A OBRA PARA ÓRGÃO DE OLIVIER MESSIAEN:

Ressonâncias teologico-litúrgicas

por José Paulo Antunes

«Senhor, Senhor, a Música e a Poesia me conduziram a Ti: por imagem, por símbolos e pela busca da verdade…; Senhor, Senhor, ilumina-me com a Tua presença, liberta-me, inebria-me, deslumbra-me para sempre com o Teu excesso de verdade!»

Eis como poderíamos sintetizar a vida e a obra de Olivier Messiaen, a partir daspalavras que ele próprio colocou na boca de S. Francisco de Assis, na sua única e magnificenteópera com o mesmo nome, quando S. Francisco, no III acto, se prepara para o derradeiroencontro face a face com Cristo.

A obra musical de Messiaen manifesta aquela radical sede de Deus, do Deus vivo, de que fala o salmista (Sl 42,3), muito especialmente as suas obras para órgão. Por isso, a sua música está impregnada de um intenso carácter laudativo, que ao mesmo tempo exalta e contempla, com um forte propósito de admiração e inebriamento perante as Maravilhas que Deus operou e às quais Messiaen canta o seu “Cântico Novo” (Sl 98,1 e Sl 105,2.5).

Toda esta atitude orante e de adoração se entende no contexto vital da sua existênciacomo homem de fé, que foi o núcleo fundamental da sua vida como pessoa, como crente e como músico. Deus e a Natureza foram as suas mais determinantes fontes de inspiração. A História da Salvação, a Revelação, a Incarnação do Verbo de Deus em Jesus Cristo, o Seu Mistério Pascal, e o deslumbramento que tudo isto nos provoca, são os temas que, directa ou indirectamente se encontram presentes na obra musical de Messiaen.

Na verdade, a vida e a obra de Olivier Messiaen estão indelevelmente ligadas à sua actividade musico-litúrgica, desenvolvida ao longo de 61 anos na Igreja da Trindade em Paris, onde foi organista de 1931 a 1992. A sua profunda fé cristã e intensa vivência litúrgica inspiraram, motivaram e marcaram presença na sua obra, onde, através de uma linguagem musical muito própria, com as suas cores e cantos dos pássaros, exprimiu e aprofundou musicalmente os mais importantes mistérios da fé cristã, centralizados na pessoa de Jesus Cristo. Por isso, os temas favoritos das composições para órgão de Messiaen situam-se nos eixos do encontro entre o divino e o humano, cujo paradigma se manifesta no mistério do próprio Filho de Deus.

A música de Messiaen manifesta uma forte dimensão improvisatória com um vigoroso poder evocativo, que se manifesta num impressionante jogo dos timbres, das harmonias e do ritmo, sendo capaz de representar, ou seja, tornar presente e vivenciáveis muitas dimensões da realidade invisível da fé, conseguindo deste modo um resultado que alguns autores referem como música “sacramental”. Com isto se pretende sublinhar que ela não tem apenas um objectivo catequético e didáctico, nem procura a simples ilustração ou embelezamento das verdades da fé. Não é apenas “ornamentum” mas sim “sacramentum”, na medida em que o universo sonoro criado nos coloca em contacto e em comunhão com o Mistério enquanto revelador da natureza divina e da sua intervenção na História da Humanidade.

Ao referirmos a música de órgão de Messiaen podemos falar de um “arco-íris teológico”, pois é através da vivência de agregados sonoros (que Messiaen vê como cores) que as realidades teológicas são transformadas em arte dos sons, num colorido tímbrico que as imensas possibilidades de registação do órgão ilustram de forma tão magnífica e eloquente. A música de Messiaen é, deste modo, colocada ao serviço da manifestação das principais verdades da fé que os cristãos vão vivendo e celebrando ao longo de todo o ano litúrgico.

Os mais importantes momentos da História da Salvação são celebrados na obra de Messiaen: a Criação, o Nascimento do Menino Deus, a Sua Paixão, Morte e Ressurreição, ponto culminante da Redenção, a Eucaristia e o Reino de Deus na Consumação final dos tempos, quando todos em Cristo formos ressuscitados. Na verdade, como já dissemos, esta perspectiva de fé perpassa toda a obra de Messiaen, mas é na sua obra organística que a dimensão litúrgica, cósmica e escatológica mais se manifesta, com todo o universo e as criaturas a louvarem o Criador e a projectarem-se num movimento contínuo até à Parusia, onde tudo e todos estarão em perfeita harmonia com Cristo (Col 3,11).

Neste Festival poderemos vivenciar um mosaico temático repleto destas ressonâncias teológico-litúrgicas:

> Em “Les Corps Glorieux” (Os Corpos Gloriosos) Messiaen reflecte na vida do homem salvo, junto de Deus no fim dos tempos. Configurado pela Ressurreição de Cristo, o ser humano alcança uma existência de glória junto de Deus, recebendo um corpo glorioso a partir do qual participa da plenitude da vida divina. É a Festa de Todos os Santos, é a celebração da Comunhão dos Santos e da vida celeste junto do Pai em forma de música.

> No “Livre d’Orgue” (Livro de Órgão) encontramos um conjunto de peças com carácter meditativo, uma espécie de hinos e orações ao Criador com importante significado espiritual e cósmico. De salientar “Chants d’oiseaux” de forte inspiração franciscana que Messiaen indica para o Tempo Pascal, “Les main de l’abîme” indicado pelo compositor para os tempos de penitência e a última peça, “Soixante quatre durées” considerada profundamente austera e cheia de misticismo.

> Com “L’Ascension” (A Ascensão) e a “Messe de la Pentecôte” (Missa de Pentecostes) surgem dois temas que encerram o Ciclo Pascal do ano litúrgico, correspondendo às respectivas Festas da Ascensão e do Pentecostes. A primeira obra contém quatro meditações sobre o mistério da Ascensão de Cristo ao Céu e a segunda situa-se na tradição de origem franco-alemã das missas de órgão, nas quais é exclusivamente a linguagem musical que dá forma aos vários ritos litúrgicos de carácter musical, sem o uso da linguagem verbal. Esta obra de 1950 surge como uma síntese da experiência improvisatória do compositor ao longo da sua vasta experiência litúrgica na Igreja da Trindade. Esta “missa” tem 5 movimentos: Entrée (As línguas de fogo), Offertoire (As coisas visíveis e invisíveis), Consécration (O dom da Sabedoria), Communion (Os pássaros e as fontes) e Sortie (O sopro do Espírito).

> Nas “Méditations sur le Mystère de la Sainte Trinité” (Meditações sobre o Mistério da Santíssima Trindade) Messiaen cria aquilo que ele próprio chama uma “langage communicable”, ou seja uma linguagem comunicável através da arte dos sons, fazendo corresponder certas estruturas (notas, valores e intervalos) às várias consoantes (palatais, dentais, labiais, linguais e sibiliantes) e vogais, criando assim um autêntico alfabeto sonoro. As nove meditações desta obra têm uma grande carga simbólica na medida que manifestam a relação e harmonia perfeitas da Santíssima Trindade (3 vezes 3).

> O “Livre du Saint Sacrement” (Livro do Santíssimo Sacramento) é a última obra para órgão de Messiaen (1984). Contém 18 peças, umas curtas e outras de maior desenvolvimento, cujos temas gravitam à volta da adoração ao Santíssimo Sacramento, a Transubstanciação, o Maná e o Pão da Vida, os Ressuscitados e a Luz da Vida, a Instituição da Eucaristia (oitava peça desta obra composta sobre uma improvisação realizada pelo compositor numa celebração de Quinta-feira Santa na igreja da Trindade), entre outros. Trata-se de uma grande síntese teológica através da música que liga o Mistério da Eucaristia com o Mistério da Incarnação de Jesus, a Sua Páscoa e a prefiguração da Eucaristia no Maná do deserto (Êxodo 16).

> Este ciclo de concertos encerra com “La Nativité du Seigner” (A Natividade do Senhor) exactamente no dia do nascimento do compositor – 10 de Dezembro. São nove meditações sonoras sobre o Natal celebrando os nove meses de maternidade de Maria, mas também onde se prefigura e se evoca já o futuro sofrimento de Cristo na Cruz (peça nº 7 – Jésus accepte la souffrance), numa síntese entre Incarnação e Páscoa. A Virgem Maria, o Menino, os pastores, os anjos, os reis magos, todos encontram lugar nesta obra de Messiaen, que conclui com a significativa peça “Dieu parmi nous” – Deus entre nós – o Emanuel!

Esta visão sonora integral da obra para órgão de Olivier Messiaen permitir-nos-á vivenciar de forma sinestésica as cores do som e o deslumbramento das Maravilhas de Deus que a sua música contém. Será um verdadeiro vitral sonoro que certamente nos transportará para a esfera do divino, do divino cristão, sempre presente entre nós.

Prof. Doutor José Paulo Antunes

Doutorado em Teologia pela Universidade de Regensburg (Alemanha)
Director do Departamento de Música da Escola das Artes
Professor Auxiliar da Escola das Artes da UCP
Coordenador Científico do Mestrado em Música Sacra
Exerce actividade docente na Licenciatura e Mestrado em Música, no Doutoramento em Arte Sacra e como Professor Convidado na Faculdade de Teologia da UCP

Texto publicado em 2008 pela Escola das Artes da UCP no programa do centenário do nascimento de Olivier Messiaen. Da programação constou a obra integral da obra para órgão de Messiaen (pelos organistas Daniel Ribeiro, Giampaolo di Rosa, António Esteireiro, António Mota, Winfried Bönig), e a mesa redonda “Olivier Messiaen: diálogos entre música e espiritualidade” (29 Outubro de 2008), com os Prof. Doutores Joaquim Azevedo (moderador), Jorge Cunha (comentador), Teresa Macedo, José Abreu, José Paulo Antunes, Giampaolo di Rosa, Yolanda Espiña.

CITANDO

A obra musical de Messiaen manifesta aquela radical sede de Deus, do Deus vivo, de que fala o salmista (Sl 42,3), muito especialmente as suas obras para órgão.

José Paulo Antunes

Olivier Messiaen

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