Padre Rufino da Silva

Rufino da Silva

Musicologia

Rufino da Silva, de nome completo João Arnaldo Rufino da Silva, nasceu em 1929 em Câmara de Lobos e morreu no dia 18 de julho de 2016. Iniciou a formação académica no Seminário Diocesano do Funchal no início da década de 1950, tendo sido ordenado sacerdote em 1953, situação em que se manteve durante 23 anos. Foi professor de música no Seminário Diocesano, onde dirigiu o coro durante 13 anos.

De 1958 a 1962 frequentou o Instituto Pontifício de Música Sacra em Roma, licenciando-se em Canto Gregoriano e Composição Sacra. Nos anos 60 diplomou-se em Paris no método Ward. Frequentou a academia de Música e Belas Artes da Madeira, como aluno e professor, onde se diplomou no Curso Superior de Canto de Concerto.

De 1973 a 1975 dirigiu o Coro de Câmara da Madeira. De 1977 a 1994 pertenceu ao Coro Gulbenkian e foi professor de Educação Musical na Escola Preparatória de São Julião da Barra, em Oeiras, de 1980 a 1994.

Durante 10 anos, de 1994 a 2004, fez parte do “Coro Paz e Bem”, de Oeiras e actualmente pertence ao “Coro Solemnis” de Lisboa, dedicado ao canto gregoriano.

Harmonizou canções populares madeirenses e outras, que reuniu no livro “Canções Populares Madeirenses”, edição policopiada em 1988. Em 1998 publicou o livro “Cânticos Religiosos do Natal Madeirense” editado pela D.R.A.C., que serviu de suporte para a gravação posterior de dois CD’s com o mesmo título.

Ainda no domínio da investigação musicológica, publicou artigos sobre a música sacra na Madeira na Revista Islenha, na RevistaGirão e colaborou no livro A Madeira e a Música, com um artigo intitulado “Música Religiosa na Madeira”.

HOMENAGEM A RUFINO DA SILVA

Por Paulo Esteireiro, Investigador Integrado do Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (FCSH/UNL)

Em julho do ano passado, Joseph Ratzinger, o Papa emérito, discursou pela primeira vez desde que resignou em 2013, interrompendo assim dois anos de silêncio na esfera pública. O tema do discurso foi… a arte musical. O Papa emérito abordou então conceitos de música, as fontes que dão origem a este tipo de arte e a necessidade de valorização do contributo da música sacra ocidental, bem como o seu papel na liturgia.

Uma das ideias centrais defendidas por Ratzinger foi que em nenhum outro âmbito cultural há uma grandeza musical que possa ser comparada com aquela nascida no âmbito da fé. Seja-se religioso ou não, a verdade é que um elevado número das obras-primas da música ocidental nasceram no âmbito da música sacra e do Cristianismo, como são bons exemplos os casos de Palestrina, Mozart, Haendel, Bach, Beethoven e Bruckner.

No caso da Madeira, encontramos também uma situação semelhante, e durante os quase 600 anos de história da Madeira, a música sacra ocupou quase sempre um papel central, sendo a área cultural em que podíamos encontrar os melhores músicos na Madeira. No entanto, muita da música sacra madeirense histórica perdeu-se, provavelmente para sempre, sendo poucos os exemplos musicais que chegaram até nós anteriores ao século XIX.

Se a situação da música sacra madeirense dos séculos XIX e XX é bastante diferente, conhecendo-se atualmente centenas de obras de autores madeirenses, isso deve-se à ação de uma pessoa: João Arnaldo Rufino da Silva (1929-2016), que faleceu na madrugada desta segunda-feira.

Rufino da Silva foi um grande defensor da música sacra madeirense e deixou um conjunto de edições essenciais para o estudo da história cultural madeirense na área musical. Ex-Sacerdote católico, natural da freguesia de Câmara de Lobos, Rufino da Silva distinguiu-se ao longo da sua vida como músico, musicólogo, professor e diretor artístico de coros, como o Coro do Seminário e o Orfeão Madeirense.

Estudou no Colégio Português em Roma, com o propósito de frequentar o Instituto Pontifício de Música Sacra, onde concluiu o curso de Canto Gregoriano e Composição Sacra. Os estudos em Roma foram complementados com o curso do Método Ward, em Paris, também na área da música gregoriana. De volta à Madeira, concluiu então o curso superior de Canto de Concerto pela Academia de Música, Belas-Artes e Línguas da Madeira.

Na década de 1970, deixa o sacerdócio e muda-se para Lisboa onde integrou o Coro Gulbenkian em 1978, e onde se manteve até 1994. Nessa altura, a sua principal profissão passou a ser a de professor de música, tendo lecionado Educação Musical na Escola Preparatória de São Julião da Barra, em Oeiras, de 1980 a 1994.

O seu principal legado acabaram por ser as várias investigações musicológicas e edições sobre a música sacra madeirense – quer popular quer erudita –, da qual foi o principal impulsionador e divulgador nas últimas décadas.

Na obra publicada de João Arnaldo Rufino da Silva salientam-se: “Cânticos Religiosos do Natal Madeirense”, um livro editado pela Direção Regional dos Assuntos Culturais, que deu origem posteriormente à gravação de dois CDs, num trabalho que resultou de uma recolha feita pelo músico, sobre cânticos populares do Natal madeirense; “Canções Populares Madeirenses” para Coro Misto; e “Um Século de Música religiosa na Madeira” – a sua obra maior –, onde realizou a mais importante compilação existente sobre a música sacra madeirense, que inclui 774 composições, que foram tocadas na região entre o final do século XIX e o final do século XX.

No domínio da investigação musicológica destacam-se os seus artigos sobre a música sacra na Madeira na revista “Islenha”, na revista “Girão” e colaborou no livro “A Madeira e a Música”, com um artigo intitulado “Música Religiosa na Madeira”.

Em 2010, a Secretaria Regional de Educação, por intermédio do então Gabinete Coordenador de Educação Artística (atual Direção de Serviços de Educação Artística e Multimédia), realizou-lhe uma homenagem pelo papel desempenhado na defesa do património musical madeirense. Passados seis anos, aqui fica novamente a nossa sentida homenagem. Estamos eternamente gratos pela confiança que depositou na nossa instituição, pelo carinho que sempre teve pelo nosso trabalho, que ficou bem refletido na doação que nos fez da sua coleção de música, com cerca de 600 documentos, para que continuássemos o seu legado.

Jornal da Madeira, 19 julho 2016