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Cantos e contos

CANTOS E CONTOS

por Benita Michahelles

Excerto da monografia apresentada ao Curso de Musicoterapia do Conservatório Brasileiro de Música sob a orientação de Marly Chagas.

A psicanalista Angela Maria Bouth fez um estudo sobre as cantigas de roda brasileiras, fazendo uma articulação com o pensamento de Bruno Bettelheim. Segundo a sua hipótese,

“(…) a brincadeira de roda possui conteúdo similar ao dos contos de fadas alimentando a imaginação e a fantasia, oferecendo à pessoa em desenvolvimento a oportunidade de encontrar a sua própria solução para conflitos internos (…)”

Bettelheim  cita nos seus estudos o exemplo da medicina tradicional hindu, na qual se utilizava, justamente, um contos de fadas personificando o problema particular da pessoa psiquicamente desorientada, como estímulo para a meditação, conduzindo-a a uma melhor visualização do impasse vivido, e dos caminhos possíveis para a sua resolução.

Por outro lado, Ana Ferro  faz uma analogia entre o jogo num aspecto geral e o conto-de-fadas. “… O jogo parece-me ter muitas características de um conto-de-fadas personalizado…” Para ela, ambos se constituem nas relações primárias do desenvolvimento humano, quando na relação com a mãe, a brincadeira com sons, balbucios e verbalizações, subentende profundos intercâmbios comunicativos assim como valiosas trocas emocionais e afetivas.

A mesma autora também discute as possibilidades que o conto oferece à criança de se identificar com os seus personagens e vivê-los do seu interior. Ela aponta que ele oferece a criança a oportunidade de “dar um nome, uma trama e um sentido às angústias que obscuramente o invadem.”

Neste contexto, Ana Ferro também menciona Bettelheim e o seu trabalho de interpretação de contos-de-fada. Porém, ela faz uma interessante crítica à visão deste psicanalista ao apontar para a questão da “insaturabilidade dos contos”.

“… não creio que os contos estejam ali representando de modo completo, pelo menos não tão completo como ele sugere, os medos e as ânsias das crianças…”

Para esta autora, os contos funcionariam muito mais como que recipientes de formas e tamanhos diferentes podendo vir a ser preenchidos por cada um de acordo com as suas particulares necessidades emocionais. “Uma espécie de proposta de simbolização que poderá depois ser utilizada de modos diferentes por cada criança.”

Acredito que a relação das crianças com as cantigas e brincadeiras-de-roda ocorra de maneira similar a exposta por Ferro quanto aos contos. Ao escolher uma cantiga no grupo de brincadeiras, a criança estaria fazendo-o de maneira condizente com a sua situação interna naquele momento, buscando uma comunicação com os seus conteúdos mais profundos, assim como uma maneira de elaborá-los.

Angela Bouth complementa esta ideia. Ela cita o exemplo de uma criança que necessite trabalhar internamente aspectos agressivos, podendo escolher “A carrocinha pegou”. Então ela irá fazer de tudo para convencer o grupo a aceitar a sua proposta, podendo inclusive ter ataques de raiva se fosse o caso de ela não ter o seu desejo atendido.

A brincadeira possibilita um distanciamento adequado por parte da criança em relação aos seus próprios conteúdos inconscientes, dando-lhe a oportunidade de ter algum domínio sobre eles. Isso suscita um processo de fortificação do ego.

Um depoimento de uma senhora de 48 anos citado por Bouth, contribui para ilustrar a dimensão do significado das cantigas e brincadeiras-de-roda na infância. Pelo menos na infância de uma boa parcela dos adultos de hoje.

“…Última filha de um casal conservador e religioso, sexualidade infantil era depoimento dos demónios. Logo, a possibilidade de brincar com os meninos era zero. Sobravam então as brincadeiras-de-roda. Aquele era o único momento em que eu me revelava anonimamente (…) as letras das músicas – cujo sentido secreto só eu sabia (assim eu pensava) (…) a afirmação da independência diante dos adultos, quando eu falava alto, sem interferência de ninguém (…) só assim foi possível sobreviver a tanta opressão.”

O aspecto da repetição é típico tanto em relação aos contos como em relação ao brincar e ao cantar de maneira geral. Ela é essencial para a concretização do processo de elaboração dos próprios conteúdos que estão em jogo.

“(…) a criança quer não só ouvir as mesmas histórias como também repetir as mesmas experiências e isto dá-lhe um grande prazer. Essa satisfação está relacionada com a busca da primeira experiência, que pode ser o primeiro terror ou a primeira alegria. Assim, a repetição não só é um caminho para tornar-se senhor das ‘terríveis experiências’ como também de saborear sempre com renovada intensidade os triunfos e vitórias.” (Benjamin)

A fantasia faz-se presente em todo o contexto das brincadeiras-de-roda, até pelos personagens que geralmente são representados pelos participantes – numa utilização de um recurso transferencial – assim como pelas imagens propiciadas pelas letras e climas musicais. Mário de Andrade (1980) afirma que a voz cantada atinge necessariamente a nossa psique pelo dinamismo que nos desperta no corpo. Numa perspetiva musicoterapêutica, penso que, com a associação dos conteúdos poéticos à experiência de auto-expressão musical e corporal, ambos os processos ocorrem simultaneamente, influenciando-se e intensificando-se um ao outro.

Cantos e contos

Capuchinho Vermelho

QUEM CANTA, OS MALES ESPANTA

A música está presente na vida de todos

de Rehab Wellness Center, Brasil, com pequenas adaptações para Português de Portugal.

Não importa o ritmo, se é rápida, lenta, nova ou antiga, a música está cada vez mais presente na vida de todos, desde a hora em que acorda, com a música do despertador, quando liga a televisão, quando entra no carro, até quando vai dormir. Mas sabia que a música também pode ser usada como meio de tratamento?

A musicoterapia nasceu dentro dos hospitais após a 2ª Guerra Mundial, para tratar dos combatentes o lado emocional, muito abalado pelas experiências vividas nas batalhas. Distinta da musicalização, em que é desenvolvida uma habilidade musical, a musicoterapia tem um objetivo terapêutico, e este é obtido por meio da música. No Brasil e na América Latina, a prática chegou nos anos 60, mas só mais recentemente tem conquistado o reconhecimento da área médica, apesar de muitos dos seus benefícios já terem sido comprovados cientificamente.

“A ideia é a recuperar funções básicas, como o caminhar, a capacidade de o paciente pegar e segurar um objeto de forma ordenada e harmoniosa, além de estimular suas funções motoras, integrá-lo na sociedade”, explica a musicoterapeuta Ana Carolina Stinkopf.

Os pacientes, uma vez por semana, durante 40 minutos, são estimulados a manter contacto com a terapeuta por meio da música. “Nossa, mudou tudo em mim”, afirma a paciente Junira Klein. Ela diz que graças às aulas ela voltou a ter voz na família, impor-se, “além de ter uma atividade para fazer e poder contar a todos”, complementa.

Além disso, a função cognitiva da música também pode contribuir para o tratamento de incapacidades neurológicas, como a esclerose múltipla, o autismo e o Alzheimer. Um exemplo consiste em estudo realizado em 2010 pela Universidade de Boston, nos Estados Unidos, que demonstrou que pacientes com doença de Alzheimer conseguiam memorizar as mensagens quando elas eram transmitidas cantadas. Nessa pesquisa, um grupo de controle e outro de pacientes com a doença foram submetidos a um teste: quarenta mensagens foram repassadas, sendo a metade acompanhada da música cantada e o restante somente com a gravação falada. O resultado apontou que as palavras cantadas foram mais familiares para o grupo com doença de Alzheimer do que para o de controle.

De acordo com a psicóloga Rafaela Borges, o idoso precisa de estimulação, e a música vem como um suporte no tratamento.

“Eles não encaram como um tratamento de saúde, mas como uma diversão, um lazer, fazendo com que a atividade tenha muito mais ganhos”, diz.

A musicoterapia tem ajudado também muitas crianças com síndrome de Down. Exercícios para fortalecimento da musculatura bucal trabalhados na fonoaudiologia, por exemplo, ganham reforço na terapia com música, que muitas vezes desperta mais pelo seu aspeto lúdico.

O ReHaB Wellness Center tem uma profissional qualificada para realizar o tratamento em todas as idades. Musicoterapia é a utilização da música no tratamento, reabilitação, educação e estimulação, de crianças, adultos e idosos, que apresentam algum distúrbio físico, mental ou emocional.

De acordo com a Federação Mundial de Musicoterapia, musicoterapia é a utilização da música, por um musicoterapeuta qualificado, para facilitar e promover a comunicação, relacionamento, aprendizagem, expressão e organização e outros objetivos terapêuticos relevantes.

CORO TERAPÊUTICO

Com uma proposta inovadora e exclusiva o Coro Terapêutico consiste num grupo conduzido por um musicoterapeuta, em que a voz é utilizada como recurso para a comunicação, expressão, satisfação e interação social. Os participantes, através do cantar, ressocializam, melhorando a autoestima, a fala, a timidez, respeito, autorrealização, expressão, entre outros benefícios. (…)

REHAB WELLNESS CENTER – RWC
Endereço: SHLS Quadra 213, Conjunto D, Lote 36, Asa Sul
Brasília/DF

Bird College of Dance

Bird College of Dance

Cantigas de roda e musicoterapia

CANTIGAS DE RODA NA MUSICOTERAPIA

por Benita Michahelles

Excerto da monografia apresentada por Benita Michahelles ao Curso de Musicoterapia do Conservatório Brasileiro de Música sob a orientação de Marly Chagas.

Pode parecer curioso para alguns falar-se em “brincadeiras de roda” nos dias de hoje. Em tempos, em que estas manifestações da cultura popular espontânea estão com o seu espaço tão reduzido. Nas ruas, nas praças, nos quintais está mais raro ver ou ouvir-se das bocas infantis aquelas canções que, na simplicidade das suas melodias, ritmos e palavras, guardam séculos de sabedoria e a riqueza condensada do imaginário popular.

Porém, sem estarem em alta, também não estão extintas. E configurando uma situação contrastante e quase contraditória – é certo que muitas vezes tendo partes omitidas ou formas esquecidas e transformadas, elas sobrevivem à era do computador. Talvez como um reflexo da busca do contacto com a expressão genuína e ancestral que é, em última instância, insubstituível.

O facto é, que toda esta conjuntura não altera em nada o teor valoroso intrínseco às cantigas e brincadeiras de roda. Elas continuam contendo símbolos fecundadores de toda a vida subjetiva, e continuam a funcionar como pretextos maravilhosos para a criança experimentar o seu corpo, a linguagem, e para descobrir-se a si própria ao mesmo tempo que se revela ao outro e se insere no convívio social.

Na sua obra, Carl Jung já chamava atenção para a enorme importância das manifestações do folclore tradicional, apontando para a ‘perda irreparável’ que sofrem aqueles que descartam ou desprezam as suas imagens.

Observando um grupo de crianças brincando espontaneamente com estas canções, ou, mergulhando no tempo e recordando as brincadeiras de roda vivenciadas na nossa própria infância, percebemos que algo precioso se processa. Trata-se de um movimento de entrega, de alegria e de intensidade vital.

Do ponto de vista pedagógico, estes jogos infantis são considerados completos: brincando de roda a criança exercita naturalmente o seu corpo, desenvolve o raciocínio e a memória, estimula o gosto pelo cantoPoesia, música e dança unem-se numa síntese de elementos imprescindíveis à educação global. Vale a pena lembrar que a atividade lúdica constitui o aspeto mais autêntico do comportamento da criança.

Ao brincar, a criança está a corresponder a necessidades vitais suas, dando vazão a impulsos que lhe permitem desenvolver-se como ser pleno e afirmar a sua existência singular. É um movimento que faz parte dos seus esforços de compreender o mundo, e que a torna capaz de lidar com problemas até complexos e que muitas vezes tem dificuldade de compreender.

É inegável que as cantigas e brincadeiras de roda ocupam um lugar especial no contexto das canções e elementos que figuram em Musicoterapia. A começar pelas vivências no próprio “Curso de Musicoterapia”. Não foi apenas uma vez em que eu vivi, ou ouvi relatos com cenas similares a que agora se segue. Aula da cadeira de “Improvisação corpo e som” do Curso de Musicoterapia – a turma é composta por um grupo de estudantes adultos, com faixas etárias variadas e procedências diversas. Iniciam-se experiências com a voz e com os instrumentos. De repente, no meio a sons, trechos de ritmos e melodias, surge o tema de uma cantiga de roda, trazida por um aluno. Outra voz junta-se a ele, e mais uma, e outra… Aos poucos estas pessoas juntam-se, dão-se as mãos e formam uma roda. Inicia-se a brincadeira. No final da canção, a roda não pára de girar e outras canções se sucedem num movimento ininterrupto.

Trabalhando na Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR), com grupos de adultos e idosos apresentando comprometimento motor, mais de uma vez vivi, como musicoterapeuta, ou observei, como estagiária, a seguinte cena: o musicoterapeuta sugere que cada um lembre de uma canção a ser compartilhada pelo grupo. Surgem canções de seresta, de carnaval, e… cantigas de roda. Juntamente com elas, lembranças, imagens e emoções de uma outra época e que, naquele momento, se tornam de alguma forma presentes de novo.

Outro episódio que vivi, também enquanto musicoterapeuta na ABBR. “Uma criança apresentando uma deficiência na marcha. É por isso vista como diferente, ficando diversas vezes isolada das atividades em grupo do cotidiano. Na sessão de Musicoterapia, juntamente comigo e com mais duas outras crianças, forma-se uma roda e todos cantam e dançam. Cada um à sua maneira, mas todos são, naquele momento, parte igualmente importante do conjunto. Movidos unicamente pelo prazer e pela alegria de brincar.

Estes relatos, são apenas alguns entre tantos outros que eu poderia citar. Não se trata de situações estranhas aos musicoterapeutas. São inúmeras as vezes em que verificamos a presença das cantigas e brincadeiras de roda na Musicoterapia. Tanto indiretamente através de relatos, como testemunhando a sua concretização sonora e corporal.

No interior dos settings de Musicoterapia, as maneiras como se desenvolvem estas pérolas da cultura popular são múltiplas e das mais variadas. A despeito de serem estas cantigas e brincadeiras pertencentes, por definição, ao universo lúdico-musical infantil, elas são também, com frequência, espontaneamente trazidas por adolescentes, adultos e idosos. Também são utilizadas como recurso interventivo pelos musicoterapeutas a partir de outros conteúdos apresentados pelos pacientes, de modo a irem ao encontro de determinados objetivos estabelecidos durante o processo musicoterapêutico.

Cantigas de roda e musicoterapia

Dança de roda

Jovem DJ com síndrome de Down

MÚSICA E DISCAPACIDADE

Diferentes capacidades para a música

de www.musicaantigua.com

A música é fruível por todos, qualquer que seja a sua aptidão ou competência artística.

A música esconde numerosas propriedades terapêuticas e pedagógicas que se tornam muito benéficas para as pessoas com alguma discapacidade física ou, sobretudo, intelectual. Ajuda a retirar de cada um o que ele tem de melhor…

Ouvir música é um prazer e, em determinadas situações, um espetáculo. Esta finalidade lúdica não pode esconder, todavia, as múltiplas propriedades desta arte em muitos outros campos.

Assim, grande número de instituições de saúde corroboraram que a música tem efeitos terapêuticos de primeira ordem, o que contribuiu para consolidar a musicoterapia entre outras técnicas.

Do mesmo modo que as melodias ativam distintas estruturas do cérebro que produzem uma sensação profundamente prazerosa, estas mesmas vibrações atuam com um estímulo nos sistemas nervosos das pessoas intelectualmente discapacitadas.

Dado que em muitos destes casos há sérios problemas de comunicação e expressão, a música torna-se um recurso que favorece o desenvolvimento emocional e sensorial.

Recordemos que as vibrações podem ser percecionadas, inclusive, por surdomudos.

Em qualquer caso, a musicoterapia não se circunscreve apenas às suas possibilidades para estimular intelectualmente pessoas discapacitadas.

São cada vez mais as escolas que incorporam estas técnicas para promover um desenvolvimento integral da pessoa desde a mais tenra idade.

Fatores como o controlo da ansiedade ou a aquisição de uma maior sensibilidade são tidos em conta por muitos pedagogos.

Ouvir e interpretar música com discapacidade

E se a musicoterapia é a expressão teórica da música terapêutica, a interpretação põe a nota na prática.

O contacto com um instrumento musical ajuda a potenciar as capacidades motoras e as reações corporais das crianças, especialmente na percussão.

Aspetos como o seguimento de um ritmo ou a coordenação na interpretação entre vários alunos treinam habilidades muito úteis em outros âmbitos do ensino e da vida.

A incorproração da audição e da interpretação musicais em planos de estudo gerais e em programas de atenção à diverdidade particulares é uma tendência verificável em Espanha. (…)

[ www.musicaantigua.com ]

Jovem DJ com síndrome de Down

Jovem DJ com síndrome de Down

Criança com autismo

O Potencial Reeducativo e Terapêutico da Música

Patrícia Fernandes

A Musicoterapia poderá transportar benefícios a todos aqueles a quem se dispõe. Como prodígio estético a actividade musical é uma experiência individual e colectiva que mistura na sua realização corpo, mente e espírito. Deste ponto de vista, valoriza-se o indivíduo que cria, a sua atitude criativa enquanto possibilidade de mudança e vista como um comportamento que provoca transformações.

“Uma atitude criativa representa uma resposta adequada a uma situação nova, ou uma resposta mais adequada e mais construtiva a uma situação antiga, devendo o indivíduo criador ser capaz de modificar seu comportamento em resposta a novas informações, a fim de progredir por si mesmo num estilo único de aprendizagem, estimulando a mudança e proporcionando oportunidades para transferir e aplicar o conhecimento às situações de realidade”.

Costa & Vianna, 1982

Cumpre ressaltar o carácter terapêutico da Música que se divide nas seguintes dimensões:

  1. Físicas (através do relaxamento muscular alivia a ansiedade, a depressão e facilita a participação em actividades físicas);
  2. Mentais e Psicológicas (reforça a identidade, o auto-conceito, promove a expressão verbal e favorece a fantasia);
  3. Sociais (promove a participação em grupo, o entretenimento e a discussão);
  4. Espirituais (facilita a expressão e o conforto espiritual, a expressão de dúvidas, raiva e de medo).

Abordamos o carácter terapêutico da Música no geral, uma vez que circunscreve dimensões físicas, mentais, psicológicas, sociais e espirituais, e a Musicoterapia em específico que compreende as interacções entre o paciente,
a música e o musicoterapeuta. Referimo-nos ao seu papel, estimular o bem-estar de forma activa e adaptada às circunstâncias de cada um e, aos objectivos da Musicoterapia, estimulando o desenvolvimento motor e cognitivo, o pensamento e a reflexão e, as habilidades comunicativas, de interacção e sociabilidade.

A Musicoterapia apresenta como objectivos fundamentais a estimulação:

  1. Física e Psicológica,
  2. Consciência Perceptiva,
  3. Expressão Emocional,
  4. Capacidade Comunicativa e Cognitiva,
  5. Comportamento Social e as Capacidades Individuais.

Contrariamente, a música em si mesmo não é terapêutica.

  1. A Música é usada como um reforço, uma forma de implementar, modificar ou extinguir comportamentos = modelar comportamento.
  2. A Música como improvisação criativa para alcançar respostas musicais que desenvolvam potencialidades expressivas e comunicativas que nos são inatas.
  3. Pode usar-se apenas um som, apenas um ritmo, escolher uma música conhecida e até mesmo fazer com que o indivíduo crie a sua própria música.

Os que fazem com que a Música ostente o carácter terapêutico são os musicoterapêuticos com a utilização profissional e sistemática das diversas oportunidades e experiências que a Música oferece.

O musicoterapeuta conhece profundamente a estrutura do material com que trabalha, adequando-o às características e necessidades patológicos dos pacientes a quem é dirigido o seu trabalho.

Patrícia Fernandes

Sons e Silêncios. Musicoterapia no tratamento de indivíduos com perturbações do espectro do autismo, de Patrícia Raquel Silva Fernandes. II Ciclo em Ciências da Educação, Educação Especial. Braga, Universidade Católica Portuguesa – Centro Regional de Braga – Faculdade de Ciências Sociais, 2012.

Leia AQUI toda a dissertação, se o desejar.

Criança com autismo
Criança com autismo
Recompensa e prazer

Música – recompensa, motivação e prazer

A aceleração da síntese de dopamina dependente de cálcio deve ser o mecanismo pelo qual a música modifica os valores de pressão arterial e age sobre outras funções encefálicas.

Mara Cláudia Ribeiro

A musicoterapia influencia o mecanismo de recompensa, motivação e prazer.

Os sentimentos subjetivos ligados a tais mecanismos são mediados pelo sistema mesolímbico, o qual compreende a área tegumentar ventral, no corpo estriado ventral, incluindo o núcleo accumbens, no globo pálido ventral, e também em áreas do córtex pré-frontal que inclui o córtex cingulado anterior e o córtex orbito frontal.

A sensação prazerosa ligada à recompensa implica na secreção de dopamina e opióides endógenos nas estruturas do tronco encefálico. A música é capaz de influenciar o sistema de recompensa, motivação e prazer, em estudos que realizaram mapeamento cerebral com técnicas de imagem, foi verificada ação substancial na região mesolimbica, no núcleo accumbens, no tronco encefálico, assim como no tálamo, cerebelo, insula, córtex cingulado anterior e córtex orbito frontal. Muitas destas áreas são os locais onde tem origem os neurônios dopaminérgicos.

Estes achados sugerem que os sentimentos de recompensa, motivação e prazer desencadeados pela musicoterapia dependem de transmissão dopaminérgica, envolvendo o sistema mesolímbico. Valorie Salimpoor e outros (2011) realizaram um estudo no qual combinaram testes psicofisiológicos, neuroquímicos e hemodinâmicos a fim de investigar os efeitos de escutar músicas, consideradas prazerosas pelos participantes, em determinadas regiões cerebrais. Foi observada liberação de dopamina endógena no corpo estriado durante o pico de excitação emocional, enquanto os sujeitos escutavam música. Os resultados indicaram que houve uma sensação de intenso prazer relacionado com o ato de ouvir música, o qual culminou com a liberação de dopamina.

Em estudo realizado por D. E. Sutoo e  K. Akiyama (2004) verificou-se a eficácia da musicoterapia na diminuição da pressão artéria de ratos naturalmente hipertensos, observou que o efeito hipotensor da música se deve ao aumento dos níveis circulantes de cálcio periférico. Foi observado que este íon foi transportado por via hematogênica ao cérebro e potencializa a atividade da calmodulina, levando ao aumento da síntese de dopamina pela fosforilação da tirosina hidroxilase em regiões específicas, como o corpo estriado e o núcleo accumbens.

Portanto, a musicoterapia foi capaz de promover aumento na síntese de dopamina dependente de cálcio no cérebro. Em decorrência do aumento dos níveis de dopamina centrais, verificou-se redução da pressão arterial por meio ativação da via de receptores dopaminérgicos. Diante destes achados, os autores sugeriram que a aceleração da síntese de dopamina dependente de cálcio deve ser o mecanismo pelo qual a música modifica os valores de pressão arterial e age sobre outras funções encefálicas.

Recompensa e prazer

Dopamina

Mara Cláudia Ribeiro, Aplicabilidade da Musicoterapia nas complicações neurológicas decorrentes da hipóxia hisquêmica encefálica, induzida experimentalmente por nitrito de sódio, tese de doutorado, Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília, 2017.