barítono José de Freitas

JOSÉ DE FREITAS

José de Freitas, de nome completo José Cirilo de Freitas Silva, nasceu na Madeira e foi padre da Congregação da Missão (Padres Vicentinos). Já depois de padre, estudou nos conservatórios do Porto e de Lisboa, onde concluiu o Curso Superior de Canto com excelente classificação. Em 1978 tornou-se artista residente do Teatro Nacional de São Carlos onde se estreou com Schaunard em La Bohème. Foi intérprete de importantes papéis de barítono e de baixo-barítono em Portugal e no estrangeiro. Foi também diretor de coros e compositor de cânticos litúrgicos.

ENTREVISTA

Qual foi o primeiro momento em que se lembra de ter tido consciência de que a música era importante para si?

O primeiro momento?! Preferiria falar de uma pequena série de momentos… Concretizando: No meu 5º ano do seminário (hoje 9º ano), cerca dos 16 anos, quando a chamada “mudança de voz” era já algo acentuada, o meu ilustre professor de música, Padre António Ferreira Telles, poucos dias após ter-me convidado para tocar harmónio em algumas cerimónias litúrgicas (ele era o harmonista oficial, obviamente) e pedir-me para, alternadamente com outro colega, iniciar os cânticos na liturgia (o equivalente a solista), veio falar comigo na véspera da festa do Padroeiro do seminário (S. José), e disse-me: “Confio muito em ti para “segurares” a 4ª voz na missa solene de amanhã.” Ora aí tem um “puzzle” com bastante significado na minha “consciência musical” de jovem seminarista…

Quais os professores que mais o influenciaram no tempo de seminário?

Vou referir-me apenas a professores de música, obviamente. Desde os primeiros anos, tive uma veneração especial por um ilustre mestre, muito “sui generis”, mas muito competente e sabedor: o Padre António Ferreira Telles, a que atrás aludi. Era excelente harmonista, compositor, ótimo harmonizador. O Pe. Fernando da Cunha Carvalho, felizmente ainda entre nós, também teve influência na minha orientação musical, e não só. Mas vou salientar, sem querer ser injusto para os atrás citados e porventura outros, o Pe. João Dias de Azevedo, que muito me ajudou sobretudo no harmónio e no órgão, no Seminário de Mafra, onde fiz o meu noviciado (1954-1956). Nesse período, cheguei a tocar órgão em algumas celebrações dominicais e festas na Basílica de Mafra… E, para completar os anos do seminário, não poderei omitir o Pe. Fernando Pinto dos Reis (1929-2010).

Depois de ir para o seminário e de ser padre, quando é que se apercebeu de que cantar era o mais importante na sua vida profissional?

Como disse, cedo me iniciei e fui crescendo na função de solista. Continuei-a ao longo de todo o curso, alternando-a com o múnus de harmonista. Terminado o curso, fui incumbido da disciplina de Música (além de outras), no seminário menor. O concílio do Vaticano II acabava de privilegiar o vernáculo na liturgia. Iniciei a renovação de todo o repertório vigente. Eu próprio dei largas a uma velha paixão e iniciei a composição de cânticos em português, incluindo o “ordinário” e o “próprio” da missa para determinadas solenidades, além de outros cânticos circunstanciais. Aconselhado por não poucos, matriculei-me no Conservatório do Porto. Canto? Composição? Duas paixões. Muito incitado e encorajado pela professora D. Isabel Mallaguerra, decidi-me mais seriamente pelo canto, sem descurar a composição musical.

Após o curso geral de canto no Conservatório do Porto, vim a concluir o Curso Superior no Conservatório Nacional com a professora D. Helena Pina Manique. Com o programa do exame do curso superior concluído com alta classificação, fui convidado para vários recitais em Lisboa e não só. Iniciei logo de seguida o curso de ópera com o professor Álvaro Benamor e D. Helena Pina Manique. Fui admitido no Coro Gulbenkian, onde estive durante alguns meses até seguir para Paris com uma bolsa de estudos.

O diretor do Teatro Nacional de São Carlos, Eng. João Paes, que já me ouvira no Conservatório, convidou-me para, temporariamente, interromper o estágio em Paris e vir a Lisboa preparar o desempenho de um importante papel numa ópera portuguesa. Bem sucedido, pediu-me para, após o estágio parisiense, seguir para Florença, afim de preparar, com o famoso Gino Bechi, o importantíssimo papel de primeiro barítono (Lord Enrico d’Ashthon) da ópera Lucia di Lamermoor, de Donizetti. Cantei esse papel em novembro de 1977, no Teatro Rivoli (Porto)…

Toda esta “bola de neve” a partir da conclusão do curso superior de canto em 1974, todo o incrível desencadear de situações até finais de 1977, todo o ano de 1977 sobretudo, tudo isso responde à sua pergunta… Parafraseando, em contraste, um fadista, diria: “Ser cantor não foi meu sonho, mas cantar foi o meu fado…”

Dos anos em que estudou Música e Canto, que professores tiveram uma influência mais decisiva?

Nos conservatórios do Porto e de Lisboa, tive a felicidade de ser orientado respetivamente pelas professoras D. Isabel Mallaguerra e D. Helena Pina Manique, e ainda, por algum tempo, pela D. Arminda Correia, sem esquecer o Prof. Álvaro Benamor (cena).

Em Paris, como olvidar o trabalho com a famoso baixo Huc-Santana e o não menos célebre barítono Gabriel Bacquier? Em Itália, e aqui em Portugal, Gino Bechi foi simplesmente precioso no trabalho vocal e cénico. Este famoso barítono, que também me honrava com a sua amizade, cantou nos anos 40, em todos os grandes palcos do mundo. A sua famosa “entrega” aos espetáculos e nos espetáculos, quer cenicamente mas sobretudo vocalmente, levou-o a tal desgaste que teve de terminar a sua carreira por volta dos 40 anos, precisamente com a idade com que eu comecei…

Foi difícil deixar de ser padre e optar pela carreira musical?

Quando, em finais dos anos 60, me matriculei no Conservatório do Porto, confesso que o meu sonho era dar uma componente artística à minha missão de padre.

Começaram a surgir, porém, situações que não deixaram de me ir perturbando. Alguma confusão começou a instalar-se nos meus horizontes… Estávamos em pleno pós-74… Sobretudo a partir de 1977, comecei a sentir-me ultrapassado pelos acontecimentos. Tinham de ser tomadas decisões… Não podia viver na ambiguidade!… Houve muitas dúvidas, muitas incertezas… O meu Padre Provincial de então propôs-me fazer as duas coisas: padre e cantor… Tudo se desenrolava vertiginosamente… Eram convites para concertos, para óperas, etc.
Cheguei mesmo a atuar durante não pouco tempo, estando ainda no exercício do ministério… Fui chegando à conclusão de que as duas funções não faziam grande sentido… Em finais de 1978, acabei por tomar a decisão: pedi para Roma a dispensa do exercício das ordens. Não tive resposta fácil. Demorou mais de dois anos. Pelo meio, um apelo a que repensasse…

Qual foi o papel da Igreja na sua vida musical?

Primeiramente, como é obvio, penso em todo o curso do seminário. Para além de todos os aspetos da formação, a música da Igreja, o canto gregoriano, ocupou uma grande parte desse período, quer na teoria, quer na prática. O nosso Cantuale, um livro específico da Congregação da Missão com os mais belos cânticos gregorianos e muitos outros, a uma ou mais vozes, dominou grande parte desses anos, as nossas vozes e as nossas almas.

No seminário Maior, durante o curso de filosofia e teologia, para além das mais belas obras de polifonia sacra, cantávamos, todos os domingos e festas, o “comum” e o “próprio” em gregoriano, de acordo com o emblemático Liber Usualis, a mais completa obra do canto da Igreja. Tudo isto, naturalmente acompanhada da parte teórica, marca indelevelmente a minha personalidade e a minha formação musical. E não esqueço que quase sempre, alternadamente, fui organista e solista…

Após a ordenação, seguiram-se anos dominados pelo Concílio do Vaticano II, com uma série extraordinária de documentos sobre a música e a liturgia em vernáculo,com o aparecimento de excelentes compositores. E foram sempre surgindo, com os diversos papas, importantes documentos sobre a música litúrgica. Não posso esquecer os “famosos” cursos gregorianos de Fátima que frequentei.

Durante os anos 1977-1995, em que a vida artística teve o seu lado prioritário, nunca deixei de estar atento aos documentos da Igreja sobre música sacra e à obra de excelentes compositores que temos.

A partir de 1997, já no pós – S. Carlos, a pedido do meu grande amigo Conégo José Serrasina que acabava de ficar à frente da Paróquia dos Anjos, em Lisboa– a minha paróquia -, comecei a orientar o coro paroquial, tomando a peito a renovação dos cânticos e a dinamização litúrgica. Baseava-me sempre nos textos de cada celebração. Após 5 anos de intenso e profícuo trabalho, abracei outro projeto – na Capela do Palácio da Bemposta (Academia Militar), onde colaborei durante 13 anos (2003 – 2016). Durante este período, compus dezenas de cânticos que vieram a ser publicados pela Academia Militar, em 2012, num volume com o título Deus é Amor. Porque o “contexto” de então era “específico”, o referido volume irá “sofrer” brevemente substancial alteração.

Qual foi a maior deceção na sua vida?

Se me permite, não apresentaria uma mas duas deceções, e ambas no âmbito do mundo lírico. A primeira, logo de início. Tinha feito 40 anos. Eram diferentes, agora, o sonho e o ideal. Imaginava que perante mim, ia surgir um meio pleno de elevação, um ambiente superior, de arte, de cultura, etc. Cedo, porém, fui verificando e concluindo que as cores que sonhara belas, não, não o eram assim tanto… A realidade era bastante mais prosaica… Bem!… Respirei fundo, bem fundo, passe a expressão… E, vamos a isso!… Mas vamos mesmo! O desafio que ora iniciava era para ganhar, era mesmo para vencer!… E foi! Não tive o caminho atapetado de rosas, longe disso, muito longe! Foram necessárias uma fibra excecionalmente forte como considero ter, uma fé inabalável em Deus como efetivamente tenho, e também, obviamente, uma grande confiança nos talentos que Deus me deu, aliados à formação que tive (não poderei esquecê-lo!) E…aí vou eu!… E nem tudo foram espinhos, digamos em abono da verdade. Tive um público que me admirava e apoiava bastante, excelentes e excecionais críticas, outras nem tanto… E, entre um pessoal que rodava as três centenas (coro, orquestra, cantores, técnicos, etc), tive não poucos amigos e admiradores! Não esqueço que, logo no começo, nos primeiros ensaios, vi lágrimas nos olhos de algum do pessoal, ao verem a minha entrada enérgica, decidida, confiante, e pensando no “mundo” donde acabava de chegar… aos 40 anos!…

A segunda deceção foi no fim. Em finais de 92, a SEC, tendo à frente o Dr. Pedro Santana Lopes, achou por bem dissolver a Companhia Portuguesa de Ópera (cantores, orquestra, etc). Éramos 14 os cantores principais. Mesmo tendo em conta que eu continuava a cantar no país e não só, esta foi sem dúvida uma grande deceção. Aos 55 anos, encontrava-me no ponto mais alto da carreira, a nível vocal e cénico, na minha opinião e na de quantos me conheciam e ouviam! Esperava estar “em grande” mais uma boa dezena de anos… Lembrei-me então das palavras de Gino Bechi, quando, certo dia, nos anos 80, após fazer as célebres e espetaculares demonstrações, vocais e cénicas, durante um ensaio, e quando já contava perto dos 80 anos, teve este desabafo: “Agora é que eu sei cantar!”

Pois é!… Parafraseando o meu mestre, diria: “Agora… é que eu sabia cantar!…”

Qual foi o momento mais alto da carreira como cantor lírico?

Desempenhei os mais diversos papéis de 1º barítono, de baixo-barítono, papéis característicos, enfim, foram cerca de 50… Nunca tive um fracasso nos meus desempenhos. Pelo contrário! Escolher o momento mais alto?!… É difícil!… Estou a lembrar-me de não poucos… Do “Le Grand-Prêtre de Dagom” da ópera Samson et Dalila, de Saint-Saëns, em 1983. Quis preparar o papel em Lyon com o meu ex-professor de Paris, o grande barítono Gabriel Bacquier. Estou a recordar-me do “Dulcamara” da ópera L’Elisir d’Amore, de Donizetti, em 1984 e 1985… Do “Rocco”, da ópera Fidelio de Beethoven… Enfim, não vou alongar-me na citação de outras boas e belas hipóteses…

Mas vou escolher como momento mais alto uma ópera fora do estilo clássico: a ópera Kiú, do compositor espanhol Luís de Pablo, levada à cena em 1987 no Teatro Nacional de São Carlos. O meu papel de Babinshy, o pivô da ópera, na sua grande espetacularidade e dificuldade vocal e cénica, foi na verdade um momento muito alto na minha carreira! Não foi por acaso que o próprio compositor Luís de Pablo e o maestro Jesús Ramón Encimar me convidaram, 5 anos depois (dezembro de 1992 – janeiro de 1993), para interpretar em Madrid o mesmo papel!…

Quais foram os cantores líricos mundiais que mais o inspiraram?

Estavam na moda, nos anos 60, cantores líricos que deveras nos entusiasmavam. Lembro-me, por exemplo, de Mário Lanza, de Luís Mariano, de Alfredo Krauss que vim a conhecer em São Carlos, e com o qual contracenei, inicialmente, num ou noutro pequeno papel. E vários outros, quase todos tenores. O meu tipo de voz é de barítono ou de baixo-barítono. Mas foi sobretudo a partir do Curso Superior de Canto que comecei a interessar-me por vozes líricas, o que é absolutamente natural. Dado o meu tipo de voz, cerca de cinco ou seis cantores internacionais dominavam particularmente os meus gostos. Comecemos pelos alemães Dietrich Fischer-Dieskau e Hermann Prey, barítonos. O primeiro, absolutamente excecional em lied, tendo cantado praticamente tudo o que havia nesse domínio. Muitos o consideraram o maior músico do século XX. Foi inclusivamente maestro de música sacra. Ouvi-o ao vivo em Paris. Hermann Prey era superior como ator. As suas interpretações em óperas de Mozart, Rossini, Donizetti ficaram memoráveis. Outros dois barítonos ou baixo-barítonos, Fernando Corena e Rolando Panerai, eram também grandes cantores e atores, mais característicos que os anteriores. Outro barítono que, vocalmente (não cenicamente) me enchia as medidas, era Piero Cappuccilli. Era um barítono a que eu chamaria heróico-dramático, com uma incrível potência de voz. Jamais esquecerei o seu desempenho em Simon Boccanegra de Verdi, no São Carlos…

Poderia obviamente alongar-me, no que às vozes masculinas diz respeito. Mas também não posso deixar de me referir a vozes femininas que, além de nós deixarem siderados, tanto nos ensinaram! Antes de mais, Maria Callas!… Depois, uma Victoria de los Angeles que cheguei a ouvir na Gulbenkian. Fiorenza Cossotto, Mirella Freni, Christa LudwigMonserrat Caballé que ouvi em Paris dirigida por Leonard Bernstein… Uma Joan Sutherland, La Stupenda, a tal que cantou a Traviata no Coliseu na famosa noite de 24 para 25 de abril de 1974, com o já citado Alfredo Kraus… E eu estava lá!…

Quais os músicos portugueses mais influentes na sua carreira?

Por músicos, entendo compositores, professores, pianistas, ensaiadores, “pontos”, cantores, e, porque não, críticos… Antes de mais, as minhas duas professoras nos conservatórios do Porto e de Lisboa, respetivamente: Isabel Malaguerra e Helena Pina Manique. A professora D. Arminda Correia fez de forma extraordinária a breve transição entre uma e outra. Álvaro Benamor, na classe de ópera. A pianista Maria Helena Matos que me acompanhou com enorme competência desde o Conservatório Nacional, incluindo o exame final, e praticamente em todos os recitais que fui dando ao longo da carreira. O maestro Armando Vidal, músico de gema, com o qual preparei, como a generalidade dos artistas, quase todos os papéis que tinha a desempenhar nas dezenas de óperas em que fui interveniente. Entre os maestros – “pontos” – , não esquecerei o maestro Pasquali que tão competentemente orientou, durante os primeiros tempos, as nossas intervenções em palco, e o maestro Ascenso de Siqueira, grande e bom amigo e incrível ser humano… Tive a felicidade de trabalhar com encenadores como António Manuel Couto Viana, que me honrava com a sua amizade, Carlos Avillez (em várias óperas), Luís Miguel Cintra, João Lourenço

Cantores? Álvaro Malta, Hugo Casaes, Elizette Bayan, Armando Guerreiro, e outros… Lembro-me ainda de preciosas “dicas” que me deu Álvaro Malta

Compositores? Antes de mais, o Prof. Cândido Lima. Conheci-o em Paris. Conversávamos muito. Não esqueço o dia em que ele me apresentou ao seu amigo Iannis Xenakis… Fomos juntos a vários concertos. Preparei, com ele ao piano, algumas obras suas para canto. Foi meu pianista num concurso de canto em que fui premiado… Tudo isto em Paris, em 1977.

Com o grande compositor Fernando Lopes-Graça, tive a honra de preparar um importante papel de solista na sua obra As Sete Predicações d’Os Lusíadas, em vista à estreia mundial da mesma no VI Festival da Costa do Estoril (1980).
Joly Braga Santos honrava-me com a sua amizade e admiração. Com ele ensaiei o papel de solista na sua Cantata Das Sombras, sobre texto de Teixeira de Pascoaes, para primeira audição mundial no Teatro de S. Luís, a 27 de julho de 1985, com o Coro Gulbenkian, e enquadrada no XI Festival de Música da Costa do Estoril. De Joly Braga Santos nunca poderei esquecer as suas palavras, em pleno palco, no fim da última récita da sua Trilogia das Barcas, em maio de 1988: “Estou a compor uma ópera, para a Expo de Sevilha (daí a 4 anos), baseada numa obra de Frederico Garcia Llorca, Bodas de Sangue e tenho um muito bom papel para si”. Entretanto, o maestro falecia 2 meses depois, a 18 de julho de 1988, o que constituíu uma grande perda para o País, para a cultura portuguesa.

Quanto a críticos, devo dizer que, entre outros, Francine Benoit, João de Freitas Branco, José Blanc de Portugal muito me encorajaram e elogiaram!

E hoje, o que acha da evolução da ópera em Portugal?

Francamente, tenho dificuldade em responder. Há cerca de vinte e cinco anos, após a extinção da Companhia Portuguesa de Ópera e de ter dado como terminada a minha carreira lírica, abracei outro projeto e alheei-me bastante desse tema. Sei que, sobretudo por razões orçamentais, a programação se ressente, e muito. Tudo parece ser diferente. Repito: não tenho dados que me permitam fazer qualquer juízo de valor…

O que pensa do papel da música na Igreja?

Desde o Seminário Maior, fui lendo atentamente, e mais que uma vez, os documentos papais que surgiram desde o princípio do século XX:
o Motu próprio de São Pio X (1903) sobre a Restauração da Música Sacra;
a Constituição Apostólica Divini Cultus (1928) no pontificado de Pio XI, sobre a liturgia e a música sacra; a Encíclica Musicae Sacrae Disciplina (1953), do Papa Pio XII, sobre a Música Sacra, vocal e instrumental.

Logo após o Concílio do Vaticano II, surge a Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium (1963), a realçar que “a acção litúrgica reveste maior nobreza quando é celebrada com canto, com a presença dos ministros sagrados e a participação ativa do povo”. E quando fala de canto, obviamente que se refere ao canto sagrado intimamente unido com o texto. E se o canto gregoriano ocupa sempre um lugar privilegiado em igualdade de circunstâncias, não são excluídos os outros géneros de música sacra mormente a Polifonia, desde que em harmonia com o espírito da ação litúrgica, e de acordo com os diversos tempos litúrgicos, com as diversas celebrações e os vários momentos da celebração. Compositores, organistas, mestres de coro, cantores, músicos (instrumentistas) devem formar um todo para o esplendor do canto.

Alguns anos após o Concílio, a famosa Instrução Musicam Sacram (1967), da Sagrada Congregação dos Ritos, é a síntese, diria perfeita, do que à Música Sacra diz respeito, desde o canto na celebração da missa, passando pela preparação de melodias para os textos em vernáculo, depois a música para instrumental, o Canto no Ofício, etc etc.

O assunto levar-nos-ia ainda a três ou quatro intervenções de São João Paulo II, a uma célebre conferência do Cardeal Ratzinger (mais tarde Papa Bento XVI) em 1985, a uma Nota Pastoral dos nossos bispos por ocasião do Ano Europeu da Música (em novembro de 1985).

E o nosso Papa Francisco, por mais de uma vez, tem insistido que a Música Sacra e Canto Litúrgico devem estar plenamente inculturados nas linguagens artísticas atuais.

Quais os compositores que mais ouve e, desses, que obras prefere?

J.S. Bach é incontornável. Oiço com frequência, por exemplo, a Cantata do Café, cuja ária Hat man nicht mit seinen kindern fez parte do programa do meu exame do Curso Superior de Canto de Concerto, e foi uma das provas de acesso ao Coro Gulbenkian, em novembro de 1974; a Missa em Si m, cujas árias de baixo cantei; e a Paixão Segundo S. João, em que interpretei o papel de Jesus, no Porto, em abril de 1977, quando ainda estagiava em Paris…
Haëndel (O Messias, e Música Aquática); Beethoven (Sinfonias 3, 6 e 9) e a ópera Fidelio, cujo papel de Rocco desempenhei em junho de 1986; Mozart (o Requiem que, enquanto membro do Coro Gulbenkian, cantei no Coliseu em 1975, com gravação para a Erato; a Sinfonia nº 40, etc etc); Haydn (A criação, a Missa de Santa Cecília e a Sinfonia Concertante); Bizet (Carmen); Bramhs (Um Requiem Alemão);Rossini (Stabat Mater); Tchaickowsky (Romeu e Julieta e Francesa da Rimini; Dvorak (Sinfonia nº 9, O Novo mundo); Ravel (Bolero); Rodrigo (Concerto de Aranjuez); Strauss (valsas); Elgar (Concerto para violoncelo).

E muito, muito mais, obviamente.

O que o levou a colecionar livros e discos?

Certamente, e de uma forma geral, o meu gosto pela música, a ligação à Igreja, o meu profissionalismo, a cultura. É claro que tudo se desenrola de acordo com as diversas etapas da vida:

a minha função de professor de Música (além de outras disciplinas) no seminário menor, após a minha formação, e o começo dos meus estudos no Conservatório;

a minha transição para a vida pastoral, durante 3 anos;

a minha ida para Lisboa para concluir o curso Superior, do Conservatório, e a minha curta passagem pela Fundação Gulbenkian;

o meu estágio de dois anos em Paris, concluído com 2 meses em Itália;

o começo e a continuação da minha carreira lírica no Teatro Nacional de São Carlos;

os 3 anos pós-São Carlos em que continuei a minha carreira;

o abraçar de novo projeto: “trabalhar” um coro inserido numa missão pastoral na Paróquia dos Anjos (Lisboa), a minha Paróquia, a partir de 1997 e, posteriormente, de 2003 a 2016, na capela do Palácio da Bemposta (Academia Militar);

e porque não dizê-lo, as minhas viagens de automóvel, algumas longas, nos anos 70 e daí para cá, para já não falar da minha própria casa…

Como vê, são muitas as etapas e as circunstâncias em que procurei estar sempre em dia e dentro das exigências das mesmas. Livros, discos, cassetes, CDs, DVDs eram verdadeiros instrumentos de trabalho, de cultura, de ocupação, de prazer…

Julgo ter sintetizado as razões da minha importante biblioteca e discoteca, das quais progressivamente e criteriosamente, me vou voluntariamente desfazendo.

Antes da sua formação académica no conservatório, que lugar tinha a música erudita no seu papel de formador no seminário?

Além de renovar completamente o repertório de cânticos religiosos que vinha de há longos anos (o que supunha rodear-me de bom material), comecei a interessar-me por vozes maravilhosas que os discos faziam chegar até nós (Mario Lanza, Luis Mariano, Alfredo Krauss etc, e por orquestras excecionais que nos traziam as mais belas melodias clássicas, canções famosas, música de filmes históricos…

Tive sempre a preocupação de partilhar com os meus jovens alunos algum desse maravilhoso mundo musical… Era importante para a educação da sua sensibilidade, dos seus gostos, da sua cultura.

Lembro-me, e muitos ex-alunos (quer do seminário, quer do ensino público) se recordarão de ter dado a ouvir, entre outras obras, uma pequena peça do compositor russo Alexander Borodine. Tratava-se de Nas estepes da Ásia Central. Era a caravana que surgia ao longe, a marcha dos camelos, a intensidade instrumental que “subia” a anunciar a chegada da caravana, a permanência no terreno, o retomar da marcha, os sons que se iam extinguido… até a caravana se perder de vista!… Era tudo tão belo, tão claro! Apaixonante!… O interesse era enorme. Os alunos começavam a compreender que a música tem um sentido, um conteúdo, uma intenção, uma finalidade, uma expressão!
O mesmo sucedeu com outras obras, como o Hino da Alegria, da IX Sinfonia de Beethoven! Etc etc.

Mas adverti-os sempre para que nada disto desviasse a atenção do essencial da sua formação!…

Em três palavras como se caracteriza a si mesmo?

Persistente! Perfecionista! Brioso!

Lisboa, 19 de março de 2018

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JOSÉ DE FREITAS NA COMUNICAÇÃO SOCIAL

Um barítono que é crítico de si próprio

Correio da Manhã, 28 de abril de 1986

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De padre a cantor principal de ópera no Teatro São Carlos

Diário de Notícias do Funchal, 11 de maio de 1986

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José de Freitas: de padre a cantor

Correio da Manhã, 02 de agosto de 1987

Ilha do Faial (Açores)

São Gonçalo

São Gonçalo já é velho,
De velho caiu-lhe os dentes;
Culpa tiveram as moças
Que lhe deram papas quentes.

São Gonçalo me chamou
Da janela da cozinha:
Que fosse jantar com ele
Uma perna de galinha.

São Gonçalo já é velho,
De velho caiu-lhe os dentes;
Culpa tiveram as moças
Que lhe deram papas quentes.

São Gonçalo me chamou
Da janela da cozinha:
Que fosse jantar com ele
Uma perna de galinha.

Nota: «A canção de São Gonçalo veio do norte do continente português. Cantou-se por quase todas as ilhas, mas caiu em desuso. Todavia há a registar algumas melodias em diversas ilhas, todas elas diferentes mas que conservam do original, trazido pelos povoadores, a designação e a letra.

Para este “São Gonçalo” inspiramo-nos na versão da Calheta do Nesquim, utilizando ambas as letras desta e da versão do Salão, a partir das “Cantigas do Povo dos Açores”, de Francisco José Dias. Visíveis são as influências dos ritmos tradicionais do norte de Portugal: a típica Chula e o ritmo de Santa Marinha.» (Helena Oliveira)

Letra e música: Tradicional (Ilha do Faial)
Intérprete: Helena Oliveira (in CD “EssênciasAcores”, Helena Oliveira/HM Música, 2010)

Ilha do Faial (Açores)

Ilha do Faial (Açores)

Eliseu Silva, violinista

Celebração ao longo do ano

Dias que celebram instrumentos, profissões e entidades musicais

09 de março
Dia do DJ.

10 de março
Dia do Guitarrista.

15 de janeiro
Dia Mundial do Compositor.

21 de março
Dia Europeu da Música Antiga.

29 de março
Dia Mundial do Piano.

16 de abril
Dia Mundial da Voz.

29 de abril
Dia Mundial da Dança.

30 de abril
Dia Internacional do Jazz.

06 de maio
Dia Mundial do Acordeão.

07 de maio
Dia Internacional da Tuba.

21 de junho
Dia Europeu da Música.

13 de agosto
Dia Mundial do Clarinetista.

22 de agosto
Dia Mundial do Folclore.

01 de setembro
Dia Nacional das Bandas Filarmónicas.

01 de outubro
Dia Mundial da Música.

02 de outubro
Dia da Viola da Terra (Açores).

25 de outubro
Dia Mundial da Ópera.

06 de novembro
Dia do Saxofonista.

João Mortágua, AXES, Coimbra, Convento de São Francisco

João Mortágua, AXES, Coimbra, Convento de São Francisco

22 de novembro
Dia de Santa Cecília, padroeira dos músicos.

27 de novembro
Dia Mundial do Fado

11 de dezembro
Dia Internacional do Tango.

13 de dezembro
Dia do Violino.

Eliseu Silva, violinista

Eliseu Silva, violinista

Outras datas:

Maio, primeira sexta-feira
Dia Internacional da Tuba.

Maio, último domingo
Dia Nacional do Folclore.

Dias que também envolvem a música:

21 de abril
Dia Mundial da Criatividade e Inovação.

01 de maio
Dia do Trabalhador.

22 de maio
Dia do Autor Português.

31 de maio
Dia das Coletividades.

05 de outubro
Dia do Professor.

Para músicos que se dedicam à música sacra:

Quarenta dias antes da Páscoa
Quarta-feira de cinzas.

Dois dias antes da Páscoa, feriado
Sexta-feira santa.

60 dias depois da Páscoa
Festa do Corpo de Deus.

Entre 22 de março e 25 de abril
Páscoa.

01 de novembro
Dia de Todos os Santos.

08 de dezembro, feriado
Dia da Imaculada Conceição.

Para professores e todos:

1 de janeiro, feriado
Dia de Ano Novo.

06 de janeiro
Dia de Reis.

Terça antes do início da Quaresma
Carnaval.

14 de fevereiro
Dia de São Valentim (Dia dos Namorados/do Amor/da Amizade).

22 de fevereiro
Dia do Pensamento.

08 de março
Dia Internacional da Mulher.

15 de março
Dia Mundial dos Direitos do Consumidor

19 de março
Dia do Pai (e Dia de São José).

20 de março
início da Primavera.

21 de março
Dia Mundial da Árvore, Dia Mundial da Poesia e Dia Europeu da Criatividade Artística.

22 de março
Dia Mundial da Água.

24 de março
Dia Nacional do Estudante.

02 de abril
Dia Internacional do Livro Infantil.

06 de abril
Dia Mundial da Atividade Física.

07 de abril
Dia Mundial da Saúde.

08 de abril
Dia Internacional do Cigano.

15 de abril
Dia Mundial da Arte.

22 de abril
Dia Mundial da Terra.

23 de abril
Dia Mundial do Livro.

25 de abril
Dia da Liberdade.

maio, primeiro domingo
Dia da Mãe.

05 de maio
Dia Mundial da Higiene das Mãos, Dia Mundial da Língua Portuguesa e Dia. Mundial do Trânsito e da Cortesia ao Volante.

09 de maio
Dia da Europa.

15 de maio
Dia Internacional da Família.

17 de maio
Dia Mundial da Reciclagem.

20 de maio
Dia Mundial das Abelhas.

22 de maio
Dia Internacional da Biodiversidade.

28 de maio
Dia Internacional do Brincar.

31 de maio
Dia dos Irmãos.

1 de junho
Dia Mundial da Criança.

05 de junho
Dia Mundial do Ambiente.

08 de junho
Dia Mundial dos Oceanos.

10 de junho
Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

13 de junho
Dia de Santo António.

21 de junho
início do verão.

24 de junho
Dia de São João.

20 de setembro
Dia Mundial da Limpeza.

21 de setembro
Dia Mundial da Gratidão.

22 de setembro
início do outono.

25 de setembro
Dia Nacional da Sustentabilidade.

04 de outubro
Dia Mundial do Animal.

05 de outubro, feriado
Dia da Implantação da República

16 de outubro
Dia Mundial da Alimentação.

23 de outubro
Dia Global da Dignidade.

31 de outubro
Dia das Bruxas (Halloween).

01 de novembro
Dia do Pão por Deus.

11 de novembro
Dia de São Martinho.

14 de novembro
Dia Internacional do Trava-Línguas.

16 de novembro
Dia Nacional do Mar. Dia Internacional da Tolerância.

17 de novembro
Dia Mundial da Criatividade.

21 de novembro
Dia Mundial do Olá.

01 de dezembro, feriado
Dia da Restauração da Independência.

03 de dezembro
Dia Internacional das Pessoas com Deficiência.

05 de dezembro
Dia Mundial do Solo . Dia Internacional do Voluntariado

25 de dezembro
Natal.

Reciclanda

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O projeto Reciclanda promove a reutilização, reciclagem e sustentabilidade desde idade precoce.

Com música, instrumentos reutilizados, poesia e literaturas de tradição oral, contribui para o desenvolvimento global da criança e o bem estar dos idosos.

Contacto

António José Ferreira
962 942 759

Grande órgão da Basílica de Fátima (antigo)

MÚSICA EM FÁTIMA NO SÉC. XX

por António José Ferreira

INTRODUÇÃO

Ainda antes de as Aparições serem declaradas dignas de crédito pelo Bispo de Leiria, a 13 de Outubro de 1930, Fátima e a música tinham já juntos um percurso inevitável, por motivos antropológicos, pedagógicos e pastorais. Os primeiros reitores tiveram de estruturar a prática musical, seleccionando, promovendo novos cânticos, editando manuais, pensando no projecto do órgão.

A centralidade do Santuário viria a ter consequências nas manifestações musicais do âmbito eclesial, contribuindo para certo estilo de canto litúrgico em Portugal. As visitas da Imagem Peregrina, a partir de 1940, a realização de congressos católicos em Fátima nos anos 50, a organização do culto para responder à crescente vinda de peregrinos portugueses e estrangeiros originaram um repertório musical próprio, com o contributo de numerosos compositores.

Neste processo, Fátima não podia ignorar a legislação canónica em vigor que considera(va) a música (especialmente o canto) insubstituível nas celebrações litúrgicas da Eucaristia, do Ofício Divino, das devoções e peregrinações a santuários. Todavia, dois documentos (com pontos comuns e perspectivas eclesiológicas diversas) marcaram a música em Fátima, como, aliás em todo o mundo católico: o Motu Proprio de Pio X, “Tra le Sollecitudini“, de 1903, e o capítulo sobre música da Constituição Conciliar “Sacrosanctum Concilium“, de 1963. O primeiro valorizava especialmente o gregoriano e a polifonia clássica, o coro e o órgão de tubos; o segundo valorizava, acima de tudo, a participação “actuosa” da assembleia, num contexto orgânico de diferentes serviços, sem depreciar o papel do coro, do regente, do solista e do organista.

Realçada nas peregrinações aniversárias pela massa das vozes e pelo carácter mediático do acontecimento, a música realiza no Santuário tarefas quotidianas nas celebrações litúrgicas e, desde há quase uma década, no Terço do Rosário transmitido pela Rádio Renascença.

I. JÚLIA D’ALMENDRA

Um dos factos mais importantes da Música Sacra em Portugal e em Fátima, no século XX, são as Semanas Gregorianas, que persistem, sob a direcção de Idalete Giga. Foram concebidas e iniciadas por Júlia d’Almendra (n. 1904 – m. 1992), trinta e três anos depois das Aparições, 47 anos após o Motu Proprio de Pio X sobre música sacra “Tra le Sollecitudini“, 13 anos antes da constituição litúrgica “Sacrosanctum Concilium“.

Na Solenidade de Cristo Rei de 1949, a musicóloga que deixara o violino para se interessar pela música da Idade Média e do Renascimento, revelou ao Prelado de Leiria a ideia de fazer de Fátima o centro do Movimento Gregoriano em Portugal, criando as Semanas de Estudos Gregorianos destinadas a todas as dioceses. «Um dia, quando regressava de Trás-os-Montes, onde passara umas férias, a fim de seguir para Paris a completar o meu último ano, passei, sem o esperar, em Fátima, e ocorreu-me de súbito a ideia de ali começar as Semanas Gregorianas em Portugal. Tão bem compreendida fui pelo Sr. Bispo de Leiria, então S. Ex.cia Rev. D. José Alves Correia da Silva, que a 1ª Semana se realizou logo no ano seguinte, nas férias da Páscoa de 1950, com a presença do director do Instituto Gregoriano de Paris, o ilustre Prof. Auguste Le Guennant que, no Conservatório Nacional, proferiu uma lição que marcou, pode dizer-se, a data dum verdadeiro movimento gregoriano, para leigos e religiosos, em Portugal» (ALMENDRA, O 10º aniversário, 7).

O Prelado, que ficara intimamente ligado aos fenómenos de Fátima, à bênção do carrilhão, ao envio dos padres António Gregório e Carlos Silva para o Instituto Pontifício de Música Sacra, ficou também associado ao Movimento Gregoriano em Portugal. A “I Semana Portuguesa de Formação Gregoriana e Litúrgica”, que tinha o alto patrocínio do Cardeal Patriarca, do Bispo de Leiria, do Instituto Francês de Lisboa e do Conservatório Nacional de Música, contou Auguste Le Guennant, do Instituto Gregoriano de Paris, o ilustre liturgista beneditino Tomás Gonçalinho de Oliveira, Luís Rodrigues, compositor e reitor da Lapa, no Porto e Manuel Ferreira de Faria, de Braga, entre os seus formadores. Ainda em Fátima, no ano de 1950, após a I Semana, o Bispo assistiu a uma reunião em que se lançou a “Liga dos Amigos do Canto Gregoriano”.

Já debilitado em termos de saúde, chegou a presidir em cadeira de rodas a missas de encerramento de “semanas de formação gregoriana”. Viria a falecer em 1957, mas os bispos que lhe sucederam na Diocese, designadamente D. João Pereira Venâncio (que foi professor de Música, director da “Schola Cantorum” do Seminário diocesano de Leiria e da Sé), apoiaram o projecto das semanas gregorianas. Com formadores de renome internacional como D. Joseph Gajard, Jos Lennards, Ferdinand Haberl, Johannes Overath, Jacques Chailley (n. 1910 – m. 1999), Antoine Sibertin-Blanc e, entre os portugueses, Frederico de Freitas (n. 1902 – m. 1980), Manuel Faria (n. 1916 – m. 1983), José Augusto Alegria (n. 1917 – m. 2004), Mário Brás, ensinaram e fomentaram a prática do canto gregoriano, prepararam directores de coro e cantores, deram aos organistas aperfeiçoamento técnico e facultaram preparação musical e pedagógica. Por esta via, foram ouvidos em concerto, tanto em Fátima como em Lisboa, organistas como Édouard Souberbielle, Gaston Litaize (n. 1909 – m. 1991) e Jean Guillou (n. 1930), uma das figuras mais proeminentes da música contemporânea francesa.

Num país atrasado em comunicações e transportes, numa fase de estagnação da actividade organística, Júlia d’Almendra contribuiu para o ressurgimento do órgão de tubos. Noticiadas pelo “Diário de Notícias” e o “Novidades”, católico, e outros jornais, as semanas tiveram um alcance que ultrapassa em muito a estatística dos participantes.

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II. COMPOSITORES

Na produção litúrgica e devocional, uma década após as Aparições, foram surgindo obras dedicadas a Nossa Senhora de Fátima, cânticos de peregrinação, hinos e missas. Entre os autores, contam-se Tomás Borba (n. 1867 – m. 1950), José Angerri, Eduardo da Fonseca, Luís Gonzaga Mariz, SJ, Josué Trocado, Jacinto Martins, SJ, João C. Lima Torres, Inacio Aldassoro, SSCC, Berta Alves de Sousa (n. 1916 – m. 1997), Luís Rodrigues, Mário Brás, Armando Leça, Manuel Faria.

César Morais (n. 1922), autor de um conhecido concerto para violoncelo e orquestra gravado e uma suite para arcos gravadas com a Orquestra Clássica do Porto, escreveu, além de muitas outras obras sacras, uma “Missa de Nossa Senhora de Fátima”.

Joaquim dos Santos fez a orquestração da missa homónima de Manuel Faria, para coro e órgão, cuja estreia em versão orquestral aconteceu em Braga (1984), com a Orquestra do Porto e o Coro da Sé Catedral do Porto sob a direcção de Günter Arglebe. O próprio Padre J. G. dos Santos compôs uma “Missa em Honra de Nossa Senhora de Fátima” para duas vozes iguais, cuja partitura foi publicada em 1971. O Padre Jacinto Martins, S.J., notável compositor religioso dentro dos Jesuítas, escreveu várias composições musicais sobre Fátima, que editou em Barcelona (“Senhora de brancura imaculada” e “Ao meio dia”, entre outros). Alguns cânticos aparecem nos primeiros hinários de Fátima.

Em meados do século XX, D. José Alves Correia da Silva enviou Carlos da Silva (n. 1928-), ordenado presbítero em 1951, para o Instituto Pontifício de Música Sacra, na linha das recomendações do Magistério Universal. Nascido em Minde, próximo de Fátima, educado num ambiente familiar com tradições musicais, o Padre Carlos da Silva, estudou Canto Gregoriano, Órgão e Piano em Roma. Regressado a Portugal, foi, a partir de 1955, professor de Música, Canto Coral e História, de centenas de jovens candidatos ao sacerdócio, durante três décadas, no Seminário diocesano de Leiria. Além disso, em 1957, passou a dirigir o Serviço de Música do Santuário e as grandes assembleias de peregrinos. Neste contexto se enquadram a composição de cerca de 50 cânticos marianos e o peso das suas composições litúrgicas e devocionais no repertório litúrgico-devocional de Fátima (cerca de 30%).

Melodista por formação e missão, o Pe. Carlos da Silva compôs geralmente para uma voz, com o objectivo de fomentar a participação da assembleia. Carlos Silva procura valorizar e amplificar o texto – daí o uso frequente de compassos mistos 2/4 e 3/4. Pelo uso da repetição e da imitação, com frases melódicas fluentes e equilibradas, potencia a participação colectiva. O refrão é, por vezes, estruturado em ABA (“A minha alma glorifica o Senhor”, “Feliz és tu, porque acreditaste”) ou ABCA (“Ó verdadeiro Corpo do Senhor”). Oriundo de uma freguesia com grandes tradições etnográficas e musicais, inspira-se na música de raiz popular, mas também no canto gregoriano. Cerca de 25% das suas melodias têm características modais e 75% uma base tonal. Em resposta a encomendas pontuais do Santuário, António Cartageno compôs “Totus tuus, Maria”, “Hino dos Pastorinhos”, (expressamente para a Beatificação em Maio de 2000, pelo Papa João Paulo II,) e “Venite adoremus Dominum”.

Na música erudita, a produção musical dedicada ou inspirada em Fátima é quase nula. Catorze anos depois das Aparições, foi executado no Teatro Nacional de São Carlos a oratória “Fátima” de Rui Coelho (n. 1892 – m. 1986), autor de várias óperas, sinfonias e sonatas. Composto sobre poema de Afonso Lopes Vieira (que também escreveu o texto do “Ave de Fátima”), a obra foi, nessa data, dirigida pelo próprio compositor. Em 1933, a obra foi executada com êxito no Teatro Guarany, Baía, no âmbito do I Congresso Eucarístico do Brasil, por 150 músicos, incluindo coros e orquestra. A direcção esteve a cargo do jesuíta Padre Luís Gonzaga Mariz, organizador do “Devocionário Musical” (1927, 1930). Pela primeira vez em Fátima, no Centro Pastoral Paulo VI e no âmbito do Congresso “Fenomenologia e Teologia das Aparições“, a obra foi apresentada a 10 de Outubro de 1997, com a participação dos coros do Santuário de Fátima, Paroquial de Alburitel, Chorus Auris, Gaudia Vitae, Choral Phydellius e da Orquestra ARTAVE, sob a direcção do Cónego António Ferreira dos Santos.

A influência de Fátima na música, pela via devocional dos autores e intérpretes, é visível em alguns casos, tanto em Portugal como no estrangeiro, sendo significativa a canção “The Miracle of the Rosary“, cantada por Elvis Presley, escrita em 1960 pelo amigo Lee Denson (música e texto). O “rei do rock” pertencia à Igreja Evangélica Baptista, mas o seu amigo Lee Danson era casado com uma devota de Fátima. Nos anos 80, esta canção (que foi fora abençoada pelo Papa Paulo VI), foi cantada por Lee no Santuário de Fátima e no Carmelo de Coimbra, na presença da Irmã Lúcia.

III. REPERTÓRIO

As primeiras composições utilizadas em Fátima foram cânticos marianos conhecidos e adaptações de de Lourdes. O “Manual do Peregrino da Fátima“, reduzido em termos de repertório, aconteceu em 1926 e esgotou-se rapidamente.

As sucessivas edições, que foram incorporando novos cânticos, valorizavam mais a devoção (ao Coração de Jesus, ao Santíssimo Sacramento, a Nossa Senhora) do que a Liturgia, em Latim, e o tempo litúrgico. Nele, podemos encontrar “clássicos” da liturgia e da música sacra, como “O Salutaris”, “Pange Língua”, “Adoro Te devote”, “Lauda Jerusalém”, “Tantum Ergo”, ou “Te Deum laudamus”, “Salve Regina”. Em, português, “Hóstia santa, manso cordeiro”, “Ó anjos cantai comigo” (o cântico preferido de Jacinta Marto), “Santos Anjos e Arcanjos”, “Queremos Deus”, o “Ave de Fátima”, “Sobre os braços da Azinheira”, “Salve nobre padroeira”, “Virgem pura”, aparecem na edição de 1926. O repertório cresceria com “Bendizemos o teu nome”, “Senhora nossa”, e o “Adeus final” (“Ó Virgem do Rosário”) que hoje conhecemos.

O “Guia do Peregrino de Fátima”, (3ª edição, 1997), além das orações e informações úteis aos peregrinos e organizadores de peregrinações, valoriza a Liturgia das Horas e reflecte as mudanças introduzidas pelo II Concílio do Vaticano. Carácter litúrgico reflecte especialmente

o hinário “Canta, Povo de Deus” (1999), edição preparada pelo Padre Artur de Oliveira, para a Eucaristia e Ofício Divino. A inclusão de cânticos latinos e da Missa “De Angelis“, em continuidade com as anteriores edições musicais do Santuário, reflecte o carácter universal da Igreja e de Fátima, permitindo uma participação mais efectiva num contexto multilingue.

Na composição devocional, os cânticos mais conhecidos apresentam uma escrita homofónica claramente tonal, com utilização preponderante do modo maior. A melodia é pontualmente enriquecida por notas de passagem cromáticas e a duplicação à terceira. O compasso predominante é o quaternário 4/4 (“Sobre os braços da azinheira”, “Virgem pura”, “Salve nobre padroeira”, “Bendizemos o teu nome”), sendo caso mais raro o compasso ternário (“Ave de Fátima” e “Senhora nossa, Senhora minha”). Os esquemas rítmicos regulares facilitam a memorização. De modo a permitir a participação, o andamento, por vezes indicado na partitura, é lento, e o carácter marcial.

Tratando-se de cânticos a uma voz, para grandes massas populares, os cânticos não descem para um registo muito grave nem atingem um registo demasiado agudo. O seu âmbito não ultrapassa em muito a 8ª Dó-Dó, atingindo por vezes o Mi e excepcionalmente o Fá. Há contornos melódicos que se repetem; as frases são geralmente curtas, de acordo com a estrutura simples da poesia popular, em redondilha maior ou menor. Além da conjunção melódica, observa-se a predominância do intervalo de terceira, tanto maior como menor, sobre os outros intervalos que, exceptuando os aumentados, os diminutos e os de sétima, também são, por vezes, utilizados.

Fazendo a distinção entre cânticos litúrgicos (para a missa e outros sacramentos e liturgia das horas) e os cânticos devocionais (destinados a formas de oração mais livres), deve referir-se que os repertórios anteriores ao Concílio tinham características acentuadamente populares e devocionais; a partir do Concílio, o repertório ganha um forte pendor litúrgico, inspirado na tradição bíblica e no canto gregoriano sem rejeitar a influência do canto popular (Manuel Luís, Manuel Faria, Manuel Simões, Carlos Silva, António Cartageno, António Azevedo Oliveira, António Ferreira dos Santos).

Na produção musical pós-conciliar para Fátima, há uma predominância de linhas melódicas baseadas em segundas e pequenos saltos, na linha da influência gregoriana, compassos mistos 2/4 e 3/4, de acordo com os textos essencialmente bíblicos. O canto deixou o carácter nacionalista, o complexo de povo “escolhido”, a identificação da igreja com o estado (“não se chame português / quem cristão de fé não for”) para assumir um carácter mais cosmopolita e ecuménico.

Com o Padre Pedro Ferreira, OCD, a director do Secretariado Nacional de Liturgia, com o trabalho de Augusto Frade e António Cartageno, as edições do SNL prestam um importante serviço à música litúrgica em Portugal, com cânticos para a Liturgia das Horas, para a Eucaristia, Salmos Responsoriais, Guiões do ENPL, cânticos Instrumentados para Banda, cânticos para crianças, colectâneas de autor (Carlos Silva e Ferreira dos Santos). Fátima tornou-se também o centro das edições musicais eclesiásticas e a “biblioteca” onde mais facilmente se podem adquirir, assumindo um papel que fora, de algum modo, desempenhado pela Tipografia Editorial Franciscana, em Braga, até aos anos 70.

No que se refere a registos de Fátima, o Padre João Caniço, SJ, preparou em Lisboa, em 1981, a gravação de uma cassete para as Missões da Consolata, intitulada “Cânticos de Fátima”, que teve várias edições. Em 1995, foi gravado um CD intitulado “Fátima. cânticos. Lieder. Songs”, pelo Coro do Carmo de Beja sob a direcção de António Cartageno e Jaime Branco ao órgão, pela etiqueta Weto (Alemanha). O registo inclui “A treze de Maio”, “Senhora nossa, Senhora minha”, “Senhora, um dia descestes”, “Bendizemos o teu nome”, Sobre os braços da azinheira”, Senhora, nós vos louvamos”, “O Santíssima”, “Adeus de Fátima”.

A 12 de Outubro de 2004, foi apresentado à comunicação social o CD “Cânticos Marianos do Santuário de Fátima”, o primeiro editado pelo Santuário. Num projecto que teve a colaboração de Ismael Hernandez e Nicolas Roger, a edição contou com as vozes do Coro do Santuário, sob a direcção do Padre Artur de Oliveira, director do Coro e do Serviço de Música do Santuário. O registo inclui 14 cânticos emblemáticos de Fátima, os anteriormente referidos e “Avé Maria”, “Hino dos Pastorinhos”, “Ave, o Theotokos”, “Mater Ecclesiae”, “Magnificat”.

III. INSTRUMENTOS E ACTIVIDADE ORGANÍSTICA

Constituído por 62 sinos, dos quais o maior pesa três toneladas e o badalo 90 quilos, fundidos e temperados pelo bracarense José Gonçalves Coutinho, foi benzido em 1948 o carrilhão de Fátima, fruto das ofertas de muitos fiéis de todo o País.

Na linha das orientações universais da Igreja, o Padre António de Oliveira Gregório (n. 1925 – m. 1986), foi ordenado presbítero em 1948 e em 1950 partiu para o Instituto Pontifício de Música Sacra, onde concluiu a licenciatura em Canto Gregoriano e o Curso de Órgão (1956). Em Pádua, fez um estágio na firma “Fratelli Ruffatti”. Regressado de Roma, foi capelão, organista oficial e responsável pela Música no Santuário entre 1956-1986.

Num contexto de influência italiana, foi construído e montado pela “Famiglia Artigiana Fratelli Ruffatti”, em 1952, um grande órgão de tubos na Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, inaugurado por Filipe Rosa de Carvalho. O Órgão, apresentado na “Voz da Fátima” com grandes elogios às dimensões, qualidade estética e tecnologia, com 152 registos, cerca de 12000 tubos (o maior com onze metros e o menor com nove milímetros), ficou aquém do que se esperava em termos de rendimento. Numa basílica com demasiada reverberação, o órgão dispôs de três consolas distintas: a original, na tribuna, outra no recinto e outra no altar em que se encontra o sepulcro de Jacinta Marto.

Pela descoordenação causada, com a construção dos órgãos do Recinto e da Capelinha, acabou por ficar apenas a consola do coro alto, com cinco teclados e pedaleira. No mesmo espaço, em 1962, juntaram-se ao grande órgão e recitativo três corpos do grande órgão (positivo, eco e solo) que se encontravam no altar-mor, por detrás do trono do Santíssimo. Foram construídos novos tubos, a mecânica foi remodelada, a fachada tornou-se um belíssimo elemento decorativo, mas em 5 décadas o órgão apresentou muitos problemas que se prendem com o sistema electro-pneumático de transmissão, a pouca qualidade de certos materiais e a própria falta de manutenção.

Em 1985/1986, mais dois órgãos Ruffatti foram colocados, um na galeria fechada do Recinto e outro na Capela das Aparições. A capacidade sonora, as condições atmosféricas adversas (com acentuadas amplitudes térmicas) e o sistema de transmissão, electro-pneumático como o da Basílica, acabaram por ditar o fim dos órgãos ligados à presença do Padre António de Oliveira Gregório. Ismael Hernandez, organista sub-titular desde Abril de 1991, frequentou algumas Semanas Gregorianas, onde teve como professor de Direcção Coral Gregoriana Jos Lennards. Concluíu os Cursos Gerais de Canto Gregoriano e de Órgão no Centro de Estudos Gregorianos (actual Instituto Gregoriano de Lisboa), tendo tido como professores Júlia d’Almendra e Antoine Sibertin-Blanc e Joaquim Oliveira Bragança (Liturgia).

A aquisição de novos órgãos, já no séc. XXI, está associada a Nicolas Roger, organista francês nascido em Paris em 1952. No Consevatório de Paris, concluíu os estudos de Harmonia e Contraponto com os professores J. Lequien e P. Lantier e obteve o 1° Prémio de Estudos Superiores de Órgão no Conservatório Nacional de Angers sob a orientação do Professor André Isoir. Em França, foi titular do Órgão da Igreja Saint Martin – Saint Laurent e professor de Órgão no Conservatório Nacional de Orsay. Casado com uma portuguesa, Nicolas Roger instalou-se entre nós em 1997. Iniciou as funções de organista titular do Santuário a 1 de Fevereiro de 1998, começando em 1999 a dar aulas no Curso de Órgão do Santuário. Trabalhou no projecto dos novos órgãos, continuando a actividade concertística em Portugal e outros países da Europa.

Em 2001, o Boletim Informativo do Santuário tornava pública a decisão de substituir os órgãos do Recinto e da Capelinha das Aparições. Para a construção do órgão da Capela das Aparições foi escolhido o projecto Gerhard Grenzing, de Barcelona. O órgão foi concebido para o acompanhamento litúrgico, embora possa executar peças sacras no âmbito celebrativo. Limitado pelo espaço disponível, possui 12 registos, com dois manuais e pedaleira.

O órgão do Recinto, de Yves Koenig (Estrasburgo), totalmente mecânico, dispõe de 20 registos, repartidos por dois manuais e pedaleira. Foi concebido em primeiro lugar para as celebrações dominicais com acompanhamento de coro, desde a Páscoa à Festa de Todos os Santos e às peregrinações aniversárias, mas também para a classe de órgão da Escola de Música do Santuário. O órgão pode executar também muito repertório organístico. A sala do coro foi ampliada e melhorada em termos acústicos e técnicos, tendo capacidade para cem cantores.

Em 2003, chegou, além de um órgão para estudo de dois registos, um órgão de 13 registos para o coro da Basílica, junto à capela-mor, também do organeiro Gerhard Grenzing. Os concertos dominicais promovidos pelo Serviço de Música Sacra e realizados pelo organista titular e duas audições anuais públicas pelos alunos da Escola de Órgão de Tubos do Santuário de Fátima assumem cada vez mais um papel importante no diálogo do Santuário com a cultura, na fidelidade ao Magistério da Igreja, para além dos valores espirituais que promovem.

Sintomático do interesse que a Reitoria do Santuário reconhece à música e ao órgão de tubos foi o Congresso “O Órgão e a Liturgia Hoje” (20-22 de Novembro de 2003). Este Congresso nasceu de interrogações práticas, acústicas e económicas suscitadas pela perspectiva do órgão a construir na futura Igreja da Santíssima Trindade com capacidade para 9000 pessoas sentadas e na perspectiva de substituição do grande órgão da Basílica. A Comissão científica era constituída por João Peixoto Luís Silva, liturgistas, José González Uriol, organista, e Ruy Vieira Néry, musicólogo, sob a presidência de António Ferreira dos Santos.

O Congresso, que passou despercebido à Comunicação Social, contabilizou, incluindo conferencistas, convidados e participantes, 145 pessoas (organeiros, organólogos, musicólogos, directores de coro, organistas, compositores, liturgistas, professores). Entre os conferencistas, contam-se reconhecidos especialistas nacionais como Rui Vieira Nery (n. 1957) e José Maria Pedrosa Cardoso (n. 1942) e, no plano internacional, Franz Joseph Stoiber (n. 1959), Valentino Miserachs Grau (n. 1943), Johann Trummer, Fréderic Blanc, Felice Rainoldi (n. 1935), Klemens Schnorr (n. 1949), Sérgio Dias (n. 1960), David Eben (n. 1965), Andrzej Chorosinsky (n. 1949), Gerhard Grenzing. Em concerto, participaram o Coro da Sé Catedral do Porto e António Esteireiro, (dirigidos por Eugénio Amorim), João Vaz e Rui Paiva (n. 1961) aos órgãos de Mafra, Grupo Vocal Ançã-ble, dirigido pelo Padre Pedro Miranda, Coro Gregoriano de Lisboa, dirigido por Maria Helena Pires de Matos, Coro de Santa Maria de Belém, dir. Fernando Pinto e Coro Gulbenkian, dirigido por Fernando Eldoro.

V. CURSOS E ENCONTROS

Acessos rápidos desde o Alto Minho como desde o Algarve, aliados às boas condições logísticas, tornaram Fátima ainda mais central. A diversidade de encontros realizados conferem ao Santuário de Fátima maior importância musical litúrgica e, ao mesmo tempo, uma responsabilidade acrescida.

A partir de 1975, o Encontro Nacional de Pastoral Litúrgica deu formação pastoral litúrgica e musical, promoveu a musicalização de textos da Liturgia das Horas e da celebração eucarística. Embora não seja especificamente musical, pela prática litúrgica em que a música tem um lugar destacado, o Encontro Nacional de Pastoral Litúrgica desempenha um papel relevante na educação litúrgico-musical das assembleias cristãs de Portugal. De 87 participantes, dos quais 53 eram padres, em 1975, até 1540, dos quais 1202 leigos, em 2004, o ENPL regista já o número de 29510 presenças de padres, consagrados e leigos empenhados na Pastoral Litúrgico-musical das comunidades cristãs, de norte a sul do País.

Pela prática musical que os acompanha, os cursos de animadores vocacionais, encontros de religiosos, peregrinações de movimentos e associações católicos, jornadas catequéticas, festivais da canção juvenil, “semanas” diversas (missionárias, bíblicas, de pastoral social) contribuem para a troca de experiências musicais e litúrgicas. A música (cânticos, acompanhamento de órgão, concertos corais e organísticos) é ouvida por grande número de pessoas que vão assimilando certo estilo de canto.

Sedeado em Fátima, o Serviço Nacional de Música Sacra, organismo que se insere no Secretariado Nacional de Liturgia, é presidido pelo Cónego António Ferreira dos Santos. Tem como objectivos o fomento da música sacra e litúrgica nas dioceses e comunidades cristãs em geral, a formação litúrgico-musical e a publicação de música.

O Curso de Música Litúrgica (1991-1994, 1995-1998, 2003-2006) tem desempenhado um papel importante na formação de organistas e directores de coro litúrgicos, sendo a aquisição de novos e melhores órgãos benéfica também nesse sentido. Frequentaram o curso António Esteireiro, Emanuel Pacheco e Filipe Veríssimo, Fernando Pinto, entre outros. Para alguns alunos, este contacto foi o estímulo a frequentarem o ensino superior nesta área.

Na fase de arranque, o Curso teve o importante contributo dos alemães Otmar Faulstich, Hubert Velten e Franz Joseph Stoiber. Entre os formadores portugueses, contam-se António Cartageno, António Azevedo Oliveira, Fernando Valente, António Mário Costa, Eugénio Amorim, Paulo Alvim, José Paulo Antunes, Emanuel Pacheco, Filipe Veríssimo e António Esteireiro.

Em Fátima, são recebidos coros oriundos de diversos países e regiões, com interpretações de música sacra na Basílica ou animação de eucaristias. Com apoio do Santuário e organização do SNMS, a I Jornada Nacional de Grupos Corais Litúrgicos (1990), o I Encontro Nacional de Pequenos Cantores (1992), o Jubileu dos Músicos (2000), o Encontro de Compositores de Música Litúrgica (2005) representam trabalho prévio com coros e músicos, mas também questões e novos desafios a aprofundar nas dioceses.

CONCLUSÃO

Se Júlia d’Almendra terá sido a primeira pessoa a aperceber-se, de forma consequente, da centralidade que Fátima podia ocupar em termos de Música na Igreja, os bispos, reitores, superiores religiosos e músicos foram criando e descobrindo condições para o encontro com a música litúrgica, a que não é alheia a centralidade geográfica, religiosa e social do Santuário.

Entre os reitores, Monsenhor Luciano Guerra (1973-) fica especialmente ligado à evolução da Música no Santuário, contribuindo com a sua parte na evolução da Música litúrgica ao longo de mais três décadas. Actualmente, a Secção de Música Sacra, enquadrada no Serviço de Pastoral Litúrgica, tem 5 sectores: Pessoas (responsável, organistas, coros, solistas), Programação (selecção e programação diária), Publicações (para uso interno e uso público), Acolhimento (música ambiente, concertos), Formação (Música, Órgão Litúrgico).

Superando opções nefastas em termos de património organístico, os desafios são grandes para o século XXI no sentido de melhorar a qualidade da execução litúrgica, a oferta de concertos espirituais, promoção da grande música sacra, diálogo com a música contemporânea.

Para o programa dos 90 anos das Aparições, em 2006/2007, foram encomendados um novo “Hino aos pastorinhos”, a Paulo Lameiro, uma oratória à Santíssima Trindade para a inauguração da nova Basílica, ao Cónego António Ferreira dos Santos, e outra sobre as Aparições de Fátima, ao Padre Cartageno. No âmbito de outras manifestações culturais, foi igualmente previsto um Festival da Canção sobre os Pastorinhos e um bailado.

Sendo a música praticada na Igreja um importante meio de formação/deformação, espera-se que Fátima assuma cada vez melhor um serviço de qualidade musical, sem substituir as dioceses, mas estimulando o seu desenvolvimento.

FONTES

ALMEIDA, J. C. P. – Missa coral em louvor de Nossa Senhora de Fátima. Braga, 1937;

BORDA, M. F. – Adeus. Cântico para o fim de Maio. Braga, 1951.

cânticos de Fátima. Fátima: Missões Consolata, 1966;

FARIA, M. F. – Cântico para a coroação da Nossa Senhora de Fátima Rainha de Portugal. Braga: Missões Franciscanas, 1946;

FARIA, M. F. – Cântico para o Cinquentenário das Aparições de Fátima. Braga, 1967;

FARIA, M. F., Saudação a Nossa Senhora de Fátima Peregrina do Minho. Braga 1951;

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Versão longa de artigo publicado na Enciclopédia de Fátima. Lisboa: Principia 2007.

António José Ferreira

Grande órgão da Basílica de Fátima (antigo)