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Deolinda Rodrigues fadista

Um Fado para Fred Astaire

No silêncio do meu quarto… de incerteza
Não vos sei dizer se morro… ou ressuscito;
Faz-se noite quando parto… com tristeza
E talvez peça socorro… mas não grito.

Quem diria que os teus pés… de bailarino
Entrariam para a história… da saudade,
E que meio de viés… por teu destino
Brindarias à memória… que me invade?!

Quase toco a tua mão… presa ao ecrã,
Mas tropeço nos meus passos… sem esperança;
Não existe solidão… nem amanhã
Quando danço nos teus braços… de criança.

Eu é que sou a menina,… mas não quero,
E não vou mudar de idade… e ai de mim
Se a memória só termina… e volta a zero
Quando acabar a saudade… que é sem fim.

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Popular e Alfredo Duarte “Marceneiro” (Fado Menor com Versículo)
Intérprete: Cristina Nóbrega
Versão discográfica de Cristina Nóbrega (in CD “Um Fado para Fred Astaire”, Watch & Listen, 2014)
Versão original: Deolinda Rodrigues (inédita)

Deolinda Rodrigues fadista
Deolinda Rodrigues fadista
Alfredo Marceneiro

A Vida Que Há na Saudade

Quando o silêncio me diz
que a vida está por um triz,
e eu sei que fala verdade,
vou p’ra trás de uma guitarra
e a minha voz agarra
a vida que há na saudade.

Vem um fado e outro fado
e o coração, cansado,
diz que não quer sofrer tanto,
porque já sabe de cor
o que lhe faz o Menor
de cada vez que eu o canto.

Mas o guitarrista toca
uma guitarra que evoca
outra guitarra mais triste:
está guardada no meu peito
e toca um fado que é feito
da dor mais forte que existe.

Ao escutá-la no meu sangue,
o meu coração exangue
volta a bater com vontade:
e é nas cordas da viola
que a minha vida se enrola
na vida que há na saudade!

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Alfredo Duarte “Marceneiro” (Fado Cravo)
Intérprete: Cristina Nóbrega (ao vivo no Teatro da Luz, Lisboa)
Versão original: Cristina Nóbrega (in CD “Um Fado para Fred Astaire”, Watch & Listen, 2014)

Alfredo Marceneiro
Alfredo Marceneiro
Cristina Nóbrega

Quando o Mar nos Leva o Fado

Foi a maré que te trouxe,
foi o mar que te levou:
o nosso amor afogou-se,
nenhum de nós se salvou.

Só ficou a maresia:
tudo o resto foi levado,
como fica a poesia
quando o mar nos leva o fado.

Nesses instantes de medo,
a Mouraria discreta
guarda a guitarra em segredo
na viela mais secreta.

E nem mesmo a maresia
tem licença p’ra entrar
no bairro da Mouraria
quando alguém está a cantar.

Noutros bairros ribeirinhos,
onde há cheiro de marés,
chegam barcos pobrezinhos:
trazem fados no convés.

O nosso amor afogou-se
de tanto eu o ter chorado:
não sei dizer quem o trouxe,
mas quem o leva é o Fado.

Letra: Tiago Torres da Silva
Música: Alfredo Duarte “Marceneiro” (Fado Bailarico)
Intérprete: Cristina Nóbrega
Versão original: Cristina Nóbrega (in CD “Um Fado para Fred Astaire”, Watch & Listen, 2014)

Cristina Nóbrega
Cristina Nóbrega