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Sérgio Godinho

A música é tamanha

[ Mão na Música ]

A música é tamanha,
cabe em qualquer medida.

Da sua mão sobe o ar ao infinito, de lá treme. A música, por um lado, vê-se; por outro, não se vê. Nada da música se improvisa por acaso. A música corre nas gargantas e pode ser tocada com um só dedo. A música mostra-se feia para os seus pares e bela para os seus ímpares. A música emudece, por vezes, os cantores e deixa-os a sós nos camarins à espera do amigo do carrasco. A música não é a mesma quando ouvida de longe ou quando ouvida de perto. A música não tem explicações a dar a si mesma: isso explica tudo. A música dá asas a quem voa: a quem tem asas para voar. A música faz aos poemas aquilo que os poemas quiseram fazer dela: render-se. E aos outros propõem: rendam-se! Tréguas e batalhas sem ordem de aviso.

A música é tamanha,
cabe em qualquer medida.

A música referenda a liberdade? Sim ou não? A música depende dum botão da liberdade e desunha-se a mostrar os efeitos de num dedo a voz humana. A música faz orelhas moucas. A música não se esquece no silêncio: por isso, nos lembramos dela. Permanece em mais que um som. A música vai, por vezes, mais alto e duma torre afunda o eco no centro da terra. A música aguenta-se de pé, dorme sentada, dança e escorrega na cama. A música pausa e pausa, faz das malas a viagem mas se acena, já de longe… A música atira os seus poemas ao mar e recebe-os nas ondas do dia seguinte, nas garrafas outro povo. A música perdeu muitos bons poemas no vento contrário, quem sabe eram bons? A música é uma cópia duma cópia, de cara aberta vai ao fundo e vem à tona por respiração. A música é uma revolução de estilos, é do passarinho herdeira órfã. A música é órfã. Quando nasceu, os seus pais tinham morrido há pouco. É órfã.

A música é tamanha,
cabe em qualquer medida.

A música esfrega os dedos em tudo o que der som. A música nunca teve, em si mesma, uma moral; pensa que não pensa e que não perdura. Diz-se que faz muito bem ouvi-la; alguém que pense e que perdure por ela. A música não tem barreiras, mas o amor por ela sim. A música prepara-se, destroçada mas vaidosa, para confessar tudo ao cair do sol. A música chora e ri ao mesmo tempo: uma criança por razões não exactamente compreensíveis. A música quer ser perfeita, sempre que por escolha é imperfeita. Por talento, dá-se a todas: a bondade, a presunção, ressentimento e, mais não fosse, a quatro tempos. A música de repente é a mesma nota repetida e outras vezes. A música mede-se com caneta e gravador. É maior e é menor. A música quando se encontra já lá está. A música nasceu antes de nós termos nascido com ela. A música segue a sua sombra e pela sombra é fácil, não há espelho. Ou é ritmo ou é pausa. Ambos dúbios mas reconhecíveis.

A música é tamanha,
cabe em qualquer medida.

A música é feita à janela e aberta vê-se da rua. A música eriça-se ao menor vento, arranha-se a si mesma, ladra ao ar, risca a terra. Gosta mesmo. A música quando a chuva cai com barulho de entre as nuvens, vê-se o mar em dia de acalmia, o que não é explicável nem por norma nem por excepção dos deuses: digamos que são os sons em dia de ofertório. A música vai de rio e desagua: aquece a água doce, rebenta no mar salgado, larga os seus bichos no mar. A música tem duas mãos, é tocada com um só peito e um só dedo. Da música sobe o ar ao infinito. A música tem um só dedo e um só dedo. A música tem um só dedo e um só dedo. Nada da música se improvisa por acaso.

A música é tamanha,
cabe em qualquer medida.

Letra e música: Sérgio Godinho
Intérprete: Sérgio Godinho* (in CD “Mútuo Consentimento”, Universal Music, 2011)

* Sérgio Godinho – voz
Manuela Azevedo – coros
Produção e direcção musical – Nuno Rafael
Produção executiva – Paulo Salgado / Vachier & Associados
Gravado por Hélder Gonçalves
Misturado por Nelson Carvalho, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d’Arcos
Masterizado por Andy Vandette (Masterdisk)

A Música

[ A Música Inventa o Lume ]

A música está coberta
com um manto. E dessa névoa
sai um uivo que poisa na água
e inventa o lume.

É a voz das fragas e o riso,
uma mulher que bate num cântaro
para afastar os pássaros dos lagares.
De uma cordilheira levanta-se
um corvo. A planície, a seu lado,
transforma-se num imenso rio onde
nascem os limões e a tarde cai
como se fosse um toldo de marfim.

A música está coberta
com um manto. E dessa névoa
sai um uivo que poisa na água
e inventa o lume.

É a voz das fragas e o riso,
uma mulher que bate num cântaro
para afastar os pássaros dos lagares.
De uma cordilheira levanta-se
um corvo. A planície, a seu lado,
transforma-se num imenso rio onde
nascem os limões e a tarde cai
como se fosse um toldo de marfim.

O lume arde nesta paisagem
reencontrada e todos os objectos
se viram de repente, em êxtase,
anunciando o vinho.

O lume arde nesta paisagem
reencontrada e todos os objectos
se viram de repente, em êxtase,
anunciando o vinho.

Poema: Jaime Rocha
Música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé (ao vivo no Estúdio 3 da Rádio e Televisão de Portugal, Lisboa)
Versão original: Janita Salomé com Luanda Cozetti (in CD “Valsa dos Poetas”, Cantar ao Sol/Ponto Zurca, 2018)

Baile

Acertando o passo

[ Bulia o Baile ]

Acertando o passo ou nem tanto
escorregavam do lamento ao canto;
Sorrindo ao pisar e às estrelas
as promessas ateavam alvas velas.

Ardentias do amor anunciadas
vindouras dores eram semeadas;
No céu, o néon, luzem pregões,
desditas eram. Pintavam corações.

Bulia o baile,
buliam as raparigas
se levadas nas cantigas
e repetidos o par.

Bulia o baile,
buliam as raparigas
se levadas nas cantigas
e repetidos o par.

Eram olhares repetidos,
eram perfumes sentidos
misturados com o arfar.

Veredas de barro e de fel,
aço entrançado, favos de mel,
desejos jurados sem hesitar,
barca dos sonhos a navegar.

As canções meladas ao ouvido
eram cruzadas, no seu sentido;
e os passos que davam a saber
era o amor louco a acontecer.

Bulia o baile,
buliam as raparigas
se levadas nas cantigas
e repetidos o par.

Bulia o baile,
buliam as raparigas
se levadas nas cantigas
e repetidos o par.

Eram olhares repetidos,
eram perfumes sentidos
misturados com o arfar.

Letra e música: Lindolfo Paiva
Intérprete: Dialecto* (in CD “Aromas”, Dialecto/Cloudnoise, 2011)

Sorvem-me o sangue

[ Trocaram-me a Dança! ]

Sorvem-me o sangue,
Deixam-me exangue,
Ceifam-me a vida na terra prometida.

Tolhem-me a esperança,
Trocam-me a dança,
Solta-se o grito na raiva incontida.

Sorvem-me o sangue,
Deixam-me exangue,
Ceifam-me a vida na terra prometida.

Tolhem-me a esperança,
Trocam-me a dança,
Solta-se o grito na raiva incontida.

Na dança da vida com o passo trocado,
Na dança das fitas estou no filme errado;
Destroços de sonhos errantes na serra
Espezinham-me a flor…, tenho a Primavera.

Cercam-me o tempo,
Varrem-me o alento,
Ferem-me o voo, a paixão e o sustento.

Lanço a semente,
Rasgo o silêncio,
Cerro a decência, declino ser inocente.

Na dança da vida com o passo trocado,
Na dança das fitas estou no filme errado;
Destroços de sonhos errantes na serra
Espezinham-me a flor…, tenho a Primavera.

Cercam-me o tempo,
Varrem-me o alento,
Ferem-me o voo, a paixão e o sustento.

Letra e música: Álvaro M. B. Amaro
Intérprete: Dialecto* (in CD “Aromas”, Dialecto/Cloudnoise, 2011)

Instrumentos cantados

Campaniça do despique

Campaniça do despique,
Na venda e bailes de roda:
Dedilhando o improviso
Ou trauteando uma moda.

Na rua do velho monte,
Com as moças a bailar
Os passos simples duma dança
E a viola a dedilhar.

Nas feiras e romarias,
Na serra e no alambique,
Na venda e bailes de roda:
Campaniça do despique.

O tocador da viola
É feio mas toca bem;
Se não casar por a prenda,
Formosura não a tem!

Campaniça do despique,
Na venda e bailes de roda:
Dedilhando o improviso,
Ou trauteando uma moda.

Na rua do velho monte,
Com as moças a bailar
Os passos simples duma dança
E a viola a dedilhar.

Nas feiras e romarias,
Na serra e no alambique,
Na venda e bailes de roda:
Campaniça do despique.

Letra e música: Pedro Mestre
Intérprete: Pedro Mestre* (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015)
Outra versão de Pedro Mestre (in DVD “No CCB: Pedro Mestre & Convidados”, Pedro Mestre, 2017)

Ó sino da minha aldeia

Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Letra: Fernando Pessoa (ligeiramente adaptado)
Música: Uxía Senlle e Sérgio Tannus
Arranjo: Quiné Teles
Intérprete: Ela Vaz, com Rui Oliveira (in CD “Eu”, Micaela Vaz, 2017)

O tambor a tocar

[ O Primeiro Canto (dedicado a José Afonso) ]

O tambor a tocar sem parar,
um lugar onde a gente se entrega,
o suor do teu corpo a lavar a terra.
O tambor a tocar sem parar,
o batuque que o ar reverbera,
o suor do teu rosto a lavrar a terra.

Logo de manhãzinha, subindo a ladeira já,
já vai a caminho a Maria Faia…

Azinheiras de ardente paixão
soltam folhas, suaves, na calma
do teu fogo brilhando a escrever na alma.

Estas fontes da nossa utopia
são sementes, são rostos sem véus,
o teu sonho profundo a espreitar dos céus!

Logo de manhãzinha, subindo a ladeira já,
já vai a caminho a Maria Faia,
desenhando o peito moreno, um raminho de hortelã
na frescura dos passos, a eterna paz do Poeta.

Uma pena ilumina o viver
de outras penas de esperança perdida,
o teu rosto sereno a cantar a vida.

Mil promessas de amor verdadeiro
vão bordando o teu manto guerreiro,
hoje e sempre serás o primeiro canto!

Ai, o meu amor era um pastor, o meu amor,
ai, ninguém lhe conheceu a dor.
Ai, o meu amor era um pastor Lusitano,
ai, que mais ninguém lhe faça dano.
Ai, o meu amor era um pastor verdadeiro,
ai, o meu amor foi o primeiro.

Estas fontes da nossa utopia
são sementes, são rostos sem véus,
o teu sonho profundo a espreitar dos céus!

Mil promessas de amor verdadeiro
vão bordando o teu manto guerreiro,
hoje e sempre serás o primeiro canto!

Letra: João Mendonça, Dulce Pontes e António Pinheiro da Silva
Música: Dulce Pontes e Leonardo Amuedo
Intérprete: Dulce Pontes (in CD “O Primeiro Canto”, Polydor B.V. The Netherlands/Universal, 1999)

Quando uma guitarra trina

[ Guitarra ]

Quando uma guitarra trina
Nas mãos de um bom tocador
A própria guitarra ensina
A cantar seja quem for

Eu quero que o meu caixão
Tenha uma forma bizarra
A forma de um coração
A forma de uma guitarra

Guitarra, guitarra querida
Eu venho chorar contigo
Sinto mais suave a vida
Quando tu choras comigo

Letra dos poetas do fado (Popular)
Música: Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão
Intérprete: Madredeus (in CD “Ainda”, EMI-VC, 1995)