Vasco Dantas por Paul Jacob

VASCO DANTAS ROCHA

Nascido no Porto em 1992, Vasco Dantas já obteve mais de 50 prémios em concursos internacionais em países como a Alemanha, Espanha, Grécia, Itália, Malta, Marrocos Portugal e Reino Unido: “Grand Prix” no Valletta International Piano Competition (Malta), “Prix Spécial” no Concours International de Piano SAR La Princesse Lalla Meryem (Marrocos), a “Medalha de Mérito Dourada” atribuída pela Câmara Municipal de Matosinhos, o 1º Prémio no Concurso de Interpretação do Estoril – Festival de Música do Estoril.

ENTREVISTA

Como começou a sua descoberta da arte dos sons?

Tudo começou quando eu tinha 4 anos, de forma muito aleatória. Um dia tive de acompanhar o meu pai a um ensaio de coro onde ele era coralista. Nesse dia a minha mãe não pôde ficar comigo. Fiquei lá “à seca”, a ouvir o ensaio e, conta o maestro desse coro, o professor José Manuel Pinheiro, que no intervalo, eu fui para o piano – havia lá um teclado eletrónico – e comecei a tentar adivinhar os sons que eles tinham tocado. O maestro apercebeu-se, fez-me uns testes rápidos, umas brincadeiras, e disse que eu tinha talento musical e podia até podia vir a ter ouvido absoluto. Aconselhou o meu pai a inscrever-me na música. A partir daí fui para a Valentim de Carvalho, no Porto, e foi onde tudo começou. Eu estava na música como também estava na escola, no ténis, no futebol…

Aos 7 anos estudaria também violino, que continua a levar a sério. O que o seduz neste instrumento?

Iniciei o violino porque em casa ouvia a minha irmã mais nova a estudar, que tinha acabado de começar as aulas de violino, e atraiu-me o tipo de instrumento, totalmente diferente do piano, tocando directamente nas cordas e podia-se transportar, levar para a escola ou levá-lo para estar com amigos.

Margarida Marinho e Ricardo Fráguas foram importantes para evoluir como aluno de piano?

A Margarida foi a primeiríssima que me ensinou o dó ré mi e a ler a partitura, tinha eu 4 anos. Ainda me lembro da primeiríssima músiquinha que me ensinou a tocar, com letra e tudo:
Com as notas: “mi ré dó ; mi ré dó ; dó dó ré ré mi ré dó” – letra: “Pão quentinho, pão quentinho, um ou dois é baratinho”.

Passado um ano ou pouco mais, ela sugeriu-me que eu tivesse aulas individuais, pois as aulas dela eram sempre em grupo. Foi então que iniciei as aulas de piano individuais com o Ricardo Fráguas, ainda na Valentim de Carvalho. O Ricardo foi quem me treinou o ouvido absoluto que desenvolvi e me preparou para aos 7 anos (1999) fazer a prova de ingresso no Conservatório de Música do Porto, que se situava no belíssimo Palacete Pinto Leite, na Rua da Maternidade.

Com 6 anos deu a sua primeira apresentação pública no Museu do Carro Eléctrico do Porto. Como era ser criança prodígio?

Após essa actuação, lembro-me que lançaram em palco um fumo branco para fazer um efeito e um ambiente diferente preparando o palco para o coro cantar. Fiquei fascinado com a magia do palco !
Na verdade não sei como era ser criança prodígio porque eu não era prodígio, ou pelo menos, não tinha noção disso. Os meus pais e professores tiveram sempre o cuidado de me elogiar com moderação e talvez por isso eu nunca senti que fosse especial entre os restantes colegas.

Por exemplo, lembro-me de por vezes os professores exibirem o que eu conseguia, de olhos fechados, adivinhar as notas tocadas no piano (ouvido absoluto). Mas também me lembro que nas primeiras vezes que me sentia inseguro com esse jogo e eventualmente falhava algumas notas… então, ia para casa e treinava montes de vezes. Pedia ao meu pai para tocar ao piano as notas para eu adivinhar, pedia à minha mãe, à minha irmã, aos meus primos… eram tantas as vezes que eles se aborreciam e tinha que ir variando as pessoas para jogar/treinar. Até que gradualmente já conseguia dominar o jogo. Quando voltava à Valentim de Carvalho e os meus professores exibiam novamente o jogo aos seus colegas, eu já acertava tudo sem problemas… eu ouvia eles comentarem uns aos outros sobre o talento enorme que eu tinha… eu ficava calado, não queria que eles descobrissem que tinha sido trabalho, não talento.

Em 2000, foi admitido no Conservatório de Música do Porto (CMP), sob a orientação da professora Rosgard Lingardsson, da qual foi aluno até terminar o curso Complementar de Piano em 2010, adquirindo a nota máxima. Qual era a sensação de estudar num conservatório carregado de história?

Foi uma honra enorme estudar 10 anos no CMP. O ambiente era sempre fantástico e foi nessa escola que eu realmente mais me desenvolvi, não só em música, mas a todos os níveis humanos.

A interação entre alunos, pais e professores, dentro do mesmo edifício era única e original. O palacete parecia pequeno para uma escola mas tinha centenas de alunos e muitas dezenas de salas. O facto de os pais poderem assistir às aulas fazia com que diariamente estivessem presentes no edifício ou nos jardins e café da escola. O ambiente era muito unido e todos os alunos tinham vontade de aprender, pois só existia o regime supletivo e praticamente todos os alunos que lá estudavam faziam-no por gosto e não por obrigação.

Lembro-me que os pais, como tinham sempre longas horas de espera pelos filhos, decidiram formar um Coro de Pais e uma Associação de Pais dos Alunos do CMP. Eles passaram também a se divertir nos ensaios e a organizar várias actividades para a escola.

A minha professora Rosgard foi quem me ensinou verdadeiramente a tocar piano. Foram 10 anos de aulas extremamente proveitosas. Agradeço-lhe muito, sobretudo o enorme esforço extra que fazia para me preparar o melhor possível para audições, concursos e provas!

Que outros professores teve no Conservatório?

  • De Piano e Música de Câmara tive apenas a professora Rosgard Lingardsson.
  • De Formação Musical tive a professora Luísa Allen e o professor José Ferreira.
  • De Coro tive o professor João Pedro e a professora Magna Ferreira.
    De Composição tive o professor João Heitor-Rigaud e o professor Fernando Lapa.
    De Acústica tive o professor José Manuel Pinheiro.
  • De História da Música, o professor Mário Anacleto

Dos professores que encontrava nos corredores do Conservatório do Porto enquanto estudante, quem o impressionava de modo especial?

Todos, de todos os instrumentos e disciplinas, em certa medida me impressionavam, pois eram muito diferentes entre si e alguns eu ouvia muito falar mas raramente os via. Tudo isso gerava uma expectativa e curiosidade grande. Um dos que mais me impressionava era o Prof. Rigaud de Análise e Técnicas de Composição e mais tarde cheguei a ser seu aluno.

Como foi o seu percurso enquanto estudante do ensino básico ao secundário? Dava prioridade à música, ou valorizava todas as disciplinas?

Penso que foi um percurso normal e positivo. Estive sempre entre os melhores alunos da turma ao longo dos anos do Ensino Básico. No fim do 9° ano tive que optar por um curso secundário e penso que podia ter escolhido quase qualquer um. Acabei por optar por Ciências e Tecnologias , em simultâneo com Música no Conservatório. Ingressei na Escola Secundária João Gonçalves Zarco e fui aceite numa turma especial, com alunos escolhidos a dedo, sob entrevista e pelas melhores notas no Ensino Básico. Era um projecto desta escola intitulado “Pós…Zarco” que tinha em vista preparar alunos que eventualmente quisessem seguir medicina no Ensino Superior. A escola ofereceu-nos a disciplina de Espanhol e fizemos intercâmbios com escolas de Santiago de Compostela, na Galiza. Desta forma, no final dos três anos tínhamos a opção de concorrer a Medicina em Espanha (onde a média era significativamente inferior em comparação a Portugal).

Como dá para subentender, não dava prioridade à música, mas tão pouco dava prioridade à escola. Para mim ambas estavam no mesmo nível.

Quando terminei o 12° ano acabei por não optar por Medicina e optei por Engenharia de Materiais (para futuramente fazer mestrado em Engenharia de Nanotecnologias).

Qual foi o primeiro momento em que se lembra de ter tido consciência de que a música seria a sua profissão?

Talvez no momento em que vi o meu talento realmente reconhecido internacionalmente ao ser aceite em Londres no Royal College of Music, Royal Academy of Music e Trinity College of Music, com 17 anos. Nesse momento achei que tinha mesmo que aproveitar a oportunidade que me davam e que a música iria provavelmente ser a minha profissão!

Que música ouvia na sua juventude?

Sempre ouvi estilos muito diferentes de música. Obviamente ouvia música clássica, mas por vezes fartava-me e ouvia Jazz, Música Brasileira, Fado, Rock, etc. As músicas dos Beatles sempre me fascinaram bastante.

Que professores foram mais marcantes na sua vida artística?

José Manuel Pinheiro, Rosgard Lingardsson, Álvaro Teixeira Lopes, Niel Immelman, Dmitri Alexeev e Heribert Koch.

Após o Conservatório, foi para Londres, onde concluiu o curso no Royal College of Music. O que o levou a arriscar?

Sim, após terminar o secundário em ambos os cursos – Música e Ciências e Tecnologias – inscrevi-me na FEUP em Engenharia de Materiais, mas em Setembro congelei a matrícula para arriscar na oportunidade que tinha tido de estudar no London RCM com Niel Immelman e Dmitri Alexeev.

O facto de ter sido aceite numa escola tão reconhecida, por muitos considerada a melhor do mundo para pianistas, levou-me a apostar tentar uma carreira como pianista.

Quando chegou ao Reino Unido, que diferenças notou entre as realidades musicais dos dois países?

Realidades muito diferentes nessa altura, em 2010. Em Portugal vivia-se o início da crise, a cidade do Porto tinha pouquíssima actividade cultural e o público era escasso. Em Londres era completamente diferente… uma cidade cosmopolita, com dezenas de concertos e eventos a acontecerem diariamente, enormes quantidades de pessoas interessadas, e uma Universidade repleta de alunos de todo o Mundo, com muitas dezenas de nacionalidades diferentes !

Fez cursos de aperfeiçoamento com mestres estrangeiros e nacionais, como Álvaro Teixeira Lopes, Pedro Burmester, Fausto Neves, José Parra, Luís Pipa. O aperfeiçoamento contínuo é fundamental para alcançar e se manter no topo?

Sim, sem dúvida. É necessário um enorme trabalho contínuo, uma maratona de aperfeiçoamento musical, consciência e foco nos objectivos que se querem alcançar. O mais difícil não é mesmo chegar ao topo, é manter-se no topo.
Todos esses professores foram importantes e transmitiram-me os seus conhecimentos e ideias. E hoje em dia continuo a achar importantíssimo tocar para diferentes pessoas e ouvir diferentes opiniões artísticas sobre o nosso trabalho, pois estas são sempre subjectivas e quer concordemos ou não, geralmente questionam-nos sempre de alguma forma e isso é importantíssimo.

A qualidade do ensino da música em Portugal é um dos fatores que permitem hoje o alcance internacional de numerosos jovens músicos portugueses?

Sim sem dúvida! No entanto, uma das razões pelas quais eu saí do país foi justamente porque em Portugal o reconhecimento era, e continua a ser, menor do que em países como a Inglaterra e a Alemanha. Lembro-me até de questionar para mim se devia seguir a área da música em Portugal, caso não conseguisse ingressar numa Universidade no estrangeiro. O reconhecimento, em Portugal, quase sempre foi historicamente baixo – mas não há culpas específicas nisso. A História da Música, em Portugal, é bastante resumida e a época em que foi mais forte e significante foi na Música Renascentista. Desde então até há bem pouco tempo, só diminuiu de importância. A música clássica nasceu no centro da Europa, na Alemanha, Áustria e Itália: e por isso são países com uma sensibilidade gigantesca. Não se pode comparar. Portugal está a melhorar muito. Nas últimas décadas, melhoramos na formação de músicos, melhoramos nas escolas de ensino artístico… Não é um processo que se mude numa geração. São precisas algumas gerações para se criar o hábito e o reconhecimento que deve ser dado aos artistas. Falo de música mas falo, também, de outros artistas: de actores, cantores, ginastas, dançarinos, artistas plástico, etc

Na música erudita, Portugal nem homenageia os mortos nem reconhece os vivos?

Sim, penso que ainda temos um longo caminho para melhorar, mas noto algumas melhoras nos últimos anos (ou é apenas a minha vontade interna de querer que realmente haja melhorias).

Sou mais a favor de reconhecer os vivos do que homenagear os mortos. Por vezes em Portugal sinto que se homenageiam os artistas mortos quase por descargo de consciência, por não ter sido dado mais reconhecimento em vida.

Helena Sá e Costa, Florinda Santos, Gilberta Paiva, Elisa Pedroso, Marília Rocha… continuam a ser uma fonte de inspiração para os jovens pianistas?

Não sei responder se continuam a ser uma fonte de inspiração para os jovens pianistas de hoje em dia. Para fim foram uma inspiração e continuam a ser sempre que leio, ouço ou vejo mais informações sobre os seus feitos artísticos. Por curiosidade, como aluno participei em diferentes concursos que homenageiam-nas, incluindo o nome das pianistas no seu nome.

Aos 19 anos, fez a sua estreia como pianista, na famosa “Sala Suggia” da Casa da Música, com um recital a solo. Uma estreia em grande…

Foi um dos maiores momentos da minha carreira. Foi a primeira grande afirmação enquanto pianista na minha própria cidade. Estava em Londres a estudar há apenas um ano e sentia uma responsabilidade enorme. Foi a primeira vez que toquei para uma sala daquele tamanho, com cerca de mil lugares. Lembro-me que estava muito nervoso antes do concerto mas o nervosismo só durou até me sentar ao piano para tocar a primeira peça, uma sonata de Scarlatti.

Foi importante também para muitos colegas e amigos meus que nunca me tinham visto tocar em público e aí tiveram oportunidade, na Casa da Música, que na altura ainda era novidade na cidade.

Sendo ainda muito jovem, já tocou em importantes palcos de cerca de 20 países, em centenas de eventos. Qual considera ter sido, até à data, o momento mais alto da sua carreira?

Foram vários os momentos altos, cada um com a sua importância relativa maior ou menor, dependendo da altura em que aconteceram. Por exemplo, com 8 anos ter ganho o 3° Prémio do Concurso Interno do Conservatório na categoria até aos 11 anos, foi um momento alto pois foi o meu primeiro prémio e deu-me uma enorme motivação quando ainda estava no Preparatório (2 anos antes do 1° grau).
Em termos de carreira internacional, penso que neste momento os dois acontecimentos mais altos que tive foi ter tocado a solo na China com a Hong Kong Symphonia e em Moscovo com a Chamber Orchestra Kremlin.

Lembra-se de todos os primeiros prémios que ganhou? De que modo os prémios podem projetar uma carreira?

Certamente tenho imagens gravadas de todos os prémios que alcancei. Tenho um dossier em casa com todos os documentos, e por vezes, precisando de consultar algum e passam-me inúmeras memórias ao virar as páginas pelos vários diplomas arquivados.

A sua agenda é muito preenchida. Como se constrói uma carreira internacional?

Esta é a pergunta para um milhão de euros. Como se constrói uma carreira internacional, na música clássica… pode ser de forma muito rápida ou de forma lenta e gradual. A segunda, mais comum, tem informação suficiente para dar um tema de dissertação de Mestrado e é bastante difícil de a resumir numa só resposta aqui. Não acho que exista uma só solução mágica, mas sem dúvida que o trabalho, a persistência e o talento têm que estar presentes.

Quais lhe parecem as maiores dificuldades e vantagens que se colocam hoje aos pianistas portugueses na atualidade?

Penso que nunca houve em Portugal um número tão elevado de alunos a estudar piano. Em termos de qualidade geral desses mesmos, alunos não estou bem em condições de responder. No entanto, é óbvio que a competição é alta. Hoje em dia Portugal é capaz de produzir músicos, e pianistas em particular, em maior número do que há duas décadas. Infelizmente, o mercado da música clássica não tem aumentado na mesma proporção e as oportunidades são por isso escassas, levando a um aumento da competitividade nem sempre muito leal. Ao mesmo tempo penso que estas dificuldades levam a que os jovens artistas sejam obrigados a procurar novas vertentes ou novos processos na tentativa de serem diferentes e originais, por alguma razão musical, estética, decorativa… no panorama internacional podemos ver que, de certo modo, “vale tudo” para ser original e ter o destaque pretendido.

Hoje em dia os jovens pianistas portugueses podem também ter acesso fácil a muita mais informação, a inúmeras gravações, partituras, testemunhos… e podem optar por seguir e dedicar os seus estudos apenas à música muito mais cedo.

Os músicos não devem hoje pensar apenas no País mas devem construir a sua carreira a pensar no espaço global?

Na minha opinião sim, tal como em muitas outras áreas. A globalização a que assistimos permite pensar além fronteiras e o período de estabilidade e paz, sobretudo nas sociedades ocidentais, tem vindo a permitir reduzir essas fronteiras ao mínimo. Por que razão não deverá um português – cidadão europeu – explorar o mercado musical no centro da Europa, se estes países estão à mesma distância (2-3 horas) que a viagem de Porto a Lisboa de comboio? Da mesma forma que digo Europa digo o restante globo.

De qualquer forma, há sempre espaço para focar certos e específicos projectos artísticos de abrangência apenas nacional.

Tem um repertório predileto?

Ao longo dos anos tenho sempre vindo a mudar a minha resposta para esta pergunta. Tenho muitos compositores que se foram tornando nos meus preferidos e outros podem ainda não ser talvez por ainda não ter tocado nenhuma obra deles.
O repertório romântico (Liszt, Schumann, Rachmaninoff, Tchaikovsky) impressionista (Ravel, Debussy, Freitas Branco), do Nacionalismo Russo (Mussorsgky, Balakirev, Korsakov) e música contemporânea estão entre os meus preferidos.

Qual foi a sua gravação mais importante?

A gravação do meu segundo CD “Golden Liszt”, incluíndo todos os “Grandes Estudos de Paganini” de Franz Liszt, assim como a “Sonata em si menor” do mesmo compositor e “Souvenir de Paganini” de Chopin.

Já teve alguma deceção musical?

Algumas, sim. Quando ocorre um episódio menos feliz, procuro sempre tentar compreender quais foram os erros envolvidos e, se possível, aprender alguma coisa com eles. Depois, costumo pegar na decepção, dobrá-la várias vezes até ficar pequenina, colocá-la no chão e calcá-la para subir mais um degrau.

Quais os compositores da história da música que mais o marcam e inspiram?

Franz Liszt, Bach, Beethoven, Rachmaninoff, Prokofiev, Shostakovich, Ravel e Gershwin.

Como é a sua relação com o público?

Penso que é óptima. Tenho um carinho natural e muito grande por quem aprecia o meu trabalho e que tenta regularmente acompanhar o meu percurso artístico.

Qual o papel do Estado na promoção da música e das artes em geral? A DGArtes e as Direções Regionais de Cultura têm desempenhado o papel que seria de esperar na música portuguesa?

Na minha opinião, de músico e não de político, o Estado deveria aumentar o seu apoio nacional à música e artes em geral (“Cultura acima de zero” é um bom começo). Uma sociedade culta e com acesso facilitado à arte e à música sairá sempre em vantagem a médio e longo prazo.

Com os limitados recursos existentes, acho que a DGArtes e as DRC têm feito o melhor trabalho possível. No entanto, eu penso que a arte não existe para gerar necessariamente lucro económico ao país e acho que muitas pessoas com poder de decisão ainda a vêem dessa forma. A arte deve ser apoiada para ser acessível a todos os estratos sociais.

Hoje em dia, consultando preços de bilhetes para espectáculos de grandes salas do país, já aconteceu de reparar que, para o mesmo artista, os preços eram iguais ou superiores para o mesmo espectáculo, dado noutra cidade europeia, como por exemplo, na Alemanha. Escusado será lembrar que o poder de compra dos cidadãos não é comparável em ambos os países. Desta forma, como vamos conseguir abrir e atrair a arte ou a música clássica ao público geral, sem discriminações por extracto social?

Quais as qualidades essenciais para que alguém seja um bom concertista?

É necessário ter bem definidas as suas linhas artísticas, o seu gosto musical enquanto intérprete, ser organizado, exigente consigo próprio na procura da (quase) perfeição estética e sonora, e ter sempre um pouco de Fernando Pessoa na alma: “põe tudo o que és, no mínimo (trabalho artístico) que fazes”.

Quem é para si “o compositor de música para piano”?

Franz Liszt.

Lembra-se de algum momento embaraçoso ou cómico em palco?

Sim !! No Hong Kong City Hall Concert Hall (uma cópia arquitectónica do London Royal Festival Hall, com mais de 1500 lugares), no final do Concerto n° de Franz Liszt com a Hong Kong Symphonia. Naquele momento, já tinha voltado algumas vezes ao palco e já tinha tocado um encore em resposta aos aplausos efusivos do público. No entanto, apesar de não ter mais nenhum encore debaixo da manga, tive que voltar outra e outra vez ao palco. Naquela que eu pensei que seria a última, agradeci à orquestra e cumprimentei novamente o concertino. Este, muito gentilmente, depois de me cumprimentar estende a mão convidando-me a sentar novamente no piano, encorajando-me com uma palmadinha nas costas. … Eu fiquei ali petrificado sem saber o que fazer e percebendo imediatamente que naquelas condições ia ter que me sentar… sentei. Ficou silêncio. Eu não sabia o que tocar, como disse, não tinha preparado segundo encore. Mais de mil pessoas esperavam debaixo de um silêncio expectante.

Toquei a primeira coisa que me lembrei: um arranjo do “Tema de Hedwig” do Harry Potter, com o qual me tinha divertido em casa nos dias anteriores. Para minha surpresa, o público explodiu de adoração e no final parecia que se tinham esquecido que eu tinha tocado também um dos concertos mais difíceis de Franz Liszt para Piano e Orquestra.

Qual a sua relação com o piano: profissão e necessidade?

O piano é a minha profissão. No entanto, é também aquilo que gosto de fazer nos meus tempos livres. Às vezes perguntam-me se quero dar concertos até aos 65 anos. Essa pergunta soa como um trabalho de que um dia me terei que reformar para então poder fazer o que mais gosto… Ora, o que é o trabalho? “Encontra um trabalho de que gostes e não trabalharás um dia na vida”. Talvez, chegando aos 65 anos, me encontre a desejar continuar a fazer música em palco – porque é do que gosto neste momento – mas obviamente que é o meu trabalho: não tenho é culpa de gostar dele. A sociedade não deve prejudicar aquele que trabalha por gosto. No mundo artístico e musical isso acontece repetidamente.

É pianista e violinista… Se não fosse músico, em que profissão acha que teria sucesso?

Como referi, podia ter seguido medicina, engenharia ou até economia. Hoje em dia, olhando para trás, penso que medicina não teria sido a melhor opção para mim. Mas quem sabe, engenharia de nanotecnologias ou algo no ramo da economia, poderiam ter sido boas escolhas. Houve uma altura em que queria mesmo ser futebolista, mas todos me respondiam que eu era muito pequenino para a idade e que não ia conseguir. Fui desencorajado e o Messi (~168cm) só apareceu uns anos mais tarde !

Com que grande músico gostaria de tocar?

Denis Matsuev.

O que é a música para si?

Um modo de vida. Ser músico é aperfeiçoar-se em transformar ideias escritas ou mentais em sensibilidades auditivas, tendo prazer que estas provoquem infinitas emoções nas pessoas que a ouvem.

Que é que a música lhe dá?

Enormes e incríveis experiências que não seriam possíveis muitas outras áreas. Para além de uma enorme noção cultural fruto do intercâmbio musical entre diferentes povos e culturas.

Quais os seus passatempos não musicais?

Jogar futebol, fazer surf, correr à beira-mar, viajar, ver filmes, passar tempo na aldeia e divertir-me socializando com amigos.

Em três adjetivos, como se caracteriza a si mesmo?

Curioso, empenhado, empreendedor.