O BEBÉ E A MÚSICA

Excerto de Música na creche: possibilidades de musicalização de bebês, por Cíntia Vieira da Silva Soares. ABEM 2008.

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Desde a vida intra-uterina, o bebé é cercado por um ambiente sonoro, convive tanto com ruídos externos quanto com os sons interiores causados pelo funcionamento do corpo da mãe e pela sua voz.

Aproximadamente pelo sexto mês de gestação, a audição do bebé alcança sua maturidade, sendo comparável à audição de um adulto. Assim, a percepção dos sons externos se torna maior, intensificando seu universo sonoro. A relação do bebé com o mundo, nesse momento, é como ouvinte em potencial (Klaus).

Se ele é capaz de ouvir mesmo dentro do útero, poderia ser inferida sua capacidade de lembrar desses sons, ainda que camuflados pelo líquido amniótico. Na sua investigação, Sheila Woodward (Scientific discoveries, [s.d.]) demonstrou, por meio de microfones internos, que o bebé consegue ouvir dentro do útero materno, podendo lembrar-se dos sons e músicas ouvidas nesse período. Desse modo, os sons que agradam o bebé podem ter relação com a sua percepção intra-uterina. Valendo-se disso, pode-se entender quando algumas mães e pais nos procuram dizendo que colocam Mozart para o bebé ouvir desde o seu nascimento, mas ele parece gostar mais do rock popular, género ouvido pela mãe durante a gestação.

É interessante observar essa familiaridade auditiva e afetiva do bebé com o estilo musical preferido pela mãe ou pelo pai. Sandra Trehub, da Universidade de Toronto, afirma que os bebés podem preferir algumas músicas a outras. Eles sorriem quando escutam certos grupos de notas musicais consoantes, parecendo não gostar dos acordes dissonantes. Segundo a pesquisadora, essas preferências podem ocorrer, principalmente, conforme o ambiente musical do bebé.

É o que arriscamos a afirmar empiricamente sobre a maioria dos bebés que são filhos de pais músicos, instrumentistas e cantores, ativos na profissão ou mesmo aqueles simpatizantes de música, intensos, que ouvem, tocam ou cantam informalmente.

Geralmente, algumas dessas crianças têm aguçada percepção auditiva, com alto interesse por música ou artes e, naturalmente, com potencialidades musicais. Obviamente, não é porque carregam os “genes da música”, mas por estarem imersos em ambiente musical desde muito cedo e por terem na música mais um elo afetivo com os seus pais, o que origina experiências agradáveis e vitais para o desenvolvimento infantil.

Quando o bebé nasce, essa relação sonora se amplia. Antes, percebia os sons como ouvinte, com limitadas ações motoras; agora, passa também a reagir ao estímulo musical por meio de movimentos corporais e de produção sonora.

Como ouvinte ativo, o bebé desde que nasce é capaz de ouvir e discriminar sons, preferindo a voz humana, especificamente a materna. A voz humana é a fonte mais relevante de estimulação sonora, por ser carregada de elementos musicais. As modificações adaptativas da fala que os adultos utilizam para dirigir-se ao bebé, denominada de “mamanês”, têm conotação musical e linguística de grande importância para o desenvolvimento. Por meio do “mamanês”, os bebés captam ritmo, modulações melódicas, intensidade, envolturas prosódicas, acentuação e expressão que ativam sua atenção e dão suporte às primeiras vocalizações (Gembris).

Outra grande influência musical da voz humana na vida do bebé é a canção de embalar. Ela traz em si elementos musicais, como alta sonoridade, compasso, expressão, e sua melodia tem um ritmo lento e regular, que pode acalmar o bebé. Essas canções promovem a interação mãe/filho com intensa carga emocional.

Em relação à produção de sons, inicialmente as necessidades impelem o bebé a comunicar-se com o mundo pela produção sonora de gritos, choros, resmungos e balbucios, como se criasse sua própria música. Ruth Fridman, pesquisadora argentina, relata que, desde o seu nascimento, o bebé manifesta seus estados de humor por meio de elementos sonoros diferenciados da linguagem comum que conhecemos. Essa fase pré-verbal, que antecede a fala propriamente dita, é formada por grunhidos, balbucios, sons explosivos ou expressões sonoro-rítmicas chamadas por Fridman “proto-ritmos”. “Los proto-ritmos de la expresión vocal son estructuras motoras que dan forma a la red rítmica primária natural del ser humano” (Fridman).

A autora realizou sua pesquisa com o choro dos bebés, desde o nascimento. Segundo Fridman, “o ritmo dá a forma e estrutura ao que em música se chama pensamento musical. O mesmo sucede com a linguagem. Do choro surgirão a palavra e a manifestação musical tendo ambos um tronco comum: os proto-ritmos entonados”.

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