José de Freitas, de nome completo José Cirilo de Freitas Silva, nasceu na Madeira e foi padre da Congregação da Missão (Padres Vicentinos). Já depois de padre, estudou nos conservatórios do Porto e de Lisboa, onde concluiu o Curso Superior de Canto com excelente classificação. Em 1978 tornou-se artista residente do Teatro Nacional de São Carlos onde se estreou com Schaunard em La Bohème. Foi intérprete de importantes papéis de barítono e de baixo-barítono em Portugal e no estrangeiro. Foi também diretor de coros e compositor de cânticos litúrgicos.
ENTREVISTA
Qual foi o primeiro momento em que se lembra de ter tido consciência de que a música era importante para si?
O primeiro momento?! Preferiria falar de uma pequena série de momentos… Concretizando: No meu 5º ano do seminário (hoje 9º ano), cerca dos 16 anos, quando a chamada “mudança de voz” era já algo acentuada, o meu ilustre professor de música, Padre António Ferreira Telles, poucos dias após ter-me convidado para tocar harmónio em algumas cerimónias litúrgicas (ele era o harmonista oficial, obviamente) e pedir-me para, alternadamente com outro colega, iniciar os cânticos na liturgia (o equivalente a solista), veio falar comigo na véspera da festa do Padroeiro do seminário (S. José), e disse-me: “Confio muito em ti para “segurares” a 4ª voz na missa solene de amanhã.” Ora aí tem um “puzzle” com bastante significado na minha “consciência musical” de jovem seminarista…
Quais os professores que mais o influenciaram no tempo de seminário?
Vou referir-me apenas a professores de música, obviamente. Desde os primeiros anos, tive uma veneração especial por um ilustre mestre, muito “sui generis”, mas muito competente e sabedor: o Padre António Ferreira Telles, a que atrás aludi. Era excelente harmonista, compositor, ótimo harmonizador. O Pe. Fernando da Cunha Carvalho, felizmente ainda entre nós, também teve influência na minha orientação musical, e não só. Mas vou salientar, sem querer ser injusto para os atrás citados e porventura outros, o Pe. João Dias de Azevedo, que muito me ajudou sobretudo no harmónio e no órgão, no Seminário de Mafra, onde fiz o meu noviciado (1954-1956). Nesse período, cheguei a tocar órgão em algumas celebrações dominicais e festas na Basílica de Mafra… E, para completar os anos do seminário, não poderei omitir o Pe. Fernando Pinto dos Reis (1929-2010).
Depois de ir para o seminário e de ser padre, quando é que se apercebeu de que cantar era o mais importante na sua vida profissional?
Como disse, cedo me iniciei e fui crescendo na função de solista. Continuei-a ao longo de todo o curso, alternando-a com o múnus de harmonista. Terminado o curso, fui incumbido da disciplina de Música (além de outras), no seminário menor. O concílio do Vaticano II acabava de privilegiar o vernáculo na liturgia. Iniciei a renovação de todo o repertório vigente. Eu próprio dei largas a uma velha paixão e iniciei a composição de cânticos em português, incluindo o “ordinário” e o “próprio” da missa para determinadas solenidades, além de outros cânticos circunstanciais. Aconselhado por não poucos, matriculei-me no Conservatório do Porto. Canto? Composição? Duas paixões. Muito incitado e encorajado pela professora D. Isabel Mallaguerra, decidi-me mais seriamente pelo canto, sem descurar a composição musical.
Após o curso geral de canto no Conservatório do Porto, vim a concluir o Curso Superior no Conservatório Nacional com a professora D. Helena Pina Manique. Com o programa do exame do curso superior concluído com alta classificação, fui convidado para vários recitais em Lisboa e não só. Iniciei logo de seguida o curso de ópera com o professor Álvaro Benamor e D. Helena Pina Manique. Fui admitido no Coro Gulbenkian, onde estive durante alguns meses até seguir para Paris com uma bolsa de estudos.
O diretor do Teatro Nacional de São Carlos, Eng. João Paes, que já me ouvira no Conservatório, convidou-me para, temporariamente, interromper o estágio em Paris e vir a Lisboa preparar o desempenho de um importante papel numa ópera portuguesa. Bem sucedido, pediu-me para, após o estágio parisiense, seguir para Florença, afim de preparar, com o famoso Gino Bechi, o importantíssimo papel de primeiro barítono (Lord Enrico d’Ashthon) da ópera Lucia di Lamermoor, de Donizetti. Cantei esse papel em novembro de 1977, no Teatro Rivoli (Porto)…
Toda esta “bola de neve” a partir da conclusão do curso superior de canto em 1974, todo o incrível desencadear de situações até finais de 1977, todo o ano de 1977 sobretudo, tudo isso responde à sua pergunta… Parafraseando, em contraste, um fadista, diria: “Ser cantor não foi meu sonho, mas cantar foi o meu fado…”
Dos anos em que estudou Música e Canto, que professores tiveram uma influência mais decisiva?
Nos conservatórios do Porto e de Lisboa, tive a felicidade de ser orientado respetivamente pelas professoras D. Isabel Mallaguerra e D. Helena Pina Manique, e ainda, por algum tempo, pela D. Arminda Correia, sem esquecer o Prof. Álvaro Benamor (cena).
Em Paris, como olvidar o trabalho com a famoso baixo Huc-Santana e o não menos célebre barítono Gabriel Bacquier? Em Itália, e aqui em Portugal, Gino Bechi foi simplesmente precioso no trabalho vocal e cénico. Este famoso barítono, que também me honrava com a sua amizade, cantou nos anos 40, em todos os grandes palcos do mundo. A sua famosa “entrega” aos espetáculos e nos espetáculos, quer cenicamente mas sobretudo vocalmente, levou-o a tal desgaste que teve de terminar a sua carreira por volta dos 40 anos, precisamente com a idade com que eu comecei…
Foi difícil deixar de ser padre e optar pela carreira musical?
Quando, em finais dos anos 60, me matriculei no Conservatório do Porto, confesso que o meu sonho era dar uma componente artística à minha missão de padre.
Começaram a surgir, porém, situações que não deixaram de me ir perturbando. Alguma confusão começou a instalar-se nos meus horizontes… Estávamos em pleno pós-74… Sobretudo a partir de 1977, comecei a sentir-me ultrapassado pelos acontecimentos. Tinham de ser tomadas decisões… Não podia viver na ambiguidade!… Houve muitas dúvidas, muitas incertezas… O meu Padre Provincial de então propôs-me fazer as duas coisas: padre e cantor… Tudo se desenrolava vertiginosamente… Eram convites para concertos, para óperas, etc.
Cheguei mesmo a atuar durante não pouco tempo, estando ainda no exercício do ministério… Fui chegando à conclusão de que as duas funções não faziam grande sentido… Em finais de 1978, acabei por tomar a decisão: pedi para Roma a dispensa do exercício das ordens. Não tive resposta fácil. Demorou mais de dois anos. Pelo meio, um apelo a que repensasse…
Qual foi o papel da Igreja na sua vida musical?
Primeiramente, como é obvio, penso em todo o curso do seminário. Para além de todos os aspetos da formação, a música da Igreja, o canto gregoriano, ocupou uma grande parte desse período, quer na teoria, quer na prática. O nosso Cantuale, um livro específico da Congregação da Missão com os mais belos cânticos gregorianos e muitos outros, a uma ou mais vozes, dominou grande parte desses anos, as nossas vozes e as nossas almas.
No seminário Maior, durante o curso de filosofia e teologia, para além das mais belas obras de polifonia sacra, cantávamos, todos os domingos e festas, o “comum” e o “próprio” em gregoriano, de acordo com o emblemático Liber Usualis, a mais completa obra do canto da Igreja. Tudo isto, naturalmente acompanhada da parte teórica, marca indelevelmente a minha personalidade e a minha formação musical. E não esqueço que quase sempre, alternadamente, fui organista e solista…
Após a ordenação, seguiram-se anos dominados pelo Concílio do Vaticano II, com uma série extraordinária de documentos sobre a música e a liturgia em vernáculo,com o aparecimento de excelentes compositores. E foram sempre surgindo, com os diversos papas, importantes documentos sobre a música litúrgica. Não posso esquecer os “famosos” cursos gregorianos de Fátima que frequentei.
Durante os anos 1977-1995, em que a vida artística teve o seu lado prioritário, nunca deixei de estar atento aos documentos da Igreja sobre música sacra e à obra de excelentes compositores que temos.
A partir de 1997, já no pós – S. Carlos, a pedido do meu grande amigo Conégo José Serrasina que acabava de ficar à frente da Paróquia dos Anjos, em Lisboa– a minha paróquia -, comecei a orientar o coro paroquial, tomando a peito a renovação dos cânticos e a dinamização litúrgica. Baseava-me sempre nos textos de cada celebração. Após 5 anos de intenso e profícuo trabalho, abracei outro projeto – na Capela do Palácio da Bemposta (Academia Militar), onde colaborei durante 13 anos (2003 – 2016). Durante este período, compus dezenas de cânticos que vieram a ser publicados pela Academia Militar, em 2012, num volume com o título Deus é Amor. Porque o “contexto” de então era “específico”, o referido volume irá “sofrer” brevemente substancial alteração.
Qual foi a maior deceção na sua vida?
Se me permite, não apresentaria uma mas duas deceções, e ambas no âmbito do mundo lírico. A primeira, logo de início. Tinha feito 40 anos. Eram diferentes, agora, o sonho e o ideal. Imaginava que perante mim, ia surgir um meio pleno de elevação, um ambiente superior, de arte, de cultura, etc. Cedo, porém, fui verificando e concluindo que as cores que sonhara belas, não, não o eram assim tanto… A realidade era bastante mais prosaica… Bem!… Respirei fundo, bem fundo, passe a expressão… E, vamos a isso!… Mas vamos mesmo! O desafio que ora iniciava era para ganhar, era mesmo para vencer!… E foi! Não tive o caminho atapetado de rosas, longe disso, muito longe! Foram necessárias uma fibra excecionalmente forte como considero ter, uma fé inabalável em Deus como efetivamente tenho, e também, obviamente, uma grande confiança nos talentos que Deus me deu, aliados à formação que tive (não poderei esquecê-lo!) E…aí vou eu!… E nem tudo foram espinhos, digamos em abono da verdade. Tive um público que me admirava e apoiava bastante, excelentes e excecionais críticas, outras nem tanto… E, entre um pessoal que rodava as três centenas (coro, orquestra, cantores, técnicos, etc), tive não poucos amigos e admiradores! Não esqueço que, logo no começo, nos primeiros ensaios, vi lágrimas nos olhos de algum do pessoal, ao verem a minha entrada enérgica, decidida, confiante, e pensando no “mundo” donde acabava de chegar… aos 40 anos!…
A segunda deceção foi no fim. Em finais de 92, a SEC, tendo à frente o Dr. Pedro Santana Lopes, achou por bem dissolver a Companhia Portuguesa de Ópera (cantores, orquestra, etc). Éramos 14 os cantores principais. Mesmo tendo em conta que eu continuava a cantar no país e não só, esta foi sem dúvida uma grande deceção. Aos 55 anos, encontrava-me no ponto mais alto da carreira, a nível vocal e cénico, na minha opinião e na de quantos me conheciam e ouviam! Esperava estar “em grande” mais uma boa dezena de anos… Lembrei-me então das palavras de Gino Bechi, quando, certo dia, nos anos 80, após fazer as célebres e espetaculares demonstrações, vocais e cénicas, durante um ensaio, e quando já contava perto dos 80 anos, teve este desabafo: “Agora é que eu sei cantar!”
Pois é!… Parafraseando o meu mestre, diria: “Agora… é que eu sabia cantar!…”
Qual foi o momento mais alto da carreira como cantor lírico?
Desempenhei os mais diversos papéis de 1º barítono, de baixo-barítono, papéis característicos, enfim, foram cerca de 50… Nunca tive um fracasso nos meus desempenhos. Pelo contrário! Escolher o momento mais alto?!… É difícil!… Estou a lembrar-me de não poucos… Do “Le Grand-Prêtre de Dagom” da ópera Samson et Dalila, de Saint-Saëns, em 1983. Quis preparar o papel em Lyon com o meu ex-professor de Paris, o grande barítono Gabriel Bacquier. Estou a recordar-me do “Dulcamara” da ópera L’Elisir d’Amore, de Donizetti, em 1984 e 1985… Do “Rocco”, da ópera Fidelio de Beethoven… Enfim, não vou alongar-me na citação de outras boas e belas hipóteses…
Mas vou escolher como momento mais alto uma ópera fora do estilo clássico: a ópera Kiú, do compositor espanhol Luís de Pablo, levada à cena em 1987 no Teatro Nacional de São Carlos. O meu papel de Babinshy, o pivô da ópera, na sua grande espetacularidade e dificuldade vocal e cénica, foi na verdade um momento muito alto na minha carreira! Não foi por acaso que o próprio compositor Luís de Pablo e o maestro Jesús Ramón Encimar me convidaram, 5 anos depois (dezembro de 1992 – janeiro de 1993), para interpretar em Madrid o mesmo papel!…
Quais foram os cantores líricos mundiais que mais o inspiraram?
Estavam na moda, nos anos 60, cantores líricos que deveras nos entusiasmavam. Lembro-me, por exemplo, de Mário Lanza, de Luís Mariano, de Alfredo Krauss que vim a conhecer em São Carlos, e com o qual contracenei, inicialmente, num ou noutro pequeno papel. E vários outros, quase todos tenores. O meu tipo de voz é de barítono ou de baixo-barítono. Mas foi sobretudo a partir do Curso Superior de Canto que comecei a interessar-me por vozes líricas, o que é absolutamente natural. Dado o meu tipo de voz, cerca de cinco ou seis cantores internacionais dominavam particularmente os meus gostos. Comecemos pelos alemães Dietrich Fischer-Dieskau e Hermann Prey, barítonos. O primeiro, absolutamente excecional em lied, tendo cantado praticamente tudo o que havia nesse domínio. Muitos o consideraram o maior músico do século XX. Foi inclusivamente maestro de música sacra. Ouvi-o ao vivo em Paris. Hermann Prey era superior como ator. As suas interpretações em óperas de Mozart, Rossini, Donizetti ficaram memoráveis. Outros dois barítonos ou baixo-barítonos, Fernando Corena e Rolando Panerai, eram também grandes cantores e atores, mais característicos que os anteriores. Outro barítono que, vocalmente (não cenicamente) me enchia as medidas, era Piero Cappuccilli. Era um barítono a que eu chamaria heróico-dramático, com uma incrível potência de voz. Jamais esquecerei o seu desempenho em Simon Boccanegra de Verdi, no São Carlos…
Poderia obviamente alongar-me, no que às vozes masculinas diz respeito. Mas também não posso deixar de me referir a vozes femininas que, além de nós deixarem siderados, tanto nos ensinaram! Antes de mais, Maria Callas!… Depois, uma Victoria de los Angeles que cheguei a ouvir na Gulbenkian. Fiorenza Cossotto, Mirella Freni, Christa Ludwig… Monserrat Caballé que ouvi em Paris dirigida por Leonard Bernstein… Uma Joan Sutherland, La Stupenda, a tal que cantou a Traviata no Coliseu na famosa noite de 24 para 25 de abril de 1974, com o já citado Alfredo Kraus… E eu estava lá!…
Quais os músicos portugueses mais influentes na sua carreira?
Por músicos, entendo compositores, professores, pianistas, ensaiadores, “pontos”, cantores, e, porque não, críticos… Antes de mais, as minhas duas professoras nos conservatórios do Porto e de Lisboa, respetivamente: Isabel Malaguerra e Helena Pina Manique. A professora D. Arminda Correia fez de forma extraordinária a breve transição entre uma e outra. Álvaro Benamor, na classe de ópera. A pianista Maria Helena Matos que me acompanhou com enorme competência desde o Conservatório Nacional, incluindo o exame final, e praticamente em todos os recitais que fui dando ao longo da carreira. O maestro Armando Vidal, músico de gema, com o qual preparei, como a generalidade dos artistas, quase todos os papéis que tinha a desempenhar nas dezenas de óperas em que fui interveniente. Entre os maestros – “pontos” – , não esquecerei o maestro Pasquali que tão competentemente orientou, durante os primeiros tempos, as nossas intervenções em palco, e o maestro Ascenso de Siqueira, grande e bom amigo e incrível ser humano… Tive a felicidade de trabalhar com encenadores como António Manuel Couto Viana, que me honrava com a sua amizade, Carlos Avillez (em várias óperas), Luís Miguel Cintra, João Lourenço…
Cantores? Álvaro Malta, Hugo Casaes, Elizette Bayan, Armando Guerreiro, e outros… Lembro-me ainda de preciosas “dicas” que me deu Álvaro Malta…
Compositores? Antes de mais, o Prof. Cândido Lima. Conheci-o em Paris. Conversávamos muito. Não esqueço o dia em que ele me apresentou ao seu amigo Iannis Xenakis… Fomos juntos a vários concertos. Preparei, com ele ao piano, algumas obras suas para canto. Foi meu pianista num concurso de canto em que fui premiado… Tudo isto em Paris, em 1977.
Com o grande compositor Fernando Lopes-Graça, tive a honra de preparar um importante papel de solista na sua obra As Sete Predicações d’Os Lusíadas, em vista à estreia mundial da mesma no VI Festival da Costa do Estoril (1980). Joly Braga Santos honrava-me com a sua amizade e admiração. Com ele ensaiei o papel de solista na sua Cantata Das Sombras, sobre texto de Teixeira de Pascoaes, para primeira audição mundial no Teatro de S. Luís, a 27 de julho de 1985, com o Coro Gulbenkian, e enquadrada no XI Festival de Música da Costa do Estoril. De Joly Braga Santos nunca poderei esquecer as suas palavras, em pleno palco, no fim da última récita da sua Trilogia das Barcas, em maio de 1988: “Estou a compor uma ópera, para a Expo de Sevilha (daí a 4 anos), baseada numa obra de Frederico Garcia Llorca, Bodas de Sangue e tenho um muito bom papel para si”. Entretanto, o maestro falecia 2 meses depois, a 18 de julho de 1988, o que constituíu uma grande perda para o País, para a cultura portuguesa.
Quanto a críticos, devo dizer que, entre outros, Francine Benoit, João de Freitas Branco, José Blanc de Portugal muito me encorajaram e elogiaram!
E hoje, o que acha da evolução da ópera em Portugal?
Francamente, tenho dificuldade em responder. Há cerca de vinte e cinco anos, após a extinção da Companhia Portuguesa de Ópera e de ter dado como terminada a minha carreira lírica, abracei outro projeto e alheei-me bastante desse tema. Sei que, sobretudo por razões orçamentais, a programação se ressente, e muito. Tudo parece ser diferente. Repito: não tenho dados que me permitam fazer qualquer juízo de valor…
O que pensa do papel da música na Igreja?
Desde o Seminário Maior, fui lendo atentamente, e mais que uma vez, os documentos papais que surgiram desde o princípio do século XX:
o Motu próprio de São Pio X (1903) sobre a Restauração da Música Sacra;
a Constituição Apostólica Divini Cultus (1928) no pontificado de Pio XI, sobre a liturgia e a música sacra; a Encíclica Musicae Sacrae Disciplina (1953), do Papa Pio XII, sobre a Música Sacra, vocal e instrumental.
Logo após o Concílio do Vaticano II, surge a Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium (1963), a realçar que “a acção litúrgica reveste maior nobreza quando é celebrada com canto, com a presença dos ministros sagrados e a participação ativa do povo”. E quando fala de canto, obviamente que se refere ao canto sagrado intimamente unido com o texto. E se o canto gregoriano ocupa sempre um lugar privilegiado em igualdade de circunstâncias, não são excluídos os outros géneros de música sacra mormente a Polifonia, desde que em harmonia com o espírito da ação litúrgica, e de acordo com os diversos tempos litúrgicos, com as diversas celebrações e os vários momentos da celebração. Compositores, organistas, mestres de coro, cantores, músicos (instrumentistas) devem formar um todo para o esplendor do canto.
Alguns anos após o Concílio, a famosa Instrução Musicam Sacram (1967), da Sagrada Congregação dos Ritos, é a síntese, diria perfeita, do que à Música Sacra diz respeito, desde o canto na celebração da missa, passando pela preparação de melodias para os textos em vernáculo, depois a música para instrumental, o Canto no Ofício, etc etc.
O assunto levar-nos-ia ainda a três ou quatro intervenções de São João Paulo II, a uma célebre conferência do Cardeal Ratzinger (mais tarde Papa Bento XVI) em 1985, a uma Nota Pastoral dos nossos bispos por ocasião do Ano Europeu da Música (em novembro de 1985).
E o nosso Papa Francisco, por mais de uma vez, tem insistido que a Música Sacra e Canto Litúrgico devem estar plenamente inculturados nas linguagens artísticas atuais.
Quais os compositores que mais ouve e, desses, que obras prefere?
J.S. Bach é incontornável. Oiço com frequência, por exemplo, a Cantata do Café, cuja ária Hat man nicht mit seinen kindern fez parte do programa do meu exame do Curso Superior de Canto de Concerto, e foi uma das provas de acesso ao Coro Gulbenkian, em novembro de 1974; a Missa em Si m, cujas árias de baixo cantei; e a Paixão Segundo S. João, em que interpretei o papel de Jesus, no Porto, em abril de 1977, quando ainda estagiava em Paris… Haëndel (O Messias, e Música Aquática); Beethoven (Sinfonias 3, 6 e 9) e a ópera Fidelio, cujo papel de Rocco desempenhei em junho de 1986; Mozart (o Requiem que, enquanto membro do Coro Gulbenkian, cantei no Coliseu em 1975, com gravação para a Erato; a Sinfonia nº 40, etc etc); Haydn (A criação, a Missa de Santa Cecília e a Sinfonia Concertante); Bizet (Carmen); Bramhs (Um Requiem Alemão);Rossini (Stabat Mater); Tchaickowsky (Romeu e Julieta e Francesa da Rimini; Dvorak (Sinfonia nº 9, O Novo mundo); Ravel (Bolero); Rodrigo (Concerto de Aranjuez); Strauss (valsas); Elgar (Concerto para violoncelo).
E muito, muito mais, obviamente.
O que o levou a colecionar livros e discos?
Certamente, e de uma forma geral, o meu gosto pela música, a ligação à Igreja, o meu profissionalismo, a cultura. É claro que tudo se desenrola de acordo com as diversas etapas da vida:
a minha função de professor de Música (além de outras disciplinas) no seminário menor, após a minha formação, e o começo dos meus estudos no Conservatório;
a minha transição para a vida pastoral, durante 3 anos;
a minha ida para Lisboa para concluir o curso Superior, do Conservatório, e a minha curta passagem pela Fundação Gulbenkian;
o meu estágio de dois anos em Paris, concluído com 2 meses em Itália;
o começo e a continuação da minha carreira lírica no Teatro Nacional de São Carlos;
os 3 anos pós-São Carlos em que continuei a minha carreira;
o abraçar de novo projeto: “trabalhar” um coro inserido numa missão pastoral na Paróquia dos Anjos (Lisboa), a minha Paróquia, a partir de 1997 e, posteriormente, de 2003 a 2016, na capela do Palácio da Bemposta (Academia Militar);
e porque não dizê-lo, as minhas viagens de automóvel, algumas longas, nos anos 70 e daí para cá, para já não falar da minha própria casa…
Como vê, são muitas as etapas e as circunstâncias em que procurei estar sempre em dia e dentro das exigências das mesmas. Livros, discos, cassetes, CDs, DVDs eram verdadeiros instrumentos de trabalho, de cultura, de ocupação, de prazer…
Julgo ter sintetizado as razões da minha importante biblioteca e discoteca, das quais progressivamente e criteriosamente, me vou voluntariamente desfazendo.
Antes da sua formação académica no conservatório, que lugar tinha a música erudita no seu papel de formador no seminário?
Além de renovar completamente o repertório de cânticos religiosos que vinha de há longos anos (o que supunha rodear-me de bom material), comecei a interessar-me por vozes maravilhosas que os discos faziam chegar até nós (Mario Lanza, Luis Mariano, Alfredo Krauss etc, e por orquestras excecionais que nos traziam as mais belas melodias clássicas, canções famosas, música de filmes históricos…
Tive sempre a preocupação de partilhar com os meus jovens alunos algum desse maravilhoso mundo musical… Era importante para a educação da sua sensibilidade, dos seus gostos, da sua cultura.
Lembro-me, e muitos ex-alunos (quer do seminário, quer do ensino público) se recordarão de ter dado a ouvir, entre outras obras, uma pequena peça do compositor russo Alexander Borodine. Tratava-se de Nas estepes da Ásia Central. Era a caravana que surgia ao longe, a marcha dos camelos, a intensidade instrumental que “subia” a anunciar a chegada da caravana, a permanência no terreno, o retomar da marcha, os sons que se iam extinguido… até a caravana se perder de vista!… Era tudo tão belo, tão claro! Apaixonante!… O interesse era enorme. Os alunos começavam a compreender que a música tem um sentido, um conteúdo, uma intenção, uma finalidade, uma expressão!
O mesmo sucedeu com outras obras, como o Hino da Alegria, da IX Sinfonia de Beethoven! Etc etc.
Mas adverti-os sempre para que nada disto desviasse a atenção do essencial da sua formação!…
A Senhora está sentada Não tem pés, pois muito andou Já nem na memória há rastos Do tempo que caminhou
A Senhora está sentada Numa redoma de luz E é uma nave perdida Nenhuma rota a conduz
E a Senhora está sentada Numa montanha de fel Rios correm dos seus olhos E dos seus lábios o mel
E a Senhora está sentada Tem parado o respirar Do seu peito saem chamas Das que não sabem queimar
E a Senhora está sentada Sobre as dores de cada um Do seu ventre sai remédio Que cura como nenhum
E a Senhora está sentada Numa matéria sem nome Transformada numa estátua Que não tem sono nem fome
E a Senhora está sentada Sobre as suas próprias mãos E baloiça no vazio No céu de todos os chãos
Letra e música: Amélia Muge Intérprete: Amélia Muge (in CD “Todos os Dias”, Columbia/Sony, 1994)
A solidão
[ Nem Mal Que Sempre Dure, Nem Bem Que Nunca se Acabe ]
A solidão espalhada p’los penedos Embrulha a alma em folhas de saudade A noite acorda o sabor dos segredos E traz nos dedos a cor da vontade
E só a voz da Lua é que me amansa E me adormece ao canto da gaivota No fim do mundo o tempo quebra a dança E o vento lança aromas de outra rota
O sol acalma como um grão de areia E dorme enquanto espera a madrugada Em cada noite escura há uma candeia Em cada ceia há uma fome adiada
Em cada grito há uma voz calada Encruzilhada p’lo meio do caminho Em cada sono há uma alma acordada Desnorteada como um burburinho
Ouvi dizer o povo e o povo bem o sabe: “Nem mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe.”
Mal amanhece o horizonte espreita Enquanto espera pelo raiar do dia Já se adivinha o calor que se ajeita E o chão aceita o fim da noite fria
Rir da tristeza, chorar da alegria Abrir caminhos como um peregrino Deixar que a vida traga outro dia Fazer folia a meias com o destino
Ouvi dizer o povo e o povo bem o sabe: “Nem mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe.
Ouvi dizer o povo e o povo bem o sabe: “Nem mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe.”
Letra e música: Sebastião Antunes Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha* Versão discográfica anterior: Sebastião Antunes & Quadrilha com Carlos Moisés (in CD “Perguntei ao Tempo”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2019) Versão original: Quadrilha (in CD “A Cor da Vontade”, Vachier & Associados, 2003) Outra versão: Quadrilha (in CD “Deixa Que Aconteça: Ao Vivo”, Vachier & Associados/Ovação, 2006)
Reciclanda
O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.
Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias.
Contacte-nos:
António José Ferreira 962 942 759
A verdade vem ao de cima
A verdade vem ao de cima e mostra O que em baixo tem, que ao de cima não se gosta A verdade tem algo difícil de atingir Quando em cima há quem, por baixo vem e te faça distrair
A verdade vem ao de cima e mostra A verdade vê e ao de cima há-de vir A verdade vem ao de cima e mostra A verdade vê e ao de cima há-de vir
Quando de baixo vem, tão hibernado e escondido, O desejo de ter e conhecer o proibido Quando a vontade for escorregando a mentir A verdade vê e ao de cima há-de vir
A verdade vem ao de cima e mostra A verdade vê e ao de cima há-de vir A verdade vem ao de cima e mostra A verdade vê e ao de cima há-de vir
E por mais que tentes dar a volta A verdade veio sempre e sempre há-de vir Há-de vir n’outro presente às cambalhotas Noutro presente há-de vir, noutro presente há-de vir
A verdade vem ao de cima e mostra A verdade vê e ao de cima há-de vir A verdade vem ao de cima e mostra A verdade vê e ao de cima há-de vir (bis)
Letra e música: Luís Pucarinho Intérprete: Luís Pucarinho com Duarte (in CD “Orgânica Mente Humana”, Caracol Secreto Associação/Alain Vachier Music Editions, 2015)
Acorda meu sangue preso
[ Cantar para Um Pastor ]
Acorda meu sangue preso Acorda meu sangue mudo Se te amo, não te amo E meu cantar não diz tudo
Meu olhar de madrugada Pastor da noite comprida Luz no peito vigiada Liberdade consentida
Acorda meu sangue preso Rasga o ventre do meu dia Se te amo, não te amo Meu pastor de alegria
Meu pastor de alegria Meu olhar de madrugada Se eu piso campos verdes É sempre noite na estrada
Se te amo, não te amo Meu olhar de madrugada Trago uma pomba de espanto Nesta garganta velada
Poema: Matilde Rosa Araújo Música: Adriano Correia de Oliveira Intérprete: Adriano Correia de Oliveira (in “Cantaremos”, Orfeu, 1970, reed. Movieplay, 1999; “Obra Completa”: CD “A Noite dos Poetas “, Movieplay, 1994)
Acredito em pouca coisa
Acredito em pouca coisa que venha escrita em loiça, dessa de pôr na parede.
Acredito mais no desempenho da laranja que apanho, que como e me mata a sede.
Acredito nas façanhas, muito menos nas patranhas de quem faz só porque sim.
Acredito nas crianças, no meu ventre são esperanças de um futuro sem fim.
Acredito na loucura de quem pede mais ternura e vira costas à guerra.
Acredito na fé dos outros que às vezes abrem poços só para encontrar mais terra.
Acredito no Caetano, no Zambujo que é meu mano, em todas as vozes calmas.
Acredito na poesia e também na aletria, em todos adoçantes de almas.
Acredito na minha mãe, ela que sofreu bem para que eu fosse como sou.
Crente nos frutos e flores, nos mais impossíveis amores, onde o Sol mais brilhar eu estou.
Letra: Celina da Piedade Música: Alex Gaspar Intérprete: Celina da Piedade Versão original: Celina da Piedade (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)
Agora e na Boa Hora
Agora e na boa hora Saio de casa p’ra fora; Quem mal me queira fazer Deus as queira arrepender.
Tenha pernas e não ande! Tenha braços e não mande! Tenha boca e não fale! Tenha olhos e não veja!
Agora e na boa hora Saio de casa p’ra fora; Quem mal me queira fazer Deus as queira arrepender.
Tenha pernas e não ande! Tenha braços e não mande! Tenha boca e não fale! Tenha olhos e não veja!
Agora e na boa hora Saio de casa p’ra fora; Quem mal me queira fazer Deus as queira arrepender.
Tenha pernas e não ande! Tenha braços e não mande! Tenha boca e não fale! Tenha olhos e não veja!
Agora e na boa hora Saio de casa p’ra fora; Quem mal me queira fazer Deus as queira arrepender.
Tenha pernas e não ande! Tenha braços e não mande! Tenha boca e não fale! Tenha olhos e não veja!
Agora e na boa hora Saio de casa p’ra fora; Quem mal me queira fazer Deus as queira arrepender.
Letra: Oração tradicional Música e arranjo: César Prata Intérprete: César Prata e Vânia Couto Versão original: César Prata e Vânia Couto (in CD “Rezas, Benzeduras e Outras Cantigas”, Sons Vadios, 2019)
Águas claras
[ Canção das Águas Claras ]
Águas claras, águas claras Que dos rochedos caíam; Morreram as águas claras Onde os meus sonhos bebiam.
Era o sol, era a lua, Era a flor que aparecia; A solidão da rua Também toda lá bebia.
Agora a mágoa me acena Das minhas mãos agitadas. Quem dera fossem penas Os rochedos de águas claras!
Águas claras, águas claras Que dos rochedos caíam; Morreram as águas claras Onde os meus sonhos bebiam.
Dessa paisagem não sei, Nem a saudade precisa; Coração, eu não parei, Tira-me a hora indecisa!
Do tempo que era quimera, Não quero que tenha fim… Porque é que o tempo não espera, Nem nunca esperou por mim?
Águas claras, águas claras Que dos rochedos caíam; Morreram as águas claras Onde os meus sonhos bebiam.
Águas claras, águas claras Que dos rochedos caíam; Morreram as águas claras Onde os meus sonhos bebiam.
Letra: Joaquim Pedro Gonçalves Música: Ricardo Ribeiro Intérprete: Ricardo Ribeiro Versão original: Ricardo Ribeiro (in CD “Hoje É Assim, Amanhã Não Sei”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2016)
Ai amigos
[ A Lei dos Sentidos ]
Ai amigos… Na ilusão ridícula de sermos imortais e querermos acertar Se inventarmos fugas, ideias e diferenças vão chamar-nos loucos Se fugirmos à norma e pensarmos longe – somos anormais Se sonharmos mar, montanhas e vento – vamos ser tão poucos…
E afinal viver é este tempo breve dado para a memória Uma novela curta que sempre ansiamos de grandes paixões Mas cada um de nós vale muito pouco para as contas da História Somos só formigas enchendo o planeta de tantos milhões
Pequenos demais, vagueando aí, sem esperança nem jeito Buscando a nobreza de um outro sentir, feito de emoções Buscando impossíveis de amor e beleza num tempo perfeito Querendo a felicidade e o sucesso inteiro em vinte lições
Deixem-me sonhar que num tempo novo nascerão do caos O homem completo, a gente bonita, a nação ternura Sem raivas nem ódios, nem fés de rancores, nem dogmas estreitos E que um mundo outro, mais belo e mais pleno, nos nasce e perdura
Um mundo onde os poetas não sejam estudados como anormais E os homens justos e as gentes de estudo sejam distinguidos E a sabedoria seja infinda e livre e nunca demais E então se publique, por decreto urgente – a lei dos sentidos!
Letra e música: Pedro Barroso Intérprete: Pedro Barroso Versão original: Pedro Barroso (in CD “Artes do Futuro”, Ovação, 2017)
Ai levaram-me os temas
[ Caixinha de Mão ]
Ai levaram-me os temas, Os meus longos poemas, As canções de amor
Ai levaram-me os temas, Os meus longos poemas, As canções de amor
Foi o meu menino, chamado Paixão, Que mos levou numa caixinha de mão Para os guardar e depois cantar Se o coração deixar
Foi o meu menino, chamado Paixão, Que mos levou numa caixinha de mão Para os guardar e depois cantar Se o coração deixar
Ai, mas se ele voltasse E ao meu lado se deitasse Ao meu lado a brincar Com a caixinha dos temas
Fazia-me os temas Longas são as histórias de amor Para as guardar e depois cantar Se o coração deixar
Letra e música: Tiago Curado de Almeida Intérprete: Pensão Flor Versão original: Pensão Flor (in CD “O Caso da Pensão Flor”, Pensão Flor/Brandit Music, 2013)
Ali estavas tu
Ali estavas tu olhando à janela, quando voltei já quase dia Da boémia, da boémia e do som. E desceste até à porta, num sorriso maior e num abraço Num abraço sentido
Colaram-se os corpos numa dança, varrendo tudo pelo chão Um aceso rebolar sufocante e o suor em crescente pulsação E a força, o sangue corre num único sentido Algo em mim se vai e morre e me consome morto e vivo
Como quem sabe de cor, puseste-me um cigarro na boca E com amor, um brilho nos olhos Em corpo nu à luz de uma vela, perguntei-te baixinho “Quando voltas? Quando voltas à janela?”
Colaram-se os corpos numa dança, varrendo tudo pelo chão Um aceso rebolar sufocante e o suor em crescente pulsação E a força, o sangue corre num único sentido Algo em mim se vai e morre e me consome morto e vivo
Ali estavas tu olhando à janela, quando voltei já quase dia Da boémia, da boémia e do som. E desceste até à porta, num sorriso maior e num abraço Num abraço sentido Ficaste tu olhando à janela…
Letra e música: Luís Pucarinho Intérprete: Luís Pucarinho (in CD “Orgânica Mente Humana”, Caracol Secreto Associação/Alain Vachier Music Editions, 2015)
Ao correr da queda de água
[ Fraga da Pena ]
Ao correr da queda de água Fui lavar um sentimento: Deixei acalmar a mágoa Enquanto escutava o vento.
A saltar entre os penedos, As águas vão ensinando As lembranças e os segredos Que a serra vai murmurando.
E as penas quem as apaga Para a alma ficar serena? Penas grandes como a fraga São como a Fraga da Pena.
E as penas quem as apaga Para a alma ficar serena? Penas grandes como a fraga São como a Fraga da Pena.
Enquanto a tarde se deita Nas sombras da penedia, A água aos poucos ajeita O raiar do novo dia.
Trigueira de água nos dedos Desce da serra apressada: Vem a cantar pelos penedos Para me saudar à chegada.
Enquanto a noite me afaga, Enquanto a lua me acena, Adormeço ao som da fraga: Ao som da Fraga da Pena.
Enquanto a noite me afaga, Enquanto a lua me acena, Adormeço ao som da fraga: Ao som da Fraga da Pena.
E as penas quem as apaga Para a alma ficar serena? Penas grandes como a fraga São como a Fraga da Pena.
Enquanto a noite me afaga, Enquanto a lua me acena, Adormeço ao som da fraga: Ao som da Fraga da Pena.
Letra: Sebastião Antunes Música: Fernando Pereira Intérprete: Real Companhia com Ana Laíns (in CD “Serranias”, Tê, 2013)
Ao som de uma caixa de música
[ Caixinha de Música ]
Ao som de uma caixa de música acordou João Ao lado do berço um corpo caído, desilusão A casa vazia e no ar um cheiro a solidão Para lá da janela uma visão tão estranha O que terá acontecido?
Como um pássaro que saiu do ninho e esvoaçou João deu a medo alguns passos pelo quarto e sem querer Debruçou o corpo sobre o chão morno e adormeceu Talvez p’ra dormir o seu último sono E o que fica a dizer de…?
João, mais uma vítima nuclear numa casa no meio da cidade Onde só se contavam histórias de mal e de bem João, mais uma vítima nuclear numa casa no meio da cidade Onde só se contavam histórias de realidade
Uma brisa estranha chegou de repente, com sabor a fim E uma noite fria caiu sobre os restos do auge do poder Entre o tudo e o nada ficou uma sombra, uma recordação Talvez algum dia alguém venha a perguntar: “O que terá acontecido?”
Um manto de fumo cobriu a cidade, em forma de adeus Talvez p’ra apagar a última imagem guardada da Terra A tocar no meio do deserto plantado a caixinha ficou Testemunha ingénua das glórias já findas E das marcas da vida
João, mais uma vítima nuclear numa casa no meio da cidade Onde só se contavam histórias de mal e de bem João, mais uma vítima nuclear numa casa no meio da cidade Onde só se contavam histórias de realidade
Letra e música: Sebastião Antunes Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha com João Pedro Pais (in CD “Perguntei ao Tempo”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2019) Versão original: Peace Makers (in single “Caixinha de Música / Recordação de Hiroshima”, Victória Records, 1988) Outra versão: Quadrilha (in CD “Deixa Que Aconteça: Ao Vivo”, Vachier & Associados/Ovação, 2006)
Sebastião Antunes & Quadrilha, Perguntei ao Tempo
Às vezes
Às vezes, dou por mim quase esquecido Suspirando, meio-perdido Sem ninguém p’ra conspirar
Por linhas tortas, Troco as palavras e abro portas Invento frases de lamento Houvesse alguém p’ra duvidar…
Se eu fosse a ti vinha a correr Não vês que em ti eu posso ser A sede ardente de um desejo
Se eu fosse a ti vinha a voar Os pés no ar a querer andar Sentir o corpo a levitar Na febre quente de mais um beijo
Às vezes, dou por mim quase rendido No teu canto preferido A sorte teima em não passar
Mas sou teimoso E fico à espera no mesmo lugar Onde passas sem parar Houvesse alguém p’ra duvidar…
Se eu fosse a ti vinha a correr Não vês que em ti eu posso ser A sede ardente de um desejo
Se eu fosse a ti vinha a voar Os pés no ar a querer andar Sentir o corpo a levitar Na febre quente de mais um beijo
Se eu fosse a ti vinha a correr Não vês que em ti eu posso ser A sede ardente de um desejo
Se eu fosse a ti vinha a voar Os pés no ar a querer andar Sentir o corpo a levitar Na febre quente de mais um beijo
Na febre quente de mais um beijo
Letra e música: Jorge Roque Intérprete: Jorge Roque Versão original: Jorge Roque (in CD “Às Vezes”, Vidisco, 2013)
Baco quando nasceu
[ O Deus de Todo o Vinho ]
Baco quando nasceu Pediu à mãe um copinho E disse: – vou ser deus! Vou ser deus de todo o vinho!
A mãe ficou intrigada Com tanta sabedoria; Baco de cara corada Sabia bem o que queria.
Abençoado tu sejas, Ó vinho mosto de surdos! Diz que dás a vista aos cegos E também a fala aos mudos.
Em vez de leite, bebia Uns copos de vinho tinto; Só chorava de alegria, Que menino tão distinto!
As fraldas eram de parra, Os caracóis cheios de curvas; A chucha uma coisa rara Toda enfeitada com uvas.
Abençoado tu sejas, Ó vinho mosto de surdos! Diz que dás a vista aos cegos E também a fala aos mudos.
Baco lá foi crescendo Por entre copos de vinho, Com os amigos bebendo Pelas tascas do caminho.
Recordando que ao nascer Pediu à mãe um copinho E disse: – vou ser deus! Vou ser deus de todo o vinho!
Abençoado tu sejas, Ó vinho mosto de surdos! Diz que dás a vista aos cegos E também a fala aos mudos.
Letra: José Luís Gordo Música: Carlos Alberto Moniz Intérprete: Carlos Alberto Moniz Versão original: Carlos Alberto Moniz (in Livro/2CD “O Vinho dos Poetas”: CD 1, Carlos Alberto Moniz/Ovação, 2014)
Caem tordos e pardais
[ Perdidos pela Estrada ]
Caem tordos e pardais das varandas, dos telhados Caem todos os normais sem asas levantados Caídos morrem pela rua na tristeza e pela fome Porque as vidas não são as suas e sem vida tudo morre
Quem por ti pensa e vê e te diz como tudo deve ser? Quem a ti te encaminha e faz render? Quem por ti decide, por ti irá viver?
De tão certos e arrumados nas gavetas inventadas Nas varandas e telhados, sem da vida verem nada Seguem do formato o trilho, da moral endiabrada Que se perdem no caminho todos, todos pela mesma estrada
Quem por ti pensa e vê e te diz como tudo deve ser? Quem a ti te encaminha e faz render? Quem por ti decide, por ti irá viver?
Quem por ti… por ti irá viver? E te diz…
Quem por ti decide, por ti irá viver?
Letra e música: Luís Pucarinho Intérprete: Luís Pucarinho (in CD “Orgânica Mente Humana”, Caracol Secreto Associação/Alain Vachier Music Editions, 2015)
Cantiga de Vir ao Mundo
Já sentes em ti o que vais ser Já dormiste um sono profundo Chegou a hora d’amanhecer Deixar p’ra trás a porta do mundo
Vais repousar na estrela-d’alva E dançar a dança dormente Ouro na pele, incenso e salva Desabraçar o ninho mais quente
Tens o sol riscado nas asas Um rei sem roque nem patrão Um deus a quem dei coração A sombra incerta do amor
Serás acaso, serás fronteira Sussurrando temporais Velhas perguntas, luas inteiras Vencendo a sina dos mortais
Tens o sol riscado nas asas Um rei sem roque nem patrão Um deus a quem dei coração A sombra incerta do amor
Letra: Miguel Cardina Música: Pedro Damasceno e Sara Vidal Arranjo: Diabo a Sete e Julieta Silva Intérprete: Diabo a Sete* (in CD “Figura de Gente”, Sons Vadios, 2016)
Carolina, esta cantiga é para ti
[ Quando Nasceste ]
Carolina, esta cantiga é para ti. Um dia desvendarás a poesia que a música esconde. Amo-te. Sinto que o amanhã é ontem e o hoje é a revelação do espírito livre e inquieto.
Música: Ricardo Ribeiro Intérprete: Ricardo Ribeiro (in CD “Largo da Memória”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2013)
Chega-se a este ponto
Chega-se a este ponto em que se fica à espera Em que apetece um ombro o pano de um teatro um passeio de noite a sós de bicicleta o riso que ninguém reteve num retrato
Folheia-se num bar o horário da Morte Encomenda-se um gin enquanto ela não chega Loucura foi não ter incendiado o bosque Já não sei em que mês se deu aquela cena
Já não sei em que mês… Chega-se a este ponto em que se fica à espera
Chega-se a este ponto Arrepiar caminho Soletrar no passado a imagem do futuro Abrir uma janela Acender o cachimbo para deixar no mundo uma herança de fumo
Rola mais um trovão Chega-se a este ponto em que apetece um ombro e nos pedem um sabre Em que a rota do Sol é a roda do sono Chega-se a este ponto em que a gente não sabe
Chega-se a este ponto… Chega-se a este ponto em que a gente não sabe
Chega-se a este ponto… em que se fica à espera Chega-se a este ponto… em que a gente não sabe Chega-se a este ponto… em que se fica à espera
Poema: David Mourão-Ferreira (adaptado) Música: José Mário Branco Intérprete: Camané (in CD “Infinito Presente”, Warner Music, 2015)
Chegámos, tu e eu
[ Cena Final ]
Chegámos, tu e eu, ao fim do jogo O nosso amor morreu, não há mais fogo Eu compreendo… Lamento não poder chorar de raiva Mas entendo
Já palmilhámos juntos muita estrada E agora que estamos no fim da jornada Fica um vazio… Eu não quero mais ser marinheiro No teu navio
No teu navio E ter a vida Por um fio
Não esperes tu de mim que de ti fuja Não gosto de lavar a roupa suja, Fica tão mal… Confesso que nunca pensei ser actor Da cena final
Se há coisa que comigo não resulta É sentir que trago a rédea curta, Eu não aguento… Do que eu gosto mesmo é de ser livre Como o vento
Eu não aguento Quero ser livre Como o vento
Não esperes tu de mim que de ti fuja Não gosto de lavar a roupa suja, Fica tão mal… Confesso que nunca pensei ser actor Da cena final
Se há coisa que comigo não resulta É sentir que trago a rédea curta, Eu não aguento… Do que eu gosto mesmo é de ser livre Como o vento
Eu não aguento Quero ser livre Como o vento
Letra e música: Aníbal Raposo Intérprete: Aníbal Raposo com Vânia Dilac (ao vivo no Teatro da Luz, Lisboa) Versão original: Aníbal Raposo (in CD “Maré Cheia”, Aníbal Raposo/MM Music, 1999)
Cheiro bom
[ Há Vida no Bairro ]
Cheiro bom Risos e gente a conversar
No jardim homens que sabem o que jogar
Há mais um vizinho novo para cantar
A canção marcha que o Bairro há-de ganhar
E tu quem és? De donde vens? Porque não te chegas mais? Vem cá ver, acreditar que as pessoas são bens reais!
Ser feliz é nunca mais voltar a estar só
No jardim falta uma peça ao dominó
Sê mais um para mostrar como se canta em dó
Aprender como se dança sem levantar pó
O que é meu é p’ra dar Deus não quer tralha no Céu Não há nada p’ra guardar Viver já é um troféu
O que é meu é p’ra dar Deus não quer tralha no Céu Não há nada p’ra guardar Viver já é um troféu
Ser feliz é nunca mais voltar a estar só
No jardim falta uma peça ao dominó
Sê mais um para mostrar como se canta em dó
Aprender como se dança sem levantar pó
Letra: Eugénia Ávila Ramos Música: Tiago Oliveira Intérprete: Rua da Lua Versão original: Rua da Lua (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)
Com um copo de vinho
[ A Tua Boca Tem Sabor a Mosto ]
Com um copo de vinho, afogo Esta mágoa de ver-me perdido Por um bago de esp’rança, que provo No lagar do teu corpo despido. És de uma casta que se apanha a gosto: Claretes, verdelhos… A tua boca tem sabor a mosto E a frutos vermelhos. E a fome que te sinto no meu peito Vai morrer de qualquer jeito No balseiro desta vida. Depois, abre-se a porta da adega E o teu corpo já se apega Numa prova de carinho.
Com um copo de vinho, levanto Este brinde ao corpo que canto. Ao teu ombro murmuro baixinho: Este corpo que bebo é vinho.
Com um copo de vinho, aqueço A palavra ternura e teço Estes versos de uva que esmago Com vontade de seres um bago. Beber-te toda neste copo imenso Sentindo que é cedo P’ra te deixar saber que tenho medo Que fujas… E penso: O amor é como o vinho encorpado, Deixa o corpo orvalhado Pelos beijos da manhã. Teu corpo é preciso esconder, Pois só eu posso saber O sabor que o vinho tem. Com um copo de vinho, levanto Este brinde ao corpo que canto. Ao teu ombro murmuro baixinho: Este corpo que bebo é vinho.
Letra: Álamo Oliveira Música: Carlos Alberto Moniz Intérprete: Carlos Alberto Moniz Versão original: Carlos Alberto Moniz (in Livro/2CD “O Vinho dos Poetas”: CD 1, Carlos Alberto Moniz/Ovação, 2014)
Coração Estoirado
[ Coração de Fita-Cola ]
Coração Estoirado, Peito feito mola Pelas ruas a teu lado Colado com fita-cola
Sempre vacilado, Sempre a 100 à hora Sem saber o que fazer Só tu perdes p’la demora
E num beijo longo, só te quero sentir Corro, sinto perigo, paro p’ra fingir
Sente a Solidão, meu corpo no tempo Dá-me a tua mão, meu tormento
Os teus passos mais distantes, Sempre sem saber Se o futuro agora é antes O que mais não posso ter
Saio porta fora Sem saber o que escrever Rasgo a vida e vou-me embora Nas palavras por dizer
E num beijo longo, só te quero sentir Corro, sinto perigo, paro p’ra fingir
Sente a Solidão, meu corpo no tempo Dá-me a tua mão, meu tormento
Sobre a tua mão Escrever o meu nome A palavra mais sincera Antes de a dizer, já era O verbo mais que perfeito Na perfeição desse jeito Com que a tua boca Diz e pede mais Amor
Letra e música: Jorge Roque Intérprete: Jorge Roque Versão original: Jorge Roque (in CD “Às Vezes”, Vidisco, 2013)
Coram de vermelho
[ Damas da Côrte ]
Coram de vermelho As damas de toda a côrte: Seu costume é velho, Não há moda que o troque!
E se por magia Sua pele mudou de cor, Foi amor de um dia, Não dura mas tem sabor…
Casam cinco damas E outras tantas são solteiras; Num amor em chamas As damas são as primeiras!
Damas de cristal, Coração tão valioso, Riso ou castiçal E um olhar mui carinhoso…
Letra e música: José Flávio Martins Intérprete: Senhor Vadio (in CD “Cartas de um Marinheiro”, José Flávio Martins/iPlay, 2013) [>> YouTube] [ao vivo nos estúdios do Porto Canal, 12 Nov. 2013 – a partir de 8′:06” >> Sapo Vídeos] Versão original: Frei Fado d’El Rei (in CD “Danças no Tempo”, Columbia/Sony Música, 1995) [>> YouTube]
Corre a gente decidida
[ A Correr ]
Corre a gente decidida P’ra ter a vida que quer, Sem repararmos que a vida Passa por nós a correr;
Às vezes até esquecemos, Nessa louca correria, Por que motivo corremos E p’ra onde se corria.
Buscando novos sabores Corre-se atrás de petiscos; Quem corre atrás de valores Corre sempre grandes riscos;
E dá p’ra ser escorraçado Correr de forma diferente; Há quem seja acorrentado Por correr contra a corrente.
Num constante corrupio Já nem sequer nos ocorre Que a correr até o rio, Chegando ao mar, também morre;
Ou atrás do prejuízo Ou à frente da ameaça Corremos sem ser preciso: E a correr, a vida passa.
Percorrendo o seu caminho, Correndo atrás dum sentido Há quem dance o corridinho; Eu canto o fado corrido
E o que me ocorre agora P’ra não correr qualquer perigo É correr daqui p’ra fora Antes que corram comigo.
Vou correr daqui p’ra fora Antes que corram comigo!
Letra: Manuela de Freitas Música: Alain Oulman (“O Pião”) Intérprete: Camané (in CD “Infinito Presente”, Warner Music, 2015)
Creio nos anjos
[ Credo ]
Creio nos anjos que andam pelo mundo, Creio na Deusa com olhos de diamantes, Creio em amores lunares com piano ao fundo, Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho que falta mais fecundo De harmonizar as partes dissonantes, Creio que tudo é eterno num segundo, Creio num céu futuro que houve dantes,
Creio nos deuses de um astral mais puro, Na flor humilde que se encosta ao muro, Creio na carne que enfeitiça o além,
Creio no incrível, nas coisas assombrosas, Na ocupação do mundo pelas rosas, Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.
Poema: Natália Correia (in “Sonetos Românticos”, 1990; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias”, 1993) Música: Janita Salomé (in CD “Raiano”, Farol Música, 1994)
Cruzaste horizontes
[ Nas Estradas a Guiar ]
Cruzaste horizontes Entre curvas e montes… Ó emigrante, eu quero apenas te lembrar! Passaste montanhas, Estradas estranhas… Ó emigrante, eu quero apenas te ajudar! Vens de tão longe, guiar bem é teu querer… Há tantas vidas perdidas p’ra recordar… Olha que a ti também te pode acontecer: Na estrada a morte espreita, Não a queiras encontrar! Tens a vida p’ra viver E tantos sonhos p’ra sonhar…
Trazes saudades contigo, vem devagar! Tem cuidado, emigrante, Nas estradas a guiar! Trazes saudades contigo p’ra festejar Tanto tempo ausente, Há sempre tempo p’ra chegar! Tem cuidado, emigrante, Nas estradas a guiar!
Trazes saudades contigo, vem devagar! Tem cuidado, emigrante, Nas estradas a guiar! Trazes saudades contigo p’ra festejar Tanto tempo ausente, Há sempre tempo p’ra chegar! Tem cuidado, emigrante, Nas estradas a guiar!
Cruzaste fronteiras Com tantas canseiras… Ó emigrante, eu quero apenas te ajudar! Vens sorridente, Feliz e tão contente… Ó emigrante, eu quero apenas te lembrar! Há tantas festas, romarias p’ra bailar… A vida são dois dias, não te deixes descuidar! Que tenhas sorte por aqui no teu país! Que sejas bem feliz Nas estradas a guiar! Tens a vida p’ra viver E tantos sonhos p’ra sonhar…
Trazes saudades contigo, vem devagar! Tem cuidado, emigrante, Nas estradas a guiar! Trazes saudades contigo p’ra festejar Tanto tempo ausente, Há sempre tempo p’ra chegar! Tem cuidado, emigrante, Nas estradas a guiar!
Trazes saudades contigo, vem devagar! Tem cuidado, emigrante, Nas estradas a guiar! Trazes saudades contigo p’ra festejar Tanto tempo ausente, Há sempre tempo p’ra chegar! Tem cuidado, emigrante, Nas estradas a guiar!
Trazes saudades contigo, vem devagar! Tem cuidado, emigrante, Nas estradas a guiar! Trazes saudades contigo p’ra festejar Tanto tempo ausente, Há sempre tempo p’ra chegar! Tem cuidado, emigrante, Nas estradas a guiar!
Trazes saudades contigo, vem devagar! Tem cuidado, emigrante, Nas estradas a guiar! Trazes saudades contigo p’ra festejar Tanto tempo ausente, Há sempre tempo p’ra chegar!…
Letra e música: Dino Meira Arranjo: Ramon Galarza Intérprete: Dino Meira (in single “Adeus Paris, Até Lisboa / Nas Estradas a Guiar”, Philips/Polygram, 1983; CD “O Melhor de Dino Meira”, col. Coração Português, Mercury/Universal, 1999; CD “O Melhor de Dino Meira”, Universal, 2007)
Dá-me o amanhã
Dá-me o amanhã Dá-mo, que depois de amanhã já cá não estou Vou na senda dos demais que se perdem
Quero o teu calor Quero o teu ser, o teu eu, o teu haver Quero provar-te e beber a tua dor
Quero-te nos braços Toma-me nos braços, quero as lágrimas que choras Não por mim, mas já que as choras Quero a pele que elas molham E os meus lábios as sorvam Quero o corpo onde moras
Dá-me o amanhã Dá-mo, que depois de amanhã já cá não estou Vou na senda dos demais que se perdem
Quero-te as entranhas Quero-te por dentro e por fora e já agora Quero roubar-te os sentidos Quero-te a ti por inteiro Quero que unamos destinos Quero-te a ti por inteiro Por inteiro
Letra e música: Manuel Maio Intérprete: A Presença das Formigas (in CD “Pé de Vento”, A Presença das Formigas/Careto/XMusic, 2014)
Dança comigo
Dança comigo, morena Leveza de pena Esta dança breve Dança e rodopia Solta-me a alegria De quem nada deve
Acende-me a cara, o rosto Os lábios de mosto Riso de marfim Requebra a cintura Que és a criatura Nascida para mim
Vamos, a dança é louca Dá-me a tua boca Que este beijo é meu Dança comigo amada Eu já estou na escada Que me leva ao céu
Ao som da concertina (Cinturinha fina Pele de cetim) Dança, meu amor Não sei doutra flor Que bem dance assim
Dança com fantasia No fim deste dia Que se vai embora No passo da vida Dancemos querida Que é a nossa hora
Vamos, a dança é louca Dá-me a tua boca Que este beijo é meu Dança comigo amada Eu já estou na escada Que me leva ao céu
Vamos, a dança é louca Dá-me a tua boca Que este beijo é meu Dança comigo amada Eu já estou na escada Que me leva ao céu
Vamos, a dança é louca Dá-me a tua boca Que este beijo é meu Dança comigo amada Eu já estou na escada Que me leva ao céu
Letra e música: Aníbal Raposo (2006-09-26) Intérprete: Aníbal Raposo Versão original: Aníbal Raposo (in CD “Rocha da Relva”, Aníbal Raposo/Global Point Music, 2013)
Das casas que ninguém construiu
Das casas que ninguém construiu me deram esta para morar: ficou-me o céu como tecto e o vento como lençóis… Dos trapos que atiram fora me permitiram um para eu vestir. Das chuvas que caem do tecto do meu lar me consentiram abafos para as quatro estações. (Ah, se não fosse às vezes fazer sol…) Das mulheres que ninguém quer me negaram a última de todas, a última de todas as mulheres! E quando notaram que eu parecia um homem, pois tinha ouvidos para ouvir e olhos para ver, em todas as estradas do mundo me gritaram: — Mendigo, vai ver o fim das estradas todas do mundo!
Poema: Manuel da Fonseca (in “Rosa-dos-Ventos”, Lisboa: Imprensa Baroeth, 1940; “Poemas Completos”, Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958; “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 3.ª edição, Lisboa: Portugália Editora, 1969 – p. 35-36; “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 5.ª edição, Lisboa: Forja, 1975 – p. 58) Música: Paulo Ribeiro Arranjo: Jorge Moniz Intérprete: Paulo Ribeiro Versão original: Paulo Ribeiro (in CD “O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis”, Açor/Emiliano Toste, 2017)
[ O Vagabundo ]
Dás mais um passo no escuro
[ Dalla ]
Dás mais um passo no escuro Sem olhar para trás a pensar Nem anos nem meses, sem contar as vezes Que a vida te olhou a cantar
Passas o circo a correr, A banda sempre a tocar Sem rede e sem chão, agarras a minha mão E pedes p’ra eu te salvar
Se eu fosse um anjo, tu serias Um ser Maior, maior que encanto Cantas a noite em vez do dia Guardas a paz num doce manto Às vezes cantas num leve beijo brando
Lamentas que riam de ti, Pensas diferente e depois Libertas Amor sem qualquer pudor, Singela partilha entre dois A vida passou, e tu já sentes Um pouco mais de solidão Acabas cansado, p’ra sempre roubado Do ouro do teu coração
Se eu fosse um anjo, tu serias Um ser Maior, maior que encanto Cantas a noite em vez do dia Guardas a paz num doce manto Às vezes cantas num leve beijo brando
Letra e música: Jorge Roque Intérprete: Jorge Roque Versão original: Jorge Roque (in CD “Às Vezes”, Vidisco, 2013)
De São Mateus ao Pesqueiro
[ Vinho de Cheiro ]
De São Mateus ao Pesqueiro A recta só tem três curvas; Em São Mateus vinho de cheiro Mas no Pesqueiro é que há uvas.
Porto Martins: uva preta; Biscoitos: chão de verdelho; Da Praia inté à Serreta: Vinho novo, vinho velho.
Vinho de cheiro, Vinho de cheiro, Ai, ai, meu vinho festeiro! Vinho de cheiro, Vinho de cheiro, O povo chama ao terreiro.
‘Tá um sol qu’inté consola, O adro ficou à cunha; Bota aqui mais meia-bola P’rás favas de molho de unha!
Empina o canjirão! Leva à boca a teladeira! O toiro é um malão, Não saias da minha beira!
Vinho de cheiro, Vinho de cheiro, Ai, ai, meu vinho festeiro! Vinho de cheiro, Vinho de cheiro, O povo chama ao terreiro.
Sempre desde pechinchinho Que sonhava ser moleiro: E a mó do meu moinho Só rodava a vinho de cheiro.
P’ra que fosse um matulão Mamãe teve este cuidado: Comi das sopas que dão Ao cavalo quando cansado.
Vinho de cheiro, Vinho de cheiro, Ai, ai, meu vinho festeiro! Vinho de cheiro, Vinho de cheiro, O povo chama ao terreiro.
Nasci no mês de Janeiro, Era um bezerro mamão: Só mamava vinho de cheiro Na teta dum garrafão.
No “Biéxe” comprei uns blue jeans Todos brancos – um brinquinho; Mas ao chupar uns “candins” Borrei as calças de vinho.
Vinho de cheiro, Vinho de cheiro, Ai, ai, meu vinho festeiro! Vinho de cheiro, Vinho de cheiro, O povo chama ao terreiro.
Vinho de cheiro, Vinho de cheiro, Ai, ai, meu vinho festeiro! Vinho de cheiro, Vinho de cheiro, O povo chama ao terreiro.
Letra: Vasco Pereira da Costa Música: Carlos Alberto Moniz Intérprete: Carlos Alberto Moniz Versão original: Carlos Alberto Moniz (in Livro/2CD “O Vinho dos Poetas”: CD 2, Carlos Alberto Moniz/Ovação, 2014)
De um trapo velho
[ Cinco Vidas ]
De um trapo velho fiz cinco saias que querem rodar Num pano branco cosi cinco bolsos para te levar
De saco às costas parti sem saber se ia voltar Cabeça erguida e olhos de quem quer olhar
Pus-te na minha mão cinco dedos para me escapar O mundo deu-me então cinco vidas para me curar
E lá do bolso de trás perguntaste se ainda podias falar Cabeça erguida, respondi: tanto me faz
Pela estrada andei quantas voltas eu dei sem encontrar um motivo para voltar
De um trapo velho fiz cinco saias que querem rodar Num pano branco cosi cinco bolsos para te levar
E lá do bolso de trás perguntaste quando ia parar Cabeça erguida, respondi: até ter paz
Pela estrada andei quantas voltas eu dei sem encontrar um motivo para voltar
tanto me faz até ter paz
Letra: Eugénia Ávila Ramos Música: Tiago Oliveira Intérprete: Rua da Lua Versão original: Rua da Lua (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)
Deixei de olhar p’ra quem fui
[ Cantiga do Tempo Novo ]
Deixei de olhar p’ra quem fui, Do passado estou ausente; Às vezes mais vale a pena Rir de tudo o que faz pena Da alma triste da gente.
Vou lançar mãos à aventura, Correr noutra direcção; Quanto mais nos lamentamos Ainda mais presos ficamos E nos dói o coração.
Quando me ponho a pensar Em alguém que tanto quis, Já não me sento a chorar E até me dá p’ra cantar Modas que um dia lhe fiz.
Agora sinto-me livre, Sem nada p’ra me prender: E vou pela estrada fora Rumo ao sul vou sem demora, Basta o sol p’ra me aquecer.
A nossa vida é um mar Com muitas marés e vagas: Não temos nada a perder, O melhor mesmo é viver Combatendo as nossas mágoas.
Tenho o mundo à minha espera, Há ilhas por descobrir: E há uma vontade nova, Um tempo que se renova, Novo amor que vai surgir.
Letra e música: Paulo Ribeiro Arranjo: Há Lobos Sem Ser na Serra Intérprete: Há Lobos Sem Ser na Serra (in CD “Cantares do Sul e da Utopia”, Há Lobos Sem Ser na Serra/Alain Vachier Music Editions, 2016) Versão original: Paulo Ribeiro com o Grupo Coral e Etnográfico “Os Camponeses de Pias” (in CD “Aqui Tão Perto do Sol”, EMI-VC, 2002) Outra versão de Paulo Ribeiro (in CD “Canções 1998-2002”, Paulo Ribeiro, 2014)
Deixo-te ao postigo
[ Amores de Jericó ]
Deixo-te ao postigo Um lenço e uma rosa; Vou partir p’ra longe, Partir sem demora.
Não chores por mim! Eu não o mereço: Sou sombra fugaz Mas não te esqueço.
Não queiras saber O que eu não te digo: Sou fora-da-lei, Sou mais que um bandido.
Não venhas por mim Que eu não sei amar! Com a faca nos dentes Meu verbo é zarpar.
O Sol já desponta, Vai-se a madrugada: O perigo espreita; Adeus, minha amada!
Não quero teus ais, Ouve o que eu te digo: Ande eu onde andar, Estarás sempre comigo.
Não queiras saber O que eu não te digo: Sou fora-da-lei, Sou mais que um bandido.
Não venhas por mim Que eu não sei amar! Com a faca nos dentes Meu verbo é zarpar.
Não queiras saber O que eu não te digo: Sou fora-da-lei, Sou mais que um bandido.
Não venhas por mim Que eu não sei amar! Com a faca nos dentes Meu verbo é zarpar.
Letra e música: Celina da Piedade e Alex Gaspar Intérprete: Celina da Piedade Versão original: Celina da Piedade (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)
Dizem
Dizem que nunca te amei, Que fui sempre um ‘bon vivant’ E que vou ser sempre assim. Também dizem que sou ‘gay’, Que durmo em qualquer divã Quando a noite chega ao fim.
Dizem que não te mereço, Que p’ra mim tudo tem preço: Sou oferta e oferecido. Dizem que eu ando à mercê, Que não sou o que se vê: Bandido e caso perdido.
Dizem que fui e não vou, Dizem que estive e não estou, Mas que devia ter ido. Também dizem, quando estou, Que o dia bom já passou: Não sou tido nem ouvido.
Dizem uns que outros não dizem, Porque não querem saber Do tanto que há por dizer. Dos tantos que tanto dizem, Nada sabem do que dizem E mais nada vão saber.
Dos tantos que tanto dizem, Nada sabem do que dizem E mais nada vão saber.
Letra: Duarte Música: Carlos da Maia (Fado Perseguição) Intérprete: Duarte* (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018)
Do Cerro venho descendo
[ Piedra y Camino ]
Do Cerro venho descendo, Caminho e pedra; Trago enredada na alma, vida, Uma tristeza.
Acusas de não querer-te, Isso não faço: Talvez não compreendas nunca, vida, Porque me afasto.
É o meu destino, Pedra e caminho; De um sonho longínquo e belo, vida, Sou peregrino.
Por mais que a dita busque, Vivo penando; E quando devo ficar, vida, Eu vou andando.
Às vezes sou como um rio, Chego cantando; E sem que ninguém o saiba, vida, Sigo chorando.
É o meu destino, Pedra e caminho; De um sonho longínquo e belo, vida, Sou peregrino.
Letra e música: Atahualpa Yupanqui Adaptação ao português: Celina da Piedade Intérprete: Celina da Piedade (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016) Versão original: Atahualpa Yupanqui (in LP “Camino del Indio”, RCA Victor (Argentina), 1964; CD “Atahualpa Yupanqui”, Calle Mayor (Espanha), 2017) Outra versão: Mercedes Sosa (in LP “Mercedes Sosa interpreta Atahualpa Yupanqui”, Philips (Argentina), 1977, reed. Universal Music Argentina, 2010)
E o canto de quem dera
[ Quem Dera ]
E o canto de quem dera Não era bem seu canto; Seria profecia… Não era, E fez-se santo…
Quem dera que chovesse E o mar fosse p’ra o céu, P’ra que eu me convencesse A bailar com um só véu!
Misturo a minha espera, Sacudo o meu capote, E na história quem me dera Que o “burro” fosse mote…
Três cantos desta história Ficaram por contar; Só mesmo na memória Quem dera recordar…
Saída de um só dia Com traje a rigor: Quem dera a sinfonia Cantasse a sua cor…
A cor do teu lamento Sem tempo de pensar, A deusa do teu vento Nasceu no teu olhar…
Ah! Se eu soubesse… Ou adormecesse, Voava em tons de azul; Quem dera que eu soubesse…
E se uma quimera Logo me quisesse… Quem dera ela fosse, Na espera que eu soubesse…
E o canto de quem dera Não era bem seu canto; Seria profecia… Não era, E fez-se santo…
Quem dera que chovesse E o mar fosse p’ra o céu, P’ra que eu me convencesse A bailar com um só véu!
Misturo a minha espera, Sacudo o meu capote, E na história quem me dera Que o “burro” fosse mote…
Ah! Se eu soubesse… Ou adormecesse, Voava em tons de azul; Quem dera que eu soubesse…
E se uma quimera Logo me quisesse… Quem dera ela fosse, Na espera que eu…
Ah! Se eu soubesse… Voava em tons de azul, E se uma quimera Na espera que eu…
Ah! Se eu soubesse… Ou adormecesse, Voava em tons de azul; Quem dera que eu soubesse…
E se uma quimera Logo me quisesse… Quem dera ela fosse, Na espera que eu soubesse…
Ah! Se eu soubesse… Ou adormecesse, Voava em tons de azul, Quem dera que eu soubesse…
E se uma quimera Logo me quisesse… Quem dera ela fosse, Na espera que eu…
Ah! Se eu soubesse… Ou adormecesse, Voava em tons de azul; Quem dera que eu soubesse…
E se uma quimera Logo me quisesse… Quem dera ela fosse, Na espera que eu soubesse…
Letra: José Flávio Martins Música: José Flávio Martins e Paulo Coelho de Castro Intérprete: Senhor Vadio (in CD “Cartas de um Marinheiro”, José Flávio Martins/iPlay, 2013)
É ou Não É?
Cos’è, cos’è che fa andare la filanda? È chiara la faccenda son quelle come me.
E c’è, e c’è che ci lascio sul telaio le lacrime del guaio di aver amato te.
É ou não é que o trabalho dignifica? É assim que nos explica o rifão que nunca falha. É ou não é que disto toda a verdade é que só por dignidade, no mundo, ninguém trabalha?
É ou não é que o povo nos diz que não, que o nariz não é feição, seja grande ou delicado? No meio da cara tem por força que se ver mesmo a quem não o meter aonde não é chamado.
E digam lá se é assim ou não é? Ahi l’amore, ai l’amore!… Digam lá se é assim ou não é? Ahi l’amore che cos’è?
Cos’è, cos’è questa grande differenza se non facevi senza di questi occhi miei?
Perchè, perchè nella mente del padrone ha il cuore di cotone la gente come me?
É ou não é que um velho que à rua saia pensa, ao ver a mini-saia: “Este mundo está perdido!”? Mas se voltasse agora a ser rapazote acharia que o saiote é muitíssimo comprido.
É ou não é bondosa a humanidade? Todos sabem que a bondade é que faz ganhar a Céu; Mas a verdade, nua sem salamaleque, tive de a aprender, é que… ai de mim se não for eu!
E digam lá se é assim ou não é? Ahi l’amore, ai l’amore!… Digam lá se é assim ou não é? Ahi l’amore che cos’è?
Letra e música: Alberto Fialho Janes (com versos da versão italiana, intitulada “La Filanda”, escrita por Vito Pallavicini para a cantora Milva, in single “La Filanda / Un Uomo in Meno”, Dischi Ricordi, 1971, LP “La Filanda e Altre Storie”, Dischi Ricordi, 1972) Intérpretes: José Barros & Mimmo Epifani* (ao vivo no Teatro da Luz, Lisboa) Versão discográfica de José Barros & Mimmo Epifani (in CD “Mar da Lua”, José Barros/Tradisom, 2015) Versão original: Amália Rodrigues (in EP “É ou Não É?”, Columbia/VC, 1970; LP “Oiça Lá ó Senhor Vinho”, Columbia/VC, 1971, reed. EMI-VC, 1992; 2LP “O Melhor de Amália: Vol. II – Tudo Isto é Fado”: LP 2, EMI-VC, 1985, reed. EMI-VC, 2000)
Entre Sodoma e Gomorra
Entre Sodoma e Gomorra entrou na cama a barata a virginal favorita que às escondidas me mata
São horas de perder horas ou de minutos apenas Entre Sodoma e Gomorra fui ver o mar a Atenas
Entre Sodoma e Gomorra entrou na cama a barata a virginal favorita que às escondidas me mata
Entre Sodoma e Gomorra somaras a minha vida Barata, minha barata não me deixes à deriva
Entre Sodoma e Gomorra entrou na cama a barata a virginal favorita que às escondidas me mata
São horas de perder horas ou de minutos apenas Entre Sodoma e Gomorra fui ver o mar a Atenas
Poema: José Afonso (in “José Afonso: Textos e Canções”, org. J.H. Santos Barros, Lisboa: Assírio e Alvim, 1983 – p. 321; 3.ª edição revista, org. Elfriede Engelmayer, Lisboa: Relógio d’Água, 2000 – p. 75) Música: João Afonso Lima e Zé Lima Intérprete: João Afonso (in CD “Missangas”, Mercury/Polygram, 1997, reed. Universal Music, 2017) Versão original: José Mário Branco, Amélia Muge e João Afonso (in 2CD “Maio Maduro Maio”: CD 1, Columbia/Sony Música, 1995)
Era redondo o vocábulo
[ Era um Redondo Vocábulo ]
Era redondo o vocábulo Uma soma agreste Revelavam-se ondas Em maninhos dedos Polpas seus cabelos Resíduos de lar Nos degraus de Laura A tinta caía No móvel vazio Convocando farpas Chamando o telefone Matando baratas A fúria crescia Clamando vingança Nos degraus de Laura No quarto das danças Na rua os meninos Brincavam e Laura Na sala de espera Inda o ar educa
Era redondo o vocábulo Uma soma agreste Revelavam-se ondas Em maninhos dedos Polpas seus cabelos Resíduos de lar Nos degraus de Laura A tinta caía No móvel vazio Convocando farpas Chamando o telefone Matando baratas A fúria crescia Clamando vingança Nos degraus de Laura No quarto das danças Na rua os meninos Brincavam e Laura Na sala de espera Inda o ar educa
Poema e música: José Afonso Intérprete: Janita Salomé (ao vivo no Estúdio 3 da Rádio e Televisão de Portugal, Lisboa) Versão anterior de Janita Salomé (in CD “Valsa dos Poetas”, Cantar ao Sol/Ponto Zurca, 2018) Outra versão de Janita Salomé, grav. ao vivo no CCB em 1998 (in CD “Utopia: Vitorino e Janita Salomé cantam José Afonso (ao vivo)”, EMI-VC, 2004) Versão original: José Afonso (in LP “Venham Mais Cinco”, Orfeu, 1973, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art’Orfeu Media, 2012)
Há dias que nascem
[ Às Voltas nas Incertezas ]
Há dias que nascem P’ra não ter um fim Sentidos inversos Cá dentro de mim E vou enganando a dor Fingindo que é mesmo assim
Desejos secretos De cor carmesim Agora vazios Outrora jardins E meus silêncios que escondem O sonho de um querubim
Às voltas nas incertezas Dançando sobre as brasas Que as penas magoadas São ar nas minhas asas E parto rumo a um novo dia Virgem como da primeira vez
Amores que se trazem De pó das estrelas Das cinzas renascem Montados sem selas Que em lume ardendo bem lento Se forjam as almas belas
Às voltas… Às voltas…
Às voltas nas incertezas Dançando sobre as brasas Que as penas magoadas São ar nas minhas asas E parto rumo ao infinito Como se fosse a primeira vez
Letra e música: Rui Filipe Reis Intérprete: Rosa Negra (in CD “Fado Mutante”, iPlay, 2011)
Há um espaço entre tu e eu
[ Orla dos Malditos ]
Há um espaço entre tu e eu Sem esforço sinto-o aqui Em todo o lado Está de vazio ocupado
Espaço de nada, de ricos segredos De histórias, de homens, de medos Inexplorados De curandeiros, de magos
Diria mesmo que é baldio, Nasceu da luxúria, Do fogo, do prazer, do cio, E nada tem de aconchegado
De todos os monstros que vivem, Os mais estranhos habitam ao lado
E há povos malditos, Avós (a vós): filhos proscritos No mar Onde estou
Morrem de esperança, de sede, de fome De enganos, sonhos perdidos Vida encantada Quem mais tem é quem dá nada
Caminho longo com olhares Num horizonte de desejos Promessas de azares Imaginário e real (irreal)
Fronteiras e muralhas guardam Impérios longe da marginal
E há corpos errantes, Desertores, naufragantes No mar Onde vou
Deixa-me ser o teu abrigo, Que te abraça com doçura, Com calma, sem perigo… Como sol quente no fim do Verão
Letra e música: André Cardoso Intérprete: A Presença das Formigas (in CD “Pé de Vento”, A Presença das Formigas/Careto/XMusic, 2014)
Medo
[ Sai da Concha ]
Medo: a forma mais poderosa da crença Crença que é crença dá na TV e toda a gente consome e vê a ameaça, viver em terror
E quando sentes que tu não andas Bem a favor Sê a negra do rebanho do pastor Faz a diferença, sai da concha Sai da concha Sai da concha do medo
Cumpres o dever e vives apático Carregas a crença em piloto automático Todos te abordam em estilo dogmático Porque o medo é um motor
E quando sentes que tu não andas Bem a favor Sê a negra do rebanho do pastor Faz a diferença, sai da concha Sai da concha Sai da concha do medo
Quando tu queres pensar em paz e amor Enfiam-te a lógica do ser sonhador “És um tipo estranho, até me dás graça” Cravam-te o medo na carapaça
E quando sentes que tu não andas Bem a favor Sê a negra do rebanho do pastor Faz a diferença, sai da concha Sai da concha Sai da concha do medo
Jogos, net, drogas, prazer e viv’ó mercado! Vacinam-te na fé que só tu és culpado Tens a doença, tu vives em pecado De novo o medo põe-te ajoelhado
E quando sentes que tu não andas Bem a favor Sê a negra do rebanho do pastor Faz a diferença, sai da concha Sai da concha Sai da concha do medo
‘High society’, gira e boa, famosa, escultural E o lambe-botas que subiu afinal Dizem: “Mas eu não vejo qual é o mal, Subir na vida é natural”
E quando sentes que tu não andas Bem a favor Sê a negra do rebanho do pastor Faz a diferença, sai da concha Sai da concha Sai da concha…
Sai da concha Sai da concha Sai da concha… Sai da concha Sai da concha Sai da concha do medo
Letra e música: Luís Galrito Intérprete: Luís Galrito* (in CD “Menino do Sonho Pintado”, Kimahera, 2018)
Meu menino assustado
[ Menino do Sonho Pintado ]
Meu menino assustado Que tens o céu como tecto Tens estrelas a afagar O sonho por ti pintado
Tens a Lua como mãe Que te aconchega o jornal Conta a história de embalar Desliga a luz infernal
O pai sol de manhã vem Pelo vitral da bonança Que um dia o homem Que é dono da guerra Não roube o teu sonho de criança
O homem da guerra é tramado E difícil de entender Vive também assustado Com o medo de perder
Não vendo que já perdeu O que tu trazes contigo Menino, vês no outro lado Não medo mas um amigo
No Mundo que é de guerra Menino vem ver Todos temos contigo a aprender Que a verdade de ser grande É igual ao grande do teu ser
Ser amor, querer a Paz Apagar o céu riscado Assim tão mal desenhado Com tintas de medo e afins
Meu menino assustado Nesse teu céu desenhado Verás o teu amor sonhado Por ti e outros iguais a ti
O sonho é um menino eternamente menino O sonho é um tesouro antigo repartido por quem precisa O sonho é uma canção feliz para um menino triste
Letra e música: Luís Galrito Intérprete: Luís Galrito (in CD “Menino do Sonho Pintado”, Kimahera, 2018)
Na Machamba
Mariana Maria Madalena Mariana Maria Madalena Por ti, meu amor, dou dois xi-coração Por ti, meu amor, dou dois xi-coração Mariana Maria Madalena Mariana Maria Madalena Por ti, meu amor, dói-dói meu coração Por ti, meu amor, dói-dói meu coração
Desde que você foste embora sono não tem, não, não, não acorda na madrugada o galo cantando co-ri-cô-cô Nos olhos sono que pesa maningue saudade no coração Nos olhos sono que pesa maningue saudade no coração
Mariana Maria Madalena Mariana Maria Madalena Por ti, meu amor, dou dois xi-coração Por ti, meu amor, dou dois xi-coração Mariana Maria Madalena Mariana Maria Madalena Por ti, meu amor, dói-dói meu coração Por ti, meu amor, dói-dói meu coração
Pé no cacimba, vou na machamba sem matubixo Panela de mangungu não tem chicafo, não, não, não ô-ô-i-ô, Maria, meu amor Quando qu’eu zangou eu tinha era só babalaza Quando qu’eu zangou eu tinha era só babalaza
Mariana…
Mariana Maria Madalena Mariana Maria Madalena Por ti, meu amor, dou dois xi-coração Por ti, meu amor, dou dois xi-coração Mariana Maria Madalena Mariana Maria Madalena Por ti, meu amor, dói-dói meu coração Por ti, meu amor, dói-dói meu coração
Mariana Maria Madalena Mariana Maria Madalena Por ti, meu amor, dou dois xi-coração Por ti, meu amor, dou dois xi-coração…
Letra e música: Tomás Vieira Mário Intérprete: João Afonso com Las Hijas del Sol (in CD “Missangas”, Mercury/Polygram, 1997, reed. Universal Music, 2017)
O coração
[ Mano Pedro ]
O coração tem a vista bem virada para o mar Tua mão cheia de areia faz de conta que é luar
Quando o vento se põe lesto faz-te à chuva e ao relento O meu irmão tem um sonho eu tenho-o no pensamento
O silêncio diz às vezes tudo aquilo que guardamos: os receios e os medos e outras coisas que não damos
Quando o céu se torna estrela a brilhar por um momento o meu irmão tem um sonho eu tenho-o no pensamento
Quando procuro guarida nas canções, no desabafo a dançar ao fim do dia no guardar do teu abraço
Pensar na cor da janela p’ra cantar, fazer em verso O meu irmão tem um sonho eu tenho-o no pensamento
Eu tenho-o no pensamento Eu tenho-o no pensamento Eu tenho-o no pensamento
Letra e música: João Afonso Lima Intérprete: João Afonso (in CD “Missangas”, Mercury/Polygram, 1997, reed. Universal Music, 2017)
João Afonso
Os Homens Mais Velhos do Bar
Os homens mais velhos do bar fazem lembrar os sinais do entardecer Como um dia que já passou mas que deixou tanta coisa por fazer Os homens mais velhos do bar entre cigarros e copos sem graça Vêem as gaiatas passar – a noite é que já nunca passa.
Os homens mais velhos do bar contam histórias quando o Outono vem Andaram por longe, eu sei lá, e há coisas que não vão contar a ninguém Os homens mais velhos do bar sabem que a vida já não lhes diz que sim P’ra os outros o bar está a fechar mas p’ra eles o bar não tem fim.
Senta-te aqui à minha frente Tenho uma história p’ra te contar Ficava triste se tu não tivesses Vontade de aqui ficar Vou-te falar de um lobo sozinho Que se apaixonou p’la lua-cheia E ainda tem um lugar vago Na cama que a lua não quis.
Os homens mais velhos do bar sabem que as nuvens são como a solidão Que às vezes parecem partir mas voltam sempre lá p’ra o fim do Verão Aos homens mais velhos do bar é a noite quem lhes afaga a mão Companheira que não tem destino mas que acaba sempre por ter razão.
O tempo é um doido a correr, a manhã está longe e não quer voltar Há muito que assim passou a ser p’ra quem pensa que assim vai passar E há tantos que não querem saber dos homens mais velhos do bar É que são mais os que se afogam num copo do que aqueles que se afogam no mar.
Senta-te aqui à minha frente Tenho uma história p’ra te contar Ficava triste se tu não tivesses Vontade de aqui ficar Vou-te falar de um lobo sozinho Que se apaixonou p’la lua-cheia Que ainda tem um lugar vago Na cama que a lua não quis.
Letra e música: Sebastião Antunes Arranjo: Gonçalo Pratas Intérprete: Sebastião Antunes (in CD “Singular”, Sebastião Antunes & Quadrilha/Alain Vachier Music Editions, 2017) Versão original: Quadrilha (in CD “Até o Diabo se Ria”, Polydor/Polygram, 1995)
Quando ela passa
[ Rosinha dos Limões ]
Quando ela passa, Franzina e cheia de graça, Há sempre um ar de chalaça No seu olhar feiticeiro; Lá vai catita, Cada dia mais bonita… E o seu vestido de chita Tem sempre um ar domingueiro.
Passa ligeira, Alegre e namoradeira, A sorrir p’rá rua inteira Vai semeando ilusões; Quando ela passa, Vai vender limões à praça… E até lhe chamam, por graça, A Rosinha dos limões.
Quando ela passa, Junto da minha janela, Meus olhos vão atrás dela Até ver da rua o fim; De ar gaiato, Ela caminha apressada Rindo por tudo e por nada… E às vezes sorri para mim.
Quando ela passa, Apregoando os limões, A sós com os meus botões No vão da minha janela, Fico pensando Que qualquer dia, por graça, Vou comprar limões à praça E depois caso com ela.
Quando ela passa, Apregoando os limões, A sós com os meus botões No vão da minha janela, Fico pensando Que qualquer dia, por graça, Vou comprar limões à praça E depois caso com ela.
Letra e música: Artur Ribeiro Intérprete: Real Companhia (in CD “Orgulhosamente Nós!”, Lusogram, 2000) Versão original: Artur Ribeiro (in single 78 r.p.m. “A Rosinha dos Limões / Canção da Beira”, Estoril, 1951; CD “Rosinha dos Limões (Original)”, Discoteca Amália, 1993) Primeira versão de Max (in single 78 r.p.m. “Ilha da Madeira / A Rosinha dos Limões”, Columbia/VC, 1954) Segunda versão de Max (in EP “Vielas de Alfama”, Decca/VC, 1967; CD “O Melhor de Max”, EMI-VC, 1989; CD “Max: Biografias do Fado”, EMI-VC, 2004; CD “Max: Essencial”, Edições Valentim de Carvalho/CNM, 2014)
Quando for grande
[ Carteiro em Bicicleta ]
Quando for grande vou ser quero ser um realejo ter um pedaço de terra fogo que salta ao braseiro dormir no fundo da serra quero ser um realejo
Carteiro em bicicleta leva recados de amor Vem o sono com a música ao som do… do realejo
Quando for grande vou ser quero ser um realejo ter um burro, viola e cão chamar a dança dos sapos correr com a bola na mão quero ser um realejo
Quando for grande vou ser quero ser um realejo colher amêndoa em telhados dar banana às andorinhas dobrar o cabo do mundo quero ser um realejo
Carteiro em bicicleta leva recados de amor Vem o sono com a música ao som do… do realejo
Quando for grande vou ser quero ser um realejo ter um burro, viola e cão chamar a dança dos sapos correr com a bola na mão quero ser um realejo
Carteiro em bicicleta leva recados de amor Vem o sono com a música ao som do… do realejo
Letra e música: João Afonso Lima Intérprete: João Afonso (in CD “Missangas”, Mercury/Polygram, 1997, reed. Universal Music, 2017)
João Afonso
Que faz o sol?
[ Eu Não Sei Que Faz o Sol ]
Que faz o sol? Que faz o sol? Que faz o sol? Que faz o sol?
Eu não sei que faz o sol que não dá na minha rua Hei-de me vestir de branco que de branco anda a lua
Não vi ribeira sem água nem praça sem pelourinho nem donzelas sem amores nem padres sem beber vinho
Que faz o sol? Que faz o sol? Que faz o sol? Que faz o sol?
Lindos olhos de pau-preto nariz de pena aparada dentes de letra miúda boca de carta cerrada
Lindos olhos tem a cobra quando olha de repente Mais vale um bom desengano que andar enganado sempre
Eu não sei que faz o sol que não dá na minha rua Hei-de me vestir de branco que de branco anda a lua
Não vi ribeira sem água nem praça sem pelourinho nem donzelas sem amores nem padres sem beber vinho
Que faz o sol? Que faz o sol? Que faz o sol? Que faz o sol?
Lindos olhos de pau-preto nariz de pena aparada dentes de letra miúda boca de carta cerrada
Lindos olhos tem a cobra quando olha de repente Mais vale um bom desengano que andar enganado sempre
Que faz o sol? Que faz o sol?
Mais vale um bom desengano que andar enganado sempre que andar enganado sempre que andar enganado sempre
Poema: José Afonso (in “José Afonso: Textos e Canções”, 2.ª edição revista e aumentada, org. Elfriede Engelmayer, Lisboa: Assírio e Alvim, 1988 – p. 289; 3.ª edição revista, org. Elfriede Engelmayer, Lisboa: Relógio d’Água, 2000 – p. 48) Música: João Afonso Lima Intérprete: João Afonso (in CD “Missangas”, Mercury/Polygram, 1997, reed. Universal Music, 2017)
José Afonso
Quem Não Tem Amor Sou Eu!
Quem não tem amor sou eu, Da rapaziada solteira; Vivo muito satisfeito Se nunca encontrar quem me queira.
I
Ainda nunca encontrei Raparigas a meu jeito; Todas me encontram defeito, Por isso é que não casei. Já algumas namorei, De que lado venho eu? Essa que a honra perdeu, Para mim não tem valia; Dos rapazes da freguesia, Quem não tem amor sou eu.
II
Há muito rapaz casado Que foi comigo ao sorteio; Eu digo e não me arreceio: Não quero mudar de estado Para não ser censurado, Por usar barba ou pêra; E se calho com uma zopeira Que não me sabe respeitar, Sou dos que fico a pensar, Da rapaziada solteira.
III
Muitos que vivem isentos, Até à hora de casar, Sua honra vão estragar Ao risco dos casamentos: Andam porcos e sebentos, Elas não lhes têm respeito; Tratam-nos com certo jeito, Sempre de tira-virão; Gabo-lhe opinião, Vivo muito satisfeito.
IV
Se eu soubesse que encontrava Uma séria rapariguinha, Mesmo pobre e honradinha, Com isso me contentava. Se vou calhar com uma diaba Que tenha a poltrona inteira, Seja porca ou caloteira, Que ninguém lhe dê capotes; É uma das melhores sortes Se nunca encontrar quem me queira.
Quem não tem amor sou eu, Da rapaziada solteira; Vivo muito satisfeito Se nunca encontrar quem me queira.
Letra: Popular Música: José Manuel David Intérprete: Pedro Mestre (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015) Outra versão de Pedro Mestre (in DVD “No CCB: Pedro Mestre & Convidados”, Pedro Mestre, 2017)
Se abana a casa
[ O Dito por Não Dito ]
Se abana a casa, o pardal acorda, sacode a asa e não volta.
Se o mar devolve gente, em vez de peixe, há quem feche a porta e não deixe.
Que o tempo engana e a chuva molha, mas é gente humana que para ti olha.
Que eu não era assim, foi o stress, vida ruim que tudo esquece.
Se abana a casa, o pardal acorda, sacode a asa e não volta.
Se o mar devolve gente, em vez de peixe, há quem feche a porta e não deixe.
Que o tempo engana e a chuva molha, mas é gente humana que para ti olha.
Que eu não era assim, foi o stress, vida ruim que tudo esquece.
Custa muito ver o mundo estar tão perto da vista, essa turva luz ao fundo nem parece água lisa.
E esta Europa unida, tresmalhadita, lembra cabra tosquiadita.
E se o mundo não é perfeito, à portuguesa dá-se-lhe um jeito.
Se abana a casa, o pardal acorda, sacode a asa e não volta.
Se o mar devolve gente, em vez de peixe, há quem feche a porta e não deixe.
Que o tempo engana e a chuva molha, mas é gente humana que para ti olha.
Que eu não era assim, foi o stress, vida ruim que tudo esquece.
Se abana a casa, o pardal acorda, sacode a asa e não volta.
Se o mar devolve gente, em vez de peixe, há quem feche a porta e não deixe.
Que o tempo engana e a chuva molha, mas é gente humana que para ti olha.
Que eu não era assim, foi o stress, vida ruim que tudo esquece.
Que o tempo engana e a chuva molha, mas é gente humana que para ti olha.
Que eu não era assim, foi o stress, vida ruim que tudo esquece.
Que eu não era assim, foi o stress, vida ruim que tudo esquece.
Eu não era assim, foi o stress, vida ruim que tudo esquece.
Letra e música: José Barros Arranjo: José Barros Intérprete: José Barros e Navegante Versão original: José Barros e Navegante (in CD “À’Baladiça”, Tradisom, 2018)
Se o som vier
[ N’um Dôci Abraçu (eterno vacilar) ]
Se o som vier De dentro da alma Então será Tão vivo que acalma
O céu e o mar O Sol e a Lua Insinuação Paixão nua e crua
Um balanceio capaz de me levar À ida Uma lembrança que me faz regressar A esta vida N’um dôci abraçu di’ amor i di’ paz O tempo vem e volta a partir
Entre o ir e vir eu estou, eu venho e vou Com vontade de voltar Ai esta ventura assim, de ir e vir Neste eterno vacilar Entre o ir e vir eu estou, eu venho e vou Com vontade de voltar Ai esta ventura assim, de ir e vir E num verso me inventar
Já m’ bá, já m’ bem, já m’ bá e torná bem Lai a, lai a, lai a
Nasci na praia E aí me criei, ‘nha terra E foi nas ondas Que eu me embalei
Foi o meu pai Um fogo que ardia E a ‘nha mãe Fazia o que queria
A morna é mistura de calor E frio Um velho fado que ainda tem sabor A desvario N’um dôci abraçu di’ amor i di’ paz O tempo vem e volta a partir
N’um dôci abraçu di’ amor i di’ paz La la, lai a, lai a N’um dôci abraçu di’ amor i di’ paz La la, lai a, lai a N’um dôci abraçu di’ amor i di’ paz La la, lai a, lai a N’um dôci abraçu di’ amor i di’ paz La la, lai a, lai a
Letra: J.J. Galvão (José João Oliveira Galvão) Música: Rui Filipe Reis Intérprete: Rosa Negra com Rita Lobo (in CD “Fado Mutante”, iPlay, 2011)
Sentir a dolência das águas
[ Calçada Esquecida ]
Sentir a dolência das águas, Saber o caminho da foz E o sol que se deita nas mágoas De um cais que se lembra de nós.
Subir a calçada esquecida, Guardar um olhar indiferente, Ouvir a conversa da vida, Falar desta vida da gente.
Sorrir, Pois sabe sempre bem lembrar; Não vale a pena esquecer, Mesmo que doa recordar; São lembranças Que aconchegam as ternuras: Ternuras da calçada esquecida Que dão um sorriso ao passar.
Mas sorrir, Pois sabe sempre bem lembrar; Eu que nem vou tentar esquecer, Mesmo que doa recordar; São lembranças Que aconchegam as ternuras: Ternuras que a calçada esquecida Me ajuda a lembrar.
Mas sorrir, Pois sabe sempre bem lembrar; Eu que nem vou tentar esquecer, Mesmo que doa recordar; São lembranças Que aconchegam as ternuras: Ternuras que a calçada esquecida Me ajuda a lembrar.
Letra: Sebastião Antunes Música: Carlos Lopes (Fado Bisnaga) Intérprete: Rua da Lua (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)
Sou formiga
[ Assim Sou Eu ]
Sou formiga, sou cigarra Sou cantiga, pinto a manta, faço a farra Sou a lebre e a tartaruga Sou de raça, estou em brasa, vou à luta Sou bichinho bem manhoso Poderoso e preguiçoso Com franqueza e arredia Sou tristeza e alegria Sou chorona, está na palma Rezingona, perco a calma Sou destino ensarilhado Diz a linha do meu fado
Sei que assim sou eu Sei lá eu porque sou assim Está-se mesmo a ver Sempre assim vou ser Está dentro de mim Eu ser assim
Sou areia, sou granito Fico cheia, sou “o bom e o bonito” Sou canseira, sou de gancho Parideira, só de filhos faço um rancho D’ir à luta tenho ganas Contra gregas e troianas Lusitana, luzidia Sou beleza e ousadia Sou mandona, está na alma Rezingona, perco a calma Tudo muito complicado Diz a letra do meu fado
Sei que assim sou eu Sei lá eu porque sou assim Está-se mesmo a ver Sempre assim vou ser Está dentro de mim Eu ser assim
Sei que assim sou eu Sei lá eu porque sou assim Está-se mesmo a ver Sempre assim vou ser Está dentro de mim Eu ser assim
Ser assim Ser assim Ser assim Ser assim
Letra: António Avelar de Pinho Música: João Gil Intérprete: Celina da Piedade (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)
Tinha uma história que nunca contava
[ Quando a Noite Já Ia Serena ]
Tinha uma história que nunca contava Trazia um quarto fechado no olhar E uma viagem que planeava mas não começava Para nunca acabar Tinha um sorriso guardado em segredo Mas não sorria p’ra não o contar Tinha uma chave que fechava o medo Nalgum arvoredo onde não queria entrar E quando a noite já ia serena Disse-me a frase mais terna que ouvi: “Valeu a pena, mesmo que o fim da história seja aqui.”
Tinha uma nuvem da cor do mistério Tinha palavras da cor do saber Tinha vontades de brincar a sério Mudar de hemisfério para não se perder Tinha a lembrança da cor do poente Tinha um poente inteiro no falar Guardava o sol num esconderijo ardente Tão quente, tão quente, já quase a queimar
E quando a noite já ia serena Disse-me a frase mais terna que ouvi: “Valeu a pena, mesmo que o fim da história seja aqui.”
Trazia a paz de uma dor que se apaga E um calor que se quer apagar Como quem grita do alto da fraga Que a vida nos traga distância p’ra andar Deixou correr o licor dos sentidos Até que o dia nos veio acordar De mãos trocadas, de braços caídos Achados perdidos
Veio a manhã, levezinha e serena Cantar-me a frase mais terna que ouvi: “Valeu a pena, mesmo que o fim da história seja aqui.” Veio a manhã, levezinha e serena Cantar-me a frase mais terna que ouvi: “Valeu a pena, mesmo que o fim da história seja aqui.”
Letra e música: Sebastião Antunes Arranjo: Sebastião Antunes Intérprete: Sebastião Antunes com Tito Paris (in CD “Com Um Abraço”, Vachier & Associados, 2012; CD “Singular”, Sebastião Antunes & Quadrilha/Alain Vachier Music Editions, 2017)
Toma lá colchetes d’oiro
[ Prima da Chula ]
Toma lá colchetes d’oiro Aperta o teu coletinho Coração que é de nós dois Tem de andar conchegadinho
Por um olhar dos teus olhos Dera da vida a metade Por um riso dera a vida Por um beijo a eternidade
Aqui estou à tua porta Como um feixinho de lenha À espera da resposta Que dos teus olhos me venha
O dia tem duas horas Duas horas não tem mais Uma é quando vos vejo Outra quando me lembrais
Se tudo me foi vedado Se vivi de tudo à míngua Deixai que vos mostre a língua Com o freio bem cortado
A rica tem nome fino A pobre tem nome grosso A rica teve um menino A pobre pariu um moço
Letra: Popular e António Aleixo Música: Trovante Intérprete: Trovante (in “Baile no Bosque”, 1981; reed. EMI-VC, 1988)
Vai de Roda
Vai de roda, vai de roda, Vai de roda que é tão breve; Tenho uns amigos na roda, Tenho uns amigos na roda, Deixam a roda mais leve.
Vai de roda, vai de roda, Vai de roda alguns amores; Quantos mais amores na roda, Quantos mais amores na roda Mais te perseguem as dores.
Vai de roda, vai de roda, Vai de roda até ao fim; Já tentei fugir da roda, Já tentei fugir da roda Mas ela rodou por mim.
Vai de roda, vai de roda, Vai de roda sem parar; Quem nunca esteve na roda, Quem nunca esteve na roda Não pode a roda enganar.
Vai de roda, vai de roda, Vai de roda até ao fim; Já tentei fugir da roda, Já tentei fugir da roda Mas ela rodou por mim.
Vai de roda, vai de roda, Vai de roda sem parar; Quem nunca esteve na roda, Quem nunca esteve na roda Não pode a roda enganar.
Vai de roda, vai de roda, Vai de roda sem parar; Quem nunca esteve na roda, Quem nunca esteve na roda Não pode a roda enganar.
Letra e música: Duarte (Outubro de 2010) Intérprete: Duarte com Mara (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018) Versão original: Duarte (in CD “Sem Dor Nem Piedade”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2015)
Vai Tão Sozinho
Vai, menino, vai! Cuida do teu fulgor! Cuida de ti, amor!
Vai, segue o rumo das estrelas Que, caindo, se centelham Em faúlhas de mil cores!
Vai, menino, vai, Brilho que o mundo tem! Cuida de ti, meu bem!
És como sol a dar na eira! Branca flor, és cerejeira que eu rego ao cantar!
(Ao meu benzinho faz chegar Formoso melro este cantar)
Vai tão sozinho… Vai devagarinho sem saber…
Vai, menino, vai, Brilho que o mundo tem! Cuida de ti, meu bem!
És como sol a dar na eira! Branca flor, és cerejeira que eu rego ao cantar!
(Ao meu benzinho faz chegar Formoso melro este cantar)
(Ao meu benzinho faz chegar Formoso melro este cantar)
Vai tão sozinho… Vai devagarinho sem saber…
Letra e música: Manuel Maio Intérprete: A Presença das Formigas (in CD “Pé de Vento”, A Presença das Formigas/Careto/XMusic, 2014)
A Presença das Formigas, Pé de Vento
Vejam Bem
Vejam bem que não há só gaivotas em terra quando um homem se põe a pensar quando um homem se põe a pensar
Quem lá vem dorme à noite ao relento n’areia dorme à noite ao relento no mar dorme à noite ao relento no mar
E se houver uma praça de gente madura e uma estátua e uma estátua de febre a arder
Anda alguém pela noite de breu à procura e não há quem lhe queira valer e não há quem lhe queira valer
Vejam bem daquele homem a fraca figura desbravando os caminhos do pão desbravando os caminhos do pão
E se houver uma praça de gente madura ninguém vem levantá-lo do chão ninguém vem levantá-lo do chão
Vejam bem que não há só gaivotas em terra quando um homem quando um homem se põe a pensar
Quem lá vem dorme à noite ao relento n’areia dorme à noite ao relento no mar dorme à noite ao relento no mar
Vejam bem que não há só gaivotas em terra quando um homem se põe a pensar quando um homem se põe a pensar
Quem lá vem dorme à noite ao relento n’areia dorme à noite ao relento no mar dorme à noite ao relento no mar
E se houver uma praça de gente madura e uma estátua e uma estátua de febre a arder
Anda alguém pela noite de breu à procura e não há quem lhe queira valer e não há quem lhe queira valer
Letra e música: José Afonso Intérprete: José Afonso (in LP “Cantares do Andarilho”, Orfeu, 1968, 1970, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art’Orfeu Media, 2012)
Vinha com a minha toada
[ Com a Minha Toada ]
Vinha com a minha toada entretida na viola Mas quando penso o que penso com a vertigem duma história fico apenas com a minha toada fico apenas com a minha toada
Janela aberta e o pastor dormia O tempo inerte sob o sol sumia e beijo a moça num lençol de rio e beijo a moça num lençol de rio
Andam cavalos pintados no campo, numa lagoa O sonho pertence à tel e alguém desenha que voa Fico apenas com a minha toada Fico apenas com a minha toada
Janela aberta e o pastor dormia O tempo inerte sob o sol sumia e beijo a moça num lençol de rio e beijo a moça num lençol de rio
A moldura sem retrato recua pr’além Protesto, mundo errado que este mundo tem
A moldura sem retrato recua pr’além Protesto, mundo errado que este mundo tem
Letra e música: João Afonso Lima Intérprete: João Afonso (in CD “Missangas”, Mercury/Polygram, 1997, reed. Universal Music, 2017)
Ai de mim que me perdi Pelos caminhos do tédio Perdi-me, cheguei aqui Agora não tem remédio
Ai de mim que me perdi Perdi-me no fim da estrada Ai de mim porque vivi A vida desencontrada
Tantos caminhos andados Não fui eu que os descobri Foram meus passos mal dados Que me trouxeram aqui
Perdida me acho da vida E a vida já me perdeu Ando na vida perdida Sem saber quem a viveu
Por mais que queira encontrar A razão do meu viver A razão de cá andar Não posso compreender
Que culpa tem o destino Dos caminhos que eu andei? Fui eu no meu desatino Que andei e não reparei
Perdida estou sem remédio Meu pecado e meu castigo Pecado é morrer de tédio Castigo é viver contigo
Por mais que queira encontrar A razão do meu viver A razão de cá andar Não posso compreender
Não posso compreender A razão de cá andar A razão do meu viver Não posso compreender
Poema: Amália Rodrigues (ligeiramente adaptado) Música: Amélia Muge Arranjo: José Mário Branco Intérprete: Amélia Muge (in CD “Amélia com Versos de Amália”, Amélia Muge/Leve Music, 2014)
Alguém que Deus já lá tem
[ Fado Malhoa ]
Alguém que Deus já lá tem Pintor consagrado Que foi bem grande e nos dói Já ser do passado Pintou numa tela Com arte e com vida A trova mais bela Da terra mais querida
Subiu a um quarto que viu à luz do petróleo E fez o mais português dos quadros a óleo Um Zé de samarra co’amante a seu lado Com os dedos agarra Percorre a guitarra e ali vê-se o fado
Faz rir a ideia de ouvir com os olhos, senhores Fará, mas não p’ra quem já o viu, mas em cores Há vozes de Alfama naquela pintura E a banza derrama canções de amargura
Dali vos digo que ouvi a voz que se esmera O som dum faia banal, cantando a Severa Aquilo é bairrista, aquilo é Lisboa Boémia e fadista Aquilo é da artista, aquilo é Malhoa
Letra: José Galhardo Música: Frederico Valério
Reciclanda
O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.
Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.
Contacte-nos:
António José Ferreira 962 942 759
Ando na vida à procura
[ Triste Sorte ]
Ando na vida à procura Duma noite menos escura Que traga luar do céu, Duma noite menos fria Em que não sinta agonia Dum dia a mais que morreu.
Vou cantando amargurado, Vou dum fado a outro fado Que fale dum fado meu: Meu destino assim cantado Jamais pode ser mudado Porque do fado sou eu.
Ser fadista é triste sorte Que nos faz pensar na morte E em tudo que em nós morreu, E andar na vida à procura Duma noite menos escura Que traga luar do céu.
Letra: João Ferreira-Rosa Música: Alfredo Duarte “Marceneiro” (Fado Cravo) Intérprete: Camané Versão discográfica anterior de Camané (in CD/DVD “Infinito Presente”, Warner Music, 2015)
Outras versões: Camané (in 2CD “Como Sempre… Como Dantes”: CD 1 – “Como Sempre: Ao Vivo em Palco”, EMI-VC, 2003); Camané (in 2CD “Como Sempre… Como Dantes”: CD 2 – “Como Dantes: Ao Vivo no Embuçado”, EMI-VC, 2003); Camané (in DVD “Ao Vivo no S. Luiz”, EMI, 2006); Camané (in CD/DVD “Ao Vivo no Coliseu: Sempre de Mim”, EMI, 2009; 2CD “Camané: O Melhor 1995-2013 (Edição Especial)”: CD 1, EMI, 2013)
Versão original: João Ferreira-Rosa (in EP “Embuçado”, Columbia/VC, 1965; CD “Embuçado” (compilação), EMI-VC, 1988, reed. Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; 2CD “Ontem e Hoje”: CD 1, EMI-VC, 1996; CD “O Melhor de João Ferreira-Rosa”, Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008; CD “João Ferreira-Rosa: Essencial”, Edições Valentim de Carvalho/CNM, 2014)
Outras versões: João Ferreira-Rosa (in LP “Fado”, Imavox, 1978); João Ferreira-Rosa (in CD “No Wonder Bar do Casino Estoril”, Ovação, 2004)
Bendita esta forma de vida
[ Bendito Fado, Bendita Gente ]
Intérprete: Mafalda Arnauth
Chegaste a horas
[ Leva-me aos fados ]
Intérprete: Ana Moura
Convém que seja moderno
[ Que Fado É Esse, Afinal? ]
Convém que seja moderno, Ritmado sem critério E fácil de consumir; Que não deixe de imitar As modas que estão a dar, Que não ouse resistir.
Convém que não seja triste, Que se venda, que se lixe O valor do seu passado; Que se sirva ao desbarato Como um hambúrguer no prato, Produto pré-fabricado.
Convém que seja feliz, Não importa o que se diz Se agradar a toda a gente; Que a nada diga respeito, Seja a música um efeito E a palavra indiferente.
Convém que seja educado, Que se cante em qualquer lado, Popular, comercial. Mas quando o oiço cantar, Só me resta perguntar: Que Fado é esse, afinal?
Mas quando o oiço cantar, Só me resta perguntar: Que Fado é esse, afinal?
Letra: Duarte Música: José Mário Branco (Fado Gripe) Intérprete: Duarte (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018)
Deixa Que te Cante um Fado
Deixa que te cante um fado, Ao menos de vez em quando! Deixa que te cante um fado Como quem reza chorando!
Deixa que te cante um fado Que me fale sempre em ti! Cantarei de olhos cerrados, Os olhos com que te vi.
Deixa que te cante um fado, Mesmo sem fé ou sem arte! Se nunca pude esquecer-te É que não posso deixar-te.
Deixa que te cante um fado! Todo o meu sonho está nisto: Que depois de o ter cantado Te lembres que ainda existo.
Poema: Pedro Homem de Mello Música: José Marques do Amaral (Fado José Marques do Amaral) Intérprete: Tereza Tarouca (in EP “Fados (Fado das Faias)”, RCA Victor, 1963; LP “Os Melhores Fados de Tereza Tarouca”, RCA Camden, 1978)
Descalço, venho dos confins da infância
[ Entrega ]
Descalço, venho dos confins da infância Que a minha infância ainda não morreu. Atrás de mim em face ainda há distância, Menino Deus, Jesus da minha infância, Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu!
Venho da estranha noite dos poetas, Noite em que o mundo nunca me entendeu. Vê, trago as mãos vazias dos poetas, Menino Deus, amigo dos poetas, Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu!
Feriu-me um dardo, ensanguentei as ruas Onde o demónio em vão me apareceu. Porque as estrelas todas eram suas, Menino irmão dos que erram pelas ruas, Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu!
Quem te ignorar ignora bem os que são tristes Ó meu irmão Jesus, triste como eu. Ó meu irmão, menino de olhos tristes, Nada mais tenho além dos olhos tristes Mas o que tenho, e nada tenho, é teu!
Poema: Pedro Homem de Mello Música: Carlos Gonçalves Intérprete: Ricardo Ribeiro Primeira versão discográfica de Ricardo Ribeiro (in CD “Largo da Memória”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2013) Versão original: Amália Rodrigues (in LP/CD “Obsessão”, EMI-VC, 1990, reed. Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
Desdenharam-me, bem sei
[ Fado Lenitivo ]
Desdenharam-me, bem sei, Quando um dia comecei A cantar sofrida o fado; Não sabiam o motivo: É que o fado é lenitivo D’um coração torturado.
Ao ver de todo perdidas, As minhas esperanças mais queridas, Senti, fui talvez pisada; E era doce companhia Para a minha melancolia O chorar d’uma guitarra.
Amarguras e cansaços, A minha dor em pedaços Eu vou esquecendo a cantar; E nos queixumes do fado, Já nem sei se é um trinado Se a minh’alma a soluçar.
Sei que me ouves lamentando, As mágoas que vou cantando Só tu podes entender; Vou meu fado dedicar-te: Uma dor que se reparte Não custa tanto a sofrer.
Letra: Fernanda Santos Música: Helena Moreira Vieira Intérprete: Tânia Oleiro (in CD “Terços de Fado”, Museu do Fado Discos, 2016) Versão original: Maria do Rosário Bettencourt (in EP “Lenitivo”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1966; CD “Maria do Rosário Bettencourt”, col. Fados do Fado, vol. 41, Movieplay, 1998)
Desta luta constante
[ O fado que me traga ]
Desta luta constante O futuro é meu alento Numa roda gigante Tão gigante que pára o tempo
Uma volta sem regresso Até uma terra esquecida E na minha sorte tropeço Sozinha na madrugada perdida
O fado que me traga O que o tempo me levou A saudade que me abra O caminho do que sou O fado que me traga O que a saudade não deixou O sentido das palavras Que o tempo apagou
Uma lágrima no mar Perdida na voz do silêncio Aprisiona a ternura E adormece o meu encanto
Quando me sinto nua Não me quero ver mais ao espelho O destino não me quer tua Porque o amor morreu no desejo
O fado que me traga O que o tempo me levou A saudade que me abra O caminho do que sou O fado que me traga O que a saudade não deixou O sentido das palavras Que o tempo apagou
Letra: Samuel Lopes Música: Miguel Rebelo Intérprete: Ana Laíns (in CD “Sentidos”, Difference, 2006)
Deus pede
Conta e Tempo
Deus pede [hoje] estrita conta do meu tempo E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta; Mas como dar, sem tempo, tanta conta, Eu que gastei, sem conta, tanto tempo?
Para dar a minha conta feita a tempo O tempo me foi dado, e não fiz conta; Não quis, sobrando tempo, fazer conta, Hoje quero acertar conta e não há tempo.
Oh! vós, que tendes tempo sem ter conta, Não gasteis o vosso tempo em passa-tempo! Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta Pois aqueles que sem conta gastam tempo, Quando o tempo chegar de prestar conta, Chorarão, como eu, o não ter tempo!
Poema: Frei António das Chagas (António da Fonseca Soares, 1631-1682) Música: José Júlio Paiva (Fado Complementar) Intérprete: Camané (in CD “Infinito Presente”, Warner Music, 2015)
Dizem que o fado é saudade
[ O Sentir do Cantador ]
Dizem que o fado é saudade, Miséria, sofrer e dor… Mas o fado é, na verdade, O sentir do cantador.
Em cada palavra sua, Em cada verso cantado, O cantador insinua A tristeza do seu fado.
Não canta por simpatia, Não canta para viver: É que cantando alivia Um pouco do seu sofrer.
Tornando tão magoado O timbre da sua voz, Que o fado fica gravado Na alma de todos nós.
Letra: Maria Manuel Cid Música: Francisco José Marques (Fado Évora) Intérprete: Tereza Tarouca (in EP “Passeio à Mouraria”, RCA Victor, 1964; LP “Os Melhores Fados de Tereza Tarouca”, RCA Camden, 1978)
Então, até amanhã, meu dia triste
[ Último Poema ]
Então, até amanhã, meu dia triste, Na taverna da noite do meu fado, Onde canto o amor que não existe, Neste meu amanhã abandonado.
Grito dentro de mim a noite e o dia, Nesta hora do sonho mais profundo, Que regressa na voz da despedida Com que te vejo por estar no mundo.
Nas palavras amadas que perdi, O ontem que tu foste já me foge. “Então, até amanhã!”, disseste, e eu vi Que o amanhã não chega ao ontem de hoje.
“Então, até amanhã!”, disseste, e eu vi Que o amanhã não chega ao ontem de hoje.
Letra: Vasco de Lima Couto Música: Manuel Mendes Intérprete: Ricardo Ribeiro Primeira versão discográfica de Ricardo Ribeiro (in CD “Hoje É Assim, Amanhã Não Sei”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2016) Versão original: Beatriz da Conceição [ao vivo no Restaurante Típico Nónó, Lisboa
Era o amor
[ Verdes Anos ]
Era o amor que chegava e partia: estarmos os dois era um calor que arrefecia sem antes nem depois…
Era um segredo sem ninguém para ouvir: eram enganos e era um medo, a morte a rir nos nossos verdes anos…
Foi o tempo que secou a flor que ainda não era. Como o Outono chegou no lugar da Primavera!
Era o amor que chegava e partia: estarmos os dois era um calor que arrefecia sem antes nem depois…
Era um segredo sem ninguém para ouvir: eram enganos e era um medo, a morte a rir nos nossos verdes anos…
No nosso sangue corria um vento de sermos sós. Nascia a noite e era dia, e o dia acabava em nós…
Poema: Pedro Tamen (excerto) Música: Carlos Paredes (introdução de “Despertar”, in EP “Guitarradas Sob o Tema do Filme Verdes Anos”, Alvorada, 1964; CD “Carlos Paredes e Artur Paredes”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 36, Movieplay, 1994; CD “Os Verdes Anos de Carlos Paredes: As Primeiras Gravações a Solo 1962-1963”, Movieplay, 2003; Livro/4CD “O Mundo Segundo Carlos Paredes: Integral 1958-1993”: CD1 – “Despertar”, EMI-VC, 2003) Intérprete: Mariana Abrunheiro (in Livro/CD “Cantar Paredes”, Mariana Abrunheiro/BOCA – Palavras Que Alimentam, 2015) Versão original (canção): Teresa Paula Brito (in filme “Os Verdes Anos”, de Paulo Rocha, 1963) Outra versão de Teresa Paula Brito (in EP “Canções Para Fim de Noite”, Riso e Ritmo, 1968; CD “Teresa Paula Brito”, col. Clássicos da Renascença, vol. 61, Movieplay, 2000)
És Povo feito Mulher
[ Ai, Amália! ]
És Povo feito Mulher; A cantar és toda a gente que sabe aquilo que quer e diz aquilo que sente.
As tuas caras são tantas: mais de mil que Deus te deu… Com mil corações tu cantas e há mais mil dentro do teu.
Ai, Amália das mil caras e mais de mil corações! Ai, rio que nunca páras até à foz das canções!…
Nos ecos da tuz voz, nos silêncios que a torturam sofrem pedaços do nós, pedaços que se procuram.
Levantas a tua voz, o Fado nasce ao teu jeito! E sentimos todos nós que te cabemos no peito…
Ai, Amália das mil caras e mais de mil corações! Ai, rio que nunca paras até à foz das canções!…
Ai, Amália das mil caras e mais de mil corações! Ai, rio que nunca paras até à foz das canções!…
Letra: Luísa Bivar Música: João Braga Intérprete: João Braga (in LP “Do João Braga para a Amália”, Diapasão/Lamiré, 1984; CD “João Braga”, col. Fado Alma Lusitana, vol. 19, Levoir/Correio da Manhã, 2012)
Esta ilha que há em mim
[ A Ilha do Meu Fado ]
Esta ilha que há em mim E que em ilha me transforma Perdida num mar sem fim Perdida dentro de mim Tem da minha ilha a forma
Esta lava incandescente Derramada no meu peito Faz de mim um ser diferente Tenho do mar a semente Da saudade tenho o jeito
Trago no corpo a mornaça Das brumas e nevoeiros Há uma nuvem que ameaça Desfazer-se em aguaceiros Nestes meus olhos de garça
Neste beco sem saída Onde o meu coração mora Oiço sons da despedida Vejo sinais de partida Mas teimo em não ir embora
Letra: João Mendonça Letra: José Medeiros Intérprete: Dulce Pontes (in CDs “Caminhos”, Movieplay, 1996; “O Coração Tem Três Portas”, Ondeia Música, 2006)
Eu quero cantar palavras
[ Fado Não-Valentim ]
Eu quero cantar palavras De letras por inventar,
Quero outro fado, ó-laró-laró! Quero outro fado, ó-laró, meu bem!
Implacáveis como espadas, Tão profundas como o mar.
Quero outro fado, ó-laró-laró! Quero outro fado, ó-laró, meu bem!
As palavras por dizer Por dentro das que são ditas,
Quero outro fado, ó-laró-laró! Quero outro fado, ó-laró, meu bem!
Impossíveis a crescer Por fora das mais bonitas.
Quero outro fado, ó-laró-laró! Quero outro fado, ó-laró, meu bem!
Ditas todas devagar No silêncio mais sonante,
Quero outro fado, ó-laró-laró! Quero outro fado, ó-laró, meu bem!
Como um conto de encantar, Como a vaga mais distante.
Quero outro fado, ó-laró-laró! Quero outro fado, ó-laró, meu bem!
E quando para as cantar Elas se façam escrever,
Quero outro fado, ó-laró-laró!
Quero outro fado, ó-laró, meu bem!
As letras serão meus lábios, A tinta o meu sangue a arder.
Quero outro fado, ó-laró-laró! Quero outro fado, ó-laró, meu bem!
Dizer palavras de mel Até a voz ficar rouca.
Quero outro fado, ó-laró-laró! Quero outro fado, ó-laró, meu bem!
Gastar toda a minha pele Nos beijos da tua boca.
Quero outro fado, ó-laró-laró…, Nos beijos da tua boca.
Letra: João Gigante-Ferreira Música: Popular Intérprete: Helena Sarmento Versão original: Helena Sarmento (in CD “Lonjura”, Helena Sarmento, 2018)
Eu sei que esperas por mim
[ Mais um Fado no Fado ]
Eu sei que esperas por mim, Como sempre, como dantes, Nos braços da madrugada; Eu sei que em nós não há fim, Somos eternos amantes Que não amaram mais nada.
Eu sei que me querem bem, Eu sei que há outros amores Para bordar no meu peito; Mas eu não vejo ninguém Porque não quero mais dores Nem mais bâton no meu leito.
Nem beijos que não são teus Nem perfumes duvidosos, Nem carícias perturbantes; E nem infernos, nem céus, Nem sol nos dias chuvosos, Porque ‘inda somos amantes.
Mas Deus quer mais sofrimento, Quer mais rugas no meu rosto E o meu corpo mais quebrado; [bis] Mais requintado tormento, Mais velhice, mais desgosto E mais um fado no fado.
Letra: Júlio de Sousa Música: Carlos da Maia (Fado Perseguição) Intérprete: Camané Outras versões: Camané (in CD “Pelo Dia Dentro”, EMI-VC, 2001; 2CD “Camané: O Melhor 1995-2013 (Edição Especial)”: CD 2, EMI, 2013); Camané (in 2CD “Como Sempre… Como Dantes”: CD 1 – “Como Sempre: Ao Vivo em Palco”, EMI-VC, 2003); Camané (in DVD “Ao Vivo no S. Luiz”, EMI, 2006) [ao vivo com Fábia Rebordão, 2008 / Gala 12 do programa “Operação Triunfo”; Camané (in CD/DVD “Ao Vivo no Coliseu: Sempre de Mim”, EMI, 2009). Versão original [?]: Rui David (com música de Alfredo Marceneiro – Fado Cravo) (in EP “Meu Amor, Minha Saudade”, FF/RR Discos, ?)
Eu sei que sou demais
Eu sei que sou demais na tua vida, Eu sei que nem me vês tão apagado, Apenas uma sombra indefinida, O resto de voz triste condenada. Eu sei que sou demais na tua vida, De tudo quanto fui não sou mais nada.
Ai quem me dera prender o teu futuro E uni-lo ao meu, assim tal maneira, Como hera verde se prende ao velho muro E ali fica p’la vida inteira!
Eu sei que estou a mais no teu caminho, Eu sei que nada tens p’ra me dar, E sei que nesta luta estou vencido Por outro amor que tens no meu lugar. Mas sei, amor, que eu, da tua vida, Ninguém jamais, ninguém pode apagar.
Ai quem me dera prender o teu futuro E uni-lo ao meu, assim tal maneira, Como hera verde se prende ao velho muro E ali fica p’la vida inteira!
Ai quem me dera prender o teu futuro E uni-lo ao meu, assim tal maneira, Como hera verde se prende ao velho muro E ali fica p’la vida inteira!
Letra e música: Joaquim Tavares Pimentel Intérprete: Ricardo Ribeiro Primeira versão discográfica de Ricardo Ribeiro (in CD “Hoje É Assim, Amanhã Não Sei”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2016) Versão original: Alice Maria (in EP “Primeiro Amor”, Estúdio/Mundusom, 1972?)
Eu uso um xaile bordado
[ Num Gesto Que se Adivinha ]
Eu uso um xaile bordado Porque os p’rigos que há no fado São bem maiores que os da vida; O xaile é como uma pele E quando me embrulho nele Sinto-me mais protegida.
Parece umas mãos de mãe: Sabem guiar-nos tão bem E sossegam tantos medos Que sempre que elas me tocam As franjas do xaile evocam A ternura dos seus dedos.
Num gesto que se adivinha O xaile é uma andorinha Num céu que eu mesma criei; Mas assim que o braço pára O xaile que antes voara Parece o manto de um rei.
E quando o corpo desiste Numa palavra mais triste, Num grito mais demorado, O xaile velho e sem franjas São asas de anjos ou anjas Que me aconchegam ao Fado.
O xaile velho e sem franjas São asas de anjos ou anjas Que me aconchegam ao Fado.
Letra: Tiago Torres da Silva Música: Armando Machado (Fado Maria Rita) Intérprete: Katia Guerreiro* (in CD “Brincar aos Fados”, Farol Música, 2014)
Existe um fado
[ Não Existe Fado Antigo ]
Existe um fado, um só fado Que assenta na tradição; E p’ra ser bem cantado Só faz falta um coração.
Não é por pôr uma tuba, Acrescentar a bateria Que uma geração derruba O que antes se fazia.
Não quero a eternidade Nem os momentos de glória: Quero deixar na saudade Um pouco da minha história.
Não existe fado novo Como não há fado antigo: Ele é o grito que um povo Carrega sempre consigo.
Não existe fado novo Como não há fado antigo: Ele é o grito que um povo Carrega sempre consigo.
Letra: Tiago Torres da Silva Música: João do Carmo Noronha (Fado Pechincha) Intérprete: Celeste Rodrigues (in CD “Brincar aos Fados”, Farol Música, 2014)
Foi assim
[ Lume ]
Foi assim: era costume… Tu vinhas pedir-me lume Ao balcão daquele bar E eu disse que não, primeiro; Depois, comprei um isqueiro E até voltei a fumar.
As noites que nós passámos! Quantos cigarros fumámos! Tanto lume que eu te dei! Um dia acordei com frio: Estava o cinzeiro vazio E nunca mais te encontrei.
Mas ontem, naquele bar De repente vi-te entrar, Foste direita ao balcão: Como era teu costume Vieste pedir-me lume Mas eu disse-te que não.
Se quando te foste embora Deitei o isqueiro fora, Que lume te posso eu dar? Pede a outro que te ajude! P’ra bem da minha saúde Eu já deixei de fumar.
Sem dormir, de madrugada Ouvi teus passos na escada, Vi da janela o teu carro; Debaixo do travesseiro Encontraste o meu isqueiro E acendeste-me o cigarro.
Letra: Manuela de Freitas Música: Armando Machado (Fado Santa Luzia) Intérprete: Camané (in CD “Infinito Presente”, Warner Music, 2015)
Já toda a gente sabe
[ Aos Sete Ventos ]
Já toda a gente sabe a novidade: o Fado, que nasceu na Mouraria, é Património da Humanidade e quebra mais fronteiras dia a dia.
Há quem tenha aprendido português p’ra entender de um modo mais profundo os fados que a ‘Amália Rodriguez’ cantava aos sete ventos pelo mundo.
‘Thank you’, ‘gracias’, ‘merci’ ou ‘arigato’ são formas de o fadista agradecer: quando ao chegar o fim de cada acto vê lágrimas nos rostos a escorrer.
Em Espanha, no Brasil ou no Japão o Fado é cada vez mais bem cantado; e porque ali se escuta um coração é Portugal que diz: “muito obrigado!”
Letra: Tiago Torres da Silva Música: Armando Machado (Fado Aracélia ou Fado Cunha e Silva) Intérprete: Cristina Branco (in CD “Brincar aos Fados”, Farol Música, 2014)
Lavava no rio lavava
Lavava no rio lavava Gelava-me o frio gelava Quando ia ao rio lavar Passava fome passava Chorava também chorava Ao ver minha mãe chorar
Cantava também cantava Sonhava também sonhava E na minha fantasia Tais coisas fantasiava Que esquecia que chorava Que esquecia que sofria
Já não vou ao rio lavar Mas continuo a chorar Já não sonho o que sonhava Se já não lavo no rio Por que me gela este frio Mais do que então me gelava
Ai minha mãe, minha mãe Que saudades desse bem Do mal que então conhecia Dessa fome que eu passava Do frio que me gelava E da minha fantasia
Já não temos fome, mãe Mas já não temos também O desejo de a não ter Já não sabemos sonhar Já andamos a enganar O desejo de morrer
Letra: Amália Rodrigues Música: José Fontes Rocha Intérprete: Amália Rodrigues (in “Gostava de Ser Quem Era”, Columbia/VC, 1980, reed. EMI-VC, 1995; CD “O Melhor de Amália”, vol. III, EMI-VC, 2003)
Luas de prata gentia
[ Se ao menos houvesse um dia ]
Luas de prata gentia Nas asas de uma gazela E depois, do seu cansaço, Procurasse o teu regaço
No vão da tua janela Se ao menos houvesse um dia Versos de flor tão macia Nos ramos com as cerejas E depois, do seu Outono, Se dessem ao abandono Nos lábios, quando me beijas Se ao menos o mar trouxesse O que dizer e me esquece Nas crinas da tempestade As palavras litorais As razões iniciais Tudo o que não tem idade Se ao menos o teu olhar Desse por mim ao passar
Como um barco sem amarra Deste fado onde me deito Subia até ao teu peito Nas veias de uma guitarra
Letra: João Monge Música: Casimiro Ramos (Fado Três Bairros)
Intérprete: Camané (in CD “Esta Coisa da Alma”, EMI-VC, 2000)
Na ribeira deste rio
Na ribeira deste rio Ou na ribeira daquele Passam meus dias a fio Nada me impede, me impele Me dá calor ou dá frio
Vou vendo o que o rio faz Quando o rio não faz nada Vejo os rastros que ele traz Numa sequência arrastada Do que ficou para trás
Vou vendo e vou meditando Não bem no rio que passa Mas só no que estou pensando Porque o bem dele é que faça Eu não ver que vai passando
Vou na ribeira do rio Que está aqui ou ali E do seu curso me fio Porque se o vi ou não vi Ele passa e eu confio
Letra: Dori Caymmi, sobre poema de Fernando Pessoa Música: Dori Caymmi ? Intérprete: Paulo Bragança (in CD “Os Mistérios do Fado”, Polydor, 1996)
Na tua voz
[ Amália ]
Na tua voz há tudo o que não há, há tudo o que se diz e não se diz; Há os sítios da saudade em tua voz, o passado, o futuro, o nunca, o já; Há as sílabas da alma e há um país. Porque tu, mais que tu, és todos nós.
Na tua voz embarca-se e não mais, não mais senão o mar e a despedida. Há um rasto de naufrágio em tua voz, onde há navios a sair do cais, nessa voz por mil vozes repartida. Porque tu, mais que tu, és todos nós.
Há mar e mágoa, e a sombra de uma nau, a gaivota de O’Neill e o rio Tejo, saudade de saudade em tua voz, um eco de Camões e o escravo Jau, amor, ciúme, cinza e vão desejo. Porque tu, mais que tu, és todos nós.
Amor, ciúme, cinza e vão desejo. Porque tu, mais que tu, és todos nós.
Poema: Manuel Alegre Música: José Fontes Rocha Intérprete: João Braga (in CD “Fado Fado”, Ariola/BMG Portugal, 1997; CD “Fados Capitais”, Impreopa/A Capital, 2002)
Não Sou Fadista de Raça
Não sou fadista de raça, Não nasci no Capelão; Eu canto o fado que passa Nas asas da tradição!
Nunca usei negra chinela Nem vesti saia de lista; Nunca entrei numa viela Mas tenho raça fadista!
Tirei suspiros ao vento, Olhei um pouco o passado; Busquei do mar um lamento E fiz assim o meu fado.
É este fado famoso Que, em noites enluaradas, O Conde de Vimioso Tangia nas guitarradas.
Era fidalgo de raça E ficou na tradição Cantando o fado que passa Na Rua do Capelão.
Letra: Maria Teresa Cavazinni Música: Alfredo Duarte “Marceneiro” (Fado Bailarico) Intérprete: Tereza Tarouca (in EP “O Riso Que me Deste”, RCA Victor, 1967; LP “Os Melhores Fados de Tereza Tarouca”, RCA Camden, 1978; 2LP “Álbum de Recordações”: LP 1, Polydor/PolyGram, 1985; CD “Temas de Ouro da Música Portuguesa”, Polydor/PolyGram, 1992; CD “Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006; CD “Tereza Tarouca”, col. Fado Alma Lusitana III, vol. 3, Levoir / Correio da Manhã, 2014)
Nesta terra soberana e fadista
[ No Sítio do Coração ]
Nesta terra soberana e fadista Concebido fruto da contradição Eu nasci independente e meio artista Navegante e poeta de ocasião Eu nasci independente, mar à vista Marinheiro e idealista de ocasião
Há quem diga que o futuro já está escrito E por isso não adianta o que eu fizer Outros dizem que isso não é mais que um mito Inventado por um príncipe qualquer
Canta! Ouve a guitarra que trina Acompanhando o lamento De tantas penas em vão! Sente O sentimento da gente Que já só tem desalento No sítio do coração!
Da janela do meu quarto vê-se o rio Branqueando as suas águas na maré Desaguando as suas mágoas num vazio Para quem foi tudo pouco nada é E ao olhar o seu reflexo tão vazio Alguém viu que ele finge que não vê
Canta! Ouve a guitarra que trina Acompanhando o lamento De tantas penas em vão! Sente O sentimento da gente Que já só tem desalento No sítio do coração!
Eu nasci independente e meio artista Navegante e poeta de ocasião
Canta! Ouve a guitarra que trina Acompanhando o lamento De tantas penas em vão! Sente O sentimento da gente Que já chegou o momento De ouvirmos outra canção!
Letra: J.J. Galvão (José João Oliveira Galvão) Música: Rui Filipe Reis Intérprete: Rosa Negra (in CD “Fado Mutante”, iPlay, 2011)
Nunca tive moeda de troca
[ Moeda de Troca ]
Nunca tive moeda de troca Para o que recebi da saudade Mas é só pelo que ela me toca Que tudo o que canto, é verdade É essa a moeda de troca Cantar o meu fado, para o dar à saudade.
Mas às vezes o fado acontece Sem que a gente entenda, O que fez E o fadista cansado agradece E chora baixinho, outra vez
Quero unir a minha às vossas almas Sem perder a saudade de vista Não me importa que me batam palmas Ou gritem à grande “Ahhh fadista!!” Quero ouvir o silêncio das almas Assim que o mistério do fado as conquista.
Letra: Tiago Torres da Silva Música: Manuel Graça Pereira Intérprete: Catarina Rocha
O Fado é triste
[ Fado do Contra ]
Perguntaste-me outro dia
[ Tudo Isto É Fado ]
Perguntaste-me outro dia Se eu sabia o que era o fado; Eu disse que não sabia, Tu ficaste admirado.
Sem saber o que dizia, Eu menti naquela hora E disse que não sabia, Mas vou-te dizer agora.
Se queres ser o meu senhor E teres-me sempre a teu lado, Não me fales só de amor: Fala-me também de fado.
A canção que é meu castigo Só nasceu p’ra me prender: O fado é tudo o que eu digo Mais o que eu não sei dizer.
Almas vencidas, Noites perdidas, Sombras bizarras; Na Mouraria Canta um rufia, Choram guitarras.
Amor, ciúme, Cinzas e lume, Dor e pecado: Tudo isto existe, Tudo isto é triste, Tudo isto é fado.
Se queres ser o meu senhor E teres-me sempre a teu lado, Não me fales só de amor: Fala-me também de fado.
A canção que é meu castigo Só nasceu p’ra me prender: O fado é tudo o que eu digo Mais o que eu não sei dizer.
Almas vencidas, Noites perdidas, Sombras bizarras; Na Mouraria Canta um rufia, Choram guitarras.
Amor, ciúme, Cinzas e lume, Dor e pecado: Tudo isto existe, Tudo isto é triste, Tudo isto é fado.
Letra: Aníbal Nazaré Música: Fernando Carvalho Intérprete: Rua da Lua Primeira versão de Rua da Lua (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016) Versão original: Amália Rodrigues (grav. 1952) (in CD “Abbey Road 1952”, EMI-VC, 1992, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)
Quando o fado era menino
[ Quando o Fado For Grande ]
Quando o Fado era menino Dizia: “quando eu for grande Hei-de inventar um destino Que meu coração comande.”
E percebeu que os poetas Eram quem, como as crianças, Abriam portas secretas Sem chaves nem alianças.
Ao entrar no universo Do poeta popular, Ele vai escrevendo um verso Que já nasce milenar.
E por saber que os adultos Podem voltar à infância, Não quer que os poetas cultos Se mantenham à distância.
Rouba um poema a Pessoa, Ao Ary pede uma glosa E uns versos sobre Lisboa Ao mestre Linhares Barbosa.
Se voltasse a ser menino Diria: “quando eu crescer Hei-de inventar um destino Num poema por escrever.”
Letra: Tiago Torres da Silva Música: Alberto Simões da Costa (Fado Torres do Mondego) Intérprete: Ricardo Ribeiro (in CD “Brincar aos Fados”, Farol Música, 2014)
Se o fado é esta sina
[ É o Mar Que nos Ensina ]
Se o fado é esta sina que nos lava a alma, é o mar quem nos ensina quando nos devolve a calma.
Não aceitar pantomina, o que a sorte nos destina. Sem saber o que queremos, temos o que merecemos.
A vida assim não é um canto à dor. O fado é sina mas também amor.
Diziam que era um povo que não se governava, mas forte o coração não se deixava governar.
Somos terra de lavrar e sabemos o mar de cor, mas esta gente a cantar é bem capaz do melhor.
A vida assim não é um canto à dor. O fado é sina mas também amor.
E lá bem no fim do mundo, não se entendendo as palavras, sente-se a saudade eterna no trinado das guitarras.
Porque a razão não se entende nem se vê o fim ao mar, mas na voz ainda há quem pense ver o fado a marear.
A vida assim não é um canto à dor. O fado é sina mas também amor.
A vida assim não é um canto à dor. O fado é sina mas também amor.
Letra e música: José Barros Arranjo: José Barros e Mimmo Epifani Intérprete: José Barros e Navegante Versão original: José Barros e Navegante (in CD “À’Baladiça”, Tradisom, 2018)
Sou do Fado
[ Loucura ]
Intérprete: Ana Moura
Sou cavaleiro errante
[ Fado Mutante ]
Sou cavaleiro errante Deserto, imensidão E vou errando sempre buscando o Oriente Secreto no meu coração
Sou cavaleiro ausente Tão-só recordação E vou atrás do vento que vem de Levante E cheira a jasmim e açafrão
Um dia vou contar a minha história Talvez assim me prestes atenção Porque o que eu sou é parte da memória Que a gente tem guardada num caixão
Ai este fado mutante De lua emigrante De tempo liberto Ai esta sina minguante Às vezes tão longe As vezes tão perto
Tão longe, tão longe, tão perto…
Sou cavaleiro andante Herói de uma ficção E levo sempre a luz de uma estrela cadente Na palma da minha mão…
Um dia vou contar a minha história Talvez assim me prestes atenção Porque o que eu sou é parte da memória Que a gente tem guardada num caixão
Ai este fado mutante De lua emigrante De tempo liberto Ai esta sina minguante Às vezes tão longe Às vezes tão perto
Às vezes longe Às vezes perto Às vezes longe Às vezes perto Às vezes longe Às vezes perto Às vezes longe Às vezes perto
Letra: J.J. Galvão (José João Oliveira Galvão) Música: Rui Filipe Reis Intérprete: Rosa Negra (in CD “Fado Mutante”, iPlay, 2011)
Sou do fado
[ É Loucura ]
Sou do fado como sei, Vivo um poema cantado Dum fado que eu inventei. A falar não posso dar-me, Mas ponho a alma a cantar, E as almas sabem escutar-me.
Chorai, chorai, poetas do meu país Troncos da mesma raiz Da vida que nos juntou! E se vocês não estivessem a meu lado, Então… não havia fado Nem fadistas como eu sou.
Esta voz, tão dolorida, É culpa de todos vós, Poetas da minha vida. “É loucura!”, oiço dizer, Mas bendita esta loucura De cantar e de sofrer.
Chorai, chorai, poetas do meu país, Troncos da mesma raiz Da vida que nos juntou! E se vocês não estivessem a meu lado, Então… não havia fado Nem fadistas como eu sou.
E se vocês não estivessem a meu lado, Então… não havia fado Nem fadistas como eu sou.
Letra: Júlio de Sousa Música: Júlio de Sousa (Fado Loucura) Intérprete: Marta Pereira da Costa Versão original: Lucília do Carmo (in LP “Recordações”, Decca/VC, 1971, reed. Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008; 2LP/CD “O Melhor de Lucília do Carmo”, EMI-VC, 1990; CD “O Melhor de Lucília do Carmo”, Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
fadista Lucília do Carmo
Sou filho de um deus menor
[ Adeus, Até um Outro Dia ]
Sou filho de um deus menor E de um corrido maior Mas seja lá o que for Já nasci com esta dor
Cresci no fio da navalha Sei a cartilha de cor Num coração de canalha Mora um pobre pinga-amor
Ai mas que triste a triste vida em que vive um desgraçado Sempre a cavalo entre a desgraça e o fado malogrado
Muito boa noite, minhas senhoras, meus senhores! Desculpem lá o meu atraso, cheguei tarde mas cheguei E já que vim o melhor é eu cantar E só não canto melhor porque eu não sei
A minha sorte na vida Já adivinho qual é: Ser uma rosa enjeitada De que ninguém quer saber
Em tudo eu sou infeliz Mesmo até no meu cantar Põe-se a tremer a guitarra Antes de me acompanhar
Vou-vos deixar depois de estar, ai, em tão bela companhia No peito levo uma saudade, adeus, até um outro dia
Muito obrigado madames e cavalheiros Mostrem lá os mealheiros para eu me motivar E já que pedem vou-vos fazer a vontade Que eu só canto pelo gosto de cantar
Vou-vos deixar depois de estar, ai, em tão bela companhia No peito levo uma saudade, adeus, até um outro dia Vou-vos deixar depois de estar, ai, em tão bela… em tão bela companhia No peito levo… levo uma saudade, adeus, adeus, até um outro dia
Vou-vos deixar depois de estar, ai, em tão bela companhia No peito levo uma saudade, adeus, até um outro dia
Muito obrigado madames e cavalheiros Mostrem lá os mealheiros para eu me motivar E já que pedem vou-vos fazer a vontade Que eu só canto pelo gosto de cantar
Muito obrigado madames e cavalheiros Os aplausos servem sempre para eu me consolar E já que pedem vou-vos fazer a vontade Que eu só canto pelo gosto de cantar
Letra: J.J. Galvão (José João Oliveira Galvão) Música: Rui Filipe Reis Intérprete: Rosa Negra (in CD “Fado Mutante”, iPlay, 2011)
Temos pena, hoje não dá
[ Fado Abananado ]
Temos pena, hoje não dá estou fechada para balanço Temos pena, hoje não dá estou fechada para balanço querem fado, pois não há se não gostam como eu danço querem fado, pois não há se não gostam como eu danço”
Desculpe lá, turista Bater o nariz na porta A nossa fadista Está numa de ir embora Diz ela que não canta Se não for para dançar Falar, pouco adianta Pois responde a cantar:
Refrão
Desculpe lá, turista Também sinto aquilo que sente A ingrata fadista Acha que hoje isto é diferente “fruta cristalizada” Diz que é “só no bolo rei!” Já nos mandou à fava E canta por aí, que eu sei:
Refrão
Desculpe lá, turista Já tomámos providência É a sétima fadista Com esta exigência Querem abanar o fado E nós dizemos que não Mas o fado, abananado, Já só pega de abanão
Refrão
Pedro da Silva Martins Música: Manuel Graça Pereira Intérprete: Catarina Rocha
Toda a saudade é fingida
[ Covers ]
Toda a saudade é fingida, A tristeza disfarçada: Parecem já não ter vida, De fado não têm nada.
Já não são fados, são ‘covers’: Imitações desalmadas, Reproduções do destino Tantas vezes tão cantadas.
Esses que tentam viver Aquilo que outros viveram Acabam por se perder No tanto que não fizeram.
Vampiragem pós-moderna Da Lisboa dos turistas: Falam da velha taberna Mas querem ser futuristas.
Letra: Duarte Música: João do Carmo Noronha (Fado Pechincha) Intérprete: Duarte (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018)
Verdes ondas branca flor
[ Fado Azul (Se Azul se Atreve) ]
Verdes ondas branca flor Cor-do-vento espuma breve Verdes ondas branco-em-flor Cor-do-vento espuma breve Qualquer cor a do Amor Beijo-azul p’ra quem se atreve Qualquer cor a do Amor Beijo-azul p’ra quem se entregue
Como barco rumo ao sul No meu corpo a maresia Como barco rumo ao sul No meu corpo a maresia À procura desse azul Que o teu corpo prometia Na procura desse azul Naveguei-te até ser dia
Tão constante foste vaga Tão ardente a maré-viva Tão constante foste vaga Tão ardente a maré-viva Tua proa que naufraga Nosso rasto de saliva Tua proa que em mim naufraga Nossas bocas à deriva
Este jeito de ser livre Na prisão da tua boca Este jeito de ser livre Na prisão da tua boca Sabe a tudo onde não estive Lucidez que me põe louca Sabe a tudo onde não estive Lucidez é coisa pouca
Somos chuva tão precisa Somos ventos do Magrebe Somos ecos da Galiza Somos tudo o que se perde Somos língua que desliza Como tudo o que se escreve Somos beijo desta brisa Beijo-azul se azul se atreve.
Letra: João Gigante-Ferreira Música: Francisco Viana (Fado Vianinha) Intérprete: Helena Sarmento Versão original: Helena Sarmento (in CD “Lonjura”, Helena Sarmento, 2018)
Voar
[ Fado em Branco ]
Voar Sem culpa do mar Que nunca se deita Sentir A chuva a cair De vida insuspeita
Sofrer A dor de morrer Na dor imperfeita Sorrir Por dentro mentir Verdade perfeita
Assim é a vida De dor dividida Cerrada no peito Um barco à deriva Verdade fingida Doença sem leito
Eu bem que não queria Saber algum dia Que sempre serei O vento do norte Sem vida nem morte Sem crime nem lei
Amar De amor sufocar A boca na boca
Florir Ficar e partir De tanto ser pouca
Vender De graça o prazer Sentir como louca
Chorar Sem culpa do mar Do beijo e da boca
Assim é a vida De amor dividida Cerrada no peito Um barco à deriva Mentira fingida Doença sem leito
Eu bem que não queria Saber algum dia Que sempre serei O vento do norte Sem vida nem morte Sem crime nem lei
Eu bem que não queria Saber algum dia Que sempre serei O vento do norte Sem vida nem morte Sem crime nem lei
O verso da sorte Sem que isso me importe Saber que cheguei
Letra: João Gigante-Ferreira Música: Samuel Cabral e João Gigante-Ferreira Intérprete: Helena Sarmento Versão original: Helena Sarmento (in CD “Lonjura”, Helena Sarmento, 2018)
https://www.Meloteca.com/wp-content/uploads/2020/03/lucilia-do-carmo-fado.jpg400400António Ferreirahttps://www.Meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-Meloteca-300x86.jpgAntónio Ferreira2020-05-07 07:10:412024-11-13 11:14:54Fado sobre fado
Poema de Sebastião da Gama (in “Campo Aberto”, Lisboa: Portugália, 1951; Lisboa: Edições Ática, Colecção Poesia, 4.ª edição, 1983 – p. 45) Recitado por José Nobre (in CD “Sebastião da Gama: Meu Caminho É por Mim Fora”, JGC, 2010) Música: Rui Serôdio
Dá-se aos que têm sede, não exige pureza. Ah!, se fôssemos puros, p’ra melhor merecê-la…
Sabe a terra, a montanhas, caules tenros, raízes, e no entanto desce da floresta dos mitos.
Água tão generosa como a que a gente bebe, fuja dela Narciso e quem não tenha sede.
Na viagem
[ Viagem do Verso ]
Letra: José Flávio Martins Música: Cristina Bacelar Intérprete: Frei Fado d’El Rei (in CD “Em Concerto”, Açor/Emiliano Toste, 2003)
Na viagem De cada palavra, Cada verso Muda o tempo do saber!
No destino Da estrofe nascente, Cada frase, É um rio solitário!
No regresso Do verbo “chegar”, Porque chego e me despeço, À noite, ao luar!…
Sou um verso de marés… Sobre a rima de um poema! Sou um verso de marés… Sobre a rima de um poema!
Em ti… mora, o meu beijo! Porque… chora, meu poema!…
No destino Da estrofe nascente, Cada frase, É um rio solitário!
No regresso Do verbo “chegar”, Porque chego e me despeço, À noite, ao luar!…
Sou um verso de marés… Sobre a rima de um poema! Sou um verso de marés… Sobre a rima de um poema!
Reciclanda
O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.
Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.
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António José Ferreira 962 942 759
Se ao menos houvesse um dia
Letra: João Monge Música: Casimiro Ramos (Fado Três Bairros) Intérprete: Camané (in CD “Esta Coisa da Alma”, EMI-VC, 2000)
Se ao menos houvesse um dia Luas de prata gentia Nas asas de uma gazela E depois, do seu cansaço, Procurasse o teu regaço No vão da tua janela
Se ao menos houvesse um dia Versos de flor tão macia Nos ramos com as cerejas E depois, do seu Outono, Se dessem ao abandono Nos lábios, quando me beijas
Se ao menos o mar trouxesse O que dizer e me esquece Nas crinas da tempestade As palavras litorais As razões iniciais Tudo o que não tem idade
Se ao menos o teu olhar Desse por mim ao passar Como um barco sem amarra Deste fado onde me deito Subia até ao teu peito Nas veias de uma guitarra
Senhores jurados sou um poeta
[ A Defesa do Poeta ]
Poema de Natália Correia (in O Sol nas Noites e o Luar nos Dias, 1993) Recitado por Afonso Dias Também recitado pela autora (in EP “Natália Correia Diz Poemas de Sua Autoria”, VC, 1969; CD “A Defesa do Poeta”, EMI-VC, 2003)
Senhores jurados sou um poeta um multipétalo uivo um defeito e ando com uma camisa de vento ao contrário do esqueleto.
Sou um vestíbulo do impossível um lápis de armazenado espanto e por fim com a paciência dos versos espero viver dentro de mim.
Sou em código o azul de todos (curtido couro de cicatrizes) uma avaria cantante na maquineta dos felizes.
Senhores banqueiros sois a cidade o vosso enfarte serei não há cidade sem o parque do sono que vos roubei.
Senhores professores que pusestes a prémio minha rara edição de raptar-me em crianças que salvo do incêndio da vossa lição.
Senhores tiranos que do baralho de em pó volverdes sois os reis sou um poeta jogo-me aos dados ganho as paisagens que não vereis.
Senhores heróis até aos dentes puro exercício de ninguém minha cobardia é esperar-vos umas estrofes mais além.
Senhores três quatro cinco e sete que medo vos pôs na ordem? que pavor fechou o leque da vossa diferença enquanto homem?
Senhores juízes que não molhais a pena na tinta da natureza não apedrejeis meu pássaro sem que ele cante minha defesa.
Sou um instantâneo das coisas apanhadas em delito de paixão a raiz quadrada da flor que espalmais em apertos de mão.
Sou uma impudência a mesa posta de um verso onde o possa escrever. Ó subalimentados do sonho! a poesia é para comer.
Ser poeta
[ Existir (O Homem e o Universo) ]
Poema: Fernando Pessoa/Alberto Caeiro (compilação de versos extraídos d’ “O Guardador de Rebanhos” e de “Poemas Inconjuntos”, in “Poemas de Alberto Caeiro”, col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Lisboa: Edições Ática, 1946, 10.ª edição, 1993 – p. 22, 25, 50, 48, 83, 99, 57, 62, 68-69)
Adaptação: Samuel Lopes Música: Samuel Lopes Intérprete: Citânia com Luís Filipe Sarmento
Versão original: Citânia com Luís Filipe Sarmento (in Livro/CD “Segredos do Mar”, Seven Muses, 2011)
Ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar sozinho. Amar é a eterna inocência, E a única inocência é não pensar… O essencial é saber ver, Saber ver sem estar a pensar, Saber ver quando se vê, E nem pensar quando se vê, Nem ver quando se pensa. O que é preciso é ser-se natural e calmo Na felicidade ou infelicidade, Sentir como quem olha, Pensar como quem anda, Assim é e assim seja. Basta existir para se ser completo. Basta existir para se ser completo. Quero as coisas que existem, Não o tempo que as mede. A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos. Querer mais é perder isto, e ser infeliz. Bendito seja o mesmo Sol de outras terras, Que faz meus irmãos todos os homens. Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu. Basta existir para se ser completo. Basta existir para se ser completo. Procuro dizer o que sinto, Sem pensar em que o sinto. Procuro despir-me do que aprendi, Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, Desembrulhar-me e ser eu. E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem, Mas como quem sente a Natureza, e mais nada. E assim escrevo, ora bem, ora mal, Caindo aqui, levantando-me acolá, Mas indo sempre no meu caminho. Ainda assim, sou alguém. Sou o Descobridor da Natureza. Sou o Argonauta das sensações verdadeiras. Trago ao Universo um novo Universo Porque trago ao Universo ele-próprio.
Ser poeta é ser mais alto
[ Perdidamente ]
Poema: Florbela Espanca Música: João Gil Intérprete: Trovante (in CD “Terra Firme”, EMI-VC, 1987)
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito! Por elmo, as manhas de oiro e de cetim… É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente… É seres alma, e sangue, e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente!
https://www.Meloteca.com/wp-content/uploads/2018/09/florbela-espanca-poetisa.jpg400400António Ferreirahttps://www.Meloteca.com/wp-content/uploads/2018/03/Logomarca-Meloteca-300x86.jpgAntónio Ferreira2020-05-07 07:04:332024-11-02 06:18:36Canções sobre poesia