MÚSICA E FILOSOFIA DOS ÁRABES

por João Marques Carrilho

(Na música árabe) o pensamento leva à generalização das formas. (Avicena)

Este texto descreve o período histórico que se inicia com a Hégira e a morte de Maomé, ao que se seguiram as conquistas árabes e a sua enorme influência. O contexto é apresentado sobretudo sob o ponto de vista do pensamento musical e filosófico. Algumas obras fundamentais são apresentadas, como é o caso de Kitabu al-Musiqi al-Kabir, da autoria de al-Fârabi e o Danesh-Nameh de Avicena. Farei ainda um olhar particular sobre o contexto da música árabe em Espanha, primeiro conhecendo grandes desenvolvimentos com Ziryab e mais tarde com Afonso X.

Os Árabes da Era Maometana tiveram um impacto profundo e decisivo na história de numerosas culturas, numa impressionante área geográfica que se estende da Península Ibérica até à Síria, cobrindo a Sicília, o norte de África, Egipto, Pérsia, partes da Ásia Central e ainda a Índia ocidental (hoje Paquistão).

O papel fundamental destes árabes foi sobretudo o de transmissores dos conhecimentos dos antigos para a civilização europeia moderna. Mantiveram uma atitude civilizadora (favorecendo livros, ciência, cultura,…) especialmente se comparados com os cristãos da Idade Média. Pode mesmo afirmar-se que foram os Árabes que civilizaram a Europa, fazendo-o de uma forma bastante mais interessante que a evangelização do tempo das cruzadas ou o colonialismo de tempo posteriores. Penso que deve ser dado a Afonso X de Espanha um papel fundamental em todo este processo.

Os pensadores maometanos eram especialmente avançados em lógica, metafísica, medicina, matemática, astronomia, música e em muitas outras áreas. Foi uma época radiante para esta cultura, produzindo poesia luminosa como a de Omar Khayyán ou Firdousi.

A presença destes árabes e berberes na Península Ibérica do século VIII ao século XV deixou marcas importantes. É uma das razões para o domínio marítimo do mundo pelos Portugueses e Espanhóis do séc. XV ao XVII, na época dos descobrimentos. Os Judeus funcionavam como ponte entre mouros e cristãos (alguns deles foram de grande utilidade enquanto tradutores) e originaram a cultura Sefardita. Tal como os árabes, os judeus foram expulsos nos finais do séc. XV. Um dos filósofos judeus mais interessantes que se encontrava na península ibérica, Maimónides, é por vezes associado ao pensamento de Espinoza.

A influência maometana que se estende até ao séc. XIII e a influência Bizantina até ao séc. XV na Europa foram também fundamentais quer para a Renascença, quer para o Escolasticismo.

FONTES DO CONHECIMENTO ÁRABE

Al-Kindi foi um dos primeiros a escrever sobre o alaúde. Escreveu quatro tratados musicais que contam entre os primeiros exemplos da influência de ideias gregas no pensamento musical do árabes. Al-Kindi foi ainda o primeiro grande filósofo a escrever em árabe e tem mérito na difusão do pensamento grego entre os intelectuais muçulmanos.

Curiosamente, ele traduziu Plotino e atribuiu este escrito a Aristóteles. Isto levou a uma confusão que haveria de durar vários séculos…

Plotino, geralmente considerado um dos fundadores do Neoplatonismo (com Ammonius Saccas), teve também relevância para o cristianismo da Idade Média e a sua teologia (era admirado por Santo Agostinho).

Plotino defendia um mundo formal-abstracto de onde o mundo sensível era construído, tornando-se apenas uma imagem da pura forma. O seu Neoplatonismo expande e clarifica o pensamento do próprio Platão em vários pontos.

São Tomás de Aquino defendia que a existência de Deus poderia ser provada pela razão, sem necessidade de revelação divina, algo que se aproxima bastante das ideias de Plotino.

Numa estranha cadeia de distorções, as concepções originais de Plotino obtiveram tendências pitagóricas, primeiro sob a influência de Malchus (editor, amigo e biógrafo de Plotino). O facto de que Al-Kindi tenha traduzido as Enéiadas de Plotino sob o título A Teologia de Aristóteles, e a confusão que daí resultou, pode ser uma das causas para que filósofos seminais como Al-Fârabi, Avicena ou Averróis tenham tentado uma síntese entre Aristóteles e o Neoplatonismo. Havia também um grande desejo de integrar religião e política, algo que passou sem dúvida para os cristãos da Idade Média e que é visível ainda hoje (tome-se como exemplo a estreita ligação entre religião e política na América do Norte).

Avicena estará mais perto de Aristóteles que quer o seu predecessor Al-Fârabi quer o seu sucessor Averróis. A sua síntese do Neoplatonismo com as ideias de Aristóteles consiste em linhas muito gerais na atribuição de propriedades diferentes aos universais Aristotélicos. Em vez de simplesmente pré-existentes (tal como em Platão), para Avicena eles aparecem antes das coisas, nas coisas em si próprias e ainda posteriormente às coisas.

Tratam-se de concepções abstractas das quais as coisas tomam a sua existência e continuam a existir enquanto propriedades reais das coisas em si, reconhecidas pelos sentidos e intelecto. Como tal, produzem novamente concepções abstractas (que se podem manter mesmo que as coisas em si deixem de existir).

Outras influências fundamentais do pensamento grego dizem respeito à lógica, à metafísica e à teoria musical.

Al-Fârabi insistia na divisão aristotélica: ideia/prova. Averróis menciona a divisão aristotélica em três tipos de pensamento: demonstrativo/dialéctico/retórico.

Os Nestorianos, que valorizavam muito Aristóteles pela sua lógica, funcionaram como ponte entre o conhecimento grego e os próprios árabes. Veremos que os interesses dos músicos e teóricos árabes não estavam particularmente ligados à Harmonia das Esferas, apesar da influência massiva do pensamento musical grego.

Mas note-se que os árabes adquiriram também o conhecimento indiano de matemática e astronomia. Os números árabes deveriam na verdade ser chamados números indianos, tendo em conta a sua origem. Todas estas influências tiveram frutos numerosos. Por exemplo, existe um livro árabe sobre álgebra que foi usado em universidades europeias pelo menos até ao séc. XVII.

As descobertas do grego Hipócrates (digo isto apesar de não haver absoluta certeza de que seja Hipócrates o verdadeiro autor dessas obras), foram transmitidas e desenvolvidas através de Galeno para o mundo árabe e particularmente para Avicena, que seria mesmo mais famoso pela sua medicina que pela sua filosofia. O conhecimento médico dos árabes foi a base do conhecimento europeu dos séc XII ao XVII e teve ainda grande importância em desenvolvimentos posteriores da medicina.

A maioria dos musicólogos, ao falar dos árabes, discute somente as influências gregas e persas. No entanto devemos notar que existia uma cultura bastante desenvolvida no mundo árabe (que saía prioritariamente das tradições babilónica e assíria) pouco tempo antes do apogeu grego, tal como é documentado por Erastóstenes. Esta cultura Sul-Arábica partilhava também similitudes linguísticas quer com Hebreus quer com Fenícios.

MÚSICA: LINGUAGEM ENTRE O HOMEM E A NATUREZA

Em adição aos escritos de Al-Kindi (datados do séc IX), gostaria ainda de referir o Tratado sobre a influência de melodias nas almas dos animais, da autoria de Al-Haitham.

Crenças em contactos sobrenaturais com animais e natureza teriam certamente existido desde tempos muito remotos. Para uma grande parte de tribos primitivas, tratava-se de uma combinação entre cerimónias religiosas, música, drogas em muitos casos e, sobretudo, da inversão das regras sociais no dia sagrado. Um dos resultados seria uma estreita ligação e diálogo com a natureza (deuses das árvores e da floresta, espíritos de animais, espíritos dos mortos, etc…)

A superstição estaria já bastante presente na cultura árabe, acrescentando-se à já referida tendência pitagórica diversas crenças místicas persas. À música eram atribuídos poderes mágicos e curativos.

Apesar de desaparecido, o referido tratado de Al-Haitham deveria possivelmente referir-se a crenças tais como que a música poderia influenciar o passo dos camelos (apesar da obstinação destes animais!). Poderia ainda ser usada para persuadir cavalos a beber, para enganar répteis e influenciar as acções de pássaros. No mundo humano acreditava-se que pudesse ser a cura para a insónia.

Al-Kindi e Al-Haitham não devem ser considerados pensadores menores. Ambos foram importantes em filosofia, ciência em geral e óptica em particular (especialmente Al-Haitham).

Deram contribuições notáveis para o pensamento do futuro Roger Bacon e Johannes Kepler. Não se deve menosprezar o papel das lentes no renascimento e épocas posteriores, não somente em astronomia mas também em pintura.

Durante o renascimento, Leonardo Da Vinci estudou o efeito da luz na pintura. Escreveu também diversas fábulas. A tradição da fábula viaja do grego Esopo e do indiano Vishnu Sarma (Panchatantra) através dos árabes, por exemplo Nasreddin pela Idade Média, onde o género ganhou considerável relevância até atingir La Fontaine no séc XVII.

Novamente em música, começando numa recolha de Afonso X, denominada Bestiário, canções de animais, datando do séc XIII, poderíamos saltar para o Contrappunto bestiale alla mente (Banchieri) e algumas vilanelas e moresches de Orlando di Lasso, música que por vezes contém texto obsceno e mimetizações do mundo animal.

Em toda esta tradição não encontramos somente os animais habituais: existem referências a animais alegóricos, bestas mágicas, dragões….

Outros compositores nos quais encontramos tais referências incluem Jacopo da Bologna, Juan del Encina e Landini.

São Francisco de Assis, que foi contemporâneo de Averróis durante um curto período, desejava evangelizar os pássaros tal como se observa com grande humor no filme Uccellacci e Uccellini de Pier Paolo Pasolini.

Já na música contemporânea, Luigi Nono toma a peça de Banchieri como inspiração e escreve o seu próprio Contrapunto dialettico alla mente, enquanto que Olivier Messiaen tenta uma estratégia moderna para trazer os pássaros de volta ao cristianismo em Catalogue d’Oiseaux e honra São Francisco com uma ópera. O mesmo Messiaen chega ainda a escrever o Traité de Rythme, de Couleur et d’Ornithologie em sete longos volumes.

KITABU AL-MUSIQI AL-KABIR (AL-FÂRABI)
E O DANESH-NAMESH (AVICENA)

Avicena e Al-Fârabi viveram e exerceram as suas actividades na Pérsia, uma das grandes áreas de cultura do império muçulmano. Avicena nasceu em Bukhara (moderno Uzbequistão), uma cidade deslumbrante que data provavelmente de há mais de 2500 anos.

Averróis nasceu no outro extremo do império (Córdoba), que era também um centro de cultura fundamental, uma vez que alguns membros da casa dos poderosos Umayyads (Umíadas) teriam escapado para aí fugidos da Pérsia onde perderam o poder para os seus rivais Abbasids (Abássidas).

Como referi anteriormente, Plotino teve uma importância enorme no pensamento árabe, especialmente porque desenvolveu uma teoria extremamente sistemática.

Foi tal inspiração que permitiu aos árabes unificar tradições musicais das áreas mais diversas do seu império. Não deve ter sido tarefa fácil, mas parecem ter atingido um sistema consistente e uma terminologia prática integrando tradições heterogéneas dos países mediterrâneos até ao Mar Negro e mesmo até à Índia. Para dar somente um exemplo, o maqãm é quase perfeitamente equivalente ao raga indiano.

Avicena e outros desenvolveram igualmente um interessante sistema de microtons, os quais, tal como os srutis indianos, teriam uma função estrutural (classificativa) e não a função de criação de escalas (tal como se divulga usualmente). A formação das escalas era baseada sobretudo nas ideias gregas de formação por hexacordes.

Durante a Renascença, Nicola Vicentino usaria também microtons, tal como é descrito no seu interessante livro Ancient Music adapted to modern practice, no título da versão inglesa, no qual ele adapta (tal como os Árabes anteriores) o genera grego, cromático e enarmónico.

Zarlino cita Avicena no seu perypatetici philosophi e reconhece a sua importância no Institutione Harmoniche.

Um alaúde autêntico teria trastes móveis, o que permitia diferentes tipos de afinações e ratios interválicos. Este instrumento pode ser considerado como um exemplo particularmente revelador da teoria musical árabe.

No séc XVI, John Dowland compôs um grande número de peças para este instrumento. Teve também enorme relevância para diversos compositores anteriores a ele, tal como na música dos trovadores. A sua importância foi enorme na Itália, França e Alemanha. Tome-se como exemplo o Fronimo Dialogo de Vicentino Galilei (um livro instrutivo que se focaliza na prática das composição e notação de música para o alaúde).

Al-Fârabi segue-se a Al-Kindi como um dos teóricos da maior relevo. Uma vez que parte dos princípios expostos no al-Musiqi al-Kabîr são também desenvolvidos nos escritos de Avicena, pretendo agora focar-me neste último autor.

O Danesh-Namesh (livro de ciência) é certamente um dos escritos principais de Avicena. Cobrindo uma quantidade considerável de assuntos, o autor foca-se sobretudo em lógica, metafísica, ciência natural, geometria, aritmética e música.

Farei comentários ao que concerne a música, mas não se deve esquecer que o capítulo sobre lógica foi especialmente importante, sobretudo na sua ligação a Aristóteles.

Para Avicena, a música é a arte da melodia e do ritmo.

Os instrumentos de percussão gozavam já de uma tradição considerável, quer em música árabe quer em música indiana.

Avicena mostra-nos um avançado conhecimento de acústica dos instrumentos musicais do seu tempo. Note-se que esta tradição de escrever sobre acústica aparece na Europa somente alguns séculos mais tarde.

No Danesh-Namesh, Avicena descreve o controlo da frequência em instrumentos diferentes. Para diminuir a frequência, o leitor é aconselhado a usar cordas mais longas (instrumentos de corda), a usar maiores orifícios para a saída do ar (instrumentos de sopro) e a usar materiais menos duros (instrumentos de percussão).

Vários instrumentos são descritos, como o nay, rebâb, chahroud, tambour, salbaq,…

Os vários instrumentos são classificados entre aqueles que possuem um mecanismo individual para cada nota e aqueles que utilizam o mesmo mecanismo (utilizando diferentes posições de dedos para produzir notas diferentes, por exemplo).

O maior intervalo admissível por Avicena é de duas oitavas, considerado por ele um intervalo perfeito. Todas as melodias devem estar contidas dentro deste intervalo.

O importante alaúde teria um máximo de uma oitava e uma quinta, que embora curto relativamente à teoria seria ainda ideal se atendermos à prática.

Deve aliás notar-se que a teoria e a prática nunca foram uma e a mesma coisa, qualquer que seja o período da história da música considerado.

Avicena mostra-se ao corrente do pensamentos sobre proporções desenvolvido pelos pitagóricos. Define então consonante certo intervalo como um que causará prazer à alma e será perfeito pela simplicidade dos números envolvidos na proporção.

Aponta para a impossibilidade de um ouvido humano distinguir entre um intervalo cuja proporção é 13/243 e um de 1/16 para concluir que as proporções utilizadas em música não devem ser demasiado pequenas (pois o ouvido não distinguiria as duas notas), mas não devem igualmente ser demasiado grandes, uma vez que isso aumenta a dificuldade de compor melodias. Um intervalo especialmente importante seria o tanîni, que Avicena apresenta primeiro como a diferença entre a quinta e quarta perfeitas (3/2 / 4/3 = 9/8).

Trata-se da segunda maior pitagórica.

Baseando-se neste conhecimento de proporções, Avicena apresenta uma classificação sistemática de intervalos e mesmo uma teoria sobre consonância. A sua concepção era, naturalmente, diferente da concepção ocidental. Ele distingue entre consonância real, consonância por transposição de oitava e ainda um terceiro tipo de consonância. Considero esta última forma de consonância particularmente interessante pois parece algo semelhante aos grupettos ocidentais, compostos no entanto de intervalos que apenas foram permitidos na Europa durante o Renascimento. A simultaneidade de oitavas, quintas e quartas seria comum, mas esta técnica parece ter permitido consonâncias bem mais estranhas.

Os árabes não eram claramente uma cópia dos gregos. Avicena não estava de acordo com a comparação entre proporções em música e proporções entre planetas ou estrelas, recusando assim toda a ligação ao misticismo da música das esferas. Para ele tratava-se de uma atitude ingénua.

A teoria musical árabe é apresentada por Avicena como sendo baseada em diferentes tipos de quartas. Isto torna o alaúde um exemplo perfeito da aplicação da teoria musical, visto que era assim que o instrumento era afinado. Paralelamente à filosofia, o termo genera (tal como o usou Aristóteles) foi utilizado para designar os diferentes intervalos de quarta possíveis. De este genera sairiam espécies. Estas tratavam-se de diferentes configurações de intervalos mais pequenos que quando adicionadas formariam uma certa quarta (genera).

Para a classificação dos genera, Avicena utiliza uma formulação matemática: Ou 1 dos 3 intervalos que o constituem é maior que a soma do outros dois ou não. No segundo caso os genera serão cromáticos, no primeiro é denominado fort (na tradução francesa da obra de Avicena, Unesco).

Para a composição de melodias, devemos tomar uma divisão perfeita ou imperfeita da oitava. Qualquer das duas deve englobar um conjunto de 14 intervalos.

A divisão denomina-se imperfeita se existe um tom tanîni entre a oitava inferior e superior.

Uma melodia em si pode proceder por salto, nota adjacente ou repetição. Qualquer destas evoluções deve estar contida no mesmo ritmo.

Todo o ritmo nasce da metricidade da poesia.

Já mencionei anteriormente a importância de Omar Khayyán, no entanto a ligação profunda entre a música e a poesia provém certamente de tempos ainda mais antigos.

Todos os exemplos referentes a ritmo no livro de Avicena são apresentados com palavras.

O ritmo é descrito como as percussões interiores a um batimento primário.
A principal classificação separa ritmos conjuntos de disjuntos.

Nos hazag (conjuntos) ouviremos séries ininterruptas de batimentos iguais sem qualquer acentuação nem nenhuma outra forma de agrupamento enquanto que os disjuntos tratam-se realmente de ciclos separados. Deve observar-se que as acentuações eram geralmente dadas por variação de timbre e não de força (tal como na música indiana).

Um ritmo poderia evoluir por aumentação (adicionando valor temporal), redução ou mantendo o tempo e fazendo variar o número de notas.

Averróis prossegue ainda em subclassificações rítmicas: leve, leve-pesado, pesado-leve, pesado.

No que concerne a ornamentação, referi já o tamzîg, uma mistura que se liga a noções de consonância. Consistiria provavelmente em rápidos movimentos: ascendentes, descendentes ou de tons bipartidos. A bipartição mais nobre, segundo Avicena, consistiria em tomar uma nota aguda como principal e executar algo semelhante a um trilo nas notas mais graves. Outros ornamentos incluiam o tar’îd (trilo) em que somos claramente aconselhados a utilizar o que se habitualmente denomina de microtons. No entanto estas inflexões deveriam dar sempre a sensação de continuidade e nunca de corte.

Os árabes não estavam portanto a pensar somente numa linha discreta de nota/ritmo (paradigma da civilização ocidental durante séculos), mas interessavam-se também em inflexões tímbricas não só como ornamento mas igualmente como forma de acentuação, como já referi anteriormente.
Finalmente, é-nos apresentado igualmente o tarkîb (sobreposição de notas) e o ib dâl, um engenhoso método de permutações com vista à variação de um grupo específico de notas.

ZIRYAB E AFONSO X

Ziryab (Séc. IX) foi um músico da maior importância que teve também influência na criação de uma escola. Tal como os membros da dinastia Umíada, também ele veio para Espanha vindo das áreas mais orientais do império.

Averróis (Ibn Rushid) é mencionado por Dante Alighieri e é certo que Tomás de Aquino estaria ao corrente do seu pensamento. Apesar da sua importância fundamental em filosofia, medicina e tantas outras áreas, penso que pode dizer-se que o seu impacto na música não terá sido tão grande como, por exemplo, o Kitabu al-Adwãr, escrito em Bagdad por Safiyu d-Din. O maior desenvolvimento da música em Espanha terá sido a compilação das Cantigas de Santa Maria por Afonso X, música que combina influências de três culturas. Na sua corte tinha músicos árabes, judeus e muçulmanos. A sua acção foi determinante para passar do latim ao castelhano como a linguagem usual de livros.

Afonso X foi aliás uma excepção aos reis usuais. Promoveu trocas de conhecimento e cultura, transição da cultura árabe à ocidental.

João Marques Carrilho
Haia, Holanda, 2006

Avicena