barítono José de Freitas

JOSÉ DE FREITAS

José de Freitas, de nome completo José Cirilo de Freitas Silva, nasceu na Madeira e foi padre da Congregação da Missão (Padres Vicentinos). Já depois de padre, estudou nos conservatórios do Porto e de Lisboa, onde concluiu o Curso Superior de Canto com excelente classificação. Em 1978 tornou-se artista residente do Teatro Nacional de São Carlos onde se estreou com Schaunard em La Bohème. Foi intérprete de importantes papéis de barítono e de baixo-barítono em Portugal e no estrangeiro. Foi também diretor de coros e compositor de cânticos litúrgicos.

ENTREVISTA

Qual foi o primeiro momento em que se lembra de ter tido consciência de que a música era importante para si?

O primeiro momento?! Preferiria falar de uma pequena série de momentos… Concretizando: No meu 5º ano do seminário (hoje 9º ano), cerca dos 16 anos, quando a chamada “mudança de voz” era já algo acentuada, o meu ilustre professor de música, Padre António Ferreira Telles, poucos dias após ter-me convidado para tocar harmónio em algumas cerimónias litúrgicas (ele era o harmonista oficial, obviamente) e pedir-me para, alternadamente com outro colega, iniciar os cânticos na liturgia (o equivalente a solista), veio falar comigo na véspera da festa do Padroeiro do seminário (S. José), e disse-me: “Confio muito em ti para “segurares” a 4ª voz na missa solene de amanhã.” Ora aí tem um “puzzle” com bastante significado na minha “consciência musical” de jovem seminarista…

Quais os professores que mais o influenciaram no tempo de seminário?

Vou referir-me apenas a professores de música, obviamente. Desde os primeiros anos, tive uma veneração especial por um ilustre mestre, muito “sui generis”, mas muito competente e sabedor: o Padre António Ferreira Telles, a que atrás aludi. Era excelente harmonista, compositor, ótimo harmonizador. O Pe. Fernando da Cunha Carvalho, felizmente ainda entre nós, também teve influência na minha orientação musical, e não só. Mas vou salientar, sem querer ser injusto para os atrás citados e porventura outros, o Pe. João Dias de Azevedo, que muito me ajudou sobretudo no harmónio e no órgão, no Seminário de Mafra, onde fiz o meu noviciado (1954-1956). Nesse período, cheguei a tocar órgão em algumas celebrações dominicais e festas na Basílica de Mafra… E, para completar os anos do seminário, não poderei omitir o Pe. Fernando Pinto dos Reis (1929-2010).

Depois de ir para o seminário e de ser padre, quando é que se apercebeu de que cantar era o mais importante na sua vida profissional?

Como disse, cedo me iniciei e fui crescendo na função de solista. Continuei-a ao longo de todo o curso, alternando-a com o múnus de harmonista. Terminado o curso, fui incumbido da disciplina de Música (além de outras), no seminário menor. O concílio do Vaticano II acabava de privilegiar o vernáculo na liturgia. Iniciei a renovação de todo o repertório vigente. Eu próprio dei largas a uma velha paixão e iniciei a composição de cânticos em português, incluindo o “ordinário” e o “próprio” da missa para determinadas solenidades, além de outros cânticos circunstanciais. Aconselhado por não poucos, matriculei-me no Conservatório do Porto. Canto? Composição? Duas paixões. Muito incitado e encorajado pela professora D. Isabel Mallaguerra, decidi-me mais seriamente pelo canto, sem descurar a composição musical.

Após o curso geral de canto no Conservatório do Porto, vim a concluir o Curso Superior no Conservatório Nacional com a professora D. Helena Pina Manique. Com o programa do exame do curso superior concluído com alta classificação, fui convidado para vários recitais em Lisboa e não só. Iniciei logo de seguida o curso de ópera com o professor Álvaro Benamor e D. Helena Pina Manique. Fui admitido no Coro Gulbenkian, onde estive durante alguns meses até seguir para Paris com uma bolsa de estudos.

O diretor do Teatro Nacional de São Carlos, Eng. João Paes, que já me ouvira no Conservatório, convidou-me para, temporariamente, interromper o estágio em Paris e vir a Lisboa preparar o desempenho de um importante papel numa ópera portuguesa. Bem sucedido, pediu-me para, após o estágio parisiense, seguir para Florença, afim de preparar, com o famoso Gino Bechi, o importantíssimo papel de primeiro barítono (Lord Enrico d’Ashthon) da ópera Lucia di Lamermoor, de Donizetti. Cantei esse papel em novembro de 1977, no Teatro Rivoli (Porto)…

Toda esta “bola de neve” a partir da conclusão do curso superior de canto em 1974, todo o incrível desencadear de situações até finais de 1977, todo o ano de 1977 sobretudo, tudo isso responde à sua pergunta… Parafraseando, em contraste, um fadista, diria: “Ser cantor não foi meu sonho, mas cantar foi o meu fado…”

Dos anos em que estudou Música e Canto, que professores tiveram uma influência mais decisiva?

Nos conservatórios do Porto e de Lisboa, tive a felicidade de ser orientado respetivamente pelas professoras D. Isabel Mallaguerra e D. Helena Pina Manique, e ainda, por algum tempo, pela D. Arminda Correia, sem esquecer o Prof. Álvaro Benamor (cena).

Em Paris, como olvidar o trabalho com a famoso baixo Huc-Santana e o não menos célebre barítono Gabriel Bacquier? Em Itália, e aqui em Portugal, Gino Bechi foi simplesmente precioso no trabalho vocal e cénico. Este famoso barítono, que também me honrava com a sua amizade, cantou nos anos 40, em todos os grandes palcos do mundo. A sua famosa “entrega” aos espetáculos e nos espetáculos, quer cenicamente mas sobretudo vocalmente, levou-o a tal desgaste que teve de terminar a sua carreira por volta dos 40 anos, precisamente com a idade com que eu comecei…

Foi difícil deixar de ser padre e optar pela carreira musical?

Quando, em finais dos anos 60, me matriculei no Conservatório do Porto, confesso que o meu sonho era dar uma componente artística à minha missão de padre.

Começaram a surgir, porém, situações que não deixaram de me ir perturbando. Alguma confusão começou a instalar-se nos meus horizontes… Estávamos em pleno pós-74… Sobretudo a partir de 1977, comecei a sentir-me ultrapassado pelos acontecimentos. Tinham de ser tomadas decisões… Não podia viver na ambiguidade!… Houve muitas dúvidas, muitas incertezas… O meu Padre Provincial de então propôs-me fazer as duas coisas: padre e cantor… Tudo se desenrolava vertiginosamente… Eram convites para concertos, para óperas, etc.
Cheguei mesmo a atuar durante não pouco tempo, estando ainda no exercício do ministério… Fui chegando à conclusão de que as duas funções não faziam grande sentido… Em finais de 1978, acabei por tomar a decisão: pedi para Roma a dispensa do exercício das ordens. Não tive resposta fácil. Demorou mais de dois anos. Pelo meio, um apelo a que repensasse…

Qual foi o papel da Igreja na sua vida musical?

Primeiramente, como é obvio, penso em todo o curso do seminário. Para além de todos os aspetos da formação, a música da Igreja, o canto gregoriano, ocupou uma grande parte desse período, quer na teoria, quer na prática. O nosso Cantuale, um livro específico da Congregação da Missão com os mais belos cânticos gregorianos e muitos outros, a uma ou mais vozes, dominou grande parte desses anos, as nossas vozes e as nossas almas.

No seminário Maior, durante o curso de filosofia e teologia, para além das mais belas obras de polifonia sacra, cantávamos, todos os domingos e festas, o “comum” e o “próprio” em gregoriano, de acordo com o emblemático Liber Usualis, a mais completa obra do canto da Igreja. Tudo isto, naturalmente acompanhada da parte teórica, marca indelevelmente a minha personalidade e a minha formação musical. E não esqueço que quase sempre, alternadamente, fui organista e solista…

Após a ordenação, seguiram-se anos dominados pelo Concílio do Vaticano II, com uma série extraordinária de documentos sobre a música e a liturgia em vernáculo,com o aparecimento de excelentes compositores. E foram sempre surgindo, com os diversos papas, importantes documentos sobre a música litúrgica. Não posso esquecer os “famosos” cursos gregorianos de Fátima que frequentei.

Durante os anos 1977-1995, em que a vida artística teve o seu lado prioritário, nunca deixei de estar atento aos documentos da Igreja sobre música sacra e à obra de excelentes compositores que temos.

A partir de 1997, já no pós – S. Carlos, a pedido do meu grande amigo Conégo José Serrasina que acabava de ficar à frente da Paróquia dos Anjos, em Lisboa– a minha paróquia -, comecei a orientar o coro paroquial, tomando a peito a renovação dos cânticos e a dinamização litúrgica. Baseava-me sempre nos textos de cada celebração. Após 5 anos de intenso e profícuo trabalho, abracei outro projeto – na Capela do Palácio da Bemposta (Academia Militar), onde colaborei durante 13 anos (2003 – 2016). Durante este período, compus dezenas de cânticos que vieram a ser publicados pela Academia Militar, em 2012, num volume com o título Deus é Amor. Porque o “contexto” de então era “específico”, o referido volume irá “sofrer” brevemente substancial alteração.

Qual foi a maior deceção na sua vida?

Se me permite, não apresentaria uma mas duas deceções, e ambas no âmbito do mundo lírico. A primeira, logo de início. Tinha feito 40 anos. Eram diferentes, agora, o sonho e o ideal. Imaginava que perante mim, ia surgir um meio pleno de elevação, um ambiente superior, de arte, de cultura, etc. Cedo, porém, fui verificando e concluindo que as cores que sonhara belas, não, não o eram assim tanto… A realidade era bastante mais prosaica… Bem!… Respirei fundo, bem fundo, passe a expressão… E, vamos a isso!… Mas vamos mesmo! O desafio que ora iniciava era para ganhar, era mesmo para vencer!… E foi! Não tive o caminho atapetado de rosas, longe disso, muito longe! Foram necessárias uma fibra excecionalmente forte como considero ter, uma fé inabalável em Deus como efetivamente tenho, e também, obviamente, uma grande confiança nos talentos que Deus me deu, aliados à formação que tive (não poderei esquecê-lo!) E…aí vou eu!… E nem tudo foram espinhos, digamos em abono da verdade. Tive um público que me admirava e apoiava bastante, excelentes e excecionais críticas, outras nem tanto… E, entre um pessoal que rodava as três centenas (coro, orquestra, cantores, técnicos, etc), tive não poucos amigos e admiradores! Não esqueço que, logo no começo, nos primeiros ensaios, vi lágrimas nos olhos de algum do pessoal, ao verem a minha entrada enérgica, decidida, confiante, e pensando no “mundo” donde acabava de chegar… aos 40 anos!…

A segunda deceção foi no fim. Em finais de 92, a SEC, tendo à frente o Dr. Pedro Santana Lopes, achou por bem dissolver a Companhia Portuguesa de Ópera (cantores, orquestra, etc). Éramos 14 os cantores principais. Mesmo tendo em conta que eu continuava a cantar no país e não só, esta foi sem dúvida uma grande deceção. Aos 55 anos, encontrava-me no ponto mais alto da carreira, a nível vocal e cénico, na minha opinião e na de quantos me conheciam e ouviam! Esperava estar “em grande” mais uma boa dezena de anos… Lembrei-me então das palavras de Gino Bechi, quando, certo dia, nos anos 80, após fazer as célebres e espetaculares demonstrações, vocais e cénicas, durante um ensaio, e quando já contava perto dos 80 anos, teve este desabafo: “Agora é que eu sei cantar!”

Pois é!… Parafraseando o meu mestre, diria: “Agora… é que eu sabia cantar!…”

Qual foi o momento mais alto da carreira como cantor lírico?

Desempenhei os mais diversos papéis de 1º barítono, de baixo-barítono, papéis característicos, enfim, foram cerca de 50… Nunca tive um fracasso nos meus desempenhos. Pelo contrário! Escolher o momento mais alto?!… É difícil!… Estou a lembrar-me de não poucos… Do “Le Grand-Prêtre de Dagom” da ópera Samson et Dalila, de Saint-Saëns, em 1983. Quis preparar o papel em Lyon com o meu ex-professor de Paris, o grande barítono Gabriel Bacquier. Estou a recordar-me do “Dulcamara” da ópera L’Elisir d’Amore, de Donizetti, em 1984 e 1985… Do “Rocco”, da ópera Fidelio de Beethoven… Enfim, não vou alongar-me na citação de outras boas e belas hipóteses…

Mas vou escolher como momento mais alto uma ópera fora do estilo clássico: a ópera Kiú, do compositor espanhol Luís de Pablo, levada à cena em 1987 no Teatro Nacional de São Carlos. O meu papel de Babinshy, o pivô da ópera, na sua grande espetacularidade e dificuldade vocal e cénica, foi na verdade um momento muito alto na minha carreira! Não foi por acaso que o próprio compositor Luís de Pablo e o maestro Jesús Ramón Encimar me convidaram, 5 anos depois (dezembro de 1992 – janeiro de 1993), para interpretar em Madrid o mesmo papel!…

Quais foram os cantores líricos mundiais que mais o inspiraram?

Estavam na moda, nos anos 60, cantores líricos que deveras nos entusiasmavam. Lembro-me, por exemplo, de Mário Lanza, de Luís Mariano, de Alfredo Krauss que vim a conhecer em São Carlos, e com o qual contracenei, inicialmente, num ou noutro pequeno papel. E vários outros, quase todos tenores. O meu tipo de voz é de barítono ou de baixo-barítono. Mas foi sobretudo a partir do Curso Superior de Canto que comecei a interessar-me por vozes líricas, o que é absolutamente natural. Dado o meu tipo de voz, cerca de cinco ou seis cantores internacionais dominavam particularmente os meus gostos. Comecemos pelos alemães Dietrich Fischer-Dieskau e Hermann Prey, barítonos. O primeiro, absolutamente excecional em lied, tendo cantado praticamente tudo o que havia nesse domínio. Muitos o consideraram o maior músico do século XX. Foi inclusivamente maestro de música sacra. Ouvi-o ao vivo em Paris. Hermann Prey era superior como ator. As suas interpretações em óperas de Mozart, Rossini, Donizetti ficaram memoráveis. Outros dois barítonos ou baixo-barítonos, Fernando Corena e Rolando Panerai, eram também grandes cantores e atores, mais característicos que os anteriores. Outro barítono que, vocalmente (não cenicamente) me enchia as medidas, era Piero Cappuccilli. Era um barítono a que eu chamaria heróico-dramático, com uma incrível potência de voz. Jamais esquecerei o seu desempenho em Simon Boccanegra de Verdi, no São Carlos…

Poderia obviamente alongar-me, no que às vozes masculinas diz respeito. Mas também não posso deixar de me referir a vozes femininas que, além de nós deixarem siderados, tanto nos ensinaram! Antes de mais, Maria Callas!… Depois, uma Victoria de los Angeles que cheguei a ouvir na Gulbenkian. Fiorenza Cossotto, Mirella Freni, Christa LudwigMonserrat Caballé que ouvi em Paris dirigida por Leonard Bernstein… Uma Joan Sutherland, La Stupenda, a tal que cantou a Traviata no Coliseu na famosa noite de 24 para 25 de abril de 1974, com o já citado Alfredo Kraus… E eu estava lá!…

Quais os músicos portugueses mais influentes na sua carreira?

Por músicos, entendo compositores, professores, pianistas, ensaiadores, “pontos”, cantores, e, porque não, críticos… Antes de mais, as minhas duas professoras nos conservatórios do Porto e de Lisboa, respetivamente: Isabel Malaguerra e Helena Pina Manique. A professora D. Arminda Correia fez de forma extraordinária a breve transição entre uma e outra. Álvaro Benamor, na classe de ópera. A pianista Maria Helena Matos que me acompanhou com enorme competência desde o Conservatório Nacional, incluindo o exame final, e praticamente em todos os recitais que fui dando ao longo da carreira. O maestro Armando Vidal, músico de gema, com o qual preparei, como a generalidade dos artistas, quase todos os papéis que tinha a desempenhar nas dezenas de óperas em que fui interveniente. Entre os maestros – “pontos” – , não esquecerei o maestro Pasquali que tão competentemente orientou, durante os primeiros tempos, as nossas intervenções em palco, e o maestro Ascenso de Siqueira, grande e bom amigo e incrível ser humano… Tive a felicidade de trabalhar com encenadores como António Manuel Couto Viana, que me honrava com a sua amizade, Carlos Avillez (em várias óperas), Luís Miguel Cintra, João Lourenço

Cantores? Álvaro Malta, Hugo Casaes, Elizette Bayan, Armando Guerreiro, e outros… Lembro-me ainda de preciosas “dicas” que me deu Álvaro Malta

Compositores? Antes de mais, o Prof. Cândido Lima. Conheci-o em Paris. Conversávamos muito. Não esqueço o dia em que ele me apresentou ao seu amigo Iannis Xenakis… Fomos juntos a vários concertos. Preparei, com ele ao piano, algumas obras suas para canto. Foi meu pianista num concurso de canto em que fui premiado… Tudo isto em Paris, em 1977.

Com o grande compositor Fernando Lopes-Graça, tive a honra de preparar um importante papel de solista na sua obra As Sete Predicações d’Os Lusíadas, em vista à estreia mundial da mesma no VI Festival da Costa do Estoril (1980).
Joly Braga Santos honrava-me com a sua amizade e admiração. Com ele ensaiei o papel de solista na sua Cantata Das Sombras, sobre texto de Teixeira de Pascoaes, para primeira audição mundial no Teatro de S. Luís, a 27 de julho de 1985, com o Coro Gulbenkian, e enquadrada no XI Festival de Música da Costa do Estoril. De Joly Braga Santos nunca poderei esquecer as suas palavras, em pleno palco, no fim da última récita da sua Trilogia das Barcas, em maio de 1988: “Estou a compor uma ópera, para a Expo de Sevilha (daí a 4 anos), baseada numa obra de Frederico Garcia Llorca, Bodas de Sangue e tenho um muito bom papel para si”. Entretanto, o maestro falecia 2 meses depois, a 18 de julho de 1988, o que constituíu uma grande perda para o País, para a cultura portuguesa.

Quanto a críticos, devo dizer que, entre outros, Francine Benoit, João de Freitas Branco, José Blanc de Portugal muito me encorajaram e elogiaram!

E hoje, o que acha da evolução da ópera em Portugal?

Francamente, tenho dificuldade em responder. Há cerca de vinte e cinco anos, após a extinção da Companhia Portuguesa de Ópera e de ter dado como terminada a minha carreira lírica, abracei outro projeto e alheei-me bastante desse tema. Sei que, sobretudo por razões orçamentais, a programação se ressente, e muito. Tudo parece ser diferente. Repito: não tenho dados que me permitam fazer qualquer juízo de valor…

O que pensa do papel da música na Igreja?

Desde o Seminário Maior, fui lendo atentamente, e mais que uma vez, os documentos papais que surgiram desde o princípio do século XX:
o Motu próprio de São Pio X (1903) sobre a Restauração da Música Sacra;
a Constituição Apostólica Divini Cultus (1928) no pontificado de Pio XI, sobre a liturgia e a música sacra; a Encíclica Musicae Sacrae Disciplina (1953), do Papa Pio XII, sobre a Música Sacra, vocal e instrumental.

Logo após o Concílio do Vaticano II, surge a Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium (1963), a realçar que “a acção litúrgica reveste maior nobreza quando é celebrada com canto, com a presença dos ministros sagrados e a participação ativa do povo”. E quando fala de canto, obviamente que se refere ao canto sagrado intimamente unido com o texto. E se o canto gregoriano ocupa sempre um lugar privilegiado em igualdade de circunstâncias, não são excluídos os outros géneros de música sacra mormente a Polifonia, desde que em harmonia com o espírito da ação litúrgica, e de acordo com os diversos tempos litúrgicos, com as diversas celebrações e os vários momentos da celebração. Compositores, organistas, mestres de coro, cantores, músicos (instrumentistas) devem formar um todo para o esplendor do canto.

Alguns anos após o Concílio, a famosa Instrução Musicam Sacram (1967), da Sagrada Congregação dos Ritos, é a síntese, diria perfeita, do que à Música Sacra diz respeito, desde o canto na celebração da missa, passando pela preparação de melodias para os textos em vernáculo, depois a música para instrumental, o Canto no Ofício, etc etc.

O assunto levar-nos-ia ainda a três ou quatro intervenções de São João Paulo II, a uma célebre conferência do Cardeal Ratzinger (mais tarde Papa Bento XVI) em 1985, a uma Nota Pastoral dos nossos bispos por ocasião do Ano Europeu da Música (em novembro de 1985).

E o nosso Papa Francisco, por mais de uma vez, tem insistido que a Música Sacra e Canto Litúrgico devem estar plenamente inculturados nas linguagens artísticas atuais.

Quais os compositores que mais ouve e, desses, que obras prefere?

J.S. Bach é incontornável. Oiço com frequência, por exemplo, a Cantata do Café, cuja ária Hat man nicht mit seinen kindern fez parte do programa do meu exame do Curso Superior de Canto de Concerto, e foi uma das provas de acesso ao Coro Gulbenkian, em novembro de 1974; a Missa em Si m, cujas árias de baixo cantei; e a Paixão Segundo S. João, em que interpretei o papel de Jesus, no Porto, em abril de 1977, quando ainda estagiava em Paris…
Haëndel (O Messias, e Música Aquática); Beethoven (Sinfonias 3, 6 e 9) e a ópera Fidelio, cujo papel de Rocco desempenhei em junho de 1986; Mozart (o Requiem que, enquanto membro do Coro Gulbenkian, cantei no Coliseu em 1975, com gravação para a Erato; a Sinfonia nº 40, etc etc); Haydn (A criação, a Missa de Santa Cecília e a Sinfonia Concertante); Bizet (Carmen); Bramhs (Um Requiem Alemão);Rossini (Stabat Mater); Tchaickowsky (Romeu e Julieta e Francesa da Rimini; Dvorak (Sinfonia nº 9, O Novo mundo); Ravel (Bolero); Rodrigo (Concerto de Aranjuez); Strauss (valsas); Elgar (Concerto para violoncelo).

E muito, muito mais, obviamente.

O que o levou a colecionar livros e discos?

Certamente, e de uma forma geral, o meu gosto pela música, a ligação à Igreja, o meu profissionalismo, a cultura. É claro que tudo se desenrola de acordo com as diversas etapas da vida:

a minha função de professor de Música (além de outras disciplinas) no seminário menor, após a minha formação, e o começo dos meus estudos no Conservatório;

a minha transição para a vida pastoral, durante 3 anos;

a minha ida para Lisboa para concluir o curso Superior, do Conservatório, e a minha curta passagem pela Fundação Gulbenkian;

o meu estágio de dois anos em Paris, concluído com 2 meses em Itália;

o começo e a continuação da minha carreira lírica no Teatro Nacional de São Carlos;

os 3 anos pós-São Carlos em que continuei a minha carreira;

o abraçar de novo projeto: “trabalhar” um coro inserido numa missão pastoral na Paróquia dos Anjos (Lisboa), a minha Paróquia, a partir de 1997 e, posteriormente, de 2003 a 2016, na capela do Palácio da Bemposta (Academia Militar);

e porque não dizê-lo, as minhas viagens de automóvel, algumas longas, nos anos 70 e daí para cá, para já não falar da minha própria casa…

Como vê, são muitas as etapas e as circunstâncias em que procurei estar sempre em dia e dentro das exigências das mesmas. Livros, discos, cassetes, CDs, DVDs eram verdadeiros instrumentos de trabalho, de cultura, de ocupação, de prazer…

Julgo ter sintetizado as razões da minha importante biblioteca e discoteca, das quais progressivamente e criteriosamente, me vou voluntariamente desfazendo.

Antes da sua formação académica no conservatório, que lugar tinha a música erudita no seu papel de formador no seminário?

Além de renovar completamente o repertório de cânticos religiosos que vinha de há longos anos (o que supunha rodear-me de bom material), comecei a interessar-me por vozes maravilhosas que os discos faziam chegar até nós (Mario Lanza, Luis Mariano, Alfredo Krauss etc, e por orquestras excecionais que nos traziam as mais belas melodias clássicas, canções famosas, música de filmes históricos…

Tive sempre a preocupação de partilhar com os meus jovens alunos algum desse maravilhoso mundo musical… Era importante para a educação da sua sensibilidade, dos seus gostos, da sua cultura.

Lembro-me, e muitos ex-alunos (quer do seminário, quer do ensino público) se recordarão de ter dado a ouvir, entre outras obras, uma pequena peça do compositor russo Alexander Borodine. Tratava-se de Nas estepes da Ásia Central. Era a caravana que surgia ao longe, a marcha dos camelos, a intensidade instrumental que “subia” a anunciar a chegada da caravana, a permanência no terreno, o retomar da marcha, os sons que se iam extinguido… até a caravana se perder de vista!… Era tudo tão belo, tão claro! Apaixonante!… O interesse era enorme. Os alunos começavam a compreender que a música tem um sentido, um conteúdo, uma intenção, uma finalidade, uma expressão!
O mesmo sucedeu com outras obras, como o Hino da Alegria, da IX Sinfonia de Beethoven! Etc etc.

Mas adverti-os sempre para que nada disto desviasse a atenção do essencial da sua formação!…

Em três palavras como se caracteriza a si mesmo?

Persistente! Perfecionista! Brioso!

Lisboa, 19 de março de 2018

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JOSÉ DE FREITAS NA COMUNICAÇÃO SOCIAL

Um barítono que é crítico de si próprio

Correio da Manhã, 28 de abril de 1986

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De padre a cantor principal de ópera no Teatro São Carlos

Diário de Notícias do Funchal, 11 de maio de 1986

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José de Freitas: de padre a cantor

Correio da Manhã, 02 de agosto de 1987

José Afonso

Canções de Liberdade

Letras

Acordai!

Acordai!
Acordai,
homens que dormis
a embalar a dor,
a embalar a dor
dos silêncios vis!
Vinde no clamor
das almas viris,
arrancar a flor
que dorme na raiz!

Acordai!
Acordai,
raios e tufões
que dormis no ar,
que dormis no ar
e nas multidões!
Vinde incendiar
de astros e canções,
as pedras e o mar
o mundo e os corações…

Acordai!
Acordai,
de almas e de sóis,
este mar sem cais,
este mar sem cais,
nem luz de faróis!
E acordai, depois
das lutas finais,
os nossos heróis
que dormem nos covais!
Acordai!

Poema: José Gomes Ferreira
Música: Fernando Lopes Graça

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Dá o Outono

[ As Balas ]

Dá o Outono as uvas e o vinho
Dos olivais o azeite nos é dado
Dá a cama e a mesa o verde pinho
As balas deram sangue derramado

Dá a chuva o Inverno criador
Às sementes dá sulcos o arado
No lar a lenha em chama dá calor
As balas deram sangue derramado

Dá a Primavera o campo colorido
Glória e coroa do mundo renovado
Aos corações dá o amor renascido
As balas deram sangue derramado

Dá o sol as searas pelo Verão
O fermento no trigo amassado
No esbraseado forno cresce o pão
As balas deram sangue derramado

Dá cada dia ao homem novo alento
De conquistar o bem que lhe é negado
Dá a conquista um puro sentimento
As balas deram sangue derramado

De meditar, concluir, ir e fazer
Dá sobre o mundo o homem atirado
À paz de um mundo novo de viver
As balas deram sangue derramado

Dá a certeza, o querer e o construir
O que tanto nos negou o ódio armado
Que a vida construir é destruir
Balas que deram sangue derramado

Essas balas deram sangue derramado
Só roubo e fome e o sangue derramado
Só ruína e peste e o sangue derramado
Só crime e morte e o sangue derramado

Poema: Manuel da Fonseca
Música: Adriano Correia de Oliveira
Intérprete: Cantaremos Adriano (in CD “Homenagem a Adriano Correia de Oliveira: 25 anos após a sua morte”, Musicart, 2007)
Versão original: Adriano Correia de Oliveira (in “Que Nunca Mais”, Orfeu, 1975, reed. Movieplay, 1997; “Obra Completa”, Movieplay, 1994)

Havia um poeta-cantor

[ O Zeca ]

Havia um poeta-cantor
nascido à beira da Ria
que em Coimbra foi estudante
e cavaleiro andante
por amor à poesia.

Sendo cantor andarilho
não se cansou da viagem
e fez a canção de roda
que juntou a malta toda
com a esperança na bagagem.

Ele era o menino de oiro,
campeão da rebeldia
e o canto era o tesoiro
p’ra quem entrava no coro
dessa nova melodia.

Mandou embora os vampiros
que o puseram na prisão;
ouviu gritos e ouviu tiros,
ouviu queixas e suspiros
antes da Revolução.

Se Grândola era morena,
era verde a utopia;
a verdade era um poema
pelo qual valeu a pena
esperar anos por um dia.

O bravo cantor-poeta
deu a cantar o sinal,
boina negra na cabeça
e nos lábios a promessa
de um novo Portugal.

Letra: José Jorge Letria
Música: Manuel Freire
Intérprete: Manuel Freire (in Livro/CD “Abril, Abrilzinho”, Praça das Flores e Público, 2006)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. 

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Dos que morreram sem saber porquê

[ Madrugada ]

Dos que morreram sem saber porquê
Dos que teimaram em silêncio e frio
Da força nascida do medo
Da raiva à solta manhã cedo
Fazem-se as margens do meu rio.
Das cicatrizes do meu chão antigo
E da memória do meu sangue em fogo
Da escuridão a abrir em cor
De braço dado e a arma flor
Fazem-se as margens do meu povo
Canta-se a gente que a si mesma se descobre
E acordem luzes, arraiais
Canta-se a terra que a si mesma se devolve
Que o canto assim nunca é demais
Em cada veia o sangue espera a vez
Em cada fala se persegue o dia
E assim se aprendem as marés
Assim se cresce e ganha pé
Rompe a canção que não havia
Acordem luzes nos umbrais que a tarde cega
Acordem vozes, arraiais
Cantem despertos na manhã que a noite entrega
Que o canto assim nunca é demais
Cantem marés por essas praias de sargaços
Acordem vozes, arraiais
Corram descalços rente ao cais, abram abraços
Que o canto assim nunca é demais
O canto assim nunca é demais.

Texto e música: José Luís Tinoco
Intérprete: Duarte Mendes

E depois do Adeus

E depois do Adeus
Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.
Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder.
Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci.
E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor
Que aprendi.
De novo vieste em flor
Te desfolhei…
E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós.

Letra: José Niza
Música: José Calvário
Intérprete: Paulo de Carvalho* (1974) (in CD “Vida”, Farol, 2006)

Este parte

[ Cantar de Emigração ]

Este parte,
aquele parte
e todos, todos se vão
Galiza, ficas sem homens
que possam cortar teu pão

Tens em troca
órfãos e órfãs
tens campos de solidão
tens mães que não têm filhos,
filhos que não têm pais

Coração
que tens e sofre
longas ausências mortais
viúvas de vivos mortos
que ninguém consolará

Este parte,
aquele parte
e todos, todos se vão
Galiza, ficas sem homens
que possam cortar teu pão

Poema: Rosalía de Castro; trad. José Niza
Música: José Niza
Intérprete: Adriano Correia de Oliveira* (in “Cantaremos”, Orfeu, 1970, reed. Movieplay, 1999; “Obra Completa”, Movieplay, 1994; “Vinte Anos de Canções”, Movieplay, 2001)

Grândola, vila morena

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade

Poema: José Afonso
Música: José Afonso
Intérprete: José Afonso, Cantigas do Maio, 1971

Lisboa adormeceu

[ Lisboa à Noite ]

Lisboa adormeceu, já se acenderam
Mil velas nos altares das colinas.
Guitarras, pouco a pouco, emudeceram
Cerraram-se as janelas pequeninas.

Lisboa dorme um sono repousado,
Nos braços voluptuosos do seu Tejo,
Cobriu-a a colcha azul do céu estrelado
E a brisa veio, a medo, dar-lhe um beijo.

Lisboa andou de lado em lado,
Foi ver uma toirada, depois bailou, bebeu.
Lisboa ouviu cantar o fado,
Rompia a madrugada quando ela adormeceu.

Lisboa não parou a noite inteira,
Boémia, estouvada, mas bairrista,
Foi à sardinha assada, lá na feira,
E à segunda sessão duma revista.

Dali p’ró Bairro Alto enfim galgou,
No céu, a lua cheia refulgia,
Ouviu cantar a Amália e então sonhou
Qu’era saudade, aquela voz que ouvia.

Lisboa andou de lado em lado,
Foi ver uma toirada, depois bailou, bebeu.
Lisboa ouviu cantar o fado,
Rompia a madrugada quando ela adormeceu.

Letra: Fernando Santos
Música: Carlos Dias
Intérprete: Milú (Maria de Lurdes de Almeida Lemos) (in CD “Milú: O Melhor dos Melhores”; vol. 16, Movieplay, 1994; CD “Melodias de Sempre: vol. 2”, Movieplay, 1995)

Meu pensamento

[ Pensamento ]

Meu pensamento
Partiu no vento
Podem prendê-lo
Matá-lo não.

Meu pensamento
Quebrou amarras
Partiu no vento
Deixa guitarras.

Meu pensamento
Por onde passas
Estátua de vento
Em cada praça.

Meu pensamento
Partiu no vento
Podem prendê-lo
Matá-lo não.

Foi à conquista
Do novo mundo
Foi vagabundo
Contrabandista.

Foi marinheiro
Maltês ganhão
Foi prisioneiro
Mas servo não.

Meu pensamento
Partiu no vento
Podem prendê-lo
Matá-lo não.

E os reis mandaram
Fazer muralhas
Tecer as malhas
De negras leis.

Homens morreram
Chamas ao vento
Por ti morreram
Meu pensamento.

Poema: Manuel Alegre
Música: Adriano Correia de Oliveira e António Portugal
Intérprete: Adriano Correia de Oliveira [in EP “Trova do Vento Que Passa”, Orfeu, 1964; LP “Adriano Correia de Oliveira: Baladas”, Orfeu, 1969; LP “Trova do Vento Que Passa”, Orfeu, 1982; “7CD “Adriano: Obra Completa”: CD “Trova do Vento Que Passa: Adriano canta Manuel Alegre (I)”, Movieplay, 1994; 7 livros/CD “Obra Completa de Adriano Correia de Oliveira”: vol. 3 – “Trova do Vento Que Passa: Adriano canta Manuel Alegre I”, Movieplay/Público, 2007]

Não há machado que corte

[ Livre ]

Não há machado que corte
a raiz ao pensamento: 
não há morte para o vento, 
não há morte.

Se ao morrer o coração
morresse a luz que lhe é querida,
sem razão seria a vida,
sem razão.

Nada apaga a luz que vive
num amor, num pensamento,
porque é livre como o vento,
porque é livre.

Não há machado que corte
a raiz ao pensamento:
não há morte para o vento,
não há morte.

Se ao morrer o coração
morresse a luz que lhe é querida,
sem razão seria a vida,
sem razão.

Nada apaga a luz que vive
num amor, num pensamento,
porque é livre como o vento,
porque é livre.

Poema: Carlos de Oliveira (ligeiramente adaptado) 
Música: Manuel Freire
Intérprete: Manuel Freire (in EP “Manuel Freire canta Manuel Freire”, Tagus, 1968; LP “Dedicatória”, Tecla, 1972, reed. Tecla, 1974; livro/CD “Manuel Freire”, col. Canto & Autores, vol. 09, Levoir/Público, 2014)

No céu cinzento

[ Vampiros ]

No céu cinzento sob o astro mudo
Batendo as asas pela noite calada
Vem em bandos com pés veludo
Chupar o sangue fresco da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo, Eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada.

A toda a parte chegam os vampiros
Poisam nos prédios poisam nas calçadas
Trazem no ventre despojos antigos
Mas nada os prende às vidas acabadas

São os mordomos do universo todo
Senhores à força mandadores sem lei
Enchem as tulhas bebem vinho novo
Dançam a ronda no pinhal do rei

Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada
No chão do medo tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos na noite abafada

Jazem nos fossos vítimas dum credo
E não se esgota o sangue da manada
Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada

Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

José Afonso

O Cantador

O cantador
chegou de madrugada,
venceu a noite
pelas praias do mar;
na sua voz
teceu uma balada:
amanhecer
que havemos de cantar.

O cantador
rasgou as nossas penas
num canto moço
que havemos de acender;
na sua voz
ergueu vilas morenas:
Maio maduro
que havemos de colher.

Ergueu cidades
sem muros nem ameias,
lançou sementes
na terra de ninguém;
cantou o sol,
rompeu nossas cadeias,
trouxe consigo
outro amigo também.

O cantador
chegou de madrugada,
venceu a noite
pelas praias do mar;
na sua voz
teceu uma balada:
amanhecer
que havemos de cantar.

O cantador
rasgou as nossas penas
num canto moço
que havemos de acender;
na sua voz
ergueu vilas morenas:
Maio maduro
que havemos de colher.

Ergueu cidades
sem muros nem ameias,
lançou sementes
na terra de ninguém;
cantou o sol,
rompeu nossas cadeias,
trouxe consigo
outro amigo também.

Letra e música: José Medeiros
Arranjo: Paulo Borges e José Medeiros
Intérprete: José Medeiros com Mariana Abrunheiro (in CD “Torna-Viagem”, Memórias/Fortes & Rangel, 2004)

O meu amor disse que vinha

[ Trova do Vento Que Passa n.º 2 ]

O meu amor disse que vinha
quando a lua viesse
A lua já acolá vem
meu amor não aparece

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que eu morro por meu país

Letra: Popular (1.ª quadra) e Manuel Alegre
Música: Adriano Correia de Oliveira
Intérprete: Adriano Correia de Oliveira (in “O Canto e as Armas”, Orfeu, 1969; reed. Movieplay, 1997; “Obra Completa”, Movieplay, 1994)

O teu silêncio de estanho

O teu silêncio de estanho
Não alimenta a esperança
De ver o mundo mudar,
De haver alguma mudança.
O teu silêncio de estanho…

O mundo ficou tão estranho
Desde que tu te calaste;
Tomara que abandonasses
O teu silêncio de estanho!
O mundo ficou tão estranho…

Foi num beco sem saída
Que procuraste um abrigo,
Onde encontraste guarida,
Tua liberdade em perigo.
Foi num beco sem saída…

Andas de cabeça baixa,
Os olhos postos no chão;
Toda a gente te rebaixa,
E agora é tarde de mais,
Esqueceste o teu irmão.
Com os olhos postos no chão…

O desespero é tamanho,
Já não se sente a fragrância
Daquela força de antanho,
Daquela antiga pujança.
O desespero é tamanho…

Já não se sente a esperança,
Desde que tu desististe,
Desde que te demitiste,
Baixaste os braços, caíste.
Já não se sente a esperança…

Foste tu é que deixaste
Aquele estranho a mandar;
Calado, inerte ficaste,
Teu destino abandonaste,
Morreste sem se notar.
Deixaste um estranho a mandar…

Liberdade, tem cuidado, que te matam!
Tem cuidado, que te matam, Liberdade!
Liberdade, tem cuidado, que te matam!
Tem cuidado, que te matam, Liberdade!
Liberdade, Liberdade, tem cuidado, que te matam!
Tem cuidado, que te matam, Liberdade, tem cuidado!
Liberdade, Liberdade, tem cuidado, que te matam!
Tem cuidado, que te matam, Liberdade!…

Liberdade, tem cuidado!
Tem cuidado, que te matam!
Liberdade, tem cuidado!
Tem cuidado, que te matam!
Liberdade, tem cuidado!
Tem cuidado, que te matam!

Andas de cabeça baixa.
Baixaste os braços, caíste.
Eles que decidam por ti.

Não queres saber do futuro,
Eles decidem por ti,
Andas perdido no escuro;
E agora cobram-te o juro,
«— Porquê? Eu já me esqueci!»,
Eles decidem por ti.

Mas quando quiseres matar
O medo e a sua lembrança
Já vai ser tarde de mais;
Vais com certeza esbarrar
No teu silêncio de estanho.

Vais com certeza esbarrar
No teu silêncio de estanho.
Vais com certeza sair
Do teu silêncio de estanho.
Vais com certeza sair
Do teu silêncio de estanho.
Vais com certeza sair
Do teu silêncio de estanho…
Vais com certeza sair
Do teu silêncio de estanho…
Vais com certeza sair…

Letra e música: Rodrigo Crespo
Intérprete: Canto Ondo (in CD “Entre o Alto do Peito e as Campainhas da Garganta”, A Monda – Associação Cultural/Canto Ondo, 2016)

Pergunto ao vento

[ Trova do Vento Que Passa ]

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Poema (excerto): Manuel Alegre
Música: António Portugal
Intérprete: Adriano Correia de Oliveira (in EP “Trova do Vento Que Passa”, Orfeu, 1963; “Obra Completa”, Movieplay, 1994)

Quando a corja topa

[ O Que Faz Falta ]

Quando a corja topa da janela
O que faz falta
Quando o pão que comes sabe a merda
O que faz falta

O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta

Quando nunca a noite foi dormida
O que faz falta
Quando a raiva nunca foi vencida
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é acordar a malta
O que faz falta

Quando nunca a infância teve infância
O que faz falta
Quando sabes que vai haver dança
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um cão te morde uma canela
O que faz falta
Quando à esquina há sempre uma cabeça
O que faz falta

O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um homem dorme na valeta
O que faz falta
Quando dizem que isto é tudo treta
O que faz falta

O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta
O que faz falta é libertar a malta
O que faz falta

Se o patrão não vai com duas loas
O que faz falta
Se o fascista conspira na sombra
O que faz falta

O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é dar poder à malta
O que faz falta

O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta

O que faz falta é acordar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta
O que faz falta é libertar a malta
O que faz falta

O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é dar poder à malta
O que faz falta

Letra e música: José Afonso
Intérprete: José Afonso (in “Coro dos Tribunais”, Orfeu, 1974; reed. Movieplay, 1987, 1996)

Quero falar-te

[ Zeca ]

Quero falar-te e o coração, de comovido,
perde as palavras que juntara para ti.
Cantar-te sei e apenas isso faz sentido.
Menino d’oiro,
vem sentar-te aqui!
Menino d’oiro,
vem sentar-te aqui!

Por todo o ano é tempo de cantar janeiras.
Mulher da erva, inda agora a vi passar.
Por mar profundo, terra e todas as fronteiras
venham mais cinco
mil p’ra te saudar.
Venham mais cinco
mil p’ra te saudar.

Pode o Sol morrer de velho,
pode o gelo arder também,
mas a voz que de ti nasce
já não morre com ninguém.

No céu cinzento, o astro mudo inda revela
um bater de asas, o disfarce do seu pé.
Bebem do sangue, comem tudo… olhai, cautela!
O que faz falta
já se sabe o que é.
O que faz falta
já se sabe o que é.

Junta-te a nós, ó bairro negro! vem, falua,
p’la noite fora até que se erga o sol de Verão!
Solta as amarras, sopra, ó vento! continua,
que este homem não
se foi embora, não!
Que este homem não
se foi embora, não!

Pode o Sol morrer de velho,
pode o gelo arder também,
mas a voz que de ti nasce
já não morre com ninguém.

Letra: Hélia Correia
Música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé [in CD “Utopia: Vitorino e Janita Salomé cantam José Afonso (ao vivo)”, Virgin/EMI-VC, 2004]

Sempre tão constante

[ Liberdade ]

Sempre tão constante
o pulsar da Liberdade
ameaçada a cada instante,
perseguida pela vaidade
em que a mentira
gera ambiguidade.

Hoje, tão desperta
como nunca, a Humanidade
é confrontada com a severa,
insidiosa impunidade…
e a indiferença
esmaga a vontade.

Ferozmente silenciadas
as Palavras necessárias
às mudanças, tão contrárias
às ideias instaladas…

Brilha,
por entre as sombras
rompe a Claridade
insubmissa,
a chama da Verdade.

Luta
por encontrar um rumo,
para cumprir-se
imaculada a Dignidade,
a insubmissa
chama da Verdade.

Letra: Teresa Salgueiro
Música: Teresa Salgueiro, Rui Lobato, Óscar Torres, Marlon Valente e Graciano Caldeira
Intérprete: Teresa Salgueiro (in CD “O Horizonte”, Teresa Salgueiro/Lemon, 2016)

Somos filhos da madrugada

[ Canto Moço ]

Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor no ramo
Navegamos de vaga em vaga
Não sabemos de dor nem mágoa
Pelas praias do mar nos vamos
À procura da manhã clara

Lá no cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá no cimo de uma montanha

Onde o vento cortou amarras
Largaremos p’la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca brisa moira encantada
Vira a proa da minha barca

Letra e música: José Afonso
Intérprete: José Afonso (in “Traz Outro Amigo Também”, Orfeu, 1970; reed. Movieplay, 1987)
Outras versões: Teresa Silva Carvalho (in “Ó Rama, Ó Que Linda Rama”, Orfeu, 1977, reed. Movieplay, 1994); Vitorino e Janita Salomé (in CD “Utopia”, EMI-VC, 2004); Zé Eduardo Unit (in CD “A Jazzar no Zeca”, Clean Feed, 2004); Erva de Cheiro (in CD “Que Viva o Zeca”, Musicart, 2007)

Sonhei

[ O Madrugar de um Sonho ]

Sonhei… que já alta madrugada,
Viera a Razão armada
P’ra defender a Cidade;
Olhei… e vi que este nosso Povo
Levantara-se de novo
Aos vivas à Liberdade.

Depois…, e já de janela aberta,
Ouvi um bradar – “Alerta!” –
E o eco, p’la rua fora,
Gritou p’ra dizer com Razão pura
Que uma era de tortura
Terminava àquela hora!

Julguei ser um sonho,
Mas foi realidade;
E às vezes suponho
Que não foi verdade!

Mas se alguém disser
“Não há Liberdade!”,
Eu posso morrer
Mas não é verdade!

Saí… e vi uns homens libertos,
Todos de braços abertos…
Todos a pedir justiça!
Alguns já de saúde perdida
E com metade da vida
Em prisões de luz mortiça.

Ouvi… milhões de palmas e brados;
Trabalhadores e soldados
Vivendo a mesma euforia;
Senti… que havia um Portugal novo;
Vi tão alegre o meu povo,
Que até chorei de alegria!

Julguei ser um sonho,
Mas foi realidade;
E às vezes suponho
Que não foi verdade!

Mas se alguém disser
“Não há Liberdade!”,
Eu posso morrer
Mas não é verdade!

Mas se alguém disser
“Não há Liberdade!”,
Eu posso morrer
Mas não é verdade!

Letra e música: Frederico de Brito
Arranjo: Pedro Osório
Intérprete: Carlos do Carmo* (in LP “Álbum”, Philips/Polygram, 1980, reed. Universal Music, 2003, Universal Music, Série ’50 Anos’, 2013)

Tejo que levas as águas

Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar

Lava-a de crimes espantos
de roubos, fomes, terrores,
lava a cidade de quantos
do ódio fingem amores

Leva nas águas as grades
de aço e silêncio forjadas
deixa soltar-se a verdade
das bocas amordaçadas

Lava bancos e empresas
dos comedores de dinheiro
que dos salários de tristeza
arrecadam lucro inteiro

Lava palácios, vivendas
casebres, bairros da lata
leva negócios e rendas
que a uns farta e a outros mata

Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar

Lava avenidas de vícios
vielas de amores venais
lava albergues e hospícios
cadeias e hospitais

Poema: Manuel da Fonseca
Música: Adriano Correia de Oliveira
Intérprete: Cantaremos Adriano (in CD “Homenagem a Adriano Correia de Oliveira: 25 anos após a sua morte”, Musicart, 2007)
Versão original: Adriano Correia de Oliveira (in “Que Nunca Mais”, Orfeu, 1975, reed. Movieplay, 1997; “Obra Completa”, Movieplay, 1994; “Vinte Anos de Canções”, Movieplay, 2001)

Venham mais cinco

Venham mais cinco
Duma assentada
Que eu pago já
Do branco ou tinto
Se o velho estica
Eu fico por cá

Se tem má pinta
Dá-lhe um apito
E põe-no a andar
De espada à cinta
Já crê que é rei
D’aquém e d’além-mar

Não me obriguem
A vir para a rua gritar
Que é já tempo
D’embalar a trouxa e zarpar

A gente ajuda
Havemos de ser mais
Eu bem sei
Mas há quem queira
Deitar abaixo
O que eu levantei

A bucha é dura
Mais dura é a razão
Que a sustém
Só nesta rusga
Não há lugar
P’rós filhos da mãe

Não me obriguem
A vir para a rua gritar
Que é já tempo
D’embalar a trouxa e zarpar

Bem me diziam
Bem me avisavam
Como era a lei
Na minha terra
Quem trepa
No coqueiro é o rei

A bucha é dura
Mais dura é a razão
Que a sustém
Só nesta rusga
Não há lugar
P’rós filhos da mãe

Não me obriguem
A vir para a rua gritar
Que é já tempo
D’embalar a trouxa e zarpar

Letra e música: José Afonso
Intérprete: Cristina Branco (in CD “Abril”, Universal Classics France, 2007)
Versão original: José Afonso (in “Venham Mais Cinco”, Orfeu, 1973; reed. Movieplay, 1987, 1996)
Outras versões: Miguel Salerno com sua Orquestra e Coros (in LP “E Depois do Adeus… e Outros Grandes Êxitos da Música Portuguesa”, Alvorada, 1974); A Turma (in EP “O Facho”, Discos Estúdio, 1975); Nana Sousa Dias (in “Ousadias”, Polydor/Polygram, 1986); Tubarões (in CD “Filhos da Madrugada Cantam José Afonso”, BMG Ariola, 1994); Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra (in CD “Em Cantos”, Movieplay, 1995); Incógnita (in CD “A Morte Saiu à Rua”, Virtual Records, 1995); Hi-Tech Ensemble (in CD “Memórias II: Versões Instrumentais”, CNM, 1995); Banda da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense (in CD “Terra da Fraternidade”, C. M. de Grândola, 1999); Vozes da Terra (in CD “Tributos (ao Vivo)”, Música a Metro, 2003); Nem Truz Nem Muz (in CD “Ao Vivo”, InforArte, 2004); Mar Fora (in CD “Ao Vivo”, Mar Fora, 2004); Mário Laginha e Bernardo Sassetti (in CD “Grândolas”, MVM, 2004); Sons da Fala (in CD “Sons da Fala”, Som Livre, 2007); Milladoiro (in CD “A Quinta das Lágrimas”, Pai Música, Galiza, 2008); Grupo Vocal Canto Décimo (in CD “Conta-me Um Conto (Ao Vivo)”, Canto Décimo, 2008)

Viemos com o peso do passado

[ Liberdade ]

Viemos com o peso do passado e da semente
Esperar tantos anos torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
Vivemos tantos anos a falar pela calada
Só se pode querer tudo quando não se teve nada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só há liberdade a sério quando houver
A paz, o pão
habitação
saúde, educação
Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir

Sérgio Godinho

José Afonso
Zeca Afonso
Música na Pré-Escola

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A bandinha vai tocar

A bandinha vai tocar,
muito depressa, sem parar.
Prestem muita atenção
pois os triângulos vão tocar:

Tarata tchim, tarata tchim,
Tarata tchim, tchim, tchim, tchim, tchim
.

A bandinha vai a tocar,
vai lentamente, sem parar.
Prestem muita atenção
pois os tambores vão a rufar.

Burumbumbum, burumbumbum,
burumbumbum bum bum bum bum.

Música na Pré-Escola
Música na Pré-Escola

A barata

A barata diz que tem
uma cama de marfim. (bis)
É mentira da barata,
ela dorme no jardim.
Ah ah ah, eh eh eh,
ela dorme no jardim. (bis)

A barata diz que tem
sapatinhos de fivela. (bis)
É mentira da barata,
os sapatos não são dela.
Ah ah ah, eh eh eh,
os sapatos não são dela. (bis)

A chuva

A chuva cai, cai,
a chuva cai, cai.
A chuva cai na cabeça.

A mover-se

A andar, a andar,
os patinhos vão nadar.

A correr, a correr,
os gatinhos vão comer.

A voar, a voar,
as pombinhas vão no ar.

A nadar, a nadar,
os peixinhos vão no mar.

A trotar, a trotar,
os cavalos vão ganhar.

A saltar, a saltar,
os esquilos vão brincar.

As pombinhas

As pombinhas da Cat’rina
andaram de mão em mão.
Foram ter à Quinta Nova,
ao pombal de São João.

Ao pombal de São João,
à quinta da Rosalina. (bis)
Minha mãe mandou-me à fonte
e eu parti na cantarinha. (bis)

Ao passar o ribeirinho

Ao passar o ribeirinho,
água sobe, água desce, (bis)
dei a mão ao meu amor,
não quiz que ninguém soubesse. (bis)

Se tu és o meu amor,
dá-me cá os braços teus. (bis)
Se não és o meu amor,
vai-te embora, adeus, adeus. (bis)

Cai neve

Cai neve, cai neve,
cai neve no jardim.
Branquinha cobre o chão
e então tudo é branquinho assim.

Cai chuva, cai chuva,
cai chuva no jardim! (bis)
A água cobre o chão
e então, parece um lago assim! (bis)

– Coelhinho da Páscoa
que trazes p’ra mim?
Um ovo, dois ovos,
três ovos assim. (2 v.)

– Coelhinho da Páscoa
com quem vais dançar?
Com uma menina
que saiba cantar. (2 v.)
Com uma menina

– Coelhinho da Páscoa
que lhe vais of’recer?
Um saco de amêndoas
p’ra ela comer. (2 v.)

Eu fui ao jardim celeste

Eu fui ao jardim celeste.
O que foste lá fazer…
Fui lá buscar uma rosa…
Para quem é essa rosa…
É para a menina…

Eu tenho um martelo

Eu tenho um martelo
para martelar. (bis)
Trás trás trás, trás trás trás,
eu já sei pregar. (bis)

Eu tenho uma serra
para trabalhar: (bis)
rr rr rr, rr rr rr,
eu já sei serrar. (bis)

Ignez Mazoni ]

Faz como eu

Faz assim como eu,
assim assim. (bis)

Bate o pé como eu,
assim assim. (bis)

Bate palmas como eu,
assim assim. (bis)

Dá estalinhos como eu,
assim assim. (bis)

Mexe os ombros como eu,
assim assim. (bis)

Ergue os braços como eu,
assim, assim. (bis)

Toca assim como eu,
assim, assim. (bis)

Dança assim como eu,
assim, assim. (bis)

Marcha assim como eu,
assim, assim. (bis)

Faz assim, como o Paulo…

Havia um lindo balão

Havia um lindo balão
que sempre queria voar.
Descia e subia, descia e subia
e ao céu já queria chegar.

António José Ferreira ]

Lagarto pintado

Lagarto pintado,
quem te pintou?
Foi uma velha
que aqui passou.

No tempo da eira,
fazia poeira.

Puxa, lagarto,
por aquela orelha.

ALTERNATIVA

– No campo da aldeia,
ó que poeira!
Puxa, lagarto,
por esta orelha!

Marcha soldado

Marcha soldado,
cabeça de melão.
Se não marchar’s direito,
sairás do batalhão.

O carro da Rita

O carro da Rita
rr rr rr rr rr rr rr rr rr.
O carro da Rita rr rr rr
corre pela rua.

A abelha bonita, bz bz bz,
bz bz bz, bz bz bz.
A abelha bonita, bz bz bz,
faz uma algazarra.

O Manel tinha uma bola

O Manel tinha uma bola,
mas, por falta de atenção,
lá deixou ele ir a bola
Presa aos dentes de um cão.

O Manel tinha uma bola,
mas agora não tem, não.
E a gente, a ver se o consola,
vai cantar-lhe esta canção.

Olha a laranjinha

Olha a laranjinha,
foi do chão ao ar.
O meu amorzinho
não veio ao jantar.

Não veio ao jantar,
não veio ao almoço.
Olha a laranjinha,
foi do chão ao poço.

Olha a laranjinha,
foi do chão à terra.
O meu amorzinho
é de lá da serra.

É de lá da serra,
é de lá do monte.
Olha a laranjinha,
foi do chão à fonte.

Os olhos da Joaninha,
tenho-os, eu, aqui na mão. (bis)

Os olhos da Susaninha
são negros, cor do carvão. (bis)

Que tens, canguru

Que tens canguru
nessa linda bolsinha.
Eu levo o meu filho
à sua escolinha.

– Diz lá, cangurú:
vais de carro ou a pé?
Eu vou aos saltinhos
com o meu bebé.

Gira a roda

Gira a roda, gira, gira,
gira a roda e vai girar.
Gira a roda, gira, gira,
gira a roda até parar.

Se queres ser meu amigo

Se queres ser meu amigo,
diz-me o nome.

… dá-me a mão…

… diz olá…

… diz por favor…

… diz desculpa…

… com licença…

… até logo…

Meu lindo balão

Meu lindo balão, ão, ão,
pelo ar subiu, iu, iu,
mas caiu no chão, ão, ão,
nunca mais se viu, iu, iu.

Todos os patinhos

Todos os patinhos
sabem bem nadar,
cabeça para baixo,
rabino para o ar.

Quando estão cansados,
da água vão sair.
Depois em grande fila
p’ra o ninho querem ir.

Traz traz

Traz-traz, p’ra aquecer,
bate palminhas, bate palminhas!
Traz-traz, que bem que faz.
Bate palminhas, traz-traz-traz.

Texto de M.C. Diogo

Truz-truz, p’ra aquecer
bate na mesa, bate na mesa!
Truz-truz, que bem faz.
Bate na mesa, truz-truz-truz!

Um copo com água

Um copo com água,
uma escova e pasta
p’ra lavar os dentes
é o que me basta.

‘Sfrego, ‘sfrego, ‘sfrego,
muito esfregadinho:
Com os dentes lavados,
que rico cheirinho!

Luiza da Gama Santos ]

Um dedo assim

Um dedo assim tiquitim, tiquitim,
eu mexo já já tacatá tacatá.
Um dedo assim tiquitim, tiquitim,
eu mexo já já tacatá tacatá.

Uma mão…

Um braço…

Um pé…

Uma perna…

O corpo assim….

Um elefante se balanceava

Um elefante se balanceava
sobre a teia de uma aranha.
Como ele sabia que não cairia,
foi chamar outro elefante.

Dois elefantes… Três elefantes… (…)

Dez elefantes se balanceavam
sobre a teia de uma aranha.
Como eles sabiam que já cairiam
não chamaram mais nenhum.

Na última estrofe, as notas finais são dó – dó.

Texto português de Un elefante se balanceava por António José Ferreira ]

Vamos dançar

Vamos dançar:
Começa devagar;
Depois de começar,
Não podes mais parar.

Falado:

Um dedo

Outro dedo

Uma mão

Outra mão

Um cotovelo

Outro cotovelo

Um ombro

Outro ombro

Um pé

Outro pé

Uma perna

Outra perna

A cabeça

O corpo inteiro

Criança tocando jambé

A ouvir

A ouvir, a tocar
que tens bom ouvido vais mostrar.
A sentir, a cheirar,
que tens bom olfato vais mostrar.
A tocar, a apalpar,
que és bom no tacto vais mostrar.
A comer, a mascar,
mostra-me que tens bom paladar.
A olhar, a piscar,
mostra a visão para o teu par.

António José Ferreira ]

Animais

Animais da terra,
animais do mar,
uns movem-se rápido,
outros devagar.

Tartaruga, vai devagar.
Tens o tempo todo p’ra chegar.
Assim tu não vais transpirar.
Tartaruga vai devagar.

Corre lebre, corre lebre,
não podes parar.
Se não corres para a meta
não irás ganhar.

António José Ferreira ]

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Meloteca, recursos musicais criativos para a infância

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Cai a castanha

Cai a castanha,
é de quem a apanha;
cai a castanhinha,
talvez seja minha.
É castanha crua,
deve ser a tua;
esta é bem assada,
para a minha amada.
Esta é cozida,
é boa comida;
se é bem descascada,
não restará nada.

António José Ferreira ]

Cuida sempre da alimentação

Cuida sempre da alimentação,
come sopa, arroz e feijão.
Cuida sempre da alimentação,
come uvas, pera, melão.

Cuida sempre da alimentação,
come truta, polvo, salmão;
cuida sempre da alimentação,
bebe água até mais não.

António José Ferreira ]

Da abóbora faz melão

Da abóbora faz melão,
do melão faz melancia.
Faz dança, faz dança,
faz dança, ó Maria.

Quem quer dançar melhor,
vai à casa do José.
Ele pula, ele roda,
ele mexe bem o pé.

Trad. do Brasil ]

Eu fui ao Senhor doutor

Eu fui ao senhor doutor,
eu fui ao senhor doutor,
que me disse que eu tenho um tique,
que me disse que eu tenho um tique,
eu tenho um tique, eu tenho um tique,
tique tique, tique tique.

Eu fui ao Senhor doutor
que mandou mexer as pernas…
Eu tenho um tique,
Eu tenho um tique, tique tique, tique tique.
… mexer a anca…
… mexa os braços…
… mexa os ombros…
… mexer a cabeça…

La la, chickalileelo

La la, chickalileelo,
la la, chickalileelo.

Quem soube escutar, tocou,
quem soube escutar tocou.

Vou escolher para tocar,
aquele que sabe escutar,

Quem sabe ouvir e calar,
este tambor vai tocar.

Mãezinha

Mãezinha, querida mãezinha,
diz quando me levas a passear.
A criança pergunta então:

Mãe,
quando me levas a passear?
A mãe diz, por exemplo:

Domingo!
A criança diz com ansiedade:

Ah se já fosse Domingo….

Na segunda

Na segunda, venho à escola;
na terça, trago a sacola;
na quarta, visto a camisola;
na quinta, jogo à bola;
na sexta, fecho a escola;
no sábado, bebo coca-cola;
no domingo, toco viola.

António José Ferreira ]

Ó abre a roda

Ó abre a roda, tingolelé.
Ó abre a roda, tingolelá.
Ó abre a roda, tingolelé, tingolelé,
tingolalá.

Ó fecha a roda…

Ó gira a roda…

Ó bate o pé…

Ó dá um pulo…

Ao pé coxinho…

Ó bate palmas…

Ó dá um abraço…

Trad. do Brasil ]

Ó filho!

Ó filho, lava a cara.
Ó pai, eu já lavei.
Quando lavaste a cara?
Ó pai, eu lavei ontem.

Lavaste, lavas e lavarás. (2 v.)

Ó filho, faz a cama.
Ó pai, eu já a fiz.
Quando fizeste a cama?
Ó pai, eu já fiz ontem.

Fizeste, fazes e farás. (2 v.)

Ó filho, arruma o quarto.
Ó pai, já arrumei.
Quando arrumaste o quarto?
Ó pai, arrumei ontem.

Arrumaste, arrumas e arrumarás. (2 v.)

Ó filho, põe a mesa.
Ó pai, eu já a pus.
Quando puseste a mesa.
Ó pai, eu já pus ontem.

Puseste, pões e porás. (2v.)

Ó filho, come a sopa.
Ó pai, eu já comi.
Quando comeste a sopa?
Ó pai, eu comi ontem.

Comeste, comes e comerás. (2 v.)

Ó filho, lava os dentes.
Ó pai, eu já lavei.
Quando lavaste os dentes?
Ó pai, eu lavei ontem.

Lavaste, lavas e lavarás. (2v.)

António José Ferreira ]

O maestro manda

O maestro manda
tocar um ritmo. (2 v.)
O maestro manda
fazer estalos. (2 v.)
O maestro manda
bater nos ombros. (2 v.)
O maestro manda
bater as palmas. (2 v.)
O maestro manda
bater nas pernas. (2 v.)
O maestro manda
bater o pé. (2 v.)

Olha o bichinho

Olha o bichinho
que está no meio.
Deixai-o ‘star,
‘stá a dormir, ‘stá a descansar,
vem agora ó bichinho,
anda ‘scolher o teu par.

Papá Pinguim

Papá pinguim, papá pinguim,
eu sou o papá pinguim, pois sim.
e se és um bom filho,
vem atrás de mim.

Para a frente, para trás

Para a frente, para trás,
é assim que a gente faz.
Para trás, para a frente,
é assim que faz a gente

Para um lado, para o outro;
esta dança sabe-me a pouco.
Para baixo, para cima;
é a dança da minha prima.

Para cima, para baixo;
que em breve damos despacho.
Para o lado, ao pé cochinho.
Aguenta mais um pouquinho.

Mãos nas ancas a dançar
que esta moda vais recordar.

António José Ferreira ]

Saltam castanhas

Salta uma, saltam duas,
três castanhas a estalar.
Dá-me uma, dá-me duas,
dá-me outra p’rò meu par.

António José Ferreira ]

Se eu for doutor

Se eu for doutor,
cuidarei bem do Senhor.
Se eu for enfermeira,
‘starei sempre à tua beira.
Se eu for pianista,
vou tocar como um artista.
Se eu for costureira,
farei roupas de primeira.
Se eu for bombeiro,
chegarei sempre em primeiro.
Se eu for bombeiro,
chegarei sempre em primeiro.
Se eu cozinheira,
farei pratos à maneira.

António José Ferreira ]

Animais

Animais da terra,
animais do mar,
uns movem-se rápido,
outros devagar.

Tartaruga, vai devagar.
Tens o tempo todo p’ra chegar.
Assim tu não vais transpirar.
Tartaruga vai devagar.

Corre lebre, corre lebre,
não podes parar.
Se não corres para a meta
não irás ganhar.

António José Ferreira ]

Tenho uma vassoura

Tenho uma vassoura,
vassoura com magia.
Ela me transporta
de noite e de dia.

Imaginação, imaginação…

Monstros e vampiros
e múmias e aranhas;
bruxas e fantasmas,
e músicas estranhas.

António José Ferreira ]

Uma pipoca

Uma pipoca a estourar numa panela,
vem logo outra e começa a responder.
Aí começa um tremendo falatório
e já ninguém se consegue entender.

É tal o ploc,
plo-ploc ploc ploc.
É tal o ploc,
plo-ploc ploc ploc.

Trad. do Brasil ]

Vamos lá cantar

Vamos lá cantar,
rir e festejar.
Ao nosso amigo Carlos
um abraço vamos dar.

Parabéns!
Parabéns!
Ao nosso amigo Carlos
um abraço vamos dar.
Oh yeah!
Um abraço!
Mais uma vez!

António José Ferreira ]

Vamos parar e escutar

Vamos parar e escutar.
Vamos ouvir o João a tocar.

Vamos parar e escutar.
Vamos ouvir as meninas a tocar.

Vamos parar e escutar.
Vamos ouvir os rapazes a tocar.

Vamos parar e escutar.
Vamos ouvir toda a turma a tocar.

António José Ferreira

Vou no carro azul

Vou no carro azul,
vou de férias para o sul.

Vou no carro azul,
vou a casa do Raúl.

Ponho sempre o cinto.

Meto a primeira.

Ando para a frente.

Ando para trás.

Viro à direita.

Viro à esquerda.

Paro no vermelho.

António José Ferreira ]

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Criança tocando jambé
Criança tocando jambé