PIANO, PIANO, PIANISSIMO

por Jorge Lima Barreto (1949-2011)

Sendo que a Musicologia é o estudo profundo e superior da Música sob todos ou especiais aspectos, procuraremos uma observação dialéctica e necessária para rebater a babelização da linguagem musical.

É certamente uma crise de valores tendente à descaracterização das músicas em eventos nos mais considerados locais para a arte dos sons, agora até já detectáveis nas modalidades de interesseiro aluguer ou magnânima cedência de espaço em marcas as mais absolutamente prestigiantes (CCB, Casa da Música, Culturgest…).

Neste texto procura-se uma reflexão sobre um situacionismo musical, confrontar o excesso de ecletismo. Não há uma Música mas várias músicas, cada uma com o seu conceptualismo, a sua técnica, a sua historicidade; com talentosos e imaginativos criadores em todos os planos – o que se pretende denunciar é a rebarbativa miscegenização perpretada por músicos e compositores que não dominam devidamente a genuína semiologia e estão alheios ao seu sentido profundo, á sua semântica – o fado é destrinçável de qualquer outra música tradicional/popular; esvai-se o sentimento, o imaginário; nos escpectáculos de fado tornado produto turístico há um leque instrumental impróprio (exs. bateria, DJ, laptop ou sintetizador).

A música barroca caracteriza-se por uma estruturação específica e corresponde a uma cronologia própria; mantém-se viva pelo virtuosismo dos seus intérpretes; há o humor como na recuperação do clacissismo de Beethoven por Kagel; há uma gramatologia que autoriza a reconsideração do passado como na obra de Stravinsky sobre Gesualdo…

Consideremos duas espécies de pianistas: o intérprete, que realiza o que foi escrito pelo compositor e o improvisador, cujo jogo se desinibe da composição, pertinente na maioria das musicas orais do mundo, sem o dominio da escrita, privilégio da improvisação – pode haver criações mistas. A composição escrita evoluiu desde o serialismo para uma cientificidade que progressivamente dispensava o factor da improvisação.

Glorificam-se em fetiche dois pianistas portugueses de alguma qualidade (Mário Laginha e Bernardo Sassetti), muito requisitados, que, com toda a legitimidade, respondem, à sua melhor maneira profissional, às diversificadas solicitações; ora, o Sassetti não é minimamente especialista na interpretação dos clássicos nem estimável improvisador no âmbito da música contemporânea; e o Mário Laginha está votado à variedade de execuções e a execuções da variedade, com grande fôlego poliestilistíco; ambos secundários como intérpretes de qualquer composição de qualquer data ou estirpe tipológica; são pianistas entre os mais interessantes do Jazz em Portugal; não se passa, e de modo algum, o mesmo com a verve deles como compositores, respostas pronto-a-vestir de encomendas rapaces…

O falso jazz apropria-se de Bach, Wagner, Mahler, vulgarizando uma linguagem superior, reificada por processos pobres de transcrição; obras criadas pelo génio são transladadas para o divertimento – pode citar-se, num plano global, anterior e similarmente, o vetusto “play Bach” de Jacques Loussier, o teclado eruditão de Keith Jarrett a emular os intérpretes clássicos…, etc…; propostas editoriais para a venda milionária… com a inerente perda de valores históricos e artísticos….uma corrente vulgata da música para computador (laptop) ilegitimamente reverifica todas as músicas, mas o seu projecto é híbrido e realizado num meio tecnológico.

O mesmo se deve denunciar e negar nas investidas funcionais anódinas em interarte (artes plásticas, dança, teatro, literatura, esta então levada aos limites da usura) e multimedia (foto, cinema, instalação, video, assumidas como categorias fugitivas, etc…)… isto para não especular sobre produções ditas “multiculturais” a descambar na polissemia etno-degradante – cabe no mesmo saco: o fado, o Ravel, o samba, o “jazz”, o rap, o Zeca Afonso, o Ravi Shankar, a morna, o Lopes-Graça, o minimalismo, até o Xenakis, o pimba, o Abrunhosa, o hip hop.

A talho de foice podemos também falar da leviandade com que agora se interpreta grandes compositores e a facilidade com que se alistam nomes de génios da Música ao lado de arrivistas ou anódinos músicos, pois, similarmente, não estamos a ouvir Stravinsky mas qualquer refluxo sonoro desfigurador e sem autenticidade, e o copista vulgar passa por criador com talento… é a apologia do plágio…. é a perda do discernimento, mercadoria espectacular com vistosos resultados para certos operadores culturais com assento nas mais diversas instituições… mas mais grave: é o desaparecimento de valores (éticos e estéticos), a despistar um público apreciador e digno do verdadeiro.

Em contrapartida, pelo lado negativo da ruína posmodernista, proliferam rábulas mascaradas por alegações diletantes de interarte, multimédia, as quais não passam da rapsódia e da música funcional; arte afinal sem filosofia e inovação; … indigitá-las como representantes da nova música torna aquilo que devia ser construtivo numa manobra dilatória.

Acontece que ocorrem nas programações musicais (não em todas, evidentemente) notórios casos de concocção estilística e tipológica, fait divers, miscelânea de exibições alegadamente pluriculturais, com elevados desníveis qualitativos – música ora pegagógica, ora etária, ora convencional, ora pragmática; feira de vaidades sem o conceito de Música como Arte.

Oculta-se a criatividade daqueles que são os músicos de direito, que infelizmente e por lapsos e deliberações autocráticas têm tão poucos apreciadores – a música é dos músicos e as instituições para a Música não se podem arrogar com posturas censórias e silenciar a produção artistica apenas por motivos demagógicos, a deitar o olho à propaganda na TV e nos média em geral, amnistiadas por lamurientas restrições orçamentais… a voracidade é sôfrega.

São denotadamente poucos e com todo direito a mostrar a Arte e as ideias… com o risco até de elas não serem compreendidas por espíritos mais tacanhos e serem minoritárias no seu público.

Os músicos (todos eles e de todos os quadrantes) precisam comunicar o seu trabalho e não se pode deixar passar decisões impróprias e arbitrárias que os atirem para o desemprego e a incomunicabilidade ou ao serviço compulsivo de sobrevivência.

…. Música é Cultura.

Jorge Lima Barreto

Publicado na Meloteca em 2009