TELECTU

por Jorge Lima Barreto (1949-2011)

Duo musical constituído por Jorge Lima Barreto e Vitor Rua, formado em 1982 na III Bienal de Vila Nova de Cerveira. No mesmo ano editou o álbum “Ctu Telectu”, numa formação heterodoxa de piano, órgão electrónico, cravo, sintetizador, guitarras eléctricas baixo e solo, guitarra portuguesa bateria e voz. O poliartista António Palolo tormou-se um terceiro membro de Telectu.

Desde cedo, a prática musical do duo foi orientada por um programa de experimentação de diferentes soluções interpretativas e composicionais, a par de uma rara actualização tecnológica; este cariz experimental levou a que essencialmente interpretasse as suas composições, com excepção de peças conceptuais como as “Vexations” de E. Satie e, as “Compositions 1960” e “X for Henry Flint” de La Monte Young, 1982.

Telectu criou partituras gráficas, tablaturas, tatuagens instrumentais, e considerou o disco e o vídeo como fixação e suporte dos seus trabalhos. Laboratório para síncreses de pop experimental e improvisação electroacústica, ao longo da década de 1980 a sua produção foi marcada, primeiro pela introdução em Portugal da música minimal repetitiva, concocção de electronic live, banda magnética, guitarra electrónica exibida com mestria por Rua, vibrafone, piano eléctrico, computador de ritmos, e um desfile de modelos de guitarras, teclados protótipos, passarela de engenhos digitais, percussões heteróclitas, glabras e electrónicas; exotismos instrumentais, tratamentos acústicos em tempo real até cerca de 1986, com edições discográficas relevantes em vinilo (e.g. “Belzebu”, 1983; “Off-Off”, duplo, 1984; “Performance”, 1984; “Telefone, Live Moscow”, 1985; “Fundação”, 1985; “Rosa-Cruz”, 1985; “Halley”, 1986, álbum de luxo com serigrafia de Palolo; “Data”, 1986 – video music), episodicamente reeditados em CD (e.g. “.Belzebu”, 1995; “Leonardo Internet, USA/ USSR”,1997; ou “Mimesis, minimal works”, 1998); depois, optou pela busca de novas tipologias musicais denominadas “jazz-off”, “música mimética”, “rock-pop-off”, “nova música improvisada”, e.a. teorizadas em livros ou artigos de J.L.B., ou em propostas pedagógicas, manifestos que acompanhavam concertos ou edições discográficas e/ou videográficas; reconhecido como um grupo de culto, Telectu apresentou inovações instrumentais e dispositivos de ponta, como o e-bow, o sampler, o stick chapman, controladores digitais de sopro, corda e percussão, o DAT, a workstation, a wavestation, o EWI, o sound sistem digital, processadores, sequenciadores; uma extravagante parafernália electrónica, instrumentarium etnográfico, como o sitar e a tampura indianos, a africana kalimba, pipa, sheng e gongues chineses, protótipos como o litofone, flautas e idiofones asiáticas e sul- americanas, o australiano didgeridoo, esculturas sonoras ou cordofones inventados por Rua, quinquilharia, toys, gadgets, objectos sonoros (e.g. “Ben Johnson”, duplo, 1987; “Camerata Elettronica”, duplo,1988; “Live at the Knitting Factory”,1989; “Encounters II”, com Jean Sarbib 1989; e “Digital Buiça”, 1989).

Os anos 1990 apontaram para o desenvolvimento da improvisação estruturada, no fraseado idioletal, polirritmos, agregados, clusters, sons concretos da natureza, domésticos, industriais ou urbanos, sinusoidais, ruídos, sintagmas vocais, mimese que recria imagens e códigos fora dos padrões instituidos, estilo “groove” como imitação digital do instrumento acústico, hibridações estilísticas e tipológicas , e.a. técnicas e recursos tecnológicos; requisitou colaboração de artistas portugueses do desde os anos 1980 (e.g. Jean Saheb Sarbib, Luís Carlos, C. Zíngaro, Nuno Rebelo, Sei Miguel, Filipe Mendes, António Duarte, R. Toral, M. Azguime, e.a.); Telectu passou a convidar frequentemente músicos estrangeiros de absoluto primeiro plano no movimento estético congénere (e.g. os saxofonistas, clarinetistas ou sopradores, Evan Parker, T. Hodgkinson, J. Butcher, L. Sclavis, D. Kientzy; os trompetistas J. Berrocal, H. Robertson; os trombonistas G. Schiaffini, Paul Rutherford; os bateristas C. Cutler, Sunny Murray, B. Altschul, P. Lytton, E. Prévost, G. Hemingway; o polinstrumentista Elliott Sharp; os criadores de electronic live Ikue Mori, Reina Portuondo; e.a.) cujas parcerias resultaram na edição esporádica de fonogramas como registo dessas sessões (e.g. “Evil Metal”, com Elliott Sharp 1991; “Oh! Pazuzu”, para percussão, 1992; “Theremin Tao”, 1993; “Biombos”, live Beijing, Macau, Hong Kong, 1993; “Telectu/Cutler/Berrocal”,1995; “À Lagardère”, com Berrocal, 1996; “prélude, rapsodies & coda”, com D. Kientzy, 1998; “jazz-off / multimedia”, com Sclavis e Berrocal, 1998; “Kientzy / Telectu – acústica amorosa”, 2002).

Nos finais do século XX e inícios do 3º milénio, Lima Barreto adoptou incidentemente o piano (teclas, cordas, percussão, preparado) e Rua informatizou o seu discurso com o computador, o eventide; declinando um enredo pósmodernista de acentuada verve jazzística, sobreposições de formas, jogos de citação, radicalismo performativo, espectáculo de video e luminotecnia, novos procedimentos de produção, noções de espacialização (e.g. “Solos”, duplo,1999; “Drulovic Remix” e “kraula Alvi-Azul”, computer music, 2001; “Quartetos”, triplo, com S. Murray, Hemingway, Prévost, Chant, 2002); incluídos em notáveis antologias como “State of The Union”, New York, 2001; “Bed of Sound”, Contemporary Art Center, New York, 2001; “Explorating Music From Portugal”, London, 2001; “Antologia da Música Electronica Portuguesa”, 2003. Nas duas décadas de existência acumularam inúmeros registos em cassete áudio e video, DAT, CDROM, CDI, banda magnética, computador, um espólio projectado para futuras e eventuais edições.

Ao longo de toda a carreira e numa diversificada praxiologia, apresentou-se em festivais (e.g. Vilar de Mouros 82; é o agrupamento com maior número de presenças na Festa do Avante!; Performance Portuguaise, Paris; Encontros de Nova Música Improvisada no CAM; Ó da Guarda; Co-Lab; Fonoteca Files; Música Experimental de Coimbra; Semana de Música Contemporânea, Bucareste; Música de Vanguarda, Granada; Graça Territori, Barcelona; Nova Música, Madrid,; Atlantic Waves, Londres; Bienais de Cerveira, Alternativa, de Arte dos Açores, Barcelona; Música Viva; Spectrum, TNSJ; actuações alternativas nos principais festivais de Jazz em Portugal, e.a.); galerias e museus; teatros, salas de concerto e auditórios (e.g. Conservatórios de Beijing, Versailles, Perpignan; Salle Olivier Messiaen, GRM, Paris; Sala Lecuona, Havana; Sala Enescu, Bucareste; Teatro Wulk, Viena; Knitting Factory e Tonic, Nova Iorque; Quasimodo, Berlin; Casa Garden, Macau; Jazz Club, Hong Kong; Keep in Touch Club, Beijing; Romanische Café, Tóquio; Auditório Lenine, Moscovo; em diversas instituições como o Centre G. Pompidou, Paris; Fundacion Miró, Barcelona; Centro Viriato; Fundação Serralves; Fundação C. Gulbenkian; Centro de Arte Moderna; Centro Nacional de Cultura; SPA; Universidades de Beijing, Washington, e.a.) onde desenvolveu uma prática de improvisação conjugada com outras posturas performativas e poliartísticas e cenografias originais; realizações com actores, pintores, videastas, e.a.; nestes eventos performativos, sobretudo nos anos 1980, recorria frequentemente à surpresa e à ironia como estratégias de resistência e de criação de situações surpreendentes.

Telectu desde a sua origem envolveu-se em projectos interartísticos e multimediáticos, com destacados artistas nacionais. Instalações musicais multimedia de elevado gabarito (e.g. “EBRAC”, J. N. Câmara Pereira, J. Listopad, 1986; a série “Périplo”, deambulatório multimédia, com António Palolo iniciada na inauguração Casa de Serralves, 1986; desde 1985 desenvolveu com Palolo o projecto “Video Garden”, vídeo, luminotecnia, plantas, para os mais importantes concertos).

Telectu é o epónimo musical português ligado à performarte, desenvolvendo situações sónicas, corporais, cénicas e psicodramáticas (e.g. Silvestre Pestana, 1979 – 92; Mineo lamagushi, 1980-84; Neon,1982-1990 ; Artitudes, 1982; Carlos Gordilho, 1984-89; Manoel Barbosa, 1984 – 2003; Fernando Aguiar, 1981- 2000; João Galante, 2003, e.a.); interacção de música electronic live com a poesia dita de e por Eugénio de Andrade (video, 1986), poesia s concreta, fonética, infoarte (e.g. E.M. de Melo e Castro, 1982- ; “poema soma 14 x”, declamado por João Perry,1983; “X Musatomias para 10 poetas portugueses”, CAM,1983, Lisboa, e.a.); música funcional para teatro (e.g. Cornucópia, 1984 e 2001; J. Listopad, 1985 e 1986; e.a.); música para cinema (e.g. o singular filme minimalista de Palolo, “OM”, 1984 ); música para video arte ( e.g. Silvestre Pestana,1982-1989; António Palolo,1983-2000; Ernesto de Sousa; e Wolf Vostell, 1986); arrolou uma videografia própria da autoria de Rua e Palolo em obras paradigmáticas como “Autoloop”, 1986; “Compgraf”, 1988; a série de animação “o carro amarelo”,1985-1988; desde 1984 que a melhor parte dos concertos de Telectu foram videogravados; articulou o material sonoro, o fonograma enquanto objecto estético, capas, iconografias e cartazes, realizadas por Palolo ou pelo dois músicos, utilizando materiais e técnicas gráficas inusitadas como cortiça, seda, serigrafia, objecto multiforme, e.a.).

Telectu é o epítome de uma vanguarda, é, em Portugal, o mais significativo exemplo da música posmoderna, aventura poliartística, “trajectória rizomática da obra aberta”, “apologia da intuição e do prazer do instante”.

Telectu