Teresa de Macedo, pedagoga natural de Gaia

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Teresa Macedo

Ensino

Maria Teresa Macedo (Porto, 1916) foi a primeira portuguesa a estudar direcção de orquestra, mas nunca dirigiu uma, porque “os tempos eram outros e uma mulher mandar em homens era coisa difícil”.

“Dirigir é saber muito bem a obra, temos de nos impor, e, naquela época, os homens dominavam ainda as orquestras, e era difícil acatar o mando de uma mulher”, disse em entrevista à Lusa.

Nunca dirigiu uma orquestra em termos profissionais porque, esclareceu, “a vida orientou-se noutro sentido”, nomeadamente para o ensino, a divulgação musical e a composição, que vai arrumando numa gaveta. “Talvez um dia a abra”, promete.

Maria Teresa Macedo estudou durante oito anos com Luiz Costa, tendo terminado o curso de piano do Conservatório do Porto, na classe de Helena Sá e Costa, com 18 valores.

Estudou em Valência, Paris e Genebra e esteve ligada a várias iniciativas de ensino artístico, nomeadamente os Cursos de Educação e Didáctica Musical, a Academia de Música de Matosinhos, de que foi co-fundadora, e os Conservatórios de Lisboa e Porto.

Ensinou em várias academias e escolas, esteve ligada a uma reforma de ensino com Fernando Lopes-Graça, foi uma das pioneiras do ensino à distância, esteve na origem da Escola Superior de Música do Porto com Filipe Pires e Helena Sá da Costa, de quem foi discípula e cuja família conhecia desde a infância.

Proveniente de um meio portuense culto, a música surgiu como “uma opção natural”.

“O meu pai ouvia música, comprávamos discos que ouvíamos ainda nos gramofones e íamos assistir com assiduidade aos concertos no Orfeon do Porto”, recorda.

Aluna de Luiz Costa, de quem a família era amiga, foi também aluna de Cláudio Carneyro, com quem aprendeu composição e de quem guarda “as melhores recordações, quer como pessoa quer como mestre exigente que era”. “Inculcou-me – diz – valores que me nortearam pela vida inteira”.

“Foi por volta dos 14, 15 anos que comecei a estudar música a sério. Já sabia tocar piano, mas de forma empenhada foi nessa altura. O mestre Luiz Costa morava perto de Cláudio Carneyro e eu ia de uma lição para a outra”.

Do Porto, com o conservatório feito, decidiu partir para Valência, onde aprendeu direcção de orquestra “com Hans van Benda, um maestro alemão que era titular da Orquestra de Câmara de Berlim e tinha vindo para Espanha”.

De Espanha, aos 22 anos, partiu para Paris em cujo Conservatório se inscreveu no curso de direcção de orquestra. Durante seis anos estuda, paralelamente, composição musical com Nadia Boulanger, mas também com Eugène Bigot, Dieudonée, Geneviève Tourraine e Lejour.

“Frutuosos” é como descreve esses tempos em Paris. E diz ainda: “Vivia um sonho, estudava música, falava-se sobre música e era tudo muito moderno e de grande novidade para mim, aprendi imenso”.

Mesmo em Paris, onde frequentou também o Conservatório americano de Fontainebleu, as mulheres rareavam. Tanto quanto se recorda, além dela apenas frequentavam o curso de direcção de orquestra uma norueguesa e uma norte-americana. No total, eram nove homens e três mulheres.

“Podíamos dirigir a orquestra dos alunos do Conservatório Nacional de Paris”, diz com um sorriso.

No regresso a Portugal, confronta-se de imediato com a impossibilidade de colocar em prática o que aprendera. Mas não podia recusar trabalho, depois dos anos de investimento dos seus pais, “num tempo em que nem se sabia o que eram bolsas de estudo”.

Aceitou, por isso, ir leccionar música numa Academia em Santa Maria da Feira, a primeira de uma série de escolas em que trabalhou e que incluiu a Telescola, de que foi uma das pioneiras.

O ensino tem ocupado grande parte da sua vida. Confessa mesmo ser essa “a sua grande paixão, norteada pela música”.

Nesta paixão desempenhou papel relevante o facto de ter conhecido o professor suíço Edgar Willems, cujo método de ensino musical chamou a atenção pelos resultados alcançados.

“Ele veio ao Porto dar umas conferências por iniciativa de Maria do Céu Diogo e de facto tudo aquilo me encantou e não descansei enquanto não fui para Genebra, onde trabalhei com ele e me rendi aos seus processos de trabalho e à sua pessoa. Na época a sua inovação era chocante e uma espécie de bomba”, evocou.

Com base neste trabalho, criou, com o apoio da Fundação Gulbenkian, os cursos de Educação e Didáctica Musical, que “alcançaram um grande êxito, a tal ponto que as pessoas no dia das matrículas vinham às primeiras horas da manhã, fazendo filas intermináveis”.

Estes cursos, “que deram muitos alunos ao Conservatório do Porto e músicos”, terminaram em 1974.

Professora em várias escolas e academias, Maria Teresa Macedo cruza-se hoje com antigos alunos que dela se recordam e a cumprimentam, o que lhe dá um certo orgulho.

“Falam-me mas já não os conheço, estão barbados ou de óculos e homens e mulheres feitos”.

Outra vertente da sua vida tem sido a divulgação musical, no quadro da qual realizou várias conferências e saraus musicais, além de “ter ido aos liceus falar sobre música e assim captar os mais novos para um admirável mundo novo”.

Quanto à composição, além das peças que Sofia Lourenço e Pereira de Sousa gravaram para a discográfica Numérica, tem guardado o que compõe. “Para se compor temos de ter ideias”, justifica.

“Silenciei-me um pouco, senti que não tenho nada para dizer. Talvez um dia mexa na papelada e abra a gaveta”, promete.

Sofia Lourenço gravou “Canção de embalar”, “escrita numa época de especial predilecção pela sétima e a nona [sinfonias] de Beethoven, uma incursão pela alternância da claridade e da sombra”.

Para trás, ficou definitivamente a direcção de orquestra. Recorda-se de, “certa vez, nuns cursos do Estoril em que participou também Manuel Ivo Cruz, ter dirigido uma orquestra de câmara”. Mas nada mais além disso.

Hoje, “olhando para trás”, sorri e afirma-se “satisfeita”. E a terminar: “Já vivi bastante, com muita saúde, que me dá uma visão muita grande do mundo, das pessoas e até da própria arte, nomeadamente da música”.

Fonte: Nuno Lopes/Lusa, Lisboa, 15 agosto de 2007

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