Vicente da Câmara

Vicente da Câmara

Fado

Poeta e intérprete do fado, acompanhando-se à guitarra, Vicente da Câmara (Lisboa, 7 de maio de 1928 – Lisboa, 28 de maio de 2016) nasceu em Lisboa, no Alto de Santa Catarina. Descende de uma antiga família cujas raízes remontam a João Gonçalves Zarco. Manteve a tradição do fidalgo fadista, imprimindo às suas interpretações um cunho muito particular, destacando-se uma característica única, o timbre e musicalidade da sua voz, numa sempre clara articulação dos poemas.

Filho de Maria Edite e João Luís da Câmara, jornalista e locutor na Emissora Nacional, começou a interessar-se pelo Fado ouvindo os discos de João do Carmo de Noronha, seu tio avô, e assistindo aos ensaios de sua tia, Maria Teresa de Noronha.

Vicente da Câmara começou a “puxar para a fadistice” e, com 15 anos, já interpretava o fado como amador, frequentando com os amigos espaços como a Adega Mesquita, a Adega Machado ou a Adega da Lucília. Nessa altura aprendeu também a tocar guitarra. Apesar de presença habitual nestes espaços, o fadista nunca integrou nenhum elenco fixo das casas de fado.

Incentivado pela tia e por Henrique Trigueiro participa num concurso da Emissora Nacional, nesse ano a vencedora foi Júlia Barroso, mas no ano seguinte Vicente da Câmara ganhou o 1º prémio. A partir dessa data, 1948, actuou num grande número de programas daquela estação, como os “Serões para Trabalhadores”, programas de estúdio e sobretudo no programa que a sua tia, Maria Teresa de Noronha, manteve naquela emissora até 1962.

Em 1950, e em vésperas da sua partida para Luanda (Angola), onde permaneceu 2 anos, assinou o seu primeiro contrato discográfico, com a Valentim de Carvalho, e grava o seu primeiro disco, lançando os temas: “Fado das Caldas” e “Varina”.

A 23 de Abril de 1955 casou-se com D. Maria Augusta de Mello Novais e Atayde, com quem teria 6 filhos. O mais novo, José da Câmara, seguiu as pisadas do pai, chegando os dois a pisar o mesmo palco e a gravar juntos, como acontece no CD “Tradição” (EMI, 1993), onde se juntam a Nuno da Câmara Pereira numa homenagem a Maria Teresa de Noronha.

Vicente da Câmara passou a ser contratado da editora Custódio Cardoso Pereira em 1961. Neste período escreveu “A Moda das Tranças Pretas”, hoje reconhecidamente o seu maior. Em 1967 celebrou um contrato com a Rádio Triunfo, onde gravou temas como “Guitarra Soluçante”, “O Fado Antigo é Meu Amigo” e “Há Saudades Toda a Vida”.

No cinema participou na “Última Pega” (1964), filme realizado por Constantino Esteves, com Leónia Mendes e Fernando Farinha. Vicente da Câmara protagonizou uma desgarrada com Fernando Farinha. Só voltou ao cinema em 2007, mas as suas participações em programas de televisão seriam uma constante ao longo de toda a carreira.

Após o 25 de Abril o fado passou por um conhecido período de menor popularidade que se reflecte para o fadista numa quase total ausência de espectáculos. Vicente da Câmara manteve a sua actividade profissional, durante 19 anos, como inspector da CIDLA, pelo que a sua dedicação ao fado como profissional, com uma actividade bastante intensa, a nível nacional e internacional, atinge o auge na década de 80.

Desde então realizou espectáculos na Alemanha, Luxemburgo, França, Espanha, Holanda, Canadá, África do Sul, Macau, Hong Kong, Seul, Coreia, Malásia, Brasil, Moçambique e Angola.

Em 1989, por ocasião dos seus 40 Anos de Carreira Artística, os amigos organizaram uma Festa de Homenagem, no Cinema Tivoli, onde ele próprio actuou e, como confidencia “jamais esquecerá”.

No dia 25 de Setembro, na inauguração do Museu do Fado (do qual foi um dos membros do Conselho Consultivo), abriu o espectáculo realizado no Largo Chafariz de Dentro, gravado pela RTPi.

O seu registo discográfico mais recente, “O rio que nos viu nascer”, foi editado pela Ovação em 2006. O mercado acolhe também algumas reedições das suas gravações em formato CD, de que salientamos as colectâneas do seu trabalho nas colecções “O Melhor dos Melhores” (Movieplay, 1994) e “Biografia do Fado” (EMI, 2004).

Em 2007 regressou ao cinema, no filme de Carlos Saura, “Fados”, protagonizando um excerto dedicado às Casas de Fados, onde se juntou a Maria da Nazaré, Ana Sofia Varela, Carminho, Ricardo Ribeiro e Pedro Moutinho para recriar o ambiente das interpretações.

Em 2009, Vicente da Câmara festejou os 60 anos de carreira artística. O Teatro Tivoli foi novamente o palco de comemoração da efeméride com um espectáculo onde, para além do próprio actuaram José da Câmara, Maria João Quadros, Teresa Siqueira e António Pinto Basto, entre outros. Ainda nesse ano a Fundação Amália Rodrigues distinguiu-o com o “Prémio Carreira”.

Selecção de fontes de informação

Baptista-Bastos (1999), “Fado Falado”, Col. “Um Século de Fado”, Lisboa, Ediclube.

Museu do Fado – Entrevista realizada em 17 de Novembro/2006.

Museu da Música, acesso a 13 de março de 2018

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