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Galo de Barcelos

Poemário da Canção Portuguesa

A Senhora está sentada

A Senhora está sentada
Não tem pés, pois muito andou
Já nem na memória há rastos
Do tempo que caminhou

A Senhora está sentada
Numa redoma de luz
E é uma nave perdida
Nenhuma rota a conduz

E a Senhora está sentada
Numa montanha de fel
Rios correm dos seus olhos
E dos seus lábios o mel

E a Senhora está sentada
Tem parado o respirar
Do seu peito saem chamas
Das que não sabem queimar

E a Senhora está sentada
Sobre as dores de cada um
Do seu ventre sai remédio
Que cura como nenhum

E a Senhora está sentada
Numa matéria sem nome
Transformada numa estátua
Que não tem sono nem fome

E a Senhora está sentada
Sobre as suas próprias mãos
E baloiça no vazio
No céu de todos os chãos

Letra e música: Amélia Muge
Intérprete: Amélia Muge (in CD “Todos os Dias”, Columbia/Sony, 1994)

A festa foi bonita pá

A festa foi bonita pá, mas tu agora
voltas ao mesmo sítio onde estiveste
voltas à mesma rua, à mesma casa
voltas ao mesmo copo que bebeste

E o mundo que sonhaste foi andando
o sonho de justiça e a fantasia
que ardemos toda a noite em fogo brando
terá que se enfrentar com o dia-a-dia

Mas há uma coisa enorme que ficou:
(e é nela que teces o amanhã
que deste frente-a-frente resultou)
vontade de viver outra verdade
vontade de acordar noutra manhã

A festa foi bonita pá, mas tu agora
voltas ao mesmo leito onde dormiste
e apesar do sabor que nos deixamos
o termos que partir é sempre triste

O mundo que sonhámos está tão longe
mas tudo o que esta noite se viveu
garante que afinal pode ser hoje
o mundo que se sonha e se esqueceu

Mas há uma coisa enorme que ficou:
(e é nela que teces o amanhã
que deste frente-a-frente resultou)
vontade de viver outra verdade
vontade de acordar noutra manhã

Mas há uma coisa enorme que ficou:
(e é nela que teces o amanhã
que deste frente-a-frente resultou)
vontade de viver outra verdade
vontade de acordar noutra manhã

Letra e música: Pedro Barroso
Intérprete: Pedro Barroso (in CD “Criticamente”, Lusogram, 1999)

A mulher gorda

A mulher gorda
A mim não me convém
Eu não quero andar na rua
Com as banhas de ninguém

[Refrão:]

Ai, ai, ai, ai, eu gosto dessa mulher
Quero tê-la ao pé de mim
Beijá-la quando quiser
Ai, ai, ai, ai, eu gosto dessa mulher
Quero tê-la ao pé de mim
Beijá-la quando quiser

A mulher magra
A mim não me convém
Eu não quero andar na rua
Com o esqueleto de ninguém

[Refrão]

A mulher alta
A mim não me convém
Eu não quero andar na rua
Com o escadote de ninguém

[Refrão]

A mulher baixa
A mim não me convém
Eu não quero andar na rua
Com as muletas de ninguém

[Refrão]

A mulher doutora
A mim não me convém
Eu não quero andar na rua
Com os volumes de ninguém

[Refrão]

A mulher do Mickey
A mim não me convém
Eu não quero andar na rua
Com a rata de ninguém

[Refrão]

A mulher bonita
A mim já me convém
Eu só quero andar na rua
Com a beleza de alguém

[Refrão]

(Popular)

A solidão

[ Nem Mal Que Sempre Dure, Nem Bem Que Nunca se Acabe ]

A solidão espalhada p’los penedos
Embrulha a alma em folhas de saudade
A noite acorda o sabor dos segredos
E traz nos dedos a cor da vontade

E só a voz da Lua é que me amansa
E me adormece ao canto da gaivota
No fim do mundo o tempo quebra a dança
E o vento lança aromas de outra rota

O sol acalma como um grão de areia
E dorme enquanto espera a madrugada
Em cada noite escura há uma candeia
Em cada ceia há uma fome adiada

Em cada grito há uma voz calada
Encruzilhada p’lo meio do caminho
Em cada sono há uma alma acordada
Desnorteada como um burburinho

Ouvi dizer o povo e o povo bem o sabe:
“Nem mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe.”

Mal amanhece o horizonte espreita
Enquanto espera pelo raiar do dia
Já se adivinha o calor que se ajeita
E o chão aceita o fim da noite fria

Rir da tristeza, chorar da alegria
Abrir caminhos como um peregrino
Deixar que a vida traga outro dia
Fazer folia a meias com o destino

Ouvi dizer o povo e o povo bem o sabe:
“Nem mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe.

Ouvi dizer o povo e o povo bem o sabe:
“Nem mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe.”

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha*
Versão discográfica anterior: Sebastião Antunes & Quadrilha com Carlos Moisés (in CD “Perguntei ao Tempo”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2019)
Versão original: Quadrilha (in CD “A Cor da Vontade”, Vachier & Associados, 2003)
Outra versão: Quadrilha (in CD “Deixa Que Aconteça: Ao Vivo”, Vachier & Associados/Ovação, 2006)

A verdade vem ao de cima

A verdade vem ao de cima e mostra
O que em baixo tem, que ao de cima não se gosta
A verdade tem algo difícil de atingir
Quando em cima há quem, por baixo vem e te faça distrair

A verdade vem ao de cima e mostra
A verdade vê e ao de cima há-de vir
A verdade vem ao de cima e mostra
A verdade vê e ao de cima há-de vir

Quando de baixo vem, tão hibernado e escondido,
O desejo de ter e conhecer o proibido
Quando a vontade for escorregando a mentir
A verdade vê e ao de cima há-de vir

A verdade vem ao de cima e mostra
A verdade vê e ao de cima há-de vir
A verdade vem ao de cima e mostra
A verdade vê e ao de cima há-de vir

E por mais que tentes dar a volta
A verdade veio sempre e sempre há-de vir
Há-de vir n’outro presente às cambalhotas
Noutro presente há-de vir, noutro presente há-de vir

A verdade vem ao de cima e mostra
A verdade vê e ao de cima há-de vir
A verdade vem ao de cima e mostra
A verdade vê e ao de cima há-de vir
(bis)

Letra e música: Luís Pucarinho
Intérprete: Luís Pucarinho com Duarte (in CD “Orgânica Mente Humana”, Caracol Secreto Associação/Alain Vachier Music Editions, 2015)

Acorda meu sangue preso

[ Cantar para Um Pastor ]

Acorda meu sangue preso
Acorda meu sangue mudo
Se te amo, não te amo
E meu cantar não diz tudo

Meu olhar de madrugada
Pastor da noite comprida
Luz no peito vigiada
Liberdade consentida

Acorda meu sangue preso
Rasga o ventre do meu dia
Se te amo, não te amo
Meu pastor de alegria

Meu pastor de alegria
Meu olhar de madrugada
Se eu piso campos verdes
É sempre noite na estrada

Se te amo, não te amo
Meu olhar de madrugada
Trago uma pomba de espanto
Nesta garganta velada

Poema: Matilde Rosa Araújo
Música: Adriano Correia de Oliveira
Intérprete: Adriano Correia de Oliveira (in “Cantaremos”, Orfeu, 1970, reed. Movieplay, 1999; “Obra Completa”: CD “A Noite dos Poetas “, Movieplay, 1994)

Acredito em pouca coisa

Acredito em pouca coisa
que venha escrita em loiça,
dessa de pôr na parede.

Acredito mais no desempenho
da laranja que apanho,
que como e me mata a sede.

Acredito nas façanhas,
muito menos nas patranhas
de quem faz só porque sim.

Acredito nas crianças,
no meu ventre são esperanças
de um futuro sem fim.

Acredito na loucura
de quem pede mais ternura
e vira costas à guerra.

Acredito na fé dos outros
que às vezes abrem poços
só para encontrar mais terra.

Acredito no Caetano,
no Zambujo que é meu mano,
em todas as vozes calmas.

Acredito na poesia
e também na aletria,
em todos adoçantes de almas.

Acredito na minha mãe,
ela que sofreu bem
para que eu fosse como sou.

Crente nos frutos e flores,
nos mais impossíveis amores,
onde o Sol mais brilhar eu estou.

Letra: Celina da Piedade
Música: Alex Gaspar
Intérprete: Celina da Piedade
Versão original: Celina da Piedade (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)

Adeus, Maria, até quando

— «Adeus, Maria, até quando,
Eu até quando não sei…
Cá ando no Ultramar, a pensar
No dia em que voltarei.

Espera por mim, se quiseres…
Faz o que tu entenderes;
Acho que deves pensar em casar,
Eu posso por cá morrer.

Ninguém o pode saber,
É uma carta fechada…
E depois te chamarão, pois então,
Viúva sem seres casada.»

— «Ó António, Deus te guie
Nos campos do Ultramar!
Eu penso em ti, cá solteira, há quem queira
Se tu nunca mais voltares.

Espero por ti, meu amor!
Eu d’outro não quero ser!
Nunca mais me casarei, que eu bem sei,
Serei tua até morrer!

A carta que me mandaste
Com um conselho imprudente…
Meu amor, para contigo eu te digo:
‘Inda fiquei mais ardente.»

Meu amor, para contigo eu te digo:
‘Inda fiquei mais ardente.»

Letra: António Pardelha
Música: Monda
Intérprete: Monda com Katia Guerreiro (in CD “Monda”, Monda/Tánaforja, 2016)

Agora e na Boa Hora

Agora e na boa hora
Saio de casa p’ra fora;
Quem mal me queira fazer
Deus as queira arrepender.

Tenha pernas e não ande!
Tenha braços e não mande!
Tenha boca e não fale!
Tenha olhos e não veja!

Agora e na boa hora
Saio de casa p’ra fora;
Quem mal me queira fazer
Deus as queira arrepender.

Tenha pernas e não ande!
Tenha braços e não mande!
Tenha boca e não fale!
Tenha olhos e não veja!

Agora e na boa hora
Saio de casa p’ra fora;
Quem mal me queira fazer
Deus as queira arrepender.

Tenha pernas e não ande!
Tenha braços e não mande!
Tenha boca e não fale!
Tenha olhos e não veja!

Agora e na boa hora
Saio de casa p’ra fora;
Quem mal me queira fazer
Deus as queira arrepender.

Tenha pernas e não ande!
Tenha braços e não mande!
Tenha boca e não fale!
Tenha olhos e não veja!

Agora e na boa hora
Saio de casa p’ra fora;
Quem mal me queira fazer
Deus as queira arrepender.

Letra: Oração tradicional
Música e arranjo: César Prata
Intérprete: César Prata e Vânia Couto*
Versão original: César Prata e Vânia Couto (in CD “Rezas, Benzeduras e Outras Cantigas”, Sons Vadios, 2019)

Águas claras

[ Canção das Águas Claras ]

Águas claras, águas claras
Que dos rochedos caíam;
Morreram as águas claras
Onde os meus sonhos bebiam.

Era o sol, era a lua,
Era a flor que aparecia;
A solidão da rua
Também toda lá bebia.

Agora a mágoa me acena
Das minhas mãos agitadas.
Quem dera fossem penas
Os rochedos de águas claras!

Águas claras, águas claras
Que dos rochedos caíam;
Morreram as águas claras
Onde os meus sonhos bebiam.

Dessa paisagem não sei,
Nem a saudade precisa;
Coração, eu não parei,
Tira-me a hora indecisa!

Do tempo que era quimera,
Não quero que tenha fim…
Porque é que o tempo não espera,
Nem nunca esperou por mim?

Águas claras, águas claras
Que dos rochedos caíam;
Morreram as águas claras
Onde os meus sonhos bebiam.

Águas claras, águas claras
Que dos rochedos caíam;
Morreram as águas claras
Onde os meus sonhos bebiam.

Letra: Joaquim Pedro Gonçalves
Música: Ricardo Ribeiro
Intérprete: Ricardo Ribeiro
Versão original: Ricardo Ribeiro (in CD “Hoje É Assim, Amanhã Não Sei”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2016)

Ai amigos

[ A Lei dos Sentidos ]

Ai amigos…
Na ilusão ridícula de sermos imortais e querermos acertar
Se inventarmos fugas, ideias e diferenças vão chamar-nos loucos
Se fugirmos à norma e pensarmos longe – somos anormais
Se sonharmos mar, montanhas e vento – vamos ser tão poucos…

E afinal viver é este tempo breve dado para a memória
Uma novela curta que sempre ansiamos de grandes paixões
Mas cada um de nós vale muito pouco para as contas da História
Somos só formigas enchendo o planeta de tantos milhões

Pequenos demais, vagueando aí, sem esperança nem jeito
Buscando a nobreza de um outro sentir, feito de emoções
Buscando impossíveis de amor e beleza num tempo perfeito
Querendo a felicidade e o sucesso inteiro em vinte lições

Deixem-me sonhar que num tempo novo nascerão do caos
O homem completo, a gente bonita, a nação ternura
Sem raivas nem ódios, nem fés de rancores, nem dogmas estreitos
E que um mundo outro, mais belo e mais pleno, nos nasce e perdura

Um mundo onde os poetas não sejam estudados como anormais
E os homens justos e as gentes de estudo sejam distinguidos
E a sabedoria seja infinda e livre e nunca demais
E então se publique, por decreto urgente – a lei dos sentidos!

Letra e música: Pedro Barroso
Intérprete: Pedro Barroso*
Versão original: Pedro Barroso (in CD “Artes do Futuro”, Ovação, 2017)

Ai apertem os cintos

[ Corpo Inteiro ]

Ai apertem os cintos, vamos começar
Vou contar uma história de desencantar
Eram quatro donzelas a olhar o Sol
Cada qual em busca do amor
Procurando saber o que arde sem se ver
Se é a dor ou se é o prazer

A primeira caiu num sono fatal
À espera que um sapo a salvasse do mal
A segunda abalou nas ondas do mar
Nunca mais veio p’ra contar
A terceira, devota subiu aos céus
Uma voz que fugiu do lugar

Vou contar uma história de desencantar
Eram quatro donzelas presas pelo olhar
Já três delas se foram por causa do amor
Como carne que estilhaçou
Se o que arde não cura e o desejo é fartura
Só a quarta é que se salvou

Vou contar uma história de desencantar
Vi a quarta donzela que olhava p’ra o mar
De improviso cantava para o último sol
A mais doce feitiçaria
Quatro flores cortadas e ela não murchou
E das febres fez alegria

Letra: Miguel Cardina
Música: Pedro Damasceno e Julieta Silva
Arranjo: Diabo a Sete e Julieta Silva
Intérprete: Diabo a Sete (in CD “Figura de Gente”, Sons Vadios, 2016)

Ai flores, ai flores do verde pino

I

– Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
Ai Deus, e u é?

II

– Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
Ai Deus, e u é?

III

Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo!
Ai Deus, e u é?

IV

Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi há jurado!
Ai Deus, e u é?

V

– Vós me perguntades polo vosso amigo,
e eu ben vos digo que é sano e vivo.
Ai Deus, e u é?

VI

– Vós me perguntades pelo vosso amado,
e eu ben vos digo que é vivo e sano.
Ai Deus, e u é?

VII

E bem vos digo que é sano e vivo,
e será vosco ante o prazo saído.
Ai Deus, e u é?

VIII

E eu ben vos digo que é vivo e sano,
e será vosco ante o prazo passado.
Ai Deus, e u é?

– Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
Ai Deus, e u é?

Poema: D. Dinis (1261-1325)
Música (reconstituição): Pedro Caldeira Cabral
Intérprete: La Batalla* (in “Cantigas d’Amigo”, EMI-VC, 1984, reed. 1991)
Outra versão: Pedro Barroso – “Ai flores do verde pinho ” (in CD “Cantos d’Antiga Idade “, Strauss, 1994)

Ai, lá se vai o Conde Ninho

[ Conde Ninho ]

Ai, lá se vai o Conde Ninho,
Ao seu cavalo vai a banhar;
Ai, enquanto o cavalo bebe
Vai cantando um lindo cantar.

Ai, lá se vai o Conde Ninho,
Ao seu cavalo vai a banhar;
Ai, enquanto o cavalo bebe
Vai cantando um lindo cantar.

Letra e música: Popular (Parada de Infanções, Bragança, Trás-os-Montes)
Recolha: Michel Giacometti (in LP “Trás-os-Montes”, série “Antologia da Música Regional Portuguesa”, Arquivos Sonoros Portugueses/Michel Giacometti, 1960; 5CD “Portuguese Folk Music”: CD 2 – Trás-os-Montes, Strauss, 1998; 6CD “Música Regional Portuguesa”: CD 3 – Trás-os-Montes, col. Portugal Som, Numérica, 2008)
Arranjo e direcção musical: José Manuel David
Intérprete: Gaiteiros de Lisboa (in CD “Avis Rara”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2012)

Ai levaram-me os temas

[ Caixinha de Mão ]

Ai levaram-me os temas,
Os meus longos poemas,
As canções de amor

Ai levaram-me os temas,
Os meus longos poemas,
As canções de amor

Foi o meu menino, chamado Paixão,
Que mos levou numa caixinha de mão
Para os guardar e depois cantar
Se o coração deixar

Foi o meu menino, chamado Paixão,
Que mos levou numa caixinha de mão
Para os guardar e depois cantar
Se o coração deixar

Ai, mas se ele voltasse
E ao meu lado se deitasse
Ao meu lado a brincar
Com a caixinha dos temas

Fazia-me os temas
Longas são as histórias de amor
Para as guardar e depois cantar
Se o coração deixar

Letra e música: Tiago Curado de Almeida
Intérprete: Pensão Flor*
Versão original: Pensão Flor (in CD “O Caso da Pensão Flor”, Pensão Flor/Brandit Music, 2013)

Ai, Margarida

Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava com um homem cego
E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria a tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.

E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.

Poema: Fernando Pessoa/Álvaro de Campos (in “Álvaro de Campos: Poesia”, org. Teresa Rita Lopes, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002 – p. 316-317)
Música: Mário Laginha
Intérprete: Camané
Primeira versão discográfica de Camané (in 2CD “Camané: O Melhor 1995-2013 (Edição Especial)”: CD 2, EMI, 2013)
Versão original: Cristina Branco com Jorge Palma (in CD “Kronos”, Universal, 2009)

Alguém a ganhar

[ O Beijo da Medusa ]

Alguém a ganhar
Alguém a perder
Alguém a lucrar
Alguém a morrer
Nestas areias movediças
De ganâncias, de cobiças
Um sinistro ritual
Terra prometida
Prometida a quem?
Terra proibida
Terra de ninguém
É uma nova Babilónia
Por dentro da nossa insónia
Uma louca espiral
Pode ser fatal a voz da tua musa
Muito cuidado com o beijo da medusa
Pode ser fatal a voz da tua musa
Muito cuidado com o beijo da medusa
O ovo da serpente, a dança guerreira
Vê lá, não deites gasolina na fogueira
E pode ser fatal a voz da tua musa
Muito cuidado com o beijo da medusa
Salta, soldadinho
Da tua trincheira
Salta, soldadinho
Desta bandalheira
Será que a vida continua?
Esta guerra não é tua
Quem te quer endrominar?

Alguém a ganhar
Alguém a perder
Alguém a lucrar
Alguém a morrer
Sorte caipora
Já abriram a boceta de Pandora
Quem nos quer envenenar?

Pode ser fatal a voz da tua musa
Muito cuidado com o beijo da medusa
Pode ser fatal a voz da tua musa
Muito cuidado com o beijo da medusa
O ovo da serpente, a dança guerreira
Vê lá, não deites gasolina na fogueira
E pode ser fatal a voz da tua musa
Muito cuidado com o beijo da medusa
Gregos e troianos
Abutres e falcões
Há tantos enganos
Nas vossas missões
Rio de raiva e de veneno
Sanguinário, tão obsceno
Um pesadelo que não tem fim
Uivo de chacais
Voz que se apagou
Em lutas tribais
Pranto que secou
Vou questionar a tua sentença, a tua lei
Pois já nem sei
Se foi Abel que matou Caim

Letra e música: José Medeiros
Arranjo: Paulo Borges
Intérprete: José Medeiros (in Livro/2CD “Fados, Fantasmas e Folias”: CD 1, Algarpalcos, 2010)

Ali estavas tu

Ali estavas tu olhando à janela, quando voltei já quase dia
Da boémia, da boémia e do som.
E desceste até à porta, num sorriso maior e num abraço
Num abraço sentido

Colaram-se os corpos numa dança, varrendo tudo pelo chão
Um aceso rebolar sufocante e o suor em crescente pulsação
E a força, o sangue corre num único sentido
Algo em mim se vai e morre e me consome morto e vivo

Como quem sabe de cor, puseste-me um cigarro na boca
E com amor, um brilho nos olhos
Em corpo nu à luz de uma vela, perguntei-te baixinho
“Quando voltas? Quando voltas à janela?”

Colaram-se os corpos numa dança, varrendo tudo pelo chão
Um aceso rebolar sufocante e o suor em crescente pulsação
E a força, o sangue corre num único sentido
Algo em mim se vai e morre e me consome morto e vivo

Ali estavas tu olhando à janela, quando voltei já quase dia
Da boémia, da boémia e do som.
E desceste até à porta, num sorriso maior e num abraço
Num abraço sentido
Ficaste tu olhando à janela…

Letra e música: Luís Pucarinho
Intérprete: Luís Pucarinho* (in CD “Orgânica Mente Humana”, Caracol Secreto Associação/Alain Vachier Music Editions, 2015)

Anda cá, se queres ver

[ Tempos Anormais ]

Anda cá, se queres ver
As coisas que eu vi:
Um pato a endoidecer,
Outro a sorrir.

Anda cá, nem podes crer
Coisas de contar:
Uma centelha a chover,
Outra a congelar.

Anda cá, se queres ver
As coisas que eu vi:
Gente cansada a lançar
Pragas contra si.

Andam no ar vibrações,
Tempos anormais,
Gente que pede aflições
A quem lhas der mais.

Anda cá, se queres ver
As coisas que eu vi:
Um pato a endoidecer,
Outro a sorrir.

Anda cá, nem podes crer
Coisas de contar:
Uma centelha a chover,
Outra a congelar.

Anda cá, se queres ver
As coisas que eu vi:
Gente cansada a lançar
Pragas contra si.

Andam no ar vibrações,
Tempos anormais,
Gente que pede aflições
A quem lhas der mais.

Letra: Miguel Cardina
Música: Pedro Damasceno, Julieta Silva e Celso Bento
Arranjo: Diabo a Sete e Julieta Silva
Intérprete: Diabo a Sete (in CD “Figura de Gente”, Sons Vadios, 2016)

Ando na vida à procura

[ Triste Sorte ]

Ando na vida à procura
Duma noite menos escura
Que traga luar do céu,
Duma noite menos fria
Em que não sinta agonia
Dum dia a mais que morreu.

Vou cantando amargurado,
Vou dum fado a outro fado
Que fale dum fado meu:
Meu destino assim cantado
Jamais pode ser mudado
Porque do fado sou eu.

Ser fadista é triste sorte
Que nos faz pensar na morte
E em tudo que em nós morreu,
E andar na vida à procura
Duma noite menos escura
Que traga luar do céu.

Letra: João Ferreira-Rosa
Música: Alfredo Duarte “Marceneiro” (Fado Cravo)
Intérprete: Camané
Versão discográfica anterior de Camané (in CD/DVD “Infinito Presente”, Warner Music, 2015)

Outras versões: Camané (in 2CD “Como Sempre… Como Dantes”: CD 1 – “Como Sempre: Ao Vivo em Palco”, EMI-VC, 2003); Camané (in 2CD “Como Sempre… Como Dantes”: CD 2 – “Como Dantes: Ao Vivo no Embuçado”, EMI-VC, 2003); Camané (in DVD “Ao Vivo no S. Luiz”, EMI, 2006); Camané (in CD/DVD “Ao Vivo no Coliseu: Sempre de Mim”, EMI, 2009; 2CD “Camané: O Melhor 1995-2013 (Edição Especial)”: CD 1, EMI, 2013)

Versão original: João Ferreira-Rosa (in EP “Embuçado”, Columbia/VC, 1965; CD “Embuçado” (compilação), EMI-VC, 1988, reed. Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; 2CD “Ontem e Hoje”: CD 1, EMI-VC, 1996; CD “O Melhor de João Ferreira-Rosa”, Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008; CD “João Ferreira-Rosa: Essencial”, Edições Valentim de Carvalho/CNM, 2014)

Outras versões: João Ferreira-Rosa (in LP “Fado”, Imavox, 1978); João Ferreira-Rosa (in CD “No Wonder Bar do Casino Estoril”, Ovação, 2004)

Ao correr da queda de água

[ Fraga da Pena ]

Ao correr da queda de água
Fui lavar um sentimento:
Deixei acalmar a mágoa
Enquanto escutava o vento.

A saltar entre os penedos,
As águas vão ensinando
As lembranças e os segredos
Que a serra vai murmurando.

E as penas quem as apaga
Para a alma ficar serena?
Penas grandes como a fraga
São como a Fraga da Pena.

E as penas quem as apaga
Para a alma ficar serena?
Penas grandes como a fraga
São como a Fraga da Pena.

Enquanto a tarde se deita
Nas sombras da penedia,
A água aos poucos ajeita
O raiar do novo dia.

Trigueira de água nos dedos
Desce da serra apressada:
Vem a cantar pelos penedos
Para me saudar à chegada.

Enquanto a noite me afaga,
Enquanto a lua me acena,
Adormeço ao som da fraga:
Ao som da Fraga da Pena.

Enquanto a noite me afaga,
Enquanto a lua me acena,
Adormeço ao som da fraga:
Ao som da Fraga da Pena.

E as penas quem as apaga
Para a alma ficar serena?
Penas grandes como a fraga
São como a Fraga da Pena.

Enquanto a noite me afaga,
Enquanto a lua me acena,
Adormeço ao som da fraga:
Ao som da Fraga da Pena.

Letra: Sebastião Antunes
Música: Fernando Pereira
Intérprete: Real Companhia com Ana Laíns (in CD “Serranias”, Tê, 2013)

Aos olhos do mar

Aos olhos do mar
vestido de bruma
se ouve o rumor
da ave a planar

Aos olhos do mar
Aos olhos do mar

Aos olhos do mar
o som da maré
a brisa e o sal
se cruzam no ar

Aos olhos do mar
Aos olhos do mar

Aos olhos do mar
a lua e a noite
afagam nas rochas
a cor do luar

Aos olhos do mar
Aos olhos do mar

Letra e música: Jorge Cravo
Intérprete: Jorge Cravo e o Grupo Presença de Coimbra (in CD “Canções d’Inquietude”, Numérica, 2005)

Ai, S. João adormeceu

[ S. João ]

Ai, S. João adormeceu
Ai, debaixo da laranjeira;
Ai, caiu-lhe a flor por cima,
Ai, S. João que tão bem cheira.

Ai, S. João p’ra ver as moças
Ai, fez uma fonte de prata;
Ai, as moças não vão à fonte,
Ai, S. João todo se mata.

Ai, S. João fora bom santo
Ai, se não fora tão gaiato;
Ai, levava as moças p’rá fonte,
Ai, iam três e vinham quatro.

Letra e música: Popular
Arranjo e direcção musical: José Manuel David
Intérprete: Gaiteiros de Lisboa (in CD “Avis Rara”, d’Eurídice/d’Orfeu Associação Cultural, 2012)

Apoiou o arco suavemente

[ Bendita Música ]

Apoiou o arco suavemente sobre as cordas
E atacou com toda a naturalidade
Mi fá mi ré dó ré mi fá
E uma a uma dissecou cada passagem
Com preciso e afiado bisturi
Fá sol fá mi ré dó ré mi

E espalhou aos quatro ventos os risos e os lamentos
Era o sangue posto em pé
Sol lá sol fá mi ré dó ré
Aprisionado era um grilo que chamava a sua amada:
Estou aqui!
Fá ré si lá fá dó si lá sol sol lá si

Esquece tudo e vem comigo!
Vibrava mágica a voz do músico
Parindo música…
Música bendita música:
Lá dó si si lá sol lá

Em consequência de uma ousada pirueta
Que o intérprete salvou com frialdade
Mi fá mi ré dó ré mi fá
Meu coração foi pelos ares como um cometa
Pressentindo que andavas por ali
Fá sol fá mi ré dó ré mi

E com a angústia e o talento do final do movimento
Não te encontrava. Porquê?
Sol lá sol fá mi ré dó ré
E entre as cadeiras da segunda galeria, descobriu-te:
Eras de mim!
Fá ré si lá fá dó si lá sol sol lá si

Esquece tudo e vem comigo!
Vibrava mágica a voz do músico
Parindo música…
Música bendita música:
Lá dó si si lá sol lá

Letra e música: Fernando Tordo
Arranjo: Josep Mas “Kitflus”
Intérprete: Fernando Tordo (in CD “Peninsular”, Fernando Tordo, 1997)

Aquela cativa

[ Endechas a Bárbara Escrava ]

Aquela cativa,
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
Que para meus olhos
fosse mais formosa.

Nem no campo flores,
nem no céu estrelas,
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.

Uma graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão,
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
mas bárbara não.

Presença serena
que a tormenta amansa;
nela enfim descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo;
e, pois nela vivo,
é força que viva.

Poema (endechas em redondilha menor): Luís de Camões (ligeiramente adaptado)
Música: José Afonso
Intérprete: José Afonso (in LP “Cantares do Andarilho”, Orfeu, 1968, ree. Movieplay, 1987, 1996, Art’Orfeu Media, 2012)

As folhas dançam desvairadas no ar

[ Valsa do Outono em Novembro ]

As folhas dançam desvairadas no ar
Bailado ao vento, canção de embalar
Valsinha triste num coreto vazio
Regresso à infância e começo
A ter frio, a ter frio…

Ainda me lembro do baloiço do jardim
Da chuva no Outono que caía só p’ra mim
Que céus de Novembro?
Que lugares obscuros corrompem
A esperança nos dias futuros?

Bem sei que ando no meio do temporal
À espera da paz prometida do Natal!
Bem sei que ando no meio do temporal
À espera da paz prometida do Natal!

Memórias dispersas, vertigens, fragmentos
Estilhaços da vida nos meus pensamentos
Que céus de Novembro?
Que lugares obscuros corrompem
A esperança nos dias futuros?

Bem sei que ando no meio do temporal
À espera da paz prometida do Natal!

Que céus de Novembro?
Que lugares obscuros corrompem
A esperança nos dias futuros?

Bem sei que ando no meio do temporal
À espera da paz prometida do Natal!

Da paz prometida do Natal!
Da paz prometida do Natal!
Da paz prometida do Natal!
Da paz prometida do Natal!
Da paz prometida do Natal!
Da paz prometida do Natal!
Da paz prometida do Natal!
Da paz prometida do Natal!

Letra e música: Paulo Ribeiro
Intérprete: Paulo Ribeiro (in CD “No Silêncio das Casas”, Heaven Sound, 2012)

Às vezes

Às vezes, dou por mim quase esquecido
Suspirando, meio-perdido
Sem ninguém p’ra conspirar

Por linhas tortas,
Troco as palavras e abro portas
Invento frases de lamento
Houvesse alguém p’ra duvidar…

Se eu fosse a ti vinha a correr
Não vês que em ti eu posso ser
A sede ardente de um desejo

Se eu fosse a ti vinha a voar
Os pés no ar a querer andar
Sentir o corpo a levitar
Na febre quente de mais um beijo

Às vezes, dou por mim quase rendido
No teu canto preferido
A sorte teima em não passar

Mas sou teimoso
E fico à espera no mesmo lugar
Onde passas sem parar
Houvesse alguém p’ra duvidar…

Se eu fosse a ti vinha a correr
Não vês que em ti eu posso ser
A sede ardente de um desejo

Se eu fosse a ti vinha a voar
Os pés no ar a querer andar
Sentir o corpo a levitar
Na febre quente de mais um beijo

Se eu fosse a ti vinha a correr
Não vês que em ti eu posso ser
A sede ardente de um desejo

Se eu fosse a ti vinha a voar
Os pés no ar a querer andar
Sentir o corpo a levitar
Na febre quente de mais um beijo

Na febre quente de mais um beijo

Letra e música: Jorge Roque
Intérprete: Jorge Roque
Versão original: Jorge Roque (in CD “Às Vezes”, Vidisco, 2013)

Ave-Maria sagrada

[ Ave-Maria Fadista ]

Ave-Maria sagrada
Cheia de graça divina
Oração tão pequenina
De uma beleza elevada

Nosso Senhor é convosco
Bendita sois vós, Maria
Nasceu Vosso Filho um dia
Num palheiro humilde e tosco

Entre as mulheres, Bendita
Bendito é o fruto, a luz
Do vosso ventre, Jesus,
Amor e Graça infinita

Santa Maria das Dores
Mãe de Deus, se for pecado
Tocar e cantar o fado
Rogai por nós, pecadores.

Nenhum fadista tem sorte
Rogai por nós, Virgem-Mãe,
Agora, sempre e também
Na hora da nossa morte.

Letra: Gabriel de Oliveira
Música: Francisco Viana (Vianinha)
Intérprete: Margarida Bessa (in CD “Fado”, Movieplay, 1995)
Versão original: Amália Rodrigues (in Single 78 rpm “Ave-Maria Fadista”, Melodia, 1952; CD “O Melhor de Amália”, vol. III, EMI-VC, 2003)

Baco quando nasceu

[ O Deus de Todo o Vinho ]

Baco quando nasceu
Pediu à mãe um copinho
E disse: – vou ser deus!
Vou ser deus de todo o vinho!

A mãe ficou intrigada
Com tanta sabedoria;
Baco de cara corada
Sabia bem o que queria.

Abençoado tu sejas,
Ó vinho mosto de surdos!
Diz que dás a vista aos cegos
E também a fala aos mudos.

Em vez de leite, bebia
Uns copos de vinho tinto;
Só chorava de alegria,
Que menino tão distinto!

As fraldas eram de parra,
Os caracóis cheios de curvas;
A chucha uma coisa rara
Toda enfeitada com uvas.

Abençoado tu sejas,
Ó vinho mosto de surdos!
Diz que dás a vista aos cegos
E também a fala aos mudos.

Baco lá foi crescendo
Por entre copos de vinho,
Com os amigos bebendo
Pelas tascas do caminho.

Recordando que ao nascer
Pediu à mãe um copinho
E disse: – vou ser deus!
Vou ser deus de todo o vinho!

Abençoado tu sejas,
Ó vinho mosto de surdos!
Diz que dás a vista aos cegos
E também a fala aos mudos.

Letra: José Luís Gordo
Música: Carlos Alberto Moniz
Intérprete: Carlos Alberto Moniz
Versão original: Carlos Alberto Moniz (in Livro/2CD “O Vinho dos Poetas”: CD 1, Carlos Alberto Moniz/Ovação, 2014)

Bastam-me as cinco pontas de uma estrela

[ Poema Destinado a Haver Domingo ]

Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor de um navio em movimento.
E como ave, ficar parada a vê-la.
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara p’ra passear a pé
Essa distância achada p’lo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama num domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa num flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre.

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o Amor por fim tenha recreio.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara p’ra passear a pé
Essa distância achada p’lo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Daquilo que é.
Daquilo que é.
Daquilo que é.

Poema: Natália Correia (ligeiramente adaptado)
Música: Aníbal Raposo
Intérprete: Musica Nostra* (in CD “Cantos da Terra”, Açor/Emiliano Toste, 2009)
Versão original: Aníbal Raposo (in CD “Maré Cheia”, MM Music, 1999)

POEMA DESTINADO A HAVER DOMINGO

(Natália Correia, in “Passaporte”, Lisboa: Edição da autora, 1958; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 205; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 153-154)

Bastam-me as cinco pontas duma estrela
E a cor dum navio em movimento.
E como ave, ficar parada a vê-la.
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio do cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama dum domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa num flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre.

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o Amor por fim tenha recreio.

Brota a Água

Brota a água da pedra bruta:
Sua luta, labuta,
De tudo dessedentar;
Ganha altura, desmesura,
De tanto querer ser mar.

Corre campos, cria formas
Que nem ousara sonhar;
Dança ritmos, canta trovas
Antes de chegar ao mar.

A ciência que o mar tem
Não tem nada de pasmar:
Não há regato nem rio
Que ao mar não vá parar.

Brota a água da pedra bruta:
Sua luta, labuta,
De tudo dessedentar;
Ganha altura, desmesura,
De tanto querer ser mar.

Corre campos, cria formas
Que nem ousara sonhar;
Dança ritmos, canta trovas
Antes de chegar ao mar.

Brota a água da pedra bruta:
Sua luta, labuta,
De tudo dessedentar;
Ganha altura, desmesura,
De tanto querer ser mar.

Corre campos, cria formas
Que nem ousara sonhar;
Dança ritmos, canta trovas
Antes de chegar ao mar.

Letra e música: Pedro Mestre
Intérprete: Pedro Mestre* com Janita Salomé (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015)
Outra versão de Pedro Mestre, com Janita Salomé (in DVD “No CCB: Pedro Mestre & Convidados”, Pedro Mestre, 2017)

Caem tordos e pardais

[ Perdidos pela Estrada ]

Caem tordos e pardais das varandas, dos telhados
Caem todos os normais sem asas levantados
Caídos morrem pela rua na tristeza e pela fome
Porque as vidas não são as suas e sem vida tudo morre

Quem por ti pensa e vê e te diz como tudo deve ser?
Quem a ti te encaminha e faz render?
Quem por ti decide, por ti irá viver?

De tão certos e arrumados nas gavetas inventadas
Nas varandas e telhados, sem da vida verem nada
Seguem do formato o trilho, da moral endiabrada
Que se perdem no caminho todos, todos pela mesma estrada

Quem por ti pensa e vê e te diz como tudo deve ser?
Quem a ti te encaminha e faz render?
Quem por ti decide, por ti irá viver?

Quem por ti… por ti irá viver?
E te diz…

Quem por ti decide, por ti irá viver?

Letra e música: Luís Pucarinho
Intérprete: Luís Pucarinho (in CD “Orgânica Mente Humana”, Caracol Secreto Associação/Alain Vachier Music Editions, 2015)

Cantiga de Vir ao Mundo

Já sentes em ti o que vais ser
Já dormiste um sono profundo
Chegou a hora d’amanhecer
Deixar p’ra trás a porta do mundo

Vais repousar na estrela-d’alva
E dançar a dança dormente
Ouro na pele, incenso e salva
Desabraçar o ninho mais quente

Tens o sol riscado nas asas
Um rei sem roque nem patrão
Um deus a quem dei coração
A sombra incerta do amor

Serás acaso, serás fronteira
Sussurrando temporais
Velhas perguntas, luas inteiras
Vencendo a sina dos mortais

Tens o sol riscado nas asas
Um rei sem roque nem patrão
Um deus a quem dei coração
A sombra incerta do amor

Letra: Miguel Cardina
Música: Pedro Damasceno e Sara Vidal
Arranjo: Diabo a Sete e Julieta Silva
Intérprete: Diabo a Sete* (in CD “Figura de Gente”, Sons Vadios, 2016)

Carolina, esta cantiga é para ti

[ Quando Nasceste ]

Carolina, esta cantiga é para ti.
Um dia desvendarás a poesia
que a música esconde.
Amo-te.
Sinto que o amanhã
é ontem e o hoje
é a revelação
do espírito livre
e inquieto.

Música: Ricardo Ribeiro
Intérprete: Ricardo Ribeiro (in CD “Largo da Memória”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2013)

Chega-se a este ponto

Chega-se a este ponto em que se fica à espera
Em que apetece um ombro o pano de um teatro
um passeio de noite a sós de bicicleta
o riso que ninguém reteve num retrato

Folheia-se num bar o horário da Morte
Encomenda-se um gin enquanto ela não chega
Loucura foi não ter incendiado o bosque
Já não sei em que mês se deu aquela cena

Já não sei em que mês…
Chega-se a este ponto em que se fica à espera

Chega-se a este ponto Arrepiar caminho
Soletrar no passado a imagem do futuro
Abrir uma janela Acender o cachimbo
para deixar no mundo uma herança de fumo

Rola mais um trovão Chega-se a este ponto
em que apetece um ombro e nos pedem um sabre
Em que a rota do Sol é a roda do sono
Chega-se a este ponto em que a gente não sabe

Chega-se a este ponto…
Chega-se a este ponto em que a gente não sabe

Chega-se a este ponto… em que se fica à espera
Chega-se a este ponto… em que a gente não sabe
Chega-se a este ponto… em que se fica à espera

Poema: David Mourão-Ferreira (adaptado)
Música: José Mário Branco
Intérprete: Camané (in CD “Infinito Presente”, Warner Music, 2015)

Chegámos, tu e eu

[ Cena Final ]

Chegámos, tu e eu, ao fim do jogo
O nosso amor morreu, não há mais fogo
Eu compreendo…
Lamento não poder chorar de raiva
Mas entendo

Já palmilhámos juntos muita estrada
E agora que estamos no fim da jornada
Fica um vazio…
Eu não quero mais ser marinheiro
No teu navio

No teu navio
E ter a vida
Por um fio

Não esperes tu de mim que de ti fuja
Não gosto de lavar a roupa suja,
Fica tão mal…
Confesso que nunca pensei ser actor
Da cena final

Se há coisa que comigo não resulta
É sentir que trago a rédea curta,
Eu não aguento…
Do que eu gosto mesmo é de ser livre
Como o vento

Eu não aguento
Quero ser livre
Como o vento

Não esperes tu de mim que de ti fuja
Não gosto de lavar a roupa suja,
Fica tão mal…
Confesso que nunca pensei ser actor
Da cena final

Se há coisa que comigo não resulta
É sentir que trago a rédea curta,
Eu não aguento…
Do que eu gosto mesmo é de ser livre
Como o vento

Eu não aguento
Quero ser livre
Como o vento

Letra e música: Aníbal Raposo
Intérprete: Aníbal Raposo com Vânia Dilac (ao vivo no Teatro da Luz, Lisboa)
Versão original: Aníbal Raposo (in CD “Maré Cheia”, Aníbal Raposo/MM Music, 1999)

Chegou bem devagarinho

[ A Chegada de Maria ]

Chegou bem devagarinho
Pé-ante-pé de mansinho
Mas de vez.
Entre beijos e afagos
Nem dei conta dos estragos
Que ela fez.
Do beco fez avenida
Deu um cheiro à minha vida
De jasmim.
Foi o melro na janela
Já não sei viver sem ela
E dou por mim,
Cantando assim:

Agora que a luz do Outono
Já chegou
E um par de olhos por um outro
Se encantou
Corre, meu coração, corre
À desfilada
Que eu não creio que tu corras
Para nada
Que eu não creio que tu corras
Para nada

Sem agravo nem apelo
Assaltou o meu castelo
E o tomou.
Chegou-se p’rá minha beira
Com olhos de feiticeira
Me encantou.
Seus lábios, minha alegria
Sua pele tão macia
De cetim.
Não há coisa mais amada
E numa doce toada
Eu dou por mim,
Cantando assim:

Agora que a luz do Outono
Já chegou
E um par de olhos por um outro
Se encantou
Corre, meu coração, corre
À desfilada
Que eu sei bem que tu não corres
Para nada
Que eu sei bem que tu não corres
Para nada

Sem agravo nem apelo
Assaltou o meu castelo
E o tomou.
Chegou-se p’rá minha beira
Com olhos de feiticeira
Me encantou.
Seus lábios, minha alegria
Sua pele tão macia
De cetim.
Não há coisa mais amada
E numa doce toada
Eu dou por mim,
Cantando assim:

Agora que a luz do Outono
Já chegou
E um par de olhos por um outro
Se encantou
Corre, meu coração, corre
À desfilada
Que eu sei bem que tu não corres
Para nada
Que eu sei bem que tu não corres
Para nada

Agora que a luz do Outono
Já chegou
E um par de olhos por um outro
Se encantou
Corre, meu coração, corre
À desfilada
Que eu sei bem que tu não corres
Para nada
Que eu sei bem que tu não corres
Para nada

Letra e música: Aníbal Raposo (Dezembro de 2001)
Intérprete: Aníbal Raposo
Versão original: Aníbal Raposo (in CD “A Palavra e o Canto”, Açor/Emiliano Toste, 2005)

Cheiro bom

[ Há Vida no Bairro ]

Cheiro bom
Risos e gente a conversar

No jardim
homens que sabem o que jogar

Há mais um
vizinho novo para cantar

A canção
marcha que o Bairro há-de ganhar

E tu quem és? De donde vens?
Porque não te chegas mais?
Vem cá ver, acreditar
que as pessoas são bens reais!

Ser feliz
é nunca mais voltar
a estar só

No jardim
falta uma peça
ao dominó

Sê mais um para mostrar
como se canta
em dó

Aprender
como se dança
sem levantar pó

O que é meu é p’ra dar
Deus não quer tralha no Céu
Não há nada p’ra guardar
Viver já é um troféu

O que é meu é p’ra dar
Deus não quer tralha no Céu
Não há nada p’ra guardar
Viver já é um troféu

Ser feliz
é nunca mais voltar
a estar só

No jardim
falta uma peça
ao dominó

Sê mais um para mostrar
como se canta
em dó

Aprender
como se dança
sem levantar pó

Letra: Eugénia Ávila Ramos
Música: Tiago Oliveira
Intérprete: Rua da Lua
Versão original: Rua da Lua (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)

Com um copo de vinho

[ A Tua Boca Tem Sabor a Mosto ]

Com um copo de vinho, afogo
Esta mágoa de ver-me perdido
Por um bago de esp’rança, que provo
No lagar do teu corpo despido.
És de uma casta que se apanha a gosto:
Claretes, verdelhos…
A tua boca tem sabor a mosto
E a frutos vermelhos.
E a fome que te sinto no meu peito
Vai morrer de qualquer jeito
No balseiro desta vida.
Depois, abre-se a porta da adega
E o teu corpo já se apega
Numa prova de carinho.

Com um copo de vinho, levanto
Este brinde ao corpo que canto.
Ao teu ombro murmuro baixinho:
Este corpo que bebo é vinho.

Com um copo de vinho, aqueço
A palavra ternura e teço
Estes versos de uva que esmago
Com vontade de seres um bago.
Beber-te toda neste copo imenso
Sentindo que é cedo
P’ra te deixar saber que tenho medo
Que fujas… E penso:
O amor é como o vinho encorpado,
Deixa o corpo orvalhado
Pelos beijos da manhã.
Teu corpo é preciso esconder,
Pois só eu posso saber
O sabor que o vinho tem.
Com um copo de vinho, levanto
Este brinde ao corpo que canto.
Ao teu ombro murmuro baixinho:
Este corpo que bebo é vinho.

Letra: Álamo Oliveira
Música: Carlos Alberto Moniz
Intérprete: Carlos Alberto Moniz
Versão original: Carlos Alberto Moniz (in Livro/2CD “O Vinho dos Poetas”: CD 1, Carlos Alberto Moniz/Ovação, 2014)

Como és tão prendada

[ Assim Como Quem Não Quer ]

Como és tão prendada!
Dá-me um dedinho
Um só para eu provar
De que é feito o carinho
Assim como quem não quer

Como és tão docinha!
Deixa me trincar
Essa tenra bochechinha
Que me põe a salivar
Assim como quem não quer

Eu não sei, não sei, não
De que padece o coração
Saciada a gula sobra o embaraço
Assim como quem não quer

Como és tão prendada!
Dá-me um dedinho
Um só para eu provar
De que é feito o carinho
Assim como quem não quer

Como és tão docinha!
Deixa me trincar
Essa tenra bochechinha
Que me põe a salivar
Assim como quem não quer

Eu não sei, não sei, não
De que padece o coração
Saciada a gula sobra o embaraço
Assim como quem não quer

Letra e música: Manuel Maio
Intérprete: A Presença das Formigas com João Afonso & Teresa Campos (in CD “Pé de Vento”, A Presença das Formigas/Careto/XMusic, 2014)

Coração Estoirado

[ Coração de Fita-Cola ]

Coração Estoirado,
Peito feito mola
Pelas ruas a teu lado
Colado com fita-cola

Sempre vacilado,
Sempre a 100 à hora
Sem saber o que fazer
Só tu perdes p’la demora

E num beijo longo, só te quero sentir
Corro, sinto perigo, paro p’ra fingir

Sente a Solidão, meu corpo no tempo
Dá-me a tua mão, meu tormento

Os teus passos mais distantes,
Sempre sem saber
Se o futuro agora é antes
O que mais não posso ter

Saio porta fora
Sem saber o que escrever
Rasgo a vida e vou-me embora
Nas palavras por dizer

E num beijo longo, só te quero sentir
Corro, sinto perigo, paro p’ra fingir

Sente a Solidão, meu corpo no tempo
Dá-me a tua mão, meu tormento

Sobre a tua mão
Escrever o meu nome
A palavra mais sincera
Antes de a dizer, já era
O verbo mais que perfeito
Na perfeição desse jeito
Com que a tua boca
Diz e pede mais
Amor

Letra e música: Jorge Roque
Intérprete: Jorge Roque
Versão original: Jorge Roque (in CD “Às Vezes”, Vidisco, 2013)

Coram de vermelho

[ Damas da Côrte ]

Coram de vermelho
As damas de toda a côrte:
Seu costume é velho,
Não há moda que o troque!

E se por magia
Sua pele mudou de cor,
Foi amor de um dia,
Não dura mas tem sabor…

Casam cinco damas
E outras tantas são solteiras;
Num amor em chamas
As damas são as primeiras!

Damas de cristal,
Coração tão valioso,
Riso ou castiçal
E um olhar mui carinhoso…

Letra e música: José Flávio Martins
Intérprete: Senhor Vadio* (in CD “Cartas de um Marinheiro”, José Flávio Martins/iPlay, 2013) [>> YouTube] [ao vivo nos estúdios do Porto Canal, 12 Nov. 2013 – a partir de 8′:06” >> Sapo Vídeos]
Versão original: Frei Fado d’El Rei (in CD “Danças no Tempo”, Columbia/Sony Música, 1995) [>> YouTube]

Corre a gente decidida

[ A Correr ]

Corre a gente decidida
P’ra ter a vida que quer,
Sem repararmos que a vida
Passa por nós a correr;

Às vezes até esquecemos,
Nessa louca correria,
Por que motivo corremos
E p’ra onde se corria.

Buscando novos sabores
Corre-se atrás de petiscos;
Quem corre atrás de valores
Corre sempre grandes riscos;

E dá p’ra ser escorraçado
Correr de forma diferente;
Há quem seja acorrentado
Por correr contra a corrente.

Num constante corrupio
Já nem sequer nos ocorre
Que a correr até o rio,
Chegando ao mar, também morre;

Ou atrás do prejuízo
Ou à frente da ameaça
Corremos sem ser preciso:
E a correr, a vida passa.

Percorrendo o seu caminho,
Correndo atrás dum sentido
Há quem dance o corridinho;
Eu canto o fado corrido

E o que me ocorre agora
P’ra não correr qualquer perigo
É correr daqui p’ra fora
Antes que corram comigo.

Vou correr daqui p’ra fora
Antes que corram comigo!

Letra: Manuela de Freitas
Música: Alain Oulman (“O Pião”)
Intérprete: Camané (in CD “Infinito Presente”, Warner Music, 2015)

Creio nos anjos

[ Credo ]

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.

Poema: Natália Correia (in “Sonetos Românticos”, 1990; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias”, 1993)
Música: Janita Salomé (in CD “Raiano”, Farol Música, 1994)

Cruzaste horizontes

[ Nas Estradas a Guiar ]

Cruzaste horizontes
Entre curvas e montes…
Ó emigrante, eu quero apenas te lembrar!
Passaste montanhas,
Estradas estranhas…
Ó emigrante, eu quero apenas te ajudar!
Vens de tão longe, guiar bem é teu querer…
Há tantas vidas perdidas p’ra recordar…
Olha que a ti também te pode acontecer:
Na estrada a morte espreita,
Não a queiras encontrar!
Tens a vida p’ra viver
E tantos sonhos p’ra sonhar…

Trazes saudades contigo, vem devagar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!
Trazes saudades contigo p’ra festejar
Tanto tempo ausente,
Há sempre tempo p’ra chegar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!

Trazes saudades contigo, vem devagar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!
Trazes saudades contigo p’ra festejar
Tanto tempo ausente,
Há sempre tempo p’ra chegar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!

Cruzaste fronteiras
Com tantas canseiras…
Ó emigrante, eu quero apenas te ajudar!
Vens sorridente,
Feliz e tão contente…
Ó emigrante, eu quero apenas te lembrar!
Há tantas festas, romarias p’ra bailar…
A vida são dois dias, não te deixes descuidar!
Que tenhas sorte por aqui no teu país!
Que sejas bem feliz
Nas estradas a guiar!
Tens a vida p’ra viver
E tantos sonhos p’ra sonhar…

Trazes saudades contigo, vem devagar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!
Trazes saudades contigo p’ra festejar
Tanto tempo ausente,
Há sempre tempo p’ra chegar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!

Trazes saudades contigo, vem devagar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!
Trazes saudades contigo p’ra festejar
Tanto tempo ausente,
Há sempre tempo p’ra chegar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!

Trazes saudades contigo, vem devagar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!
Trazes saudades contigo p’ra festejar
Tanto tempo ausente,
Há sempre tempo p’ra chegar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!

Trazes saudades contigo, vem devagar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!
Trazes saudades contigo p’ra festejar
Tanto tempo ausente,
Há sempre tempo p’ra chegar!…

Letra e música: Dino Meira
Arranjo: Ramon Galarza
Intérprete: Dino Meira (in single “Adeus Paris, Até Lisboa / Nas Estradas a Guiar”, Philips/Polygram, 1983; CD “O Melhor de Dino Meira”, col. Coração Português, Mercury/Universal, 1999; CD “O Melhor de Dino Meira”, Universal, 2007)

Dá-me o amanhã

Dá-me o amanhã
Dá-mo, que depois de amanhã já cá não estou
Vou na senda dos demais que se perdem

Quero o teu calor
Quero o teu ser, o teu eu, o teu haver
Quero provar-te e beber a tua dor

Quero-te nos braços
Toma-me nos braços, quero as lágrimas que choras
Não por mim, mas já que as choras
Quero a pele que elas molham
E os meus lábios as sorvam
Quero o corpo onde moras

Dá-me o amanhã
Dá-mo, que depois de amanhã já cá não estou
Vou na senda dos demais que se perdem

Quero-te as entranhas
Quero-te por dentro e por fora e já agora
Quero roubar-te os sentidos
Quero-te a ti por inteiro
Quero que unamos destinos
Quero-te a ti por inteiro
Por inteiro

Letra e música: Manuel Maio
Intérprete: A Presença das Formigas (in CD “Pé de Vento”, A Presença das Formigas/Careto/XMusic, 2014)

Dança comigo

Dança comigo, morena
Leveza de pena
Esta dança breve
Dança e rodopia
Solta-me a alegria
De quem nada deve

Acende-me a cara, o rosto
Os lábios de mosto
Riso de marfim
Requebra a cintura
Que és a criatura
Nascida para mim

Vamos, a dança é louca
Dá-me a tua boca
Que este beijo é meu
Dança comigo amada
Eu já estou na escada
Que me leva ao céu

Ao som da concertina
(Cinturinha fina
Pele de cetim)
Dança, meu amor
Não sei doutra flor
Que bem dance assim

Dança com fantasia
No fim deste dia
Que se vai embora
No passo da vida
Dancemos querida
Que é a nossa hora

Vamos, a dança é louca
Dá-me a tua boca
Que este beijo é meu
Dança comigo amada
Eu já estou na escada
Que me leva ao céu

Vamos, a dança é louca
Dá-me a tua boca
Que este beijo é meu
Dança comigo amada
Eu já estou na escada
Que me leva ao céu

Vamos, a dança é louca
Dá-me a tua boca
Que este beijo é meu
Dança comigo amada
Eu já estou na escada
Que me leva ao céu

Letra e música: Aníbal Raposo (2006-09-26)
Intérprete: Aníbal Raposo
Versão original: Aníbal Raposo (in CD “Rocha da Relva”, Aníbal Raposo/Global Point Music, 2013)

Das casas que ninguém construiu

Das casas que ninguém construiu
me deram esta para morar:
ficou-me o céu como tecto
e o vento como lençóis…
Dos trapos que atiram fora
me permitiram um para eu vestir.
Das chuvas que caem do tecto do meu lar
me consentiram abafos para as quatro estações.
(Ah, se não fosse às vezes fazer sol…)
Das mulheres que ninguém quer
me negaram a última de todas,
a última de todas as mulheres!
E quando notaram que eu parecia um homem,
pois tinha
ouvidos para ouvir
e olhos para ver,
em todas as estradas do mundo
me gritaram:
— Mendigo, vai ver o fim das estradas todas do mundo!

Poema: Manuel da Fonseca (in “Rosa-dos-Ventos”, Lisboa: Imprensa Baroeth, 1940; “Poemas Completos”, Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958; “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 3.ª edição, Lisboa: Portugália Editora, 1969 – p. 35-36; “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 5.ª edição, Lisboa: Forja, 1975 – p. 58)
Música: Paulo Ribeiro
Arranjo: Jorge Moniz
Intérprete: Paulo Ribeiro
Versão original: Paulo Ribeiro (in CD “O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis”, Açor/Emiliano Toste, 2017)

[ O Vagabundo ]

Dás mais um passo no escuro

[ Dalla ]

Dás mais um passo no escuro
Sem olhar para trás a pensar
Nem anos nem meses, sem contar as vezes
Que a vida te olhou a cantar

Passas o circo a correr,
A banda sempre a tocar
Sem rede e sem chão, agarras a minha mão
E pedes p’ra eu te salvar

Se eu fosse um anjo, tu serias
Um ser Maior, maior que encanto
Cantas a noite em vez do dia
Guardas a paz num doce manto
Às vezes cantas num leve beijo brando

Lamentas que riam de ti,
Pensas diferente e depois
Libertas Amor sem qualquer pudor,
Singela partilha entre dois
A vida passou, e tu já sentes
Um pouco mais de solidão
Acabas cansado, p’ra sempre roubado
Do ouro do teu coração

Se eu fosse um anjo, tu serias
Um ser Maior, maior que encanto
Cantas a noite em vez do dia
Guardas a paz num doce manto
Às vezes cantas num leve beijo brando

Letra e música: Jorge Roque
Intérprete: Jorge Roque
Versão original: Jorge Roque (in CD “Às Vezes”, Vidisco, 2013)

De manhãzinha, voltou a Rosa

[ Nova Rosa da Mouraria ]

De manhãzinha, voltou a Rosa sem dizer nada;
Vinha sozinha e mais formosa, bem apressada;
Parou na Rua do Capelão, onde esperava
O tal rapaz que há muitos anos a namorava.

Ai quem diria
Que um dia a Rosa da Mouraria
Voltava àquela casa,
No Largo da Severa.

Ai quem diria
Que a Rosa da Mouraria
Tinha a vida bem guardada
P’ra voltar a ser quem era.

Viu sardinheiras e margaridas numa janela,
Namoradeiras entristecidas à espera dela;
Agora a casa tem o encanto que tinha outrora,
Até a Rosa já prometeu não ir embora.

Ai quem diria
Que um dia a Rosa da Mouraria
Voltava àquela casa,
No Largo da Severa.

Ai quem diria
Que a Rosa da Mouraria
Tinha a vida bem guardada
P’ra voltar a ser quem era.

Ai quem diria
Que um dia a Rosa da Mouraria
Voltava àquela casa,
No Largo da Severa.

Ai quem diria
Que a Rosa da Mouraria
Tinha a vida bem guardada
P’ra voltar a ser quem era.

Ai quem diria
Que a Rosa da Mouraria
Tinha a vida bem guardada
P’ra voltar a ser quem era.

Letra e música: Marco Oliveira
Intérprete: Tânia Oleiro
Versão original: Tânia Oleiro (in CD “Terços de Fado”, Museu do Fado Discos, 2016)

De São Mateus ao Pesqueiro

[ Vinho de Cheiro ]

De São Mateus ao Pesqueiro
A recta só tem três curvas;
Em São Mateus vinho de cheiro
Mas no Pesqueiro é que há uvas.

Porto Martins: uva preta;
Biscoitos: chão de verdelho;
Da Praia inté à Serreta:
Vinho novo, vinho velho.

Vinho de cheiro,
Vinho de cheiro,
Ai, ai, meu vinho festeiro!
Vinho de cheiro,
Vinho de cheiro,
O povo chama ao terreiro.

‘Tá um sol qu’inté consola,
O adro ficou à cunha;
Bota aqui mais meia-bola
P’rás favas de molho de unha!

Empina o canjirão!
Leva à boca a teladeira!
O toiro é um malão,
Não saias da minha beira!

Vinho de cheiro,
Vinho de cheiro,
Ai, ai, meu vinho festeiro!
Vinho de cheiro,
Vinho de cheiro,
O povo chama ao terreiro.

Sempre desde pechinchinho
Que sonhava ser moleiro:
E a mó do meu moinho
Só rodava a vinho de cheiro.

P’ra que fosse um matulão
Mamãe teve este cuidado:
Comi das sopas que dão
Ao cavalo quando cansado.

Vinho de cheiro,
Vinho de cheiro,
Ai, ai, meu vinho festeiro!
Vinho de cheiro,
Vinho de cheiro,
O povo chama ao terreiro.

Nasci no mês de Janeiro,
Era um bezerro mamão:
Só mamava vinho de cheiro
Na teta dum garrafão.

No “Biéxe” comprei uns blue jeans
Todos brancos – um brinquinho;
Mas ao chupar uns “candins”
Borrei as calças de vinho.

Vinho de cheiro,
Vinho de cheiro,
Ai, ai, meu vinho festeiro!
Vinho de cheiro,
Vinho de cheiro,
O povo chama ao terreiro.

Vinho de cheiro,
Vinho de cheiro,
Ai, ai, meu vinho festeiro!
Vinho de cheiro,
Vinho de cheiro,
O povo chama ao terreiro.

Letra: Vasco Pereira da Costa
Música: Carlos Alberto Moniz
Intérprete: Carlos Alberto Moniz
Versão original: Carlos Alberto Moniz (in Livro/2CD “O Vinho dos Poetas”: CD 2, Carlos Alberto Moniz/Ovação, 2014)

De um trapo velho

[ Cinco Vidas ]

De um trapo velho
fiz cinco saias que querem rodar
Num pano branco
cosi cinco bolsos para te levar

De saco às costas parti
sem saber se ia voltar
Cabeça erguida
e olhos de quem quer olhar

Pus-te na minha mão
cinco dedos para me escapar
O mundo deu-me então
cinco vidas para me curar

E lá do bolso de trás
perguntaste se ainda podias falar
Cabeça erguida, respondi:
tanto me faz

Pela estrada andei
quantas voltas eu dei
sem encontrar
um motivo para voltar

De um trapo velho fiz
cinco saias que querem rodar
Num pano branco cosi
cinco bolsos para te levar

E lá do bolso de trás
perguntaste quando ia parar
Cabeça erguida, respondi:
até ter paz

Pela estrada andei
quantas voltas eu dei
sem encontrar
um motivo para voltar

tanto me faz
até ter paz

Letra: Eugénia Ávila Ramos
Música: Tiago Oliveira
Intérprete: Rua da Lua
Versão original: Rua da Lua (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)

Deixei de olhar p’ra quem fui

[ Cantiga do Tempo Novo ]

Deixei de olhar p’ra quem fui,
Do passado estou ausente;
Às vezes mais vale a pena
Rir de tudo o que faz pena
Da alma triste da gente.

Vou lançar mãos à aventura,
Correr noutra direcção;
Quanto mais nos lamentamos
Ainda mais presos ficamos
E nos dói o coração.

Quando me ponho a pensar
Em alguém que tanto quis,
Já não me sento a chorar
E até me dá p’ra cantar
Modas que um dia lhe fiz.

Agora sinto-me livre,
Sem nada p’ra me prender:
E vou pela estrada fora
Rumo ao sul vou sem demora,
Basta o sol p’ra me aquecer.

A nossa vida é um mar
Com muitas marés e vagas:
Não temos nada a perder,
O melhor mesmo é viver
Combatendo as nossas mágoas.

Tenho o mundo à minha espera,
Há ilhas por descobrir:
E há uma vontade nova,
Um tempo que se renova,
Novo amor que vai surgir.

Letra e música: Paulo Ribeiro
Arranjo: Há Lobos Sem Ser na Serra
Intérprete: Há Lobos Sem Ser na Serra (in CD “Cantares do Sul e da Utopia”, Há Lobos Sem Ser na Serra/Alain Vachier Music Editions, 2016)
Versão original: Paulo Ribeiro com o Grupo Coral e Etnográfico “Os Camponeses de Pias” (in CD “Aqui Tão Perto do Sol”, EMI-VC, 2002)
Outra versão de Paulo Ribeiro (in CD “Canções 1998-2002”, Paulo Ribeiro, 2014)

Deixo-te ao postigo

[ Amores de Jericó ]

Deixo-te ao postigo
Um lenço e uma rosa;
Vou partir p’ra longe,
Partir sem demora.

Não chores por mim!
Eu não o mereço:
Sou sombra fugaz
Mas não te esqueço.

Não queiras saber
O que eu não te digo:
Sou fora-da-lei,
Sou mais que um bandido.

Não venhas por mim
Que eu não sei amar!
Com a faca nos dentes
Meu verbo é zarpar.

O Sol já desponta,
Vai-se a madrugada:
O perigo espreita;
Adeus, minha amada!

Não quero teus ais,
Ouve o que eu te digo:
Ande eu onde andar,
Estarás sempre comigo.

Não queiras saber
O que eu não te digo:
Sou fora-da-lei,
Sou mais que um bandido.

Não venhas por mim
Que eu não sei amar!
Com a faca nos dentes
Meu verbo é zarpar.

Não queiras saber
O que eu não te digo:
Sou fora-da-lei,
Sou mais que um bandido.

Não venhas por mim
Que eu não sei amar!
Com a faca nos dentes
Meu verbo é zarpar.

Letra e música: Celina da Piedade e Alex Gaspar
Intérprete: Celina da Piedade
Versão original: Celina da Piedade (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)

Dizem

Dizem que nunca te amei,
Que fui sempre um ‘bon vivant’
E que vou ser sempre assim.
Também dizem que sou ‘gay’,
Que durmo em qualquer divã
Quando a noite chega ao fim.

Dizem que não te mereço,
Que p’ra mim tudo tem preço:
Sou oferta e oferecido.
Dizem que eu ando à mercê,
Que não sou o que se vê:
Bandido e caso perdido.

Dizem que fui e não vou,
Dizem que estive e não estou,
Mas que devia ter ido.
Também dizem, quando estou,
Que o dia bom já passou:
Não sou tido nem ouvido.

Dizem uns que outros não dizem,
Porque não querem saber
Do tanto que há por dizer.
Dos tantos que tanto dizem,
Nada sabem do que dizem
E mais nada vão saber.

Dos tantos que tanto dizem,
Nada sabem do que dizem
E mais nada vão saber.

Letra: Duarte
Música: Carlos da Maia (Fado Perseguição)
Intérprete: Duarte* (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018)

Do Cerro venho descendo

[ Piedra y Camino ]

Do Cerro venho descendo,
Caminho e pedra;
Trago enredada na alma, vida,
Uma tristeza.

Acusas de não querer-te,
Isso não faço:
Talvez não compreendas nunca, vida,
Porque me afasto.

É o meu destino,
Pedra e caminho;
De um sonho longínquo e belo, vida,
Sou peregrino.

Por mais que a dita busque,
Vivo penando;
E quando devo ficar, vida,
Eu vou andando.

Às vezes sou como um rio,
Chego cantando;
E sem que ninguém o saiba, vida,
Sigo chorando.

É o meu destino,
Pedra e caminho;
De um sonho longínquo e belo, vida,
Sou peregrino.

Letra e música: Atahualpa Yupanqui
Adaptação ao português: Celina da Piedade
Intérprete: Celina da Piedade* (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)
Versão original: Atahualpa Yupanqui (in LP “Camino del Indio”, RCA Victor (Argentina), 1964; CD “Atahualpa Yupanqui”, Calle Mayor (Espanha), 2017)
Outra versão: Mercedes Sosa (in LP “Mercedes Sosa interpreta Atahualpa Yupanqui”, Philips (Argentina), 1977, reed. Universal Music Argentina, 2010)

E o canto de quem dera

[ Quem Dera ]

E o canto de quem dera
Não era bem seu canto;
Seria profecia… Não era,
E fez-se santo…

Quem dera que chovesse
E o mar fosse p’ra o céu,
P’ra que eu me convencesse
A bailar com um só véu!

Misturo a minha espera,
Sacudo o meu capote,
E na história quem me dera
Que o “burro” fosse mote…

Três cantos desta história
Ficaram por contar;
Só mesmo na memória
Quem dera recordar…

Saída de um só dia
Com traje a rigor:
Quem dera a sinfonia
Cantasse a sua cor…

A cor do teu lamento
Sem tempo de pensar,
A deusa do teu vento
Nasceu no teu olhar…

Ah! Se eu soubesse…
Ou adormecesse,
Voava em tons de azul;
Quem dera que eu soubesse…

E se uma quimera
Logo me quisesse…
Quem dera ela fosse,
Na espera que eu soubesse…

E o canto de quem dera
Não era bem seu canto;
Seria profecia… Não era,
E fez-se santo…

Quem dera que chovesse
E o mar fosse p’ra o céu,
P’ra que eu me convencesse
A bailar com um só véu!

Misturo a minha espera,
Sacudo o meu capote,
E na história quem me dera
Que o “burro” fosse mote…

Ah! Se eu soubesse…
Ou adormecesse,
Voava em tons de azul;
Quem dera que eu soubesse…

E se uma quimera
Logo me quisesse…
Quem dera ela fosse,
Na espera que eu…

Ah! Se eu soubesse…
Voava em tons de azul,
E se uma quimera
Na espera que eu…

Ah! Se eu soubesse…
Ou adormecesse,
Voava em tons de azul;
Quem dera que eu soubesse…

E se uma quimera
Logo me quisesse…
Quem dera ela fosse,
Na espera que eu soubesse…

Ah! Se eu soubesse…
Ou adormecesse,
Voava em tons de azul,
Quem dera que eu soubesse…

E se uma quimera
Logo me quisesse…
Quem dera ela fosse,
Na espera que eu…

Ah! Se eu soubesse…
Ou adormecesse,
Voava em tons de azul;
Quem dera que eu soubesse…

E se uma quimera
Logo me quisesse…
Quem dera ela fosse,
Na espera que eu soubesse…

Letra: José Flávio Martins
Música: José Flávio Martins e Paulo Coelho de Castro
Intérprete: Senhor Vadio* (in CD “Cartas de um Marinheiro”, José Flávio Martins/iPlay, 2013)

É ou Não É?

Cos’è, cos’è
che fa andare la filanda?
È chiara la faccenda
son quelle come me.

E c’è, e c’è
che ci lascio sul telaio
le lacrime del guaio
di aver amato te.

É ou não é
que o trabalho dignifica?
É assim que nos explica
o rifão que nunca falha.
É ou não é
que disto toda a verdade
é que só por dignidade,
no mundo, ninguém trabalha?

É ou não é
que o povo nos diz que não,
que o nariz não é feição,
seja grande ou delicado?
No meio da cara
tem por força que se ver
mesmo a quem não o meter
aonde não é chamado.

E digam lá se é assim ou não é?
Ahi l’amore, ai l’amore!…
Digam lá se é assim ou não é?
Ahi l’amore che cos’è?

Cos’è, cos’è
questa grande differenza
se non facevi senza
di questi occhi miei?

Perchè, perchè
nella mente del padrone
ha il cuore di cotone
la gente come me?

É ou não é
que um velho que à rua saia
pensa, ao ver a mini-saia:
“Este mundo está perdido!”?
Mas se voltasse
agora a ser rapazote
acharia que o saiote
é muitíssimo comprido.

É ou não é
bondosa a humanidade?
Todos sabem que a bondade
é que faz ganhar a Céu;
Mas a verdade,
nua sem salamaleque,
tive de a aprender, é que…
ai de mim se não for eu!

E digam lá se é assim ou não é?
Ahi l’amore, ai l’amore!…
Digam lá se é assim ou não é?
Ahi l’amore che cos’è?

Letra e música: Alberto Fialho Janes (com versos da versão italiana, intitulada “La Filanda”, escrita por Vito Pallavicini para a cantora Milva, in single “La Filanda / Un Uomo in Meno”, Dischi Ricordi, 1971, LP “La Filanda e Altre Storie”, Dischi Ricordi, 1972)
Intérpretes: José Barros & Mimmo Epifani* (ao vivo no Teatro da Luz, Lisboa)
Versão discográfica de José Barros & Mimmo Epifani (in CD “Mar da Lua”, José Barros/Tradisom, 2015)
Versão original: Amália Rodrigues (in EP “É ou Não É?”, Columbia/VC, 1970; LP “Oiça Lá ó Senhor Vinho”, Columbia/VC, 1971, reed. EMI-VC, 1992; 2LP “O Melhor de Amália: Vol. II – Tudo Isto é Fado”: LP 2, EMI-VC, 1985, reed. EMI-VC, 2000)

Entre Sodoma e Gomorra

Entre Sodoma e Gomorra
entrou na cama a barata
a virginal favorita
que às escondidas me mata

São horas de perder horas
ou de minutos apenas
Entre Sodoma e Gomorra
fui ver o mar a Atenas

Entre Sodoma e Gomorra
entrou na cama a barata
a virginal favorita
que às escondidas me mata

Entre Sodoma e Gomorra
somaras a minha vida
Barata, minha barata
não me deixes à deriva

Entre Sodoma e Gomorra
entrou na cama a barata
a virginal favorita
que às escondidas me mata

São horas de perder horas
ou de minutos apenas
Entre Sodoma e Gomorra
fui ver o mar a Atenas

Poema: José Afonso (in “José Afonso: Textos e Canções”, org. J.H. Santos Barros, Lisboa: Assírio e Alvim, 1983 – p. 321; 3.ª edição revista, org. Elfriede Engelmayer, Lisboa: Relógio d’Água, 2000 – p. 75)
Música: João Afonso Lima e Zé Lima
Intérprete: João Afonso* (in CD “Missangas”, Mercury/Polygram, 1997, reed. Universal Music, 2017)
Versão original: José Mário Branco, Amélia Muge e João Afonso (in 2CD “Maio Maduro Maio”: CD 1, Columbia/Sony Música, 1995)

Era redondo o vocábulo

[ Era um Redondo Vocábulo ]

Era redondo o vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar
Nos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio
Convocando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincavam e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa

Era redondo o vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar
Nos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio
Convocando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincavam e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa

Poema e música: José Afonso
Intérprete: Janita Salomé (ao vivo no Estúdio 3 da Rádio e Televisão de Portugal, Lisboa)
Versão anterior de Janita Salomé (in CD “Valsa dos Poetas”, Cantar ao Sol/Ponto Zurca, 2018)
Outra versão de Janita Salomé, grav. ao vivo no CCB em 1998 (in CD “Utopia: Vitorino e Janita Salomé cantam José Afonso (ao vivo)”, EMI-VC, 2004)
Versão original: José Afonso (in LP “Venham Mais Cinco”, Orfeu, 1973, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art’Orfeu Media, 2012)

Estava difícil combinar um café

[ Sabes? Eu Também ]

Estava difícil combinar um café, mas desta vez lá foi
Talvez possamos falar do que já lá vai, que às vezes ainda dói
Da coragem esquecida que já se perdeu
Quem deixou por dizer: foste tu ou fui eu?
Da lembrança guardada num canto qualquer
Da palavra apagada por não se entender
E dizer-te num gesto mais enternecido:
“Sabes? Eu também… ando um bocado perdido.”

Vou preparar-te um jantar. Com certeza, vou ser original
E vou escolher-te um bom vinho. Tu sabes, nunca me saí mal
E falar-te das voltas que a vida trocou
Das verdades que o tempo já entrelaçou
Entre sonhos queimados lançados ao vento
Entre a cor de um sorriso e o tom de um lamento
E dizer-te de um sopro empurrado pela sorte:
“Sabes? Eu também… ando um bocado sem norte.”

Olha, não fiz sobremesa. Deixa lá, fica p’ra a outra vez
Vamos deixar mais um copo ao falar dos quês e dos porquês
Uma história que nos apeteça lembrar
Um episódio que nunca nos deu p’ra contar
Um segredo guardado p’lo cair do pano
Um encontro marcado no cais de um engano
E dizer-te na hora em que a voz fraquejar:
“Sabes? Eu também… me apetece chorar.”

E vou chamar um táxi. É hora p’ra te levar a casa
Era suposto um de nós nesta altura ficar com a alma em brasa
Mas a vida é assim, não aconteceu
Pouco importa dizer: foste tu ou fui eu?
O que importa é o abraço que estava por dar
Há-de haver uma próxima e mais um jantar
E dizer-te a sorrir: “Já passa das três,
Dorme bem! E, quem sabe?, um dia talvez…”

Um dia talvez…
Um dia talvez…
Um dia talvez…

Letra e música: Sebastião Antunes
Arranjo: Miguel Veras
Intérprete: Sebastião Antunes* (in CD “Singular”, Sebastião Antunes & Quadrilha/Alain Vachier Music Editions, 2017)
Versão original: Sebastião Antunes (in CD “Cá Dentro”, Vachier & Associados, 2009)

Fui aranha coxa

[ Mãos de Aranha Coxa ]

Letra: Daniel Catarino
Música: Bicho do Mato
Intérprete: Bicho do Mato* com Ana Miró (in CD “A Vingança do Bicho do Mato”, Bicho do Mato/Alain Vachier Music Editions, 2016) [>> YouTube] [videoclip oficial / gravado no Teatro Garcia de Resende, Évora, Jul. 2016 >> YouTube]

Fui aranha coxa na chuva de Verão
De pata ao peito, grades no coração
Se é que o tenho, sei que a teia é só um lençol
Ou talvez enleio tosco de um aranhol
Ou teia que virou colcha
P’ra mim, aranha coxa

Fui aranha coxa numa teia qualquer
Espectadora no processo de envelhecer
Velha para a vida, nova para morrer
À espera que a sorte mude o que acontecer
Cabe a vida numa trouxa
Pobre aranha coxa!

Com mãos de aranha
Com mãos de aranha coxa
Eu vou tecendo
Vou tecendo

Velha para a vida, nova para morrer
À espera que a sorte mude o que acontecer
Ou que alguém varra atrás da porta
E eu vire aranha morta

Com mãos de aranha
Com mãos de aranha coxa
Eu vou tecendo
Vou tecendo
Vou tecendo
Vou tecendo
Vou tecendo
Vou tecendo…

Há dias que nascem

[ Às Voltas nas Incertezas ]

Há dias que nascem
P’ra não ter um fim
Sentidos inversos
Cá dentro de mim
E vou enganando a dor
Fingindo que é mesmo assim

Desejos secretos
De cor carmesim
Agora vazios
Outrora jardins
E meus silêncios que escondem
O sonho de um querubim

Às voltas nas incertezas
Dançando sobre as brasas
Que as penas magoadas
São ar nas minhas asas
E parto rumo a um novo dia
Virgem como da primeira vez

Amores que se trazem
De pó das estrelas
Das cinzas renascem
Montados sem selas
Que em lume ardendo bem lento
Se forjam as almas belas

Às voltas…
Às voltas…

Às voltas nas incertezas
Dançando sobre as brasas
Que as penas magoadas
São ar nas minhas asas
E parto rumo ao infinito
Como se fosse a primeira vez

Letra e música: Rui Filipe Reis
Intérprete: Rosa Negra* (in CD “Fado Mutante”, iPlay, 2011)

Há um espaço entre tu e eu

[ Orla dos Malditos ]

Há um espaço entre tu e eu
Sem esforço sinto-o aqui
Em todo o lado
Está de vazio ocupado

Espaço de nada, de ricos segredos
De histórias, de homens, de medos
Inexplorados
De curandeiros, de magos

Diria mesmo que é baldio,
Nasceu da luxúria,
Do fogo, do prazer, do cio,
E nada tem de aconchegado

De todos os monstros que vivem,
Os mais estranhos habitam ao lado

E há povos malditos,
Avós (a vós): filhos proscritos
No mar
Onde estou

Morrem de esperança, de sede, de fome
De enganos, sonhos perdidos
Vida encantada
Quem mais tem é quem dá nada

Caminho longo com olhares
Num horizonte de desejos
Promessas de azares
Imaginário e real (irreal)

Fronteiras e muralhas guardam
Impérios longe da marginal

E há corpos errantes,
Desertores, naufragantes
No mar
Onde vou

Deixa-me ser o teu abrigo,
Que te abraça com doçura,
Com calma, sem perigo…
Como sol quente no fim do Verão

Letra e música: André Cardoso
Intérprete: A Presença das Formigas* (in CD “Pé de Vento”, A Presença das Formigas/Careto/XMusic, 2014)

Medo

[ Sai da Concha ]

Medo: a forma mais poderosa da crença
Crença que é crença dá na TV
e toda a gente consome e vê
a ameaça, viver em terror

E quando sentes que tu não andas
Bem a favor
Sê a negra do rebanho do pastor
Faz a diferença, sai da concha
Sai da concha
Sai da concha do medo

Cumpres o dever e vives apático
Carregas a crença em piloto automático
Todos te abordam em estilo dogmático
Porque o medo é um motor

E quando sentes que tu não andas
Bem a favor
Sê a negra do rebanho do pastor
Faz a diferença, sai da concha
Sai da concha
Sai da concha do medo

Quando tu queres pensar em paz e amor
Enfiam-te a lógica do ser sonhador
“És um tipo estranho, até me dás graça”
Cravam-te o medo na carapaça

E quando sentes que tu não andas
Bem a favor
Sê a negra do rebanho do pastor
Faz a diferença, sai da concha
Sai da concha
Sai da concha do medo

Jogos, net, drogas, prazer e viv’ó mercado!
Vacinam-te na fé que só tu és culpado
Tens a doença, tu vives em pecado
De novo o medo põe-te ajoelhado

E quando sentes que tu não andas
Bem a favor
Sê a negra do rebanho do pastor
Faz a diferença, sai da concha
Sai da concha
Sai da concha do medo

‘High society’, gira e boa, famosa, escultural
E o lambe-botas que subiu afinal
Dizem: “Mas eu não vejo qual é o mal,
Subir na vida é natural”

E quando sentes que tu não andas
Bem a favor
Sê a negra do rebanho do pastor
Faz a diferença, sai da concha
Sai da concha
Sai da concha…

Sai da concha
Sai da concha
Sai da concha…
Sai da concha
Sai da concha
Sai da concha do medo

  • Luís Galrito – voz, guitarra folk e sintetizador
    Gabriel Costa – baixo, programações e darbouka
    João Nunes – guitarra eléctrica, ukulele e ovos
    Luís Melgueira – percussões (agogo, cajón, bilha de barro, triângulo)

Letra e música: Luís Galrito
Intérprete: Luís Galrito* (in CD “Menino do Sonho Pintado”, Kimahera, 2018)

Meu menino assustado

[ Menino do Sonho Pintado ]

Meu menino assustado
Que tens o céu como tecto
Tens estrelas a afagar
O sonho por ti pintado

Tens a Lua como mãe
Que te aconchega o jornal
Conta a história de embalar
Desliga a luz infernal

O pai sol de manhã vem
Pelo vitral da bonança
Que um dia o homem
Que é dono da guerra
Não roube o teu sonho de criança

O homem da guerra é tramado
E difícil de entender
Vive também assustado
Com o medo de perder

Não vendo que já perdeu
O que tu trazes contigo
Menino, vês no outro lado
Não medo mas um amigo

No Mundo que é de guerra
Menino vem ver
Todos temos contigo a aprender
Que a verdade de ser grande
É igual ao grande do teu ser

Ser amor, querer a Paz
Apagar o céu riscado
Assim tão mal desenhado
Com tintas de medo e afins

Meu menino assustado
Nesse teu céu desenhado
Verás o teu amor sonhado
Por ti e outros iguais a ti

O sonho é um menino eternamente menino
O sonho é um tesouro antigo repartido por quem precisa
O sonho é uma canção feliz para um menino triste

Letra e música: Luís Galrito
Intérprete: Luís Galrito* (in CD “Menino do Sonho Pintado”, Kimahera, 2018)

* Luís Galrito – voz, guitarra
Francisca Freitas Marinho – leitura de frases da obra “O Sonho É…” (Âmbar, 2006), de José Jorge Letria

Na Machamba

Mariana Maria Madalena
Mariana Maria Madalena
Por ti, meu amor, dou dois xi-coração
Por ti, meu amor, dou dois xi-coração
Mariana Maria Madalena
Mariana Maria Madalena
Por ti, meu amor, dói-dói meu coração
Por ti, meu amor, dói-dói meu coração

Desde que você foste embora
sono não tem, não, não, não
acorda na madrugada
o galo cantando co-ri-cô-cô
Nos olhos sono que pesa
maningue saudade no coração
Nos olhos sono que pesa
maningue saudade no coração

Mariana Maria Madalena
Mariana Maria Madalena
Por ti, meu amor, dou dois xi-coração
Por ti, meu amor, dou dois xi-coração
Mariana Maria Madalena
Mariana Maria Madalena
Por ti, meu amor, dói-dói meu coração
Por ti, meu amor, dói-dói meu coração

Pé no cacimba, vou na machamba
sem matubixo
Panela de mangungu não tem
chicafo, não, não, não
ô-ô-i-ô, Maria, meu amor
Quando qu’eu zangou
eu tinha era só babalaza
Quando qu’eu zangou
eu tinha era só babalaza

Mariana…

Mariana Maria Madalena
Mariana Maria Madalena
Por ti, meu amor, dou dois xi-coração
Por ti, meu amor, dou dois xi-coração
Mariana Maria Madalena
Mariana Maria Madalena
Por ti, meu amor, dói-dói meu coração
Por ti, meu amor, dói-dói meu coração

Mariana Maria Madalena
Mariana Maria Madalena
Por ti, meu amor, dou dois xi-coração
Por ti, meu amor, dou dois xi-coração…

Letra e música: Tomás Vieira Mário
Intérprete: João Afonso* com Las Hijas del Sol (in CD “Missangas”, Mercury/Polygram, 1997, reed. Universal Music, 2017)

Os Homens Mais Velhos do Bar

Os homens mais velhos do bar fazem lembrar os sinais do entardecer
Como um dia que já passou mas que deixou tanta coisa por fazer
Os homens mais velhos do bar entre cigarros e copos sem graça
Vêem as gaiatas passar – a noite é que já nunca passa.

Os homens mais velhos do bar contam histórias quando o Outono vem
Andaram por longe, eu sei lá, e há coisas que não vão contar a ninguém
Os homens mais velhos do bar sabem que a vida já não lhes diz que sim
P’ra os outros o bar está a fechar mas p’ra eles o bar não tem fim.

Senta-te aqui à minha frente
Tenho uma história p’ra te contar
Ficava triste se tu não tivesses
Vontade de aqui ficar
Vou-te falar de um lobo sozinho
Que se apaixonou p’la lua-cheia
E ainda tem um lugar vago
Na cama que a lua não quis.

Os homens mais velhos do bar sabem que as nuvens são como a solidão
Que às vezes parecem partir mas voltam sempre lá p’ra o fim do Verão
Aos homens mais velhos do bar é a noite quem lhes afaga a mão
Companheira que não tem destino mas que acaba sempre por ter razão.

O tempo é um doido a correr, a manhã está longe e não quer voltar
Há muito que assim passou a ser p’ra quem pensa que assim vai passar
E há tantos que não querem saber dos homens mais velhos do bar
É que são mais os que se afogam num copo do que aqueles que se afogam no mar.

Senta-te aqui à minha frente
Tenho uma história p’ra te contar
Ficava triste se tu não tivesses
Vontade de aqui ficar
Vou-te falar de um lobo sozinho
Que se apaixonou p’la lua-cheia
Que ainda tem um lugar vago
Na cama que a lua não quis.

Letra e música: Sebastião Antunes
Arranjo: Gonçalo Pratas
Intérprete: Sebastião Antunes* (in CD “Singular”, Sebastião Antunes & Quadrilha/Alain Vachier Music Editions, 2017)
Versão original: Quadrilha (in CD “Até o Diabo se Ria”, Polydor/Polygram, 1995)

* Sebastião Antunes – voz, guitarra (em “A Melhor Solução” e “Quando a Noite Já Ia Serena”)
Miguel Veras – guitarra acústica (excepto em “A Melhor Solução” e “Quando a Noite Já Ia Serena”)
Paulo Vilares – guitarra eléctrica (em “A Melhor Solução”)
Ana Laíns – voz (em “A Melhor Solução”)
Pedro Mestre – voz (em “Toada do Alentejo”)
Tito Paris – voz e guitarra (em “Quando a Noite Já Ia Serena”)
Produção musical – Gonçalo Pratas
Produção executiva – Alain Vachier
Gravado, misturado e masterizado por Francisco Santos, no Silver Lining Studio, Lisboa, em Fevereiro de 2017
Tema original “Quando a Noite Já Ia Serena” (do álbum “Com um Abraço”, 2012) gravado e misturado por Paulo Vilares, nos Estúdios São Bento, e masterizado por Fernando Nunes, nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos

Quando ela passa

[ Rosinha dos Limões ]

Quando ela passa,
Franzina e cheia de graça,
Há sempre um ar de chalaça
No seu olhar feiticeiro;
Lá vai catita,
Cada dia mais bonita…
E o seu vestido de chita
Tem sempre um ar domingueiro.

Passa ligeira,
Alegre e namoradeira,
A sorrir p’rá rua inteira
Vai semeando ilusões;
Quando ela passa,
Vai vender limões à praça…
E até lhe chamam, por graça,
A Rosinha dos limões.

Quando ela passa,
Junto da minha janela,
Meus olhos vão atrás dela
Até ver da rua o fim;
De ar gaiato,
Ela caminha apressada
Rindo por tudo e por nada…
E às vezes sorri para mim.

Quando ela passa,
Apregoando os limões,
A sós com os meus botões
No vão da minha janela,
Fico pensando
Que qualquer dia, por graça,
Vou comprar limões à praça
E depois caso com ela.

Quando ela passa,
Apregoando os limões,
A sós com os meus botões
No vão da minha janela,
Fico pensando
Que qualquer dia, por graça,
Vou comprar limões à praça
E depois caso com ela.

Letra e música: Artur Ribeiro
Intérprete: Real Companhia (in CD “Orgulhosamente Nós!”, Lusogram, 2000)
Versão original: Artur Ribeiro (in single 78 r.p.m. “A Rosinha dos Limões / Canção da Beira”, Estoril, 1951; CD “Rosinha dos Limões (Original)”, Discoteca Amália, 1993)
Primeira versão de Max (in single 78 r.p.m. “Ilha da Madeira / A Rosinha dos Limões”, Columbia/VC, 1954)
Segunda versão de Max (in EP “Vielas de Alfama”, Decca/VC, 1967; CD “O Melhor de Max”, EMI-VC, 1989; CD “Max: Biografias do Fado”, EMI-VC, 2004; CD “Max: Essencial”, Edições Valentim de Carvalho/CNM, 2014)

Quem Não Tem Amor Sou Eu!

Quem não tem amor sou eu,
Da rapaziada solteira;
Vivo muito satisfeito
Se nunca encontrar quem me queira.

I

Ainda nunca encontrei
Raparigas a meu jeito;
Todas me encontram defeito,
Por isso é que não casei.
Já algumas namorei,
De que lado venho eu?
Essa que a honra perdeu,
Para mim não tem valia;
Dos rapazes da freguesia,
Quem não tem amor sou eu.

II

Há muito rapaz casado
Que foi comigo ao sorteio;
Eu digo e não me arreceio:
Não quero mudar de estado
Para não ser censurado,
Por usar barba ou pêra;
E se calho com uma zopeira
Que não me sabe respeitar,
Sou dos que fico a pensar,
Da rapaziada solteira.

III

Muitos que vivem isentos,
Até à hora de casar,
Sua honra vão estragar
Ao risco dos casamentos:
Andam porcos e sebentos,
Elas não lhes têm respeito;
Tratam-nos com certo jeito,
Sempre de tira-virão;
Gabo-lhe opinião,
Vivo muito satisfeito.

IV

Se eu soubesse que encontrava
Uma séria rapariguinha,
Mesmo pobre e honradinha,
Com isso me contentava.
Se vou calhar com uma diaba
Que tenha a poltrona inteira,
Seja porca ou caloteira,
Que ninguém lhe dê capotes;
É uma das melhores sortes
Se nunca encontrar quem me queira.

Quem não tem amor sou eu,
Da rapaziada solteira;
Vivo muito satisfeito
Se nunca encontrar quem me queira.

Letra: Popular
Música: José Manuel David
Intérprete: Pedro Mestre* (in CD “Campaniça do Despique”, Viola Campaniça Produções Culturais/Pedro Mestre, 2015)
Outra versão de Pedro Mestre (in DVD “No CCB: Pedro Mestre & Convidados”, Pedro Mestre, 2017)

Se abana a casa

[ O Dito por Não Dito ]

Se abana a casa,
o pardal acorda,
sacode a asa
e não volta.

Se o mar devolve
gente, em vez de peixe,
há quem feche a porta
e não deixe.

Que o tempo engana
e a chuva molha,
mas é gente humana
que para ti olha.

Que eu não era assim,
foi o stress,
vida ruim
que tudo esquece.

Se abana a casa,
o pardal acorda,
sacode a asa
e não volta.

Se o mar devolve
gente, em vez de peixe,
há quem feche a porta
e não deixe.

Que o tempo engana
e a chuva molha,
mas é gente humana
que para ti olha.

Que eu não era assim,
foi o stress,
vida ruim
que tudo esquece.

Custa muito ver o mundo
estar tão perto da vista,
essa turva luz ao fundo
nem parece água lisa.

E esta Europa unida,
tresmalhadita,
lembra cabra
tosquiadita.

E se o mundo
não é perfeito,
à portuguesa
dá-se-lhe um jeito.

Se abana a casa,
o pardal acorda,
sacode a asa
e não volta.

Se o mar devolve
gente, em vez de peixe,
há quem feche a porta
e não deixe.

Que o tempo engana
e a chuva molha,
mas é gente humana
que para ti olha.

Que eu não era assim,
foi o stress,
vida ruim
que tudo esquece.

Se abana a casa,
o pardal acorda,
sacode a asa
e não volta.

Se o mar devolve
gente, em vez de peixe,
há quem feche a porta
e não deixe.

Que o tempo engana
e a chuva molha,
mas é gente humana
que para ti olha.

Que eu não era assim,
foi o stress,
vida ruim
que tudo esquece.

Que o tempo engana
e a chuva molha,
mas é gente humana
que para ti olha.

Que eu não era assim,
foi o stress,
vida ruim
que tudo esquece.

Que eu não era assim,
foi o stress,
vida ruim
que tudo esquece.

Eu não era assim,
foi o stress,
vida ruim
que tudo esquece.

Letra e música: José Barros
Arranjo: José Barros
Intérprete: José Barros e Navegante*
Versão original: José Barros e Navegante (in CD “À’Baladiça”, Tradisom, 2018)

Se o som vier

[ N’um Dôci Abraçu (eterno vacilar) ]

Se o som vier
De dentro da alma
Então será
Tão vivo que acalma

O céu e o mar
O Sol e a Lua
Insinuação
Paixão nua e crua

Um balanceio capaz de me levar
À ida
Uma lembrança que me faz regressar
A esta vida
N’um dôci abraçu di’ amor i di’ paz
O tempo vem e volta a partir

Entre o ir e vir eu estou, eu venho e vou
Com vontade de voltar
Ai esta ventura assim, de ir e vir
Neste eterno vacilar
Entre o ir e vir eu estou, eu venho e vou
Com vontade de voltar
Ai esta ventura assim, de ir e vir
E num verso me inventar

Já m’ bá, já m’ bem, já m’ bá e torná bem
Lai a, lai a, lai a

Nasci na praia
E aí me criei, ‘nha terra
E foi nas ondas
Que eu me embalei

Foi o meu pai
Um fogo que ardia
E a ‘nha mãe
Fazia o que queria

A morna é mistura de calor
E frio
Um velho fado que ainda tem sabor
A desvario
N’um dôci abraçu di’ amor i di’ paz
O tempo vem e volta a partir

N’um dôci abraçu di’ amor i di’ paz
La la, lai a, lai a
N’um dôci abraçu di’ amor i di’ paz
La la, lai a, lai a
N’um dôci abraçu di’ amor i di’ paz
La la, lai a, lai a
N’um dôci abraçu di’ amor i di’ paz
La la, lai a, lai a

Letra: J.J. Galvão (José João Oliveira Galvão)
Música: Rui Filipe Reis
Intérprete: Rosa Negra com Rita Lobo (in CD “Fado Mutante”, iPlay, 2011)

Sentir a dolência das águas

[ Calçada Esquecida ]

Sentir a dolência das águas,
Saber o caminho da foz
E o sol que se deita nas mágoas
De um cais que se lembra de nós.

Subir a calçada esquecida,
Guardar um olhar indiferente,
Ouvir a conversa da vida,
Falar desta vida da gente.

Sorrir,
Pois sabe sempre bem lembrar;
Não vale a pena esquecer,
Mesmo que doa recordar;
São lembranças
Que aconchegam as ternuras:
Ternuras da calçada esquecida
Que dão um sorriso ao passar.

Mas sorrir,
Pois sabe sempre bem lembrar;
Eu que nem vou tentar esquecer,
Mesmo que doa recordar;
São lembranças
Que aconchegam as ternuras:
Ternuras que a calçada esquecida
Me ajuda a lembrar.

Mas sorrir,
Pois sabe sempre bem lembrar;
Eu que nem vou tentar esquecer,
Mesmo que doa recordar;
São lembranças
Que aconchegam as ternuras:
Ternuras que a calçada esquecida
Me ajuda a lembrar.

Letra: Sebastião Antunes
Música: Carlos Lopes (Fado Bisnaga)
Intérprete: Rua da Lua* (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)

* Rua da Lua:
Tatiana do Carmo – voz
Carlos “Bisnaga” Lopes – acordeão, concertina e coros
Tiago Oliveira – guitarra e coros
Rui Silva – contrabaixo, baixo acústico e coros
Manú Teixeira – percussão e coros
Convidados:
Edu Miranda – bandolim (em “Maria Lua (Mulher)” e “Três Paus”)
Eugénia Ávila Ramos – pregão (em “Três Paus”)
José Nunes – cavaquinho (em “Três Paus”)
Ricardo Parreira – guitarra portuguesa (em “Calçada Esquecida”)
Arranjos – Rua da Lua
Produção – Rua da Lua
Co-produção – Jorge Moura
Gravado no Estúdio 2 Project, por Jorge Moura, e no Estúdio 57 (Vale Pequeno, Santa Margarida da Coutada, Constância), por Carlos Lopes
Mistura e edição – Carlos Lopes, Tiago Oliveira e João Magalhães
Masterização – João Magalhães

Sou formiga

[ Assim Sou Eu ]

Sou formiga, sou cigarra
Sou cantiga, pinto a manta, faço a farra
Sou a lebre e a tartaruga
Sou de raça, estou em brasa, vou à luta
Sou bichinho bem manhoso
Poderoso e preguiçoso
Com franqueza e arredia
Sou tristeza e alegria
Sou chorona, está na palma
Rezingona, perco a calma
Sou destino ensarilhado
Diz a linha do meu fado

Sei que assim sou eu
Sei lá eu porque sou assim
Está-se mesmo a ver
Sempre assim vou ser
Está dentro de mim
Eu ser assim

Sou areia, sou granito
Fico cheia, sou “o bom e o bonito”
Sou canseira, sou de gancho
Parideira, só de filhos faço um rancho
D’ir à luta tenho ganas
Contra gregas e troianas
Lusitana, luzidia
Sou beleza e ousadia
Sou mandona, está na alma
Rezingona, perco a calma
Tudo muito complicado
Diz a letra do meu fado

Sei que assim sou eu
Sei lá eu porque sou assim
Está-se mesmo a ver
Sempre assim vou ser
Está dentro de mim
Eu ser assim

Sei que assim sou eu
Sei lá eu porque sou assim
Está-se mesmo a ver
Sempre assim vou ser
Está dentro de mim
Eu ser assim

Ser assim
Ser assim
Ser assim
Ser assim

Letra: António Avelar de Pinho
Música: João Gil
Intérprete: Celina da Piedade* (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)

Tinha uma história que nunca contava

[ Quando a Noite Já Ia Serena ]

Tinha uma história que nunca contava
Trazia um quarto fechado no olhar
E uma viagem que planeava mas não começava
Para nunca acabar
Tinha um sorriso guardado em segredo
Mas não sorria p’ra não o contar
Tinha uma chave que fechava o medo
Nalgum arvoredo onde não queria entrar
E quando a noite já ia serena
Disse-me a frase mais terna que ouvi:
“Valeu a pena, mesmo que o fim da história seja aqui.”

Tinha uma nuvem da cor do mistério
Tinha palavras da cor do saber
Tinha vontades de brincar a sério
Mudar de hemisfério para não se perder
Tinha a lembrança da cor do poente
Tinha um poente inteiro no falar
Guardava o sol num esconderijo ardente
Tão quente, tão quente, já quase a queimar

E quando a noite já ia serena
Disse-me a frase mais terna que ouvi:
“Valeu a pena, mesmo que o fim da história seja aqui.”

Trazia a paz de uma dor que se apaga
E um calor que se quer apagar
Como quem grita do alto da fraga
Que a vida nos traga distância p’ra andar
Deixou correr o licor dos sentidos
Até que o dia nos veio acordar
De mãos trocadas, de braços caídos
Achados perdidos

Veio a manhã, levezinha e serena
Cantar-me a frase mais terna que ouvi:
“Valeu a pena, mesmo que o fim da história seja aqui.”
Veio a manhã, levezinha e serena
Cantar-me a frase mais terna que ouvi:
“Valeu a pena, mesmo que o fim da história seja aqui.”

Letra e música: Sebastião Antunes
Arranjo: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes* com Tito Paris (in CD “Com Um Abraço”, Vachier & Associados, 2012; CD “Singular”, Sebastião Antunes & Quadrilha/Alain Vachier Music Editions, 2017)

Toma lá colchetes d’oiro

[ Prima da Chula ]

Toma lá colchetes d’oiro
Aperta o teu coletinho
Coração que é de nós dois
Tem de andar conchegadinho

Por um olhar dos teus olhos
Dera da vida a metade
Por um riso dera a vida
Por um beijo a eternidade

Aqui estou à tua porta
Como um feixinho de lenha
À espera da resposta
Que dos teus olhos me venha

O dia tem duas horas
Duas horas não tem mais
Uma é quando vos vejo
Outra quando me lembrais

Se tudo me foi vedado
Se vivi de tudo à míngua
Deixai que vos mostre a língua
Com o freio bem cortado

A rica tem nome fino
A pobre tem nome grosso
A rica teve um menino
A pobre pariu um moço

Letra: Popular e António Aleixo
Música: Trovante
Intérprete: Trovante (in “Baile no Bosque”, 1981; reed. EMI-VC, 1988)

Vai de Roda

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda que é tão breve;
Tenho uns amigos na roda,
Tenho uns amigos na roda,
Deixam a roda mais leve.

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda alguns amores;
Quantos mais amores na roda,
Quantos mais amores na roda
Mais te perseguem as dores.

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda até ao fim;
Já tentei fugir da roda,
Já tentei fugir da roda
Mas ela rodou por mim.

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda sem parar;
Quem nunca esteve na roda,
Quem nunca esteve na roda
Não pode a roda enganar.

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda até ao fim;
Já tentei fugir da roda,
Já tentei fugir da roda
Mas ela rodou por mim.

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda sem parar;
Quem nunca esteve na roda,
Quem nunca esteve na roda
Não pode a roda enganar.

Vai de roda, vai de roda,
Vai de roda sem parar;
Quem nunca esteve na roda,
Quem nunca esteve na roda
Não pode a roda enganar.

Letra e música: Duarte (Outubro de 2010)
Intérprete: Duarte com Mara (in CD “Só a Cantar”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2018)
Versão original: Duarte (in CD “Sem Dor Nem Piedade”, Duarte/Alain Vachier Music Editions, 2015)

Vejam Bem

Vejam bem
que não há só gaivotas em terra
quando um homem se põe a pensar
quando um homem se põe a pensar

Quem lá vem
dorme à noite ao relento n’areia
dorme à noite ao relento no mar
dorme à noite ao relento no mar

E se houver
uma praça de gente madura
e uma estátua
e uma estátua de febre a arder

Anda alguém
pela noite de breu à procura
e não há quem lhe queira valer
e não há quem lhe queira valer

Vejam bem
daquele homem a fraca figura
desbravando os caminhos do pão
desbravando os caminhos do pão

E se houver
uma praça de gente madura
ninguém vem levantá-lo do chão
ninguém vem levantá-lo do chão

Vejam bem
que não há só gaivotas em terra
quando um homem
quando um homem se põe a pensar

Quem lá vem
dorme à noite ao relento n’areia
dorme à noite ao relento no mar
dorme à noite ao relento no mar

Vejam bem
que não há só gaivotas em terra
quando um homem se põe a pensar
quando um homem se põe a pensar

Quem lá vem
dorme à noite ao relento n’areia
dorme à noite ao relento no mar
dorme à noite ao relento no mar

E se houver
uma praça de gente madura
e uma estátua
e uma estátua de febre a arder

Anda alguém
pela noite de breu à procura
e não há quem lhe queira valer
e não há quem lhe queira valer

Letra e música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in LP “Cantares do Andarilho”, Orfeu, 1968, 1970, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art’Orfeu Media, 2012)

*José Afonso – voz
Rui Pato – viola
Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa, em 1968
Técnico de som – Moreno Pinto
Remasterização (edição de 2012) – António Pinheiro da Silva

Vivi povo e multidão

[ Cantarei ]

Vivi povo e multidão
Sofri ventos, sofri mares
Passei sede e solidão
Muitos lugares
Sofri países sem jeito
P’ró meu jeito de cantar
Mordi penas no meu peito
E ouvi braços a gritar

E depois vivi o tempo
Em que o tempo não chegava
Para se dizer o tanto
Que há tanto tempo se calava
Vivi explosões de alegria
Fiz-me andarilho a cantar
Cantei noite, cantei dia
Canções do meu inventar

Cantarei e cantarei
À chuva, ao sol, ao vento, ao mar
Seara em movimento
Ondulante sem parar

Hoje resta-me este braço
De guitarra portuguesa
Que nunca perde o seu espaço
E a sua beleza
Hoje restam-me os abraços
Nesta pátria viajada
Dos que moram mesmo longe
A tantos dias de jornada

Dos que fazem Portugal
No trabalho dia a dia
E me dão alma e razão nesta porfia
Por isso invento caminhos
Mais cantigas viajantes
E sinto música nos dedos
Com a mesma força de antes

Cantarei e cantarei
À chuva, ao sol, ao vento, ao mar
Seara em movimento
Ondulante sem parar

Letra e música: Pedro Barroso
Intérprete: Pedro Barroso
Versão original: Pedro Barroso (in LP “Cantos à Terra-Madre”, Da Nova, 1982, reed. Movieplay, 1997; 2CD “Antologia 1982-1990”: CD 2, Movieplay, 2005)
Outras versões: Pedro Barroso (in CD “De Viva Voz”, Lusogram, 2002)