Artigos

José Eduardo Agualusa poeta

Acredito em pouca coisa

[ instrumental ]

Acredito em pouca coisa
que venha escrita em loiça,
dessa de pôr na parede.

Acredito mais no desempenho
da laranja que apanho,
que como e me mata a sede.

Acredito nas façanhas,
muito menos nas patranhas
de quem faz só porque sim.

Acredito nas crianças,
no meu ventre são esperanças
de um futuro sem fim.

Acredito na loucura
de quem pede mais ternura
e vira costas à guerra.

Acredito na fé dos outros
que às vezes abrem poços
só para encontrar mais terra.

Acredito no Caetano,
no Zambujo que é meu mano,
em todas as vozes calmas.

Acredito na poesia
e também na aletria,
em todos adoçantes de almas.

Acredito na minha mãe,
ela que sofreu bem
para que eu fosse como sou.

Crente nos frutos e flores,
nos mais impossíveis amores,
onde o Sol mais brilhar eu estou.

Eu estou
Eu estou
Eu estou
Eu estou
Eu estou

Letra: Celina da Piedade
Música: Alex Gaspar
Intérprete: Celina da Piedade (in CD “Sol”, Sons Vadios, 2016)

Eu ia não sei p’ra onde

[ Que Bonito Que Seria ]

Cantiga primeira:

Eu ia não sei p’ra onde,
Encontrei não sei quem era:
Encontrei o mês de Abril
Procurando a Primavera.

Moda:

Que bonito que seria
Se houvesse compreensão:
Os homens não se matavam
E davam-se como irmãos.

É tão linda a Liberdade,
Até que chegou um dia;
Se houvesse compreensão,
Então que bonito que seria.

Cantiga segunda:

Não há bem que sempre dure
Nem mal que não acabe;
Mas há quem lute
Pelo fim desta nossa Liberdade.

Moda:

Que bonito que seria
Se houvesse compreensão:
Os homens não se matavam
E davam-se como irmãos.

É tão linda a Liberdade,
Até que chegou um dia;
Se houvesse compreensão,
Então que bonito que seria.

Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in CD “O Círculo Que Leva a Lua”, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2003; Livro/2CD “Terra: Antologia 1972-2006”: CD 2, Associação de Cante Alentejano “Os Ganhões”, 2006)
Primeira versão do Grupo Coral “Os Ganhões de Castro Verde” (in LP “Os Ganhões de Castro Verde”, Metro-Som, 1980, reed. Metro-Som, 1997)

É o amor

[ Juntos somos mais fortes ]

Intérprete: Amor Electro

Nunca sofri de raça

[ Sangue Bom ]

Nunca sofri de raça
Minha pele é muito boa
Tenho sangue mouro de Goa
E sangue louro de Mombaça

Saiba o senhor
Minha raça é meio-errante
Num dia sou quase zulu
No outro dia, xavante
Mulato, preto-fulo

Saiba o senhor
Saiba o senhor

Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça é superstição de gente mal arraçada

Saiba o senhor: eu não creio em raça, não, raça danada
Raça é superstição de gente mal arraçada
Eu não creio em raça, não

Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não

Eu sou o avesso da raça
Minha alma é muito à toa
Gosto d’amêijoas com jimboa
A toda a mistura acho graça

Saiba o senhor
Saiba o senhor

Minha raça é um jardim
Num dia sou quase azul
No outro, cor de marfim
Sou Bissau e sou Cochim

Saiba o senhor
Saiba o senhor

Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça é superstição de gente mal arraçada

Saiba o senhor: eu não creio em raça, não, raça danada
Raça é superstição de gente mal arraçada
Eu não creio em raça, não

Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Raça danada, eu não creio em raça, não
Eu não creio em raça, não

(Raça dum cabrão!)
Poema: José Eduardo Agualusa (Para o Caetano Veloso que quis um dia saber a minha raça)
Música: João Afonso Lima
Intérprete: João Afonso com António Afonso

São dois braços

[ Canção dos abraços ]

São dois braços, são dois braços
Servem p’ra dar um abraço
Assim como quatro braços
Servem p’ra dar dois abraços

E assim por ai fora
Até que quando for a hora
Vão ser tantos os abraços
Que não vão chegar os braços

Vão ser tantos os abraços
Que não vão chegar os braços
P’ra os abraços

Intérpete: Sérgio Godinho

Sérgio Godinho

Sérgio Godinho

Da peça de Sérgio Godinho Eu, tu, ele, nós, vós, eles

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Mulher
As canseiras desta vida

[ Canseiras ]

As canseiras desta vida
Tanta mãe envelhecida
A escovar
A escovar
A jaqueta carcomida
Fica um farrapo a brilhar

Cozinheira que se esmera
Faz a sopa de miséria
A contar
A contar
Os tostões da minha féria
E a panela a protestar

Dás as voltas ao suor
Fim do mês é dia 30
E a sexta é depois da quinta
Sempre de mal a pior

E cada um se lamenta
Que isto assim não pode ser
Que esta vida não se aguenta
– o que é que se há-de fazer?

Corta a carne, corta o peixe
Não há pão que o preço deixe
A poupar
A poupar
A notinha que se queixa
Tão difícil de ganhar

Anda a mãe do passarinho
A acartar o pão pró ninho
A cansar
A cansar
Com a lama do caminho
Só se sabe lamentar

É mentira, é verdade
Vai o tempo, vem a idade
A esticar
A esticar
A ilusão de liberdade
Pra morrer sem acordar

É na morte ou é na vida
Que está a chave escondida
Do portão
Do portão
Deste beco sem saída
-qual será a solução?

Autor: Bertolt Brecht/José Mário Branco
Intérprete: José Mário Branco

Lá vem a Marianita

[ História da Marianita ]

Lá vem a Marianita, foi posta com as malas à porta
O amo mandou-a embora mas ela não chora, cá pouco se importa
Andava fisgado nela, foi ter-lhe ao quarto à tardinha
“Mariana, por mais que tu faças, tu de hoje não passas, és minha!”
“Não me dás cabo da vida que essa não ta dou por nada!
Mil vezes me dei perdida, mas outras mil eu dei-me achada.”

Desdenha, vem prenha
Pragueja, deseja e ralha mas quando trabalha não estranha

Que tens tu, ó Mariana, que não sossegas um dia?
Não foi proveito nem fama: já chora já mama, cá tudo se cria
Vai por serras e veredas a ver onde é que há jornada
Que importa que o povo diga se a vida castiga por tudo e por nada
O amo quere-a de volta mas ela não verga a haste
Hei-de criá-lo sozinha, a cria é só minha, tu tarde piaste

Desdenha, vem prenha
Pragueja, deseja e ralha mas quando trabalha não estranha

Desdenha, vem prenha
Pragueja, deseja e ralha mas quando trabalha não estranha

A noite é que guarda a Lia
O poente é que a embala
P’ra a vida não ser bravia
Tem de a gente amansá-la
A mão que nos guarda a vida
É a mão que nos dá a manha
Só leva a vida vencida
Quem aprova e não estranha

Letra e música: Sebastião Antunes
Intérprete: Sebastião Antunes & Quadrilha (in CD “Perguntei ao Tempo”, Sebastião Antunes/Alain Vachier Music Editions, 2019)
Versão original: Quadrilha com Segue-me à Capela (in CD “A Cor da Vontade”, Vachier & Associados, 2003)

Sebastião Antunes & Quadrilha
Sebastião Antunes & Quadrilha

Luísa sobe

[ Calçada de Carriche ]

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda Luísa…

Poema: António Gedeão (excerto)
Música: José Niza
Arranjo: José Calvário
Intérprete: Carlos Mendes (in LP “Fala do Homem Nascido”, Orfeu, 1972, reed. Movieplay, 1998)

CALÇADA DE CARRICHE

António Gedeão, in “Teatro do Mundo”, Coimbra: Edição do autor, 1958; “Poesias Completas”, Portugália Editora, 1964, 5.ª edição, 1975 – p. 115-120; “Poemas Escolhidos: Antologia Organizada pelo Autor”, Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1997 – p. 34-37).

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

António Gedeão/Rómulo de Carvalho
António Gedeão/Rómulo de Carvalho

Maria Joana, do que és tu feita?

[ Mulher Feiticeira ]

Maria Joana, do que és tu feita?
És entre os poetas mulher perfeita
São quantos os homens contigo enrolada
Na mente, no peito, na cama deitada?

São quantas as cores entre os teus amores que ficam mais vivas?
São quantos alentos que mudas ao centro por dentro da vida
Como uma miragem, contigo em viagem, teus apaixonados
Que ficam para sempre contigo na mente e em parte alterados?

O que tu tens, o que tu tens, Maria?
O que tu tens e do que é feito o teu ser?
O que tu tens, porque tens tu magia?
O que tu tens, o que tu tens que eu quero ter?

Maria Joana, descomplicada
Fragrância em delírio bem perfumada
Faz seus prisioneiros relaxando a vida
Dá o seu corpo inteiro com peso e medida

Acende-se a chama, ficas inspirado levando o teu ser
À serotonina que sobe tão fina subindo o prazer
De corpo suado, mostrando outro lado num lado qualquer
Fez sua magia, fez feitiçaria, Maria mulher

O que tu tens, o que tu tens, Maria?
O que tu tens e do que é feito o teu ser?
O que tu tens, porque tens tu magia?
O que tu tens, o que tu tens que eu quero ter?

No ser delicada, na vida focada e tão original
Que já não vê fronteiras, contorna barreiras, faz o desigual
Assume na vida nova perspectiva e sabe o que não quer
Faz feitiçaria com sua magia, Maria mulher

O que tu tens, o que tu tens, Maria?
O que tu tens e do que é feito o teu ser?
O que tu tens, porque tens tu magia?
O que tu tens, o que tu tens que eu quero ter?

Letra e música: Luís Pucarinho
Intérprete: Luís Pucarinho (in CD “SaiArodada”, Luís Pucarinho/Alain Vachier Music Editions, 2018)

Menina de olhar sereno

[ Menina do Alto da Serra ]

Menina de olhar sereno
raiando pela manhã
de seio duro e pequeno
num coletinho de lã.

Menina cheirando a feno
casado com hortelã.

Menina que no caminho
vais pisando formosura
levas nos olhos um ninho
todo em penas de ternura.
Menina de andar de linho
com um ribeiro à cintura.

Menina de andar de linho
com um ribeiro à cintura.

Menina da saia aos folhos
quem te vê fica lavado
água da sede dos olhos
pão que não foi amassado.

Menina de riso aos molhos
minha seiva de pinheiro
menina da saia aos folhos
alfazema sem canteiro.

Menina de corpo inteiro
com tranças de madrugada
que se levanta primeiro
do que a terra alvoraçada.

Menina de corpo inteiro
com tranças de madrugada
que se levanta primeiro
do que a terra alvoraçada.

Menina da saia aos folhos
quem te vê fica lavado
água da sede dos olhos
pão que não foi amassado.

Menina de fato novo
Ave-Maria da terra
rosa brava rosa povo
brisa do alto da serra.

Rosa brava rosa povo
brisa do alto da serra.

Letra: José Carlos Ary dos Santos
Música: Nuno Nazareth Fernandes
Intérprete: Kátia Guerreiro e Ney Matogrosso (in CD “Tudo ou Nada”, Som Livre, 2005)
Versão original: Tonicha – “Menina” (1971)

Minha mulher

[ Minha Metade ]

Minha mulher
Singelo encanto
Minha alma-irmã
És meu farol
Raio de sol
Luz da manhã

Minha empatia
Sabedoria
Sem ter idade
Minha poesia
Minha alegria
Minha metade

Meu lindo bem-querer
Rosa do meu jardim
Não canso de dizer
O que és p’ra mim:

Minha água clara
Pedra tão rara
Meu talismã
Rima e compasso
Meu terno amasso
Minha maçã

Minha pepita
Coisa bonita
Cheirosa flor
Minha certeza
Minha riqueza
Meu doce amor

Meu lindo bem-querer
Rosa do meu jardim
Não canso de dizer
O que és p’ra mim:

Minha água clara
Pedra tão rara
Meu talismã
Rima e compasso
Meu terno amasso
Minha maçã

Minha pepita
Coisa bonita
Cheirosa flor
Minha certeza
Minha riqueza
Meu doce amor

Letra e música: Aníbal Raposo (2011-01-31)
Intérprete: Aníbal Raposo (in CD “Rocha da Relva”, Aníbal Raposo/Global Point Music, 2013)

Mulher chegada ao sonho adolescente

[ Mulher-Amor ]

Mulher chegada ao sonho adolescente
botão de esperança num sorriso alegre
mulher inteira, coração contente
que guarda com ternura
a última boneca
para quem o amor é a coisa mais pura

Mulher capaz de ter nas mãos serenas
toda a força do amor que habita em si
e sabe pôr nas coisas mais pequenas
um gesto de ternura
mulher igual a mim
mulher que és mãe és a mulher mais pura

Mulher que chega à esquina da idade
carregada dos seus anos doirados
cada ruga lhe traz uma saudade
e afaga com ternura
seus cabelos grisalhos
bebendo o amor da sua fonte pura

cada ruga lhe traz uma saudade
e afaga com ternura
seus cabelos grisalhos
bebendo o amor da sua fonte pura

Letra: Manuel Lima Brummon
Música: António Chainho
Intérprete: Tereza Tarouca (in LP “Portugal Triste”, Alvorada/Rádio Triunfo, 1980; CD “Tereza Tarouca”, col. O Melhor dos Melhores, vol. 32, Movieplay, 1994; CD “Teresa Tarouca”, col. Clássicos da Renascença, vol. 15, Movieplay, 2000; CD “Álbum de Recordações”, Alma do Fado/Home Company, 2006)

António Chaínho
António Chaínho

Olha, não chores, maninha

[ Cicatriz de Ser Mulher ]

Olha, não chores, maninha,
que eu não sei se vai passar…
essa tristeza tão funda
não sei se passa a chorar!

Olha, que pena, maninha,
essa flor de malmequer,
essa tristeza tão funda,
cicatriz de ser mulher!

Lembras? Que lindo o teu homem
e que meigo o seu olhar
e como ardia o teu corpo
ao seu mais leve tocar?

Foi de repente, maninha,
como tudo se mudou:
o amante foi senhor,
o senhor tudo esmagou!

Sei que é tão frágil a flor
que brotou do coração
e dói ver um corpo bandido
desfolhá-la pelo chão!

Olha, que os homens, maninha,
andam tontos pelo mundo:
pisam com fúria tamanha
o seu berço mais profundo!

E já não falo da guerra
com soldados frente a frente:
deixam a saia sangrando,
deixam pegadas no ventre!

Dizem “quem cala consente!”,
mas custa tanto falar:
o medo dentro da gente
ficou mudo de gritar!

Olha, não chores, maninha,
que eu apago, se puder,
essa tristeza tão funda,
cicatriz de ser mulher!

Letra e música: João Lóio
Intérprete: João Lóio* (in CD “Canções de Amor e Guerra”, João Lóio, 2002)

* [Créditos gerais do disco]:
Carlos Rocha – guitarras acústica e eléctrica
João Lóio – voz e guitarra acústica
Firmino Neiva – baixo eléctrico
Arnaldo Fonseca – acordeão
Mário Teixeira – caixa de rufo
Regina Castro e Guilhermino Monteiro – coros
Arranjos e direcção musical – Carlos Rocha, Firmino Neiva e João Lóio
Gravado por Fernando Rangel, nos Estúdios Fortes & Rangel, Porto, em Abril de 2002
Mistura – Fernando Rangel, Carlos Rocha, Firmino Neiva e João Lóio
Masterização – Fernando Rangel

Veio de longe

Maria Lua (Mulher)

Veio de longe
para encontrar
outra lua, outro lugar
Veio sozinha
Maria Lua
acende o mar

Sem pressa…
Sem medo…
nem nada…

Veio de longe
veio a cantar
outra terra, outro ar
Veio sozinha
Maria Lua
cor de luar

Maria Lua
lua do mar…

Ela sabe quem é
cheira a café
Ela sabe o que quer
é mulher

Maria Lua
nunca se há-de casar
Ela é amante do mar

Veio de longe
para encontrar
outra lua, outro lugar
Veio de longe
Maria Lua
acende o mar

Maria Lua
lua do mar…

Ela sabe quem é
cheira a café
Ela sabe o que quer
é mulher

Maria Lua
nunca se há-de casar
Ela é amante do mar

Maria Lua
nunca se há-de casar
Ela é amante do mar

Maria Lua
lua do mar…

Ela é amante do mar
Maria Lua
lua do mar…

Letra: Eugénia Ávila Ramos
Música: Tiago Oliveira
Intérprete: Rua da Lua (ao vivo no Teatro da Luz, Lisboa)
Versão original: Rua da Lua (in CD “Rua da Lua”, Rua da Lua, 2016)

Velha da terra morena

Mulher da Erva

Velha da terra morena
Pensa que é já lua cheia;
Vela que a onda condena
Feita em pedaços na areia.

Saia rota subindo a estrada,
Inda a noite rompendo vem,
A mulher pega na braçada
De erva fresca, supremo bem.

Canta a rola numa ramada,
Pela estrada vai a mulher:
“Meu senhor, nesta caminhada
Nem m’alembra do amanhecer!”

Há quem viva sem dar por nada,
Há quem morra sem tal saber…
Velha ardida, velha queimada,
Vende a fruta se queres comer.

À noitinha, a mulher alcança
Quem lhe compra do seu manjar,
Para dar à cabrinha mansa,
Erva fresca da cor do mar.

Na calçada uma mancha negra
Cobriu tudo e ali ficou:
Anda, velha da saia preta,
Flor que ao vento no chão tombou!

No Inverno terás fartura
Da erva fora supremo bem…
Canta, rola, tua amargura!
Manhã moça nunca mais vem…

Letra e música: José Afonso
Intérprete: Teresa Silva Carvalho* / introdução por Vitorino (in LP “Ó Rama, Ó Que Linda Rama”, Orfeu, 1977, reed. Movieplay, 1994)


* Créditos gerais do disco:
Teresa Silva Carvalho – voz
Júlio Pereira – violas acústica e clássica, bandolim e percussões
Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa e rabeca
Catarina Latino – flauta barroca e cornamusa
Zé Luiz Iglésias – viola clássica
Pintinhas – percussões
Hélder Reis – acordeão
Vitorino – voz masculina
Grupo Coral de Cantadores do Redondo
Produção e direcção musical – Vitorino
Gravado nos Estúdios Arnaldo Trindade, Lisboa
Técnicos de som – Manuel Cunha e Moreno Pinto
URL: https://www.museudofado.pt/fado/personalidade/teresa-silva-carvalho

Capa do LP “Ó Rama, Ó Que Linda Rama” (Orfeu, 1977)
Desenho e execução – Jean Laffront

Elfiede Engelmayer dá a explicação deste texto: trata-se de uma velha mulher do Alentejo que ganhava a vida com a venda de erva.

José Afonso conheceu-a quando ela já tinha mais de setenta anos. Todos os dias, andava pelas ruas e estradas com uma cesta de erva cuja venda era o seu sustento e com que se alimentava o gado. Esta “profissão” desapareceu com a modernização da agricultura. A canção relata o encontro entre o cantor e a mulher.

Na segunda estrofe, ele vê-a a subir a estrada, vindo na sua direcção. Na terceira, eles trocam algumas palavras e depois ela prossegue o seu caminho sem ouvir o comentário do cantor. Na primeira estrofe, a “vela condenada pela onda” simboliza que ela não tem, e nunca teve, futuro.

Oona Soenario (in “A Canção de Intervenção Portuguesa: Contribuição para um estudo e tradução de textos”, Universidade de Antuérpia, 1994-1995)

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António Variações

De tanta vida que prendo

[ Fado do Cansaço ]

É ou não é

É ou não é
Que o trabalho dignifica
É assim que nos explica
O rifão que nunca falha?
É ou não é
Que disto, toda a verdade,
Que só por dignidade
No mundo, ninguém trabalha!

É ou não é
Que o povo nos diz que não,
Que o nariz não é feição
Seja grande ou delicado?
No meio da cara
Tem por força que se ver,
Mesmo a quem o não meter
Aonde não é chamado!

Digam lá se é assim ou não é?
Ai, não, não é!
Digam lá se é assim ou não é?
Ai, não, não é! Pois é!

É ou não é
Que um velho que à rua saia
Pensa, ao ver a minissaia:
Este mundo está perdido?!
Mas se voltasse
Agora a ser rapazote
Acharia que saiote
É muitíssimo comprido?

É ou não é
Bondosa a humanidade
Todos sabem que a bondade
É que faz ganhar o céu?
Mas a verdade,
Nua sem salamaleque,
Que tive de aprender
É que ai de mim se não for eu!

Digam lá se é assim ou não é?
Ai, não, não é!
Digam lá se é assim ou não é?
Ai, não, não é! Pois é!

Digam lá se é assim ou não é?
Ai, não, não é!
Digam lá se é assim ou não é?
Ai, não, não é! Pois é!

Digam lá se é assim ou não é?
Ai, não, não é!
Digam lá se é assim ou não é?
Ai, não, não é! Pois é!

Letra: Alberto Janes
Intérprete: Mariza

Estrada da vida

Estrada da vida,
Oh estrada do meu destino,
Onde, feito peregrino,
Meu coração se perdeu!
Estrada da vida,
Feita de dor e de esperança,
Quem a subiu não se cansa,
Que o diga quem a desceu.

Estrada da vida,
Longa estrada onde eu sigo,
Sem ter mesmo um braço amigo
Onde me possa apoiar;
Estrada da vida,
Onde os passos mal dados
Ficam p’ra sempre marcados
Como na pele a sangrar.

Volta depressa,
Ó minha esperança perdida!
Um rumo certo na vida
Quero por fim encontrar.

Volta depressa,
Ó minha esperança perdida!
Um rumo certo na vida
Quero por fim encontrar.

Volta depressa,
Ó minha esperança perdida!
Um rumo certo na vida
Quero por fim encontrar.

Letra e música: João Dias Nobre
Intérprete: Ricardo Ribeiro (in CD “Hoje É Assim, Amanhã Não Sei”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2016)
Versão original: Maria José da Guia (in EP “Barro Divino”, Estúdio/Mundusom, 1969?)

Eu sei

[ O tempo não para ]

Eu sei, que a vida tem pressa
que tudo aconteça,
sem que a gente peça,
Eu sei,
Eu sei, que o tempo não pára,
tempo é coisa rara
e a gente só repara,
quando ele já passou

Não sei, se andei depressa demais
Mas sei que algum sorriso eu perdi
Vou pedir ao tempo,
que me dê mais tempo
para olhar para ti
De agora em diante,
não serei distante
Eu vou estar aqui

Cantei,
cantei a Saudade da minha cidade
e até com vaidade, cantei
Andei, pelo Mundo fora
e não via a hora
de voltar para ti

Não sei, se andei depressa demais
Mas sei que algum sorriso eu perdi
Vou pedir ao tempo,
que me dê mais tempo
para olhar para ti
De agora em diante,
não serei distante
Eu vou estar aqui

Música: Miguel Gameiro
Intérprete: Mariza

Hoje, a semente

[ O Melhor de Mim ]

Letra: AC Firmino
Música: Tiago Machado
Intérprete: Mariza

Largar, partir

Largar, partir
Desta terra pardacenta
Desta gente sempre igual
Macambúzia, pachorrenta
Indiferente e desatenta
Deste imenso lamaçal
De chorincas
Eternos sorumbáticos
De sopinhas sem sal
Dengosos e apáticos
Seus choros melismáticos
Lamúrias em caudal
A verter, a verter
Pois chorar é beber!

Largar, partir
Rumo a terras misteriosas
Com segredos sem ter fim
Criaturas majestosas
Outras tantas tenebrosas
Como nunca vi assim
E tesouros
Druidas, feiticeiros
E pós de perlimpimpim
Princesas e arqueiros
Sereias, viageiros
Tudo novo para mim
A encher, a encher
Pois partir é crescer!

Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
A não ser p’ra voltar a partir

Largar, partir
Rumo a terras misteriosas
Com segredos sem ter fim
Criaturas majestosas
Outras tantas tenebrosas
Como nunca vi assim
E tesouros
Druidas, feiticeiros
E pós de perlimpimpim
Princesas e arqueiros
Sereias, viageiros
Tudo novo para mim
A encher, a encher
Pois partir é crescer!

Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
A não ser p’ra voltar a partir

Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
A não ser p’ra voltar a partir

Letra e música: Manuel Maio
Intérprete: A Presença das Formigas (in CD “Pé de Vento”, A Presença das Formigas/Careto/XMusic, 2014)

Gaivotas

Muda de vida

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se a vida em ti a latejar

Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será te ti, ou pensas que tens… que ser assim?

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se a vida em ti a latejar

Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será te ti, ou pensas que tens… que ser assim?

Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver

Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se a vida em ti a latejar

Letra e música: António Variações
Intérprete: Manuela Azevedo / Humanos (in CD “Humanos”, EMI-VC, 2004)

Não consigo dominar

[ Estou Além ]

Não consigo dominar
Este estado de ansiedade
A pressa de chegar
P’ra não chegar tarde
Não sei de que é que eu fujo
Será desta solidão
Mas porque é que eu recuso
Quem quer dar-me a mão

Vou continuar a procurar
A quem eu me quero dar
Porque até aqui eu só

Quero quem
Quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi

Esta insatisfação
Não consigo compreender
Sempre esta sensação
Que estou a perder
Tenho pressa de sair
Quero sentir ao chegar
Vontade de partir
P’ra outro lugar

Vou continuar a procurar
O meu mundo, o meu lugar
Porque até aqui eu só

Estou bem
Aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou

Esta insatisfação
Não consigo compreender
Sempre esta sensação
Que estou a perder
Tenho pressa de sair
Quero sentir ao chegar
Vontade de partir
P’ra outro lugar

Vou continuar a procurar
A minha forma, o meu lugar
Porque até aqui eu só

Estou bem
Aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou

Letra e música: António Variações (António Joaquim Rodrigues Ribeiro)
Intérprete: António Variações (in single “Povo Que Lavas no Rio / Estou Além”, EMI-VC, 1982; “Anjo da Guarda”, EMI-VC, 1983, reed. 1998; CD “O Melhor de António Variações”, EMI-VC, 1997)

Rapaz do Bairro da Lata

Nasci no Vale Escuro
Brinquei entre latas
Pulei o alão
Andei à pedrada
Escorreguei do muro
Caí no jará
Ganhei ao pião.
A jogar à bola
Perdi a sacola
Mais o que trazia
A fugir ao guarda
Que nos perseguia.
Mas que bem sabia
Faltarmos à escola!

Já rapaz crescido
Sequer fui ouvido
Só meu pai o quis:
Entrei de aprendiz
Para uma oficina
Minha negra sina
Ofício gritado
Estalo safanão
Era um pau-mandado
Nas mãos do patrão.

Lembrança dos jogos
Que tanto gostava
Deu-me pra pensar
Que jogo era aquele
Que só um jogava?
E no outro dia
Logo que o patrão
Levantou da mão
Para a bofetada
Peguei num martelo
Entrei na jogada.

Mudei de oficina
Subi de aprendiz
Dobrei uma esquina
Minha vida fiz.
Na escola nocturna
Meti-me a estudar
Tenho namorada
Vamos namorar
Tenho amigos certos
Vamos trabalhar
Todos a lutar
Pelas coisas da vida
Que queremos viver!

Poema: Manuel da Fonseca (De “Poemas Inéditos”, in “Poemas Completos”, pref. Mário Dionísio, 5.ª edição, Lisboa: Forja, 1975 – p. 171-172)
Música: Paulo Ribeiro
Intérprete: Paulo Ribeiro com Tim (in CD “O Céu Como Tecto e o Vento Como Lençóis”, Açor/Emiliano Toste, 2017)

Manuel da Fonseca

Manuel da Fonseca

Não tenhas medo do escuro

Não tenhas medo do escuro
Mesmo que seja tão duro
Ter à frente a noite inteira;
Vou cantar para tu dormires
E até tu conseguires
Fico à tua cabeceira.

Para que fiques descansada
E não durmas assustada
Vou deixar a luz acesa;
Assim podes ter certeza
Que não há sombra malvada
Que te apanhe de surpresa.

Não fiques assim de cara triste!
O que dói nunca resiste até mais não
E nada cai mais fundo do que o chão.

Tristeza não é feitio
E o calor depois do frio
É tão certo como o Verão;
Por maior que seja a ferida
Tu vais ver que tem saída
Essa dor no coração.

Mesmo que tudo pareça
Não ter pés nem ter cabeça,
Mete fé no que eu te juro;
Eu vou estar aqui por perto
E não há nada mais certo
Que a manhã depois do escuro.

Não fiques assim de cara triste!
O que dói nunca resiste até mais não
E nada cai mais fundo do que o chão.

Não fiques assim de cara triste!
O que dói nunca resiste até mais não
E nada cai mais fundo do que o chão.

E nada cai mais fundo do que o chão.

Letra: José Fialho Gouveia
Música: Rogério Charraz
Arranjo: Rogério Charraz, Paulo Loureiro e Jaume Pradas
Intérprete: Rogério Charraz (in CD “Não Tenhas Medo do Escuro”, Rogério Charraz/Compact Records, 2016)

Largar, partir

Largar, partir
Desta terra pardacenta
Desta gente sempre igual
Macambúzia, pachorrenta
Indiferente e desatenta
Deste imenso lamaçal
De chorincas
Eternos sorumbáticos
De sopinhas sem sal
Dengosos e apáticos
Seus choros melismáticos
Lamúrias em caudal
A verter, a verter
Pois chorar é beber!

Largar, partir
Rumo a terras misteriosas
Com segredos sem ter fim
Criaturas majestosas
Outras tantas tenebrosas
Como nunca vi assim
E tesouros
Druidas, feiticeiros
E pós de perlimpimpim
Princesas e arqueiros
Sereias, viageiros
Tudo novo para mim
A encher, a encher
Pois partir é crescer!

Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
A não ser p’ra voltar a partir

Largar, partir
Rumo a terras misteriosas
Com segredos sem ter fim
Criaturas majestosas
Outras tantas tenebrosas
Como nunca vi assim
E tesouros
Druidas, feiticeiros
E pós de perlimpimpim
Princesas e arqueiros
Sereias, viageiros
Tudo novo para mim
A encher, a encher
Pois partir é crescer!

Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
A não ser p’ra voltar a partir

Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
Largar, partir, voar
Sem ter certo onde ir
Sem ter por que voltar
A não ser p’ra voltar a partir

Letra e música: Manuel Maio
Intérprete: A Presença das Formigas (in CD “Pé de Vento”, A Presença das Formigas/Careto/XMusic, 2014)

O dia não te correu bem

[ A Mesma Camisola ]

O dia não te correu bem e não gostas do que fazes
E agora só pedes um pouco de atenção
Diz tudo para fora, estou pronto para ouvir
Diz-me algo que não saiba e que te dê a razão
Vais ter de mim um ar de sério compreensivo
Num abraço convincente, como se fosse um irmão
Diz agora o que te vai na mente e no que puder ajudar
Tens aqui um amigo com quem… com quem podes contar
No fundo, na frente, na mesma camisola,
A frio, a quente com a cara para dar
No bom, no mau, no que importa realmente
Levo a tua bandeira, onde consiga chegar

O dia não te correu bem e não gostas do que fazes
Não é culpa de ninguém e podes sempre mudar
Procura no que sabes um caminho para andar
Trata a vida sempre bem, que ela bem te vai tratar
Põe amor no teu caminho e a verdade ao de cima
Nunca ficarás sozinho e podes ajudar também
Se alguém no teu presente possa a vir necessitar
Faz de ti um amigo com quem… com quem se possa contar
No fundo, na frente, na mesma camisola,
A frio, a quente com a cara para dar
No bom, no mau, no que importa realmente
Levo a tua bandeira, onde consiga chegar

No fundo, na frente, na mesma camisola,
A frio, a quente e com a cara para dar
No bom, no mau, no que importa realmente
Levo a tua bandeira, onde consiga chegar

No fundo, na frente, na mesma camisola,
A frio, a quente e com a cara para dar
No bom, no mau, no que importa realmente
Levo a tua bandeira…

Letra e música: Luís Pucarinho
Intérprete: Luís Pucarinho com Jorge Benvinda (in CD “Orgânica Mente Humana”, Caracol Secreto Associação/Alain Vachier Music Editions, 2015)

O que é a vida?

[ Fala do Índio ]

O que é a vida? É o brilho.
O que é a vida? É a noite.
É o sopro do bisonte
no inverno, no inverno.

É sombra que corre na erva
e se perde ao fim do dia.
As cinzas dos antepassados
são p’ra nós sagradas
e quando os bosques sussurram
não sentimos medo,
e quando os bosques sussurram
não sentimos medo.

O que é a vida? É o brilho.
O que é a vida? É a noite.
É o sopro do bisonte
no inverno, no inverno.

É sombra que corre na erva
e se perde ao fim do dia.
As cinzas dos antepassados
são p’ra nós sagradas
e quando os bosques sussurram
não sentimos medo,
e quando os bosques sussurram
não sentimos medo.

O que é a vida?

O que é a vida? É o brilho.
O que é a vida? É a noite.
É o sopro do bisonte
no inverno, no inverno.

O que é a vida?
O que é a vida?

O que é a vida?

Letra e música: João Afonso Lima
Intérprete: João Afonso (in CD “Missangas”, Mercury/Polygram, 1997, reed. Universal Music, 2017)

João Afonso, Missangas

João Afonso, Missanga

Que do céu tombassem violinos

[ Epitáfio ]

Que do céu tombassem violinos
Decidindo por nós, gente maior,
Na forma, no projecto e na ideia,
No fazer sempre mais, sempre melhor!

Que o povo alcançasse em sentimento
Sempre a classe mais alta do poema
E a vida fosse mais que este momento
Entre farrapos de nada e alfazema!

Que a vida fosse alma e fosse vinho,
Fosse vento nas searas ondulantes
E orgasmos de prazer e rosmaninho
E luxo e sonho e fúria a cada instante!

E oceanos de espuma nos levassem
Cavalgando o desespero de partir!
E tudo fosse simples e elevado
Como um prado orvalhado no sentir!

De tudo, tanto que eu acreditei
Tantos anos de espera convertida,
Sobra um sabor de que nada aconteceu
Pelas regras que devia haver na vida.

Por isso, um dia, parto, assim, sem despedida
Entre memórias e cantos partilhados.
E este excesso fabuloso sem ter fim
Vai comigo, fiquem, disso, descansados.

Sobrará de mim, talvez, fraca memória,
Esta luxúria da vida, alguns recados,
Este modo amordaçado de sorrir
E uma montanha de amores nunca alcançados.

Espantosamente, como é qu’inda deixo sonhos?
Mais que o dobro dos feitos consumados!
Só não deixo meias-tintas nem favores,
Nem regras, nem peias, nem pudores.

Deixo excessos, truculências e humores.
Mas virtudes?! Nem pensar! Tudo pecados!

Espantosamente, como é qu’inda deixo sonhos?
Mais que o dobro dos feitos consumados!
Só não deixo meias-tintas nem favores,
Nem regras, nem peias, nem pudores.

Deixo excessos, truculências e humores.
Mas virtudes?! Nem pensar! Tudo pecados!

Poema e música: Pedro Barroso
Intérprete: Pedro Barroso* (in CD “Palavras ao Vento”, Ovação, 2014)

Pedro Barroso
Pedro Barroso
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Contradições

A chuva choveu

[ Chuva de Paus ]

A chuva choveu num dia de sol
Um peixe cresceu em cima do anzol
Tenho dois corações para gostar melhor
Um bate cá dentro, o outro não tem lugar

Um rio balançou p’ra trás e p’rá frente
Tenho duas bocas p’ra cantar diferente
Uma tem tristeza e cheiro a manjerico
Quando a outra cant’a esta dá lhe o fanico

Chuva de Paus, Castelo de Areia
Grão-de-Bico é bom à sombra da bananeira
Tenho sete vidas e uma epifania
Sou gata, estou viva no reino de hoj’em dia

Chuva de Paus, Castelo de Areia
Grão-de-Bico é bom à sombra da bananeira
Tenho sete vidas e uma epifania
Sou gata, estou viva no reino de hoj’em dia

Letra: Miguel Cardina
Música: Pedro Damasceno
Arranjo: Diabo a Sete
Intérprete: Diabo a Sete (in CD “tarAra”, atrasdosbarrocos.com, 2011)

Alguém a ganhar

[ O Beijo da Medusa ]

Alguém a ganhar
Alguém a perder
Alguém a lucrar
Alguém a morrer
Nestas areias movediças
De ganâncias, de cobiças
Um sinistro ritual
Terra prometida
Prometida a quem?
Terra proibida
Terra de ninguém
É uma nova Babilónia
Por dentro da nossa insónia
Uma louca espiral
Pode ser fatal a voz da tua musa
Muito cuidado com o beijo da medusa
Pode ser fatal a voz da tua musa
Muito cuidado com o beijo da medusa
O ovo da serpente, a dança guerreira
Vê lá, não deites gasolina na fogueira
E pode ser fatal a voz da tua musa
Muito cuidado com o beijo da medusa
Salta, soldadinho
Da tua trincheira
Salta, soldadinho
Desta bandalheira
Será que a vida continua?
Esta guerra não é tua
Quem te quer endrominar?

Alguém a ganhar
Alguém a perder
Alguém a lucrar
Alguém a morrer
Sorte caipora
Já abriram a boceta de Pandora
Quem nos quer envenenar?

Pode ser fatal a voz da tua musa
Muito cuidado com o beijo da medusa
Pode ser fatal a voz da tua musa
Muito cuidado com o beijo da medusa
O ovo da serpente, a dança guerreira
Vê lá, não deites gasolina na fogueira
E pode ser fatal a voz da tua musa
Muito cuidado com o beijo da medusa
Gregos e troianos
Abutres e falcões
Há tantos enganos
Nas vossas missões
Rio de raiva e de veneno
Sanguinário, tão obsceno
Um pesadelo que não tem fim
Uivo de chacais
Voz que se apagou
Em lutas tribais
Pranto que secou
Vou questionar a tua sentença, a tua lei
Pois já nem sei
Se foi Abel que matou Caim

Letra e música: José Medeiros
Arranjo: Paulo Borges
Intérprete: José Medeiros (in Livro/2CD “Fados, Fantasmas e Folias”: CD 1, Algarpalcos, 2010)

Anda cá

[ Tempos Anormais ]

Anda cá, se queres ver
As coisas que eu vi:
Um pato a endoidecer,
Outro a sorrir.

Anda cá, nem podes crer
Coisas de contar:
Uma centelha a chover,
Outra a congelar.

Anda cá, se queres ver
As coisas que eu vi:
Gente cansada a lançar
Pragas contra si.

Andam no ar vibrações,
Tempos anormais,
Gente que pede aflições
A quem lhas der mais.

Anda cá, se queres ver
As coisas que eu vi:
Um pato a endoidecer,
Outro a sorrir.

Anda cá, nem podes crer
Coisas de contar:
Uma centelha a chover,
Outra a congelar.

Anda cá, se queres ver
As coisas que eu vi:
Gente cansada a lançar
Pragas contra si.

Andam no ar vibrações,
Tempos anormais,
Gente que pede aflições
A quem lhas der mais.

Letra: Miguel Cardina
Música: Pedro Damasceno, Julieta Silva e Celso Bento
Intérprete: Diabo a Sete (in CD “Figura de Gente”, Sons Vadios, 2016)

A Verdade da Mentira

Coisas que o Mundo não me quer contar
Ou eu não sei entender;
Coisas que a vida me quer ensinar
E eu não quero aprender.

Será que os rios
Sabem o caminho do mar
P’ra lá chegar?
Ou alguém lhes vem mostrar?…

Se eu te contar a verdade
Sem te dizer quase nada,
Tu vais dizer com vontade
Que eu escondo a verdade calada.

Mas, se eu te contar a verdade
E te disser que é mentira,
Tu vais dizer com vontade
Que até a verdade se vira.

Por trás do muro há uma voz a falar,
Deste lado nada se vê;
Dizem-me sempre par’acreditar
Mas não me dizem em quê.

Tantas palavras cruzadas perdidas p’lo ar
E eu a pensar…
Como as hei-de eu arrumar?

Se eu te contar a verdade
Sem te dizer quase nada,
Tu vais dizer com vontade
Que eu escondo a verdade calada.

Mas, se eu te contar a verdade
E te disser que é mentira,
Tu vais dizer com vontade
Que até a verdade se vira.

Se eu te contar a verdade
Sem te dizer quase nada,
Tu vais dizer com vontade
Que eu escondo a verdade calada.

Mas, se eu te contar a verdade
E te disser que é mentira,
Tu vais dizer com vontade
Que até a verdade se vira.

Se eu te contar a verdade
Sem te dizer quase nada,
Tu vais dizer com vontade
Que eu escondo a verdade calada.

Mas, se eu te contar a verdade
E te disser que é mentira,
Tu vais dizer com vontade
Que até a verdade se vira.

Letra: Sebastião Antunes
Música: Paulo Loureiro
Arranjo: Paulo Loureiro e José Salgueiro
Intérprete: Ana Laíns (in CD “Portucalis”, Ana Laíns/Seven Muses, 2017)

Coisas que o mundo

[ A Verdade da Mentira ]

Coisas que o Mundo não me quer contar
Ou eu não sei entender;
Coisas que a vida me quer ensinar
E eu não quero aprender.

Será que os rios
Sabem o caminho do mar
P’ra lá chegar?
Ou alguém lhes vem mostrar?…

Se eu te contar a verdade
Sem te dizer quase nada,
Tu vais dizer com vontade
Que eu escondo a verdade calada.

Mas, se eu te contar a verdade
E te disser que é mentira,
Tu vais dizer com vontade
Que até a verdade se vira.

Por trás do muro há uma voz a falar,
Deste lado nada se vê;
Dizem-me sempre par’acreditar
Mas não me dizem em quê.

Tantas palavras cruzadas perdidas p’lo ar
E eu a pensar…
Como as hei-de eu arrumar?

Se eu te contar a verdade
Sem te dizer quase nada,
Tu vais dizer com vontade
Que eu escondo a verdade calada.

Mas, se eu te contar a verdade
E te disser que é mentira,
Tu vais dizer com vontade
Que até a verdade se vira.

Se eu te contar a verdade
Sem te dizer quase nada,
Tu vais dizer com vontade
Que eu escondo a verdade calada.

Mas, se eu te contar a verdade
E te disser que é mentira,
Tu vais dizer com vontade
Que até a verdade se vira.

Se eu te contar a verdade
Sem te dizer quase nada,
Tu vais dizer com vontade
Que eu escondo a verdade calada.

Mas, se eu te contar a verdade
E te disser que é mentira,
Tu vais dizer com vontade
Que até a verdade se vira.

Letra: Sebastião Antunes
Música: Paulo Loureiro
Arranjo: Paulo Loureiro e José Salgueiro
Intérprete: Ana Laíns (in CD “Portucalis”, Ana Laíns/Seven Muses, 2017)

Ana Laíns
Ana Laíns

Sou Dual

Eu quero andar sem pés no chão,
Talvez sim, talvez não…
Ser uma conta certa e errada,
Ser tudo, ser nada.

Escrever sem nada p’ra dizer
E falar só por querer;
Num contra-senso todo imenso
Sou eu, quando penso.

Certeza inquieta, que aperta,
Que oprime e liberta,
Que às vezes acerta:
Sou dual.

Puxar meu barco pela areia,
Volta e meia, desistir;
Dar-me a quem me quer ver feia,
E de quem me vê, fugir.

Senhora dos meus devaneios,
Imperfeita perfeição,
Carrego mil e um anseios
No peito e nas mãos.

Certeza inquieta, que aperta,
Que oprime e liberta,
Que às vezes acerta:
Sou dual.

Certeza inquieta, que aperta,
Que oprime e liberta,
Que às vezes acerta:
Sou dual.

Letra: Ana Laíns e Mafalda Arnauth
Música: Ivan Lins
Arranjo: Paulo Loureiro e Ana Laíns
Intérprete: Ana Laíns com Ivan Lins (in CD “Portucalis”, Ana Laíns/Seven Muses, 2017)

Ana Laíns, Portucalis

Ana Laíns, Portucalis

Tubarão tinha dentes de rainha

[ Tamboril ]

Tubarão tinha dentes de tainha
E a tainha tinha dentes de tambor
Toca traz tempo chuva tempestade
Tubarão trincou um touro nos taleigos da vontade

Tubarão tinha o tímpano trocado
E trocado (es)tava o tempo todo o ano
Toca traz tempo chuva tempestade
Tubarão tamborilou ‘inda a missa ia a metade

Tubarão traficou-se em tamboril
Troca-tintas com retoque teatral
Toca terça, quarta, quinta, noite e dia
Travestido no Entrudo c’uma tromba de enguia

Tamboril teve tísica ao contrário
Já tossia como tosse o tubarão
Toca terça, quarta, quinta, noite e dia
Tamboril entubarou num atalho p’rá Turquia

Tubarão tinha dentes de tainha
E a tainha tinha dentes de tambor
Toca traz tempo chuva tempestade
Tubarão trincou um touro nos taleigos da vontade

Tubarão tinha o tímpano trocado
E trocado (es)tava o tempo todo o ano
Toca traz tempo chuva tempestade
Tubarão tamborilou ‘inda a missa ia a metade

Tubarão traficou-se em tamboril
Troca-tintas com retoque teatral
Toca terça, quarta, quinta, noite e dia
Travestido no Entrudo c’uma tromba de enguia

Tamboril teve tísica ao contrário
Já tossia como tosse o tubarão
Toca terça, quarta, quinta, noite e dia
Tamboril entubarou num atalho p’rá Turquia

Letra: Miguel Cardina
Música e arranjo: Diabo a Sete
Intérprete: Diabo a Sete

Com um olhar de soslaio

[ Prosas Mordazes ]

Com um olhar de soslaio, não me vêem como eu sou
Atracados na memória, com quem ando e onde vou

E falam sobre mim, sem me conhecer
Dizem que é assim, não têm o que dizer
Não têm o que dizer, não têm o que dizer

Não sabem da minha vida, quem morreu e quem ficou
São nuances que descuram, que ninguém lhes segredou

E falam sobre mim, sem me conhecer
Dizem que é assim, nem sei que lhes dizer
Nem sei que lhes dizer, nem sei que lhes dizer

Entre dentes especulam, onde vou e o que faço
Não passam de vis criaturas a quem nego o meu enlaço

E falam sobre mim, sem me conhecer
Dizem que é assim, nunca hão-de saber
Nunca hão-de saber, nunca hão-de saber

E falam sobre mim, sem me conhecer
Dizem que é assim, não têm o que dizer
Falam sobre mim, sem me conhecer
Dizem que é assim, nem sei que lhes dizer
Falam sobre mim, sem me conhecer
Dizem que é assim, nunca hão-de saber
Nunca hão-de saber, nunca hão-de saber

Letra e música: Miguel Moita Fernandes
Arranjo: Lacre
Intérprete: Lacre
Versão original: Lacre (in CD “Opus 0”, Lacre/Tradisom, 2013)

Como diferem das minhas

[ Minhas Penas ]

Como diferem das minhas
As penas das avezinhas
Que de leves leva o ar
Só as minhas pesam tanto
Que às vezes nem já o pranto
Lhes alivia o pesar

As minhas penas não caem
Nem voam nunca, nem saem
Comigo desta amargura
Mostram apenas na vida
A estrada já conhecida
Trilhada pelos sem ventura

Passam dias, passam meses
Passam anos, muitas vezes
Sem que uma pena se vá
E se uma vem, mais pequena
Ai, depois nem vale a pena
Porque mais penas me dá

Que felizes são as aves
Como são leves, suaves,
As penas que Deus lhes deu
Só as minhas pesam tanto
Ai, se tu soubesses quanto…
Sabe-o Deus e sei-o eu

Só as minhas pesam tanto
Ai, se tu soubesses quanto…
Sabe-o Deus e sei-o eu

Letra: Fernando Caldeira
Música: Carlos da Maia
Intérprete: Maria Teresa de Noronha (in CD “O Melhor de Maria Teresa de Noronha”, EMI-VC, 1992)

Num dia sou quem me encontro

[ Caminho Certo ]

Num dia sou quem me encontro,
Num outro dia me perco
Na vida que conto
Tão longe e tão perto.
Será o caminho certo?

Vem de tão longe este espanto
Tão inquieto, tão perfeito
De tudo o que tenho de incerto.
Saudade,
Que é feito
Do caminho certo?

Faço o que tenho a fazer,
Longe daqui é mais perto.
Quem vai dizer?
Como saber
Qual o caminho certo?

Haja um dia que se encontre
Sem saber ao que virá,
Se fica p’ra lá do deserto.
Saudade,
Eu sei lá
Se é o caminho certo!

Vem de tão longe este espanto
Tão inquieto, tão perfeito
De tudo o que tenho de incerto.
Saudade,
Que é feito
Do caminho certo?

Letra: Viriato Teles
Música: Ricardo Fino
Arranjo: Quiné Teles
Intérprete: Ela Vaz (in CD “Eu”, Micaela Vaz, 2017)

Só por existir

Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar

Só por ter dois sóis
Só por hesitar
Fiz a cama na encruzilhada
E chamei casa a esse lugar

E anda sempre alguém por lá
Junto à tempestade
Onde os pés não têm chão
E as mãos perdem a razão

Só por inventar
Só por destruir
Tenho as chaves do céu e do inferno
E deixo o tempo decidir

E anda sempre alguém por lá
Junto à tempestade
Onde os pés não têm chão
E as mãos perdem a razão

Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar
Eu sei que nenhuma vai ganhar

Letra e música: Jorge Palma
Intérprete: Jorge Palma (in “Bairro do Amor”, Polygram, 1989)

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Tempos e Horas

Chorava por te não ver

[ Fado das Horas ]

Chorava por te não ver,
Por te ver eu choro agora;
Mas choro só por querer,
Querer ver-te a toda a hora.

Passa o tempo de corrida,
Quando falas e eu te escuto;
Nas horas da nossa vida
Cada hora é um minuto.

Quando estás ao pé de mim
Sinto-me dona do mundo;
Mas o tempo é tão ruim,
Tem cada hora um segundo.

Deixa-te estar a meu lado
E não mais te vás embora,
P’ra o meu coração, coitado,
Viver na vida uma hora.

Deixa-te estar a meu lado
E não mais te vás embora,
P’ra o meu coração, coitado,
Viver na vida uma hora.

Letra: António Sabrosa
Música: Maria Teresa de Noronha

Gosto de te ouvir cantar

[ Chuva nos Beirados ]

Gosto de te ouvir cantar,
Ó chuva, nos beirados,
Trauteando músicas de encantar,
Tornando os dias molhados:
É o Inverno a chegar.
Gosto de te ouvir cair,
Ó chuva, nos telhados,
Sussurrando melodias calmas;
O teu gotejo sincopado,
De sinfonia abstracta,
É como a amizade
Quando o amor nos falta!

Gosto de te ouvir cantar,
Ó chuva, nos beirados,
Trauteando músicas de encantar,
Tornando os dias molhados:
É o Inverno a chegar.
Gosto de te ouvir cair,
Ó chuva, nos telhados,
Sussurrando melodias calmas;
O teu gotejo sincopado,
De sinfonia abstracta,
É como a amizade
Quando o amor nos falta!
É como a amizade
Quando o amor nos falta!

Letra: Rogério Perrolas
Música e arranjo: Rogério Charraz
Intérprete: Rogério Charraz com António Caixeiro, Buba Espinho e Eduardo Espinho (in CD “Não Tenhas Medo do Escuro”, Rogério Charraz/Compact Records, 2016)

Nesses dias em que as horas

[ Ondulações ]

Nesses dias em que as horas
se fazem dias sem fim,
já não sou eu quem acorda,
há alguém que dorme em mim.

Era mar ainda agora,
fiz-me rio sem saber
que o céu que em mim demora
é só foz e anoitecer.

Sou pedra em fogo lento
vaga sem lua nem vez,
conto em riso e lamento,
quanto o tempo desfez.

E quando um barco pressente
dessa noite o marulhar,
dou o peito à corrente,
sou um rio feito mar.

Era mar ainda agora
fiz-me rio sem saber
que o céu que em mim demora
é só foz e anoitecer.

Se me deres uma vez mais
a maré do teu olhar,
eu serei somente um cais
onde possas aportar.

Letra: Helena Carvalho
Música: Fernando Dias Marques
Arranjo: Fernando Marques
Intérprete: Fernando Marques Ensemble (in CD “(des)Encontros”, Fernando Marques Ensemble, 2016)

No mês de Janeiro

[ Calendário ]

No mês de Janeiro
Vem a chuva e vem o vento,
Enquanto em Fevereiro
Chega ao fim o meu tormento.

Nos idos de Março
Faço as malas e abalo;
Abril, o que faço?
Canto sempre e não me calo.

E no mês de Maio
Tiro a roupa e vou ao mar;
E nessa não caio:
De em Junho me calar.

No calor de Julho
Ainda mais canto com gosto,
E logo mergulho
O corpo no mês de Agosto.

Quando em Setembro
Eu finalmente descubro
Que ainda me lembro
Dos teus anos em Outubro.

E assim em Novembro,
Se eu agora não me engano,
Cheira-me a Dezembro,
Chega ao fim o fim do ano.

De novo em Janeiro…
Ainda algum tempo me sobra
Para em Fevereiro
Deitar enfim mãos à obra.

Fica tudo pronto
Lá para finais de Março;
Em Abril eu conto
Encontrar-te num abraço.

Em Maio de flores
Espero que a chuva não caia;
E em Junho, se fores ao mar,
Vês-me lá na praia.

O levante em Julho
Chega mesmo a meu gosto:
Dou mais um mergulho,
Faço anos em Agosto.

Partem em Setembro,
Rumo a sul, as andorinhas;
De Outubro a Dezembro
Ficam sem folhas as vinhas.

E assim terminamos
Mais um ano nesta lida:
Canção que acabamos
No seu ponto de partida.

Letra e música: Sérgio Mestre
Intérprete: OrBlua com Janita Salomé (in Livro/CD “Retratos Cinéticos”, Fungo Azul/Ocarina, 2015)

Nos dias de hoje

Nos dias de hoje,
Ninguém sabe a quantas anda:
Manda quem pode,
Pode quem manda.
Nos dias de hoje,
Não sentimos confiança:
Salva-se a música
E siga a dança!
Nos dias de hoje,
Ninguém sabe o que o espera,
Se é inverno ou primavera,
Indiferença ou compaixão.
Nos dias de hoje,
A justiça não impera,
A igualdade desespera,
É confusa a confusão.

Salva-se o amor,
Salva-se a esperança,
Salvam-se os olhos duma criança;
Salva-se a honra,
Salva-se a paz,
Salvam-se os beijos que tu me dás!

Nos dias de hoje,
Ninguém sabe o de amanhã,
E fazer planos
É coisa vã.
Nos dias de hoje,
Já não há motivação
Para dar às balas
O coração.
Nos dias de hoje,
Ninguém sabe o que o espera,
Se é um sonho ou uma quimera
Ter saudades do futuro.
Nos dias de hoje,
Ninguém põe as mãos no fogo
Por um amanhã mais novo,
Por um amanhã mais puro.

Salva-se o amor,
Salva-se a esperança,
Salvam-se os olhos duma criança;
Salva-se a honra,
Salva-se a paz,
Salvam-se os beijos que tu me dás!

Salva-se o amor,
Salva-se a esperança,
Salvam-se os olhos duma criança;
Salva-se a honra,
Salva-se a paz,
Salvam-se os beijos que tu me dás!

Salva-se a honra,
Salva-se a paz,
Salvam-se os beijos que tu me dás!

Letra e música: Tozé Brito
Intérprete: Ricardo Ribeiro (in CD “Hoje É Assim, Amanhã Não Sei”, Ricardo Ribeiro/Parlophone/Warner Music, 2016)

O tempo perguntou ao tempo

[ Charanga do Tempo ]

O tempo perguntou ao tempo
Quanto tempo o tempo tem;
O tempo respondeu ao tempo
Que o tempo tem tanto tempo
Quanto tempo o tempo tem.
Tempo que parece Deus
E Deus que parece a Vida;
Vida que pareço eu
Entre o riso e o pranto
Numa busca sem medida.

O tempo perguntou ao tempo
Quanto tempo o tempo tem;
O tempo respondeu ao tempo
Que o tempo tem tanto tempo
Quanto tempo o tempo tem.
Sobre o tempo ninguém sabe,
Talvez ele saiba de nós;
Não se vende, não se rende,
Tantas vezes não se entende
E quase sempre manda em nós!

O tempo perguntou ao tempo
Quanto tempo o tempo tem;
O tempo respondeu ao tempo
Que o tempo tem tanto tempo
Quanto tempo o tempo tem.
Mas sei qu’ele sabe o que faz
Sem se dar a entender;
Na verdade que trouxer
Venha o tempo que vier,
Hei-de ser tempo de paz.

O tempo perguntou ao tempo…
Sobre o tempo ninguém sabe…
O tempo perguntou ao tempo…
Talvez ele saiba de nós…
O tempo perguntou ao tempo…
O tempo, o tempo, o tempo…
O tempo, o tempo, o tempo, o tempo…
O tempo perguntou ao tempo
Quanto tempo o tempo tem.

Letra: Popular (refrão) e Ana Laíns
Música: Carlos Lopes
Intérprete: Ana Laíns
Versão original: Ana Laíns com Mafalda Arnauth (in CD “Portucalis”, Ana Laíns/Seven Muses, 2017)

São tempos

São tempos acesos
e os dias correndo,
e quanto mais corres
menos vais vivendo.

Os olhos são tristes,
os cravos murcharam,
a esperança ainda existe,
mas as vozes calaram.

Os campos são amplos,
a vida é às voltas,
mas, às páginas tantas,
eu morro em revoltas.

São tempos gritantes
e as horas passando,
e quantas mais passam
mais vais naufragando.

Nos teus olhos há sonhos
que a sombra encobriu.
Há restos da esperança
que um Abril floriu.

Os campos são amplos,
a vida é às voltas,
mas, às páginas tantas,
eu morro em revoltas.

São tempos de fúria
por servidões encoberta,
quando mais te enfureças
mais o meu canto desperta.

Nos nossos olhos há sonhos
que vão florescer,
na certeza que um dia
Abril vai romper.

Os campos são amplos,
a vida é às voltas,
mas, às páginas tantas,
eu morro em revoltas.

Letra: Joana Lopes
Música: António Pedro
Intérprete: Musicalbi*
Versão original: Musicalbi (in CD “Solidão e Xisto”, Musicalbi, 2019)

Se o tempo não chega a ser

[ O Fado do Tempo Morto ]

Se o tempo não chega a ser
Mais que as horas a passar,
Talvez o mal de o perder
Me deixe um dia ganhar.

Das mil voltas que já dei
Ao mundo que já foi meu,
Fica-me o tempo em que amei
Todo o mundo que era teu.

Talvez de mim me perdesse
E me esquecesse de ti…
E então o tempo dos dois
Seria o que não vivi.

Não sei bem se inda te quero,
Ou se é sina que Deus me deu…
Meu amor, se não te espero
É porque o tempo morreu…

Letra: Carlos Leitão
Música: Popular (Fado Menor)
Intérprete: Ana Laíns
Versão original: Ana Laíns (in CD “Portucalis”, Ana Laíns/Seven Muses, 2017)

Sei quantas luas

[ Dias Cruzados ]

Sei quantas luas tu dormiste,
Neste teu mundo tão triste,
Neste teu encanto puro!

Foi uma vida sem história,
Quatro ventos sem memória,
Numa onda sem retorno!

E… cruzam-se os dias,
Mesmo… sem ter seu rumo próprio…
Nome… cada letra é teu gosto…
Cada gosto em teu luar, devagar!

Vem, nesse pensamento vago,
Onde choro e não me encontro,
Onde canto ao longe o Fado…

Traz esses dias que se cruzam,
Em redor de noites brancas,
Ao sabor de luas calmas.

E… cruzam-se os dias,
Mesmo… sem ter seu rumo próprio…
Nome… cada letra é teu gosto…
Cada gosto em teu luar, devagar!

Os dias cruzados, amados,
Vencidos, perdidos…
Enganados!

Amantes das luas,
Das noites cruzadas,
Amadas sentidas… Rotinas!…
Fugindo…

Os dias cruzados, amados,
Vencidos, perdidos…
Enganados!

Amantes das luas,
Das noites cruzadas,
Amadas sentidas… Rotinas!…
Fugindo, ouvindo o mar do dia!…

Os dias cruzados, amados,
Vencidos, perdidos…
Enganados!

Amantes das luas,
Das noites cruzadas,
Amadas sentidas… Rotinas!…
Fugindo…

Os dias cruzados, amados,
Vencidos, perdidos…
Enganados!

Amantes das luas,
Das noites cruzadas,
Amadas sentidas… Rotinas!…
Fugindo, ouvindo o mar do dia!…

Letra: José Flávio Martins
Música: António Pedro
Intérprete: Musicalbi*
Versão original: Musicalbi (in CD “Solidão e Xisto”, Musicalbi, 2019)

Vamos embora, é tarde

[ Passam Horas, Passam Dias ]

Vamos embora, é tarde, tão tarde,
nem demos porque o tempo já passou.
Alguma coisa em nós se vai perdendo,
alguma coisa em nós se encontrou.
Vamos contar que há amanhã
p’ra tudo o que ainda não foi dito,
até ver, vamos lá viver.

Passam horas, passam dias,
horas nossas que lá vão,
uns passam, outros ficam.
Não vão.

Quem está? Quem foi embora?
No abrir e fechar da hora,
quem faz connosco a vida
não demora.

O que devemos ao tempo, vivendo,
que resgatamos à morte, no fim.
Uma andorinha cantando,
cantando à vida,
poisada no beiral da cantiga
e é este canto maior
que faz do tempo uma voz,
tecendo os dias em nós.

Passam horas, passam dias,
horas nossas que lá vão,
uns passam, outros ficam.
Não vão.

Quem está? Quem foi embora?
No abrir e fechar da hora,
quem faz connosco a vida
não demora.

Passam horas, passam dias,
horas nossas que lá vão,
uns passam, outros ficam.
Não vão.

Quem está? Quem foi embora?
No abrir e fechar da hora,
quem faz connosco a vida
não demora.

Letra: Amélia Muge
Música: José Barros
Arranjo: José Barros e Miguel Tapadas
Intérprete: José Barros e Navegante
Versão original: José Barros e Navegante (in CD “À’Baladiça”, Tradisom, 2018)

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