barítono José de Freitas

JOSÉ DE FREITAS

José de Freitas, de nome completo José Cirilo de Freitas Silva, nasceu na Madeira e foi padre da Congregação da Missão (Padres Vicentinos). Já depois de padre, estudou nos conservatórios do Porto e de Lisboa, onde concluiu o Curso Superior de Canto com excelente classificação. Em 1978 tornou-se artista residente do Teatro Nacional de São Carlos onde se estreou com Schaunard em La Bohème. Foi intérprete de importantes papéis de barítono e de baixo-barítono em Portugal e no estrangeiro. Foi também diretor de coros e compositor de cânticos litúrgicos.

ENTREVISTA

Qual foi o primeiro momento em que se lembra de ter tido consciência de que a música era importante para si?

O primeiro momento?! Preferiria falar de uma pequena série de momentos… Concretizando: No meu 5º ano do seminário (hoje 9º ano), cerca dos 16 anos, quando a chamada “mudança de voz” era já algo acentuada, o meu ilustre professor de música, Padre António Ferreira Telles, poucos dias após ter-me convidado para tocar harmónio em algumas cerimónias litúrgicas (ele era o harmonista oficial, obviamente) e pedir-me para, alternadamente com outro colega, iniciar os cânticos na liturgia (o equivalente a solista), veio falar comigo na véspera da festa do Padroeiro do seminário (S. José), e disse-me: “Confio muito em ti para “segurares” a 4ª voz na missa solene de amanhã.” Ora aí tem um “puzzle” com bastante significado na minha “consciência musical” de jovem seminarista…

Quais os professores que mais o influenciaram no tempo de seminário?

Vou referir-me apenas a professores de música, obviamente. Desde os primeiros anos, tive uma veneração especial por um ilustre mestre, muito “sui generis”, mas muito competente e sabedor: o Padre António Ferreira Telles, a que atrás aludi. Era excelente harmonista, compositor, ótimo harmonizador. O Pe. Fernando da Cunha Carvalho, felizmente ainda entre nós, também teve influência na minha orientação musical, e não só. Mas vou salientar, sem querer ser injusto para os atrás citados e porventura outros, o Pe. João Dias de Azevedo, que muito me ajudou sobretudo no harmónio e no órgão, no Seminário de Mafra, onde fiz o meu noviciado (1954-1956). Nesse período, cheguei a tocar órgão em algumas celebrações dominicais e festas na Basílica de Mafra… E, para completar os anos do seminário, não poderei omitir o Pe. Fernando Pinto dos Reis (1929-2010).

Depois de ir para o seminário e de ser padre, quando é que se apercebeu de que cantar era o mais importante na sua vida profissional?

Como disse, cedo me iniciei e fui crescendo na função de solista. Continuei-a ao longo de todo o curso, alternando-a com o múnus de harmonista. Terminado o curso, fui incumbido da disciplina de Música (além de outras), no seminário menor. O concílio do Vaticano II acabava de privilegiar o vernáculo na liturgia. Iniciei a renovação de todo o repertório vigente. Eu próprio dei largas a uma velha paixão e iniciei a composição de cânticos em português, incluindo o “ordinário” e o “próprio” da missa para determinadas solenidades, além de outros cânticos circunstanciais. Aconselhado por não poucos, matriculei-me no Conservatório do Porto. Canto? Composição? Duas paixões. Muito incitado e encorajado pela professora D. Isabel Mallaguerra, decidi-me mais seriamente pelo canto, sem descurar a composição musical.

Após o curso geral de canto no Conservatório do Porto, vim a concluir o Curso Superior no Conservatório Nacional com a professora D. Helena Pina Manique. Com o programa do exame do curso superior concluído com alta classificação, fui convidado para vários recitais em Lisboa e não só. Iniciei logo de seguida o curso de ópera com o professor Álvaro Benamor e D. Helena Pina Manique. Fui admitido no Coro Gulbenkian, onde estive durante alguns meses até seguir para Paris com uma bolsa de estudos.

O diretor do Teatro Nacional de São Carlos, Eng. João Paes, que já me ouvira no Conservatório, convidou-me para, temporariamente, interromper o estágio em Paris e vir a Lisboa preparar o desempenho de um importante papel numa ópera portuguesa. Bem sucedido, pediu-me para, após o estágio parisiense, seguir para Florença, afim de preparar, com o famoso Gino Bechi, o importantíssimo papel de primeiro barítono (Lord Enrico d’Ashthon) da ópera Lucia di Lamermoor, de Donizetti. Cantei esse papel em novembro de 1977, no Teatro Rivoli (Porto)…

Toda esta “bola de neve” a partir da conclusão do curso superior de canto em 1974, todo o incrível desencadear de situações até finais de 1977, todo o ano de 1977 sobretudo, tudo isso responde à sua pergunta… Parafraseando, em contraste, um fadista, diria: “Ser cantor não foi meu sonho, mas cantar foi o meu fado…”

Dos anos em que estudou Música e Canto, que professores tiveram uma influência mais decisiva?

Nos conservatórios do Porto e de Lisboa, tive a felicidade de ser orientado respetivamente pelas professoras D. Isabel Mallaguerra e D. Helena Pina Manique, e ainda, por algum tempo, pela D. Arminda Correia, sem esquecer o Prof. Álvaro Benamor (cena).

Em Paris, como olvidar o trabalho com a famoso baixo Huc-Santana e o não menos célebre barítono Gabriel Bacquier? Em Itália, e aqui em Portugal, Gino Bechi foi simplesmente precioso no trabalho vocal e cénico. Este famoso barítono, que também me honrava com a sua amizade, cantou nos anos 40, em todos os grandes palcos do mundo. A sua famosa “entrega” aos espetáculos e nos espetáculos, quer cenicamente mas sobretudo vocalmente, levou-o a tal desgaste que teve de terminar a sua carreira por volta dos 40 anos, precisamente com a idade com que eu comecei…

Foi difícil deixar de ser padre e optar pela carreira musical?

Quando, em finais dos anos 60, me matriculei no Conservatório do Porto, confesso que o meu sonho era dar uma componente artística à minha missão de padre.

Começaram a surgir, porém, situações que não deixaram de me ir perturbando. Alguma confusão começou a instalar-se nos meus horizontes… Estávamos em pleno pós-74… Sobretudo a partir de 1977, comecei a sentir-me ultrapassado pelos acontecimentos. Tinham de ser tomadas decisões… Não podia viver na ambiguidade!… Houve muitas dúvidas, muitas incertezas… O meu Padre Provincial de então propôs-me fazer as duas coisas: padre e cantor… Tudo se desenrolava vertiginosamente… Eram convites para concertos, para óperas, etc.
Cheguei mesmo a atuar durante não pouco tempo, estando ainda no exercício do ministério… Fui chegando à conclusão de que as duas funções não faziam grande sentido… Em finais de 1978, acabei por tomar a decisão: pedi para Roma a dispensa do exercício das ordens. Não tive resposta fácil. Demorou mais de dois anos. Pelo meio, um apelo a que repensasse…

Qual foi o papel da Igreja na sua vida musical?

Primeiramente, como é obvio, penso em todo o curso do seminário. Para além de todos os aspetos da formação, a música da Igreja, o canto gregoriano, ocupou uma grande parte desse período, quer na teoria, quer na prática. O nosso Cantuale, um livro específico da Congregação da Missão com os mais belos cânticos gregorianos e muitos outros, a uma ou mais vozes, dominou grande parte desses anos, as nossas vozes e as nossas almas.

No seminário Maior, durante o curso de filosofia e teologia, para além das mais belas obras de polifonia sacra, cantávamos, todos os domingos e festas, o “comum” e o “próprio” em gregoriano, de acordo com o emblemático Liber Usualis, a mais completa obra do canto da Igreja. Tudo isto, naturalmente acompanhada da parte teórica, marca indelevelmente a minha personalidade e a minha formação musical. E não esqueço que quase sempre, alternadamente, fui organista e solista…

Após a ordenação, seguiram-se anos dominados pelo Concílio do Vaticano II, com uma série extraordinária de documentos sobre a música e a liturgia em vernáculo,com o aparecimento de excelentes compositores. E foram sempre surgindo, com os diversos papas, importantes documentos sobre a música litúrgica. Não posso esquecer os “famosos” cursos gregorianos de Fátima que frequentei.

Durante os anos 1977-1995, em que a vida artística teve o seu lado prioritário, nunca deixei de estar atento aos documentos da Igreja sobre música sacra e à obra de excelentes compositores que temos.

A partir de 1997, já no pós – S. Carlos, a pedido do meu grande amigo Conégo José Serrasina que acabava de ficar à frente da Paróquia dos Anjos, em Lisboa– a minha paróquia -, comecei a orientar o coro paroquial, tomando a peito a renovação dos cânticos e a dinamização litúrgica. Baseava-me sempre nos textos de cada celebração. Após 5 anos de intenso e profícuo trabalho, abracei outro projeto – na Capela do Palácio da Bemposta (Academia Militar), onde colaborei durante 13 anos (2003 – 2016). Durante este período, compus dezenas de cânticos que vieram a ser publicados pela Academia Militar, em 2012, num volume com o título Deus é Amor. Porque o “contexto” de então era “específico”, o referido volume irá “sofrer” brevemente substancial alteração.

Qual foi a maior deceção na sua vida?

Se me permite, não apresentaria uma mas duas deceções, e ambas no âmbito do mundo lírico. A primeira, logo de início. Tinha feito 40 anos. Eram diferentes, agora, o sonho e o ideal. Imaginava que perante mim, ia surgir um meio pleno de elevação, um ambiente superior, de arte, de cultura, etc. Cedo, porém, fui verificando e concluindo que as cores que sonhara belas, não, não o eram assim tanto… A realidade era bastante mais prosaica… Bem!… Respirei fundo, bem fundo, passe a expressão… E, vamos a isso!… Mas vamos mesmo! O desafio que ora iniciava era para ganhar, era mesmo para vencer!… E foi! Não tive o caminho atapetado de rosas, longe disso, muito longe! Foram necessárias uma fibra excecionalmente forte como considero ter, uma fé inabalável em Deus como efetivamente tenho, e também, obviamente, uma grande confiança nos talentos que Deus me deu, aliados à formação que tive (não poderei esquecê-lo!) E…aí vou eu!… E nem tudo foram espinhos, digamos em abono da verdade. Tive um público que me admirava e apoiava bastante, excelentes e excecionais críticas, outras nem tanto… E, entre um pessoal que rodava as três centenas (coro, orquestra, cantores, técnicos, etc), tive não poucos amigos e admiradores! Não esqueço que, logo no começo, nos primeiros ensaios, vi lágrimas nos olhos de algum do pessoal, ao verem a minha entrada enérgica, decidida, confiante, e pensando no “mundo” donde acabava de chegar… aos 40 anos!…

A segunda deceção foi no fim. Em finais de 92, a SEC, tendo à frente o Dr. Pedro Santana Lopes, achou por bem dissolver a Companhia Portuguesa de Ópera (cantores, orquestra, etc). Éramos 14 os cantores principais. Mesmo tendo em conta que eu continuava a cantar no país e não só, esta foi sem dúvida uma grande deceção. Aos 55 anos, encontrava-me no ponto mais alto da carreira, a nível vocal e cénico, na minha opinião e na de quantos me conheciam e ouviam! Esperava estar “em grande” mais uma boa dezena de anos… Lembrei-me então das palavras de Gino Bechi, quando, certo dia, nos anos 80, após fazer as célebres e espetaculares demonstrações, vocais e cénicas, durante um ensaio, e quando já contava perto dos 80 anos, teve este desabafo: “Agora é que eu sei cantar!”

Pois é!… Parafraseando o meu mestre, diria: “Agora… é que eu sabia cantar!…”

Qual foi o momento mais alto da carreira como cantor lírico?

Desempenhei os mais diversos papéis de 1º barítono, de baixo-barítono, papéis característicos, enfim, foram cerca de 50… Nunca tive um fracasso nos meus desempenhos. Pelo contrário! Escolher o momento mais alto?!… É difícil!… Estou a lembrar-me de não poucos… Do “Le Grand-Prêtre de Dagom” da ópera Samson et Dalila, de Saint-Saëns, em 1983. Quis preparar o papel em Lyon com o meu ex-professor de Paris, o grande barítono Gabriel Bacquier. Estou a recordar-me do “Dulcamara” da ópera L’Elisir d’Amore, de Donizetti, em 1984 e 1985… Do “Rocco”, da ópera Fidelio de Beethoven… Enfim, não vou alongar-me na citação de outras boas e belas hipóteses…

Mas vou escolher como momento mais alto uma ópera fora do estilo clássico: a ópera Kiú, do compositor espanhol Luís de Pablo, levada à cena em 1987 no Teatro Nacional de São Carlos. O meu papel de Babinshy, o pivô da ópera, na sua grande espetacularidade e dificuldade vocal e cénica, foi na verdade um momento muito alto na minha carreira! Não foi por acaso que o próprio compositor Luís de Pablo e o maestro Jesús Ramón Encimar me convidaram, 5 anos depois (dezembro de 1992 – janeiro de 1993), para interpretar em Madrid o mesmo papel!…

Quais foram os cantores líricos mundiais que mais o inspiraram?

Estavam na moda, nos anos 60, cantores líricos que deveras nos entusiasmavam. Lembro-me, por exemplo, de Mário Lanza, de Luís Mariano, de Alfredo Krauss que vim a conhecer em São Carlos, e com o qual contracenei, inicialmente, num ou noutro pequeno papel. E vários outros, quase todos tenores. O meu tipo de voz é de barítono ou de baixo-barítono. Mas foi sobretudo a partir do Curso Superior de Canto que comecei a interessar-me por vozes líricas, o que é absolutamente natural. Dado o meu tipo de voz, cerca de cinco ou seis cantores internacionais dominavam particularmente os meus gostos. Comecemos pelos alemães Dietrich Fischer-Dieskau e Hermann Prey, barítonos. O primeiro, absolutamente excecional em lied, tendo cantado praticamente tudo o que havia nesse domínio. Muitos o consideraram o maior músico do século XX. Foi inclusivamente maestro de música sacra. Ouvi-o ao vivo em Paris. Hermann Prey era superior como ator. As suas interpretações em óperas de Mozart, Rossini, Donizetti ficaram memoráveis. Outros dois barítonos ou baixo-barítonos, Fernando Corena e Rolando Panerai, eram também grandes cantores e atores, mais característicos que os anteriores. Outro barítono que, vocalmente (não cenicamente) me enchia as medidas, era Piero Cappuccilli. Era um barítono a que eu chamaria heróico-dramático, com uma incrível potência de voz. Jamais esquecerei o seu desempenho em Simon Boccanegra de Verdi, no São Carlos…

Poderia obviamente alongar-me, no que às vozes masculinas diz respeito. Mas também não posso deixar de me referir a vozes femininas que, além de nós deixarem siderados, tanto nos ensinaram! Antes de mais, Maria Callas!… Depois, uma Victoria de los Angeles que cheguei a ouvir na Gulbenkian. Fiorenza Cossotto, Mirella Freni, Christa Ludwig… Monserrat Caballé que ouvi em Paris dirigida por Leonard Bernstein… Uma Joan Sutherland, La Stupenda, a tal que cantou a Traviata no Coliseu na famosa noite de 24 para 25 de abril de 1974, com o já citado Alfredo Kraus… E eu estava lá!…

Quais os músicos portugueses mais influentes na sua carreira?

Por músicos, entendo compositores, professores, pianistas, ensaiadores, “pontos”, cantores, e, porque não, críticos… Antes de mais, as minhas duas professoras nos conservatórios do Porto e de Lisboa, respetivamente: Isabel Malaguerra e Helena Pina Manique. A professora D. Arminda Correia fez de forma extraordinária a breve transição entre uma e outra. Álvaro Benamor, na classe de ópera. A pianista Maria Helena Matos que me acompanhou com enorme competência desde o Conservatório Nacional, incluindo o exame final, e praticamente em todos os recitais que fui dando ao longo da carreira. O maestro Armando Vidal, músico de gema, com o qual preparei, como a generalidade dos artistas, quase todos os papéis que tinha a desempenhar nas dezenas de óperas em que fui interveniente. Entre os maestros – “pontos” – , não esquecerei o maestro Pasquali que tão competentemente orientou, durante os primeiros tempos, as nossas intervenções em palco, e o maestro Ascenso de Siqueira, grande e bom amigo e incrível ser humano… Tive a felicidade de trabalhar com encenadores como António Manuel Couto Viana, que me honrava com a sua amizade, Carlos Avillez (em várias óperas), Luís Miguel Cintra, João Lourenço…

Cantores? Álvaro Malta, Hugo Casaes, Elizette Bayan, Armando Guerreiro, e outros… Lembro-me ainda de preciosas “dicas” que me deu Álvaro Malta…

Compositores? Antes de mais, o Prof. Cândido Lima. Conheci-o em Paris. Conversávamos muito. Não esqueço o dia em que ele me apresentou ao seu amigo Iannis Xenakis… Fomos juntos a vários concertos. Preparei, com ele ao piano, algumas obras suas para canto. Foi meu pianista num concurso de canto em que fui premiado… Tudo isto em Paris, em 1977.

Com o grande compositor Fernando Lopes-Graça, tive a honra de preparar um importante papel de solista na sua obra As Sete Predicações d’Os Lusíadas, em vista à estreia mundial da mesma no VI Festival da Costa do Estoril (1980).
Joly Braga Santos honrava-me com a sua amizade e admiração. Com ele ensaiei o papel de solista na sua Cantata Das Sombras, sobre texto de Teixeira de Pascoaes, para primeira audição mundial no Teatro de S. Luís, a 27 de julho de 1985, com o Coro Gulbenkian, e enquadrada no XI Festival de Música da Costa do Estoril. De Joly Braga Santos nunca poderei esquecer as suas palavras, em pleno palco, no fim da última récita da sua Trilogia das Barcas, em maio de 1988: “Estou a compor uma ópera, para a Expo de Sevilha (daí a 4 anos), baseada numa obra de Frederico Garcia Llorca, Bodas de Sangue e tenho um muito bom papel para si”. Entretanto, o maestro falecia 2 meses depois, a 18 de julho de 1988, o que constituíu uma grande perda para o País, para a cultura portuguesa.

Quanto a críticos, devo dizer que, entre outros, Francine Benoit, João de Freitas Branco, José Blanc de Portugal muito me encorajaram e elogiaram!

E hoje, o que acha da evolução da ópera em Portugal?

Francamente, tenho dificuldade em responder. Há cerca de vinte e cinco anos, após a extinção da Companhia Portuguesa de Ópera e de ter dado como terminada a minha carreira lírica, abracei outro projeto e alheei-me bastante desse tema. Sei que, sobretudo por razões orçamentais, a programação se ressente, e muito. Tudo parece ser diferente. Repito: não tenho dados que me permitam fazer qualquer juízo de valor…

O que pensa do papel da música na Igreja?

Desde o Seminário Maior, fui lendo atentamente, e mais que uma vez, os documentos papais que surgiram desde o princípio do século XX:
o Motu próprio de São Pio X (1903) sobre a Restauração da Música Sacra;
a Constituição Apostólica Divini Cultus (1928) no pontificado de Pio XI, sobre a liturgia e a música sacra; a Encíclica Musicae Sacrae Disciplina (1953), do Papa Pio XII, sobre a Música Sacra, vocal e instrumental.

Logo após o Concílio do Vaticano II, surge a Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium (1963), a realçar que “a acção litúrgica reveste maior nobreza quando é celebrada com canto, com a presença dos ministros sagrados e a participação ativa do povo”. E quando fala de canto, obviamente que se refere ao canto sagrado intimamente unido com o texto. E se o canto gregoriano ocupa sempre um lugar privilegiado em igualdade de circunstâncias, não são excluídos os outros géneros de música sacra mormente a Polifonia, desde que em harmonia com o espírito da ação litúrgica, e de acordo com os diversos tempos litúrgicos, com as diversas celebrações e os vários momentos da celebração. Compositores, organistas, mestres de coro, cantores, músicos (instrumentistas) devem formar um todo para o esplendor do canto.

Alguns anos após o Concílio, a famosa Instrução Musicam Sacram (1967), da Sagrada Congregação dos Ritos, é a síntese, diria perfeita, do que à Música Sacra diz respeito, desde o canto na celebração da missa, passando pela preparação de melodias para os textos em vernáculo, depois a música para instrumental, o Canto no Ofício, etc etc.

O assunto levar-nos-ia ainda a três ou quatro intervenções de São João Paulo II, a uma célebre conferência do Cardeal Ratzinger (mais tarde Papa Bento XVI) em 1985, a uma Nota Pastoral dos nossos bispos por ocasião do Ano Europeu da Música (em novembro de 1985).

E o nosso Papa Francisco, por mais de uma vez, tem insistido que a Música Sacra e Canto Litúrgico devem estar plenamente inculturados nas linguagens artísticas atuais.

Quais os compositores que mais ouve e, desses, que obras prefere?

J.S. Bach é incontornável. Oiço com frequência, por exemplo, a Cantata do Café, cuja ária Hat man nicht mit seinen kindern fez parte do programa do meu exame do Curso Superior de Canto de Concerto, e foi uma das provas de acesso ao Coro Gulbenkian, em novembro de 1974; a Missa em Si m, cujas árias de baixo cantei; e a Paixão Segundo S. João, em que interpretei o papel de Jesus, no Porto, em abril de 1977, quando ainda estagiava em Paris…
Haëndel (O Messias, e Música Aquática); Beethoven (Sinfonias 3, 6 e 9) e a ópera Fidelio, cujo papel de Rocco desempenhei em junho de 1986; Mozart (o Requiem que, enquanto membro do Coro Gulbenkian, cantei no Coliseu em 1975, com gravação para a Erato; a Sinfonia nº 40, etc etc); Haydn (A criação, a Missa de Santa Cecília e a Sinfonia Concertante); Bizet (Carmen); Bramhs (Um Requiem Alemão);Rossini (Stabat Mater); Tchaickowsky (Romeu e Julieta e Francesa da Rimini; Dvorak (Sinfonia nº 9, O Novo mundo); Ravel (Bolero); Rodrigo (Concerto de Aranjuez); Strauss (valsas); Elgar (Concerto para violoncelo).

E muito, muito mais, obviamente.

O que o levou a colecionar livros e discos?

Certamente, e de uma forma geral, o meu gosto pela música, a ligação à Igreja, o meu profissionalismo, a cultura. É claro que tudo se desenrola de acordo com as diversas etapas da vida:

a minha função de professor de Música (além de outras disciplinas) no seminário menor, após a minha formação, e o começo dos meus estudos no Conservatório;

a minha transição para a vida pastoral, durante 3 anos;

a minha ida para Lisboa para concluir o curso Superior, do Conservatório, e a minha curta passagem pela Fundação Gulbenkian;

o meu estágio de dois anos em Paris, concluído com 2 meses em Itália;

o começo e a continuação da minha carreira lírica no Teatro Nacional de São Carlos;

os 3 anos pós-São Carlos em que continuei a minha carreira;

o abraçar de novo projeto: “trabalhar” um coro inserido numa missão pastoral na Paróquia dos Anjos (Lisboa), a minha Paróquia, a partir de 1997 e, posteriormente, de 2003 a 2016, na capela do Palácio da Bemposta (Academia Militar);

e porque não dizê-lo, as minhas viagens de automóvel, algumas longas, nos anos 70 e daí para cá, para já não falar da minha própria casa…

Como vê, são muitas as etapas e as circunstâncias em que procurei estar sempre em dia e dentro das exigências das mesmas. Livros, discos, cassetes, CDs, DVDs eram verdadeiros instrumentos de trabalho, de cultura, de ocupação, de prazer…

Julgo ter sintetizado as razões da minha importante biblioteca e discoteca, das quais progressivamente e criteriosamente, me vou voluntariamente desfazendo.

Antes da sua formação académica no conservatório, que lugar tinha a música erudita no seu papel de formador no seminário?

Além de renovar completamente o repertório de cânticos religiosos que vinha de há longos anos (o que supunha rodear-me de bom material), comecei a interessar-me por vozes maravilhosas que os discos faziam chegar até nós (Mario Lanza, Luis Mariano, Alfredo Krauss etc, e por orquestras excecionais que nos traziam as mais belas melodias clássicas, canções famosas, música de filmes históricos…

Tive sempre a preocupação de partilhar com os meus jovens alunos algum desse maravilhoso mundo musical… Era importante para a educação da sua sensibilidade, dos seus gostos, da sua cultura.

Lembro-me, e muitos ex-alunos (quer do seminário, quer do ensino público) se recordarão de ter dado a ouvir, entre outras obras, uma pequena peça do compositor russo Alexander Borodine. Tratava-se de Nas estepes da Ásia Central. Era a caravana que surgia ao longe, a marcha dos camelos, a intensidade instrumental que “subia” a anunciar a chegada da caravana, a permanência no terreno, o retomar da marcha, os sons que se iam extinguido… até a caravana se perder de vista!… Era tudo tão belo, tão claro! Apaixonante!… O interesse era enorme. Os alunos começavam a compreender que a música tem um sentido, um conteúdo, uma intenção, uma finalidade, uma expressão!
O mesmo sucedeu com outras obras, como o Hino da Alegria, da IX Sinfonia de Beethoven! Etc etc.

Mas adverti-os sempre para que nada disto desviasse a atenção do essencial da sua formação!…

Em três palavras como se caracteriza a si mesmo?

Persistente! Perfecionista! Brioso!

Lisboa, 19 de março de 2018

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JOSÉ DE FREITAS NA COMUNICAÇÃO SOCIAL

Um barítono que é crítico de si próprio

Correio da Manhã, 28 de abril de 1986

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De padre a cantor principal de ópera no Teatro São Carlos

Diário de Notícias do Funchal, 11 de maio de 1986

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José de Freitas: de padre a cantor

Correio da Manhã, 02 de agosto de 1987

Fátima Costa e Alexandre

Canções dedicadas à Mãe

Letras

Mãe

Mãe descobri que o tempo pára
E o mundo não separa o meu coração do teu
Eu sei que essa coisa rara
Aumenta, desassossega mas pára
Quando o teu tempo é o meu

Mãe canta com vaidade
Porque já tenho idade
Pra saber
Que em verdade em cada verso teu
Onde tu estás estou eu

Mãe contigo o tempo pára
Nosso amor é coisa rara
E cuidas de um beijo meu
Sei que em cada gesto teu
Está teu coração no meu

Mãe canta com vaidade
Porque já tenho idade
Pra saber
Que em verdade em cada verso teu
Onde tu estás estou eu

Se pudesse mandar no mundo
Parar o tempo à minha vontade
Pintava teu coração com as cores da felicidade
Em cada gesto teu
Está teu coração no meu

Mãe canta com vaidade
Porque já tenho idade
Pra saber
Que em verdade em cada verso teu
Mãe…
A nossa espera valeu

Letra: Martim Nunes Ferreira
Música: Miguel Correia
Intérprete: Mariza

Meu Amor Eterno

Meu Amor Eterno,
Doce verde olhar,
Ilumina o meu caminho!
Acompanha o meu andar!

Meu Amor Eterno,
Mãos de acarinhar,
Segura no teu menino!
Ajuda-me a continuar!

Meu Amor Eterno,
Fada do meu lar,
Alimenta-me a saudade!
Sacia o meu paladar!

Meu Amor Eterno,
Cordão de umbilicar,
Relembra-me do teu cheiro!
Não me deixes de cantar!

Ema te fez,
Deus te criou,
Paulo te abriu,
José completou.

“Morrer por morrer!”,
Disseste-o assim;
Da tua coragem
Tiveste-me a mim.

Meu Amor Eterno,
Cordão de umbilicar,
Relembra-me do teu cheiro!
Não me deixes de cantar!

Letra: Rogério Charraz (dedicada à sua Mãe)
Música: Rogério Charraz e Júlio Resende
Arranjo: Júlio Resende
Intérprete: Rogério Charraz (in CD “Não Tenhas Medo do Escuro”, Rogério Charraz/Compact Records, 2016)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Mãe, tu foste ventre

Mãe, tu foste ventre
para me criar
e agora és casa
para me abrigar.

Mãe, tu foste canto
para me embalar
e agora és conto
para me ensinar.

Mãe, tu foste ninho
para eu começar
e vais ser a asa
para eu voar.

António José Ferreira

(Canção para crianças)

Querida mãe, querido pai

[ Postal dos Correios ]

Querida mãe, querido pai. Então que tal?
Nós andamos do jeito que Deus quer
Entre dias que passam menos mal
Lá vem um que nos dá mais que fazer

Mas falemos de coisas bem melhores
A Laurinda faz vestidos por medida
O rapaz estuda nos computadores
Dizem que é um emprego com saída

Cá chegou direitinha a encomenda
Pelo “expresso” que parou na Piedade
Pão de trigo e linguiça prá merenda
Sempre dá para enganar a saudade

Espero que não demorem a mandar
Novidades na volta do correio
A ribeira corre bem ou vai secar?
Como estão as oliveiras de “candeio”?

Já não tenho mais assunto pra escrever
Cumprimentos ao nosso pessoal
Um abraço deste que tanto vos quer
Sou capaz de ir aí pelo Natal
Um abraço deste que tanto vos quer
Sou capaz de ir aí pelo Natal

Letra: João Monge
Música: João Gil
Intérprete: Rio Grande (in CD “Rio Grande”, EMI-VC, 1996)

Fátima Costa e Alexandre

Fátima Costa e o filho Alexandre

Queridos pais

[ Para crianças ]

Pai querido, tu és muito especial.
Estou bem quando tu ficas a meu lado.
Aproxima-se o dia de Natal…
Há um presente com que eu tenho sonhado.

Mãe querida que estás cheia de carinho,
vê lá bem o que me vais oferecer.
Tu já sabes que eu gosto de um beijinho
mas há prendas que eu adoro receber.

António José Ferreira, Brincadeiras Cantadas ]

Resguardaste-me da vida

[ Não É, Mãe? ]

Resguardaste-me da vida
E mesmo frágil e ferida
Tomaste conta de mim.
Levaste-me leite à cama,
Disseste que para quem ama
Nunca pode haver um fim.

São difíceis de queimar as coisas más.
As coisas boas são difíceis de encontrar.

Mãe… está tudo bem, mãe?

Quando a minha mãe dobrava meias
Estava sempre tudo bem.

Não é, mãe?

Letra: Duarte (Novembro de 2010)
Intérprete: Albano Jerónimo (in CD “Sem Dor Nem Piedade”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2015)

Algarve

Canções sobre o Algarve

Letras

A mula puxava o carrão

[ Esteiro Novo ]

A mula puxava o carrão
Com gente fina e perfumada
Vais a pé pela areia quente
Descalço, pois não vales nada

No copejo tens todo o valor
És homem com sabedoria
Capaz de enfrentar o mar
O mestre e sua tirania

Vai trabalhar! Vai trabalhar!
Vai trabalhar! Vai trabalhar!

Há cascas e cascabulho
Cuidado, não cortes os pés!
No copo começa o barulho
Outro peixe e atum de revés

Caminhas com o moço à cintura
Do arraial ao esteiro novo
A vida continua dura
A força da mulher do povo

A caminhar, a caminhar,
A caminhar, a caminhar.

Ao longe no cerro brincavam
Os moços e moças cantavam
Traziam morraça e sapeiras
Os remos com chamuceiras

Quem remava era o barqueiro
Tónhe Sousa na sua cadência
Cansado embarca toda a gente
Seja homem mulher ou criança

Salta p’ra terra! Salta p’ra terra!
Salta p’ra terra! Salta p’ra terra!

Carregavas o “João de Olhão”
Ferro de grande envergadura
“Maria Alice” e o “Pé Morto”
Eras homem de grande estatura

Um dia foste para Angola
Lá o clima era mais quente
Meteste o pé na argola
A vida negra a muita gente

Jiku lu mesu! Jiku lu mesu!
Jiku lu mesu! Jiku lu mesu!

Letra e música: José Francisco Vieira
Intérprete: Marenostrum (in CD “Rua do Peixe Frito”, Marenostrum/Alain Vachier Music Editions, 2019)

Os Marenostrum são uma banda do Algarve formada por Zé Francisco, guitarra, bandolim e voz; João Frade, acordeão; Lino Guerreiro, saxofones e flautas; Paulo Machado, baixo e acordeão; e João Vieira, bateria e percussões.

Notas:

  1. Morraça – erva que cresce nos sapais da Ria Formosa e que depois de seca servia para fazer estrume.
  2. Sapeira – espécie de erva nativa da Ria Formosa, também conhecida por salgueira.
  3. Chamuceira ou chumaceira – peça metálica que serve para diminuir o atrito de um eixo ou de um veio (no caso, de um remo). Nos antigos barcos de pesca era feita em corda.
  4. “Jiku lu mesu” é uma expressão em quimbundo (língua do Noroeste de Angola) que significa “abre os olhos”.
Marenostrum, Rua do Peixe Frito
Marenostrum, Rua do Peixe Frito

Ao raiar do dia

[ Corrido Algarvio ]

Ao raiar do dia
Sagres vê passar…
Até no Burgau
Viram navegar.

Vinham quatro barcos
Lá no meio do mar;
Foram para Lagos
Para atracar.

Saem para terra
De malas na mão;
Correm pela vila
Até Portimão.

Seguem o caminho,
Agora à boleia;
Muda-se o destino:
É para Albufeira!

Muda-se o destino:
É para Albufeira!

Faro é em frente,
Com sua magia
Da cidade velha
Sonham com a Ria.

Lá vai o comboio
Para sotavento:
Vai até Tavira
Que inda vai a tempo.

Passa por Cacela,
Por Castro Marim;
Chega ao Guadiana,
Eis que é o fim!

Chega ao Guadiana,
Eis que é o fim!

E lá vão de roda,
Seguem para trás,
Que o carro não pára
Antes de São Brás.

Agora sem carro
Vão os quatro a pé…
Bem devagarinho
Chegam a Loulé.

Montados num burro,
Pelos montes fora,
Vão os quatro a Silves:
Correm sem demora.

Vão os quatro a Silves:
Correm sem demora.

Vão até Monchique
Que é sempre a subir:
Só param na Fóia,
Já não voltam a vir.

Que os quatro poetas,
Deitados no chão,
Olham as estrelas,
Luz da criação.

Já passaram anos
E os quatro poetas
Ainda lá repousam:
São agora pedras.

Ainda lá repousam:
São agora pedras.

Letra e música: Carlos Norton
Intérprete: OrBlua (in Livro/CD “Retratos Cinéticos”, Fungo Azul/Ocarina, 2015)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Da serra veste perfumes

[ De Sol a Sul ]

Da serra veste perfumes,
do levante inquietações.
Do tempo lhe vêm famas
do mar as consolações.
Velha Romana, Tuaregue,
maruja, aventureira,
dos mares sabida e da vida
sabe tudo, de matreira.
Minha loira, meu azul
faz-te ao mar, despe esse manto
de nevoeiro e de sal,
desnuda-te do quebranto
de seres ponto de partir.
Navega com rumo a ti,
descobre-te em Portugal,
teu porto é de hoje e aqui.

Velhas profecias,
meu 29 de Agosto.
Meu queijo de figo,
sueste agreste,
sol posto.
Meu Infante
navegante.
Cheiro a sardinha
no rosto.

Cidade, eu te escuto
tu me acolhes,
tu me afagas.
Regaço de mãe,
doce carícia de algas.
Varanda de sol a sul.
Gente firme não se cala.

Que o sonho se faça
pouco a pouco,
passo a passo.
Que a tristeza afogue na largueza dum abraço.
Que a alegria canse
este cansaço.
É hoje que a gente
vai dizer como é que quer,
seja o bicho homem
ou o bicho seja mulher.
E que venha por bem
quem vier.

Letra e música: Afonso Dias
Intérprete: Afonso Dias / Trupe Barlaventina (in CD “Lendas do País do Sul “, Concertante, 1999; CD “Geometria do Sul”, Edere, 2002)

Era um rei

[ Fado das Amendoeiras ]

Era um rei
da terra que cheira a luar
da terra vermelha que tem a centelha
do cheiro do mar.

Terra amendoeira
terraço a sangrar
albufeira dos barcos que pescam
com a lamparina da luz a piscar.
Era um rei que vivia na terra
deitado no mar.

Era um rei
que foi da Moirama lutar
à terra da neve que tem o silêncio
que faz sufocar.

País da princesa
que no seu tear
inventava a lenda da renda
nos olhos de amêndoa do amor por chegar.
Da princesa bordando tristeza
na orla do mar.

É no sul que nos dói mais o sol
é ao sol que se vê o azul
Do Algarve que roda como um girassol.
VÁ DE BRAÇOS VÁ À PESCA!
NÃO QUEREMOS BRAÇO MOLE!
À aguardente chamamos um figo
à verdade chamamos Aleixo
que ainda é mais doce que um D. Rodrigo.
NÃO O MATAM QUE EU NÃO DEIXO!
O ALEIXO É MEU AMIGO!

É o povo
da maré que cheira a suor
e quer o rei queira ou não queira
resiste num mar que é maior.

O mar da traineira, mar do pescador
este mar amar desta maneira
que é a força primeira
do mar por amor
este mar que morre na esteira
de aquém e além dor.

É no sul que nos dói mais o sol
é ao sol que se vê o azul

Letra: Ary dos Santos
Música: Fernando Tordo
Intérprete: Carlos do Carmo (in “Um Homem no País”, Polygram, 1983)

Marcadinho, puladinho

[ Corridinho Aluljé ]

Marcadinho, puladinho, joelhos em terra, moças ao ar
Barracoleza, terra firme, muita beleza
Mais acima o barranco, uma eira e um palanco
Moita de Guerra, lava-pé, boca-de-peixe
Quarteira mais abaixo, a ribeira e o riacho
Cá em Loulé toda gente bate o pé
Bate palmas, bate o queixo e as quadras do Aleixo
Oh i oh ai! marcadinho vai e nã vai
Todos dançam, ninguém sai à moda da Ti Anica
Arrabanhita, todos saltam cabanita
Uns rodam, outros não, sarnadinha, morrião

Lá vai, lá vai, roda a moça, roda bem!
Saca-rabos e galinhas pé comprido ninguém tem
Nos Barrigões encontrei uma gineta
Anda tudo aos encontrões, anda tudo arraboleta
Arraboleta, linda saia roda preta
Mas que raio de meia branca! Califórnia e Casablanca
As voltas do corridinho mandado e puladinho
Vir’ó baile! Ah moços dum raio!

Ah mano Zeca!
Entra o fole!

Lá vai, lá vai, roda a moça, roda bem!
Oh i oh ai! pé comprido ninguém tem
Lá vai, lá vai, encontrei uma gineta
Oi oh ai! anda tudo arraboleta
Lá vai, lá vai, linda saia roda preta
Mas que raio de meia branca! Califórnia e Casablanca
As voltas do corridinho mandado e puladinho

Vir’ó baile!
Já está!

Notas:

  1. Barracoleza – lugar na Serra do Caldeirão, perto de Salir (onde está projectado um enorme complexo turístico com campo de golfe).
  2. Barranco – sulco feito no solo pelas enxurradas; barroca, ravina, precipício.
  3. Palanco – corda que se prende à vela, e que serve para a içar.
  4. Moita de Guerra – localidade da freguesia de Salir, concelho de Loulé.
  5. Lava-pé – planta arbustiva.
  6. Boca-de-peixe – planta.
  7. Arrabanhita – jogo de crianças em que se jogava uma guloseima e todas elas corriam para a apanhar.
  8. Cabanita – nome de uma escola básica do 2.º e 3.º ciclos, em Loulé, assim baptizada em homenagem ao Padre João Coelho Cabanita.
  9. Sarnadinha – planta herbácea, também conhecida por morrião.
  10. Morrião – planta herbácea, também conhecida por sarnadinha.
  11. Saca-rabo – mamífero carnívoro da família dos Vivérridas, de cauda muito longa, também conhecido por mangusto ou manguço.
  12. Barrigões – localidade da freguesia de Salir, concelho de Loulé.
  13. Gineta – mamífero carnívoro da família dos Vivérridas, com pelagem cinzento-clara muito manchada de negro, também conhecido por gineto, gato-bravo ou martaranho.
  14. Arraboleta – brincadeira de crianças em que elas rebolam/giram sob si mesmas.
  15. Califórnia – localidade da freguesia de Salir, concelho de Loulé.
  16. Casablanca – cidade de Marrocos, considerada a capital económica do país. Também o nome de um lugar do concelho de Loulé.

Letra: José Francisco Vieira
Música: João Frade, Paulo Machado, José Francisco Vieira, João Vieira, Paulo Jorge Temeroso
Intérprete: Marenostrum (in CD “Rua do Peixe Frito”, Marenostrum/Alain Vachier Music Editions, 2019)

Mercado de Loulé
Mercado de Loulé

Na rua do peixe frito

[ Rua do Peixe Frito ]

Na rua do peixe frito
Havia lá boa gente
Na esquina o Ti Gaspar
E o terramoto de Agadir
Havia uma porta aberta
E um prato de milho quente
Havia lá boa gente

Havia poesia e mais
Na maneira como viviam
Um acordeão encarnado
Caiu ao mar embriagado
Pescadores, guardas-fiscais
E paixão à luz do dia
Na maneira como viviam

Uma bacia com brasas
Ao ar livre a fumejar
Uma pelengana e azeite
Com peixe fresco a fritar
Corria nua Mila Coelha
Pela rua a cantararolar
Ao ar livre a fumejar

Na rua do peixe frito
Havia lá boa gente
A cara chapada do pai
Zé Manel Jesus Sacramento
Havia lá boa gente

Na rua do peixe frito
Folia madrugada adentro
Sardinhas e pão quente
Gorgulho, petisco a monte
Na casa da Tia Leonarda
Charro alimado era o sustento
Até madrugada adentro

Um candeeirinho de arame
Que iluminava a noite inteira
Um garrafão franquinhal
À porta aberta de um quintal
Uma moça linda a sorrir
Passava por lá sorrateira
Iluminava a noite inteira

Na rua do peixe frito
Havia lá boa gente
A cara chapada do pai
Zé Manel Jesus Sacramento
Havia lá boa gente

Na rua do peixe frito
Havia lá boa gente
A cara chapada do pai
Zé Manel Jesus Sacramento
Havia lá boa gente

Letra e música: José Francisco Vieira
Intérprete: Marenostrum (in CD “Rua do Peixe Frito”, Marenostrum/Alain Vachier Music Editions, 2019)

Notas:

  1. Agadir – cidade do Sudoeste de Marrocos (na costa atlântica) que, a 29 de Fevereiro de 1960, foi abalada por um sismo violento (de magnitude 5,7 na escala de Richter) que a deixou bastante destruída e causou cerca de 20 mil mortos (metade da população).
  2. Pelengana ou palangana – recipiente largo e pouco fundo, de barro ou metal, usado para servir assados ou fritos.
  3. Charro – chicharro.
  4. Franquinhal – nome do vinho feito em Santa Luzia, Tavira, até aos anos 70, por uma família de galegos fugidos da Guerra Civil Espanhola.
Marenostrum, Rua do Peixe Frito
Marenostrum, Rua do Peixe Frito

Aldeia da Meia-Praia

[ Os índios da Meia-Praia ]

Aldeia da Meia-Praia
Ali mesmo ao pé de Lagos
Vou fazer-te uma cantiga
Da melhor que sei e faço

De Monte-Gordo vieram
Alguns por seu próprio pé
Um chegou de bicicleta
Outro foi de marcha a ré

Houve até quem estendesse
A mão a mãe caridade
Para comprar um bilhete
De paragem para a cidade

Oh mar que tanto forcejas
Pescador de peixe ingrato
Trabalhaste noite e dia
Para ganhares um pataco

Quando os teus olhos tropeçam
No voo duma gaivota
Em vez de peixe vê peças
De ouro caindo na lota

Quem aqui vier morar
Não traga mesa nem cama
Com sete palmos de terra
Se constrói uma cabana

Uma cabana de colmo
E viva a comunidade
Quando a gente está unida
Tudo se faz de vontade

Tudo se faz de vontade
Mas não chega a nossa voz
Só do mar tem o proveito
Quem se aproveita de nós

Tu trabalhas todo o ano
Na lota deixam-te mudo
Chupam-te até ao tutano
Chupam-te o couro cab’ludo

Quem dera que a gente tenha
De Agostinho a valentia
Para alimentar a sanha
De esganar a burguesia

Diz o amigo no aperto
Pouco ganho, muita léria
Hei-de fazer uma casa
Feita de pau e de pedra

Adeus disse a Monte-Gordo
(Nada o prende ao mal passado)
Mas nada o prende ao presente
Se só ele é o enganado

Foram “ficando ficando”
Quando um dia um cidadão
Não sei nem como nem quando
Veio à baila a habitação

Mas quem tem calos no rabo
E isto não é segredo –
É sempre desconfiado
Põe-se atrás do arvoredo

Oito mil horas contadas
Laboraram a preceito
Até que veio o primeiro
Documento autenticado

Veio um cheque pelo correio
E alguns pedreiros amigos
Disse o pescador consigo
Só quem trabalha é honrado

Quem aqui vier morar
Não traga mesa nem cama
Com sete palmos de terra
Se constrói uma cabana

Eram mulheres e crianças
Cada um c’o seu tijolo
“Isto aqui era uma orquestra”
Quem diz o contrário é tolo

E toda a gente interessada
Colaborou a preceito
Vamos trabalhar a eito
Dizia a rapaziada

Não basta pregar um prego
Para ter um bairro novo
Só “unidos venceremos”
Reza um ditado do Povo

E se a má lingua não cessa
Eu daqui vivo não saia
Pois nada apaga a nobreza
Dos índios da Meia-Praia

Foi sempre a tua figura
Tubarão de mil aparas
Deixar tudo à dependura
Quando na presa reparas

Das eleições acabadas
Do resultado previsto
Saiu o que tendes visto
Muitas obras embargadas

Quem vê na praia o turista
Para jogar na roleta
Vestir a casaca preta
Do malfrão ** capitalista

Mas não por vontade própria
Porque a luta continua
Pois é dele a sua história
E o povo saiu à rua

Mandadores de alta finança
Fazem tudo andar pra trás
Dizem que o mundo só anda
Tendo à frente um capataz

E toca de papelada
No vaivém dos ministérios
Mas hão-de fugir aos berros
Inda a banda vai na estrada

Eram mulheres e crianças
Cada um c’o seu tijolo
“Isto aqui era uma orquestra”
Quem diz o contrário é tolo

* Texto e música: Zeca Afonso

Para o filme Índios da Meia Praia, realizado por Cunha Teles. A versão do disco não inclui todas as quadras.

** Palavra algarvia que significa dinheiro.

José Afonso, Os Índios da Meia-Praia
José Afonso, Os Índios da Meia-Praia

Praia da Rocha, guitarra

[ Fado de Portimão ]

Praia da Rocha, guitarra
Doirada que o mar dedilha
Ferragudo e a maravilha
Do castelo junto à barra

Mas quer chova ou faça sol
Quer o mar deixe ou não deixe
A cidade é um anzol

Portimão sonha com peixe
Como a foz do rio Arade
Como o cais de Portimão
Há-de haver tão lindos, há-de,
Mas mais lindos é que não.

Ah! Se o luar não vier
Às redes de Portimão
Luar de peixe a morrer
Antes do fim do Verão.

“Vá fome”
Diz Zé Fataça
Que outrora foi pescador
E é agora engraxador
Junto ao coreto da praça

Então a fome é verdade
E alguns vão buscar seu pão
A mil léguas do Arade
E do cais de Portimão.

Como a foz do rio Arade
Como o cais de Portimão
Há-de haver tão lindos, há-de,
Mas mais lindos é que não.

Letra: Leonel Neves
Música: António Vinagre
Intérprete: Grupo Coral de Portimão (in CD “Algarve”, Tradisom, 200?)

Procuro o sul

[ Fado Corridinho ]

Procuro o sul que me aqueça
A voz que canta esta terra
De seu clima abençoado
Que dá calor ao meu fado
E cheirinho a mar e serra

Descubro de costa a costa
Praias onde o mar descansa
Nas areias com memórias
Falésias que são histórias
De partidas, de esperança

O fado corridinho é um bailinho
Que alegra a gente
Sete passos para a frente
Mais três de cada lado do caminho
O fado corridinho é um cantar,
Um desafio algarvio, vai de roda sem parar

No ciclo de cada ano
A terra é fértil e espera
Amendoeiras em flor
Um pomar cheio de cor
Prenúncio de primavera

Nesta viagem a sul
Dou por mim em rodopio
Entro num baile mandado
Que alegra o meu fado
Com um abraço algarvio

O fado corridinho é um bailinho
Que alegra a gente
Sete passos para a frente
Mais três de cada lado do caminho
O fado corridinho é um cantar,
Um desafio algarvio, vai de roda sem parar

O fado corridinho é um bailinho
Que alegra a gente
Sete passos para a frente
Mais três de cada lado do caminho
O fado corridinho é um cantar,
Um desafio algarvio, vai de roda sem parar

Ah moço dum raio!

Letra: Jorge Mangorrinha
Música: José Francisco Vieira, Paulo Machado, João Vieira, João Frade, Paulo Jorge Temeroso
Intérprete: Marenostrum (in CD “Rua do Peixe Frito”, Marenostrum/Alain Vachier Music Editions, 2019)

Vai com trote certo

[ Carrinha Antiga ]

Vai com trote certo
Esse cavalinho
Todo empenachado
E o boleeiro esperto
Faz do seu caminho
Seu baile mandado.

Lá vai a carrinha
A carrinha antiga
Com seu toldo armado.
Uma sombra amiga
A sombra fresquinha
Sob um sol doirado

Leva os estrangeiros
Muito prazenteiros
Que vão passear.
Ver a Rocha e o mar
Mar das caravelas
Que inda é mar das velas.

E a carrinha lesta
Do Algarve florido
É folha que resta
De um romance lido
De um conto feliz
De Júlio Dinis.

Letra: José Galvão Balsa
Música: António Vinagre
Intérprete: Grupo Coral de Portimão* (in CD “Algarve”, Tradisom, 200?)

Joana Amendoeira

Canções sobre Lisboa

Letras

A minha velha casa

[ Fado do Campo Grande ]

A minha velha casa,
por mais que eu sofra e ande,
é sempre um golpe de asa
varrendo um Campo Grande.

Aqui no meu País,
por mais que a minha ausência doa,
é que eu sei que a raiz
de mim está em Lisboa.

A minha velha casa
resiste no meu corpo
e arde como brasa
dum corpo nunca morto.

A minha velha casa
é o regresso à procura
das origens da ternura,
onde o meu ser perdura.

Amiga amante,
amor distante.
Lisboa é perto,
e não bastante.
Amor calado,
amor avante,
que faz do tempo
apenas um instante.
Amor dorido,
amor magoado
e que me dói no fado.
Amor magoado,
amor sentido,
mas jamais cansado.
Amor vivido,
meu amor amado.

Um braço é a tristeza,
o outro é a saudade,
e as minhas mãos abertas
são chão da liberdade.

A casa a que eu pertenço,
viagem para a minha infância,
é o espaço em que eu venço
e o tempo da distância.

E volto à velha casa,
porque a esperança resiste
a tudo quanto arrasa
um homem que for triste.

Lisboa não se cala,
e quando fala é minha chama,
meu Castelo e minha Alfama,
minha Pátria, minha cama.

Amiga amante,
amor distante.
Lisboa é perto,
e não bastante.
Amor calado,
amor avante,
que faz do tempo
apenas um instante.
Amor dorido,
amor magoado
e que me dói no fado.
Amor magoado,
amor sentido,
mas jamais cansado.
Amor vivido,
meu amor amado.

Ai! Lisboa, como eu quero!
É por ti que eu desespero!

Letra: José Carlos Ary dos Santos
Música: António Victorino d’Almeida
Intérprete: Camané (in CD “Novo Homem na Cidade”, Universal, 2004)
Versão original: Carlos do Carmo (in “Um Homem na Cidade”, Trova, 1977; reed. UPAV, 1991; Philips/Polygram, 1995)

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Ainda Lisboa

[ Marcha da Madragoa 1980 ]

Ainda Lisboa
Sonha e dorme a sono solto
E o luar passeia envolto
No seu manto de mil estrelas,
A Madragoa
Já toda ela se agita,
Airosa fresca e bonita,
Num bailado de chinelas.

Ainda o galo
Não cantou o seu bom dia,
Já o meu bairro à porfia
Trabalha de que maneira;
É um regalo
Ver cortejos de varinas
Descendo a Rua das Trinas
A caminho da Ribeira.

Madragoa,
Chinela no pé,
Jeito de maré
P’ra cá e p’ra lá;
Madragoa,
Canastra à cabeça,
Ligeira na pressa
Que a vida lhe dá.

Madragoa,
Festiva gaivota
Que grita na lota,
Que canta e apregoa;
Madragoa,
Salgada e ladina,
Vistosa varina,
Cartaz de Lisboa.

A Madragoa
Que canta desde menina
Cantigas que o mar lhe ensina,
Com o mar dança também;
Doa a quem doa,
É dos bairros a rainha
E a coisa mais alfacinha
De quantas Lisboa tem.

E se abençoa
A fé dos seus monumentos,
Pois igrejas e conventos
Dão-lhe fé e caridade;
À Madragoa
Não falta desde criança
Toda a virtude da Esperança,
Que é a Esperança da cidade.

Madragoa,
Chinela no pé,
Jeito de maré
P’ra cá e p’ra lá;
Madragoa,
Canastra à cabeça,
Ligeira na pressa
Que a vida lhe dá.

Madragoa,
Festiva gaivota
Que grita na lota,
Que canta e apregoa;
Madragoa,
Salgada e ladina,
Vistosa varina,
Cartaz de Lisboa.

Madragoa,
Festiva gaivota
Que grita na lota,
Que canta e apregoa;
Madragoa,
Salgada e ladina,
Vistosa varina,
Cartaz de Lisboa.

Letra: Jorge Rosa
Música: José Fontes Rocha
Intérprete: Joana Amendoeira (in CD “Amor Mais Perfeito: Tributo a José Fontes Rocha”, CNM, 2012)
Versão original: Maria da Fé (in single “Marcha da Madragoa 1980 / Acerta Comigo”, Valentim de Carvalho/EMI, 1980; CD “Até Que a Voz me Doa” (compilação), col. Caravela, EMI-VC, 1991; CD “O Melhor de Maria da Fé”, Edições Valentim de Carvalho/iPlay, 2008; CD “Maria da Fé: Essencial”, Edições Valentim de Carvalho/CNM, 2014)

Joana Amendoeira

fadista Joana Amendoeira

Ando

[ Santa Apolónia ]

Ando
de vez em quando
Procurando o que há para achar
Se acho,
não me acho capaz para me encontrar
E parto,
de vontade em vontade, com vontade de andar
Que a cidade onde vivo
Me faz vontade… voltar.
E ando
Vagueando
Chateado, um pouco zangado
Ando à toa,
… apanho o comboio, vou daqui para Lisboa.

Ando
Vagueando
Chateado, um pouco zangado
Ando à toa,
… apanho o comboio, vou daqui para Lisboa.

Ando
Vagueando
Chateado, um pouco zangado
Ando à toa,
… apanho o comboio, vou daqui para Lisboa.

Ando
Vagueando
Chateado, um pouco zangado
Ando à toa,
… apanho o comboio, vou daqui para Lisboa.

Vadiando
Chateado, um pouco zangado
Ando à toa,
… apanho o comboio, vou daqui para Lisboa.

Letra e música: Jorge Rivotti
Intérprete: Jorge Rivotti
Versão original: Jorge Rivotti (in CD “Lisboa a Sete”, Alain Vachier Music Editions, 2016)

Reciclanda

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Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

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Azulejos da cidade

[ Fado dos Azulejos ]

Azulejos da cidade,
numa parede ou num banco,
são ladrilhas da saudade
vestida de azul e branco.

Bocados da minha vida,
todos vidrados de mágoa,
azulejos, despedida
dos meus olhos rasos de água.

À flor dum azulejo, uma menina;
do outro, um cão que ladra e um pastor.
Ai! Moldura pequenina,
que és a banda desenhada
nas paredes do amor.

Azulejos desbotados
por quanto viram chorar.
Azulejos tão cansados
por quantos viram passar.

Podem dizer-vos que não,
podem querer-vos maltratar:
de dentro do coração
ninguém vos pode arrancar.

À flor dum azulejo, um passarinho,
um cravo e um cavalo de brincar;
um coração com um espinho,
uma flor de azevinho
e uma cor azul luar.

À flor do azulejo, a cor do Tejo
e um barco antigo, ainda por largar.
Distância que já não vejo,
e enche Lisboa de infância,
e enche Lisboa de mar.

Distância que já não vejo,
e enche Lisboa de infância,
e enche Lisboa de mar.

Letra: José Carlos Ary dos Santos
Música: Martinho d’Assunção
Intérprete: Carlos do Carmo (in “Um Homem na Cidade”, Trova, 1977; reed. UPAV, 1991; Philips/Polygram, 1995)

Caminho ao Largo

[ Ao Largo ]

Caminho ao Largo,
no bolso a moeda,
do troco do gelado na esquina.
Saboreio-te na gente que vem e que passa…
de outros lados
De sorrisos sem rotina…
Pego na moeda, devolvida no troco,
não dá p’ra viajar-te, é pouco.
Levo-te mesmo assim
de moeda no bolso,
p’la nuvem que nos diz.
Mostrem de Vós a Paris!
Mostrem de Vós a Paris!
Sabes? Sabes?
Gostava de levar-te a Paris,
mas…
agora não posso mostrar-te mais…
que o Largo Martim Moniz!

Sabes? Sabes?
Gostava de levar-te a Paris,
mas…
agora não posso mostrar-te mais…
que o Largo Martim Moniz!

Volto à moeda, devolvida no troco,
não dá p’ra viajar-te, é pouco.
Levo-te mesmo assim
de moeda no bolso,
p’la nuvem que nos diz:
Mostrem de Vós a Paris!
Mostrem de Vós a Paris!
Sabes? Sabes?
Gostava de levar-te a Paris,
mas…
agora não posso mostrar-te mais…
que o Largo Martim Moniz!

Sabes? Sabes?
Gostava de levar-te a Paris,
mas…
agora não posso mostrar-te mais…
que o Largo Martim Moniz!

Sabes? Sabes?
Gostava de levar-te a Paris,
mas…
agora não posso mostrar-te mais…
que o Largo Martim Moniz!

Letra e música: Jorge Rivotti
Intérprete: Jorge Rivotti
Versão original: Jorge Rivotti (in CD “Lisboa a Sete”, Alain Vachier Music Editions, 2016)

Cansados vão os corpos

[ Lisboa que amanhece ]

Intérprete: Carlos do Carmo

Como a água da nascente

[ Transparente ]

Como a água da nascente
Minha mão é transparente
Aos olhos da minha avó.

Entre a terra e o divino
Minha avó negra sabia
Essas coisas do destino.

Desagua o mar que vejo
Nos rios desse desejo
De quem nasceu para cantar.

Um Zambeze feito Tejo
De tão cantado qu’invejo
Lisboa, por lá morar.

Vejo um cabelo entrançado
E o canto morno do fado
Num xaile de caracóis.

Como num conto de fadas
Os batuques são guitarras
E os coqueiros, girassóis.

Minha avó negra sabia
Ler as coisas do destino
Na palma de cada olhar.

Queira a vida ou que não queira
Disse Deus à feiticeira
Que nasci para cantar.

Letra: Paulo Abreu Lima
Música: Rui Veloso
Intérprete: Mariza (in CD “Transparente”, EMI-VC, 2005)

Cortesã das minhas noites

[ É Lisboa a namorar ]

Intérprete: Cuca Roseta

Da janela do meu quarto

Da janela do meu quarto vejo a luz no quarto dela
Quando a lua vem brincar nos telhados da viela
Vejo o sol de madrugada a beijar sete colinas
Quando se espraia no cais para espreitar as varinas

Da janela do meu quarto vejo o mundo
Tenho um mundo de poesia para ver
Vejo Alfama que labuta com ardor
A sorrir e a cantar
Vejo o Tejo a espreguiçar-se lá no fundo
Vejo a ronda, ela passa a correr
Vejo a Sé onde à tardinha com fervor
Ela vai sempre rezar

Vejo pares de namorados, almas cheias de ilusões
Toda a magia de um fado e a alegria dos pregões
E à noitinha quando as sombras vestem de luto a viela
Da janela do meu quarto vejo a luz no quarto dela

Da janela do meu quarto vejo o mundo
Tenho um mundo de poesia para ver
Vejo Alfama que labuta com ardor
A sorrir e a cantar
Vejo o Tejo a espreguiçar-se lá no fundo
Vejo a ronda, ela passa a correr
Vejo a Sé onde à tardinha com fervor
Ela vai sempre rezar

Vejo o Tejo a espreguiçar-se lá no fundo
Vejo a ronda, ela passa a correr
Vejo a Sé onde à tardinha com fervor
Ela vai sempre rezar

Letra: António Vilar da Costa
Música: Nóbrega e Sousa
Intérprete: Tristão da Silva (1958) (in CD “O Melhor de Tristão da Silva”, EMI-VC, 1991)

De decote no bolso

De decote no bolso
Fiz-me de vestido na mão
Perdi-me até na ilusão
Deste vestido-canção
Mas quero entrar na marcha à frente
Que seja de chita vestida
Quero assim vestir-me contente
Até que reste esta vida
E o vestido de chita
Me excita na avenida
A vontade de te abraçar
de te levar
Da Liberdade ao mar!

De decote no bolso
Fiz-me de vestido na mão
Perdi-me até na ilusão
Deste vestido-canção
Mas quero entrar na marcha à frente
Que seja de chita vestida
Quero assim vestir-me contente
Até que reste esta vida
E o vestido de chita
Me excita na avenida
A vontade de te abraçar
de te levar
Da Liberdade ao mar!

E o vestido de chita
Me excita na avenida
A vontade de te abraçar
de te levar
Da Liberdade ao mar!

E o vestido de chita
Me excita na avenida
A vontade de te abraçar
de te levar
Da Liberdade ao mar!

E o vestido de chita
Me excita na avenida
A vontade de te abraçar
de te levar
Da Liberdade ao mar!

Letra e música: Jorge Rivotti
Intérprete: Jorge Rivotti
Versão original: Jorge Rivotti (in CD “Lisboa a Sete”, Alain Vachier Music Editions, 2016)

De manhãzinha, voltou a Rosa

[ Nova Rosa da Mouraria ]

De manhãzinha, voltou a Rosa sem dizer nada;
Vinha sozinha e mais formosa, bem apressada;
Parou na Rua do Capelão, onde esperava
O tal rapaz que há muitos anos a namorava.

Ai quem diria
Que um dia a Rosa da Mouraria
Voltava àquela casa,
No Largo da Severa.

Ai quem diria
Que a Rosa da Mouraria
Tinha a vida bem guardada
P’ra voltar a ser quem era.

Viu sardinheiras e margaridas numa janela,
Namoradeiras entristecidas à espera dela;
Agora a casa tem o encanto que tinha outrora,
Até a Rosa já prometeu não ir embora.

Ai quem diria
Que um dia a Rosa da Mouraria
Voltava àquela casa,
No Largo da Severa.

Ai quem diria
Que a Rosa da Mouraria
Tinha a vida bem guardada
P’ra voltar a ser quem era.

Ai quem diria
Que um dia a Rosa da Mouraria
Voltava àquela casa,
No Largo da Severa.

Ai quem diria
Que a Rosa da Mouraria
Tinha a vida bem guardada
P’ra voltar a ser quem era.

Ai quem diria
Que a Rosa da Mouraria
Tinha a vida bem guardada
P’ra voltar a ser quem era.

Letra e música: Marco Oliveira
Intérprete: Tânia Oleiro
Versão original: Tânia Oleiro (in CD “Terços de Fado”, Museu do Fado Discos, 2016)

És um moinho de vento

[ Lisboa ]

És um moinho de vento
com sete colinas
p’ra ver o Tejo
e as andorinhas.
És Lisboa sem tempo.

Tens uma História que encanta,
e essa cor tão branca
que dá luz ao fado
e sobra em todo o lado.
O Tejo iluminado.

Lisboa és minha!
Lisboa do mundo,
como vela erguida
num sonho profundo,
és cidade branca
e trazes luz ao mundo.

Lisboa és minha!
Lisboa do mundo…

Lisboa és minha!
Lisboa do mundo…
Lisboa és minha!
Lisboa do mundo…
Lisboa…

Letra: José Barros
Música: Mimmo Epifani
Intérpretes: José Barros & Mimmo Epifani*
Versão original: José Barros & Mimmo Epifani (in CD “Mar da Lua”, José Barros/Tradisom, 2015)

Esse romance amoroso

[ O Casamento da Rita ]

Esse romance amoroso
Do mercado da Ribeira
Teve um final milagroso;
E, afinal, de que maneira!

Um romance igual a tantos,
Esse da Rita e do Chico:
Lá na Igreja de Santos
Foi-se os encantos do namorico.

Muito juntinhos sob o altar,
Entre os padrinhos foram casar;
Após a boda, a Rita e o Chico
Foram na roda do bailarico.

Desde a sagrada união
A mãe dela já nem ralha,
Nem sequer faz discussão
Por dá cá aquela palha.

Com sua graça expedita
Disse ao Chico pescador:
«Se não me dás outra Rita,
Vai haver fita seja onde for.»

E hoje uma Rita mais pequenina
Toda se agita linda e traquina:
Lembra a sardinha viva a saltar,
Outro romance para contar.

Muito juntinhos sob o altar,
Entre os padrinhos foram casar;
Após a boda, a Rita e o Chico
Foram na roda do bailarico.

E hoje uma Rita mais pequenina
Toda se agita linda e traquina:
Lembra a sardinha viva a saltar,
Outro romance para contar.

Letra e música: Júlio Vieitas
Intérprete: Tânia Oleiro*
Primeira versão discográfica de Tânia Oleiro (in CD “Terços de Fado”, Museu do Fado Discos, 2016)
Versão original: Fernanda Maria (in EP “Isto É Fado” A Voz do Dono/VC, 1960; CD “O Melhor de Fernanda Maria”, EMI-VC, 1994; CD “O Melhor de Fernanda Maria”, Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2009; CD “Fernanda Maria: Essencial”, Edições Valentim de Carvalho, 2014)

Eu canto para ti

[ Canção com Lágrimas ]

Eu canto para ti um mês de giestas
um mês de morte e crescimento ó meu amigo
como um cristal partindo-se plangente
no fundo da memória perturbada.

Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
e um coração poisado sobre a tua ausência
eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
em que os mortos amados batem à porta do poema.

Porque tu me disseste: quem me dera em Lisboa
quem me dera em Maio. Depois morreste
Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro.

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
teu nome escrito com ternura sobre as águas
e o teu retrato em cada rua onde não passas
trazendo no sorriso a flor do mês de Maio.

Porque tu me disseste: quem me dera em Maio
porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol. Lisboa com lágrimas
Lisboa à tua espera ó meu irmão tão breve.

Eu canto para ti Lisboa à tua espera…

Poema: Manuel Alegre (adaptado de “Canção com Lágrimas e Sol”, in Praça da Canção , 1965)
Música e voz: Adriano Correia de Oliveira (in “Cantaremos”, Orfeu, 1970, reed. Movieplay, 1999; “Obra Completa”, Movieplay, 1994; CD “Vinte Anos de Canções”, Movieplay, 2001)

É varina, usa chinela

[ Maria Lisboa ]

É varina, usa chinela,
tem movimentos de gata;
Na canastra, a caravela,
no coração, a fragata.
Na canastra, a caravela,
no coração, a fragata.

Em vez de corvos, no xaile
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile,
baila no baile com o mar.
Quando o vento a leva ao baile,
baila no baile com o mar.

É de conchas o vestido,
tem algas na cabeleira;
E nas veias o latido
do motor duma traineira.
E nas veias o latido
do motor duma traineira.

Vende sonho e maresia,
tempestades apregoa.
Seu nome próprio: Maria;
seu apelido: Lisboa.
Seu nome próprio: Maria;
seu apelido: Lisboa.

Letra: David Mourão-Ferreira
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues (in “Amália Rodrigues (Busto)”, Valentim de Carvalho, 1962, reed. EMI-VC, 1989; in “Com Que Voz”, Valentim de Carvalho, 1970, reed. EMI-VC, 1987; CD “O Melhor de Amália – Estranha Forma de Vida”, EMI-VC, 1985, reed. 1995)
Outra versão: Mariza (in CD “Fado em Mim”, World Connection B.V., 2001; CD/DVD “Concerto em Lisboa”, Capitol, 2006)

Esta noite há uma festa

[ Curral da Mouraria ]

Esta noite há uma festa
No curral da Mouraria
Esta noite há uma festa
Vai durar até ser dia

Vem daí, vamos cantar
Vamos todos celebrar
Que ainda não foi desta
Vem daí, vamos brindar
Toda a noite sem parar
Vamos dançar até cair

A dança, segredo
Do sexto sentido
Que a dança do medo
Foi tempo perdido

Esta noite canto o fado
No curral da Mouraria
Entre o Beco do Malvado
E o Pátio da Alegria

Vamos todos festejar
A vontade de sonhar
Já que pouco mais nos resta
Quantas mágoas por cantar
Quantas penas por chorar
Por isso dança até cair

A dança, segredo
Do sexto sentido
Que a dança do medo
Foi tempo perdido

Esta noite há uma festa
No curral da Mouraria

Vamos todos festejar
A vontade de sonhar
Já que pouco mais nos resta
Quantas mágoas por cantar
Quantas penas por chorar
Por isso dança até cair

A dança, segredo
Do sexto sentido
Que a dança do medo
Foi tempo perdido

Esta noite há uma festa
Há-de ser até ser dia

Letra: J.J. Galvão (José João Oliveira Galvão)
Música: Rui Filipe Reis
Intérprete: Rosa Negra (in CD “Fado Mutante”, iPlay, 2011)

Foi na Travessa da Palha

Foi na Travessa da Palha
Que o meu amante, um canalha,
Fez sangrar meu coração:
Trazendo ao lado outra amante
Vinha a gingar petulante
Em ar de provocação.
Trazendo ao lado outra amante
Vinha a gingar petulante
Em ar de provocação.

Na taberna de friagem
Entre muita fadistagem
Enfrentei-os sem rancor,
Porque a mulher que trazia
Com certeza não valia
Nem sombra do meu amor.
Porque a mulher que trazia
Com certeza não valia
Nem sombra do meu amor.

A ver quem tinha mais brio
Cantámos ao desafio
Eu e essa outra qualquer.
Deixei-a perder de vista
Mostrando ser mais fadista
Provando ser mais mulher.
Deixei-a perder de vista
Mostrando ser mais fadista
Provando ser mais mulher.

Foi uma cena vivida
De muitas da minha vida
Que se não esquecem depois,
Só sei que de madrugada
Após a cena acabada
Voltámos para casa os dois.
Só sei que de madrugada
Após a cena acabada
Voltámos para casa os dois.

Letra: Gabriel de Oliveira
Música: Frederico de Brito
Intérprete: Lila Downs (in CD “Fados”, EMI, 2007)
Versão original: Lucília do Carmo (1958) (in CD “Lucília do Carmo: Biografias do Fado”, EMI-VC, 1998)

Fugiu a Baixa

Fugiu a Baixa,
de brinco de pérola ao Chiado
Passou de passeio,
de risco de alfaiate ao Combro
Subiu de navio
ao Poço dos Negros pontos,
Dos sinais, no seu olhar.

Degrau em degrau,
Do bairro da Bica ao café ao alto
À proa… num alto,
no salto ao Bairro Alto.
À proa… num alto,
afundaste… do “Titanic”
… de Lisboa que há em ti.

Letra e música: Jorge Rivotti
Intérprete: Jorge Rivotti
Versão original: Jorge Rivotti (in CD “Lisboa a Sete”, Alain Vachier Music Editions, 2016)

Jorge Rivotti

Jorge Rivotti

Julguei que Lisboa era

[ Ao Semáforo um Navio ]

Julguei que Lisboa era
Cidade de ter os barcos no rio.
Mas… juro!
Ao semáforo estava um navio
Juro!… Sim.
Quase que até batia em mim
Vais mas é pensar que eu estou maluco
Olha que eu não estou a brincar
O gajo do táxi ia batendo
Tu não estás a ver-te acreditar

Vi um Navio Amarelo
Ali mesmo ao Cais Sodré.
Bem por baixo
Tinha umas rodas
Mais parecidas com…
botas sem pés.

Julguei que Lisboa era
Cidade de ter os barcos no rio.
Mas… juro!
Ao semáforo estava um navio
Juro!… Sim.
Quase que até batia em mim

Vi um Navio Amarelo
Ali mesmo ao Cais Sodré.
Bem por baixo
Tinha umas rodas
Mais parecidas com…
botas sem pés.

Vi um Navio Amarelo
Ali mesmo ao Cais Sodré.
Bem por baixo
Tinha umas rodas
Mais parecidas com…
botas sem pés.

Letra e música: Jorge Rivotti
Intérprete: Jorge Rivotti
Versão original: Jorge Rivotti (in CD “Lisboa a Sete”, Alain Vachier Music Editions, 2016)

Lisboa, gaiata

Lisboa, gaiata,
de chinela no pé,
Lisboa, travessa,
que linda que ela é!

Lisboa, bailarina,
que bailas a cantar,
sereia pequenina
que nos guarda pelo mar.

1. Lisboa, vem p’ra rua
que o Santo António é teu.
São Pedro deu-te a lua
e o mundo escureceu
Comprei-te um manjerico
e trago-te um balão.
Em casa é que eu não fico
ó meu rico São João.

2. Lisboa faz surgir,
ai, que milagre aquele!,
cantigas a florir
num cravo de papel.
Nos arcos enfeitados
poisaram as estrelas
e há anjos debruçados
nos telhados das vielas.

Intérprete: Amália Rodrigues

Lisboa, Lisboa

Lisboa, Lisboa
Tu és a passagem por mim
Lisboa, Lisboa
O teu nome ainda nem vi
Lisboa, Lisboa
Tu és a passagem por mim
Lisboa, Lisboa
Só me basta que seja assim

Ôh… ôh… ôh… ôh… ôh… ôh-ôh…
Ôh… ôh… ôh… ôh… ôh… ôh-ôh…

Ôh… ôh… ôh… ôh… ôh… ôh-ôh…
Ôh… ôh… ôh… ôh… ôh… ôh-ôh…

Letra e música: Jorge Rivotti
Intérprete: Jorge Rivotti
Versão original: Jorge Rivotti (in CD “Lisboa a Sete”, Alain Vachier Music Editions, 2016)

Jorge Rivotti

Jorge Rivotti

Lisboa, querida mãezinha

[ Recado a Lisboa ]

Lisboa, querida mãezinha
Com o teu xaile traçado
Recebe esta carta minha
Que te leva o meu recado

Que Deus te ajude, Lisboa
A cumprir esta mensagem
Dum português que está longe
E que anda sempre em viagem

Vai dizer adeus à Graça
Que é tão bela, que é tão boa
Vai por mim beijar a Estrela
E abraçar a Madragoa
E mesmo que esteja frio
E os barcos fiquem no rio
Parados sem navegar
Passa por mim no Rossio
E leva-lhe o meu olhar

Se for noite de S. João
Lá pelas ruas de Alfama
Acende o meu coração
No fogo da tua chama

Depois, depois leva-o pela cidade
Num vaso de manjerico
Para ele matar saudade
Desta saudade em que fico

Vai dizer adeus à Graça
Que é tão bela, que é tão boa
Vai por mim beijar a Estrela
E abraçar a Madragoa
E mesmo que esteja frio
E os barcos fiquem no rio
Parados sem navegar
Passa por mim no Rossio
E leva-lhe o meu olhar

Letra: João Villaret
Música: Armando da Câmara Rodrigues
Intérprete: João Villaret (in “Ontem e Hoje”, Ovação, 1989; CD “João Villaret: O Melhor dos Melhores”, vol. 9, Movieplay, 1994)

Mais um domingo em Lisboa

[ Rosas ]

Mais um domingo em Lisboa
E já não tens para onde ir;
A solidão não perdoa
Quem não consegue dormir.

Ninguém te fala na rua,
Ninguém conhece o teu nome;
De que te serve a procura
Se esta mesma te consome?

Secaram as rosas…
Secaram as rosas…
Matámos…
Matámos as rosas…

«Os dias trazem fantasmas
Dos dias todos iguais;
Quem anda sempre em viagem
Não quer ter coisas a mais.

Empenhei-me tanto, empenhei-me tanto, empenhei-me tanto…
Que às vezes inventei que me esquecias.
Cantei tanto
Que às vezes me pareceu que retribuías.

Mas não aplaudiste???
Eu vi que aplaudiste.

Viste em mim o doce escorpião,
O solitário príncipe da melancolia:
Belo demais para viver,
Frágil demais para morrer.

Se tudo o resto falhar,
Podes sempre dizer que te menti;
Só espero que estejas bem
E se assim for, que assim seja.»

Estás cada vez mais sozinho,
«Porventura deprimido;
Mesmo quem escolhe o caminho
Às vezes anda perdido.»

Secaram as rosas…
Secaram as rosas…
Matámos as rosas…
Morreram as rosas…

Secaram as rosas…
Matámos as rosas…
Morreram as rosas…

«Mas não aplaudiste???…
Eu vi que aplaudiste…»

Secaram as rosas…
Matámos as rosas, amor…
Vou sentir a tua falta…
Vou sentir a tua falta.

Letra: Duarte (Janeiro de 2011)
Música: Carlos Manuel Proença e Duarte
Intérprete: Duarte com Albano Jerónimo (in CD “Sem Dor Nem Piedade”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2015)

Meio-dia, maré cheia

Lisboa Abençoa

Letra: Joana Alegre
Música: Joana Alegre/Maria Ana Bobone
Intérprete: Maria Ana Bobone

Menina, em teu peito sinto o Tejo

[ Menina dos Olhos d’Água ]

Menina, em teu peito sinto o Tejo
E vontades marinheiras de aproar;
Menina, em teus lábios sinto fontes
De água doce que corre sem parar.

Menina, em teus olhos vejo espelhos
E em teus cabelos nuvens de encantar;
E em teu corpo inteiro sinto o feno
Rijo e tenro que nem sei explicar.

Se houver alguém que não goste,
Não gaste – deixe ficar…
Que eu só por mim quero-te tanto,
Que não vai haver menina p’ra sobrar!

Aprendi nos “Esteiros” com Soeiro
E aprendi na “Fanga” com Redol;
Tenho no rio grande um mundo inteiro
E sinto o mundo inteiro no teu colo.

Aprendi a amar a madrugada
Que desponta em mim quando sorris;
És um rio cheio de água levada
E dás rumo à fragata que escolhi.

Se houver alguém que não goste,
Não gaste – deixe ficar…
Que eu só por mim quero-te tanto,
Que não vai haver menina p’ra sobrar!

Se houver alguém que não goste,
Não gaste – deixe ficar…
Que eu só por mim quero-te tanto,
Que não vai haver menina p’ra sobrar!

Letra e música: Pedro Barroso
Intérprete: Pedro Barroso
Versão original: Pedro Barroso (in LP “Cantos da Borda d’Água”, Orfeu/Rádio Triunfo, 1984, reed. Movieplay, 2004; 2CD “Antologia 1982-1990”: CD 2, Movieplay, 2005)
Outras versões: Pedro Barroso (in CD “Cantos d’Oxalá”, CD Top, 1996)

Meninos de Momprolé

Meninos de Momprolé
Vindos de longe, São Tomé
Meninos de Momprolé
Meninos de Momprolé
De Cabo Verde ou Guiné
Meninos de Momprolé

Brincando na beira da estrada
Subindo uma rocha, descendo a ramada
Correndo p’ra quem lhes abraça
P’ra quem lhes dá vida, um mundo de esperança

Cresceram em Lisboa crioula
B. Leza, Jamaica, Santos, Cais do Sodré
Tito e a Casa da Morna
A melhor cachupa, semba, funaná

Meninos de Momprolé
Vindos de longe, São Tomé
Meninos de Momprolé
Meninos de Momprolé
De Cabo Verde ou Guiné
Meninos de Momprolé

Contando estórias em rimas
Ritmos, outras terras, sons Afro-América
Mornas, coladeiras, kinzombas
Ao fado o destino, saudade de Cesária

Cresceram em Lisboa crioula
B. Leza, Jamaica, Santos, Cais do Sodré
Tito e a Casa da Morna
A melhor cachupa, semba, funaná

Meninos de Momprolé
Vindos de longe, São Tomé
Meninos de Momprolé
Meninos de Momprolé
De Cabo Verde ou Guiné
Meninos de Momprolé

Lisboa, és a mais crioula…
Lisboa…
Lisboa, és a mais crioula…
Lisboa…

Letra e música: José Francisco Vieira
Intérprete: Marenostrum (in CD “Rua do Peixe Frito”, Marenostrum/Alain Vachier Music Editions, 2019)

Nota: Rocha de Momprolé é uma localidade do concelho de Loulé, junto à estrada (EN 270) que liga a sede do concelho a Boliqueime.

Mim ter ouvido o fada na Severa

[ Marinheiro Americano ]

Mim ter ouvido o fada na Severa
Cantada por Alfredo Marceneiro,
Mim não perceber nada do que era
E só ter apanhado bebedeira.
Alfredo ter cantado o bacalhau
E tudo ter na boca posto um rolha
Mas mim fazer barulha no cançau
E levar um camone, aqui no olha,

Ó fada, yes all-right!
Lady Maria Alice
Ter cantado
quatro fadas
chatice…
Ó fada, yes all-right!
Mister Cascais Manuel!
No guitarra, Armandinho, very well!
Mim gostar muito de ouvir guitarradas
E ouvir cantigas a desgraciadas…
Ó fada, yes all-right!
Mister Alberto Costa
No corrido, choradinho, mim gosta.

Lady Leonor Fialho ter cantado
Um cantiga no fado corridinho,
Toda a gente a chorar ficar magoado
Mas mim beber cerveja e beber vinho.
Mim chamar o criado por ter sede
E logo um fadista a dar chapada
Por não ter visto escrito na parede:
Silence, que se vai cantar o fada.

Ó fada, yes all-right!
Lady Maria Alice
Ter cantado
quatro fadas
chatice…
Ó fada, yes all-right!
Mister Cascais Manuel!
No guitarra, Armandinho, very well!
Mim gostar muito de ouvir guitarradas
E ouvir cantigas a desgraciadas…
Ó fada, yes all-right!
Mister Alberto Costa
No corrido, choradinho, mim gosta.

Letra: Amadeu do Vale
Música: Alfredo Duarte “Marceneiro”
Intérprete: Hermínia Silva (1966) (in CD “O Melhor de Hermínia Silva”, EMI-VC, 1990)

Mora num beco de Alfama

[ Madrugada de Alfama ]

Mora num beco de Alfama
e chamam-lhe a Madrugada,
e chamam-lhe a Madrugada;
mas ela, de tão estouvada,
não sabe como se chama
nem sabe como se chama.

Mora numa água-furtada
que é a mais alta de Alfama
a que o sol primeiro inflama
quando acorda a Madrugada,
quando acorda a Madrugada.
Mora numa água-furtada
que é a mais alta de Alfama.

Nem mesmo na Madragoa
ninguém compete com ela,
ninguém compete com ela;
que do alto da janela
tão cedo beija Lisboa,
tão cedo beija Lisboa.

E a sua colcha amarela
faz inveja à Madragoa:
Madragoa não perdoa
que madruguem mais do que ela,
que madruguem mais do que ela.
E a sua colcha amarela
faz inveja à Madragoa.

Mora num beco de Alfama
e chamam-lhe a Madrugada,
e chamam-lhe a Madrugada;
são mastros de luz doirada
os ferros da sua cama,
os ferros da sua cama.

E a sua colcha amarela
a brilhar sobre Lisboa,
é como estatua de proa
que anuncia a caravela,
que anuncia a caravela;
a sua colcha amarela
a brilhar sobre Lisboa.

E a sua colcha amarela
a brilhar sobre Lisboa.

Letra: David Mourão-Ferreira
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues (in “Com Que Voz”, 1970, reed. EMI-VC, 1988; CD “O Melhor de Amália – Estranha Forma de Vida”, EMI-VC, 1985, reed. 1995)

Nasce o vento da manhã

[ Contigo por Lisboa ]

Nasce o vento da manhã,
Fim da tarde calmaria;
Nascem lábios de romã
Com ardor de meio-dia.

Fico tão dentro de mim
Se por ti em mim não estou;
Quem me dera ser assim
Se não fosse assim que sou!
Fico tão dentro de mim
Se por ti em mim não estou.

Madrugada pela proa,
Pelo mastro livre a vela;
As colinas de Lisboa
São do vento caravela.

Se não fosse ser assim
Como ser como quem sou?
Ficas tão dentro de mim
Que por ti eu sou quem sou!
Se não fosse ser assim
Como ser como quem sou?

Nasce o vento da manhã,
Fim da tarde calmaria;
Nascem lábios de romã
Com ardor de meio-dia.

Se não fosse ser assim
Como ser como quem sou?

Letra: João Gigante-Ferreira
Música: André Teixeira
Intérprete: Helena Sarmento
Versão original: Helena Sarmento (in CD “Lonjura”, Helena Sarmento, 2018)

Não queiram mal a quem canta

[ Fado Lisboeta ]

Não queiram mal a quem canta
Quando uma garganta
Em ais se desgarra
E a mágoa já não é tanta
Se a confessar à guitarra
Quem canta sempre se ausenta
Da hora cinzenta
Da sua amargura
Não sente a cruz tão pesada
Na longa estrada
Da desventura

Eu só entendo o fado
Plangente, amargurado
À noite a soluçar baixinho
Que chega ao coração
Num tom magoado
Tão frio como as neves do caminho
Que chora uma saudade
Ou canta a ansiedade
De quem tem por amor chorado
Dirão que isto é fatal
É natural
Mas é lisboeta
Isto é que é o fado

Oiço guitarras vibrando
E vozes cantando
Na rua sombria
As luzes vão-se apagando
A anunciar que é já dia
Fecho em silêncio a janela
Já se ouvem na viela
Rumores de ternura
Surge a manhã fresca e calma
Só em minha alma
É noite escura

Eu só entendo o fado
Plangente, amargurado
À noite a soluçar baixinho
Que chega ao coração
Num tom magoado
Tão frio como as neves do caminho
Que chora uma saudade
Ou canta a ansiedade
De quem tem por amor chorado
Dirão que isto é fatal
É natural
Mas é lisboeta
Isto é que é o fado

Letra: Amadeu do Vale
Música: Carlos Dias
Intérprete: Amália Rodrigues (1957) (in CD “Fado Amália”, Movieplay, 1998)
Outras versões: Maria Ana Bobone (in CD “Meu Nome é Nome de Mar”, Farol, 2006); Raquel Tavares (in CD “Raquel Tavares”, Movieplay, 2006)

Nas ruas de Lisboa

[ Fado Insulano ]

Nas ruas de Lisboa
Meu fado insulano
Ondas do mar soberano
Num compasso de lonjura
Meu canto ainda ecoa
No cais das descobertas
Destas rotas tão incertas
Só meu fado ainda perdura
Ó saudade, sentimento, solidão
O meu fado vagabundo
Prisioneiro de um desejo
Ó saudade, sentimento, solidão
Ondas do mar tão profundo
Que querem beijar o Tejo
Sonhei que uma ganhoa
Cruzava o Bairro Alto
Deste inquieto sobressalto
Se fez a minha viagem
D’Alfama à Madragoa
Percorro a tua esteira
Vem canoa baleeira
Arpoar uma miragem
Ó saudade, sentimento, solidão
O meu fado vagabundo
Prisioneiro de um desejo
Ó saudade, sentimento, solidão
Ondas do mar tão profundo
Que querem beijar o Tejo

Nas vozes de veludo
Que a noite insinua
Vem rasgar doce falua
Meu amargo cancioneiro
Lisboa e Tejo e tudo
Quimera, desengano
Este meu canto profano
Há-de ser teu prisioneiro
Ó saudade, sentimento, solidão
O meu fado vagabundo
Prisioneiro de um desejo
Ó saudade, sentimento, solidão
Ondas do mar tão profundo
Que querem beijar o Tejo
Ó saudade, sentimento, solidão
O meu fado vagabundo
Prisioneiro de um desejo
Ó saudade, sentimento, solidão
Ondas do mar tão profundo
Que querem beijar o Tejo

Letra e música: José Medeiros (Ao Gil e à Teresa)
Arranjo: José Medeiros, com a colaboração de todos os músicos
Intérprete: José Medeiros com Rui Veloso (in Livro/2CD “Fados, Fantasmas e Folias”: CD 1, Algarpalcos, 2010)

Nasce o dia na cidade

[ Fado da Saudade ]

Nasce o dia na cidade
Que me encanta
Na minha velha Lisboa
De outra vida
E com o nó de saudade
Na garganta
Escuto um fado
Que se entoa à despedida

Foi nas tabernas de Alfama
Em hora triste
Que nasceu esta canção
O seu lamento
Na memória dos que vão

Letra: Fernando Pinto do Amaral
Música: Fado Menor
Intérprete: Carlos do Carmo (in CDs “Fados”, EMI, 2007; “À Noite”, TugaLand/Universal, 2007)

No castelo, ponho um cotovelo

[ Lisboa menina e moça ]

No castelo, ponho um cotovelo,
em Alfama, descanso o olhar
e assim desfaz-se o novelo
de azul e mar.
À Ribeira encosto a cabeça,
a almofada, na cama do Tejo
com lençóis bordados à pressa
na cambraia de um beijo.

Lisboa menina e moça, menina
na luz que meus olhos vêem tão pura.
Teus seios são as colinas, varina,
pregão que me traz à porta, ternura.
Cidade a ponto luz bordada,
toalha à beira mar estendida,
Lisboa menina e moça, amada,
c idade mulher da minha vida.

No Terreiro, eu passo por ti,
mas da Graça eu vejo-te nua.
Quando um pombo te olha, sorri,
És mulher da rua
e no Bairro mais Alto do sonho
ponho o fado que soube inventar,
aguardente de vida e medronho
que me faz cantar.

Lisboa menina e moça, menina
na luz que meus olhos vêem tão pura.
Teus seios são as colinas, varina,
pregão que me traz à porta ternura.
Cidade a ponto luz bordada,
toalha à beira mar estendida,
Lisboa menina e moça, amada,
cidade mulher da minha vida.

Letra: Ary dos Santos
Música: Paulo de Carvalho
Intérprete: Carlos do Carmo (in “Uma Canção Para a Europa”, 1976)

https://www.youtube.com/watch?v=cKVrc3htTPE

No centro da Avenida

[ Teresa Torga ]

No centro da Avenida,
No cruzamento da rua,
Às quatro em ponto, perdida
Dançava uma mulher nua.

A gente que via a cena
Correu para junto dela
No intuito de vesti-la,
Mas surge António Capela

Que aproveitando a barbuda
Só pensa em fotografá-la.
Mulher na democracia
Não é biombo de sala.

Dizem que se chama Teresa,
Seu nome é Teresa Torga;
Muda o ‘pick-up’ em Benfica
E atura a malta da borga.

Aluga quartos de casa
Mas já foi primeira estrela;
Agora é modelo à força,
Que o diga António Capela.

T’resa Torga, T’resa Torga
Vencida numa fornalha!
Não há bandeira sem luta,
Não há luta sem batalha!

T’resa Torga, T’resa Torga
Vencida numa fornalha!
Não há bandeira sem luta,
Não há luta sem batalha!

Letra e música: José Afonso
Arranjo: Paulo Loureiro e José Salgueiro
Intérprete: Ana Laíns (in CD “Portucalis”, Ana Laíns/Seven Muses, 2017)
Versão original: José Afonso (in LP “Com as Minhas Tamanquinhas”, Orfeu, 1976, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art’Orfeu Media, 2012)

José Afonso, Com as minhas tamanquinhas
José Afonso, Com as minhas tamanquinhas

No Chiado à tardinha

[ Leitaria Garrett ]

No Chiado à tardinha, às vezes,
Sorridentes vão de mão na mão,
Bons rapazes, são bons portugueses
Ai madame a sua indigestão

Ideal das empregaditas
A finória vai um figurino
Tão carcaça, veste muitas chitas
Diz olé! Pró Montefiorino

Leitaria Garrett dá cá o pé
Ai tira a mão, João,
Da coxa doce,
Já está, antes não fosse…
O Saricoté, foi parar à Marques
Lá prás Belas-Artes…

Assim mesmo á que é!
(Diz o progresso)
Chá com torradas, João,
P’ra onde é que eu vou,
Já fui, mas já não sou
Linda mocidade, foi-se o Sol embora,
Fica-me a Saudade…

Letra e música: Vitorino
Intérprete: Vitorino (in “Leitaria Garrett”, EMI-VC, 1984, reed. 1993)

Noutro tempo a fidalguia

[ Embuçado ]

Noutro tempo a fidalguia
Que deu brado nas toiradas
Andava p’la Mouraria
Onde muito falar se ouvia
Dos cantos e guitarradas

A história que eu vou contar
Contou-me certa velhinha
Certa vez que eu fui cantar
Ao salão de um titular
Lá para o paço da rainha

E nesses salão doirado
De ambiente nobre e sério
Para ouvir cantar o Fado
Ia sempre um Embuçado
Personagem de mistério.

Mas certa noite houve alguém
Que lhe disse, erguendo a fala:
– Embuçado, nota bem:
Que hoje não fique ninguém
Embuçado nesta sala!

Perante a admiração geral
Descobriu-se o Embuçado
Era El-Rei de Portugal
Houve beija-mão real
E depois cantou-se o Fado.

Letra e música: João Ferreira Rosa
Intérprete: João Ferreira Rosa (in CD “Biografia do Fado”, EMI-VC, 1994)

O Amarelo da Carris

O Amarelo da Carris
vai de Alfama à Mouraria,
quem diria!
Vai da Baixa ao Bairro Alto,
trepa à Graça em sobressalto,
sem saber geografia.

O Amarelo da Carris
já teve um avô outrora,
que era o “chora”.
Teve um pai americano,
foi inglês por muito ano,
só é português agora!

Entram magalas, costureiras;
descem senhoras petulantes,
entre a verdade,
os beliscos e as peneiras,
fica tudo como dantes.

Quero um de quinze p’rá Pampulha,
já é mais caro este transporte;
e qualquer dia mudo a agulha
porque a vida
está pela hora da morte!

O Amarelo da Carris
tem misérias à socapa
que ele tapa.
Tinha bancos de palhinha,
hoje tem cabelos brancos,
e os bancos são de napa.

No amarelo da Carris
já não há “pode seguir”
para se ouvir.
Hoje o pó que o faz andar
é o pó do lava-lar
com que ele se foi cobrir.

Quando um rapaz empurra um velho,
ou se machuca uma criança,
então a gente vê ao espelho o atropelo
e a ganância que nos cansa.

E quando a malta fica à espera,
é que percebe como é:
passa à pendura o pendura que não paga
e não quer andar a pé.

O Amarelo da Carris
já teve um avô outrora,
que era o “chora”.
Teve um pai americano,
foi inglês por muito ano,
só é português agora!

Quando um rapaz empurra um velho,
ou se machuca uma criança,
então a gente vê ao espelho o atropelo
e a ganância que nos cansa.

Entram magalas, costureiras;
descem senhoras petulantes,
entre a verdade,
os beliscos e as peneiras,
fica tudo como dantes.

Letra: José Carlos Ary dos Santos
Música: José Luís Tinoco
Intérprete: Mariza (in CD “Novo Homem na Cidade”, Universal, 2004)
Versão original: Carlos do Carmo (in “Um Homem na Cidade”, Trova, 1977; reed. UPAV, 1991; Philips/Polygram, 1995)

O dia já se fez notar

[ Um Dia de Lisboa ]

O dia já se fez notar
O rio acena com neblina
Um eléctrico a passar
Dá bom-dia em cada esquina
Gostei de te ouvir falar
Vens de longe, moras cá
Tanta rua a palmilhar
E os segredos que p’ra aí há

Il y a de l’amour
Il y a du glamour
Il y a de la joie
pour tous les jour
Il n’y a que toi
Il n’y a que nous
Le monde s’est donné
Rendez-vous

Lisboa está fantástica, romântica, exótica
Lisboa está fantástica, e é tão bom aqui estar
Lisboa está fantástica, romântica, exótica
Lisboa está fantástica, e é tão bom aqui estar

‘Rasta’, fado e ceviche,
A partida adiada
O Castelo, a sanduíche
Mouraria já esgotada
Hostel, saudade e ‘low-cost’
Olha a Bica a fervilhar
A Ribeira põe um ‘post’:
“Quem quer vir p’ra cá morar?”

Et les amis, et la folie
On est bienvenu ici
Il fait si beau, Il fait si chaud
Quelqu’un ma donné un cadeau

Lisboa está fantástica, romântica, exótica
Lisboa está fantástica, e é tão bom aqui estar
Lisboa está fantástica, romântica, exótica
Lisboa está fantástica, e é tão bom aqui estar

O dia a começar
A marca do teu beijo
Reflecte na parede
Forrada a azulejo
Não sei de onde vens
Nem vou perguntar
Vá lá, faz-me sorrir!
Diz-me que vais cá ficar!

Il fait si beau, Il fait si chaud
Quelqu’un ma donné un cadeau
Et les amis, et la folie
On est bienvenu ici

Lisboa está fantástica, romântica, exótica
Lisboa está fantástica, e é tão bom aqui estar
Lisboa está fantástica, romântica, exótica
Lisboa está fantástica, e é tão bom aqui estar

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha* (ao vivo no Estúdio 3 da Rádio e Televisão de Portugal, Lisboa)
Versão original: Sebastião Antunes & Quadrilha com Viviane (in CD “Perguntei ao Tempo”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2019)

O que tem esta Lisboa?

[ A Sina em Portugal ]

O que tem esta Lisboa?
Que beco me enlaça a alma?
Os trinados da guitarra
ou o frio da noite calma?

Sempre que regresso a casa,
não há outra como ela;
deixo lá a minha asa
pendurada na janela.

A canção de Lisboa: é fado.
Amar em português: é fado.
A sina em Portugal: é fado,
mas cantar sem emoção não é.

Já tentei perceber
que chamamento nos cala;
O que mais hei-de eu fazer
senão arrumar a mala!

Por baixo dum céu azul
o que o Tejo dá não tira:
sete colinas ao Sul
só para dançar um vira.

A canção de Lisboa: é fado.
Amar em português: é fado.
A sina em Portugal: é fado,
mas cantar sem emoção não é.

No bairro já se dorme,
com o silêncio da noite;
De repente o fado acorda
e corta como uma foice.

Sai guitarra e sai viola,
“sai da cama, ó manganão!”,
vai cantar a Deolinda.
Vai mais um fadinho ou não?

A canção de Lisboa: é fado.
Amar em português: é fado.
A sina em Portugal: é fado,
mas cantar sem emoção não é.

A canção de Lisboa: é fado.
Amar em português: é fado.
A sina em Portugal: é fado,
mas cantar sem emoção não é.

A canção de Lisboa: é fado.
Amar em português: é fado.
A sina em Portugal: é fado,
mas cantar sem emoção não é.

Pois é!

Letra e música: José Barros
Intérpretes: José Barros & Mimmo Epifani*
Versão original: José Barros & Mimmo Epifani (in CD “Mar da Lua”, José Barros/Tradisom, 2015)

Ó rua do Capelão

[ Novo Fado da Severa (Rua do Capelão) ]

Ó rua do Capelão
Juncada de rosmaninho
Se o meu amor vier cedinho
Eu beijo as pedras do chão
Que ele pisar no caminho.

Há um degrau no meu leito,
Que é feito pra ti somente
Amor, mas sobe com jeito
Se o meu coração te sente
Fica-me aos saltos no peito.

Tenho o destino marcado
Desde a hora em que te vi
Ó meu cigano adorado
Viver abraçada ao fado
Morrer abraçada a ti.

Letra: Júlio Dantas
Música: Frederico de Freitas
Intérprete: Dina Teresa (in filme “A Severa”, de José Leitão de Barros, 1931)
Outra versão: Amália Rodrigues (in CD “Abbey Road 1952”, EMI-VC, 1992)

Parava no café

[ Os loucos de Lisboa ]

Parava no café quando eu lá estava
Na voz tinha o talento dos pedintes
Entre um cigarro e outro lá cravava
A bica, ao melhor dos seus ouvintes

As mãos e o olhar da mesma cor
Cinzenta como a roupa que trazia
Num gesto que podia ser de amor
Sorria, e ao partir agradecia

São os loucos de Lisboa
Que nos fazem duvidar
A Terra gira ao contrário
E os rios nascem no mar

Um dia numa sala do quarteto
Passou um filme lá do hospital
Onde o esquecido filmado no gueto
Entrava como artista principal

Comprámos a entrada p’ra sessão
Pra ver tal personagem no écran
O rosto maltratado era a razão
Não aparecer pela manhã

São os loucos de Lisboa
Que nos fazem duvidar
A Terra gira ao contrário
E os rios nascem no mar

Mudámos muita vez de calendário
Como o café mudou de freguesia
Deixámos de tributo a quem lá pára
Um louco a fazer-lhe companhia

E sempre a mesma posse o mesmo olhar
De quem não mede os dias que vagueiam
Sentado lá continua a cravar
Beijinhos às meninas que passeiam.

São os loucos de Lisboa
Que nos fazem duvidar
A Terra gira ao contrário
E os rios nascem no mar

Letra: João Monde
Música: João Gil
Intérprete: Ala dos Namorados

Quando eu era rapazote

[ Fado do Cacilheiro ]

Quando eu era rapazote,
Levei comigo no bote
Uma varina atrevida.
Manobrei, e gostei dela,
E lá me atraquei a ela
P’ró resto da minha vida.

Às vezes, numa pessoa,
A idade não perdoa,
Faz bater o coração!
Mas tenho grande vaidade
Em viver a mocidade
Dentro desta geração!…

Sou marinheiro
Deste velho cacilheiro,
Dedicado companheiro,
Pequeno berço do povo.
E navegando…
A idade vai chegando…
Ai… o cabelo branqueando…
Mas o Tejo é sempre novo.

Todos moram numa rua
A que chamam sempre sua,
Mas eu cá não os invejo:
O meu bairro é sobre as águas
Que cantam as suas mágoas,
E a minha rua é o Tejo.

Certa noite de luar,
Vinha eu a navegar
E de pé, junto da proa,
Eu vi, ou então sonhei,
Que os braços do Cristo-Rei
Estavam a abraçar Lisboa.

Sou marinheiro
Deste velho cacilheiro,
Dedicado companheiro,
Pequeno berço do povo.
E navegando…
A idade vai chegando…
Ai… o cabelo branqueando…
Mas o Tejo é sempre novo.

Letra: Paulo da Fonseca
Música: Carlos Dias
Intérprete: Zé Francisco & Orquestra Azul* (in CD “Caminho de Mar e Luz”, José Francisco Vieira/Alain Vachier Music Editions, 2013)
Versão original (“Zé Cacilheiro”): José Viana (revista “Zero, Zero, Zero – Ordem para Matar”, 1966, Teatro Variedades) (in single “Zé Cacilheiro”, A Voz do Dono/EMI, 1966; 2CD “Parque Mayer”: CD 1, EMI-VC, 2003; CD “Para uma História do Fado: Os Fados do Teatro e do Cinema”, col. O Fado do Público, vol. 12, EMI-VC / Corda Seca / Público, 2004; CD “O Melhor de José Viana”, Edições Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2009)

Quis que esta morna quebrasse

[ A Morna de “Nha” Lisboa ]

Quis que esta morna quebrasse
Toda a distância do mar
Misturando um fado antigo
E um tom crioulo a cantar;
E a ouro e prata vos digo
Que soube bem misturar.

Senti do Castelo o teu Sal,
Em Alfama gingaram crioulas;
São Vicente em arraial
Dançava pela Madragoa.
São Vicente em arraial
Dançava pela Madragoa.

Quis que esta morna acordasse
O meu Cacau da Ribeira
E a Varina apregoasse
Ao ritmo duma coladeira,
E o Tejo ao fundo bailasse
Ao teu jeito, “bo manera”.

Chorai, ó guitarras, chorai!
Que Alfama da velha Lisboa
Sem vergonha, junta vai
Com a morna nascida em Lisboa.
Sem vergonha, junta vai
Com a morna nascida em Lisboa.

Quis que esta morna passasse
Aquelas noites das boas
E no Bairro Alto cantasse
O Tejo e suas canoas;
E em voz crioula bordasse
O fado de “nha” Lisboa.

Tocai, ó guitarras, tocai!
Que o fado crioulo ecoa
E as gargantas cantam ai…
«Sôdade de “nha” Lisboa».
E as gargantas cantam ai…
«Sôdade de “nha” Lisboa».

Tocai, ó guitarras, tocai!
Que o fado crioulo ecoa
E as gargantas cantam ai…
«Sôdade de “nha” Lisboa».
E as gargantas cantam ai…
«Sôdade de “nha” Lisboa».

Tocai, ó guitarras, tocai!
Que o fado crioulo ecoa
E as gargantas cantam ai…
«Sôdade de “nha” Lisboa».
E as gargantas cantam ai…
«Sôdade de “nha” Lisboa».

Letra: Rogério Oliveira
Música: Fernando Pereira
Intérprete: Real Companhia
Primeira versão de Real Companhia, com Rui Veloso (in CD “Serranias”, Tê, 2013; CD “20 Anos Já Cá Cantam” (compilação), Tê, 2016)
Versão original: Lenita Gentil (in CD “Momentos”, Ovação, 2012)

Se uma gaivota viesse

[ Gaivota ]

Se uma gaivota viesse
Trazer-me o céu de Lisboa
No desenho que fizesse,
Nesse céu onde o olhar
É uma asa que não voa,
Esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
No meu peito bateria,
Meu amor, na tua mão,
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
Dos sete mares andarilho,
Fosse, quem sabe, o primeiro
A contar-me o que inventasse,
Se um olhar de novo brilho
No meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
No meu peito bateria,
Meu amor, na tua mão,
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
As aves todas do céu,
Me dessem na despedida
O teu olhar derradeiro,
Esse olhar que era só teu,
Amor, que foste o primeiro.

Que perfeito coração
Morreria no meu peito,
Meu amor, na tua mão,
Nessa mão onde perfeito
Bateu o meu coração.

Meu amor, na tua mão,
Nessa mão onde perfeito
Bateu o meu coração.

Letra: Alexandre O’Neill
Música: Alain Oulman
Intérprete: Paulo de Carvalho (in “Gostar de Ti”, CBS, 1990; “Fados Meus”, BMG Ariola, 1996)
Versão original: Amália Rodrigues (in “Fado Português”, Columbia/VC, 1965, reed. EMI-VC, 1992; “O Melhor de Amália – Estranha Forma de Vida”, EMI-VC, 1985, reed. 1995)
Outra versão: Carlos do Carmo (in “A Arte e a Música de Carlos do Carmo”, Polygram, 1982)

Sei de um rio

Sei de um rio…
Sei de um rio
Em que as únicas estrelas,
Nele sempre debruçadas,
São as luzes da cidade.

Sei de um rio…
Sei de um rio
Rio onde a própria mentira
Tem o sabor da verdade.
Sei de um rio…

Meu amor, dá-me os teus lábios!
Dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede!
Mas o sonho continua…

E a minha boca (até quando?)
Ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando:
“— Sei de um rio…
Sei de um rio…”

Meu amor, dá-me os teus lábios!
Dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede!
Mas o sonho continua…

E a minha boca (até quando?)
Ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando:
“— Sei de um rio…
Sei de um rio…”

Sei de um rio…
Ai!
Até quando?

Letra: Pedro Homem de Mello
Música: Alain Oulman
Intérprete: Camané
Versão original: Camané (in CD “Sempre de Mim”, EMI, 2008; 2CD “Camané: O Melhor 1995-2013 (Edição Especial)”: CD 1, EMI, 2013)
Outra versão: Camané (in CD/DVD “Ao Vivo no Coliseu: Sempre de Mim”, EMI, 2009)

Sete colinas

[ Senhora do Tejo ]

Sete colinas,
Sete versos de Lisboa,
Sete poemas de rimas
Nos olhos de uma pessoa.

És a cidade
Mais linda que tem o mar;
És a Rua da Saudade
Que trago no meu olhar.

Tens Madragoa e Alfama
E um Castelo de saudade,
Que dorme na tua cama
Desde a tua mocidade.

Lisboa da Mouraria,
Do Bairro Alto velhinho;
E é no Jardim da Alegria
A Praça do nosso hino.

E ficas tão engraçada
Com a Graça lá no alto,
Que veste a saia engomada
P’ra vir à Baixa num salto.

E a Rua Augusta
Emoldurando um navio,
Que atravessa a Santa Justa
Para vir beijar o Rossio.

É no Terreiro
Onde eu passo e me revejo,
Neste amor que eu te tenho
Senhora, mulher do Tejo.

Tens Madragoa e Alfama
E um Castelo de saudade,
Que dorme na tua cama
Desde a tua mocidade.

Lisboa da Mouraria,
Do Bairro Alto velhinho;
E é no Jardim da Alegria
A Praça do nosso hino.

E ficas tão engraçada
Com a Graça lá no alto,
Que veste a saia engomada
P’ra vir à Baixa num salto.

E ficas tão engraçada
Com a Graça lá no alto,
Que veste a saia engomada
P’ra vir à Baixa num salto.

Letra: José Luís Gordo (inicialmente creditado como Luís Alcaria)
Música: José Fontes Rocha
Intérprete: Joana Amendoeira (in CD “Amor Mais Perfeito: Tributo a José Fontes Rocha”, CNM, 2012)
Versão original: Maria da Fé (in LP “Fados”, Riso & Ritmo, 1978; LP “Meu País, Meu Fado”, Movieplay, 1985, reed. Movieplay, 1991, 2005; CD “Maria da Fé”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 33, Movieplay, 1994; 2CD “Maria da Fé: Nome de Fado: Antologia”: CD 1, Movieplay, 2005)
Outra versão de Maria da Fé (in CD/DVD “Maria da Fé: 50 Anos de Carreira: ao Vivo no Coliseu de Lisboa”, Ovação, 2009)
Outra versão: OqueStrada (in CD “Tasca Beat: o Sonho Português” (2.ª edição), Sony Music, 2010)

Sonhei contigo Lisboa

[ Minha Lisboa Cidade ]

Intérprete: Teresa Tapadas

Sou o Bairro Alto

[ Marcha do Bairro Alto – 1995 ]

Sou o Bairro Alto
E olho sempre de alto
P’rás tristezas que Lisboa tem;
Sou o Bairro Alto
Pronto a dar o salto
Para um tempo novo que aí vem;
Todo o bom filho sai
Conforme os pais que tem:
O Fado é meu pai,
Lisboa minha mãe,
E eles cantando
Vão-me preparando
Para um tempo novo que aí vem.

Nem quando foi dos terramotos do Marquês,
Nem com as maldades que o Fado sempre lhe fez…
Do Bairro Alto, cá no alto, eu vi Lisboa a chorar;
Deu sempre a volta, pôs-me à solta e ensinou-me a cantar.

O tempo corre, mas a vida continua;
Lisboa morre por sair comigo à rua:
Fez uma marcha ao meu jeito,
Vestiu-me a preceito
E cá vou eu a desfilar.

Sou o Bairro Alto
E olho sempre de alto
P’rás tristezas que Lisboa tem;
Porque ela cantando
Me foi preparando
Para um tempo novo que aí vem;
O Fado é meu pai,
Lisboa minha mãe,
E um bom filho sai
Conforme os pais que tem.

Sou o Bairro Alto
Pronto a dar o salto
Para um tempo novo que aí vem;
Nem quando foi seu coração incendiado
Ou quando viu o Parque Mayer apagado…
Do Bairro Alto, cá no alto, eu vi Lisboa a chorar;
Do que era pranto fez um canto e ensinou-me a cantar.

O tempo corre, é a marcha desta vida;
Lisboa morre por ver a sua Avenida
Cheia de gente tão diferente
A ver-me tão contente
Por ela abaixo a desfilar.

Sou o Bairro Alto
E olho sempre de alto
P’rás tristezas que Lisboa tem,
Porque ela cantando
Me foi preparando
Para um tempo novo que aí vem;
O Fado é meu pai
Lisboa minha mãe,
E um bom filho sai
Conforme os pais que tem;
Sou o Bairro Alto
Pronto a dar o salto
Para um tempo novo que aí vem.

O tempo corre, mas a vida continua;
Lisboa morre por sair comigo à rua:
Fez uma marcha ao meu jeito
Vestiu-me a preceito
E cá vou eu a desfilar.

Sou o Bairro Alto
E olho sempre de alto
P’rás tristezas que Lisboa tem;
Sou o Bairro Alto
Pronto a dar o salto
Para um tempo novo que aí vem.

Letra e música: José Mário Branco
Intérprete: Camané
Versão original: Camané (in CD “Pelo Dia Dentro”, EMI-VC, 2001; 2CD “Camané: O Melhor 1995-2013 (Edição Especial)”: CD 1, EMI, 2013)
Outra versão: Camané (in DVD “Ao Vivo no S. Luiz”, EMI, 2006)

Tal qual esta Lisboa

[ Lisboa Oxalá ]

Tal qual esta Lisboa, roupa posta à janela,
Tal qual esta Lisboa, roxa jacarandá,
Sei de uma outra Lisboa, de avental e chinela,
Ai Lisboa fadista de Alfama e oxalá.

Lisboa lisboeta da noite mais escura
De ruas feitas sombra, de noites e vielas,
Pisa o chão, pisa a pedra, pisa a vida que é dura,
Lisboa tão sozinha, de becos e ruelas.

Mas o rosto que espreita por detrás da cortina
É o rosto de outrora feito amor, feito agora.
Riso de maré viva numa boca ladina
Riso de maré cheia num beijo que demora.

E neste fado o deixo esquecido aqui ficar
Lisboa sem destino que o fado fez cantar,
Cidade marinheira sem ter de navegar
Caravela da noite que um dia vai chegar.

Letra: Nuno Júdice
Música: Joaquim Campos (Fado Alexandrino)
Intérprete: Carlos do Carmo (in CD “À Noite”, Universal/Tugaland, 2007)

Tens a mania de usar

[ Gaiata dos Beijos Doces ]

Tens a mania de usar
Rosas presas no cabelo;
Já tentei não te ligar
Mas acabo por fazê-lo.

As rosas ficam-te bem,
Não tenho dúvida alguma;
Posso garantir, porém,
Que não te dou mais nenhuma.

Que não te dou mais nenhuma;
Posso garantir, porém,
Que não te dou mais nenhuma,
Não tenho dúvida alguma.

Atropelamento e fuga
Sem quaisquer danos visíveis:
Gaiata dos beijos doces
E das noites impossíveis.

Tens a mania de andar
Num baloiço emocional:
Tu pedes para empurrar
E dizes que empurro mal.

És confusão instalada,
Nevoeiro no caminho:
Eu chego de madrugada
E durmo sempre sozinho.

E durmo sempre sozinho;
Eu chego de madrugada
E durmo sempre sozinho,
E durmo sempre sozinho.

Atropelamento e fuga
Sem quaisquer danos visíveis:
Gaiata dos beijos doces
E das noites impossíveis.

Atropelamento e fuga
Sem quaisquer danos visíveis:
Gaiata dos beijos doces
E das noites impossíveis.

Letra: Duarte (Fevereiro de 2011)
Música: Tozé Brito
Intérprete: Duarte (in CD “Sem Dor Nem Piedade”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2015)

Toda a saudade é fingida

[ Covers ]

Toda a saudade é fingida:
A tristeza disfarçada;
Parecem já não ter vida,
De fado não têm nada.

Já não são fados, são ‘covers’:
Imitações desalmadas,
Reproduções do destino
Tantas vezes tão cantadas.

Esses que tentam viver
Aquilo que outros viveram
Acabam por se perder
No tanto que não fizeram.

Vampiragem pós-moderna
Da Lisboa dos turistas:
Falam da velha taberna
Mas querem ser futuristas.

Letra: Duarte
Música: João do Carmo Noronha (Fado Pechincha)
Intérprete: Duarte (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018)

Trago um fado no meu canto

[ Meu Fado Meu ]

Trago um fado no meu canto
Canto a noite até ser dia
Do meu povo trago o pranto
Do meu canto a Mouraria

Tenho saudades de mim
Do meu amor mais amado
Eu canto um país sem fim
O mar, terra, meu fado
Meu fado, meu fado, meu fado

De mim só me falto eu
Senhora da minha vida
Do sonho digo que é meu
E dou por mim já nascida

Trago um fado no meu canto
Na minha alma bem guardado
Bem por dentro do meu espanto
À procura do meu fado
Meu fado, meu fado, meu fado

Letra e música: Paulo de Carvalho
Intérprete: Mariza & Miguel Poveda* (in CD “Fados”, EMI, 2007)
Versão original: Mariza (in CD “Transparente”, EMI, 2005)