MUSICA REPETITIO

por Jorge Lima Barreto (1949-2011)

A Música é a Arte da “repetição” – seja a repetição relativa ao objeto sonoro, seja a ideia de matéria sonora e material composicional.

O repetitivismo é o principal elemento semiológico das músicas primevas; em todas as civilizações orais, do mágico-ritual ao tribalismo, a música estrutura-se sobre reiterações; nas músicas pulsantes e repetitivas das culturas não-ocidentais – especialmente da África Central ou da Índia – na convenção da música tradicional europeia, há uma sólida noção de reiteração de carácter eminentemente rítmico; e qualquer músico utente do computador confronta loops que são módulos repetitivos.

Se considerarmos o “silêncio” a razão ínfima do conceito de repetição temos de abordar a própria noção de silêncio. Há várias espécies de silêncio de acordo com a duração no tempo em relação aos sons que lhe servem de margem; os sons é que determinam o silêncio e, na música, o silêncio entre dois sons é uma espécie de intervalo “minimal”. Pela teoria da Gelstalt nenhum silêncio é igual a outro; a repetição partiu da noção de silêncio como conceito minimalista e por um processo de organização subjacente orientou-a na consciencialização sobre vários silêncios que se repetem no devir.

Repetição duma nota – repita-se duas e tem a música – a própria natureza do som consiste na vibração, que é um fenómeno repetitivo.

A repetição “nua” consiste no encadeamento estático de materiais sempre iguais, repetições gestuais e conceptuais puras; a repetição “dinâmica” é resultante do cruzamento de diversos estratos temporais, eventos alterados por sons vizinhos ou parasitas; nua (despojada, natural) e dinâmica, vestida e mascarada.

No repetitivismo, o plano da composição material estética é tratado em isocronias, a repetição é a essência do ritmo por reiteração e autotransformação e pelo figural “ostinato”.

O termo reiteração significa tomar um novo caminho ou itinerário e todas as obras ostinati são reiterativas na medida em que retomam um caminho já exposto.

Ostinato não se confunde com repetitivismo; aquele é uma forma que pode surgir num discurso diferencial e este, o repetitivismo, é um plano de organização de sons.

Outra noção é a de “isomorfismo”, que implica a existência no tempo de figuras iguais, com a mesma forma.

Podemos considerar dois géneros de isomorfismo: a “isocronia”, a nota ou o pattern ou o acorde repete-se igualmente no mesmo tempo (chronos); e a “isorritmia” é um ritmo que se repete consecutivamente.

A repetição é a essência do ritmo na transformação subtil de isomorfismos e conjugações de figuras isomórficas com figuras irregulares.

A reiteração está ligada á presença do objecto sonoro – repetir três notas é alterá-las, transmutá-las; assim as tais três notas são definíveis estaticamente, mas a repetição adjeciva-as de múltiplos valores.

Podemos considerar dois tipos de repetição: baça, ou “discreta” e subliminar e a “reincidente” com grandes nuances na repetição.

A reiteração “activa” é a recognição, a “passiva” é a reminiscência.

A distância temporal entre um som e o mesmo som repetido que o prossegue faz meditar sobre a própria distância; quanto mais longa cronologicamente for a repetição mais envolvente, ambiental, se torna o repetitivismo.

Quando dois sons ou figuras iguais se inciam com uma partida diferente, por exemplo com um segundo de avanço dum para o outro, nasce o efeito da “desfasagem” dum módulo rítmico ou melódico.

Ritmo significa, de uma maneira geral, a repetição periódica de elementos no tempo ou no espaço, significa repetição de um movimento; o ritmo em design é criado por repetição e variação. Repetição de formas, e o espaço entre as formas, criam um padrão de movimento.

Quando estamos a enfocar o ritmo e o espaço, os intervalos entre os elementos são tão importantes quanto os elementos em si.

Ritmo pode ser: “alternado”, com padrões repetitivos criados com o mesmo elemento numa forma consistente; ritmo “progressivo”, que é um tipo de repetição em que os elementos mudam, mas mantém uma consistência de repetição.

Em 1936 Collins McPhee escreveu a obra “Tabuh-Tabuhang” inspirada nos repetitivismos da música balinesa.

Esta composição seria o fermento da música minimalista.

Nos EUA no início dos anos 1960 foi introduzida a dita estética da “música minimal repetitiva” e lançou-se indulgentemente a tónica infraestrutural do ulterior rock planante e da electrónica massificada como envolvimento e pulsação.

A função da unidade minimal (pattern) é prospectiva, projecta-se no devir das repetições; no minimalismo o movimento é iterativo, reinventa diversas figuras no devir.

Num ponto de vista teórico devemos entender o minimalismo não apenas como uma gramática musical, com sintaxes repetitivas e exíguos materiais sonoros, mas como um movimento poliartístico que preconiza uma nova simplicidade, estética que foi decisiva para a linguagem do rock progressive, futurologia do hip hop; uma música intencionalmente informalista e ambiental, os efeitos repetitivos procuraram rodear-se de sons etéreos, vibrações cósmicas contínuas, chuva de estrôncio musical.

Sonoridades com mínimo valor ganharam prestígio e tornaram-se termos semiológicos da corrente da música minimal repetitiva.

O cerne do minimalismo está nas variações de células rítmicas, pleno de retrogradações, reprises, oscilações, sintaxes basculantes.

O conceito de minimal ganhou vida como discurso musical e a lógica da repetição considerou qualquer figura como pattern musical para meditação, pequenos e breves motivos que variam quase imperceptivelmente; pulsação exacta e fundamental da medida, fluxo contínuo e não intermitente; polirritmia, ritmos e contra-ritmos, regularidade rítmica básica, execução simultânea de ritmos diferentes mas próximos; a arte do “ritornelo”: riffs reiterados sob séries de fórmulas proscritivas; o riff dá o termo no balanceio contínuo e rítmico, incentiva a atracção sobre tempos precedentes e exerce atracção sobre a seguintes.

No minimalismo a repetição é restrita e obstinada e reconhece-se os processos especificos: “aditivo” e “subtractivo”, que consistem respectivamente na adjunção e na obnubilação de figuras criando novos patterns; a phase shifting, circuito periódico da “desfasagem”; o ritornelo que reestabelece elementos fantasmáticos.

Sucedânea do basso continuo do barroco, da rhythm section do jazz, a influência teórica do minimalismo no pop/rock foi determinante: no progressive, kraut, hip hop ambient… a secção rítmica está presente em quase todas as situações pop/rock, estabelece uma relação infra-estrutural da pulsão de base, sobre estratos repetitivos.

As síncopas distribuem-se nas diversas situações polirrítmicas e o jogo da figura repetitiva (ostinato) é determinante nas melodias reiteradas, na batida binária: um massacre repetitivo sobre um punhado de notas, ou até sobre a mesma, dois ou poucos mais acordes dissonantes, perseverança de ruidos afins….

A estética minimalista monoestrutural projectou-se em sintagamas da música contemporânea de todos os estilos e desta maneira reconsiderou uma nova simplicidade, a pulsação fisiológica.

O minimalismo institui um estruturalismo que vai contra a representação exterior, é estrutura da interioridade e do conceito; designa uma política especial em relação ao material usado que são elementos rarefeitos; a repetição vem depois, surge com as animação e movimentação dessas unidades elementares; mesmo na sua vertente electrónica o compositor recorre a efeitos como o phasing, o sustain, o sequencing, o drone ou figura somnífera, com variações ínfimas e dóceis.

O minimalismo designa a música na sua expressão mais simples.

Movimento inspirado no minimalismo das artes plásticas americanas dos anos de 1960, a “música minimal repetitiva” é uma das correntes importantes da música contemporânea, E os seus epónimos serão La Monte Young, Steve Reich, Terry Riley, Bob Ashley, Philip Glass, Jon Hassell, John Adams.

O encantamento do ritmo repetitivo, a hipnose e a meditação, o fascínio da contemplação, espécie de regresso ás origens da História humana e da sua Música.

Jorge Lima Barreto

Steve Reich

Publicado na Meloteca em 2009