MÚSICA E SÍNDROME DE DOWN

por Anahi Ravagnani

Excerto adaptado de A Educação Musical de Crianças com Síndrome de Down em um contexto de interação social, de Anahi Ravagnani, dissertação de mestrado. Curitiba 2009.

Em relação ao ambiente, é entendido por Ilza Joly não somente como espaço físico, mas o lugar onde convivem indivíduos diferentes e, por Lev Vigotski, como espaço onde ocorrem as interações sociais entre os indivíduos que o constituem.

No que diz respeito ao espaço físico, o ambiente da sala, arejado, limpo, bem iluminado e tranquilo, contribui para que as crianças se sintam seguras e confortáveis.

A existência de brinquedos na sala chama a atenção das crianças que, em alguns momentos, se distraem com os mesmos. Para o bom andamento de uma aula de música, sugere-se, portanto, que não existam brinquedos ou objetos que possam distrair.

Para que a criança participe numa aula de música, não é necessário que utilize apenas a linguagem falada como forma de se expressar. Conforme apontou Lev Vigotski, a linguagem não deve ser entendida como um sistema rígido de regras determinadas e, não depende necessariamente do som.

Ainda na visão de J. Russell, uma aula de música difere das demais aulas baseadas na conversação ou na fala. Numa aula de língua estrangeira, por exemplo, a maneira principal do discurso é a explanação e a discussão. A fala e a escrita, neste caso, são os principais canais de comunicação entre o professor e o aluno.

Nas aulas de música, as atividades são geralmente colaborativas, e os conteúdos musicais são realizados por meio de ações como cantar, bater ritmos, gesticular e movimentar-se, por exemplo.

Além disso, as respostas esperadas dos participantes, também são diferentes em um contexto de uma aula de música. Para as crianças com Síndrome de Down, este aspecto do fazer musical torna-se essencial, já que a maioria destas crianças possui dificuldades em comunicar-se verbalmente.

Contudo, as razões desta dificuldade podem ser entendidas também pelas diferenças entre as crianças, tenham elas necessidades especiais ou não. Lembremos que a participação de uma criança numa atividade depende também do seu nível de interesse pela mesma, assim como da personalidade de cada uma delas. Algumas são mais extrovertidas, outras mais reservadas, por exemplo, o que pode ter um impacto direto sobre o desenrolar das aulas.

As crianças utilizam constantemente canais não-verbais no decorrer das atividades, como gestos, olhares e posturas. Uma criança que no início não estabelece contato visual poderá vir a comunicar com todos. Não só pelo olhar, mas, também, por meio do contacto físico solicitado pela música, pela sua postura de atenção na atividade que exige mais concentração, pela alegria demonstrada na forma dos sorrisos que surgem ao longo das aulas e pela interação observada nos demais momentos. A criança que demora a exprimir-se nas atividades poderá vir a sentir prazer com as suas realizações musicais.

A utilização de um “canal musical” como forma de expressão, por meio do ato de cantar, gesticular, movimentar-se e bater os ritmos, vai-se transformando durante toda a experiência. No início de um processo, as crianças imitam os gestos do musicoterapeuta, formas de cantar e tocar. No final, cada criança tem o seu jeito próprio de participar na atividade.

Cada participante tem uma pulsação rítmica própria e constante, um modo de tocar diferente, uma maneira individual de responder ao canto de entrada, assim como uma resposta diferente. O musicoterapeuta conhece e respeita a forma de realização e empenho de cada criança, procurando propiciar um ambiente de interação e confiança mútua entre os participantes.

As atividades musicais oferecem às crianças que não têm uma linguagem verbal fluente uma possibilidade de expressão. Ao possibilitar às crianças a realização das atividades dentro de um ritmo próprio e individual, procura-se a valorização da autoestima de cada uma delas.

No que se refere à interação, constrói-se um relacionamento de confiança e afeto estabelecido entre o musicoterapeuta e o grupo, permitindo que ele se possa aproximar dos participantes e, por meio das atividades musicais possa agir como mediador da aprendizagem musical.

Este aspecto da aprendizagem mediada está de acordo com a concepção de Vigotski, na qual a aprendizagem ocorre num processo mediado pela interação com os outros, que, por sua vez, leva o indivíduo ao desenvolvimento cognitivo.

A mesma opinião é defendida por Mac Donald & Miell. Os autores ressaltam a importância da ação mediada na construção do conhecimento musical. Adicionalmente, os autores relatam que o estabelecimento de uma relação de confiança mútua entre os integrantes de um grupo, neste caso especificamente musical, contribui para que os indivíduos expressem suas próprias ideias, ouçam as ideias dos outros e, juntos, encontrem caminhos possíveis para solucionar um problema.

A importância do “outro social” no desenvolvimento do indivíduo também é ressaltada por Vigotski quando se refere ao contexto de interação social. Um indivíduo mais apto em interação com os demais, melhora e cria possibilidades de desenvolvimento da aprendizagem.

Partindo do pressuposto de que a deficiência é dada por determinadas condições orgânicas e históricas, que não se traduzem em impossibilidades, o musicoterapeuta oferece às crianças as mesmas oportunidades de vivência musical.

Cada criança difere da outra por meio de muitas características diferentes. O que as une, a Síndrome de Down, não as agrupa em um mesmo padrão de comportamento e aprendizagem. Ao invés disso, cada criança é diferente no modo como olha, fala, sente, responde e aprende.

Criança com síndrome de Down tocando