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Sophia de Mello Breyner Andresen

Citações de Música na Poesia

MÚSICA NA POESIA

Citações musicais e poemas

[ Simónides 
(Séc. VI-V a.C.)

Inúmeras, as aves voavam
sobre a sua cabeça
e os peixes, em pé, saltavam das águas de anil do mar,
ao som do seu belo canto. ]

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[ Da epopeia dos Nibelungos 
(c. 1200)

Quando soam as cordas
do seu instrumento,
doces e suaves,
então dissolvem-se as dores de quem sofre. ]

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[ Al-Kutayyir 
(séc. XIII)

O que me dá prazer não é o vinho, não!
Nem tão pouco a música, nem sequer o canto.
Apenas os livros são o meu encanto
e a pena: a espada que tenho sempre à mão. ]

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[ Luís de Camões 
(n. Lisboa? 1524/1525; m. Lisboa 10 Junho 1580)

Nos salgueiros pendurei
os órgãos com que cantava.
Aquele instrumento ledo
deixei da vida passada,
dizendo: – Música amada,
deixo-te neste arvoredo,
à memória consagrada.
Frauta minha que, tangendo,
os montes fazíeis vir
p’ra onde estáveis correndo,
e as águas, que iam descendo,
tornavam logo a subir. ]

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[ Collecão de Sonetos
(1786)

À morte de José António Carlos Seixas, famoso cravista

Por perpétuo silencio a Parca dura
Do Luso Orféo à doce melodia,
Já se vê os assombros da harmonia
Clauzurados no horror da Sepultura.

Na destreza feliz, na ideia pura
Do impulso humano as forças excedia,
E invejando-lhe a morte a idolatria
Provar-lhe o culto em lágrimas porfia.

Se deve à Pátria o seu merecimento
Glória imortal em vida transitória
Seja igual à jactância hoje o lamento[,]

Porém[,] de tanta perda na memória,
Aonde irá parar o sentimento[,]
Se serve a pena a proporção da glória.

(Soneto presente na “Collecão de Sonetos, serios, que se não achão impressos, extrahidos dos ms. antigos e modernos [Lisboa?], 1786, p. 437. Lisboa: Biblioteca Nacional, Cod. 8610) ]

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[ Fernando Pessoa
(Lisboa, 13 de Junho de 1888 – Lisboa, 30 de Novembro de 1935)
Chuva Oblíqua (VI parte)

O maestro sacode a batuta,
A lânguida e triste a música rompe …

Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal
Atirando-lhe com, uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo …

Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo…

Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão verde tornando-se jockey amarelo…
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos…)

Atiro-a de encontra à minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo. e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal… E a música atira com bolas
À minha infância… E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos …

Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo…

E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há árvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde a comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância…

E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo… ]

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[ Fernando Pessoa
(Lisboa, 13 de Junho de 1888 – Lisboa, 30 de Novembro de 1935)
Chuva Oblíqua (IV parte)

Que pandeiretas o silêncio deste quarto!.
As paredes estão na Andaluzia.
Há danças sensuais no brilho fixo da luz.
De repente todo o espaço pára.
Pára, escorrega, desembrulha-se,
E num canto do tecto, muito mais longe do que ele está,
Abrem mãos brancas janelas secretas
E há ramos de violetas caindo
De haver uma noite de Primavera lá fora
Sobre o eu estar de olhos fechados. ]

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[ T. S. Eliot 
(n. St. Louis, 1888; m. London 1965)

Naquele canto decadente no meio das montanhas
Sob o pálido luar, a erva canta
Sobre as tumbas caídas, em volta da capela.
A capela está vazia, apenas refúgio do vento.
Não tem janelas e a porta bate,
Ossos secos não fazem mal a ninguém.
Sobre o telhado apenas um galo
Cocoricó, cocoricó,
Sob a luz do relâmpago. ]

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[ Alfredo Pedro Guisado 
(n. 1891; m. 1975)

Sinto-as tanger ainda os violinos velhos,
Onde os dedos saltando em cordas de oiro, à tarde,
Te cegaram de som. ]

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[ António Aleixo 
(n. Vila Real de Santo António 1899; m. 1949)

Tem a música o poder
de tornar o homem f’liz
nem há quem saiba dizer
tanto quanto ela nos diz. ]

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[ Florbela Espanca 
(n. Vila Viçosa 1894 – m. Matosinhos 1930)

Não se acende hoje a luz… Todo o luar
Fique lá fora. Bem aparecidas
As estrelas miudinhas, dando no ar
As voltas dum cordão de margaridas!

Entram falenas meio entontecidas…
Lusco-fusco… Um morcego, a palpitar,
Passa… torna a passar… torna a passar…
As coisas têm o ar de adormecidas…

Mansinho… Roça os dedos plo teclado,
No vago arfar que tudo alteia e doira,
Alma, Sacrário de Almas, meu Amado!

E, enquanto o piano a doce queixa exala,
Divina e triste, a grande sombra loira
Vem para mim da escuridão da sala… ]

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[ Florbela Espanca 
(n. Vila Viçosa 1894 – m. Matosinhos 1930)

Só Schumann, meu Amor! Serenidade…
Não assustes os sonhos… Ah! não varras
As quimeras… Amor, senão esbarras
Na minha vaga imaterialidade…

Liszt, agora, o brilhante; o piano arde…
Beijos alados… ecos de fanfarras…
Pétalas dos teus dedos feitos garras…
Como cai em pó de oiro o ar da tarde!

Eu olhava para ti… «É lindo! Ideal!»
Gemeram nossas vozes confundidas.
– Havia rosas cor-de-rosa aos molhos –

Falavas de Liszt e eu… da musical
Harmonia das pálpebras descidas,
Do ritmo dos teus cílios sobre os olhos… ]

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[ José Gomes Ferreira 
(n. Porto 1900, m. Lisboa 1985)

Sofres?
Respira.
Não há outra lira. ]

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[ Leopold Senghor 
(n. Joal, Dacar 1906; m. França 2001)

Quando fiz a primeira comunhão, aos dez anos, pensava que no céu a maior felicidade era cantar, dançando. ]

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[ Vinayak Krishna Gokak 
(n. Índia 1909; m. 1992)

Com que canção deverei cantar-te, minha mãe?
Perguntei.
Deverei cantar
Os Himalaias com os seus cumes nascidos da neve,
Os três mares que banham a palma da tua mão?
Deverei cantar
A aurora clara com os seus raios de ouro puro?
Disse a Mãe imperturbável, calma:
Canta o mendigo e o leproso
Que enchem as minhas ruas. ]

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[ Dorothy Livesay 
(n. Canadá 1909; m. 1996)

Tem de lançar-se alto e mais alto ainda
De galáxia em galáxia,
Arrancar às estrelas as suas notas momentâneas
Roubar música à lua. ]

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[ Elizabeth Bishop 
(n. EUA 1911; m. 1979)

O seu canto ecoava de uma ponta à outra
da escuridão sob uma árvore batida pelo vento
onde reluziam as asas de pequenos insectos.
O seu canto fendeu o céu em dois. ]

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[ Jorge de Sena 
(1971) (n. Lisboa 1919; m. Santa Bárbara, Califórnia 1978)

Vulgar, ligeira, música sem nome,
adoecida num rascante falso
de orquestração pedante e requebrada,
tão apelante para o sentimento
e a fácil lágrima pi-rí-pi-rí-
mas em momentos de abandono é como
lubrificante cuspo que, secreto,
faz deslizante n’alma até ao fundo
o membro imenso de aturar-se a vida.
Depois, mesmo sem música, já está,
e a fêmea humana de aceitar-se a dor
até que as pernas junta de prazer
lembrando a melodia oleante e fluida,
vulgar, ligeira, música sem nome. ]

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[ Sophia de Mello Breyner Andresen
(n. Porto 1919; m. Lisboa 2004)

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Musa ensina-me o canto
Venerável e antigo
O canto para todos
Por todos entendido

Musa ensina-me o canto
O justo irmão das coisas
Incendiador da noite
E na tarde secreto

Musa ensina-me o canto
Em que eu mesma regresso
Sem demora e sem pressa
Tornada planta ou pedra

Ou tornada parede
Da casa primitiva
Ou tornada o murmúrio
Do mar que a cercava

(Eu me lembro do chão
De madeira lavada
E do seu perfume
Que atravessava)

Musa ensina-me o canto
Onde o mar respira
Coberto de brilhos
Musa ensina-me o canto
Da janela quadrada
E do quarto branco

Que eu possa dizer como
A tarde ali tocava
Na mesa e na porta
No espelho e no corpo
E como os rodeava

Pois o tempo me corta
O tempo me divide
O tempo me atravessa
E me separa viva
Do chão e da parede
Da casa primitiva

Musa ensina-me o canto
Venerável e antigo
para prender o brilho
Dessa manhã polida
Que poisava na duna
Docemente os seus dedos
E caiava as paredes
Da casa limpa e branca

Musa ensina-me o canto
Que me corta a garganta

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O Piano sílaba por sílaba
Viaja através do silêncio
Transpõe um por um
Os múltiplos murais do silêncio
Entre luz e penumbra joga
E de terra em terra persegue
A nostalgia até ao seu último reduto

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[ Jorge de Sena 
(n. Lisboa 1919; m. Santa Bárbara, Califórnia 1978)

A música é, diz-se, o indizível
por ser de inexprimível sentimento
da consciência, ou um estado de alma,
ou uma amargura tão extrema e lúcida
que passa das palavras para ser
apenas o ritmo e os sons e os timbres
só pelos músicos cientes de harmonia
e de composição imaginados. Mas,
se assim fosse, eles só dos homens
saberiam mover-se nos espaços
que a humanidade abandonada encontra
nos desertos de si. Começariam
onde a expressão verbal não se articula
por impossível. Viveriam sempre
na fímbria estreita à beira da maldade
e do absurdo, como que suspensos
na solidão da morte sem palavras.
Não é, portanto, a música o limite
ilimitado dos limites da linguagem,
para dizer-se o que não é dizível.
Mas, se não é, que dizem lancinantes,
neste discreto passeio pelo tempo,
os quatro instrumentos semelhantes
no seu modo de criarem som?
Tão terrível. Sufocante. Doce
ou agridoce desconcerto harmónico.
Que diz? Que diz? Neste contínuo
de temas e andamentos, de tonalidades,
o que se justifica? Que discutem eles?
A sua mesma natureza de instrumentos
e as combinações até ao infinito
de um mecanismo abstracto do imaginar?
Como pode uma coisa que sentimos tão medonha,
tão visionariamente séria e pensativa,
ser irresponsável?
Será que nos diz do aquém, do abaixo,
do infra, do primário, do barbárico,
do animal sem alma e sem razão?
Será que todo este rigor tão belo
é como que a estrutura prévia
de que existimos ao pensar as coisas?
E não a quintessência depurada
de uma estrutura que se consentiu
todo o significar a que as palavras vieram
da analogia nominal e mágica
até à consciência dos universais?
Não há tristeza alguma nesta
vida transformada em puro som,
em homogénea outra realidade?
Não é de angústia este rasgar melódico
da consciência antes de criar-se humana?
De que, portanto, vem este triunfo
que se precipita, contraditório, nas arcadas
dos instrumentos conversando essências?
É simples convenção? É artifício?
Silêncio irresponsável?
Se há mistério na grandeza ignota,
e se há grandeza em se criar mistério,
esta música existe para perguntá-lo.
E porque se interroga e não a nós,
ela se justifica e justifica
o próprio interrogar com que se afirma
não quintessência ela, mas raiz profunda
daquilo que será provável ou possível
como consciência, quando houver palavras
ou quando puramente inúteis forem. ]

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[ Jorge de Sena 
(n. Lisboa 1919; m. Santa Bárbara, Califórnia 1978)

Ouço-te, ó música, subir aguda
à convergente solidão gelada.
Ouço-te, ó música, chegar desnuda
ao vácuo centro, aonde, sustentada
e da esférica treva rodeada,
tu resplandeces e cintilas muda
como o silente gesto, a mão espalmada
por sobre a solidão que amante exsuda
e lacrimosa corre pelo espaço
além de que só luz grita o pavor.
Ouço-te lá pousada, equidistante
desse clarão cuja doçura é de aço
como do frágil mas potente amor
que em teu ouvir-te queda esvoaçante.

Ó música da morte, ó vozes tantas
e tão agudas que o estertor se cala.
Ó música da carne amargurada
de tanto ter perdido que ora esquece.
Ó música da morte, ah quantas, quantas
mortes gritaram no que em ti não fala.
Ó música da mente espedaçada
de tanto ter sonhado o que entretece,
sem cor e sem sentido, no frevor
de sublimar-se nesse além que és tu.
Ó vida feita uma detida morte.
Ó morte feita um inocente amor.
Amor que as asas sobre o corpo nu
fechas tranquilas no possuir da sorte. ]

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[ Sophia de Mello Breyner Andresen
(n. Porto 1919; m. Lisboa 2004)

Na voz de oiro e de sombra da guitarra
Algo de mim a si próprio renuncia. ]

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[ Rosemary Dobson 
(n. Austrália 1920)

Estava feito. Enrolando as mangas
Pegou na flauta
E ao caminhar para o local da execução
Tocou uma nova melodia. ]

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[ José Saramago, Os Poemas Possíveis 1966
(n. 1922)

Venham leis e homens de balanças,
mandamentos d’aquém e d’além mundo.
Venham ordens, decretos e vinganças,
desça em nós o juízo até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade
a luz vermelha brilhe inquisidora,
risquem no chão os dentes da vaidade
e mandem que os lavemos à vassoura.

A quantas mãos existam peçam dedos
para sujar nas fichas dos arquivos.
Não respeitem mistérios nem segredos
que é natural os homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte,
relógios a marcar a hora exacta.
Não aceitem nem queiram outra arte
que a prosa de registo, o verso acta.

Mas quando nos julgarem bem seguros,
cercados de bastões e fortalezas,
hão-de ruir em estrondo os altos muros
e chegará o dia das surpresas. ]

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[ Eugénio de Andrade 
(n. Póvoa da Atalaia, Fundão 1923)

Canto porque sou homem.
se não cantasse seria
o mesmo bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinho. ]

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[ Ernesto Cardenal 
(n. 1925)

Junto aos rios de Babilónia
Estamos sentados e choramos
Ao lembrar-nos de Sião.
Ao olhar o arranha-céus de Babilónia
e as luzes reflectidas no rio
as luzes dos night-clubs e dos bares de Babilónia
e ao ouvir suas músicas
E choramos
Nos salgueiros da margem
Penduramos nossas cítaras
Dos salgueiros chorosos
E choramos. ]

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[ Gilberto Mendonça Teles 
(Brasil, n. 1931-)

Um dia descobriu que a mão esquerda
era mais emotiva e mais ausente:
dedilhava por dentro o que era perda
e sondava por fora o inexistente.

E descobriu que quanto mais isento
o acorde se tornava, e delicado,
tanto mais se ordenava o movimento
da música de fundo no teclado.

E viu-se de repente entretecido
no mais difícil, no desvão do espaço,
quando as notas colhiam seu sentido
nas formas invisíveis do compasso.

Sentiu-se solidário na partida
e chorou solitário na aventura,
como se em cada coisa a própria vida
se lhe escapasse numa partitura.

E foi aí que se sentiu restrito,
que se fez de silêncio e de resvalo:
a mão esquerda desdobrava o mito
e dedilhava as sombras do intervalo. ]

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[ Adelina Caravana Rigaud

Se perguntares à música
que tem para dizer,
imagens ou prodígios
a emoção mais real,
viverás bem no fundo
com o ser todo inteiro
o consolo, as respostas.
Viverás muitas vidas
ricas como tesouros.

E então, dentro de ti
Com alimento e cor
dirás um obrigado
mesmo que seja à dor. ]

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[ Georges Dor 
(n. Drummondville 1931; m. 2001)

Quando canto, torno-me canção,
quando escrevo torno-me poema,
quando vos digo: amo-vos,
torno-me o verbo amar
em todos os tempos. ]

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[ Manuel Alegre 
(n. Águeda, 1936)

De Deus não sei. Mas quase creio
que Deus poisou nas mãos cheias de terra
de um jovem camponês de Sotto il Monte.
Por isso mando à Praça de São Pedro
não uma prece
mas a minha canção fraterna e livre
esta canção
que vai pedir-te a humana bênção
João XXIII: avô do século. ]

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[ Joaquim Pessoa
(n. Barreiro, 1948)

Canta
Atreve-te a julgar
Julga os outros julgando-te a ti mesmo.
A natureza das coisas é a tua natureza.
Respira-te, despe-te,
faz amor com as tuas convicções,
não te limites a sorrir
quando não sabes mais o que dizer.
Os teus dentes
estão lavados, as tuas mãos são amáveis
mas falta-te
decisão nos passos e firmeza nos gestos.
Procura-te. Procura encontrar-te antes que
te agarre a voracidade do tempo.
Faz as coisas com paixão.
Uma paixão irrequieta que não te dê descanso
e te faça doer a respiração.
Aspira o ar, bebe-o com força, é teu,
nem um cêntimo pagarás por ele.
Quanto deves é à vida, o que deves é a ti mesmo.
Canta.
Canta a água e a montanha e o pescoço do rio,
e o beijo que deste e o beijo que darás, canta
o trabalho doce da abelha e a paciência
com que crescem as árvores,
canta cada momento que partilhas com amigos,
e cada amigo
como um astro que desponta
no firmamento breve do teu corpo.
E canta o amor. E canta tudo o que tiveres razão para cantar.
E o que não souberes e o que não entenderes, canta.
Não fujas da alegria.
A própria dor ajuda-te a medir
a felicidade. Carrega nos teus ombros os séculos passados
e os séculos vindouros,
muito do pó que sacodes já foi vida,
talvez beleza, orgulho, pedaços de prazer.
A estrela que contemplas talvez já não exista, quem sabe,
o que te ajudou a ser vida de quantas vidas precisou.
Canta!
Se sentires medo, canta.
Mas se em ti não couber a alegria, não pares de cantar.
Canta. Canta. Canta. Canta. Canta.
Constrói o teu amor, vive o teu amor,
ama o teu amor. De tudo o que as pessoas querem,
o que mais querem é o amor.
Sem ele, nada nunca foi igual, nada é igual,
nada será igual alguma vez.
Canta. Enquanto esperas, canta.
Canta quando não quiseres esperar.
Canta se não encontrares mais esperança.
E canta quando a esperança te encontrar.
Canta porque te apetece cantar e
porque gostas de cantar e
porque sentes que é preciso cantar.
E canta quando já não for preciso.
Canta porque és livre.
E canta se te falta a liberdade.

Guardar o Fogo, pp. 318-319.

 

Jorge de Sena, foto Fernando Lemos 1949

Jorge de Sena, foto Fernando Lemos 1949

Gregório de Nazianzo

Citações de Música nos Santos

MÚSICA NOS SANTOS DA IGREJA

O vosso presbitério, tão justamente reputado e tão digno de Deus, está ligado ao bispo como as cordas estão unidas à cítara. Assim, no acorde dos vossos sentimentos e na harmonia do vosso amor, vós cantais Jesus Cristo. Que cada um de vós se torne membro deste coro. Então, no uníssono das vozes nascerá o canto que agrada a Deus e de uma só boca, elevareis ao Pai, por Jesus Cristo, os vossos hinos. Ele vos escutará, e na beleza das vossas obras reconhecerá que fazeis parte do coro do seu Filho.

Santo Inácio de Antioquia (n. c. 50; m. c. 110)

Toda a nossa vida cristã é um dia de festa e por isso trabalhamos nos campos cantando hinos e entoamos cantos de louvor enquanto navegamos.

São Clemente de Alexandria (séc. II-III)

Tens o canto do salmo, tens a profecia, os preceitos do evangelho, as pregações dos apóstolos. A língua cante e a mente trate de conhecer o sentido das palavras cantadas, para cantares com o espírito e também com a tua mente.

São Basílio de Cesareia (n. Cesareia c. 329; m. 379)

Tu estás para lá de tudo.
Que outra coisa sobre Ti poderá dizer o canto?
De que servem palavras diante de Ti
se palavra alguma Te narra?

São Gregório de Nazianzo (séc. IV)

Alguns consideram que seduzi o povo com o encanto melódico dos meus hinos. Obviamente, não me vou defender. Há neles, sem dúvida, um encanto poderoso. Há algo mais poderoso do que a confissão da Trindade renovada, cada dia, pela confissão de todo o povo?

Santo Ambrósio de Milão (n. Trèves c. 335; m. 397)

Não podeis objectar nem a pobreza, nem a falta de tempo, nem a lentidão do vosso espírito. Sois pobres, e por isso não podeis fruir dos livros; ou então tendes livros, mas não tendes tempo para ler. A satisfação de meditar os versos dos salmos que aqui cantastes não uma, nem duas, nem três vezes, mas em muitas circunstâncias vos dará abundante matéria de consolação.

São João Crisóstomo (n. Antioquia 344; m. 407)

A Deus não há que cantar com a voz, mas com o coração, nem é necessário tratar a garganta com doces remédios, como fazem os actores de teatro, para depois fazer ouvir no templo modulações próprias de um teatro; é antes necessário cantar a Deus com o temor, com as boas obras e com o conhecimento das escrituras. Mesmo que alguém seja desafinado, desde que tenha boas obras, para Deus é bom cantor.

São Jerónimo (n. Estridon c. 347; m. 420?)

Cantar bem a Deus é cantar com júbilo. O que quer dizer cantar: cantar com júbilo? Entender, não poder explicar com palavras o que se canta no coração. Pois aqueles que cantan na colheita, na vinha, em algum trabalho pesado, começando a exultar de alegria por meio das palavras dos cânticos e estando repletos de tanta alegria que não podem exprimi-la, deixam as sílabas das palavras e emitem sons jubilosos. O júbilo é som significativo de que o coração está concebendo o indizível. E diante de quem é conveniente tal júbilo senão diante do Deus inefável? Inefável aquilo de quem é impossível falar. E se não podes falar e não deves calar, o que resta senão jubilar? O coração rejubila sem palavras e a imensidão da alegria não se limita a sílabas.

Santo Agostinho de Hipona (n. Tagaste 354; m. 430)

O som é produzido por tubos no órgão, por cordas na cítara. Esta dupla imagem evoca, por um lado, as boas obras e, por outro, a pregação sagrada. Comparar a boca dos pregadores a tubos de órgão, e o desejo de bem viver a cordas da cítara, é paralelismo que aceitamos com naturalidade. Este desejo de bem viver, por exemplo, sempre em tensão para a outra vida graças à ascese do corpo é como uma corda bem esticada: soa afinado e provoca admiração nos que a ouvem.

São Gregório Magno (n. Roma c. 540; m. 604)

Há um cântico que, pela sua singular dignidade e doçura, merecidamente supera todos os cânticos… E chamar-lhe-ei, com todo o direito, o Cântico dos Cânticos, porque ele é o fruto de todos os outros. Tal cântico, só a unção do Espírito no-lo ensina, só a experiência no-lo mostra. Que o reconheçam aqueles que o experimentaram; os que não têm esta experiência, que ardam de desejo, não tanto de conhecer mas, sobretudo, de o experimentar. Não é um murmúrio saído da boca mas júbilo do coração, nem um som produzido pelos lábios mas um movimento de alegria, um recital das vontades e não das vozes. Não se ouve exteriormente, porque não ressoa em público. Só o escutam aquela que o canta e aquele a quem é cantado, isto é, o Esposo e a Esposa. É um verdadeiro cântico nupcial, que exprime os castos e alegres abraços das almas, a harmonia dos costumes, o amor recíproco no acorde dos sentimentos.

São Bernardo de Claraval (n. 1091; m. 1153)

Quando o Diabo enganador soube que o homem, sob a inspiração de Deus, começara a cantar e, desse modo, lembrava a doçura dos cânticos da pátria celeste, vendo que as maquinações da sua manha tinham ficado reduzidas a nada, ficou apavorado e atormentado. E começou a reflectir e a procurar entre os múltiplos recursos da sua maldade, o modo de multiplicar más sugestões e pensamentos imundos ou distracções diversas, não só no coração do homem mas no próprio coração da Igreja, onde fosse possível para, através de contendas e escândalos ou ordens injustas perturbar ou impedir a celebração e a beleza do louvor divino e dos hinos espirituais.

Santa Hildegarda de Bingen (n. 1098; m. 1179)

Dias antes da sua morte, São Francisco estava enfermo em Assis, na casa episcopal, com alguns dos seus companheiros; e apesar de todas as suas enfermidades, cantava muitas vezes louvores a Cristo. Um dos companheiros disse-lhe: Pai, sabes que esta população te considera um santo homem e, por isso podem pensar que, se és realmente o que eles julgam, deverias, na tua doença, pensar na morte e chorar em vez de cantar, uma vez que tens doença grave; concordarás que o teu canto e o que nos fazes cantar são ouvidos por muitas pessoas, dentro e fora do palácio.

Considerações sobre os estigmas de São Francisco de Assis (1182; m. 1226)

Se cantamos apenas pelo prazer de cantar, a alma distrai-se e não dá atenção às palavras. Se, pelo contrário, cantamos por devoção, meditamos com mais atenção no que dizemos.

São Tomás de Aquino (n. 1228; m. 1274)

Mais do que os instrumentos, deve ouvir-se nos templos a voz humana.

São Pio X (n. Riese 1835; m. Roma 1914)

Gregório de Nazianzo

são Gregório de Nazianzo

Citações de Música na Igreja

CITAÇÕES ECLESIÁSTICAS

MÚSICA EM ECLESIÁTICOS

Há, sem dúvida, numerosas sementes das mais raras virtudes nos corações acessíveis à música; pelo contrário, os que repelem a música parecem-me ter apenas calhaus e pedras. Sabemos que a música é odiada pelos diabos, que a não podem suportar e, segundo a Teologia, não há outra arte que se lhe possa igualar. E tanto assim é, que a música pode, como a Teologia, sossegar o ânimo e alegrá-lo. Por isso, o diabo, causador de tristes cuidados e pensamentos inquietos, foge tanto da música como das palavras da Teologia.

Martinho Lutero (n. Eisleben 1483; m. Eisleben 1546)

A música não deve ser composta em ordem a um mero deleite dos ouvintes, mas de tal maneira que as palavras possam ser compreendidas por todos, a fim de que os corações dos ouvintes sejam arrebatados pelo desejo das harmonias celestes e pela contemplação das alegrias dos bem-aventurados.

Concílio de Trento (1545-1563)

Se é verdade que a música das representações cénicas, como nos foi relatado, deleita os espectadores com os seus artifícios, modulações harmónicas, com o ritmo e a suavidade das vozes, de tal maneira que se não perceba o texto por longo espaço de tempo, nesse caso, a música litúrgica tem objectivos bem diferentes, pois que a sua primeira preocupação deve ser a perfeita e integral compreensão das palavras.

Bento XIV (1778)

Nenhum instrumento, por mais exímio que seja, pode superar a voz humana ao expimir os sentimentos da alma.

Pio XI (n. Desio 1857; m. Roma 1939)

O artista que tem uma fé profunda e leva uma vida digna de um cristão, impelido pelo amor de Deus e usando religiosamente os dons concedidos pelo Criador, procurará com todo o empenho exprimir e propor as verdades em que crê e a piedade que cultiva.

Pio XII (n. Roma 1876; m. Roma 1958; Papa 1939-1958)

A voz doce e penetrante do órgão simboliza bem o sopro vivificante do Espírito do Senhor que enche o mundo.

João XXIII (n. Sotto il Monte 1881; m. Roma 1963; Papa 1958-1963)

A tradição musical da Igreja é um tesouro de inestimável valor, que excede todas as outras expressões de arte.

Constituição Sacrosanctum Concilium (1963)

Canta-se? Então vai-se à igreja. Vai-se à igreja? Então existe religião. Há religião? Então crê-se. Crê-se? Então salva-se. Eis uma cadeia que é paradoxal e, todavia, tem a sua importância. Se se canta, conserva-se a vida religiosa numa comunidade.

Paulo VI (n. Concesio 1897; m. Roma 1978)

Melhor será omitir totalmente a música instrumental (quer de órgão, quer de outros instrumentos) do que tocar mal; e, em geral, melhor será fazer bem uma coisa ainda que limitada, do que projectar coisas maiores, se faltam os meios aptos para as realizar.

Instrução De Musica Sacra et Sacra Liturgia (1958)

A oração adopta uma expressão mais penetrante; o mistério da sagrada liturgia e o seu carácter hierárquico e comunitário manifestam-se mais claramente; mediante a união das vozes chega-se a uma mais profunda união de corações; da beleza do sagrado o espírito eleva-se mais facilmente ao invisível; enfim, toda a celebração prefigura com mais clareza a liturgia santa da nova Jerusalém.

Instrução Musicam Sacram (1967)

O canto não constitui na liturgia um luxo, um elemento meramente decorativo. É um elemento primordial inerente ao carácter de festa.

Comissão Episcopal de Liturgia de Portugal (1967)

O órgão é uma imagem do homem, a duplo título: com efeito, nesta maravilha da arte admiravelmente concorrem o sopro e a mão; a mão que modelou o homem e joga no teclado; o sopro que animou o homem e canta nos tubos.

D. Júlio Tavares Rebimbas (n. Murtosa 1922)

Graças à palavra, a música pode nomear o Deus de Jesus Cristo; pela música, a voz humana tenta dizer o inefável.

Universa Laus (1980)

A introdução das línguas vulgares na liturgia romana exige uma valorização das tradições hinológicas locais. A nova sensibilidade cultural e, antes ainda, uma óptica eclesial autenticamente católica pedem que se abram o coração e a mente às realidades musicais das culturas extraeuropeias.

João Paulo II (Papa 1978-m. 2004)

A madeira e o metal tornam-se som, o inconsciente e o indefinido torna-se sonoridade ordenada plena de significado. Alternam-se uma corporização que é espiritualização e uma espirirualização que é corporização.

Joseph Ratzinger, papa Bento XVI (n. Marktl an Inn, Alemanha 1927)

Em todas as culturas existem manifestações artísticas que foram assumidas pelas respectivas celebrações cultuais. A liturgia cristã, porém, apesar de envolver toda a realidade humana e cósmica, só utiliza os eleemntos mais nobres e marcados por características determinadas, conforme o seu significado cultural, religioso e simbólico.

D. Jorge Ortiga (2001)

 

Busto de Camilo Castelo Branco

Citações de Música na Literatura

CITAÇÕES MUSICAIS

Música na Literatura

[ Friedrich von Schiller 
(n. Narbach 1759; m. Weimar 1805)

A ópera, graças ao poder da música, afina o sentimento e torna-o apto a bem receber impressões de beleza; aqui o próprio patético se sente à vontade para se exprimir, porque a música o ajuda e o maravilhoso, tão difícil de traduzir no palco, encontra finalmente a forma teatral que lhe convém.

III

[ Camilo Castelo Branco 
(n. Lisboa, 16 Março 1825; m. 1 Junho 1890)

Verei se consigo afinar a minha alma por umas toadas que rumorejam de entre as selvas. Dá Deus estas harpas místicas aos arvoredos em benefício dos ânimos conturbados, que se acolhem fugitivos a ermos onde eles cuidam que o Céu os há-de ouvir. Acalentava a música o exasperado Saúl. Bons tempos! A música de agora é irritante. Há pouco entrei no templo: o sacerdote consagrava a hóstia, e o órgão entoava a Traviatta. Santo Deus! Quem quiser música de adormecer dores e levantar a alma à sua origem, há-de pedi-la à vibração e à folhagem das florestas. ]

III

[ José de Almada Negreiros 
(n. 1893; m. 1970)

Uma flauta triste vinha de viagem pelo caminho; chorava de seguida imensas canções de choros e tinha acompanhamentos funéreos de guisalhadas surdas. Calou-se a flauta, um cipreste distante gemia baixinho as dores da tatuagem que lhe iam abrindo no peito. O pastor lembrava ali o nome do seu Bem.

III

[ Margriet de Moor 
(n. Noordwijk 1941)

Dizem que a criação é demasiado grande para os homens, demasiado grande e damasiado confusa, e que, precisamente por este motivo, se inventou a linguagem. Língua, palavras, e no final das palavras a música. Criação de Deus dissolvida numa poção inventada pelo homem. ]

III

[ Mário Cláudio 
(n. Porto 1941)

Dança a nossa população, com os seus trajes multicolores, nas pouquíssimas horas livres, que sobram das fadigas do labor agrário e dos esforços da faina piscatória. São desenhos muito puros, em que o corpo participa das cadências espontâneas, executadas por rapazes e por raparigas, exibindo a sua mocidade e galhardia, a sua graça e a sua beleza. E é como se este bailado reproduzisse a agitação que o vento provoca, nas searas, ou a languidez com que se espreguiçam as ondas, nos areais. ]

III

[ Robert Schneider 
(n. Bregenz 1961)

Elias tocava já há mais de meia hora e não se avistava um fim. Mas do caos imenso e escuro sorressaíam gradualmente vozes reconciliadoras. Às melodias, seguiam-se outras melodias, aromáticas e suaves, como as ervas balouçando ao sabor do ventinho da Primavera. ]

Busto de Camilo Castelo Branco

Busto de Camilo Castelo Branco

Sérgio Azevedo

Citações de Música

CITAÇÕES MUSICAIS

Música por Músicos

Wolfgang Amadeus Mozart 
(n. Salzburg 1756; m. Viena 1791)

Não consigo escrever poesia: não sou poeta. Não consigo dispor as palavras com tal arte que elas reflictam as sombras e a luz: não sou pintor… Mas consigo fazer tudo isso com a música…

Para mim, o órgão é o rei dos instrumentos.

III

Ludwig Von Beethoven 
(n. Bona 1770; m. Viena 1827)

Bem-aventurado o que, tendo aprendido a triunfar sobre todas as paixões, emprega a sua energia na realização de tarefas que a vida impõe sem se procupar com o resultado.

III

Franz Schubert 
(n. Viena 1797; m. Viena 1828)

Atormentado por uma santa angústia, aspiro a viver num mundo mais belo e desejo povoar esta terra sombria de um poderosíssimo sonho de amor. Senhor Deus, oferece enfim ao teu filho, esta criança feliz, como sinal redentor um raio de luz.

III

Felix Mendelssohn-Bartholdy 
(n. Hamburgo 1809; m. Leipzig 1947)

Nada pode impedir-me de apreciar e desenvolver tudo o que os grandes mestres deixaram atrás de si, porque não faria sentido para cada um recomeçar do princípio; mas é preciso que seja um desenvolvimento ao melhor nível das minhas capacidades e não uma repetição inútil do que já foi.

III

Fryderyk Chopin 
(n. Zelazowa Wola 1810; m. Paris 1849)

Ela traz-me sempre a Bíblia, fala-me da alma e marca-me os salmos a ler. É religiosa e boa, mas excessivamente preocupada com a minha alma. Passa o tempo a dizer-me que o outro mundo é melhor do que este, e tudo isso eu sei de cor. Respondo-lhe com citações da Sagrada Escritura e declaro-lhe que tudo isso me é conhecido.

III

Franz Liszt 
(n. Raiding 1811; m. Bayreuth 1886)

As artes são o mais seguro meio de se esconder do mundo e são também o meio mais seguro de se unir a ele.

III

Claude Débussy 
(n. Saint Germain-en-Laye, 1862; m. Paris 1918)

Houve e há, apesar das desordens que a civilização traz, pequenos povos encantadores que aprendem música tão naturalmente como se aprende a respirar. O seu conservatório é o ritmo eterno do mar, o vento nas folhas e mil pequenos ruídos que escutaram com atenção, sem jamais terem lido despóticos tratados.

III

Erik Satie 
(n. Honfleur, 1866; m. Paris 1925)

Resolvemos, de acordo com a nossa consciência e confiando na misericórdia de Deus, edificar na metrópole desta nação franca que, durante tantos séculos, ostentou o título de Filha Dilecta da Igreja, um Templo digno do Salvador, director e redentor dos povos; faremos dele o refúgio onde a catolicidade e as Artes, que lhe estão indissociavelmente ligadas, crescerão e prosperarão resguardadas de toda a profanação e na completa expansão da sua pureza que os esforços do Maligno não conseguiriam manchar.

III

Ferruccio Benvenuto Busoni 
(n. Empoli 1866; m. Berlim 1924)

A música nasceu livre, o seu destino é libertar-se.

III

Aleksandr Nikolaïevitch Scriabine 
(n. Moscovo 1872; m. Moscovo 1915)

O mundo é uma sumptuosa sinfonia
de mil vozes diversas.
As verdades terrestres,
consonantes com as verdades dos céus
soam em acordes cerrados e vibrantes
sobre as cordas dos milagres destruídos

III

Heitor Villa-Lobos 
(n. Rio de Janeiro 1887; Rio de Janeiro 1959)

Considero minhas obras como cartas que escrevi à posteridade, sem esperar resposta.

III

Cláudio Carneyro 
(n. Porto 1895; m. 1963)

O ritmo e a musicalidade de um poema, senão mesmo a vibração etérea da Ideia poética, irradiam da mesma Esfera que a poesia dos sons, a harmónica substância, o Verbo musical.

III

Olivier Messiaen
(n. Avignon, 1908; m. Clichy 1992)

Na hierarquia artística, os pássaros são os grandes músicos do planeta.

A Natureza, tesouro inesgotável  das cores e dos sons, das formas e dos ritmos, modelo inigualável de desenvolvimento total e de variação perpétua, a Natureza é a fonte suprema!

III

Vitaly Margulis 
(n. Charkov, Ucrânia 1928)

A surdez de Beethoven não era uma deficiência. Foi uma dádiva dos Céus. Incapaz de escutar as vozes exteriores, estava em condições de ouvir dentro de si próprio a voz de Deus.

José Afonso 
(n. Aveiro, 1929; m. Setúbal 1987)

Tive contactos com padres moçambicanos cuja dependência das autoridades e da própria PIDE era notória. E tive contactos com membros da Ordem dos Padres Brancos, mais tarde expulsos de Moçambique, que eram completamente diferentes.

III

Cândido Lima 
(n. Viana do Castelo 1939-)

Havia um órgão de tubos na minha aldeia. O meu contacto com a música deu-se, portanto, desde que tenho consciência, aos 4-5 anos, nas cerimónias religiosas, a ouvir as pessoas mais velhas que vinham de Braga para tocar órgão. Ficou-me, portanto, o órgão no ouvido e as vozes das pessoas de família a cantar.

III

Emmanuel Nunes 
(n. Lisboa 1941 – m. Paris 2012)

O meu avô paterno era moleiro e o meu avô materno era padeiro. Talvez tenha sido o imenso pão que me alimentou intelectualmente.

III

Rão Kyao 
(n. Lisboa 1946-)

A música é uma prova de Deus.

III

João Pedro Oliveira 
(n. Lisboa 1959-)

O acto de criação na sua essência, e tal como eu o concebo, não existe por si só, mas é resultado de uma revelação que se processa através do nosso Espírito para a nossa Mente, e cujas origens não podemos determinar. Para o ateu, talvez ele seja considerado como toda uma vivência em termos musicais, todo o conhecimento e compreensão de um passado e presente, ou mesmo um reflexo ou síntese da sua experiência humanamente vivida. Para o crente, essa revelação vem de Deus.

João Pedro Oliveira, composição

Foto Expresso

III

Sérgio Azevedo 
(n. Coimbra 1968)

Aristides de Sousa Mendes foi também aquilo que todos nós somos, humano, porém, foi mais um pouco do que isso. Como disse um velho general, não há muito tempo, “nos dias de hoje temos de agir como heróis para podermos comportarmo-nos simplesmente como seres humanos decentes”. Aristides foi um desses homens decentes, e como tal, tornou-se um herói do nosso tempo.

III