barítono José de Freitas

JOSÉ DE FREITAS

José de Freitas, de nome completo José Cirilo de Freitas Silva, nasceu na Madeira e foi padre da Congregação da Missão (Padres Vicentinos). Já depois de padre, estudou nos conservatórios do Porto e de Lisboa, onde concluiu o Curso Superior de Canto com excelente classificação. Em 1978 tornou-se artista residente do Teatro Nacional de São Carlos onde se estreou com Schaunard em La Bohème. Foi intérprete de importantes papéis de barítono e de baixo-barítono em Portugal e no estrangeiro. Foi também diretor de coros e compositor de cânticos litúrgicos.

ENTREVISTA

Qual foi o primeiro momento em que se lembra de ter tido consciência de que a música era importante para si?

O primeiro momento?! Preferiria falar de uma pequena série de momentos… Concretizando: No meu 5º ano do seminário (hoje 9º ano), cerca dos 16 anos, quando a chamada “mudança de voz” era já algo acentuada, o meu ilustre professor de música, Padre António Ferreira Telles, poucos dias após ter-me convidado para tocar harmónio em algumas cerimónias litúrgicas (ele era o harmonista oficial, obviamente) e pedir-me para, alternadamente com outro colega, iniciar os cânticos na liturgia (o equivalente a solista), veio falar comigo na véspera da festa do Padroeiro do seminário (S. José), e disse-me: “Confio muito em ti para “segurares” a 4ª voz na missa solene de amanhã.” Ora aí tem um “puzzle” com bastante significado na minha “consciência musical” de jovem seminarista…

Quais os professores que mais o influenciaram no tempo de seminário?

Vou referir-me apenas a professores de música, obviamente. Desde os primeiros anos, tive uma veneração especial por um ilustre mestre, muito “sui generis”, mas muito competente e sabedor: o Padre António Ferreira Telles, a que atrás aludi. Era excelente harmonista, compositor, ótimo harmonizador. O Pe. Fernando da Cunha Carvalho, felizmente ainda entre nós, também teve influência na minha orientação musical, e não só. Mas vou salientar, sem querer ser injusto para os atrás citados e porventura outros, o Pe. João Dias de Azevedo, que muito me ajudou sobretudo no harmónio e no órgão, no Seminário de Mafra, onde fiz o meu noviciado (1954-1956). Nesse período, cheguei a tocar órgão em algumas celebrações dominicais e festas na Basílica de Mafra… E, para completar os anos do seminário, não poderei omitir o Pe. Fernando Pinto dos Reis (1929-2010).

Depois de ir para o seminário e de ser padre, quando é que se apercebeu de que cantar era o mais importante na sua vida profissional?

Como disse, cedo me iniciei e fui crescendo na função de solista. Continuei-a ao longo de todo o curso, alternando-a com o múnus de harmonista. Terminado o curso, fui incumbido da disciplina de Música (além de outras), no seminário menor. O concílio do Vaticano II acabava de privilegiar o vernáculo na liturgia. Iniciei a renovação de todo o repertório vigente. Eu próprio dei largas a uma velha paixão e iniciei a composição de cânticos em português, incluindo o “ordinário” e o “próprio” da missa para determinadas solenidades, além de outros cânticos circunstanciais. Aconselhado por não poucos, matriculei-me no Conservatório do Porto. Canto? Composição? Duas paixões. Muito incitado e encorajado pela professora D. Isabel Mallaguerra, decidi-me mais seriamente pelo canto, sem descurar a composição musical.

Após o curso geral de canto no Conservatório do Porto, vim a concluir o Curso Superior no Conservatório Nacional com a professora D. Helena Pina Manique. Com o programa do exame do curso superior concluído com alta classificação, fui convidado para vários recitais em Lisboa e não só. Iniciei logo de seguida o curso de ópera com o professor Álvaro Benamor e D. Helena Pina Manique. Fui admitido no Coro Gulbenkian, onde estive durante alguns meses até seguir para Paris com uma bolsa de estudos.

O diretor do Teatro Nacional de São Carlos, Eng. João Paes, que já me ouvira no Conservatório, convidou-me para, temporariamente, interromper o estágio em Paris e vir a Lisboa preparar o desempenho de um importante papel numa ópera portuguesa. Bem sucedido, pediu-me para, após o estágio parisiense, seguir para Florença, afim de preparar, com o famoso Gino Bechi, o importantíssimo papel de primeiro barítono (Lord Enrico d’Ashthon) da ópera Lucia di Lamermoor, de Donizetti. Cantei esse papel em novembro de 1977, no Teatro Rivoli (Porto)…

Toda esta “bola de neve” a partir da conclusão do curso superior de canto em 1974, todo o incrível desencadear de situações até finais de 1977, todo o ano de 1977 sobretudo, tudo isso responde à sua pergunta… Parafraseando, em contraste, um fadista, diria: “Ser cantor não foi meu sonho, mas cantar foi o meu fado…”

Dos anos em que estudou Música e Canto, que professores tiveram uma influência mais decisiva?

Nos conservatórios do Porto e de Lisboa, tive a felicidade de ser orientado respetivamente pelas professoras D. Isabel Mallaguerra e D. Helena Pina Manique, e ainda, por algum tempo, pela D. Arminda Correia, sem esquecer o Prof. Álvaro Benamor (cena).

Em Paris, como olvidar o trabalho com a famoso baixo Huc-Santana e o não menos célebre barítono Gabriel Bacquier? Em Itália, e aqui em Portugal, Gino Bechi foi simplesmente precioso no trabalho vocal e cénico. Este famoso barítono, que também me honrava com a sua amizade, cantou nos anos 40, em todos os grandes palcos do mundo. A sua famosa “entrega” aos espetáculos e nos espetáculos, quer cenicamente mas sobretudo vocalmente, levou-o a tal desgaste que teve de terminar a sua carreira por volta dos 40 anos, precisamente com a idade com que eu comecei…

Foi difícil deixar de ser padre e optar pela carreira musical?

Quando, em finais dos anos 60, me matriculei no Conservatório do Porto, confesso que o meu sonho era dar uma componente artística à minha missão de padre.

Começaram a surgir, porém, situações que não deixaram de me ir perturbando. Alguma confusão começou a instalar-se nos meus horizontes… Estávamos em pleno pós-74… Sobretudo a partir de 1977, comecei a sentir-me ultrapassado pelos acontecimentos. Tinham de ser tomadas decisões… Não podia viver na ambiguidade!… Houve muitas dúvidas, muitas incertezas… O meu Padre Provincial de então propôs-me fazer as duas coisas: padre e cantor… Tudo se desenrolava vertiginosamente… Eram convites para concertos, para óperas, etc.
Cheguei mesmo a atuar durante não pouco tempo, estando ainda no exercício do ministério… Fui chegando à conclusão de que as duas funções não faziam grande sentido… Em finais de 1978, acabei por tomar a decisão: pedi para Roma a dispensa do exercício das ordens. Não tive resposta fácil. Demorou mais de dois anos. Pelo meio, um apelo a que repensasse…

Qual foi o papel da Igreja na sua vida musical?

Primeiramente, como é obvio, penso em todo o curso do seminário. Para além de todos os aspetos da formação, a música da Igreja, o canto gregoriano, ocupou uma grande parte desse período, quer na teoria, quer na prática. O nosso Cantuale, um livro específico da Congregação da Missão com os mais belos cânticos gregorianos e muitos outros, a uma ou mais vozes, dominou grande parte desses anos, as nossas vozes e as nossas almas.

No seminário Maior, durante o curso de filosofia e teologia, para além das mais belas obras de polifonia sacra, cantávamos, todos os domingos e festas, o “comum” e o “próprio” em gregoriano, de acordo com o emblemático Liber Usualis, a mais completa obra do canto da Igreja. Tudo isto, naturalmente acompanhada da parte teórica, marca indelevelmente a minha personalidade e a minha formação musical. E não esqueço que quase sempre, alternadamente, fui organista e solista…

Após a ordenação, seguiram-se anos dominados pelo Concílio do Vaticano II, com uma série extraordinária de documentos sobre a música e a liturgia em vernáculo,com o aparecimento de excelentes compositores. E foram sempre surgindo, com os diversos papas, importantes documentos sobre a música litúrgica. Não posso esquecer os “famosos” cursos gregorianos de Fátima que frequentei.

Durante os anos 1977-1995, em que a vida artística teve o seu lado prioritário, nunca deixei de estar atento aos documentos da Igreja sobre música sacra e à obra de excelentes compositores que temos.

A partir de 1997, já no pós – S. Carlos, a pedido do meu grande amigo Conégo José Serrasina que acabava de ficar à frente da Paróquia dos Anjos, em Lisboa– a minha paróquia -, comecei a orientar o coro paroquial, tomando a peito a renovação dos cânticos e a dinamização litúrgica. Baseava-me sempre nos textos de cada celebração. Após 5 anos de intenso e profícuo trabalho, abracei outro projeto – na Capela do Palácio da Bemposta (Academia Militar), onde colaborei durante 13 anos (2003 – 2016). Durante este período, compus dezenas de cânticos que vieram a ser publicados pela Academia Militar, em 2012, num volume com o título Deus é Amor. Porque o “contexto” de então era “específico”, o referido volume irá “sofrer” brevemente substancial alteração.

Qual foi a maior deceção na sua vida?

Se me permite, não apresentaria uma mas duas deceções, e ambas no âmbito do mundo lírico. A primeira, logo de início. Tinha feito 40 anos. Eram diferentes, agora, o sonho e o ideal. Imaginava que perante mim, ia surgir um meio pleno de elevação, um ambiente superior, de arte, de cultura, etc. Cedo, porém, fui verificando e concluindo que as cores que sonhara belas, não, não o eram assim tanto… A realidade era bastante mais prosaica… Bem!… Respirei fundo, bem fundo, passe a expressão… E, vamos a isso!… Mas vamos mesmo! O desafio que ora iniciava era para ganhar, era mesmo para vencer!… E foi! Não tive o caminho atapetado de rosas, longe disso, muito longe! Foram necessárias uma fibra excecionalmente forte como considero ter, uma fé inabalável em Deus como efetivamente tenho, e também, obviamente, uma grande confiança nos talentos que Deus me deu, aliados à formação que tive (não poderei esquecê-lo!) E…aí vou eu!… E nem tudo foram espinhos, digamos em abono da verdade. Tive um público que me admirava e apoiava bastante, excelentes e excecionais críticas, outras nem tanto… E, entre um pessoal que rodava as três centenas (coro, orquestra, cantores, técnicos, etc), tive não poucos amigos e admiradores! Não esqueço que, logo no começo, nos primeiros ensaios, vi lágrimas nos olhos de algum do pessoal, ao verem a minha entrada enérgica, decidida, confiante, e pensando no “mundo” donde acabava de chegar… aos 40 anos!…

A segunda deceção foi no fim. Em finais de 92, a SEC, tendo à frente o Dr. Pedro Santana Lopes, achou por bem dissolver a Companhia Portuguesa de Ópera (cantores, orquestra, etc). Éramos 14 os cantores principais. Mesmo tendo em conta que eu continuava a cantar no país e não só, esta foi sem dúvida uma grande deceção. Aos 55 anos, encontrava-me no ponto mais alto da carreira, a nível vocal e cénico, na minha opinião e na de quantos me conheciam e ouviam! Esperava estar “em grande” mais uma boa dezena de anos… Lembrei-me então das palavras de Gino Bechi, quando, certo dia, nos anos 80, após fazer as célebres e espetaculares demonstrações, vocais e cénicas, durante um ensaio, e quando já contava perto dos 80 anos, teve este desabafo: “Agora é que eu sei cantar!”

Pois é!… Parafraseando o meu mestre, diria: “Agora… é que eu sabia cantar!…”

Qual foi o momento mais alto da carreira como cantor lírico?

Desempenhei os mais diversos papéis de 1º barítono, de baixo-barítono, papéis característicos, enfim, foram cerca de 50… Nunca tive um fracasso nos meus desempenhos. Pelo contrário! Escolher o momento mais alto?!… É difícil!… Estou a lembrar-me de não poucos… Do “Le Grand-Prêtre de Dagom” da ópera Samson et Dalila, de Saint-Saëns, em 1983. Quis preparar o papel em Lyon com o meu ex-professor de Paris, o grande barítono Gabriel Bacquier. Estou a recordar-me do “Dulcamara” da ópera L’Elisir d’Amore, de Donizetti, em 1984 e 1985… Do “Rocco”, da ópera Fidelio de Beethoven… Enfim, não vou alongar-me na citação de outras boas e belas hipóteses…

Mas vou escolher como momento mais alto uma ópera fora do estilo clássico: a ópera Kiú, do compositor espanhol Luís de Pablo, levada à cena em 1987 no Teatro Nacional de São Carlos. O meu papel de Babinshy, o pivô da ópera, na sua grande espetacularidade e dificuldade vocal e cénica, foi na verdade um momento muito alto na minha carreira! Não foi por acaso que o próprio compositor Luís de Pablo e o maestro Jesús Ramón Encimar me convidaram, 5 anos depois (dezembro de 1992 – janeiro de 1993), para interpretar em Madrid o mesmo papel!…

Quais foram os cantores líricos mundiais que mais o inspiraram?

Estavam na moda, nos anos 60, cantores líricos que deveras nos entusiasmavam. Lembro-me, por exemplo, de Mário Lanza, de Luís Mariano, de Alfredo Krauss que vim a conhecer em São Carlos, e com o qual contracenei, inicialmente, num ou noutro pequeno papel. E vários outros, quase todos tenores. O meu tipo de voz é de barítono ou de baixo-barítono. Mas foi sobretudo a partir do Curso Superior de Canto que comecei a interessar-me por vozes líricas, o que é absolutamente natural. Dado o meu tipo de voz, cerca de cinco ou seis cantores internacionais dominavam particularmente os meus gostos. Comecemos pelos alemães Dietrich Fischer-Dieskau e Hermann Prey, barítonos. O primeiro, absolutamente excecional em lied, tendo cantado praticamente tudo o que havia nesse domínio. Muitos o consideraram o maior músico do século XX. Foi inclusivamente maestro de música sacra. Ouvi-o ao vivo em Paris. Hermann Prey era superior como ator. As suas interpretações em óperas de Mozart, Rossini, Donizetti ficaram memoráveis. Outros dois barítonos ou baixo-barítonos, Fernando Corena e Rolando Panerai, eram também grandes cantores e atores, mais característicos que os anteriores. Outro barítono que, vocalmente (não cenicamente) me enchia as medidas, era Piero Cappuccilli. Era um barítono a que eu chamaria heróico-dramático, com uma incrível potência de voz. Jamais esquecerei o seu desempenho em Simon Boccanegra de Verdi, no São Carlos…

Poderia obviamente alongar-me, no que às vozes masculinas diz respeito. Mas também não posso deixar de me referir a vozes femininas que, além de nós deixarem siderados, tanto nos ensinaram! Antes de mais, Maria Callas!… Depois, uma Victoria de los Angeles que cheguei a ouvir na Gulbenkian. Fiorenza Cossotto, Mirella Freni, Christa LudwigMonserrat Caballé que ouvi em Paris dirigida por Leonard Bernstein… Uma Joan Sutherland, La Stupenda, a tal que cantou a Traviata no Coliseu na famosa noite de 24 para 25 de abril de 1974, com o já citado Alfredo Kraus… E eu estava lá!…

Quais os músicos portugueses mais influentes na sua carreira?

Por músicos, entendo compositores, professores, pianistas, ensaiadores, “pontos”, cantores, e, porque não, críticos… Antes de mais, as minhas duas professoras nos conservatórios do Porto e de Lisboa, respetivamente: Isabel Malaguerra e Helena Pina Manique. A professora D. Arminda Correia fez de forma extraordinária a breve transição entre uma e outra. Álvaro Benamor, na classe de ópera. A pianista Maria Helena Matos que me acompanhou com enorme competência desde o Conservatório Nacional, incluindo o exame final, e praticamente em todos os recitais que fui dando ao longo da carreira. O maestro Armando Vidal, músico de gema, com o qual preparei, como a generalidade dos artistas, quase todos os papéis que tinha a desempenhar nas dezenas de óperas em que fui interveniente. Entre os maestros – “pontos” – , não esquecerei o maestro Pasquali que tão competentemente orientou, durante os primeiros tempos, as nossas intervenções em palco, e o maestro Ascenso de Siqueira, grande e bom amigo e incrível ser humano… Tive a felicidade de trabalhar com encenadores como António Manuel Couto Viana, que me honrava com a sua amizade, Carlos Avillez (em várias óperas), Luís Miguel Cintra, João Lourenço

Cantores? Álvaro Malta, Hugo Casaes, Elizette Bayan, Armando Guerreiro, e outros… Lembro-me ainda de preciosas “dicas” que me deu Álvaro Malta

Compositores? Antes de mais, o Prof. Cândido Lima. Conheci-o em Paris. Conversávamos muito. Não esqueço o dia em que ele me apresentou ao seu amigo Iannis Xenakis… Fomos juntos a vários concertos. Preparei, com ele ao piano, algumas obras suas para canto. Foi meu pianista num concurso de canto em que fui premiado… Tudo isto em Paris, em 1977.

Com o grande compositor Fernando Lopes-Graça, tive a honra de preparar um importante papel de solista na sua obra As Sete Predicações d’Os Lusíadas, em vista à estreia mundial da mesma no VI Festival da Costa do Estoril (1980).
Joly Braga Santos honrava-me com a sua amizade e admiração. Com ele ensaiei o papel de solista na sua Cantata Das Sombras, sobre texto de Teixeira de Pascoaes, para primeira audição mundial no Teatro de S. Luís, a 27 de julho de 1985, com o Coro Gulbenkian, e enquadrada no XI Festival de Música da Costa do Estoril. De Joly Braga Santos nunca poderei esquecer as suas palavras, em pleno palco, no fim da última récita da sua Trilogia das Barcas, em maio de 1988: “Estou a compor uma ópera, para a Expo de Sevilha (daí a 4 anos), baseada numa obra de Frederico Garcia Llorca, Bodas de Sangue e tenho um muito bom papel para si”. Entretanto, o maestro falecia 2 meses depois, a 18 de julho de 1988, o que constituíu uma grande perda para o País, para a cultura portuguesa.

Quanto a críticos, devo dizer que, entre outros, Francine Benoit, João de Freitas Branco, José Blanc de Portugal muito me encorajaram e elogiaram!

E hoje, o que acha da evolução da ópera em Portugal?

Francamente, tenho dificuldade em responder. Há cerca de vinte e cinco anos, após a extinção da Companhia Portuguesa de Ópera e de ter dado como terminada a minha carreira lírica, abracei outro projeto e alheei-me bastante desse tema. Sei que, sobretudo por razões orçamentais, a programação se ressente, e muito. Tudo parece ser diferente. Repito: não tenho dados que me permitam fazer qualquer juízo de valor…

O que pensa do papel da música na Igreja?

Desde o Seminário Maior, fui lendo atentamente, e mais que uma vez, os documentos papais que surgiram desde o princípio do século XX:
o Motu próprio de São Pio X (1903) sobre a Restauração da Música Sacra;
a Constituição Apostólica Divini Cultus (1928) no pontificado de Pio XI, sobre a liturgia e a música sacra; a Encíclica Musicae Sacrae Disciplina (1953), do Papa Pio XII, sobre a Música Sacra, vocal e instrumental.

Logo após o Concílio do Vaticano II, surge a Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium (1963), a realçar que “a acção litúrgica reveste maior nobreza quando é celebrada com canto, com a presença dos ministros sagrados e a participação ativa do povo”. E quando fala de canto, obviamente que se refere ao canto sagrado intimamente unido com o texto. E se o canto gregoriano ocupa sempre um lugar privilegiado em igualdade de circunstâncias, não são excluídos os outros géneros de música sacra mormente a Polifonia, desde que em harmonia com o espírito da ação litúrgica, e de acordo com os diversos tempos litúrgicos, com as diversas celebrações e os vários momentos da celebração. Compositores, organistas, mestres de coro, cantores, músicos (instrumentistas) devem formar um todo para o esplendor do canto.

Alguns anos após o Concílio, a famosa Instrução Musicam Sacram (1967), da Sagrada Congregação dos Ritos, é a síntese, diria perfeita, do que à Música Sacra diz respeito, desde o canto na celebração da missa, passando pela preparação de melodias para os textos em vernáculo, depois a música para instrumental, o Canto no Ofício, etc etc.

O assunto levar-nos-ia ainda a três ou quatro intervenções de São João Paulo II, a uma célebre conferência do Cardeal Ratzinger (mais tarde Papa Bento XVI) em 1985, a uma Nota Pastoral dos nossos bispos por ocasião do Ano Europeu da Música (em novembro de 1985).

E o nosso Papa Francisco, por mais de uma vez, tem insistido que a Música Sacra e Canto Litúrgico devem estar plenamente inculturados nas linguagens artísticas atuais.

Quais os compositores que mais ouve e, desses, que obras prefere?

J.S. Bach é incontornável. Oiço com frequência, por exemplo, a Cantata do Café, cuja ária Hat man nicht mit seinen kindern fez parte do programa do meu exame do Curso Superior de Canto de Concerto, e foi uma das provas de acesso ao Coro Gulbenkian, em novembro de 1974; a Missa em Si m, cujas árias de baixo cantei; e a Paixão Segundo S. João, em que interpretei o papel de Jesus, no Porto, em abril de 1977, quando ainda estagiava em Paris…
Haëndel (O Messias, e Música Aquática); Beethoven (Sinfonias 3, 6 e 9) e a ópera Fidelio, cujo papel de Rocco desempenhei em junho de 1986; Mozart (o Requiem que, enquanto membro do Coro Gulbenkian, cantei no Coliseu em 1975, com gravação para a Erato; a Sinfonia nº 40, etc etc); Haydn (A criação, a Missa de Santa Cecília e a Sinfonia Concertante); Bizet (Carmen); Bramhs (Um Requiem Alemão);Rossini (Stabat Mater); Tchaickowsky (Romeu e Julieta e Francesa da Rimini; Dvorak (Sinfonia nº 9, O Novo mundo); Ravel (Bolero); Rodrigo (Concerto de Aranjuez); Strauss (valsas); Elgar (Concerto para violoncelo).

E muito, muito mais, obviamente.

O que o levou a colecionar livros e discos?

Certamente, e de uma forma geral, o meu gosto pela música, a ligação à Igreja, o meu profissionalismo, a cultura. É claro que tudo se desenrola de acordo com as diversas etapas da vida:

a minha função de professor de Música (além de outras disciplinas) no seminário menor, após a minha formação, e o começo dos meus estudos no Conservatório;

a minha transição para a vida pastoral, durante 3 anos;

a minha ida para Lisboa para concluir o curso Superior, do Conservatório, e a minha curta passagem pela Fundação Gulbenkian;

o meu estágio de dois anos em Paris, concluído com 2 meses em Itália;

o começo e a continuação da minha carreira lírica no Teatro Nacional de São Carlos;

os 3 anos pós-São Carlos em que continuei a minha carreira;

o abraçar de novo projeto: “trabalhar” um coro inserido numa missão pastoral na Paróquia dos Anjos (Lisboa), a minha Paróquia, a partir de 1997 e, posteriormente, de 2003 a 2016, na capela do Palácio da Bemposta (Academia Militar);

e porque não dizê-lo, as minhas viagens de automóvel, algumas longas, nos anos 70 e daí para cá, para já não falar da minha própria casa…

Como vê, são muitas as etapas e as circunstâncias em que procurei estar sempre em dia e dentro das exigências das mesmas. Livros, discos, cassetes, CDs, DVDs eram verdadeiros instrumentos de trabalho, de cultura, de ocupação, de prazer…

Julgo ter sintetizado as razões da minha importante biblioteca e discoteca, das quais progressivamente e criteriosamente, me vou voluntariamente desfazendo.

Antes da sua formação académica no conservatório, que lugar tinha a música erudita no seu papel de formador no seminário?

Além de renovar completamente o repertório de cânticos religiosos que vinha de há longos anos (o que supunha rodear-me de bom material), comecei a interessar-me por vozes maravilhosas que os discos faziam chegar até nós (Mario Lanza, Luis Mariano, Alfredo Krauss etc, e por orquestras excecionais que nos traziam as mais belas melodias clássicas, canções famosas, música de filmes históricos…

Tive sempre a preocupação de partilhar com os meus jovens alunos algum desse maravilhoso mundo musical… Era importante para a educação da sua sensibilidade, dos seus gostos, da sua cultura.

Lembro-me, e muitos ex-alunos (quer do seminário, quer do ensino público) se recordarão de ter dado a ouvir, entre outras obras, uma pequena peça do compositor russo Alexander Borodine. Tratava-se de Nas estepes da Ásia Central. Era a caravana que surgia ao longe, a marcha dos camelos, a intensidade instrumental que “subia” a anunciar a chegada da caravana, a permanência no terreno, o retomar da marcha, os sons que se iam extinguido… até a caravana se perder de vista!… Era tudo tão belo, tão claro! Apaixonante!… O interesse era enorme. Os alunos começavam a compreender que a música tem um sentido, um conteúdo, uma intenção, uma finalidade, uma expressão!
O mesmo sucedeu com outras obras, como o Hino da Alegria, da IX Sinfonia de Beethoven! Etc etc.

Mas adverti-os sempre para que nada disto desviasse a atenção do essencial da sua formação!…

Em três palavras como se caracteriza a si mesmo?

Persistente! Perfecionista! Brioso!

Lisboa, 19 de março de 2018

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JOSÉ DE FREITAS NA COMUNICAÇÃO SOCIAL

Um barítono que é crítico de si próprio

Correio da Manhã, 28 de abril de 1986

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De padre a cantor principal de ópera no Teatro São Carlos

Diário de Notícias do Funchal, 11 de maio de 1986

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José de Freitas: de padre a cantor

Correio da Manhã, 02 de agosto de 1987

Canções de trabalho

Letras

A azeitona por ser preta

A azeitona por ser preta
Ai, vai-se a moer ao lagar;
Também eu por ser trigueira
Ai, na terra me hei-de eu casar.

A oliveira pequenina
Ai, que azeitona pode dar?
Um baguinho, até dois
Ai, até muito carregar.

Nós andamos na vindima,
Ai, que lindos cachos que saem!
Havemos de pendurá-los,
Ai, todo o tempo sabem bem.

A azeitona por ser preta
Ai, vai-se a moer ao lagar;
Também eu por ser trigueira
Ai, na terra me hei-de eu casar.

A oliveira pequenina
Ai, que azeitona pode dar?
Um baguinho, até dois
Ai, até muito carregar.

Nós andamos na vindima,
Ai, que lindos cachos que saem!
Havemos de pendurá-los,
Ai, todo o tempo sabem bem.

Letra e música: Tradicional (Outeiro, Sertã, Beira Baixa)
Recolha: Armando Leça (1939-40)
Intérprete: Ai! (in CD “Lavra, Boi, Lavra: Canções de Trabalho”, Ai!/Coruja do Mato, 2015)

Ramo de oliveira
Ramo de oliveira

De mão na anca

[ Fado Varina ]

De mão na anca,
descompõem a freguesa:
atrás da banca,
chamam-lhe gosma e burguesa.
Mas nessa voz,
como insulto à portuguesa,
há o sal de todos nós,
há ternura e há beleza.
Do alto mar
chega o pregão que se alastra:
têm ondas no andar
quando embalam a canastra.

Minha varina,
que chinelas por Lisboa!
Em cada esquina
é o mar que se apregoa.
Nas escadinhas
dás mais cor aos azulejos,
quando apregoas sardinhas
que me sabem como beijos.
Os teus pregões
são iguais à claridade:
caldeirada de canções
que se entorna na cidade.

Os teus pregões
são iguais à claridade:
caldeirada de canções
que se entorna na cidade.

Cordões ao peito,
numa luta que é honrada;
a sogra a jeito
na cabeça levantada.
De perna nua,
com provocante altivez,
descobrindo o mar da rua
que esse, sim, é português.
São as varinas
dos poemas do Cesário
a vender a ferramenta
de que o mar é o operário.

Minha varina,
que chinelas por Lisboa!
Em cada esquina
é o mar que se apregoa.
Nas escadinhas
dás mais cor aos azulejos,
quando apregoas sardinhas
que me sabem como beijos.
Os teus pregões
nunca mais ganham idade:
versos frescos de Camões
com salada de saudade.

Os teus pregões
nunca mais ganham idade:
versos frescos de Camões
com salada de saudade.

Letra: José Carlos Ary dos Santos
Música: Mário Moniz Pereira
Intérprete: Carlos do Carmo* (in LP “Um Homem na Cidade”, Trova/Movieplay Portuguesa, 1977, reed. Fatum/UPAV, 1991, Philips/Polygram, 1995, Série “Carlos do Carmo 50 Anos”, Vol. 06, Universal Music Portugal, 2013; 2CD/DVD “Fado Maestro”: CD 2, Universal Music Portugal, 2008; 10 livro/CD “100 Canções, Uma Vida”: CD 2 – “Lisboa”, Universal Music Portugal/Público, 2010)

Dezembro

[ O Cavador ]

Dezembro, noite, canta o galo…
Rouco na treva canta o galo…
Aldeão não durmas!… Vai chamá-lo,
Miséria negra, vai chamá-lo!…
— Oh, dor! oh, dor! oh, dor! —
Bate-lhe à porta, é teu vassalo,
Que traga a enxada, é teu vassalo,
Fantasma negro, o cavador!

Vem roxa a estrela d’alvorada…
Vem morta a estrela d’alvorada —
Montanhas nuas sob a geada!…
Hirtas, de bronze, sob a geada!…
— Oh, dor! oh, dor! oh, dor! —
Torvo, inclinado sobre a enxada,
Rasga as montanhas com a enxada,
Fantasma negro, o cavador!

Cavou, cavou desde que é dia…
Cavou, cavou… Bateu meio-dia…
De pé na encosta erma e bravia,
Triste na encosta erma e bravia,
— Oh, dor! oh, dor! oh, dor! —
Largando a enxada, «Ave-Maria!…»
Reza em silêncio… «Ave-Maria!…»
Fantasma negro, o cavador!

Cavou cem montes… que é do trigo?
Gerou seis bocas… que é do trigo?
Bateu a Fome ao seu postigo…
Bateu a Morte ao seu postigo…
— Oh, dor! oh, dor! oh, dor! —
«Que a paz de Deus seja comigo!…
Que a paz de Deus seja comigo!…»
Disse, expirando, o cavador!

Poema: Guerra Junqueiro (excerto adaptado)
Música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília (in LP “La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours – 2”, Moshé-Naïm, 1969; CD “La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours”, EMEN, 1996)

Reciclanda

Reciclanda

O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos. Faz ACD e ALD (formações de curta e longa duração), realiza oficinas de música durante o ano letivo e dinamiza atividades em colónias de férias. Municípios, Escolas, Agrupamentos, Colégios, Festivais, Bibliotecas, CERCI, Centros de Formação, Misericórdias, Centros de Relação Comunitária, podem contratar serviços Reciclanda.

Contacte-nos:

António José Ferreira
962 942 759

Ai, ó gentinha desta terra

[ Moda de Malhar ]

Ai, ó gentinha desta terra,
Ai, venham ver a grande malha!

Umas ceifam, outras erguem
E outras seguram…
E outras seguram…
E outras seguram a palha.

Ai, nosso amo anda agastado,
Ai, é por ver o sol baixinho.

Estamos ao cimo da eira,
Ai, venha a botelha…
Ai, venha a botelha…
Ai, venha a botelha do vinho!

Ai, lá baixo vem a raposa
Ai, com seu rabo pelo chão,

Procurar aos lenhadores
Se têm um carneiro…
Se têm um carneiro…
Se tem um carneiro ou não.

Nosso amo tem uma vaca,
Ai, também tem um bezerrinho:

A vaca chama-se Andurra
E o bezerro vem…
E o bezerro vem…
E o bezerro vem ao vinho.

Ai, já roubaram ao moleiro
Ai, a filha pelo telhado:

Julgavam que era presunto
Que estava depen…
Que estava depen…
Que estava dependurado.

Moda de Malhar
Letra e música: Tradicional (Cedovim, Vila Nova de Foz Côa, Beira Alta)
Intérprete: Ai!* (in CD “Lavra, Boi, Lavra: Canções de Trabalho”, Ai!/Coruja do Mato, 2015)

César Prata
César Prata

Amaduraram-se os cachos

[ Vindimeiro ]

Amaduraram-se os cachos
torna o tempo da vindima
bagos novos
bagos novos
arde-lhes o oiro em cima

vergam-se as vides pesadas
bagos ciosos se animam
vindimeiro
vindimando
vinho moço em velha vinha

Vindimeiro vindimado
quem te vindima a ansiedade?
cachos verdes quem tos dera
para vindimares a saudade

tens mais sede de vindima
do que tem a farta uva
a sede de ser colhida
se cai a primeira chuva

Como cachos para o lagar
saltam os seios às vindimeiras
bagos cheios
bagos cheios
de desejo e bebedeiras

anda a serpente da terra
na dança das parras soltas
vindimeiras
vindimadas
rebentam bagos na boca

Vindimeiro vindimado
quem te vindima a ansiedade?
cachos verdes quem tos dera
para vindimares a saudade

tens mais sede de vindima
do que tem a farta uva
a sede de ser colhida
se cai a primeira chuva

tens mais sede de vindima
do que tem a farta uva
a sede de ser colhida
se cai a primeira chuva

Letra: Manuel Lima Brummon
Música: Vítor Manuel Rodrigues
Intérprete: Tereza Tarouca (in LP “Portugal Triste”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD “Teresa Tarouca”, col. Clássicos da Renascença, vol. 15, Movieplay, 2000)

Ao meu ceifãozinho novo

Ao meu ceifãozinho novo
Olha lá como ceifas
Não cortes os meus dedos
São penas que tu me dás.

Fui à ceifa do Porto Santo
Fui à igrejinha dos profetas
Olhei para o altar e vi
O padre em cuecas.

Fui à ceifa ao Porto Santo
À fama do bom ceifar
Fui para amarrar as gavelas
Puseram-me a respigar.

Fui à ceifa ao Porto Santo
Com as cearas amarelas
As moças me deram fitas
Para amarrar as gavelas.

Fiz a cama na feiteira
Travesseiro na giesta
De que serve a cama boa
Se o travesseiro não presta.

Tradicional da Madeira

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Apanhámos este trigo

Apanhámos este trigo
e colhemos a nossa aveia,
falámos da nossa vida,
deixámos a vida alheia.

Eu subi à ladeira,
ó João canta comigo:
És um botão de rosa,
botão de cravo sou eu,

assobia cana verde,
assobia de nó em nó,
a falar com o meu amor,
julgava que estava só.

Quando eu comecei a amar,
foi numa segunda-feira,
fui amando e fui gostando,
amei a semana inteira!

Ó que lindo chapéu preto
naquela cabeça vai,
ó que lindo rapazinho
era genro para ser de meu pai!

Passei à tua porta,
pus a mão na fechadura,
estavas dentro, não falaste,
coração de pedra dura.

(Tradicional da Madeira, cantigas que se cantavam quando se apanhava o trigo.)

As lavadeiras

As lavadeiras sempre a lavar
Muito ligeiras roupas a corar
Ligeiras são com alegria,
O ganha-pão de cada dia.

Sou vaidosa não me chames
Faz favor de se calar
Na ribeira de João Gomes,
Minha roupa vou lavar.

Minha roupa estou lavando
Com isso eu tenho alegria,
Eu sou sempre lavadeira
Ganho o pão de cada dia.

Tradicional da Madeira

Bela ceifeira

Bela ceifeira d’outrora
Elas linda mesmo trigueira
E quando eu te olho agora
Nem pareces tu ceifeira

Nos teus tempos de moçoila
Eras tu, ó linda cara
A mais bonita papoila
Que se via pela seara

Tinhas cabelos loirinhos
Como espigas nos trigais
Mas hoje são tão branquinhos
Como linho ou talvez mais

Numa tarde de sol quente
Em ceifa do Zé das Navas
Eu atava alegremente
O trigo que tu ceifavas

Eu já no fim de Junho
Tu não te lembras, amiga
Em que tu de foice em punho
Me cantaste esta cantiga

Ao atares estas gavelas
Agora as que ceifo aqui
Repara que dentro delas
Vão beijinhos para ti

Minha resposta, afinal
Já não me recorda toda
Sei que dia do Natal
Foi a nossa bela boda

Passou o tempo, discordámos
Era dia de Santo André
À lareira conversávamos
Sobre a vinda de um bebé

Eu desejava um menino
Tu uma menina, e depois
Por milagre divino
Fomos brindados os dois

Essa menina, porém
És mesmo o retrato teu
O menino, sabe-lo bem,
Esse não, esse é o meu

Nossa casa tão modesta
Pequenina mas tão bela
Tem sempre um ar de festa
Paz e amor dentro dela

Anos, já lá vão setenta
Sempre pobre, mas enfim
Qualquer coisa me contenta
Até quem me fala assim:

“Onde vai, de braço dado,
Senhor Nuno com Ti Arriça?”
Respondo, muito animando:
“É domingo, vou à missa.”

Constantino José Abreu, “o Caipira”

Bóia, bóia, binha

Bóia, bóia, binha,
que faz assim, assim.
1. Ora agora a costureira
faz assim, assim, assim.

2. o alfaiate

3. o sapateiro

4. a brunideira

Santo Tirso, Douro Litoral

Corta, minha foice

[ Cantiga da Ceifa ]

Corta, minha foice, corta
Ai, neste pão tão miudinho!
Ai, quem houver de andar p’ra outrem
Ai, há-de andar com cuidadinho!

Por cima se ceifa o pão,
Ai, por baixo fica o restolho.
Ai, menina não se ‘namore
Ai, do rapaz que empisca o olho!

O rapaz do chapéu preto
Ai, precisa a cara partida:
Ai, por baixo do chapéu preto
Ai, pisca o olho à rapariga.

Quem me dera já cá noite:
Ai, o pão da ceia na mão,
Ai, o dinheiro na algibeira,
Ai, o amor no coração.

Corta, minha foice, corta
Ai, neste pão tão miudinho!
Ai, quem houver de andar p’ra outrem
Ai, há-de andar com cuidadinho!

Letra e música: Tradicional (Fernão Joanes, Guarda, Beira Alta)
Intérprete: Ai!* (in CD “Lavra, Boi, Lavra: Canções de Trabalho”, Ai!/Coruja do Mato, 2015)
Outra versão com César Prata: César Prata – “Cantiga da Ceifa e Nome de Maria” (in CD “Futuras Instalações”, César Prata/RequeRec, 2014)

César Prata
César Prata

De onde vieste agora

[ Cantiga de apanhar o trigo ]

De onde vieste agora
Boca cheia de alegria
A tua cara merece
Trinta beijos cada dia.

Da minha janela à tua
Um saltinho de uma cobra
Eu gostava de chamar
Tua mãe por minha sogra.

Eu mandei buscar lá fora
O que não há na Madeira,
Uma cangalha de cornos
Para te fincar na caveira.

Minha mãe para me casar
Prometeu-me quanto tinha,
Depois de me ver casada
Deu-me uma agulha sem linha.

Trigo louro, trigo louro
Trigo de palha amarela,
De baixo do trigo loiro
Namorei uma donzela.

Trigo loiro trigo loiro
Trigo de palha dourada,
Debaixo do trigo loiro
Namorei uma casada.

Trigo loiro, trigo loiro
Quem me dera a tua cor,
Para andar nos calos santos
Servir a Deus Nosso Senhor.

Deitei um limão correndo
À tua porta parou,
Quando o limão te quer bem
Que fará quem o deitou.

Semeei no meu quintal
O brio das raparigas,
Nasceu-me uma rosa branca
Cercada de margaridas.

Cantiguinhas que eu sabia
Todas me têm esquecido,
Agora me têm esquecido
Na apanhadinha do trigo.

Minha mãe mandou-me à lenha
Trouxe lenha de giesta,
Minha mãe ficou contente
Para cozer o pão da festa.

Tradicional da Madeira

E oh lera

[ Lerar o Gado ]

E oh lera, oh!
Inda Lucinda, oh andas oh?!
Diz-me onde andas com as ovelhas,
Lá vou ter!
E oh lera!

E oh lera, oh!
Inda Zulmira, oh andas oh?!
Ando noutra rua ali oer,
Vem cá ter!
E oh lera!

E oh lera, oh!
Inda Lucinda, pois sim oer!
Então vou lá ter,
Guarda-me da tua merenda!
E oh lera!

E oh lera, oh!
Inda Zulmira, ohi, pois sim!
E oh lera!

E oh lera, oh!
Inda Lucinda, oheu, adeus!
E oh lera!

Letra e música: Tradicional (Vouzela, Beira Alta)
Intérprete: Ai! (in CD “Lavra, Boi, Lavra: Canções de Trabalho”, Ai!/Coruja do Mato, 2015)

Lavra, boi, lavra
Lavra, boi, lavra

Elas lavam

[ As lavadeiras ]

Elas lavam, elas lavam,
Elas lavam sem parar.

Põe aqui o teu pezinho,
põe aqui na brincadeira.
Vamos ver as lavadeiras
a lavarem na Ribeira.

Elas esfregam, elas esfregam,
Elas esfregam sem parar.
Elas torcem, elas torcem,
Elas torcem sem parar.

Elas dobram, elas dobram,
Elas dobram sem parar.
Elas falam, elas falam,
Elas falam sem parar.

Tradicional da Madeira

Ele não é empregado da aplicação

[ Escravo do Patrão ]

Autor: Luís Varatojo
Intérprete: Luta Livre

Eu sou o Xico pastor

Eu sou o Xico pastor
Minha vida é guardar gado
Eu juro que tenho amor
Às ovelhinhas que guardo

São todas de bom tamanho
Lindas e bem arraçadas
E das trezentas do rebanho
Tenho oito baptizadas

É a Má e a Princesa
A Churra e a Vaidosa
A Manca, a Baronesa
A Bonita e a Gulosa

A Cabresto, a mais gorducha
Que traz o maior chocalho
É vendida baratucha
É machorra, vai para o talho

Um borrego temporão
Que lá tenho com a lã vasta
Eu direi ao meu patrão
Para o deixar para casta

Meu ajuda vai à fonte
Traz notícias da aldeia
À noitinha vai ao monte
Com o tarro buscar a ceia

Durmo no alto da serra
Do São Miguel até Março
São vistas da minha terra
As fogueiras que ali faço

Deitado na minha choça
Vejo em noites luarentas
Lá no pino duma rocha
As corujas agoirentas

E a raposa esperta
Quer-me um borrego roubar
Meu canito está alerta
Não a deixa aproximar

Ao chegar o santo dia
Eu fico cheio de alegria
Olho o prado, é um jardim
A minha flauta a tocar
Passarinhos a cantar
É tão bom viver assim

Constantino José Abreu, “o Caipira”

Eu sou o Zé da enxada

Eu sou o Zé da enxada
Caminhando de madrugada
Oiço a linda cotovia
Voando alto sem a ver
O seu canto quer dizer:
“Vem aí um novo dia”

Ao passar junto ao silvado
Abala o melro assustado
Lá foge o espertalhão
O rouxinol não se espanta
Em vez de fugir canta
A sua linda canção

Chego ao lugar destinado
De pão como um bocado
Sentado a descansar
Nasce o sol e de repente
Diz o manajeiro: “Ó gente,
Nós temos de ir a trabalhar!”

Vou-me à enxada agarrar
E então começo a cavar
Com vontade e valentia
Assim que chega o sol-posto
Eu volto a casa com gosto
Para junto da Maria

Chego, as boas-noites dou
A seguir, lavar-me vou
Já está na mesa a ceia
Enquanto eu estou ceando
A Maria está contando
Novidades da aldeia

Esta vida para mim
Espinhosa, mas enfim
Mas vivo com alegria
Tem sido e continua
A enxada e a charrua
Darem-me o pão de cada dia

Constantino José Abreu, “o Caipira”

Foge a minha mocidade

[ Lamento do Camponês ]

Foge a minha mocidade
E a tua foge também;
E ninguém tem caridade
Da vida que a gente tem.

Cavo em terra não minha
As ânsias de oiro do meu senhor,
Que desabrocham e crescem
Regadas com o meu suor.

As rugas da minha face
São fundos golpes que eu senti,
Todas as vezes que à vida
Esperançado sorri.

Haja paz e alegria,
Pois que a tristeza
Nunca aos homens deu o pão!

Vê que na maior pobreza
Nunca pode um bom cristão
Esquecer-se que é mais santo
Viver com resignação.

Haja paz e alegria,
Pois que a tristeza
Nunca aos homens deu o pão!

Ouço conselhos que apagam
Todo o sentido do meu viver,
E aos poucos sinto o meu corpo
Sobre a terra pender.

E assim eu vou uma à uma
Nesse chão frio aprofundar
A cova grande que um dia
Há-de então ser o meu lar.

Haja paz e alegria,
Pois que a tristeza
Nunca aos homens deu o pão!

Vê que na maior pobreza
Nunca pode um bom cristão
Esquecer-se que é mais santo
Viver com resignação.

Haja paz e alegria,
Pois que a tristeza
Nunca aos homens deu o pão!

Haja paz e alegria,
Pois que a tristeza
Nunca aos homens deu o pão!

Letra: Popular (1.ª quadra) e Onésimo Teotónio Almeida
Música: Popular
Arranjo: Carlos Sousa
Intérprete: Belaurora / introdução por Folia do Maranhão (in CD “Achados do Tempo”, Açor/Emiliano Toste, 2003)

Fui ao Douro à vindimas

Fui ao douro às vindimas,
não achei que vindimar.
Vindimaram-me as costelas.
Olha o que lá fui ganhar!

Retira-te das janelas.
Retira-te do balcão.
Vem comigo p’ràs vindimas,
amor do meu coração.

Fui ao douro às vindimas,
pagaram-me a trinta réis.
Vim pela feira do Pêso;
empreguei-os em anéis.

Não se me dá que vindimem
videirinha que eu podei.
Não se me dá que outros logrem
o que eu por gosto deixei.

Não se me dá que vindimem,
nem também de vindimar.
Só me dá das tristes noites
que se passam no lagar.

Vindimas no Douro

Vindimas no Douro

Tradicional do Minho

Lavra, boi, lavra

Lavra, boi, lavra
No chão da Portela!
Repica, repica
Na vaca amarela!
Ei, boi a lavrar!
Ei, boi!

Lavra, boi, lavra
No chão do Vilar!
Comer e beber
E toca a virar!
Ei, boi a lavrar!
Ei, boi!

Lavra, boi, lavra!
Não digas que não!
Repica, repica,
Rodinha no chão!
Ei, boi a lavrar!
Ei, boi!

Lavra, boi, lavra
No chão da Portela!
Repica, repica
Na vaca amarela!
Ei, boi a lavrar!
Ei, boi!

Letra e música: Tradicional (São Martinho de Crasto, Ponte da Barca, Minho)
Recolha: Gonçalo Sampaio (1890-1925, in “cancioneiro Popular Português”, de Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça, Lisboa: Círculo de Leitores, 1981 – p. 103)
Intérprete: Ai!* (in CD “Lavra, Boi, Lavra: Canções de Trabalho”, Ai!/Coruja do Mato, 2015)
Outra versão com César Prata: César Prata (in CD “Futuras Instalações”, César Prata/RequeRec, 2014)

Igreja Matriz de São Martinho de Crasto

Igreja Matriz de São Martinho de Crasto

Linda ceifeira

Linda ceifeira
Loira e trigueira
Gosto de ti
Teu rosto, linda flor
Encantador
Outro não vi

Ao ver-te no mês de Junho
De foice em punho
Ceifando o trigo
Dás alegria aos meus olhos
Fazendo molhos
Canto contigo

Com o chapéu desabado
Rosto suado
Sorrindo estás
Mas tantas vezes ceifando
Andas pensando
No teu rapaz

À sombra da oliveira
Linda ceifeira
À sesta dormes
Debaixo do sol ardente
Ceifas contente
O pão que comes

Constantino José Abreu, “o Caipira”

Meus Senhores

[Moda:]

Meus senhores, eu venho à praça
Este meu corpo oferecer,
Este meu corpo-carcaça
De se comprar e vender!

De se comprar e vender 
Por bem se negociar, 
No negócio de render 
Sem ter nele nada a ganhar… 

[ Cantiga: ]

É tempo de se ceifar
Trigos, cevadas e fenos…
Quem dá mais pelo meu suar?
Quem dá mais ou quem dá menos? 

Letra: Vicente Rodrigues (1910-1982)
Música: Modas à Margem do Tempo
Intérprete: Modas à Margem do Tempo (in CD “Cantarolices”, Associ’Arte, 2003)

Na ponte da viola

Na ponte da viola (bis),
toda a gente passa lá (bis).
Lavadeiras fazem assim,
sapateiros fazem assim,
caçadores fazem assim,
camponeses fazem assim.

Lárálálá.

Não se me dá que vindimem

Não se me dá que vindimem
Vinhas que eu já vindimei
Não se me dá que outros logrem
Ai amores que já rejeitei.

Fui um ano à vindima
Pagaram-me a trinta réis
Dei um vintém ao barqueiro
Ai vim p’ra casa com dez réis.

Pela folha da videira
Conheço eu a latada.
Faço-me dasatendida
Ai a mim não me escapa nada.

Eu estou debaixo da latada
Nem à sombra nem ao sol.
Estou ao pé do meu amor
Ai não há regalo maior.

Letra e música: Popular (Monsanto, Beira Baixa)
Recolha: Fernando Lopes Graça
Intérprete: Né Ladeiras e Luís Represas
Outras versões: Jorge Lomba (in CD “Jorge Lomba”, UPAV, 1990); Contrabando (in CD “Fresta”, 2000); Filipa Pais (in CD “À Porta do Mundo”, Vachier & Associados, 2003)

Numa terra distante

[ A Menina da Canastra ]

Numa terra distante
Viviam tranquilos sem grande mudança
Os campos eram campos
O vinho macio, a água era mansa

E a menina da canastra
Tanta neve e ela passa
Pelo caminho mais longo
Segue o cheiro da fumaça

Segue o carreiro do maninho
Rosmaninho, avelãs, o cheiro a pão

Dia de animação,
O espeto na mão, o bicho sebado
Rezas e devoção,
Bruxarias, magia, tudo está destinado

E a menina da canastra
Tanta neve e ela passa
Pelo caminho mais longo
Segue o cheiro da fumaça

Segue, como a roca faz o fio,
Segue a lua que ilumina a escuridão

O desejo desceu à terra
De caravela por entre a serra

Um partiu e depois
Emigraram mais dois para fugir à desgraça
Do sustento que dá semear tanto pranto
Lavrar o que embaraça

Mas a menina da canastra
Tanta neve e ela passa
Pelo caminho mais longo
Segue o cheiro da fumaça

Segue o carreiro do maninho
Rosmaninho, avelãs, o cheiro a pão

O desejo desceu à terra
De caravela por entre a serra

Como a roca faz o fio
Assim vai a sua dor
E de fio-a-pavio
Partem para mal menor

Caravela do desejo
Traz-lhe do céu uma flor
A canastra da menina
Não tem pão, só tem suor

Como a roca faz o fio
Assim vai a sua dor
E de fio-a-pavio
Partem para mal menor

Caravela do desejo
Traz-lhe do céu uma flor
A canastra da menina
Não tem pão, só tem suor

Como a roca faz o fio
Assim vai a sua dor
E de fio-a-pavio
Partem para mal menor

Caravela do desejo
Traz-lhe do céu uma flor
A canastra da menina
Não tem pão, só tem suor

A menina…

Letra e música: André Cardoso
Intérprete: A Presença das Formigas com Amélia Muge (in CD “Ciclorama”, A Presença das Formigas, 2011)

Ó Margarida moleira

1. Ó Margarida moleira,
dá-me da tua farinha.
Ai, ai, ai, que a quero peneirar
ai, ai, ai, pela nova peneirinha.

2. Ó Margarida moleira,
a tua farinha é boa;
ai ai ai, se agora não tens moída
ai, ai, ai, dá-me então da tua broa.

3. Ó Margarida moleira
tens moinho de moer;
ai, ai, ai, p’ra moer quem te quer bem,
ai, ai, ai, não tens pouco que fazer.

4. Ó Margarida moleira,
amostra-me o teu moinho;
ai, ai, ai, quero ver se ele trabalha,
ai, ai, ai, devagar ou ligeirinho.

Cabeceiras de Basto, Minho

O que é feito das mondadeiras?

O que é feito das mondadeiras
Que no Verão eram ceifeiras
E apanhavam a azeitona?
Onde estão os passarinhos
A cantar entre os raminhos,
Nas árvores aqui da zona?

As rolas fazendo o ninho,
Grandes bandos de estorninhos,
Para nós são uma saudade;
Até as lindas perdizes
E as vaidosas codornizes
São já uma raridade.

Já ninguém dorme nas eiras,
Por modo as debulhadeiras
Que ao trigo fazem tudo.
As danças, ai que saudade
Os bailes da Sociedade
Quando chegava o Entrudo!

Dizem-nos, por brincadeira,
Que esta terra hospitaleira
Tem brilhantes tradições;
Por todos é adorada,
Por muitos é visitada
E fica em seus corações.

Letra: José Correia
Música: Armando Torrão
Intérprete: Pedro Mestre (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015)
Outra versão de Pedro Mestre (in DVD “No CCB: Pedro Mestre & Convidados”, Pedro Mestre, 2017)

Ora bate, padeirinha

Ora bate, padeirinha,
ora bate o pé no chão.
Ora bate, padeirinha,
amor do meu coração.

Fui à fonte p’ra te ver,
fui ao rio p’ra te falar.
Nem na fonte nem no rio
nunca te pude encontrar.

Os moleiros deste açude

[ Canção de Açude – Poema em Cor ]

Os moleiros deste açude, os moleiros deste açude,
Os moleiros deste açude, os moleiros deste açude…

Os moleiros deste açude adoram a virgem de branco
Os moleiros deste açude adoram a virgem vermelha
Os moleiros deste açude adoram a virgem de verde
Os moleiros deste açude adoram a virgem de preto

Branco, vermelho, amarelo, preto
Branco, verde, azul, preto

De sol a sol, a trabalhar
Tanto suor e sem tempo para o limpar
Tanta farinha na minha mão
Bem moidinha vai formar um grande pão

Eu não pertenço a esta aldeia
Vim para aqui p’ra fazer o meu pé-de-meia
Ai este rio corre p’ró mar
Tão fugidio não pára p’ra descansar

‘Tou tão cansado de labutar
Ai esta nora que não pára de girar

Branco, vermelho, amarelo, preto
Branco, verde, azul, preto

Letra: Rodrigo Crespo e Tânia Cardoso
Música: Rodrigo Crespo
Intérprete: Canto Ondo (in CD “Entre o Alto do Peito e as Campainhas da Garganta”, A Monda – Associação Cultural/Canto Ondo, 2016)

Primavera das Flores

[ A Primavera ]

Primavera das flores
Como esta não há mais
A Primavera vai e volta sempre
A mocidade não volta mais.

Ai borda rica filha, borda, borda
Ai borda rica filha, borda, bem
Em casa rica filha todos bordam Refrão
Borda o pai borda a filha borda a mãe
E eu também.

Bordadeira madeirense

Bordadeira madeirense

Quem quiser regar

[ Cantiga de Rega ]

Quem quiser regar
que regue
Ai cá lhe fica
o regador

Palavra dada
Eu tenho
Ai esta noite
Ao meu amor

A palavra
É igual à água
Que há no regador
Rega todo este chão
Conversador

E com palavras
Nós vamos regando
Este longe que então
Faz o perto crescer
E dar seu pão

Tradicional portuguesa e Amélia Muge / Tradicional

Raparigas camponesas

[ Raparigas Mondadeiras ]

Raparigas camponesas,
Ao rigor do temporáli
Não há vento que as queime
Nem sol que lhes faça máli.

Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!

Raparigas mondadeiras,
Andai lá com cuidadinho,
Que manda o nosso patrão!
Mondai lá bem o triguinho!

Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!
Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!

Raparigas mondadeiras,
Vamos todas a cantári!
Já lá vem nossa patroa
A trazer-nos o jantári.

Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!
Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!

Já lá vem a noite em baixo,
Já lá vem nossa alegria;
Tristeza p’ra o nosso amo,
Que já se lhe acaba o dia.

Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!
Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!
Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!
Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!
Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!
Ó ló, ai larilolela! Ó ló, ai lariloló!

Letra e música: Tradicional (Penha Garcia, Idanha-a-Nova, Beira Baixa)
Recolha: GEFAC (Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra)
Intérprete: Brigada Victor Jara / voz solo de Catarina Moura (in Livro/11CD “Ó Brigada!: Discografia Completa da Brigada Victor Jara – 40 Anos”: CD Extra, Tradisom, 2015)

Rema

Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema, lanchinha
P’ró alto mar

Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema, lanchinha
P’ró alto mar

Rema que rema
No mar irado
Gostar de ti
É um triste fado

Rema que rema
Na calmaria
Senhor S. Pedro
És o meu guia

Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema, lanchinha
P’ró alto mar

Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema, lanchinha
P’ró alto mar

Rema que rema
Pelo mar fora
Segure o leme
Nossa Senhora

Rema que rema
P’ró areal
Se te não vejo
Passo bem mal

Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema, lanchinha
P’ró alto mar

Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema, lanchinha
P’ró alto mar

Rema
Rema que rema
Que é bom remar
Rema, lanchinha
P’ró alto mar

Letra e música: Aníbal Raposo (2000-08-07)
Intérprete: Aníbal Raposo (in CD “Rocha da Relva”, Aníbal Raposo/Global Point Music, 2013)

Senhora Dona Anica

1. Senhora Dona Anica,
venha abaixo ao seu jardim.
Venha ver as lavadeiras
a fazer assim, assim.

2. Senhora Dona Anica,
venha abaixo ao seu jardim.
Venha ver as costureiras
a fazer assim, assim.

3. Senhora Dona Anica,
venha abaixo ao seu jardim.
Venha ver os jardineiros
a fazer assim, assim.

4. Senhora Dona Anica,
venha abaixo ao seu jardim.
Venha ver os sapateiros
a fazer assim, assim.

5. Senhora Dona Anica,
venha abaixo ao seu jardim.
Venha ver as brunideiras
a fazer assim, assim.

6. Senhora Dona Anica,
venha abaixo ao seu jardim.
Venha ver os carpinteiros
a fazer assim, assim.

7. Senhora Dona Anica,
venha abaixo ao seu jardim.
Venha ver as cozinheiras
a fazer assim, assim.

Stando la molinera

[ Molinera ]

Stando la molinera
Sentadita en su molino…
Passou por alla un soldado, olé! olé!
Vengo de moler el trigo.
Que vengo de moler, morena.

Que vengo de moler, morena,
De los molinos de abajo…
Dormí con la molinera, olé! olé!
No me ha cobrado el trabajo.
Que vengo de moler, morena.

Que vengo de moler, morena,
De los molinos de arriba…
Dormí con la molinera, olé! olé!
No me ha cobrado la maquia.
Que vengo de moler, morena.

Que vengo de moler, morena,
De los molinos del frente…
Dormí con la molinera, olé! olé!
Se enteró toda la gente.
Que vengo de moler, morena.

Que vengo de moler, morena,
De los molinos azules…
Dormí con la molinera, olé! olé!
Sabado, domingo y lunes.
Que vengo de moler, morena.

Letra e música: Tradicional (Trás-os-Montes)
Intérprete: Ai! (in CD “Ai!”, Ai!/RequeRec, 2013)

Sua o martelo

[ Instrumentos de Trabalho ]

Sua o martelo nas mãos
como soa uma navalha
instrumentos de trabalho
em dedos que nunca falham

Instrumentos de trabalho
ou mortes de mão primeiro
Cresce o tempo no trabalho
de um martelo de ferreiro

Primeiro os mortos são peso
(ferro no sangue não fere)
Instrumentos de trabalho
de um calor que não requer

Desespero não é palavra
nem será nunca instrumento
A mão recobra o metal
de material nos dedos

Dado o trabalho transpira
a fome de um operário
instrumento de acidente
na justiça de um salário

Semidesliza o arado
que o camponês não acusa
Ou comemora a semente
com as mãos sem armadura

Movimento de calor
nos músculos que se recusam
Sol a sol de instrumentos
ou mortes de qualquer cura

Sua o martelo nas mãos
como soa uma navalha
instrumentos de trabalho
em dedos que nunca falham

Dado o trabalho transpira
a fome de um operário
instrumento de acidente
na justiça de um salário

Semidesliza o arado
que o camponês não acusa
Ou comemora a semente
com as mãos sem armadura

Poema: Maria Teresa Horta (adaptado)
Música: Lindolfo Paiva
Intérprete: Dialecto* (in CD “Aromas”, Dialecto/Cloudnoise, 2011)

Instrumentos de trabalho

(Maria Teresa Horta, in “Cronista Não É Recado”, Lisboa: Guimarães Editores, 1967; “Poesia Reunida”, pref. Maria João Reynaud, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009 – p. 262-63)

Instrumentos de trabalho
ou mortes
de mão primeiro

Cresce o tempo no
trabalho
de um martelo de ferreiro

Primeiro
os mortos são peso
(ferro no sangue não fere)

Instrumentos de trabalho
de um calor
que não requer

Desespero não é palavra
nem será nunca
instrumento

A mão recobra
o metal
de material nos dedos

Dado o trabalho transpira
a fome de um operário
instrumento de acidente
na justiça de um salário

Semidesliza o arado
que o camponês
não acusa

Ou comemora
a semente
com as mãos sem armadura

Movimento de calor
nos músculos
que se recusam

Sol a sol
de instrumentos
ou mortes de qualquer cura

Sua o martelo nas mãos
como soa uma navalha
instrumentos de trabalho
em dedos que nunca falham

Toda a vida fui pastor

1. Toda a vida fui pastor,
toda a vida guardei gado.
Tenho uma mágoa no peito, ai, ai,
de me encostar ao cajado.

2. De me encostar ao cajado,
lá pelos campos a rigor.
Toda a vida guardei gado, ai ai!
Toda a vida fui pastor.

3. Meu lírio roxo do campo,
criado na Primavera,
desejava amor saber, ai, ai,
a tua intenção qual era.

4. A tua intenção qual era
desejava amor saber.
Meu lírio roxo do campo, ai, ai,
quem te pudera colher.

Mel. trad. Alentejo

Trigo loiro

[ Cantiga de ceifa ]

Trigo loiro, trigo loiro,
Ai! Quem me dera o teu valor!
Que entrara no cálice de oiro
Ai! Onde entra Nosso Senhor.

Trigo loiro, trigo loiro,
Ai! Quem me dera o teu valor!
Levara a cruz ao Calvário
Ai! Como fez Nosso Senhor.

Trigo loiro, trigo loiro,
Ai! Quem me dera o teu valor!
Que entrara no cálice de oiro
Ai! Onde entra Nosso Senhor.

Trigo loiro, trigo loiro,
Ai! Quem me dera o teu valor!
Levara a cruz ao Calvário
Ai! Como fez Nosso Senhor.

Letra e música: Tradicional (Gonçalo, Guarda, Beira Alta)
Intérprete: Ai! (in CD “Ai!”, Ai!/RequeRec, 2013)
Outras versões com César Prata: Chuchurumel – “Canção da Ceifa” (in CD “No Castelo de Chuchurumel”, Chuchurumel/Luzlinar, 2005); Ai! (in CD “Lavra, Boi, Lavra: Canções de Trabalho”, Ai!/Coruja do Mato, 2015)

Vamos apanhar o trigo [ Este trigo ]

Vamos apanhar o trigo
Vamos escolher da aveia
Falamos na nossa vida
Deixamos a vida alheia.

Este trigo está bom trigo
Parece trigo de relva
Calai a boca menina
Deus do céu é que governa.

Nossa Senhora do Monte
É madrinha de João
Eu também sou afilhada
Da Virgem da Conceição

Esta noite vai dar vento
Também vai dar viração
As rosas vão voar
Não vai ficar nem um botão.

Este trigo está bom trigo
As favas estão mais falidas
Os olhos do meu amor
É a flor das raparigas.

Tradicional da Madeira

Vamos apanhar o trigo [ Trigo louro ]

[ Trigo Louro ]

Vamos apanhar o trigo
Vamos lhe escolher a veia
Cuidamos da nossa vida
Deixemos a vida alheia.

Trigo louro, trigo louro
Empresta-me a tua cor
Quero ir ao sacrário
Oferecer a Nosso Senhor.

Trigo louro, trigo louro
Trigo da folha amarela
Debaixo do trigo louro
Namorei uma donzela.

Trigo louro, trigo louro
Trigo da folha estreita
A apanhar o trigo louro
Namorei uma sujeita.

Trigo louro, trigo louro
Trigo da folha miúda
Debaixo do trigo louro
Namorei uma viúva.

Tradicional da Madeira

Vamos todos a cantar

[ As profissões ]

Vamos todos a cantar,
estas nossas profissões,
neste grupo que é alegre,
com bailados e canções.

Eu aqui sou bordadeira,
neste pano vou bordar,
que o bordado da Madeira,
é para se exportar.

Eu sou um agricultor,
com a enxada na mão,
é que a vida no campo,
também é uma profissão.

Também vamos começar,
aqui todos trabalhando,
com amor a esta vida,
alegres também cantando.

Eu também vou fiar linho,
de estopa e de tomentos,
e nesta história do linho,
se passam muito tormentos.

Eu que debulho o milho,
é o que eu vou fazer,
isto é o comer do pobre,
temos que o defender.

Todo o homem que trabalha,
honra a pátria e aos seus,
havendo comida em casa,
todos dão graças a Deus.

Também eu vou fazer tricot,
isto para me entreter,
temos nós que trabalhar,
para se poder viver.

Também vou apanhar erva,
para os meus animais,
esta foi a bela arte,
que me deram os meus pais.

E todos nós trabalhámos,
para se poder comer,
e nós também cantamos,
é para nos entreter.

Neste lugar sou ceifeira,
do trigo que é o nosso pão,
eu apanho muito sol,
que é neste tempo de verão.

Eu também sou marceneiro,
que é uma arte fina,
sou eu que faço os móveis,
desde a sala até às cozinhas.

Todas estas profissões,
quem trabalha tem saúde,
o trabalho vem dos velhos,
e passa para a juventude.

Foi a ovelha que deu,
esta lã que vou fiar,
mas neste trabalho falta,
é lavá-la e cardar.

Eu trabalho de pedreiro,
é com areia e cimento,
para fazer nossas casas,
para se abrigar do tempo.

Tradicional da Madeira

Vi-te a trabalhar

[ Que Força É Essa? ]

Vi-te a trabalhar o dia inteiro,
construir as cidades pr’a os outros,
carregar pedras, desperdiçar
muita força p’ra pouco dinheiro!
Vi-te a trabalhar o dia inteiro,
muita força p’ra pouco dinheiro!…

Que força é essa?
Que força é essa
que trazes nos braços,
que só te serve para obedecer,
que só te manda obedecer?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo,
que te põe de bem com outros
e de mal contigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?

Não me digas que não me compr’endes!
Quando os dias se tornam azedos,
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes!
Não me digas que não me compr’endes!…

Que força é essa?
Que força é essa
que trazes nos braços,
que só te serve para obedecer,
que só te manda obedecer?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo,
que te põe de bem com outros
e de mal contigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?

Vi-te a trabalhar o dia inteiro,
construir as cidades pr’a os outros,
carregar pedras, desperdiçar
muita força p’ra pouco dinheiro!
Vi-te a trabalhar o dia inteiro,
muita força p’ra pouco dinheiro!…

Que força é essa?
Que força é essa
que trazes nos braços,
que só te serve para obedecer,
que só te manda obedecer?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo,
que te põe de bem com outros
e de mal contigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?

Letra e música: Sérgio Godinho (in LP “Os Sobreviventes”, Guilda da Música/Sassetti, 1972, reed. Philips/Polygram, 1990, Universal, 2001, 2019)

Pastor alentejano

Pastor alentejano

Roda de Samba, artista Caribé

PT Brasil

A performance musical é essencial no aprendizado da música, pois há um deslocamento da percepção e da ação de se fazer música e o que passa a ser relevante, o que se levanta e se alça como essencial é o gesto musical, como um gesto dionisíaco de indiferenciação da personalidade (des)integrando a subjetividade da pessoa e a objetividade do fenômeno na unidade do memorável.

Em cada um de nós, pode-se dizer, existem dois seres que, embora sejam inseparáveis – a não ser por abstração -, não deixam de ser distintos. Um é composto de todos os estados mentais que dizem respeito apenas a nós mesmos e aos acontecimentos da nossa vida pessoal: é o que poderia chamar de ser individual. O outro é um sistema de ideias, sentimentos e hábitos que exprimem em nós não a nossa personalidade, mas sim o grupo ou os grupos diferentes dos quais fazemos parte; tais como as crenças religiosas, as crenças e práticas morais, as tradições nacionais ou profissionais e as opiniões coletivas de todo tipo. Este conjunto forma o ser social. Constituir este ser em cada um de nós é o objetivo da educação

Durkheim

E concordando com esse pensamento Libâneo:

Num sentido mais amplo, a educação abrange o conjunto das influências do meio natural e social que afetam o desenvolvimento do homem na sua relação ativa com o meio social. (…) Os valores, os costumes, as ideias, a religião, a organização social, as leis, o sistema de governo, os movimentos sociais são forças que operam e condicionam a prática educativa.

José Carlos Libâneo


Portanto, se a educação tem objetivamente esse caráter formativo e constitutivo do ser social, depreende-se que isso deva acontecer continuamente e dialogicamente: “(…) este ser social não somente não se encontra já pronto na constituição primitiva do homem como também não resulta de um desenvolvimento espontâneo” (Emile Durkheim).

Buscamos compreender as possibilidades a partir das perspectivações da música dentro e fora do espaço escolar. Assumimos que as vivências dinâmicas da escuta do fenômeno musical não podem ser circunscritas ao ambiente escolar apenas.

A maior parte dos nossos conhecimentos adquirimo-los fora da escola. Os alunos realizam a maior parte de sua aprendizagem sem os, ou muitas vezes, apesar dos professores. Mais trágico ainda é o fato de que a maioria das pessoas recebe o ensino da escola, sem nunca ir à escola.

Ivan Illich

Se o currículo escolar avança para além de seus muros tornando-se uma cultura ex-escola, ou seja, até os que não passam pela escola são de algum modo escolarizados, devemos perguntar que currículo escolar é esse e como a música está presente nele.

Perrenoud identifica, como um dos três mecanismos responsáveis pelos sucessos e fracassos produzidos na escola, “(…) o currículo, em outras palavras, o caminho que desejamos que os alunos percorram”.

Há um diálogo urgente que nos convoca para pensar como as teorias do conhecimento que permeiam as concepções de escola recebem o aceno da música, que é sempre uma experiência fundadora de sentido para fazer saber e conhecer.

Premissa fundamental que procuramos colocar em prática: a música está na base de todo conhecimento humano. Se não há música, então, não há conhecimento possível, pois a música funda nossos modos de pensar, dizer e mostrar.

O aprendizado musical nos traz o saber fazer harmonizador, uma harmonia não como um recurso de condução de vozes, mas como composição, até mesmo as técnicas de harmonização das vozes são antes um mostrar-se originário da diferença, da compatibilização dos contrários, por isso harmônicos, sem exclusão de nenhuma parte, eis o princípio articulador da música e uma reflexão para conduzirmos dentro e fora da escola o fundamento harmônico em um currículo escolar segregador e, portanto, excludente, ou seja, desarmônico.

Harmonia é a possibilidade de con-verter em com-posição instâncias substantivas fenomênicas, instâncias substantivas que sejam e/ou façam o movimento em direção ao mostrar-se, significa: harmonizar é ser capaz de juntar concretamente no fim mas desde o princípio torná-las um todo, sem destruir nem diluir nem elidir sua di-ferença. Ao contrário, constituindo uma nova diferenciação, produzindo a diferença entendida como o seu caminho para o des-conhecido, para o que não era harmonizado e passa a ser.

Antonio Jardim

Um currículo escolar que não contemple a música está fadado ao fracasso, ao menos, desde a perspectiva de ensino e aprendizado do poético, ou ainda se considerarmos o que se aprende e ensina fora da escola e que em um “modelo curricular sem música” estaria também destinado a ser um currículo: recortado, aleijado, lacunar, sem um dos pilares, — senão o pilar central que rege o sentido de saber e conhecer — desde as culturais aborígenes, arcaicas e primevas: o que denominamos como música; a experiência singular do memorável presentado em nossas ações sensório-corpóreo-motoras.

A música não é o único caminho, mas é nosso caminho, que apontamos como possibilidade de perspectivação e reflexão do ambiente escolar pautado por um ensino conteudístico curricular desarmonizado da realidade social expericenciada pela própria comunidade escolar.

Perspectivando o aprender e ensinar música: experienciando e refletindo desde o subprojeto PIBID-Música da UFRJ, por Celso Garcia de Araújo Ramalho, Anderson Carmo de Carvalho, Camila Oliveira Querino PPG em Ciência da Literatura Rio de Janeiro – RJ Eliete Vasconcelos Gonçalves, in Educação: Políticas, Estrutura e Organização 10, Gabriela Rossetti Ferreira, org. Atena Editora 2019. [ Excerto ]

Roda de Samba, artista Caribé
Roda de Samba, artista Caribé

Harmonia entre fazer e pensar música

PT Brasil

A metodologia do ensino da música confinada por séculos sob a alcunha dos “conservatórios” apresenta um conjunto de procedimentos que, por vezes, torna certas percepções menos possíveis, como o envolvimento corporal na vivência musical.

A disposição do sistema educacional tradicional organiza os alunos de forma a não haver contato físico, a conter o movimento corporal, a não haver movimento grupal, a conformar o corpo a movimentar apenas a cabeça e os olhos. O movimento restringe-se a cumprir funções tais como orientar o corpo em direção ao professor, à lousa, ao caderno, ao livro, ou ao celular, este último, um aparelho institucionalizado oficiosamente dentro da sala de aula.

Assim, num ambiente que propõe um aprendizado regrado e objetivado, o aprendizado musical é prejudicado por ter que se enquadrar às restrições impostas pela organização e disposição da sala de aula. Objetivar, funcionalizar, não faz parte da essência do que é música, esses procedimentos não contribuem nas avaliações que medem o nível de aprendizado musical dos alunos, nem nas provas de ingresso para instituições.

Apesar das dificuldades que enfrentamos na abordagem dos conteúdos musicais em sala de aula no Ensino Médio, sempre há um esforço em estabelecer um vínculo que provoque o interesse dos alunos. Uma das possibilidades é desenvolver o estímulo a partir do despertar da escuta, que para alguns alunos está relacionada ao caráter do som como fonte imediata de gozo ou deleite sonoro.

Estabelecido o vínculo com os alunos, o próximo passo é pensar em como desfuncionalizar a música e ir além de encerrá-la à esfera do entretenimento, buscando convalidar o espaço regular ou formal de ensino-aprendizagem do fenômeno musical como forma de conhecer o real, isto é, ser verdade, sem reduções representacionais.

O formato das “oficinas de música”, as ações que denominamos “Palco Aberto”, a crítica aos conteúdos e metodologias de abordagem nos livros didáticos de “Artes”, os debates entorno da música como cultura e não como objeto ou abstração e representação social, as possíveis interações da música com as outras disciplinas do currículo escolar, abrem perspectivações para investigarmos música além e aquém das reduções impostas pela regulação da representação antropológico-instrumental da técnica. Saber esperar o tempo musical como tempo para saber saborear o originário.

Saber investigar significa saber esperar, mesmo que seja durante toda uma vida. Numa época, porém, em que só é real o que vai de pressa e se pode pegar com ambas as mãos, tem-se a investigação por “alheada da realidade”, por algo que não vale a pena ter-se em conta de numerário. Mas o Essencializante não é o número e sim o tempo certo, i. é., o momento azado, a duração devida.

Heidegger, 1999

Perspectivando o aprender e ensinar música: experienciando e refletindo desde o subprojeto PIBID-Música da UFRJ, por Celso Garcia de Araújo Ramalho, Anderson Carmo de Carvalho, Camila Oliveira Querino PPG em Ciência da Literatura Rio de Janeiro – RJ Eliete Vasconcelos Gonçalves, in Educação: Políticas, Estrutura e Organização 10, Gabriela Rossetti Ferreira, org. Atena Editora 2019. [ Excerto ]

Jovem executante de marimba
Jovem executante de marimba