Salwa Castelo Branco

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Salwa Castelo-Branco

Investigação . Etnomusicologia . Ensino

A vida de Salwa Castelo Branco repartiu-se por três espaços geográficos e culturais muito diversos: Cairo, Nova Iorque e Lisboa. Esta vivência proporcionou-lhe uma mundividência cosmopolita que se mantém viva através da memória que a liga a pessoas, lugares, espaços, eventos e sons que a marcaram ao longo da vida, assim como através de uma teia de ligações pessoais e profissionais que mantém nos cinco continentes.

Cf. Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher nº 37 Lisboa jun. 2017

Salwa Castelo Branco nasceu no Cairo, Egipto, a 1 de Maio de 1950, numa família pertencente à minoria cristã que integrava a elite cultural cosmopolita da cidade. O seu pai, Aziz El-Shawan (1916-1993), era um compositor proeminente, tendo criado um estilo nacionalista, inspirado na música tradicional e moldado na linguagem da música erudita ocidental romântica. A sua mãe, Laila El-Shawan (1928-2011), era empresária, tendo fundado e gerido ao longo de 30 anos a sua própria empresa de turismo.

Na casa dos seus pais, a audição de discos de música ocidental erudita fazia parte do quotidiano. Além disso, a frequência dos concertos da Orquestra Sinfónica do Cairo e da temporada de ópera e bailado do Teatro de Ópera da mesma cidade era um ritual semanal dos pais, que a levavam com eles desde tenra idade. A casa dos seus pais era um ponto de encontro de músicos e intelectuais que debatiam a política cultural e o futuro do país num período de grandes transformações marcado pelo fim da Monarquia e pelo estabelecimento de um regime nacionalista republicano liderado pelo Coronel Gamal ‘Abd Al-Nasser, entre 1956 e 1970.

Salwa Castelo Branco iniciou os estudos de piano aos cinco anos com uma professora privada, ao mesmo tempo que frequentava o colégio inglês El-Salam College. Aos nove anos, ingressou no Conservatório Nacional do Cairo como aluna externa, e aí continuou a estudar piano na classe de Ettore Puglizi, um professor de origem siciliana que se mudou para o Cairo nos anos 30 a convite do Rei Farouk para ser seu instrutor privado. Puglizi permaneceu na capital egípcia até ao seu falecimento, no início dos anos 80.

A partir do ensino secundário, decidiu que a música era o caminho para o seu futuro. Sonhou ser concertista de renome internacional. Inscreveu-se no ensino integrado secundário no Conservatório Nacional do Cairo, onde continuou a nível superior, tendo completado a Licenciatura em Piano em 1970 com a mais alta classificação.

Embora tivesse uma oferta de emprego como assistente no Conservatório do Cairo, desejava concretizar o sonho de ser concertista, o que requeria mais estudos e uma vivência artística num país com uma grande tradição de música ocidental erudita. Concorreu para diversos programas de Mestrado em Piano oferecidos por escolas superiores de música na cidade de Nova Iorque, para onde a sua tia materna havia emigrado na década anterior. Foi aceite na Manhattan School of Music, uma das melhores escolas de música da cidade de Nova Iorque, onde estudou entre 1970 e 1973 com uma excelente professora, Constance Keene. Recebeu igualmente uma bolsa da PEO International Peace Scholarship Fund que apenas chegava para pagar as propinas, o que a obrigou a ter de trabalhar a tempo parcial para fazer face às restantes despesas.

A mudança para Nova Iorque transformou a sua vida profissional e pessoal. Teve acesso a um ensino de música de excelência e à audição de orquestras e artistas de renome internacional. Com o apoio da sua professora de piano, estudou o Concerto para Piano e Orquestra da autoria do pai, que tocou com a Orquestra Sinfónica do Cairo, em 1972. Em Nova Iorque, viveu na Casa Internacional/International House, uma residência para estudantes americanos e estrangeiros, o que lhe proporcionou um convívio e um intercâmbio intelectual com jovens estudantes de diversos países do mundo. Foi na Casa Internacional que conheceu Gustavo Castelo-Branco, então um jovem estudante de Física, com quem se casou em 1974.

Apesar da excelente formação musical e do ambiente artístico estimulante proporcionados pela Manhattan School of Music e pela cidade de Nova Iorque, sentiu a necessidade de me desenvolver intelectualmente, de compreender os significados da música e a sua articulação com os contextos cultural, social e político. A sua professora de História da Música na Manhattan School of Music, a musicóloga Ethel Thurston, abriu-lhe um novo caminho ao incluir na sua cadeira uma introdução à Etnomusicologia. De imediato, esta disciplina despertou o seu interesse.

Decidiu explorar a Etnomusicologia, inscrevendo-se como aluna a tempo parcial numa das cadeiras oferecidas pela etnomusicóloga africanista Rose Brandel no Mestrado em Etnomusicologia no Hunter College, uma das Faculdades da City University of New York. Foi nas aulas de Rose Brandel que ouviu exemplos de música africana pela primeira vez, o que a deixou fascinada e com muita vontade de aprender mais sobre as músicas do mundo. Na altura, Brandel seguia a abordagem da Musicologia Comparada, sobretudo na linha do seu mentor, o proeminente musicólogo alemão Curt Sachs, centrando as suas aulas na compreensão das estruturas musicais e sobretudo na análise rítmica.

Apesar de a Etnomusicologia da década de 70 já se caracterizar por uma abordagem antropológica que privilegiava o estudo da música na cultura e não por uma ênfase na análise do som musical, as aulas da Prof.ª Rose Brandel foram muito enriquecedoras, tendo contribuído para a sua decisão de se dedicar ao estudo da Etnomusicologia. Concorreu a diversos programas de doutoramento e foi aceite com uma bolsa de estudos na Columbia University, uma das melhores universidades norte-americanas, onde completou o Mestrado e o Doutoramento em Etnomusicologia em 1975 e 1980, respectivamente. Na Columbia University, o programa de estudos era multidisciplinar e os seminários eram orientados por figuras de proa nas suas disciplinas (por exemplo, Dieter Christensen e Adelaida Reyes, Etnomusicologia; Christoph Wolff, Musicologia Histórica; Margaret Mead, Marvin Harris, Morton Fried e Robert Murphy, Antropologia), o que exigiu um trabalho intenso por parte dos doutorandos.

Já em 1979, no último ano da redacção da sua tese de doutoramento, concorreu a uma posição como professora auxiliar em diversas universidades norte-americanas, tendo conseguido um lugar “tenure track” na New York University; tratava-se de uma posição que, cumprindo as exigências de ensino e investigação de qualidade, passaria a permanente. O primeiro ano na NYU representou um grande desafio profissional e pessoal. Além de estar ainda a terminar a tese de doutoramento e a ensinar a tempo integral, foi encarregada de conceber um programa de Mestrado em Etnomusicologia Urbana, na altura um novo subdomínio da Etnomusicologia. Por outro lado, o seu marido, Gustavo Castelo-Branco, tinha um post doc na Carnégie-Mellon University, uma das melhores universidades norte-americanas no domínio da Física Teórica, o que implicou um vaivém semanal entre Pittsburgh e Nova Iorque, cidades que distam mais de 500 quilómetros.

Em 1981, nasceu em Nova Iorque a filha Laila-Maria, o que levou o casal a considerar seriamente os convites para leccionarem em Portugal por parte do Instituto Superior Técnico, no caso de Gustavo Castelo-Branco (actualmente professor catedrático naquela instituição), e do Instituto Gregoriano e do recém-fundado Departamento de Ciências Musicais (DCM) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, no caso de Salwa. Aliás, nesse mesmo ano, encontrou-se pela primeira vez com a professora Maria Augusta Barbosa, fundadora e primeira coordenadora do DCM, que a recebeu com cordialidade, manifestando interesse na minha colaboração no Departamento e na integração da moderna Etnomusicologia no recém-lançado programa de Licenciatura em Ciências Musicais.

Tomada a decisão da mudança para Portugal em 1982, traçou como objectivos para o seu trabalho no DCM: “ministrar ensino actualizado em termos teóricos e metodológicos de modo a formar uma nova geração de etnomusicólogos competentes e internacionalmente competitivos; incentivar os jovens formandos a levar a cabo investigação etnomusicológica em Portugal e no espaço lusófono em torno de problemáticas actuais; encetar um diálogo científico com uma rede alargada de instituições e investigadores em Portugal e no estrangeiro de modo a colocar Portugal no circuito internacional de produção científica no domínio da Etnomusicologia” (Castelo-Branco, 2010). Após a jubilação da Prof. Maria Augusta Barbosa, foi nomeada coordenadora do DCM entre 1984 e 1988 e de novo entre 1995 e 1997.

A responsabilidade pelo DCM trouxe novos desafios, pois era necessário consolidar o programa de Licenciatura, atrair docentes competentes e internacionalizar o ensino. Na altura, eram docentes do DCM Gerhard Doderer, Constança Capdeville e João de Freitas Branco. Foi então claro para Salwa Castelo Branco que havia necessidade de contratar jovens que estivessem a acabar o doutoramento no estrangeiro. Foi neste contexto que, num primeiro momento, assegurou a contratação de Rui Vieira Nery e Paulo Ferreira de Castro, que estavam ainda a estudar no estrangeiro, e, num segundo momento, de Mário Vieira de Carvalho.

Organizou dois colóquios internacionais que contribuíram para colocar Portugal no circuito internacional da investigação etnomusicológica. O primeiro teve lugar em 1986 na Fundação Calouste Gulbenkian, um ano após o nascimento do seu filho Ricardo. Foi organizado em colaboração com o Conselho Internacional de Música Tradicional, tendo focado os processos musicais desencadeados pelos encontros históricos entre Portugal, África, Brasil e Ásia desde o século XV (Castelo-Branco, 1997). O segundo colóquio focou as culturas musicais urbanas no espaço ibero-americano no final do século XX e foi organizado no âmbito de Lisboa 94, Capital Europeia da Cultura.

Em 1990, lançou o Mestrado em Ciências Musicais com duas áreas de especialidade, Musicologia Histórica e Etnomusicologia. Cinco anos depois, fundou e desde então coordeno o Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança, actualmente uma unidade de investigação polinucleada, com sede na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e com pólos nas Universidades de Lisboa e Aveiro e no Instituto Politécnico do Porto. Primeira unidade de investigação no âmbito das Ciências Musicais em Portugal, desde 1997 conta com o financiamento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, tendo sido classificada como “Excelente”.

Simultaneamente, levou a cabo uma intensa actividade pedagógica e de gestão científica e desenvolveu trabalho de investigação através de projectos de pesquisa individuais e em equipa, no Egipto, em Omã e em Portugal, tendo sido investigadora responsável de dez projectos financiados pela FCT, desde 1997.

O maior projecto por ela coordenado foi levado a cabo por uma equipa editorial de 15 membros e 150 redactores ao longo de mais de uma década, tendo resultado na publicação, em 2010, da Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX, em quatro volumes pelo Círculo de Leitores. A primeira grande obra de referência dedicada à música praticada em Portugal ao longo do século XX, recebeu críticas elogiosas publicadas em revistas académicas nacionais e estrangeiras. Reconhecendo o contributo desta obra, a Sociedade Portuguesa de Autores atribuiu-me o prémio Pró-Autor, em 2010.

Além do seu trabalho académico em Portugal, continuou a desenvolver a sua carreira a nível internacional, publicando em revistas e livros de prestígio, participando em congressos e passando licenças sabáticas como Professora Convidada nas universidades de Columbia, Princeton, Chicago e Cambridge. Fui eleita Vice-Presidente da Society for Ethnomusicology (a maior associação académica norte-americana no domínio da Etnomusicologia).

Salwa Castelo Branco é Presidente do International Council for Traditional Music (a maior associação académica internacional no domínio da Etnomusicologia). Este trabalho a nível internacional teve o reconhecimento da Sociedade Suíça de Musicologia, que lhe atribuiu o Prémio Glarean, conferido pela primeira vez a uma mulher, em 2013.

Trinta e cinco anos volvidos sobre a minha decisão de se radicar em Portugal, verifica com satisfação alguns resultados do seu trabalho: a moderna Etnomusicologia está solidamente institucionalizada na FCSH-­‑UNL e na Universidade de Aveiro (pela mão de jovens que se doutoraram com ela); formou três gerações de etnomusicológos/as que hoje são profissionais com posições de ensino e investigação no país; o INET-md é reconhecido como um dos melhores centros de Etnomusicologia na Europa.

Salwa Castelo Branco reconhece que deve muito do que é à sua vivência cosmopolita, assim como a um conjunto de pessoas, das quais apenas pôde mencionar algumas neste texto. Deve também muito do que é hoje a Portugal, o país que a acolheu com abertura e generosidade, onde passou a maior parte da sua vida, onde constituiu família, onde desenvolveu a sua carreira académica e onde se sente verdadeiramente “em casa”. É a partir de Portugal e da língua portuguesa que hoje perspectiva o mundo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Castelo-Branco, S. E. (1997). Portugal e o mundo: O encontro de culturas na música. Lisboa: Dom Quixote.

Castelo-Branco, S. E. (2010). Enciclopédia de música em Portugal no século XX. (4 volumes, 1500 páginas, 1250 entradas). Lisboa: Círculo de Leitores/Temas e Debates

[ Publicado na Meloteca a 10 de dezembro de 2019 ]

Créditos: Público

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