MÚSICA EM FÁTIMA NO SÉC. XX

por António José Ferreira

INTRODUÇÃO

Ainda antes de as Aparições serem declaradas dignas de crédito pelo Bispo de Leiria, a 13 de Outubro de 1930, Fátima e a música tinham já juntos um percurso inevitável, por motivos antropológicos, pedagógicos e pastorais. Os primeiros reitores tiveram de estruturar a prática musical, seleccionando, promovendo novos cânticos, editando manuais, pensando no projecto do órgão.

A centralidade do Santuário viria a ter consequências nas manifestações musicais do âmbito eclesial, contribuindo para certo estilo de canto litúrgico em Portugal. As visitas da Imagem Peregrina, a partir de 1940, a realização de congressos católicos em Fátima nos anos 50, a organização do culto para responder à crescente vinda de peregrinos portugueses e estrangeiros originaram um repertório musical próprio, com o contributo de numerosos compositores.

Neste processo, Fátima não podia ignorar a legislação canónica em vigor que considera(va) a música (especialmente o canto) insubstituível nas celebrações litúrgicas da Eucaristia, do Ofício Divino, das devoções e peregrinações a santuários. Todavia, dois documentos (com pontos comuns e perspectivas eclesiológicas diversas) marcaram a música em Fátima, como, aliás em todo o mundo católico: o Motu Proprio de Pio X, “Tra le Sollecitudini“, de 1903, e o capítulo sobre música da Constituição Conciliar “Sacrosanctum Concilium“, de 1963. O primeiro valorizava especialmente o gregoriano e a polifonia clássica, o coro e o órgão de tubos; o segundo valorizava, acima de tudo, a participação “actuosa” da assembleia, num contexto orgânico de diferentes serviços, sem depreciar o papel do coro, do regente, do solista e do organista.

Realçada nas peregrinações aniversárias pela massa das vozes e pelo carácter mediático do acontecimento, a música realiza no Santuário tarefas quotidianas nas celebrações litúrgicas e, desde há quase uma década, no Terço do Rosário transmitido pela Rádio Renascença.

I. JÚLIA D’ALMENDRA

Um dos factos mais importantes da Música Sacra em Portugal e em Fátima, no século XX, são as Semanas Gregorianas, que persistem, sob a direcção de Idalete Giga. Foram concebidas e iniciadas por Júlia d’Almendra (n. 1904 – m. 1992), trinta e três anos depois das Aparições, 47 anos após o Motu Proprio de Pio X sobre música sacra “Tra le Sollecitudini“, 13 anos antes da constituição litúrgica “Sacrosanctum Concilium“.

Na Solenidade de Cristo Rei de 1949, a musicóloga que deixara o violino para se interessar pela música da Idade Média e do Renascimento, revelou ao Prelado de Leiria a ideia de fazer de Fátima o centro do Movimento Gregoriano em Portugal, criando as Semanas de Estudos Gregorianos destinadas a todas as dioceses. «Um dia, quando regressava de Trás-os-Montes, onde passara umas férias, a fim de seguir para Paris a completar o meu último ano, passei, sem o esperar, em Fátima, e ocorreu-me de súbito a ideia de ali começar as Semanas Gregorianas em Portugal. Tão bem compreendida fui pelo Sr. Bispo de Leiria, então S. Ex.cia Rev. D. José Alves Correia da Silva, que a 1ª Semana se realizou logo no ano seguinte, nas férias da Páscoa de 1950, com a presença do director do Instituto Gregoriano de Paris, o ilustre Prof. Auguste Le Guennant que, no Conservatório Nacional, proferiu uma lição que marcou, pode dizer-se, a data dum verdadeiro movimento gregoriano, para leigos e religiosos, em Portugal» (ALMENDRA, O 10º aniversário, 7).

O Prelado, que ficara intimamente ligado aos fenómenos de Fátima, à bênção do carrilhão, ao envio dos padres António Gregório e Carlos Silva para o Instituto Pontifício de Música Sacra, ficou também associado ao Movimento Gregoriano em Portugal. A “I Semana Portuguesa de Formação Gregoriana e Litúrgica”, que tinha o alto patrocínio do Cardeal Patriarca, do Bispo de Leiria, do Instituto Francês de Lisboa e do Conservatório Nacional de Música, contou Auguste Le Guennant, do Instituto Gregoriano de Paris, o ilustre liturgista beneditino Tomás Gonçalinho de Oliveira, Luís Rodrigues, compositor e reitor da Lapa, no Porto e Manuel Ferreira de Faria, de Braga, entre os seus formadores. Ainda em Fátima, no ano de 1950, após a I Semana, o Bispo assistiu a uma reunião em que se lançou a “Liga dos Amigos do Canto Gregoriano”.

Já debilitado em termos de saúde, chegou a presidir em cadeira de rodas a missas de encerramento de “semanas de formação gregoriana”. Viria a falecer em 1957, mas os bispos que lhe sucederam na Diocese, designadamente D. João Pereira Venâncio (que foi professor de Música, director da “Schola Cantorum” do Seminário Diocesano de Leiria e da Sé), apoiaram o projecto das semanas gregorianas. Com formadores de renome internacional como D. Joseph Gajard, Jos Lennards, Ferdinand Haberl, Johannes Overath, Jacques Chailley (n. 1910 – m. 1999), Antoine Sibertin-Blanc e, entre os portugueses, Frederico de Freitas (n. 1902 – m. 1980), Manuel Faria (n. 1916 – m. 1983), José Augusto Alegria (n. 1917 – m. 2004), Mário Brás, ensinaram e fomentaram a prática do canto gregoriano, prepararam directores de coro e cantores, deram aos organistas aperfeiçoamento técnico e facultaram preparação musical e pedagógica. Por esta via, foram ouvidos em concerto, tanto em Fátima como em Lisboa, organistas como Édouard Souberbielle, Gaston Litaize (n. 1909 – m. 1991) e Jean Guillou (n. 1930), uma das figuras mais proeminentes da música contemporânea francesa.

Num país atrasado em comunicações e transportes, numa fase de estagnação da actividade organística, Júlia d’Almendra contribuiu para o ressurgimento do órgão de tubos. Noticiadas pelo “Diário de Notícias” e o “Novidades”, católico, e outros jornais, as semanas tiveram um alcance que ultrapassa em muito a estatística dos participantes.

II. COMPOSITORES

Na produção litúrgica e devocional, uma década após as Aparições, foram surgindo obras dedicadas a Nossa Senhora de Fátima, cânticos de peregrinação, hinos e missas. Entre os autores, contam-se Tomás Borba (n. 1867 – m. 1950), José Angerri, Eduardo da Fonseca, Luís Gonzaga Mariz, SJ, Josué Trocado, Jacinto Martins, SJ, João C. Lima Torres, Inacio Aldassoro, SSCC, Berta Alves de Sousa (n. 1916 – m. 1997), Luís Rodrigues, Mário Brás, Armando Leça, Manuel Faria.

César Morais (n. 1922), autor de um conhecido concerto para violoncelo e orquestra gravado e uma suite para arcos gravadas com a Orquestra Clássica do Porto, escreveu, além de muitas outras obras sacras, uma “Missa de Nossa Senhora de Fátima”.

Joaquim dos Santos fez a orquestração da missa homónima de Manuel Faria, para coro e órgão, cuja estreia em versão orquestral aconteceu em Braga (1984), com a Orquestra do Porto e o Coro da Sé Catedral do Porto sob a direcção de Günter Arglebe. O próprio Padre J. G. dos Santos compôs uma “Missa em Honra de Nossa Senhora de Fátima” para duas vozes iguais, cuja partitura foi publicada em 1971. O Padre Jacinto Martins, S.J., notável compositor religioso dentro dos Jesuítas, escreveu várias composições musicais sobre Fátima, que editou em Barcelona (“Senhora de brancura imaculada” e “Ao meio dia”, entre outros). Alguns cânticos aparecem nos primeiros hinários de Fátima.

Em meados do século XX, D. José Alves Correia da Silva enviou Carlos da Silva (n. 1928-), ordenado presbítero em 1951, para o Instituto Pontifício de Música Sacra, na linha das recomendações do Magistério Universal. Nascido em Minde, próximo de Fátima, educado num ambiente familiar com tradições musicais, o Padre Carlos da Silva, estudou Canto Gregoriano, Órgão e Piano em Roma. Regressado a Portugal, foi, a partir de 1955, professor de Música, Canto Coral e História, de centenas de jovens candidatos ao sacerdócio, durante três décadas, no Seminário Diocesano de Leiria. Além disso, em 1957, passou a dirigir o Serviço de Música do Santuário e as grandes assembleias de peregrinos. Neste contexto se enquadram a composição de cerca de 50 cânticos marianos e o peso das suas composições litúrgicas e devocionais no repertório litúrgico-devocional de Fátima (cerca de 30%).

Melodista por formação e missão, o Pe. Carlos da Silva compôs geralmente para uma voz, com o objectivo de fomentar a participação da assembleia. Carlos Silva procura valorizar e amplificar o texto – daí o uso frequente de compassos mistos 2/4 e 3/4. Pelo uso da repetição e da imitação, com frases melódicas fluentes e equilibradas, potencia a participação colectiva. O refrão é, por vezes, estruturado em ABA (“A minha alma glorifica o Senhor”, “Feliz és tu, porque acreditaste”) ou ABCA (“Ó verdadeiro Corpo do Senhor”). Oriundo de uma freguesia com grandes tradições etnográficas e musicais, inspira-se na música de raiz popular, mas também no canto gregoriano. Cerca de 25% das suas melodias têm características modais e 75% uma base tonal. Em resposta a encomendas pontuais do Santuário, António Cartageno compôs “Totus tuus, Maria”, “Hino dos Pastorinhos”, (expressamente para a Beatificação em Maio de 2000, pelo Papa João Paulo II,) e “Venite adoremus Dominum”.

Na música erudita, a produção musical dedicada ou inspirada em Fátima é quase nula. Catorze anos depois das Aparições, foi executado no Teatro Nacional de São Carlos a oratória “Fátima” de Rui Coelho (n. 1892 – m. 1986), autor de várias óperas, sinfonias e sonatas. Composto sobre poema de Afonso Lopes Vieira (que também escreveu o texto do “Ave de Fátima”), a obra foi, nessa data, dirigida pelo próprio compositor. Em 1933, a obra foi executada com êxito no Teatro Guarany, Baía, no âmbito do I Congresso Eucarístico do Brasil, por 150 músicos, incluindo coros e orquestra. A direcção esteve a cargo do jesuíta Padre Luís Gonzaga Mariz, organizador do “Devocionário Musical” (1927, 1930). Pela primeira vez em Fátima, no Centro Pastoral Paulo VI e no âmbito do Congresso “Fenomenologia e Teologia das Aparições“, a obra foi apresentada a 10 de Outubro de 1997, com a participação dos coros do Santuário de Fátima, Paroquial de Alburitel, Chorus Auris, Gaudia Vitae, Choral Phydellius e da Orquestra Artave, sob a direcção do Cónego António Ferreira dos Santos.

A influência de Fátima na música, pela via devocional dos autores e intérpretes, é visível em alguns casos, tanto em Portugal como no estrangeiro, sendo significativa a canção “The Miracle of the Rosary“, cantada por Elvis Presley, escrita em 1960 pelo amigo Lee Denson (música e texto). O “rei do rock” pertencia à Igreja Evangélica Baptista, mas o seu amigo Lee Danson era casado com uma devota de Fátima. Nos anos 80, esta canção (que foi fora abençoada pelo Papa Paulo VI), foi cantada por Lee no Santuário de Fátima e no Carmelo de Coimbra, na presença da Irmã Lúcia.

III. REPERTÓRIO

As primeiras composições utilizadas em Fátima foram cânticos marianos conhecidos e adaptações de de Lourdes. O “Manual do Peregrino da Fátima“, reduzido em termos de repertório, aconteceu em 1926 e esgotou-se rapidamente.

As sucessivas edições, que foram incorporando novos cânticos, valorizavam mais a devoção (ao Coração de Jesus, ao Santíssimo Sacramento, a Nossa Senhora) do que a Liturgia, em Latim, e o tempo litúrgico. Nele, podemos encontrar “clássicos” da liturgia e da música sacra, como “O Salutaris”, “Pange Língua”, “Adoro Te devote”, “Lauda Jerusalém”, “Tantum Ergo”, ou “Te Deum laudamus”, “Salve Regina”. Em, português, “Hóstia santa, manso cordeiro”, “Ó anjos cantai comigo” (o cântico preferido de Jacinta Marto), “Santos Anjos e Arcanjos”, “Queremos Deus”, o “Ave de Fátima”, “Sobre os braços da Azinheira”, “Salve nobre padroeira”, “Virgem pura”, aparecem na edição de 1926. O repertório cresceria com “Bendizemos o teu nome”, “Senhora nossa”, e o “Adeus final” (“Ó Virgem do Rosário”) que hoje conhecemos.

O “Guia do Peregrino de Fátima”, (3ª edição, 1997), além das orações e informações úteis aos peregrinos e organizadores de peregrinações, valoriza a Liturgia das Horas e reflecte as mudanças introduzidas pelo II Concílio do Vaticano. Carácter litúrgico reflecte especialmente

o hinário “Canta, Povo de Deus” (1999), edição preparada pelo Padre Artur de Oliveira, para a Eucaristia e Ofício Divino. A inclusão de cânticos latinos e da Missa “De Angelis“, em continuidade com as anteriores edições musicais do Santuário, reflecte o carácter universal da Igreja e de Fátima, permitindo uma participação mais efectiva num contexto multilingue.

Na composição devocional, os cânticos mais conhecidos apresentam uma escrita homofónica claramente tonal, com utilização preponderante do modo maior. A melodia é pontualmente enriquecida por notas de passagem cromáticas e a duplicação à terceira. O compasso predominante é o quaternário 4/4 (“Sobre os braços da azinheira”, “Virgem pura”, “Salve nobre padroeira”, “Bendizemos o teu nome”), sendo caso mais raro o compasso ternário (“Ave de Fátima” e “Senhora nossa, Senhora minha”). Os esquemas rítmicos regulares facilitam a memorização. De modo a permitir a participação, o andamento, por vezes indicado na partitura, é lento, e o carácter marcial.

Tratando-se de cânticos a uma voz, para grandes massas populares, os cânticos não descem para um registo muito grave nem atingem um registo demasiado agudo. O seu âmbito não ultrapassa em muito a 8ª Dó-Dó, atingindo por vezes o Mi e excepcionalmente o Fá. Há contornos melódicos que se repetem; as frases são geralmente curtas, de acordo com a estrutura simples da poesia popular, em redondilha maior ou menor. Além da conjunção melódica, observa-se a predominância do intervalo de terceira, tanto maior como menor, sobre os outros intervalos que, exceptuando os aumentados, os diminutos e os de sétima, também são, por vezes, utilizados.

Fazendo a distinção entre cânticos litúrgicos (para a missa e outros sacramentos e liturgia das horas) e os cânticos devocionais (destinados a formas de oração mais livres), deve referir-se que os repertórios anteriores ao Concílio tinham características acentuadamente populares e devocionais; a partir do Concílio, o repertório ganha um forte pendor litúrgico, inspirado na tradição bíblica e no canto gregoriano sem rejeitar a influência do canto popular (Manuel Luís, Manuel Faria, Manuel Simões, Carlos Silva, António Cartageno, António Azevedo Oliveira, António Ferreira dos Santos).

Na produção musical pós-conciliar para Fátima, há uma predominância de linhas melódicas baseadas em segundas e pequenos saltos, na linha da influência gregoriana, compassos mistos 2/4 e 3/4, de acordo com os textos essencialmente bíblicos. O canto deixou o carácter nacionalista, o complexo de povo “escolhido”, a identificação da igreja com o estado (“não se chame português / quem cristão de fé não for”) para assumir um carácter mais cosmopolita e ecuménico.

Com o Padre Pedro Ferreira, OCD, a director do Secretariado Nacional de Liturgia, com o trabalho de Augusto Frade e António Cartageno, as edições do SNL prestam um importante serviço à música litúrgica em Portugal, com Cânticos para a Liturgia das Horas, para a Eucaristia, Salmos Responsoriais, Guiões do ENPL, Cânticos Instrumentados para Banda, Cânticos para crianças, colectâneas de autor (Carlos Silva e Ferreira dos Santos). Fátima tornou-se também o centro das edições musicais eclesiásticas e a “biblioteca” onde mais facilmente se podem adquirir, assumindo um papel que fora, de algum modo, desempenhado pela Tipografia Editorial Franciscana, em Braga, até aos anos 70.

No que se refere a registos de Fátima, o Padre João Caniço, SJ, preparou em Lisboa, em 1981, a gravação de uma cassete para as Missões da Consolata, intitulada “Cânticos de Fátima”, que teve várias edições. Em 1995, foi gravado um CD intitulado “Fátima. Cânticos. Lieder. Songs”, pelo Coro do Carmo de Beja sob a direcção de António Cartageno e Jaime Branco ao órgão, pela etiqueta Weto (Alemanha). O registo inclui “A treze de Maio”, “Senhora nossa, Senhora minha”, “Senhora, um dia descestes”, “Bendizemos o teu nome”, Sobre os braços da azinheira”, Senhora, nós vos louvamos”, “O Santíssima”, “Adeus de Fátima”.

A 12 de Outubro de 2004, foi apresentado à comunicação social o CD “Cânticos Marianos do Santuário de Fátima”, o primeiro editado pelo Santuário. Num projecto que teve a colaboração de Ismael Hernandez e Nicolas Roger, a edição contou com as vozes do Coro do Santuário, sob a direcção do Padre Artur de Oliveira, director do Coro e do Serviço de Música do Santuário. O registo inclui 14 cânticos emblemáticos de Fátima, os anteriormente referidos e “Avé Maria”, “Hino dos Pastorinhos”, “Ave, o Theotokos”, “Mater Ecclesiae”, “Magnificat”.

III. INSTRUMENTOS E ACTIVIDADE ORGANÍSTICA

Constituído por 62 sinos, dos quais o maior pesa três toneladas e o badalo 90 quilos, fundidos e temperados pelo bracarense José Gonçalves Coutinho, foi benzido em 1948 o carrilhão de Fátima, fruto das ofertas de muitos fiéis de todo o País.

Na linha das orientações universais da Igreja, o Padre António de Oliveira Gregório (n. 1925 – m. 1986), foi ordenado presbítero em 1948 e em 1950 partiu para o Instituto Pontifício de Música Sacra, onde concluiu a licenciatura em Canto Gregoriano e o Curso de Órgão (1956). Em Pádua, fez um estágio na firma “Fratelli Ruffatti”. Regressado de Roma, foi capelão, organista oficial e responsável pela Música no Santuário entre 1956-1986.

Num contexto de influência italiana, foi construído e montado pela “Famiglia Artigiana Fratelli Ruffatti”, em 1952, um grande órgão de tubos na Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, inaugurado por Filipe Rosa de Carvalho. O Órgão, apresentado na “Voz da Fátima” com grandes elogios às dimensões, qualidade estética e tecnologia, com 152 registos, cerca de 12000 tubos (o maior com onze metros e o menor com nove milímetros), ficou aquém do que se esperava em termos de rendimento. Numa basílica com demasiada reverberação, o órgão dispôs de três consolas distintas: a original, na tribuna, outra no recinto e outra no altar em que se encontra o sepulcro de Jacinta Marto.

Pela descoordenação causada, com a construção dos órgãos do Recinto e da Capelinha, acabou por ficar apenas a consola do coro alto, com cinco teclados e pedaleira. No mesmo espaço, em 1962, juntaram-se ao grande órgão e recitativo três corpos do grande órgão (positivo, eco e solo) que se encontravam no altar-mor, por detrás do trono do Santíssimo. Foram construídos novos tubos, a mecânica foi remodelada, a fachada tornou-se um belíssimo elemento decorativo, mas em 5 décadas o órgão apresentou muitos problemas que se prendem com o sistema electro-pneumático de transmissão, a pouca qualidade de certos materiais e a própria falta de manutenção.

Em 1985/1986, mais dois órgãos Ruffatti foram colocados, um na galeria fechada do Recinto e outro na Capela das Aparições. A capacidade sonora, as condições atmosféricas adversas (com acentuadas amplitudes térmicas) e o sistema de transmissão, electro-pneumático como o da Basílica, acabaram por ditar o fim dos órgãos ligados à presença do Padre António de Oliveira Gregório. Ismael Hernandez, organista sub-titular desde Abril de 1991, frequentou algumas Semanas Gregorianas, onde teve como professor de Direcção Coral Gregoriana Jos Lennards. Concluíu os Cursos Gerais de Canto Gregoriano e de Órgão no Centro de Estudos Gregorianos (actual Instituto Gregoriano de Lisboa), tendo tido como professores Júlia d’Almendra e Antoine Sibertin-Blanc e Joaquim Oliveira Bragança (Liturgia).

A aquisição de novos órgãos, já no séc. XXI, está associada a Nicolas Roger, organista francês nascido em Paris em 1952. No Consevatório de Paris, concluíu os estudos de Harmonia e Contraponto com os professores J. Lequien e P. Lantier e obteve o 1° Prémio de Estudos Superiores de Órgão no Conservatório Nacional de Angers sob a orientação do Professor André Isoir. Em França, foi titular do Órgão da Igreja Saint Martin – Saint Laurent e professor de Órgão no Conservatório Nacional de Orsay. Casado com uma portuguesa, Nicolas Roger instalou-se entre nós em 1997. Iniciou as funções de organista titular do Santuário a 1 de Fevereiro de 1998, começando em 1999 a dar aulas no Curso de Órgão do Santuário. Trabalhou no projecto dos novos órgãos, continuando a actividade concertística em Portugal e outros países da Europa.

Em 2001, o Boletim Informativo do Santuário tornava pública a decisão de substituir os órgãos do Recinto e da Capelinha das Aparições. Para a construção do órgão da Capela das Aparições foi escolhido o projecto Gerhard Grenzing, de Barcelona. O órgão foi concebido para o acompanhamento litúrgico, embora possa executar peças sacras no âmbito celebrativo. Limitado pelo espaço disponível, possui 12 registos, com dois manuais e pedaleira.

O órgão do Recinto, de Yves Koenig (Estrasburgo), totalmente mecânico, dispõe de 20 registos, repartidos por dois manuais e pedaleira. Foi concebido em primeiro lugar para as celebrações dominicais com acompanhamento de coro, desde a Páscoa à Festa de Todos os Santos e às peregrinações aniversárias, mas também para a classe de órgão da Escola de Música do Santuário. O órgão pode executar também muito repertório organístico. A sala do coro foi ampliada e melhorada em termos acústicos e técnicos, tendo capacidade para cem cantores.

Em 2003, chegou, além de um órgão para estudo de dois registos, um órgão de 13 registos para o coro da Basílica, junto à capela-mor, também do organeiro Gerhard Grenzing. Os concertos dominicais promovidos pelo Serviço de Música Sacra e realizados pelo organista titular e duas audições anuais públicas pelos alunos da Escola de Órgão de Tubos do Santuário de Fátima assumem cada vez mais um papel importante no diálogo do Santuário com a cultura, na fidelidade ao Magistério da Igreja, para além dos valores espirituais que promovem.

Sintomático do interesse que a Reitoria do Santuário reconhece à música e ao órgão de tubos foi o Congresso “O Órgão e a Liturgia Hoje” (20-22 de Novembro de 2003). Este Congresso nasceu de interrogações práticas, acústicas e económicas suscitadas pela perspectiva do órgão a construir na futura Igreja da Santíssima Trindade com capacidade para 9000 pessoas sentadas e na perspectiva de substituição do grande órgão da Basílica. A Comissão científica era constituída por João Peixoto Luís Silva, liturgistas, José González Uriol, organista, e Ruy Vieira Néry, musicólogo, sob a presidência de António Ferreira dos Santos.

O Congresso, que passou despercebido à Comunicação Social, contabilizou, incluindo conferencistas, convidados e participantes, 145 pessoas (organeiros, organólogos, musicólogos, directores de coro, organistas, compositores, liturgistas, professores). Entre os conferencistas, contam-se reconhecidos especialistas nacionais como Rui Vieira Nery (n. 1957) e José Maria Pedrosa Cardoso (n. 1942) e, no plano internacional, Franz Joseph Stoiber (n. 1959), Valentino Miserachs Grau (n. 1943), Johann Trummer, Fréderic Blanc, Felice Rainoldi (n. 1935), Klemens Schnorr (n. 1949), Sérgio Dias (n. 1960), David Eben (n. 1965), Andrzej Chorosinsky (n. 1949), Gerhard Grenzing. Em concerto, participaram o Coro da Sé Catedral do Porto e António Esteireiro, (dirigidos por Eugénio Amorim), João Vaz e Rui Paiva (n. 1961) aos órgãos de Mafra, Grupo Vocal Ançã-ble, dirigido pelo Padre Pedro Miranda, Coro Gregoriano de Lisboa, dirigido por Maria Helena Pires de Matos, Coro de Santa Maria de Belém, dir. Fernando Pinto e Coro Gulbenkian, dirigido por Fernando Eldoro.

V. CURSOS E ENCONTROS

Acessos rápidos desde o Alto Minho como desde o Algarve, aliados às boas condições logísticas, tornaram Fátima ainda mais central. A diversidade de encontros realizados conferem ao Santuário de Fátima maior importância musical litúrgica e, ao mesmo tempo, uma responsabilidade acrescida.

A partir de 1975, o Encontro Nacional de Pastoral Litúrgica deu formação pastoral litúrgica e musical, promoveu a musicalização de textos da Liturgia das Horas e da celebração eucarística. Embora não seja especificamente musical, pela prática litúrgica em que a música tem um lugar destacado, o Encontro Nacional de Pastoral Litúrgica desempenha um papel relevante na educação litúrgico-musical das assembleias cristãs de Portugal. De 87 participantes, dos quais 53 eram padres, em 1975, até 1540, dos quais 1202 leigos, em 2004, o ENPL regista já o número de 29510 presenças de padres, consagrados e leigos empenhados na Pastoral Litúrgico-musical das comunidades cristãs, de norte a sul do País.

Pela prática musical que os acompanha, os cursos de animadores vocacionais, encontros de religiosos, peregrinações de movimentos e associações católicos, jornadas catequéticas, festivais da canção juvenil, “semanas” diversas (missionárias, bíblicas, de pastoral social) contribuem para a troca de experiências musicais e litúrgicas. A música (cânticos, acompanhamento de órgão, concertos corais e organísticos) é ouvida por grande número de pessoas que vão assimilando certo estilo de canto.

Sedeado em Fátima, o Serviço Nacional de Música Sacra, organismo que se insere no Secretariado Nacional de Liturgia, é presidido pelo Cónego António Ferreira dos Santos. Tem como objectivos o fomento da música sacra e litúrgica nas dioceses e comunidades cristãs em geral, a formação litúrgico-musical e a publicação de música.

O Curso de Música Litúrgica (1991-1994, 1995-1998, 2003-2006) tem desempenhado um papel importante na formação de organistas e directores de coro litúrgicos, sendo a aquisição de novos e melhores órgãos benéfica também nesse sentido. Frequentaram o curso António Esteireiro, Emanuel Pacheco e Filipe Veríssimo, Fernando Pinto, entre outros. Para alguns alunos, este contacto foi o estímulo a frequentarem o ensino superior nesta área.

Na fase de arranque, o Curso teve o importante contributo dos alemães Otmar Faulstich, Hubert Velten e Franz Joseph Stoiber. Entre os formadores portugueses, contam-se António Cartageno, António Azevedo Oliveira, Fernando Valente, António Mário Costa, Eugénio Amorim, Paulo Alvim, José Paulo Antunes, Emanuel Pacheco, Filipe Veríssimo e António Esteireiro.

Em Fátima, são recebidos coros oriundos de diversos países e regiões, com interpretações de música sacra na Basílica ou animação de eucaristias. Com apoio do Santuário e organização do SNMS, a I Jornada Nacional de Grupos Corais Litúrgicos (1990), o I Encontro Nacional de Pequenos Cantores (1992), o Jubileu dos Músicos (2000), o Encontro de Compositores de Música Litúrgica (2005) representam trabalho prévio com coros e músicos, mas também questões e novos desafios a aprofundar nas dioceses.

CONCLUSÃO

Se Júlia d’Almendra terá sido a primeira pessoa a aperceber-se, de forma consequente, da centralidade que Fátima podia ocupar em termos de Música na Igreja, os bispos, reitores, superiores religiosos e músicos foram criando e descobrindo condições para o encontro com a música litúrgica, a que não é alheia a centralidade geográfica, religiosa e social do Santuário.

Entre os reitores, Monsenhor Luciano Guerra (1973-) fica especialmente ligado à evolução da Música no Santuário, contribuindo com a sua parte na evolução da Música litúrgica ao longo de mais três décadas. Actualmente, a Secção de Música Sacra, enquadrada no Serviço de Pastoral Litúrgica, tem 5 sectores: Pessoas (responsável, organistas, coros, solistas), Programação (selecção e programação diária), Publicações (para uso interno e uso público), Acolhimento (música ambiente, concertos), Formação (Música, Órgão Litúrgico).

Superando opções nefastas em termos de património organístico, os desafios são grandes para o século XXI no sentido de melhorar a qualidade da execução litúrgica, a oferta de concertos espirituais, promoção da grande música sacra, diálogo com a música contemporânea.

Para o programa dos 90 anos das Aparições, em 2006/2007, foram encomendados um novo “Hino aos pastorinhos”, a Paulo Lameiro, uma oratória à Santíssima Trindade para a inauguração da nova Basílica, ao Cónego António Ferreira dos Santos, e outra sobre as Aparições de Fátima, ao Padre Cartageno. No âmbito de outras manifestações culturais, foi igualmente previsto um Festival da Canção sobre os Pastorinhos e um bailado.

Sendo a música praticada na Igreja um importante meio de formação/deformação, espera-se que Fátima assuma cada vez melhor um serviço de qualidade musical, sem substituir as dioceses, mas estimulando o seu desenvolvimento.

FONTES

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Versão longa de artigo publicado na Enciclopédia de Fátima. Lisboa: Principia 2007.

António José Ferreira

Grande órgão da Basílica de Fátima (antigo)

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