem!

Letra e música: Tradicional (Alvor, Portimão, Algarve)
Recolha: Michel Giacometti (“Faça ‘ai, ai’, meu menino”, in LP “Algarve”, série “Antologia da Música Regional Portuguesa”, Arquivos Sonoros Portugueses/Michel Giacometti, 1962; 5CD “Portuguese Folk Music”: CD 5 – Algarve, Strauss, 1998; 6CD “Música Regional Portuguesa”: CD 6 – Algarve, col. Portugal Som, Numérica, 2008)
Intérprete: Segue-me à Capela (ao vivo no Teatro da Luz, Lisboa)
Primeira versão de Segue-me à Capela (in Livro/CD “San’Joanices, Paganices e Outras Coisas de Mulher”, Segue-me à Capela/Fundação GDA/Tradisom, 2015)

Feliz Natal, bom Ano Novo

1. Feliz Natal,
bom Ano Novo,
presentes para partilhar.

A melhor prenda é a alegria
que Jesus tem para nos dar.

2. Felizes festas,
família unida,
muitas histórias p’ra contar.

Feliz Natal, Feliz Natal

Feliz Natal, feliz Natal.
Para todos, um ano especial.

1. Um menino diferente
e três reis do Oriente.

2. Uma rena, um trenó,
bolo-rei e pão-de-ló.

3. Um presépio, um pinheiro,
um amigo verdadeiro.

Letra: António José Ferreira
Música: Melodia inglesa

Eu fiz um pão diferente

Padeiro

1. Eu fiz um pão diferente
para a Família provar.

Jesus, dou-te a melhor prenda
que tenho para Te dar.

Sapateiro

2. Eu fiz uns sapatos novos
para Te poderes calçar.

Costureira

3. Eu fiz uma roupa linda
para Te agasalhar.

Carpinteiro

4. Eu fiz um berço bonito
para a Mãe Te embalar.

Letra e música:  António José Ferreira

Jesus vem ao mundo

1. Jesus vem ao mundo:
que paz e bondade!
ó quanta doçura,
amor e humildade.

Vinde, adoremos,
Jesus salvador.
A estrela nos aponta
o rumo, a salvação,
Belém e Deus Menino,
celeste mansão.

2. Jesus no presépio,
vede quanto amor:
nascer pobrezinho
o Deus criador!

Logo que nasceu

1. Logo que nasceu,
Jesus acampou
e à luz das estrelas
uma voz soou,

um ah, ah, ah. 

2. Maria, a Senhora,
seu Filho embalou
e à luz das estrelas
uma voz soou,

um ah, ah, ah. 

Luzes no céu

Luzes no céu
em Dezembro a brilhar,
música e festa
por onde se andar,
uma vaquinha
que não quer pastar:
junto ao Menino,
em Belém, quer estar.

Letra e música: António José Ferreira

Maria, Mãe bendita

Maria, Mãe bendita,
encantaste o Senhor:
hoje e sempre louvamos
tua fé, teu amor.

Felizes como os anjos
a cantar lá nos céus
nós dizemos contigo:
poderoso é Deus.

Menino Jesus do céu

Menino Jesus do céu,
‘screvi-te um lindo postal
para me mandar’s brinquedos
no dia de Natal.

Menino Jesus do céu
que és rico e me tens amor,
dá-me uma prenda bonita,
talvez um computador.

Menino Jesus do céu
dá-me uma linda viola
p’ra praticar em casa
e aprender na escola.

Não há noite mais alegre

Não há noite mais alegre
Que é a noite de Natal
Onde nasceu o Deus-Menino
Antes do galo cantar.

Deu o galo três cantadas,
Deu o Menino nascido;
Bendito seja o ventre
Que o trouxe nove meses escondido!

E a mula, como maldosa,
Destapava-o com a ferradura;
Mas o boi, como era manso,
Tapava-o com a armadura.

E ao boi, Nosso Senhor
Lhe deu a sua bênção:
«As terras que tu lavrares
Todas elas dêem pão!

Cada bago dê uma espiga!
Cada espiga um milhão!
Todo ele se aguardará
Lá no mês de S. João!»

Não há noite mais alegre
Que é a noite de Natal
Onde nasceu o Deus-Menino
Antes do galo cantar.

Letra e música: Tradicional (Alte, Loulé, Algarve)
Intérprete: Vozes do Imaginário (in CD “Cantos ao Menino, Reis e Janeiras da tradição musical portuguesa”, Do Imaginário – Associação Cultural, Évora, 2009

Noite feliz

1. Noite feliz! Noite feliz!
O Senhor, Deus de amor,
pobrezinho nasceu em Belém.
Eis na lapa Jesus, nosso bem.
Dorme em paz, ó Jesus.
Dorme em paz, ó Jesus.

2. Noite feliz! Noite feliz!
Ó Jesus, Deus da luz,
quão amável é teu coração
que quiseste nascer nosso irmão
e a nós todos salvar,
e a nós todos salvar.

3. Noite feliz! Noite feliz!
Eis que no ar vêm cantar
aos pastores os anjos dos céus
anunciando a chegada de Deus,
de Jesus Salvador,
de Jesus Salvador.

Nós somos os três Reis

Nós somos os três Reis
que viemos do Oriente
Trazer as Boas Festas
com Paz p’ra toda a gente.

Nós somos os três Reis
guiados por uma luz.
Adoramos Deus Menino
que se chama Jesus.

Nós somos os três Reis
Baltazar e Gaspar.
Também o Belchior
o veio adorar.

Nós somos os três Reis
guiados por uma luz
e trouxemos três presentes
para o Menino Jesus.

Não há noite mais alegre

Não há noite mais alegre
Que é a noite de Natal
Onde nasceu o Deus-Menino
Antes do galo cantar.

Deu o galo três cantadas,
Deu o Menino nascido;
Bendito seja o ventre
Que o trouxe nove meses escondido!

E a mula, como maldosa,
Destapava-o com a ferradura;
Mas o boi, como era manso,
Tapava-o com a armadura.

E ao boi, Nosso Senhor
Lhe deu a sua bênção:
«As terras que tu lavrares
Todas elas dêem pão!

Cada bago dê uma espiga!
Cada espiga um milhão!
Todo ele se aguardará
Lá no mês de S. João!»

Não há noite mais alegre
Que é a noite de Natal
Onde nasceu o Deus-Menino
Antes do galo cantar.

Letra e música: Tradicional (Alte, Loulé, Algarve)
Intérprete: Vozes do Imaginário (in CD “Cantos ao Menino, Reis e Janeiras da tradição musical portuguesa”, Do Imaginário – Associação Cultural, Évora, 2009

Ó luz de Deus

1. Ó luz de Deus, ó doce luz
que brilhas nas alturas,
vem com teu brilho e teu fulgor
trazer ao mundo o teu calor.
Ó luz de Deus, ó doce luz
que brilhas nas alturas.

2. O mundo viu o Salvador
nascer humilde e pobre.
Ouviu os anjos proclamar
a paz que os homens vem salvar.
O mundo viu o Salvador
nascer humilde e pobre.

3. O Deus do céu vem junto a nós
viver a nossa vida.
Vem das alturas o Senhor
manifestar o seu amor.
O Deus do céu vem junto a nós
viver a nossa vida.

Ó, ó, ó, ó, menino, ó

Ó, ó, ó, ó, menino, ó,
Ó, ó, ó, ó, ó, menino, ó,
Teu pai foi ao eiró,
C’uma vara de aguilhão,
P’ra matar o perdigão.

Ó, ó, ó, ó, ó, ó, ó, ó, ó!

Ó, ó, ó, ó, ó, menino, ó,
Teu pai foi ao eiró;
Tua mãe à borboleta,
Logo te vem dar a teta.

Ó, ó, ó, ó, menino, ó,
Ó, ó, ó, ó, ó, menino, ó,
Teu pai foi ao eiró,
C’uma vara de aguilhão,
P’ra matar o perdigão.

Ó, ó, ó, ó, ó, ó, ó, ó, ó!

Ó, ó, ó, ó, ó, menino, ó,
Teu pai foi ao eiró;
Tua mãe à borboleta,
Logo te vem dar a teta.

Letra e música: Tradicional (Nozedo de Cima, Tuizelo, Vinhais, Trás-os-Montes)
Recolha: Kurt Schindler (1932, in livro “Folk Music and Poetry from Spain and Portugal”, New York: Hispanic Institute in the United States, 1941; “A Canção Popular Portuguesa”, de Fernando Lopes-Graça, col. Saber, Vol. 23, Lisboa: Publicações Europa-América, 1953 – p. 63; 3.ª edição, col. Saber, Vol. 23, Mira-Sintra: Publicações Europa-América, s/d. – p. 60; “Cancioneiro Popular Português”, de Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça, Lisboa: Círculo de Leitores, 1981 – p. 16)
Intérpretes: Ana Tomás & Ricardo Fonseca (in CD “Canções de Labor e Lazer”, Ana Tomás & Ricardo Fonseca, 2017)

O menino está dormindo

1. O menino está dormindo
nas palhinhas despidinho.
Os anjos lhe estão cantando
por amor tão pobrezinho.

2. O menino está dormindo
nos braços da Virgem pura.
Os anjos lhe estão cantando:
“hossana lá na altura”.

3. O menino está dormindo
nos braços de São José.
Os anjos lhe estão cantando:
“Gloria tibi Domine”.

Natal de Évora

Ó meu Menino Jesus

Ó meu Menino Jesus,
Ó meu menino tão belo,
Onde foste a nascer
Ao rigor do caramelo.

Ó meu Menino Jesus,
Não queiras menino ser;
No rigor do caramelo
A neve te faz gemer.

O menino da Senhora
Chama pai a S. José,
Que lhe trouxe uns sapatinhos
Da feira de Santo André.

O Menino chora, chora,
Chora pelos sapatinhos;
Haja quem lhe dê as solas,
Que eu lhe darei os saltinhos.

Dá-me o teu menino!
Não dou, não dou, não dou!
Dá-me o teu menino,
Vai à missa que eu lá vou.
Dá-me o teu menino!
Não dou, não dou, não dou!

Letra e música: Popular (Campo Maior, Alto Alentejo)
Recolhas: Michel Giacometti (in LP “Alentejo”, série “Antologia da Música Regional Portuguesa”, Arquivos Sonoros Portugueses/Michel Giacometti, 1965; 5CD “Portuguese Folk Music”: CD 4 – Alentejo, Strauss, 1998; 6CD “Música Regional Portuguesa”: CD 5 – Alentejo, col. Portugal Som, Numérica, 2008 – vide nota infra); Michel Giacometti (in série documental “Povo Que Canta”, RTP-1, 1970-73)
Intérprete: Brigada Victor Jara / voz solo de Joaquim Caixeiro (in LP “Quem Sai aos Seus”, Vadeca/J.C. Donas, 1981, reed. Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)

O que levas ao Menino

1. O que levas ao Menino,
o que tens para Lhe dar?
Vou levar-Lhe um casaquinho
p’ra Jesus se agasalhar

2. O que levas ao Menino,
o que tens para Lhe dar?
Vou levar-Lhe um brinquedinho
p’ra Jesus poder brincar.

3. O que levas ao Menino,
o que tens para Lhe dar?
Vou levar-lhe uma bola
p’ra Jesus poder jogar.

4. O que levas ao Menino,
o que tens para Lhe dar?
Vou levar-lhe uma viola
p’ra Jesus poder tocar.

5. O que levas ao Menino,
o que tens para Lhe dar?
Vou levar-lhe um livrinho
p’ra Jesus poder ‘studar.

6. O que levas ao Menino,
o que tens para Lhe dar?
Vou levar-lhe o coração
p’ra Jesus nele morar.

Letra e música: António José Ferreira

Oh Bento Airoso

Oh Bento Airoso,
Mistério divino!
Encontrei a Maria
À beira do rio
E lavando os cueiros
Do bendito Filho.

Maria lavava,
São José ‘stendia,
O Menino chorava
Com o frio que fazia.

Calai, meu menino!
Calai, meu amor!
(E) que as vossas verdades
Me matam de dor.

Letra e música: Tradicional (Paradela, Miranda do Douro, Trás-os-Montes)
Recolha: Michel Giacometti (1960, in “Cancioneiro Popular Português”, Lisboa: Círculo de Leitores, 1981 – p. 43)
Intérpretes: Ana Tomás & Ricardo Fonseca (in CD “Canções de Labor e Lazer”, Ana Tomás & Ricardo Fonseca, 2017)

Para quem são as janeiras

– Para quem são as janeiras?
Para quem é a canção?
– Para a nossa professora
que temos no coração.

Para quem são as janeiras?
Para que é a cantiga?
-Para a Professora Carla
que é muito nossa amiga.

– Para quem são as janeiras?
Para quem é a canção?
É para as educadoras
que temos no coração.

– Para quem são as janeiras?
Para quem é a canção?
É para as auxiliares
que temos no coração.

– Para quem são as janeiras?
Para quem é a canção?
É p’ra todos os amigos
que temos no coração.

– Para quem são as janeiras?
Para quem é a canção?
Para a nossa professora
que se chama Conceição.

Letra e música: António José Ferreira

Pastorinhos

Pastorinhos do deserto,
é, pois, certo
que, na noite de Natal,
num curral,
baixou o Filho de Deus
lá dos céus.

Quem nos deu tanta alegria?
Foi Maria!
E quem nos deu tanta luz?
Foi Jesus!
Cantemos os seus louvores,
ó pastores.

Pastorinhos do deserto

Pastorinhos do deserto,
vinde todos a Belém
adorar o Deus Menino
nos braços da Virgem Mãe.
Pastorinhos do deserto,
vinde todos a Belém.

Pinheirinho, pinheirinho

Pinheirinho, pinheirinho
de ramos verdinhos,
p’ra enfeitar, p’ra enfeitar,
bolas, bonequinhos. (2 v. )

1. Uma bola aqui,
outra acolá,
luzinhas que piscam,
que lindo que está.

Olha o pai Natal
de barbas branquinhas.
Traz o saco cheio
de lindas prendinhas.

(Menino)
Pai Natal, Pai Natal
dá-me um avião
Não faz mal, não faz mal
que ande pelo chão.

(Menina) )
Pai Natal, Pai Natal
dá-me uma boneca.
Não faz mal, não faz mal
que seja careca.

Que todo o tempo seja de Natal

1. Que todo o tempo seja de Natal,
que todo o ano seja de Natal.
Que sempre haja alegria
igual à deste dia.
Que todo o tempo seja de Natal.

3. Que todo o tempo seja de Natal,
que todo o ano seja de Natal.
Que sempre haja esperança
nos sonhos da criança.
Que todo o tempo seja de Natal.

3. Que todo o tempo seja de Natal,
que todo o ano seja de Natal.
Que sempre haja amizade,
justiça e liberdade.
Que todo o tempo seja de Natal.

Letra e música: António José Ferreira

Rodolfo era uma rena

Rodolfo era uma rena,
de nariz avermelhado
Se vocês observassem,
viam-no logo encarnado.

Todas as outras renas,
gostavam muito de troçar.
E ao pobre Rodolfo,
nunca deixavam brincar.

Então numa bela noite
o Pai Natal lhe disse:
“Com o teu nariz encarnado,
guia o meu trenó prendado”

Então todas as renas
aplaudiram o Rodolfo
“Rena do nariz vermelho,
tu vais ser o mais famoso”

Sobre a gruta estava um anjo

1. Sobre a gruta estava um anjo;
cantava como ninguém cantou.
Um pastor escutou a voz
e os amigos logo chamou:

Gloria in excelsis Deo.
Gloria in excelsis Deo.

Letra: António José Ferreira
Música: Melodia francesa

Tã tã, vão pelo deserto

1. Tã tã, vão pelo deserto,
tã tã, Melchior e Gaspar,
tã tã, e atrás outro mago,
que todos conhecem por rei Baltazar.

2. Tã tã, surgiu uma estrela,
tã tã, no céu a brilhar,
tã tã, tão pura e tão bela,
que a terra inteira está ‘inda hoje a iluminar.

3. Tã tã, cansado o camelo,
tã tã, cansado de andar,
tã tã, assim carregado
de incenso, de mirra, de oiro p’ra dar.

Letra: António José Ferreira
Música: Melodia tradicional de Espanha

Três estrelas de alumínio

[ Presépio de Lata ]

Três estrelas de alumínio
A luzir num céu de querosene;
Um bêbedo julgando-se césar
Faz um discurso solene.

Sombras chinesas nas ruas,
Esmeram-se aranhas nas teias;
Impacientam-se as gazuas,
Corre o cavalo nas veias.

Há uma luz na barraca,
Lá dentro uma sagrada família;
À porta um velho pneu com terra
Onde cresce uma buganvília.

É o presépio de lata!
Jingle bells, jingle bells!

Oiçam um choro de criança:
Será branca, negra ou mulata?
Toquem as trompas da esperança
E assentem bem qual a data.

A lua leva a boa-nova
Aos arrabaldes mais distantes:
Avisa os pastores sem tecto,
Tristes reis magos errantes.

E vem um sol de chapa fina
Subindo a anunciar o dia:
Dois anjinhos de cartolina
Vão cantando “aleluia!”.

É o presépio de lata!
Jingle bells, jingle bells!

Nasceu enfim o menino,
Foi posto aqui à falsa fé:
A mãe deixou-o sozinho
E o pai não se sabe quem é.

É o presépio de lata!
Jingle bells, jingle bells!
Jingle bells, jingle bells!

Letra: Carlos Tê
Música: Rui Veloso
Intérprete: Rui Veloso (in CD “Avenidas”, EMI-VC, 1998)

Um dia, um pastorinho

1. Um dia, um pastorinho,
um dia, um pastorinho,
guiava as ovelhas
tocando pifarinho.

2. No céu viu um sinal,
no céu viu um sinal:
um anjo anunciava
o dia de Natal.

3. Que lindo era o Bébé,
que lindo era o Bebé
no colo de Maria
sorrindo p’ra José.

4. Então o pastorinho,
então o pastorinho
chegou-se ao Bébé
e deu-lhe um beijinho.

Letra e música: António José Ferreira

Um rei do Oriente

1. Um rei do Oriente,
um rei do Oriente,
viu que no céu luzia
um astro diferente.

2. O rei de outro país,
o rei de outro país,
ao ver a nova estrela,
achou-se o mais feliz.

3. Noutro país distante,
Noutro país distante,
um outro mago viu
o astro deslumbrante.

4. Ao verem essa luz,
ao verem essa luz,
puseram-se a caminho
e foram ver Jesus.

5. Que lindo era o Bébé,
que lindo era o Bébé,
no colo de Maria
sorrindo p’ra José.

6. Os reis deram-lhe ouro,
os reis deram-lhe ouro,
voltaram ao palácio
com o maior tesouro.

Letra e música: António José Ferreira

Uma estrela e três magos

Uma estrela e três reis magos
levam prendas ao Menino.
Alguns anjos cantam: “Glória!”
e outros tocam violino.

Uma estrela e três reis magos
levam prendas ao bebé.
Alguns anjos cantam: “Glória!”
e outros tocam jambé.

Letra: António José Ferreira
Música: Melodia tradicional da Hungria

Vai-te embora, ó passarinho

1. Vai-te embora, ó passarinho,
deixa a baga do loureiro.
Deixa dormir o Menino
que está no sono primeiro.

2. Dorme, dorme, meu Menino
que a Mãezinha logo vem.
Foi lavar os cueirinhos
à fontinha de Belém.

Ilha de São Jorge, Açores

Vimos cantar as janeiras

1. Vimos cantar as janeiras.
Por esses quintais adentro, vamos
às raparigas solteiras.

Pam-pararan-ri-ri,
pam-pararan-ri-ri
pam, pam, pam, pam.

2. Vamos cantar orvalhadas,
por esses quintais adentro, vamos
às raparigas casadas.

3. Vira o vento e muda a sorte.
Por aqueles olivais perdidos
foi-se embora o vento norte.

4. Muita neve cai na serra.
Só se lembra dos caminhos velhos
quem tem saudades da terra.

5. Quem tem a candeia acesa
rabanadas, pão e vinho novo
matava a fome à pobreza.

6. Já nos cansa essa lonjura.
Só se lembra de caminhos velhos
quem anda a noite à aventura.

José Afonso

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Sino

Lá na festa da aldeia

[ Festa da Aldeia ]

Lá na festa da aldeia,
Debaixo da cameleira,
Convidaste-me a dançar:
Tamanha era a borracheira

Que no adro da igreja
Nos chegámos a casar.
No nariz, sinal de perigo,
Quem dorme contigo

Má sorte vai enfrentar:
Mas na festa da aldeia,
Com as vizinhas na soleira,
Eu fui-me enamorar.

Peço aos dias tempo emprestado
P’ra apagar esta recordação;
Na frase sem predicado
Há vírgulas sem cuidado

Entre o sujeito e o coração.
Entre o sujeito e o coração.
Lá na festa da aldeia,
Debaixo da cameleira,

A saia sempre a rodar:
A tua mão que se esgueira
Debaixo da pregadeira…
Eu vermelha, a corar.

No banco, dívidas, assombros;
Fiado não vais em ombros;
Fim do mês, falta-te o ar;
Debaixo da cameleira

Foi grande a ciumeira,
Começámos a namorar.
Peço aos dias tempo emprestado
P’ra apagar esta recordação;

Na frase sem predicado
Há vírgulas sem cuidado
Entre o sujeito e o coração.
Entre o sujeito e o coração.

Mas na festa da aldeia,
Tu de mão na algibeira,
Nós chegámos a casar:
Porque na festa da aldeia
Debaixo da cameleira

Tu puseste-me a dançar.
Peço aos dias tempo emprestado
P’ra apagar esta recordação;
Na frase sem predicado

Há vírgulas sem cuidado
Entre o sujeito e o coração.
Entre o sujeito e o coração.

Letra: Filipa Martins
Música: Rogério Charraz
Arranjo: João Balão
Intérprete: Rogério Charraz (in CD “Não Tenhas Medo do Escuro”, Rogério Charraz/Compact Records, 2016)

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Carnaval

Roubaram ao moleirinho

[ Cantiga do Entrudo ]

Roubaram ao moleirinho
Ai! A filha por o telhado
Julgando que era toucinho
Ai! Que estava dependurado.

Oh entrudo, oh entrudo!
Ai! Oh entrudo, oh meu bem!
Moças não trazem laranjas,
Ai! Custa-lhe o par a vintém.

Oh entrudo, oh entrudo!
Ai! Oh entrudo chocalheiro,
Que não deixas assentári
Ai! As mocinhas ao soalheiro!

Letra e música: Tradicional (Beira Baixa)
Intérprete: Ai!* (in CD “Ai!”, Ai!/RequeRec, 2013)

Tubarão tinha dentes de tainha

[ Tamboril ]

Tubarão tinha dentes de tainha
E a tainha tinha dentes de tambor
Toca traz tempo chuva tempestade
Tubarão trincou um touro nos taleigos da vontade

Tubarão tinha o tímpano trocado
E trocado estava o tempo todo o ano
Toca traz tempo chuva tempestade
Tubarão tamborilou ‘inda a missa ia a metade

Tubarão traficou-se em tamboril
Troca-tintas com retoque teatral
Toca terça, quarta, quinta, noite e dia
Travestido no Entrudo c’uma tromba de enguia

Tamboril teve tísica ao contrário
Já tossia como tosse o tubarão
Toca terça, quarta, quinta, noite e dia
Tamboril entubarou num atalho p’rá Turquia

Tubarão tinha dentes de tainha
E a tainha tinha dentes de tambor
Toca traz tempo chuva tempestade
Tubarão trincou um touro nos taleigos da vontade

Tubarão tinha o tímpano trocado
E trocado estava o tempo todo o ano
Toca traz tempo chuva tempestade
Tubarão tamborilou ‘inda a missa ia a metade

Tubarão traficou-se em tamboril
Troca-tintas com retoque teatral
Toca terça, quarta, quinta, noite e dia
Travestido no Entrudo c’uma tromba de enguia

Tamboril teve tísica ao contrário
Já tossia como tosse o tubarão
Toca terça, quarta, quinta, noite e dia
Tamboril entubarou num atalho p’rá Turquia

Letra: Miguel Cardina
Música: Pedro Damasceno e Celso Bento
Intérprete: Diabo a Sete
Versão original: Diabo a Sete (in CD “Figura de Gente”, Sons Vadios, 2016)

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Carolina Deslandes

Filha, quero cantar-te

[ Filhos ]

Filha,
Quero cantar-te como um poeta
Falar-te de alegria, dos dias em festa
Mostrar como se faz com lápis de cor
Mostrar-te que és um fruto do Amor

Nas risadas quero que fiques sempre assim
Livre de alma solta até ao fim
E a magia que nos dá a tua mãe
No teu coração quero que a sintas também
E o carinho que ela transporta
O que ela por ti faz como ninguém
Que um dia digas p’ra ti: “Nada me importa
Se não um amor como o da minha mãe”

Filho,
Com tua irmã iremos voar
Poisar nos telhados que te façam sonhar
Pintar o teu caminho com lápis de cor
Mostrar-te que és um fruto do Amor

Nas mãos que te guiam p’ra sempre vieste
Para semear o que já nos deste
E a magia que nos dá a tua mãe
No teu coração quero que a sintas também

E o carinho que ela transporta
O que ela por ti faz como ninguém
Que um dia digas p’ra ti: “Nada me importa
Se não um amor como o da minha mãe”

E o carinho que ela transporta
O que ela por ti faz como ninguém
Que um dia digas p’ra ti: “Nada me importa
Se não um amor como o da minha mãe”

Letra e música: Luís Galrito
Intérprete: Luís Galrito* (in CD “Menino do Sonho Pintado”, Kimahera, 2018)

* Luís Galrito – voz e guitarra folk
Gabriel Costa – baixo
João Nunes – guitarra de cordas de nylon
Luís Melgueira – cajón
Filipa Teles – coros

Foi na carreira das duas

[ Carreira das Duas ]

“Foi na carreira das duas, já lá vai”
Disse-me a mãe com os olhos rasos de água
A ver da vida que só tem quem daqui sai
Os que aqui ficam têm solidão e mágoa

Fiquei parado à espera do poente
Enquanto a noite me trazia o escurecer
Em frente ao lume com o sono à minha frente
A imaginar o que me iria acontecer

  Mal ela sabe
  Quanto a queria
  Fico acordado a ver passar horas e luas
  Talvez um dia, quem sabe?,
  Talvez um dia eu... vá atrás dela
  E vá na carreira das duas

Já lá vão anos e dela nem sinais
Só os caminhos palmilhados p’la tristeza
Só as saudades é que são cada vez mais
E o tempo passa no correr da incerteza

Ainda me lembro do dia dos amores
Ainda me lembro das cantigas da ribeira
Quanto maior é a paixão mais são as dores
Dores que o tempo vai regando a vida inteira

  Mal ela sabe
  Quanto a queria
  Fico acordado a ver passar horas e luas
  Talvez um dia, quem sabe?,
  Talvez um dia eu... vá atrás dela
  E vá na carreira das duas

Letra e música: Sebastião Antunes
Arranjo: Gonçalo Pratas
Intérprete: Sebastião Antunes* (in CD “Singular”, Sebastião Antunes & Quadrilha/Alain Vachier Music Editions, 2017)

JÁ LA VAI O SOL

[ Canto de Amor e Trabalho ]

(Ei, eh, ôh, arre, burra!)

Já lá vai o sol
Já lá vai o dia

(Anda, bonita!)

Já me cheira a noite
Já se vê a aldeia

(Eh bonita, toma lá mais rédea!
Ah! que nos dói o corpo…)

A merenda é pouca
E o trabalho… e o trabalho é duro
A mulher à espera
Já se fez noitinha
E a menina é já dormindo
Ai, a nina está dormindo

O teu pai vem do trabalho
Meu amor vem da campina
Ao chegar um ventinho ao borralho
Ai, não vá… ai, não vá acordar a menina

O teu pai vem do trabalho
Meu amor vem da campina
Ao chegar um ventinho ao borralho
Ai, não vá acordar a menina

(Eh! arre, burra!
Eh bonita, vá embora!)

Ai, o frio já aperta
Vai-se o Verão
Vem o Inverno

(Ah! arreda!
arreda, que vai doido!)

Terra ladra, terra farta
Terra que te quero bem
Terra que te quero bem

(Eh bonita, vá mais rédea…
Ah! já se vê a casa)

Ai, a ceia no braseiro
Já lhe sinto o gosto
Já lhe sinto o cheiro
A mulher à espera
E a nina está dormindo
(Oh, filhita!)
Ai, a nina está dormindo

O teu pai vem do trabalho
Meu amor vem da campina
Ao chegar um ventinho ao borralho
Ai, não vá acordar a menina

Letra: António Avelar Pinho
Música: Nuno Rodrigues
Intérprete: Banda do Casaco (in LP “Coisas do Arco da Velha”, Philips/Phonogram Portuguesa, 1976, reed. Philips/Polygram, 1993)

No Mar desta praia

[ A Minha Praia ]

No Mar desta praia, mãe levou-me em sua saia enrolada
E pude ver logo ao nascer a minha praia

Os dedos na areia, desde cedo, de tão catraia que aprendi
Como andar e como correr na minha praia

Vinda de outra terra, uma outra mulher que não traz saia nem criança
E diz, no seu papel, lhe pertencer a minha praia

Depois outros homens cortam o mato e a mãe desmaia, e tem de ir embora
Se assim vai ser, como irei ver a minha praia?

Ir p’ra outro lado, pela força antes saia, assim forçada
Sem lá correr, esta deixou de ser a minha praia

Letra e música: Luís Pucarinho
Intérprete: Luís Pucarinho* (in CD “SaiArodada”, Luís Pucarinho/Alain Vachier Music Editions, 2018)

QUANDO O NOSSO FILHO CRESCER

[ A vida toda ]

Quando o nosso filho crescer
Eu vou-lhe dizer
Que te conheci num dia de sol
Que o teu olhar me prendeu
E eu vi o céu
E tudo o que estava ao meu redor
Que pegaste na minha mão
Naquele fim de verão
E me levaste a jantar
Ficaste com o meu coração
E como numa canção
Fizeste-me corar

Ali
Eu soube que era amor para a vida toda
Que era contigo a minha vida toda
Que era um amor para a vida toda. (bis)

Quando ele ficar maior
E quiser saber melhor
Como é que veio ao mundo
Eu vou lhe dizer com amor
Que sonhei ao pormenor
E que era o meu desejo profundo
Que tinhas os olhos em água
Quando cheguei a casa
E te dei a boa nova
E que já era bom ganhou asas
E eu soube de caras
Que era pra vida toda

Ali
Dissemos que era amor para a vida toda
Que era contigo a minha vida toda
Que era um amor para a vida toda. (bis)

Quando ele sair e tiver
A sua mulher
E quiser dividir um tecto
Vamos poder vê-lo crescer
Ser o que quiser
E tomar conta dos nossos netos
Um dia já velhinhos cansados
Sempre lado a lado
Ele vai poder contar
Que os pais tiveram sempre casados
Eternos namorados
E vieram provar

Que ali
Vivemos um amor para a vida toda
Que foi contigo a minha vida toda
Que foi contigo a minha vida toda

Que ali
Vivemos um amor para a vida toda
Que foi contigo a minha vida toda
Foi um amor para a vida toda

Foi um amor para a vida toda

Carolina Deslandes

QUERIDA MÃE, QUERIDO PAI

[ Postal dos Correios ]

Querida mãe, querido pai. Então que tal?
Nós andamos do jeito que Deus quer
Entre dias que passam menos mal
Lá vem um que nos dá mais que fazer

Mas falemos de coisas bem melhores
A Laurinda faz vestidos por medida
O rapaz estuda nos computadores
Dizem que é um emprego com saída

Cá chegou direitinha a encomenda
Pelo “expresso” que parou na Piedade
Pão de trigo e linguiça prá merenda
Sempre dá para enganar a saudade

Espero que não demorem a mandar
Novidades na volta do correio
A ribeira corre bem ou vai secar?
Como estão as oliveiras de “candeio”?

Já não tenho mais assunto pra escrever
Cumprimentos ao nosso pessoal
Um abraço deste que tanto vos quer
Sou capaz de ir aí pelo Natal
Um abraço deste que tanto vos quer
Sou capaz de ir aí pelo Natal

Letra: João Monge
Música: João Gil
Intérprete: Rio Grande (in CD “Rio Grande”, EMI-VC, 1996)

UMA BOLA DE PANO NUM CHARCO

[ Os Putos ]

Uma bola de pano num charco
Um sorriso traquina, um chuto
Na ladeira a correr um arco
O céu no olhar dum puto.

Uma fisga que atira a esperança
Um pardal de calções, astuto
E a força de ser criança
Contra a força dum chui que é bruto.

Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser homens.

As caricas brilhando na mão
A vontade que salta ao eixo
Um puto que diz que não
Se a porrada vier não deixo.

Um berlinde abafado na escola
Um pião na algibeira, sem cor
Um puto que pede esmola
Porque a fome lhe abafa a dor.

Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser homens.

Letra: Ary dos Santos
Música: Paulo de Carvalho
Intérprete: Carlos do Carmo (in “Carlos do Carmo em Concerto”, Philips, 1987)

VOU FAZER UMA CANÇÃO-PITANGA

[ Canção-Pitanga ]

Vou fazer uma canção-pitanga
Para a minha filha se lembrar de mim
Uma canção redonda igual a uma missanga
Uma canção que a traga ao meu jardim

Vou fazer uma canção-brinquedo
Para a minha filha rebolar a rir
Uma canção estranha igual a um bruxedo
Uma canção capaz de a trazer aqui

Uma canção-arco-íris
Para a minha filha prender na cabeleira
Uma canção com asas igual a um íbis
Uma canção que a traga à minha beira

Uma canção redonda
Uma canção para a trazer aqui
Uma canção estranha
Uma canção que a traga ao jardim
Uma canção com asas
Uma canção para a minha beira

Uma canção estranha
Uma canção que a traga ao jardim
Uma canção com asas
Uma canção para minha beira

Vou fazer uma canção-pitanga
Para a minha filha se lembrar de mim
Uma canção redonda igual a uma missanga
Uma canção que a traga ao meu jardim

Uma canção-arco-íris

Para a minha filha prender na cabeleira
Uma canção com asas igual a um íbis
Uma canção que a traga à minha beira

Poema: José Eduardo Agualusa
Música: João Afonso Lima
Intérprete: João Afonso com António Afonso e Inês Lima (in CD “Sangue Bom: João Afonso canta Agualusa e Mia Couto”, João Afonso/Universal, 2014)

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Amor de Mãe

Meu Amor Eterno

Meu Amor Eterno,
Doce verde olhar,
Ilumina o meu caminho!
Acompanha o meu andar!

Meu Amor Eterno,
Mãos de acarinhar,
Segura no teu menino!
Ajuda-me a continuar!

Meu Amor Eterno,
Fada do meu lar,
Alimenta-me a saudade!
Sacia o meu paladar!

Meu Amor Eterno,
Cordão de umbilicar,
Relembra-me do teu cheiro!
Não me deixes de cantar!

Ema te fez,
Deus te criou,
Paulo te abriu,
José completou.

“Morrer por morrer!”,
Disseste-o assim;
Da tua coragem
Tiveste-me a mim.

Meu Amor Eterno,
Cordão de umbilicar,
Relembra-me do teu cheiro!
Não me deixes de cantar!

Letra: Rogério Charraz (dedicada à sua Mãe)
Música: Rogério Charraz e Júlio Resende
Arranjo: Júlio Resende
Intérprete: Rogério Charraz (in CD “Não Tenhas Medo do Escuro”, Rogério Charraz/Compact Records, 2016)

Pele encarquilhada

[ Mãe Preta ]

Pele encarquilhada, carapinha branca,
gandola de renda caindo na anca,
embalando o berço do filho do sinhô,
que há pouco tempo a sinhá ganhou.

Era assim que mãe preta fazia:
criava todo o branco com muita alegria.
Porém, lá na sanzala o seu pretinho apanhava,
Mãe Preta mais uma lágrima enxugava.

Mãe Preta! Mãe Preta!

Enquanto a chibata batia no seu amor,
Mãe Preta embalava o filho branco do sinhô.
Enquanto a chibata batia no seu amor,
Mãe Preta embalava o filho branco do sinhô.

Enquanto a chibata batia no seu amor,
Mãe Preta embalava o filho branco do sinhô.
Enquanto a chibata batia no seu amor,
Mãe Preta embalava o filho branco do sinhô.

Mãe Preta! Mãe Preta!

Letra: Antônio Amabile “Piratini”
Música: Matheus Nunes “Caco Velho”
Intérprete: Rua da Lua* (ao vivo no Teatro da Luz, Lisboa)
Primeira versão de Rua da Lua (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)
Versão original: Conjunto Tocantins (in single 78 rpm “Mãe Preta”, Continental (Brasil), 1943)
Primeira versão por cantora portuguesa: Maria da Conceição (in single 78 rpm “Mãe Preta”, Continental (Brasil), 1954)
Segunda versão de Maria da Conceição (in single 78 rpm “Mãe Preta”, Estoril, 1958; CD “Maria da Conceição: Fados”, Estoril, 2009)

Resguardaste-me da vida

[ Não É, Mãe? ]

Resguardaste-me da vida
E mesmo frágil e ferida
Tomaste conta de mim.
Levaste-me leite à cama,
Disseste que para quem ama
Nunca pode haver um fim.

São difíceis de queimar as coisas más.
As coisas boas são difíceis de encontrar.

Mãe… está tudo bem, mãe?

Quando a minha mãe dobrava meias
Estava sempre tudo bem.

Não é, mãe?

Letra: Duarte (Novembro de 2010)
Intérprete: Albano Jerónimo (in CD “Sem Dor Nem Piedade”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2015)

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Algarve cantado

Ao raiar do dia

[ Corrido Algarvio ]

Ao raiar do dia
Sagres vê passar…
Até no Burgau
Viram navegar.

Vinham quatro barcos
Lá no meio do mar;
Foram para Lagos
Para atracar.

Saem para terra
De malas na mão;
Correm pela vila
Até Portimão.

Seguem o caminho,
Agora à boleia;
Muda-se o destino:
É para Albufeira!

Muda-se o destino:
É para Albufeira!

Faro é em frente,
Com sua magia
Da cidade velha
Sonham com a Ria.

Lá vai o comboio
Para sotavento:
Vai até Tavira
Que inda vai a tempo.

Passa por Cacela,
Por Castro Marim;
Chega ao Guadiana,
Eis que é o fim!

Chega ao Guadiana,
Eis que é o fim!

E lá vão de roda,
Seguem para trás,
Que o carro não pára
Antes de São Brás.

Agora sem carro
Vão os quatro a pé…
Bem devagarinho
Chegam a Loulé.

Montados num burro,
Pelos montes fora,
Vão os quatro a Silves:
Correm sem demora.

Vão os quatro a Silves:
Correm sem demora.

Vão até Monchique
Que é sempre a subir:
Só param na Fóia,
Já não voltam a vir.

Que os quatro poetas,
Deitados no chão,
Olham as estrelas,
Luz da criação.

Já passaram anos
E os quatro poetas
Ainda lá repousam:
São agora pedras.

Ainda lá repousam:
São agora pedras.

Letra e música: Carlos Norton
Intérprete: OrBlua (in Livro/CD “Retratos Cinéticos”, Fungo Azul/Ocarina, 2015)

Da serra veste perfumes

[ De Sol a Sul ]

Da serra veste perfumes,
do levante inquietações.
Do tempo lhe vêm famas
do mar as consolações.
Velha Romana, Tuaregue,
maruja, aventureira,
dos mares sabida e da vida
sabe tudo, de matreira.
Minha loira, meu azul
faz-te ao mar, despe esse manto
de nevoeiro e de sal,
desnuda-te do quebranto
de seres ponto de partir.
Navega com rumo a ti,
descobre-te em Portugal,
teu porto é de hoje e aqui.

Velhas profecias,
meu 29 de Agosto.
Meu queijo de figo,
sueste agreste,
sol posto.
Meu Infante
navegante.
Cheiro a sardinha
no rosto.

Cidade, eu te escuto
tu me acolhes,
tu me afagas.
Regaço de mãe,
doce carícia de algas.
Varanda de sol a sul.
Gente firme não se cala.

Que o sonho se faça
pouco a pouco,
passo a passo.
Que a tristeza afogue na largueza dum abraço.
Que a alegria canse
este cansaço.
É hoje que a gente
vai dizer como é que quer,
seja o bicho homem
ou o bicho seja mulher.
E que venha por bem
quem vier.

Letra e música: Afonso Dias
Intérprete: Afonso Dias / Trupe Barlaventina (in CD “Lendas do País do Sul “, Concertante, 1999; CD “Geometria do Sul”, Edere, 2002)

Era um rei

[ Fado das Amendoeiras ]

Era um rei
da terra que cheira a luar
da terra vermelha que tem a centelha
do cheiro do mar.

Terra amendoeira
terraço a sangrar
albufeira dos barcos que pescam
com a lamparina da luz a piscar.
Era um rei que vivia na terra
deitado no mar.

Era um rei
que foi da Moirama lutar
à terra da neve que tem o silêncio
que faz sufocar.

País da princesa
que no seu tear
inventava a lenda da renda
nos olhos de amêndoa do amor por chegar.
Da princesa bordando tristeza
na orla do mar.

É no sul que nos dói mais o sol
é ao sol que se vê o azul
Do Algarve que roda como um girassol.
VÁ DE BRAÇOS VÁ À PESCA!
NÃO QUEREMOS BRAÇO MOLE!
À aguardente chamamos um figo
à verdade chamamos Aleixo
que ainda é mais doce que um D. Rodrigo.
NÃO O MATAM QUE EU NÃO DEIXO!
O ALEIXO É MEU AMIGO!

É o povo
da maré que cheira a suor
e quer o rei queira ou não queira
resiste num mar que é maior.

O mar da traineira, mar do pescador
este mar amar desta maneira
que é a força primeira
do mar por amor
este mar que morre na esteira
de aquém e além dor.

É no sul que nos dói mais o sol
é ao sol que se vê o azul

Letra: Ary dos Santos
Música: Fernando Tordo
Intérprete: Carlos do Carmo (in “Um Homem no País”, Polygram, 1983)

Praia da Rocha, guitarra

[ Fado de Portimão ]

Praia da Rocha, guitarra
Doirada que o mar dedilha
Ferragudo e a maravilha
Do castelo junto à barra

Mas quer chova ou faça sol
Quer o mar deixe ou não deixe
A cidade é um anzol

Portimão sonha com peixe
Como a foz do rio Arade
Como o cais de Portimão
Há-de haver tão lindos, há-de,
Mas mais lindos é que não.

Ah! Se o luar não vier
Às redes de Portimão
Luar de peixe a morrer
Antes do fim do Verão.

“Vá fome”
Diz Zé Fataça
Que outrora foi pescador
E é agora engraxador
Junto ao coreto da praça

Então a fome é verdade
E alguns vão buscar seu pão
A mil léguas do Arade
E do cais de Portimão.

Como a foz do rio Arade
Como o cais de Portimão
Há-de haver tão lindos, há-de,
Mas mais lindos é que não.

Letra: Leonel Neves
Música: António Vinagre
Intérprete: Grupo Coral de Portimão (in CD “Algarve”, Tradisom, 200?)

Vai com trote certo

[ Carrinha Antiga ]

Vai com trote certo
Esse cavalinho
Todo empenachado
E o boleeiro esperto
Faz do seu caminho
Seu baile mandado.

Lá vai a carrinha
A carrinha antiga
Com seu toldo armado.
Uma sombra amiga
A sombra fresquinha
Sob um sol doirado

Leva os estrangeiros
Muito prazenteiros
Que vão passear.
Ver a Rocha e o mar
Mar das caravelas
Que inda é mar das velas.

E a carrinha lesta
Do Algarve florido
É folha que resta
De um romance lido
De um conto feliz
De Júlio Dinis.

Letra: José Galvão Balsa
Música: António Vinagre
Intérprete: Grupo Coral de Portimão* (in CD “Algarve”, Tradisom, 200?)

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Guitarra portuguesa

A minha velha casa

[ Fado do Campo Grande ]

A minha velha casa,
por mais que eu sofra e ande,
é sempre um golpe de asa
varrendo um Campo Grande.

Aqui no meu País,
por mais que a minha ausência doa,
é que eu sei que a raiz
de mim está em Lisboa.

A minha velha casa
resiste no meu corpo
e arde como brasa
dum corpo nunca morto.

A minha velha casa
é o regresso à procura
das origens da ternura,
onde o meu ser perdura.

Amiga amante,
amor distante.
Lisboa é perto,
e não bastante.
Amor calado,
amor avante,
que faz do tempo
apenas um instante.
Amor dorido,
amor magoado
e que me dói no fado.
Amor magoado,
amor sentido,
mas jamais cansado.
Amor vivido,
meu amor amado.

Um braço é a tristeza,
o outro é a saudade,
e as minhas mãos abertas
são chão da liberdade.

A casa a que eu pertenço,
viagem para a minha infância,
é o espaço em que eu venço
e o tempo da distância.

E volto à velha casa,
porque a esperança resiste
a tudo quanto arrasa
um homem que for triste.

Lisboa não se cala,
e quando fala é minha chama,
meu Castelo e minha Alfama,
minha Pátria, minha cama.

Amiga amante,
amor distante.
Lisboa é perto,
e não bastante.
Amor calado,
amor avante,
que faz do tempo
apenas um instante.
Amor dorido,
amor magoado
e que me dói no fado.
Amor magoado,
amor sentido,
mas jamais cansado.
Amor vivido,
meu amor amado.

Ai! Lisboa, como eu quero!
É por ti que eu desespero!

Letra: José Carlos Ary dos Santos
Música: António Victorino d’Almeida
Intérprete: Camané (in CD “Novo Homem na Cidade”, Universal, 2004)
Versão original: Carlos do Carmo (in “Um Homem na Cidade”, Trova, 1977; reed. UPAV, 1991; Philips/Polygram, 1995)

Ando

[ Santa Apolónia ]

Ando
de vez em quando
Procurando o que há para achar
Se acho,
não me acho capaz para me encontrar
E parto,
de vontade em vontade, com vontade de andar
Que a cidade onde vivo
Me faz vontade… voltar.
E ando
Vagueando
Chateado, um pouco zangado
Ando à toa,
… apanho o comboio, vou daqui para Lisboa.

Ando
Vagueando
Chateado, um pouco zangado
Ando à toa,
… apanho o comboio, vou daqui para Lisboa.

Ando
Vagueando
Chateado, um pouco zangado
Ando à toa,
… apanho o comboio, vou daqui para Lisboa.

Ando
Vagueando
Chateado, um pouco zangado
Ando à toa,
… apanho o comboio, vou daqui para Lisboa.

Vadiando
Chateado, um pouco zangado
Ando à toa,
… apanho o comboio, vou daqui para Lisboa.

Letra e música: Jorge Rivotti
Intérprete: Jorge Rivotti
Versão original: Jorge Rivotti (in CD “Lisboa a Sete”, Alain Vachier Music Editions, 2016)

Azulejos da cidade

[ Fado dos Azulejos ]

Azulejos da cidade,
numa parede ou num banco,
são ladrilhas da saudade
vestida de azul e branco.

Bocados da minha vida,
todos vidrados de mágoa,
azulejos, despedida
dos meus olhos rasos de água.

À flor dum azulejo, uma menina;
do outro, um cão que ladra e um pastor.
Ai! Moldura pequenina,
que és a banda desenhada
nas paredes do amor.

Azulejos desbotados
por quanto viram chorar.
Azulejos tão cansados
por quantos viram passar.

Podem dizer-vos que não,
podem querer-vos maltratar:
de dentro do coração
ninguém vos pode arrancar.

À flor dum azulejo, um passarinho,
um cravo e um cavalo de brincar;
um coração com um espinho,
uma flor de azevinho
e uma cor azul luar.

À flor do azulejo, a cor do Tejo
e um barco antigo, ainda por largar.
Distância que já não vejo,
e enche Lisboa de infância,
e enche Lisboa de mar.

Distância que já não vejo,
e enche Lisboa de infância,
e enche Lisboa de mar.

Letra: José Carlos Ary dos Santos
Música: Martinho d’Assunção
Intérprete: Carlos do Carmo (in “Um Homem na Cidade”, Trova, 1977; reed. UPAV, 1991; Philips/Polygram, 1995)

Caminho ao Largo

[ Ao Largo ]

Caminho ao Largo,
no bolso a moeda,
do troco do gelado na esquina.
Saboreio-te na gente que vem e que passa…
de outros lados
De sorrisos sem rotina…
Pego na moeda, devolvida no troco,
não dá p’ra viajar-te, é pouco.
Levo-te mesmo assim
de moeda no bolso,
p’la nuvem que nos diz.
Mostrem de Vós a Paris!
Mostrem de Vós a Paris!
Sabes? Sabes?
Gostava de levar-te a Paris,
mas…
agora não posso mostrar-te mais…
que o Largo Martim Moniz!

Sabes? Sabes?
Gostava de levar-te a Paris,
mas…
agora não posso mostrar-te mais…
que o Largo Martim Moniz!

Volto à moeda, devolvida no troco,
não dá p’ra viajar-te, é pouco.
Levo-te mesmo assim
de moeda no bolso,
p’la nuvem que nos diz:
Mostrem de Vós a Paris!
Mostrem de Vós a Paris!
Sabes? Sabes?
Gostava de levar-te a Paris,
mas…
agora não posso mostrar-te mais…
que o Largo Martim Moniz!

Sabes? Sabes?
Gostava de levar-te a Paris,
mas…
agora não posso mostrar-te mais…
que o Largo Martim Moniz!

Sabes? Sabes?
Gostava de levar-te a Paris,
mas…
agora não posso mostrar-te mais…
que o Largo Martim Moniz!

Letra e música: Jorge Rivotti
Intérprete: Jorge Rivotti
Versão original: Jorge Rivotti (in CD “Lisboa a Sete”, Alain Vachier Music Editions, 2016)

Como a água da nascente

[ Transparente ]

Como a água da nascente
Minha mão é transparente
Aos olhos da minha avó.

Entre a terra e o divino
Minha avó negra sabia
Essas coisas do destino.

Desagua o mar que vejo
Nos rios desse desejo
De quem nasceu para cantar.

Um Zambeze feito Tejo
De tão cantado qu’invejo
Lisboa, por lá morar.

Vejo um cabelo entrançado
E o canto morno do fado
Num xaile de caracóis.

Como num conto de fadas
Os batuques são guitarras
E os coqueiros, girassóis.

Minha avó negra sabia
Ler as coisas do destino
Na palma de cada olhar.

Queira a vida ou que não queira
Disse Deus à feiticeira
Que nasci para cantar.

Letra: Paulo Abreu Lima
Música: Rui Veloso
Intérprete: Mariza (in CD “Transparente”, EMI-VC, 2005)

Da janela do meu quarto

Da janela do meu quarto vejo a luz no quarto dela
Quando a lua vem brincar nos telhados da viela
Vejo o sol de madrugada a beijar sete colinas
Quando se espraia no cais para espreitar as varinas

Da janela do meu quarto vejo o mundo
Tenho um mundo de poesia para ver
Vejo Alfama que labuta com ardor
A sorrir e a cantar
Vejo o Tejo a espreguiçar-se lá no fundo
Vejo a ronda, ela passa a correr
Vejo a Sé onde à tardinha com fervor
Ela vai sempre rezar

Vejo pares de namorados, almas cheias de ilusões
Toda a magia de um fado e a alegria dos pregões
E à noitinha quando as sombras vestem de luto a viela
Da janela do meu quarto vejo a luz no quarto dela

Da janela do meu quarto vejo o mundo
Tenho um mundo de poesia para ver
Vejo Alfama que labuta com ardor
A sorrir e a cantar
Vejo o Tejo a espreguiçar-se lá no fundo
Vejo a ronda, ela passa a correr
Vejo a Sé onde à tardinha com fervor
Ela vai sempre rezar

Vejo o Tejo a espreguiçar-se lá no fundo
Vejo a ronda, ela passa a correr
Vejo a Sé onde à tardinha com fervor
Ela vai sempre rezar

Letra: António Vilar da Costa
Música: Nóbrega e Sousa
Intérprete: Tristão da Silva (1958) (in CD “O Melhor de Tristão da Silva”, EMI-VC, 1991)

De decote no bolso

De decote no bolso
Fiz-me de vestido na mão
Perdi-me até na ilusão
Deste vestido-canção
Mas quero entrar na marcha à frente
Que seja de chita vestida
Quero assim vestir-me contente
Até que reste esta vida
E o vestido de chita
Me excita na avenida
A vontade de te abraçar
de te levar
Da Liberdade ao mar!

De decote no bolso
Fiz-me de vestido na mão
Perdi-me até na ilusão
Deste vestido-canção
Mas quero entrar na marcha à frente
Que seja de chita vestida
Quero assim vestir-me contente
Até que reste esta vida
E o vestido de chita
Me excita na avenida
A vontade de te abraçar
de te levar
Da Liberdade ao mar!

E o vestido de chita
Me excita na avenida
A vontade de te abraçar
de te levar
Da Liberdade ao mar!

E o vestido de chita
Me excita na avenida
A vontade de te abraçar
de te levar
Da Liberdade ao mar!

E o vestido de chita
Me excita na avenida
A vontade de te abraçar
de te levar
Da Liberdade ao mar!

Letra e música: Jorge Rivotti
Intérprete: Jorge Rivotti
Versão original: Jorge Rivotti (in CD “Lisboa a Sete”, Alain Vachier Music Editions, 2016)

És um moinho de vento

[ Lisboa ]

És um moinho de vento
com sete colinas
p’ra ver o Tejo
e as andorinhas.
És Lisboa sem tempo.

Tens uma História que encanta,
e essa cor tão branca
que dá luz ao fado
e sobra em todo o lado.
O Tejo iluminado.

Lisboa és minha!
Lisboa do mundo,
como vela erguida
num sonho profundo,
és cidade branca
e trazes luz ao mundo.

Lisboa és minha!
Lisboa do mundo…

Lisboa és minha!
Lisboa do mundo…
Lisboa és minha!
Lisboa do mundo…
Lisboa…

Letra: José Barros
Música: Mimmo Epifani
Intérpretes: José Barros & Mimmo Epifani*
Versão original: José Barros & Mimmo Epifani (in CD “Mar da Lua”, José Barros/Tradisom, 2015)

Esse romance amoroso

[ O Casamento da Rita ]

Esse romance amoroso
Do mercado da Ribeira
Teve um final milagroso;
E, afinal, de que maneira!

Um romance igual a tantos,
Esse da Rita e do Chico:
Lá na Igreja de Santos
Foi-se os encantos do namorico.

Muito juntinhos sob o altar,
Entre os padrinhos foram casar;
Após a boda, a Rita e o Chico
Foram na roda do bailarico.

Desde a sagrada união
A mãe dela já nem ralha,
Nem sequer faz discussão
Por dá cá aquela palha.

Com sua graça expedita
Disse ao Chico pescador:
«Se não me dás outra Rita,
Vai haver fita seja onde for.»

E hoje uma Rita mais pequenina
Toda se agita linda e traquina:
Lembra a sardinha viva a saltar,
Outro romance para contar.

Muito juntinhos sob o altar,
Entre os padrinhos foram casar;
Após a boda, a Rita e o Chico
Foram na roda do bailarico.

E hoje uma Rita mais pequenina
Toda se agita linda e traquina:
Lembra a sardinha viva a saltar,
Outro romance para contar.

Letra e música: Júlio Vieitas
Intérprete: Tânia Oleiro*
Primeira versão discográfica de Tânia Oleiro (in CD “Terços de Fado”, Museu do Fado Discos, 2016)
Versão original: Fernanda Maria (in EP “Isto É Fado” A Voz do Dono/VC, 1960; CD “O Melhor de Fernanda Maria”, EMI-VC, 1994; CD “O Melhor de Fernanda Maria”, Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2009; CD “Fernanda Maria: Essencial”, Edições Valentim de Carvalho, 2014)

Eu canto para ti

[ Canção com Lágrimas ]

Eu canto para ti um mês de giestas
um mês de morte e crescimento ó meu amigo
como um cristal partindo-se plangente
no fundo da memória perturbada.

Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
e um coração poisado sobre a tua ausência
eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
em que os mortos amados batem à porta do poema.

Porque tu me disseste: quem me dera em Lisboa
quem me dera em Maio. Depois morreste
Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro.

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
teu nome escrito com ternura sobre as águas
e o teu retrato em cada rua onde não passas
trazendo no sorriso a flor do mês de Maio.

Porque tu me disseste: quem me dera em Maio
porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol. Lisboa com lágrimas
Lisboa à tua espera ó meu irmão tão breve.

Eu canto para ti Lisboa à tua espera…

Poema: Manuel Alegre (adaptado de “Canção com Lágrimas e Sol”, in Praça da Canção , 1965)
Música e voz: Adriano Correia de Oliveira (in “Cantaremos”, Orfeu, 1970, reed. Movieplay, 1999; “Obra Completa”, Movieplay, 1994; CD “Vinte Anos de Canções”, Movieplay, 2001)

É varina, usa chinela

[ Maria Lisboa ]

É varina, usa chinela,
tem movimentos de gata;
Na canastra, a caravela,
no coração, a fragata.
Na canastra, a caravela,
no coração, a fragata.

Em vez de corvos, no xaile
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile,
baila no baile com o mar.
Quando o vento a leva ao baile,
baila no baile com o mar.

É de conchas o vestido,
tem algas na cabeleira;
E nas veias o latido
do motor duma traineira.
E nas veias o latido
do motor duma traineira.

Vende sonho e maresia,
tempestades apregoa.
Seu nome próprio: Maria;
seu apelido: Lisboa.
Seu nome próprio: Maria;
seu apelido: Lisboa.

Letra: David Mourão-Ferreira
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues (in “Amália Rodrigues (Busto)”, Valentim de Carvalho, 1962, reed. EMI-VC, 1989; in “Com Que Voz”, Valentim de Carvalho, 1970, reed. EMI-VC, 1987; CD “O Melhor de Amália – Estranha Forma de Vida”, EMI-VC, 1985, reed. 1995)
Outra versão: Mariza (in CD “Fado em Mim”, World Connection B.V., 2001; CD/DVD “Concerto em Lisboa”, Capitol, 2006)

Esta noite há uma festa

[ Curral da Mouraria ]

Esta noite há uma festa
No curral da Mouraria
Esta noite há uma festa
Vai durar até ser dia

Vem daí, vamos cantar
Vamos todos celebrar
Que ainda não foi desta
Vem daí, vamos brindar
Toda a noite sem parar
Vamos dançar até cair

A dança, segredo
Do sexto sentido
Que a dança do medo
Foi tempo perdido

Esta noite canto o fado
No curral da Mouraria
Entre o Beco do Malvado
E o Pátio da Alegria

Vamos todos festejar
A vontade de sonhar
Já que pouco mais nos resta
Quantas mágoas por cantar
Quantas penas por chorar
Por isso dança até cair

A dança, segredo
Do sexto sentido
Que a dança do medo
Foi tempo perdido

Esta noite há uma festa
No curral da Mouraria

Vamos todos festejar
A vontade de sonhar
Já que pouco mais nos resta
Quantas mágoas por cantar
Quantas penas por chorar
Por isso dança até cair

A dança, segredo
Do sexto sentido
Que a dança do medo
Foi tempo perdido

Esta noite há uma festa
Há-de ser até ser dia

Letra: J.J. Galvão (José João Oliveira Galvão)
Música: Rui Filipe Reis
Intérprete: Rosa Negra (in CD “Fado Mutante”, iPlay, 2011)

Foi na Travessa da Palha

Foi na Travessa da Palha
Que o meu amante, um canalha,
Fez sangrar meu coração:
Trazendo ao lado outra amante
Vinha a gingar petulante
Em ar de provocação.
Trazendo ao lado outra amante
Vinha a gingar petulante
Em ar de provocação.

Na taberna de friagem
Entre muita fadistagem
Enfrentei-os sem rancor,
Porque a mulher que trazia
Com certeza não valia
Nem sombra do meu amor.
Porque a mulher que trazia
Com certeza não valia
Nem sombra do meu amor.

A ver quem tinha mais brio
Cantámos ao desafio
Eu e essa outra qualquer.
Deixei-a perder de vista
Mostrando ser mais fadista
Provando ser mais mulher.
Deixei-a perder de vista
Mostrando ser mais fadista
Provando ser mais mulher.

Foi uma cena vivida
De muitas da minha vida
Que se não esquecem depois,
Só sei que de madrugada
Após a cena acabada
Voltámos para casa os dois.
Só sei que de madrugada
Após a cena acabada
Voltámos para casa os dois.

Letra: Gabriel de Oliveira
Música: Frederico de Brito
Intérprete: Lila Downs (in CD “Fados”, EMI, 2007)
Versão original: Lucília do Carmo (1958) (in CD “Lucília do Carmo: Biografias do Fado”, EMI-VC, 1998)

Fugiu a Baixa

Fugiu a Baixa,
de brinco de pérola ao Chiado
Passou de passeio,
de risco de alfaiate ao Combro
Subiu de navio
ao Poço dos Negros pontos,
Dos sinais, no seu olhar.

Degrau em degrau,
Do bairro da Bica ao café ao alto
À proa… num alto,
no salto ao Bairro Alto.
À proa… num alto,
afundaste… do “Titanic”
… de Lisboa que há em ti.

Letra e música: Jorge Rivotti
Intérprete: Jorge Rivotti* (ao vivo no Teatro da Luz, Lisboa)
Versão original: Jorge Rivotti (in CD “Lisboa a Sete”, Alain Vachier Music Editions, 2016)

Julguei que Lisboa era

[ Ao Semáforo um Navio ]

Julguei que Lisboa era
Cidade de ter os barcos no rio.
Mas… juro!
Ao semáforo estava um navio
Juro!… Sim.
Quase que até batia em mim
Vais mas é pensar que eu estou maluco
Olha que eu não estou a brincar
O gajo do táxi ia batendo
Tu não estás a ver-te acreditar

Vi um Navio Amarelo
Ali mesmo ao Cais Sodré.
Bem por baixo
Tinha umas rodas
Mais parecidas com…
botas sem pés.

Julguei que Lisboa era
Cidade de ter os barcos no rio.
Mas… juro!
Ao semáforo estava um navio
Juro!… Sim.
Quase que até batia em mim

Vi um Navio Amarelo
Ali mesmo ao Cais Sodré.
Bem por baixo
Tinha umas rodas
Mais parecidas com…
botas sem pés.

Vi um Navio Amarelo
Ali mesmo ao Cais Sodré.
Bem por baixo
Tinha umas rodas
Mais parecidas com…
botas sem pés.

Letra e música: Jorge Rivotti
Intérprete: Jorge Rivotti
Versão original: Jorge Rivotti (in CD “Lisboa a Sete”, Alain Vachier Music Editions, 2016)

Lisboa, gaiata

Lisboa, gaiata,
de chinela no pé,
Lisboa, travessa,
que linda que ela é!

Lisboa, bailarina,
que bailas a cantar,
sereia pequenina
que nos guarda pelo mar.

1. Lisboa, vem p’ra rua
que o Santo António é teu.
São Pedro deu-te a lua
e o mundo escureceu
Comprei-te um manjerico
e trago-te um balão.
Em casa é que eu não fico
ó meu rico São João.

2. Lisboa faz surgir,
ai, que milagre aquele!,
cantigas a florir
num cravo de papel.
Nos arcos enfeitados
poisaram as estrelas
e há anjos debruçados
nos telhados das vielas.

Intérprete: Amália Rodrigues

Lisboa, Lisboa

Lisboa, Lisboa
Tu és a passagem por mim
Lisboa, Lisboa
O teu nome ainda nem vi
Lisboa, Lisboa
Tu és a passagem por mim
Lisboa, Lisboa
Só me basta que seja assim

Ôh… ôh… ôh… ôh… ôh… ôh-ôh…
Ôh… ôh… ôh… ôh… ôh… ôh-ôh…

Ôh… ôh… ôh… ôh… ôh… ôh-ôh…
Ôh… ôh… ôh… ôh… ôh… ôh-ôh…

Letra e música: Jorge Rivotti
Intérprete: Jorge Rivotti
Versão original: Jorge Rivotti (in CD “Lisboa a Sete”, Alain Vachier Music Editions, 2016)

Lisboa, querida mãezinha

[ Recado a Lisboa ]

Lisboa, querida mãezinha
Com o teu xaile traçado
Recebe esta carta minha
Que te leva o meu recado

Que Deus te ajude, Lisboa
A cumprir esta mensagem
Dum português que está longe
E que anda sempre em viagem

Vai dizer adeus à Graça
Que é tão bela, que é tão boa
Vai por mim beijar a Estrela
E abraçar a Madragoa
E mesmo que esteja frio
E os barcos fiquem no rio
Parados sem navegar
Passa por mim no Rossio
E leva-lhe o meu olhar

Se for noite de S. João
Lá pelas ruas de Alfama
Acende o meu coração
No fogo da tua chama

Depois, depois leva-o pela cidade
Num vaso de manjerico
Para ele matar saudade
Desta saudade em que fico

Vai dizer adeus à Graça
Que é tão bela, que é tão boa
Vai por mim beijar a Estrela
E abraçar a Madragoa
E mesmo que esteja frio
E os barcos fiquem no rio
Parados sem navegar
Passa por mim no Rossio
E leva-lhe o meu olhar

Letra: João Villaret
Música: Armando da Câmara Rodrigues
Intérprete: João Villaret (in “Ontem e Hoje”, Ovação, 1989; CD “João Villaret: O Melhor dos Melhores”, vol. 9, Movieplay, 1994)

Mais um domingo em Lisboa

[ Rosas ]

Mais um domingo em Lisboa
E já não tens para onde ir;
A solidão não perdoa
Quem não consegue dormir.

Ninguém te fala na rua,
Ninguém conhece o teu nome;
De que te serve a procura
Se esta mesma te consome?

Secaram as rosas…
Secaram as rosas…
Matámos…
Matámos as rosas…

«Os dias trazem fantasmas
Dos dias todos iguais;
Quem anda sempre em viagem
Não quer ter coisas a mais.

Empenhei-me tanto, empenhei-me tanto, empenhei-me tanto…
Que às vezes inventei que me esquecias.
Cantei tanto
Que às vezes me pareceu que retribuías.

Mas não aplaudiste???
Eu vi que aplaudiste.

Viste em mim o doce escorpião,
O solitário príncipe da melancolia:
Belo demais para viver,
Frágil demais para morrer.

Se tudo o resto falhar,
Podes sempre dizer que te menti;
Só espero que estejas bem
E se assim for, que assim seja.»

Estás cada vez mais sozinho,
«Porventura deprimido;
Mesmo quem escolhe o caminho
Às vezes anda perdido.»

Secaram as rosas…
Secaram as rosas…
Matámos as rosas…
Morreram as rosas…

Secaram as rosas…
Matámos as rosas…
Morreram as rosas…

«Mas não aplaudiste???…
Eu vi que aplaudiste…»

Secaram as rosas…
Matámos as rosas, amor…
Vou sentir a tua falta…
Vou sentir a tua falta.

Letra: Duarte (Janeiro de 2011)
Música: Carlos Manuel Proença e Duarte
Intérprete: Duarte com Albano Jerónimo (in CD “Sem Dor Nem Piedade”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2015)

Mim ter ouvido o fada na Severa

[ Marinheiro Americano ]

Mim ter ouvido o fada na Severa
Cantada por Alfredo Marceneiro,
Mim não perceber nada do que era
E só ter apanhado bebedeira.
Alfredo ter cantado o bacalhau
E tudo ter na boca posto um rolha
Mas mim fazer barulha no cançau
E levar um camone, aqui no olha,

Ó fada, yes all-right!
Lady Maria Alice
Ter cantado
quatro fadas
chatice…
Ó fada, yes all-right!
Mister Cascais Manuel!
No guitarra, Armandinho, very well!
Mim gostar muito de ouvir guitarradas
E ouvir cantigas a desgraciadas…
Ó fada, yes all-right!
Mister Alberto Costa
No corrido, choradinho, mim gosta.

Lady Leonor Fialho ter cantado
Um cantiga no fado corridinho,
Toda a gente a chorar ficar magoado
Mas mim beber cerveja e beber vinho.
Mim chamar o criado por ter sede
E logo um fadista a dar chapada
Por não ter visto escrito na parede:
Silence, que se vai cantar o fada.

Ó fada, yes all-right!
Lady Maria Alice
Ter cantado
quatro fadas
chatice…
Ó fada, yes all-right!
Mister Cascais Manuel!
No guitarra, Armandinho, very well!
Mim gostar muito de ouvir guitarradas
E ouvir cantigas a desgraciadas…
Ó fada, yes all-right!
Mister Alberto Costa
No corrido, choradinho, mim gosta.

Letra: Amadeu do Vale
Música: Alfredo Duarte “Marceneiro”
Intérprete: Hermínia Silva (1966) (in CD “O Melhor de Hermínia Silva”, EMI-VC, 1990)

Mora num beco de Alfama

[ Madrugada de Alfama ]

Mora num beco de Alfama
e chamam-lhe a Madrugada,
e chamam-lhe a Madrugada;
mas ela, de tão estouvada,
não sabe como se chama
nem sabe como se chama.

Mora numa água-furtada
que é a mais alta de Alfama
a que o sol primeiro inflama
quando acorda a Madrugada,
quando acorda a Madrugada.
Mora numa água-furtada
que é a mais alta de Alfama.

Nem mesmo na Madragoa
ninguém compete com ela,
ninguém compete com ela;
que do alto da janela
tão cedo beija Lisboa,
tão cedo beija Lisboa.

E a sua colcha amarela
faz inveja à Madragoa:
Madragoa não perdoa
que madruguem mais do que ela,
que madruguem mais do que ela.
E a sua colcha amarela
faz inveja à Madragoa.

Mora num beco de Alfama
e chamam-lhe a Madrugada,
e chamam-lhe a Madrugada;
são mastros de luz doirada
os ferros da sua cama,
os ferros da sua cama.

E a sua colcha amarela
a brilhar sobre Lisboa,
é como estatua de proa
que anuncia a caravela,
que anuncia a caravela;
a sua colcha amarela
a brilhar sobre Lisboa.

E a sua colcha amarela
a brilhar sobre Lisboa.

Letra: David Mourão-Ferreira
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues (in “Com Que Voz”, 1970, reed. EMI-VC, 1988; CD “O Melhor de Amália – Estranha Forma de Vida”, EMI-VC, 1985, reed. 1995)

Nasce o vento da manhã

[ Contigo por Lisboa ]

Nasce o vento da manhã,
Fim da tarde calmaria;
Nascem lábios de romã
Com ardor de meio-dia.

Fico tão dentro de mim
Se por ti em mim não estou;
Quem me dera ser assim
Se não fosse assim que sou!
Fico tão dentro de mim
Se por ti em mim não estou.

Madrugada pela proa,
Pelo mastro livre a vela;
As colinas de Lisboa
São do vento caravela.

Se não fosse ser assim
Como ser como quem sou?
Ficas tão dentro de mim
Que por ti eu sou quem sou!
Se não fosse ser assim
Como ser como quem sou?

Nasce o vento da manhã,
Fim da tarde calmaria;
Nascem lábios de romã
Com ardor de meio-dia.

Se não fosse ser assim
Como ser como quem sou?

Letra: João Gigante-Ferreira
Música: André Teixeira
Intérprete: Helena Sarmento
Versão original: Helena Sarmento (in CD “Lonjura”, Helena Sarmento, 2018)

Não queiram mal a quem canta

[ Fado Lisboeta ]

Não queiram mal a quem canta
Quando uma garganta
Em ais se desgarra
E a mágoa já não é tanta
Se a confessar à guitarra
Quem canta sempre se ausenta
Da hora cinzenta
Da sua amargura
Não sente a cruz tão pesada
Na longa estrada
Da desventura

Eu só entendo o fado
Plangente, amargurado
À noite a soluçar baixinho
Que chega ao coração
Num tom magoado
Tão frio como as neves do caminho
Que chora uma saudade
Ou canta a ansiedade
De quem tem por amor chorado
Dirão que isto é fatal
É natural
Mas é lisboeta
Isto é que é o fado

Oiço guitarras vibrando
E vozes cantando
Na rua sombria
As luzes vão-se apagando
A anunciar que é já dia
Fecho em silêncio a janela
Já se ouvem na viela
Rumores de ternura
Surge a manhã fresca e calma
Só em minha alma
É noite escura

Eu só entendo o fado
Plangente, amargurado
À noite a soluçar baixinho
Que chega ao coração
Num tom magoado
Tão frio como as neves do caminho
Que chora uma saudade
Ou canta a ansiedade
De quem tem por amor chorado
Dirão que isto é fatal
É natural
Mas é lisboeta
Isto é que é o fado

Letra: Amadeu do Vale
Música: Carlos Dias
Intérprete: Amália Rodrigues (1957) (in CD “Fado Amália”, Movieplay, 1998)
Outras versões: Maria Ana Bobone (in CD “Meu Nome é Nome de Mar”, Farol, 2006); Raquel Tavares (in CD “Raquel Tavares”, Movieplay, 2006)

Nas ruas de Lisboa

[ Fado Insulano ]

Nas ruas de Lisboa
Meu fado insulano
Ondas do mar soberano
Num compasso de lonjura
Meu canto ainda ecoa
No cais das descobertas
Destas rotas tão incertas
Só meu fado ainda perdura
Ó saudade, sentimento, solidão
O meu fado vagabundo
Prisioneiro de um desejo
Ó saudade, sentimento, solidão
Ondas do mar tão profundo
Que querem beijar o Tejo
Sonhei que uma ganhoa
Cruzava o Bairro Alto
Deste inquieto sobressalto
Se fez a minha viagem
D’Alfama à Madragoa
Percorro a tua esteira
Vem canoa baleeira
Arpoar uma miragem
Ó saudade, sentimento, solidão
O meu fado vagabundo
Prisioneiro de um desejo
Ó saudade, sentimento, solidão
Ondas do mar tão profundo
Que querem beijar o Tejo

Nas vozes de veludo
Que a noite insinua
Vem rasgar doce falua
Meu amargo cancioneiro
Lisboa e Tejo e tudo
Quimera, desengano
Este meu canto profano
Há-de ser teu prisioneiro
Ó saudade, sentimento, solidão
O meu fado vagabundo
Prisioneiro de um desejo
Ó saudade, sentimento, solidão
Ondas do mar tão profundo
Que querem beijar o Tejo
Ó saudade, sentimento, solidão
O meu fado vagabundo
Prisioneiro de um desejo
Ó saudade, sentimento, solidão
Ondas do mar tão profundo
Que querem beijar o Tejo

Letra e música: José Medeiros (Ao Gil e à Teresa)
Arranjo: José Medeiros, com a colaboração de todos os músicos
Intérprete: José Medeiros com Rui Veloso (in Livro/2CD “Fados, Fantasmas e Folias”: CD 1, Algarpalcos, 2010)

Nasce o dia na cidade

[ Fado da Saudade ]

Nasce o dia na cidade
Que me encanta
Na minha velha Lisboa
De outra vida
E com o nó de saudade
Na garganta
Escuto um fado
Que se entoa à despedida

Foi nas tabernas de Alfama
Em hora triste
Que nasceu esta canção
O seu lamento
Na memória dos que vão

Letra: Fernando Pinto do Amaral
Música: Fado Menor
Intérprete: Carlos do Carmo (in CDs “Fados”, EMI, 2007; “À Noite”, TugaLand/Universal, 2007)

No castelo, ponho um cotovelo

[ Lisboa menina e moça ]

No castelo, ponho um cotovelo,
em Alfama, descanso o olhar
e assim desfaz-se o novelo
de azul e mar.
À Ribeira encosto a cabeça,
a almofada, na cama do Tejo
com lençóis bordados à pressa
na cambraia de um beijo.

Lisboa menina e moça, menina
na luz que meus olhos vêem tão pura.
Teus seios são as colinas, varina,
pregão que me traz à porta, ternura.
Cidade a ponto luz bordada,
toalha à beira mar estendida,
Lisboa menina e moça, amada,
c idade mulher da minha vida.

No Terreiro, eu passo por ti,
mas da Graça eu vejo-te nua.
Quando um pombo te olha, sorri,
És mulher da rua
e no Bairro mais Alto do sonho
ponho o fado que soube inventar,
aguardente de vida e medronho
que me faz cantar.

Lisboa menina e moça, menina
na luz que meus olhos vêem tão pura.
Teus seios são as colinas, varina,
pregão que me traz à porta ternura.
Cidade a ponto luz bordada,
toalha à beira mar estendida,
Lisboa menina e moça, amada,
cidade mulher da minha vida.

Letra: Ary dos Santos
Música: Paulo de Carvalho
Intérprete: Carlos do Carmo (in “Uma Canção Para a Europa”, 1976)

No Chiado à tardinha

[ Leitaria Garrett ]

No Chiado à tardinha, às vezes,
Sorridentes vão de mão na mão,
Bons rapazes, são bons portugueses
Ai madame a sua indigestão

Ideal das empregaditas
A finória vai um figurino
Tão carcaça, veste muitas chitas
Diz olé! Pró Montefiorino

Leitaria Garrett dá cá o pé
Ai tira a mão, João,
Da coxa doce,
Já está, antes não fosse…
O Saricoté, foi parar à Marques
Lá prás Belas-Artes…

Assim mesmo á que é!
(Diz o progresso)
Chá com torradas, João,
P’ra onde é que eu vou,
Já fui, mas já não sou
Linda mocidade, foi-se o Sol embora,
Fica-me a Saudade…

Letra e música: Vitorino
Intérprete: Vitorino (in “Leitaria Garrett”, EMI-VC, 1984, reed. 1993)

Noutro tempo a fidalguia

[ Embuçado ]

Noutro tempo a fidalguia
Que deu brado nas toiradas
Andava p’la Mouraria
Onde muito falar se ouvia
Dos cantos e guitarradas

A história que eu vou contar
Contou-me certa velhinha
Certa vez que eu fui cantar
Ao salão de um titular
Lá para o paço da rainha

E nesses salão doirado
De ambiente nobre e sério
Para ouvir cantar o Fado
Ia sempre um Embuçado
Personagem de mistério.

Mas certa noite houve alguém
Que lhe disse, erguendo a fala:
– Embuçado, nota bem:
Que hoje não fique ninguém
Embuçado nesta sala!

Perante a admiração geral
Descobriu-se o Embuçado
Era El-Rei de Portugal
Houve beija-mão real
E depois cantou-se o Fado.

Letra e música: João Ferreira Rosa
Intérprete: João Ferreira Rosa (in CD “Biografia do Fado”, EMI-VC, 1994)

O Amarelo da Carris

O Amarelo da Carris
vai de Alfama à Mouraria,
quem diria!
Vai da Baixa ao Bairro Alto,
trepa à Graça em sobressalto,
sem saber geografia.

O Amarelo da Carris
já teve um avô outrora,
que era o “chora”.
Teve um pai americano,
foi inglês por muito ano,
só é português agora!

Entram magalas, costureiras;
descem senhoras petulantes,
entre a verdade,
os beliscos e as peneiras,
fica tudo como dantes.

Quero um de quinze p’rá Pampulha,
já é mais caro este transporte;
e qualquer dia mudo a agulha
porque a vida
está pela hora da morte!

O Amarelo da Carris
tem misérias à socapa
que ele tapa.
Tinha bancos de palhinha,
hoje tem cabelos brancos,
e os bancos são de napa.

No amarelo da Carris
já não há “pode seguir”
para se ouvir.
Hoje o pó que o faz andar
é o pó do lava-lar
com que ele se foi cobrir.

Quando um rapaz empurra um velho,
ou se machuca uma criança,
então a gente vê ao espelho o atropelo
e a ganância que nos cansa.

E quando a malta fica à espera,
é que percebe como é:
passa à pendura o pendura que não paga
e não quer andar a pé.

O Amarelo da Carris
já teve um avô outrora,
que era o “chora”.
Teve um pai americano,
foi inglês por muito ano,
só é português agora!

Quando um rapaz empurra um velho,
ou se machuca uma criança,
então a gente vê ao espelho o atropelo
e a ganância que nos cansa.

Entram magalas, costureiras;
descem senhoras petulantes,
entre a verdade,
os beliscos e as peneiras,
fica tudo como dantes.

Letra: José Carlos Ary dos Santos
Música: José Luís Tinoco
Intérprete: Mariza (in CD “Novo Homem na Cidade”, Universal, 2004)
Versão original: Carlos do Carmo (in “Um Homem na Cidade”, Trova, 1977; reed. UPAV, 1991; Philips/Polygram, 1995)

O dia já se fez notar

[ Um Dia de Lisboa ]

O dia já se fez notar
O rio acena com neblina
Um eléctrico a passar
Dá bom-dia em cada esquina
Gostei de te ouvir falar
Vens de longe, moras cá
Tanta rua a palmilhar
E os segredos que p’ra aí há

Il y a de l’amour
Il y a du glamour
Il y a de la joie
pour tous les jour
Il n’y a que toi
Il n’y a que nous
Le monde s’est donné
Rendez-vous

Lisboa está fantástica, romântica, exótica
Lisboa está fantástica, e é tão bom aqui estar
Lisboa está fantástica, romântica, exótica
Lisboa está fantástica, e é tão bom aqui estar

‘Rasta’, fado e ceviche,
A partida adiada
O Castelo, a sanduíche
Mouraria já esgotada
Hostel, saudade e ‘low-cost’
Olha a Bica a fervilhar
A Ribeira põe um ‘post’:
“Quem quer vir p’ra cá morar?”

Et les amis, et la folie
On est bienvenu ici
Il fait si beau, Il fait si chaud
Quelqu’un ma donné un cadeau

Lisboa está fantástica, romântica, exótica
Lisboa está fantástica, e é tão bom aqui estar
Lisboa está fantástica, romântica, exótica
Lisboa está fantástica, e é tão bom aqui estar

O dia a começar
A marca do teu beijo
Reflecte na parede
Forrada a azulejo
Não sei de onde vens
Nem vou perguntar
Vá lá, faz-me sorrir!
Diz-me que vais cá ficar!

Il fait si beau, Il fait si chaud
Quelqu’un ma donné un cadeau
Et les amis, et la folie
On est bienvenu ici

Lisboa está fantástica, romântica, exótica
Lisboa está fantástica, e é tão bom aqui estar
Lisboa está fantástica, romântica, exótica
Lisboa está fantástica, e é tão bom aqui estar

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha* (ao vivo no Estúdio 3 da Rádio e Televisão de Portugal, Lisboa)
Versão original: Sebastião Antunes & Quadrilha com Viviane (in CD “Perguntei ao Tempo”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2019)

O que tem esta Lisboa?

[ A Sina em Portugal ]

O que tem esta Lisboa?
Que beco me enlaça a alma?
Os trinados da guitarra
ou o frio da noite calma?

Sempre que regresso a casa,
não há outra como ela;
deixo lá a minha asa
pendurada na janela.

A canção de Lisboa: é fado.
Amar em português: é fado.
A sina em Portugal: é fado,
mas cantar sem emoção não é.

Já tentei perceber
que chamamento nos cala;
O que mais hei-de eu fazer
senão arrumar a mala!

Por baixo dum céu azul
o que o Tejo dá não tira:
sete colinas ao Sul
só para dançar um vira.

A canção de Lisboa: é fado.
Amar em português: é fado.
A sina em Portugal: é fado,
mas cantar sem emoção não é.

No bairro já se dorme,
com o silêncio da noite;
De repente o fado acorda
e corta como uma foice.

Sai guitarra e sai viola,
“sai da cama, ó manganão!”,
vai cantar a Deolinda.
Vai mais um fadinho ou não?

A canção de Lisboa: é fado.
Amar em português: é fado.
A sina em Portugal: é fado,
mas cantar sem emoção não é.

A canção de Lisboa: é fado.
Amar em português: é fado.
A sina em Portugal: é fado,
mas cantar sem emoção não é.

A canção de Lisboa: é fado.
Amar em português: é fado.
A sina em Portugal: é fado,
mas cantar sem emoção não é.

Pois é!

Letra e música: José Barros
Intérpretes: José Barros & Mimmo Epifani*
Versão original: José Barros & Mimmo Epifani (in CD “Mar da Lua”, José Barros/Tradisom, 2015)

Ó rua do Capelão

[ Novo Fado da Severa (Rua do Capelão) ]

Ó rua do Capelão
Juncada de rosmaninho
Se o meu amor vier cedinho
Eu beijo as pedras do chão
Que ele pisar no caminho.

Há um degrau no meu leito,
Que é feito pra ti somente
Amor, mas sobe com jeito
Se o meu coração te sente
Fica-me aos saltos no peito.

Tenho o destino marcado
Desde a hora em que te vi
Ó meu cigano adorado
Viver abraçada ao fado
Morrer abraçada a ti.

Letra: Júlio Dantas
Música: Frederico de Freitas
Intérprete: Dina Teresa (in filme “A Severa”, de José Leitão de Barros, 1931)
Outra versão: Amália Rodrigues (in CD “Abbey Road 1952”, EMI-VC, 1992)

Quando eu era rapazote

[ Fado do Cacilheiro ]

Quando eu era rapazote,
Levei comigo no bote
Uma varina atrevida.
Manobrei, e gostei dela,
E lá me atraquei a ela
P’ró resto da minha vida.

Às vezes, numa pessoa,
A idade não perdoa,
Faz bater o coração!
Mas tenho grande vaidade
Em viver a mocidade
Dentro desta geração!…

Sou marinheiro
Deste velho cacilheiro,
Dedicado companheiro,
Pequeno berço do povo.
E navegando…
A idade vai chegando…
Ai… o cabelo branqueando…
Mas o Tejo é sempre novo.

Todos moram numa rua
A que chamam sempre sua,
Mas eu cá não os invejo:
O meu bairro é sobre as águas
Que cantam as suas mágoas,
E a minha rua é o Tejo.

Certa noite de luar,
Vinha eu a navegar
E de pé, junto da proa,
Eu vi, ou então sonhei,
Que os braços do Cristo-Rei
Estavam a abraçar Lisboa.

Sou marinheiro
Deste velho cacilheiro,
Dedicado companheiro,
Pequeno berço do povo.
E navegando…
A idade vai chegando…
Ai… o cabelo branqueando…
Mas o Tejo é sempre novo.

Letra: Paulo da Fonseca
Música: Carlos Dias
Intérprete: Zé Francisco & Orquestra Azul* (in CD “Caminho de Mar e Luz”, José Francisco Vieira/Alain Vachier Music Editions, 2013)
Versão original (“Zé Cacilheiro”): José Viana (revista “Zero, Zero, Zero – Ordem para Matar”, 1966, Teatro Variedades) (in single “Zé Cacilheiro”, A Voz do Dono/EMI, 1966; 2CD “Parque Mayer”: CD 1, EMI-VC, 2003; CD “Para uma História do Fado: Os Fados do Teatro e do Cinema”, col. O Fado do Público, vol. 12, EMI-VC / Corda Seca / Público, 2004; CD “O Melhor de José Viana”, Edições Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2009)

Quis que esta morna quebrasse

[ A Morna de “Nha” Lisboa ]

Quis que esta morna quebrasse
Toda a distância do mar
Misturando um fado antigo
E um tom crioulo a cantar;
E a ouro e prata vos digo
Que soube bem misturar.

Senti do Castelo o teu Sal,
Em Alfama gingaram crioulas;
São Vicente em arraial
Dançava pela Madragoa.
São Vicente em arraial
Dançava pela Madragoa.

Quis que esta morna acordasse
O meu Cacau da Ribeira
E a Varina apregoasse
Ao ritmo duma coladeira,
E o Tejo ao fundo bailasse
Ao teu jeito, “bo manera”.

Chorai, ó guitarras, chorai!
Que Alfama da velha Lisboa
Sem vergonha, junta vai
Com a morna nascida em Lisboa.
Sem vergonha, junta vai
Com a morna nascida em Lisboa.

Quis que esta morna passasse
Aquelas noites das boas
E no Bairro Alto cantasse
O Tejo e suas canoas;
E em voz crioula bordasse
O fado de “nha” Lisboa.

Tocai, ó guitarras, tocai!
Que o fado crioulo ecoa
E as gargantas cantam ai…
«Sôdade de “nha” Lisboa».
E as gargantas cantam ai…
«Sôdade de “nha” Lisboa».

Tocai, ó guitarras, tocai!
Que o fado crioulo ecoa
E as gargantas cantam ai…
«Sôdade de “nha” Lisboa».
E as gargantas cantam ai…
«Sôdade de “nha” Lisboa».

Tocai, ó guitarras, tocai!
Que o fado crioulo ecoa
E as gargantas cantam ai…
«Sôdade de “nha” Lisboa».
E as gargantas cantam ai…
«Sôdade de “nha” Lisboa».

Letra: Rogério Oliveira
Música: Fernando Pereira
Intérprete: Real Companhia* (ao vivo no Teatro da Luz, Lisboa)
Primeira versão de Real Companhia, com Rui Veloso (in CD “Serranias”, Tê, 2013; CD “20 Anos Já Cá Cantam” (compilação), Tê, 2016)
Versão original: Lenita Gentil (in CD “Momentos”, Ovação, 2012)

Se uma gaivota viesse

[ Gaivota ]

Se uma gaivota viesse
Trazer-me o céu de Lisboa
No desenho que fizesse,
Nesse céu onde o olhar
É uma asa que não voa,
Esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
No meu peito bateria,
Meu amor, na tua mão,
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
Dos sete mares andarilho,
Fosse, quem sabe, o primeiro
A contar-me o que inventasse,
Se um olhar de novo brilho
No meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
No meu peito bateria,
Meu amor, na tua mão,
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
As aves todas do céu,
Me dessem na despedida
O teu olhar derradeiro,
Esse olhar que era só teu,
Amor, que foste o primeiro.

Que perfeito coração
Morreria no meu peito,
Meu amor, na tua mão,
Nessa mão onde perfeito
Bateu o meu coração.

Meu amor, na tua mão,
Nessa mão onde perfeito
Bateu o meu coração.

Letra: Alexandre O’Neill
Música: Alain Oulman
Intérprete: Paulo de Carvalho (in “Gostar de Ti”, CBS, 1990; “Fados Meus”, BMG Ariola, 1996)
Versão original: Amália Rodrigues (in “Fado Português”, Columbia/VC, 1965, reed. EMI-VC, 1992; “O Melhor de Amália – Estranha Forma de Vida”, EMI-VC, 1985, reed. 1995)
Outra versão: Carlos do Carmo (in “A Arte e a Música de Carlos do Carmo”, Polygram, 1982)

Sei de um rio

Sei de um rio…
Sei de um rio
Em que as únicas estrelas,
Nele sempre debruçadas,
São as luzes da cidade.

Sei de um rio…
Sei de um rio
Rio onde a própria mentira
Tem o sabor da verdade.
Sei de um rio…

Meu amor, dá-me os teus lábios!
Dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede!
Mas o sonho continua…

E a minha boca (até quando?)
Ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando:
“— Sei de um rio…
Sei de um rio…”

Meu amor, dá-me os teus lábios!
Dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede!
Mas o sonho continua…

E a minha boca (até quando?)
Ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando:
“— Sei de um rio…
Sei de um rio…”

Sei de um rio…
Ai!
Até quando?

Letra: Pedro Homem de Mello
Música: Alain Oulman
Intérprete: Camané
Versão original: Camané (in CD “Sempre de Mim”, EMI, 2008; 2CD “Camané: O Melhor 1995-2013 (Edição Especial)”: CD 1, EMI, 2013)
Outra versão: Camané (in CD/DVD “Ao Vivo no Coliseu: Sempre de Mim”, EMI, 2009)

Sou o Bairro Alto

[ Marcha do Bairro Alto – 1995 ]

Sou o Bairro Alto
E olho sempre de alto
P’rás tristezas que Lisboa tem;
Sou o Bairro Alto
Pronto a dar o salto
Para um tempo novo que aí vem;
Todo o bom filho sai
Conforme os pais que tem:
O Fado é meu pai,
Lisboa minha mãe,
E eles cantando
Vão-me preparando
Para um tempo novo que aí vem.

Nem quando foi dos terramotos do Marquês,
Nem com as maldades que o Fado sempre lhe fez…
Do Bairro Alto, cá no alto, eu vi Lisboa a chorar;
Deu sempre a volta, pôs-me à solta e ensinou-me a cantar.

O tempo corre, mas a vida continua;
Lisboa morre por sair comigo à rua:
Fez uma marcha ao meu jeito,
Vestiu-me a preceito
E cá vou eu a desfilar.

Sou o Bairro Alto
E olho sempre de alto
P’rás tristezas que Lisboa tem;
Porque ela cantando
Me foi preparando
Para um tempo novo que aí vem;
O Fado é meu pai,
Lisboa minha mãe,
E um bom filho sai
Conforme os pais que tem.

Sou o Bairro Alto
Pronto a dar o salto
Para um tempo novo que aí vem;
Nem quando foi seu coração incendiado
Ou quando viu o Parque Mayer apagado…
Do Bairro Alto, cá no alto, eu vi Lisboa a chorar;
Do que era pranto fez um canto e ensinou-me a cantar.

O tempo corre, é a marcha desta vida;
Lisboa morre por ver a sua Avenida
Cheia de gente tão diferente
A ver-me tão contente
Por ela abaixo a desfilar.

Sou o Bairro Alto
E olho sempre de alto
P’rás tristezas que Lisboa tem,
Porque ela cantando
Me foi preparando
Para um tempo novo que aí vem;
O Fado é meu pai
Lisboa minha mãe,
E um bom filho sai
Conforme os pais que tem;
Sou o Bairro Alto
Pronto a dar o salto
Para um tempo novo que aí vem.

O tempo corre, mas a vida continua;
Lisboa morre por sair comigo à rua:
Fez uma marcha ao meu jeito
Vestiu-me a preceito
E cá vou eu a desfilar.

Sou o Bairro Alto
E olho sempre de alto
P’rás tristezas que Lisboa tem;
Sou o Bairro Alto
Pronto a dar o salto
Para um tempo novo que aí vem.

Letra e música: José Mário Branco
Intérprete: Camané
Versão original: Camané (in CD “Pelo Dia Dentro”, EMI-VC, 2001; 2CD “Camané: O Melhor 1995-2013 (Edição Especial)”: CD 1, EMI, 2013)
Outra versão: Camané (in DVD “Ao Vivo no S. Luiz”, EMI, 2006)

Quis que esta morna quebrasse

Quis que esta morna quebrasse
Toda a distância do mar
Misturando um fado antigo
E um tom crioulo a cantar;
E a ouro e prata vos digo
Que soube bem misturar.

Senti no Castelo o teu Sal,
Em Alfama gingaram crioulas;
São Vicente em arraial
Dançava pela Madragoa.
São Vicente em arraial
Dançava pela Madragoa.

Quis que esta morna acordasse
O meu Cacau da Ribeira
E a Varina apregoasse
Ao ritmo duma coladeira,
E o Tejo ao fundo bailasse
Ao teu jeito, “bo manera”.

Chorai, guitarras, chorai!
Que Alfama da velha Lisboa
Sem vergonha, junta vai
Com a morna nascida em Lisboa.
Sem vergonha, junta vai
Com a morna nascida em Lisboa.

Quis que esta morna passasse
Aquelas noites das boas
E no Bairro Alto cantasse
O Tejo e suas canoas;
E em voz crioula bordasse
O fado de “nha” Lisboa.

Tocai, ó guitarras, tocai!
Que o fado crioulo ecoa
E as gargantas cantam ai…
«Sôdade de “nha” Lisboa».
E as gargantas cantam ai…
«Sôdade de “nha” Lisboa».

Tocai, guitarras, tocai!
Que o fado crioulo ecoa
E as gargantas cantam ai…
«Sôdade de “nha” Lisboa».
E as gargantas cantam ai…
«Sôdade de “nha” Lisboa».

Tocai, ó guitarras, tocai!
Que o fado crioulo ecoa
E as gargantas cantam ai…
«Sôdade de “nha” Lisboa».
E as gargantas cantam ai…
«Sôdade de “nha” Lisboa».

Letra: Rogério Oliveira
Música: Fernando Pereira
Intérprete: Real Companhia* com Rui Veloso (in CD “Serranias”, Tê, 2013)

Tal qual esta Lisboa

[ Lisboa Oxalá ]

Tal qual esta Lisboa, roupa posta à janela,
Tal qual esta Lisboa, roxa jacarandá,
Sei de uma outra Lisboa, de avental e chinela,
Ai Lisboa fadista de Alfama e oxalá.

Lisboa lisboeta da noite mais escura
De ruas feitas sombra, de noites e vielas,
Pisa o chão, pisa a pedra, pisa a vida que é dura,
Lisboa tão sozinha, de becos e ruelas.

Mas o rosto que espreita por detrás da cortina
É o rosto de outrora feito amor, feito agora.
Riso de maré viva numa boca ladina
Riso de maré cheia num beijo que demora.

E neste fado o deixo esquecido aqui ficar
Lisboa sem destino que o fado fez cantar,
Cidade marinheira sem ter de navegar
Caravela da noite que um dia vai chegar.

Letra: Nuno Júdice
Música: Joaquim Campos (Fado Alexandrino)
Intérprete: Carlos do Carmo (in CD “À Noite”, Universal/Tugaland, 2007)

Tens a mania de usar

[ Gaiata dos Beijos Doces ]

Tens a mania de usar
Rosas presas no cabelo;
Já tentei não te ligar
Mas acabo por fazê-lo.

As rosas ficam-te bem,
Não tenho dúvida alguma;
Posso garantir, porém,
Que não te dou mais nenhuma.

Que não te dou mais nenhuma;
Posso garantir, porém,
Que não te dou mais nenhuma,
Não tenho dúvida alguma.

Atropelamento e fuga
Sem quaisquer danos visíveis:
Gaiata dos beijos doces
E das noites impossíveis.

Tens a mania de andar
Num baloiço emocional:
Tu pedes para empurrar
E dizes que empurro mal.

És confusão instalada,
Nevoeiro no caminho:
Eu chego de madrugada
E durmo sempre sozinho.

E durmo sempre sozinho;
Eu chego de madrugada
E durmo sempre sozinho,
E durmo sempre sozinho.

Atropelamento e fuga
Sem quaisquer danos visíveis:
Gaiata dos beijos doces
E das noites impossíveis.

Atropelamento e fuga
Sem quaisquer danos visíveis:
Gaiata dos beijos doces
E das noites impossíveis.

Letra: Duarte (Fevereiro de 2011)
Música: Tozé Brito
Intérprete: Duarte (in CD “Sem Dor Nem Piedade”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2015)

Toda a saudade é fingida

[ Covers ]

Toda a saudade é fingida:
A tristeza disfarçada;
Parecem já não ter vida,
De fado não têm nada.

Já não são fados, são ‘covers’:
Imitações desalmadas,
Reproduções do destino
Tantas vezes tão cantadas.

Esses que tentam viver
Aquilo que outros viveram
Acabam por se perder
No tanto que não fizeram.

Vampiragem pós-moderna
Da Lisboa dos turistas:
Falam da velha taberna
Mas querem ser futuristas.

Letra: Duarte
Música: João do Carmo Noronha (Fado Pechincha)
Intérprete: Duarte (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018)

Trago um fado no meu canto

[ Meu Fado Meu ]

Trago um fado no meu canto
Canto a noite até ser dia
Do meu povo trago o pranto
Do meu canto a Mouraria

Tenho saudades de mim
Do meu amor mais amado
Eu canto um país sem fim
O mar, terra, meu fado
Meu fado, meu fado, meu fado

De mim só me falto eu
Senhora da minha vida
Do sonho digo que é meu
E dou por mim já nascida

Trago um fado no meu canto
Na minha alma bem guardado
Bem por dentro do meu espanto
À procura do meu fado
Meu fado, meu fado, meu fado

Letra e música: Paulo de Carvalho
Intérprete: Mariza & Miguel Poveda* (in CD “Fados”, EMI, 2007)
Versão original: Mariza (in CD “Transparente”, EMI, 2005)

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