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Poemas de Manuel da Fonseca, canções de Paulo Ribeiro

Aldeia

Nove casas,
duas ruas,
ao meio das ruas
um largo,
ao meio do largo
um poço de água fria.

Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo
que quando alguém grita para longe
um nome familiar
se assustam pombos bravos
e acordam ecos no descampado.

Poema: Manuel da Fonseca (in “Planície”, Coimbra: Novo Cancioneiro, 1941; “Poemas Completos”, Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958; “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 2.ª edição, Lisboa: Portugália Editora, 1963 – p. 93; “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 5.ª edição, Lisboa: Forja, 1975 – p. 106)
Música: Paulo Ribeiro
Intérprete: Paulo Ribeiro* com Manuel João Vieira (in CD “O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis”, Açor/Emiliano Toste, 2017)

*Paulo Ribeiro e Manuel João Vieira – vozes
Hugo Morais – clarinete
Jorge Vinhas – violino
Jorge Moniz – piano e cravo

Poemas de Manuel da Fonseca, canções de Paulo Ribeiro
Poemas de Manuel da Fonseca, canções de Paulo Ribeiro
Paulo Ribeiro

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua a mão que segura
outra mão que lhe é dada
nua a suave ternura
na face apaixonada
nua a estrela mais pura
nos olhos da amada
nua a ânsia insegura
de uma boca beijada.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nu o riso e o prazer
como é nua a sentida
lágrima a correr
na face dolorida
nu o corpo do ser
na hora prometida
meu amor que ao nascer
nus viemos à vida.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua nua a verdade
tão forte no criar
adulta humanidade
nu o querer e o lutar
dia a dia pelo que há-de
os homens libertar
amor que a eternidade
é ser livre e amar.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Poema: Manuel da Fonseca (De “Poemas Inéditos”, in “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 5.ª edição, Lisboa: Forja, 1975 – p. 179-180)
Música: Paulo Ribeiro
Intérprete: Paulo Ribeiro* com Ana Lúcia Magalhães (in CD “O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis”, Açor/Emiliano Toste, 2017)

*Paulo Ribeiro e Ana Lúcia Magalhães – vozes
Pedro Vidal – guitarra eléctrica e requinta
João Vitorino – guitarra eléctrica
João Custódio – contrabaixo
Jorge Moniz – piano, würlitzer, Hammond e bateria

Paulo Ribeiro
Paulo Ribeiro
Manuel da Fonseca

Rapaz do Bairro da Lata

Nasci no Vale Escuro
Brinquei entre latas
Pulei o alão
Andei à pedrada
Escorreguei do muro
Caí no jará
Ganhei ao pião.
A jogar à bola
Perdi a sacola
Mais o que trazia
A fugir ao guarda
Que nos perseguia.
Mas que bem sabia
Faltarmos à escola!

Já rapaz crescido
Sequer fui ouvido
Só meu pai o quis:
Entrei de aprendiz
Para uma oficina
Minha negra sina
Ofício gritado
Estalo safanão
Era um pau-mandado
Nas mãos do patrão.

Lembrança dos jogos
Que tanto gostava
Deu-me pra pensar
Que jogo era aquele
Que só um jogava?
E no outro dia
Logo que o patrão
Levantou da mão
Para a bofetada
Peguei num martelo
Entrei na jogada.

Mudei de oficina
Subi de aprendiz
Dobrei uma esquina
Minha vida fiz.
Na escola nocturna
Meti-me a estudar
Tenho namorada
Vamos namorar
Tenho amigos certos
Vamos trabalhar
Todos a lutar
Pelas coisas da vida
Que queremos viver!

Poema: Manuel da Fonseca (De “Poemas Inéditos”, in “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 5.ª edição, Lisboa: Forja, 1975 – p. 171-172)
Música: Paulo Ribeiro
Intérprete: Paulo Ribeiro* com Tim (in CD “O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis”, Açor/Emiliano Toste, 2017)

*Paulo Ribeiro e Tim – vozes
João Vitorino – guitarra acústica e eléctrica
Pedro Vidal – guitarra eléctrica e lap steel
João Custódio – contrabaixo
Jorge Moniz – bateria, percussão e Hammond

Manuel da Fonseca
Manuel da Fonseca