Margarida Lisboa

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Margarida Lisboa

Produção . Rádio

Filha do engenheiro agrónomo e cantor lírico (barítono) José Eurico Corrêa Lisboa (por sua vez, filho do médico oftalmologista Eurico Fernandes Lisboa e de sua mulher Elisa Adelaide Telles de Macedo Corrêa) e da violoncelista e docente Maria Isaura Bello de Carvalho Pavia de Magalhães (por sua vez, filha do violinista e maestro Eduardo Henriques Pavia de Magalhães e da pianista Branca Baptista Bello de Carvalho), Margarida Maria de Magalhães Lisboa nasceu na freguesia de São José, em Lisboa, a 21 de Novembro de 1942.

Na casa da família, não era raro haver saraus musicais em que aos pais se juntava a avó materna e, às vezes, a cantora (soprano) Maria Teresa de Almeida. Esse contacto directo, informal e prazenteiro com a música erudita, desde tenta idade, foi determinante para o surgimento da sua paixão pela arte dos sons e do desejo de se formar nessa área, sem descurar, no entanto, outros conhecimentos, artes e saberes.

Paralelamente aos estudos de música no Conservatório de Lisboa (onde a mãe leccionava), Margarida tinha aulas, em casa, das disciplinas curriculares do ensino liceal, apenas se deslocando ao liceu para a realização dos exames.

A sua primeira experiência radiofónica aconteceu aos 13 anos de idade, em 1956, na Emissora Nacional, a convite do tio Eurico Lisboa (Filho), desempenhando um pequeno papel na peça “As Rãs”, de Aristófanes.

Em 1964, para fugir ao sufoco salazarista, Margarida rumou a Paris para trabalhar em ficheiros, numa aldeia de crianças, da Action Enfance. Nos tempos livres, teve oportunidade de cultivar, de modo mais amplo e abrangente, o seu gosto pela música e também por outras artes, designadamente o teatro, sobretudo enquanto ouvinte dos canais de rádio France Culture e France Musique. Marcante foi também a sua vivência dos acontecimentos do Maio de 68, entre os quais se contou uma inolvidável prelecção dada na Sorbonne pelo filósofo existencialista Jean-Paul Sartre.

Na entrevista que, em 1995, concedeu a Luís Garlito para o programa “A Minha Amiga Rádio” [Antena 1, 6 Nov. 1995 / rep. Antena 2, 7 Jan. 2020 >> RTP-Play], Margarida Lisboa afirma que ingressou na estação pública em 1974, para frequentar um curso de musicografia, ficando a exercer esse trabalho até 1978, tendo, após um período em que esteve fora da RDP, sido readmitida em 1981, para começar a desempenhar as funções de assistente de realização.

A memória presumivelmente mais antiga que o escrevente destas linhas tem de rubricas/programas com a sua assinatura remonta a finais dos anos 80, quando nas manhãs da Antena 2, dentro do programa Opus 8-11, ficava de ouvido colado à telefonia a ouvir, lida pela locutora Ida Maria, A Pequena Crónica d’Anna Magdalena Bach, da autoria da inglesa Esther Meynell, em versão portuguesa da própria Margarida Lisboa, a partir da tradução francesa de Edmond Buchet e Marguerite Buchet, bem como a peça musical de Johann Sebastian Bach que seguidamente era transmitida.

Foi o início da nossa inexcedível admiração e incondicional reverência pela genial produção do filho mais ilustre de Eisenach. Ainda no programa “Opus 8-11”, que a emérita realizadora manteve diariamente, desde 1 de Maio de 1987 até 31 de Dezembro de 1990, foi também grata a experiência que tivemos com a audição de outras duas narrativas biográficas, em episódios: uma consagrada ao cantor Carlos Gardel e outra ao actor Humphrey Bogart, baseada na autobiografia da actriz Lauren Bacall “By Myself” (1978), na voz de Edite Sombreireiro.

A 2 de Janeiro de 1991 deu-se o arranque d’A Nave do Tempo chamada Sinfonia, que estabelecia contacto com as frequências da Antena 2 de segunda a sexta-feira, excepto feriados, entre as 11:30 e as 13:30. A par da música, escolhida com rigoroso e apurado critério, a nave – tripulada por Margarida Lisboa, nos comandos, e por Edite Sombreireiro, que fazia a comunicação falada com o exterior (coadjuvada, mais tarde, por António Jorge Marques) – dava guarida a diversas rubricas, em episódios semanais, que, ao serem feitas com o recurso a atmosferas sonoras e a actores que encarnavam figuras históricas e davam vida a personagens de ficção, tinham o condão de fidelizar os ouvintes e – o que deve ser assinalado – de atrair outros que não tinham por hábito sintonizar a rádio clássica.

Entre as rubricas que se sucederam a bordo da nave contaram-se as seguintes:

O Principezinho [adaptação do clássico de Antoine de Saint-Éxupéry, com Maria José Pascoal (principezinho), Teresa Sobral (flor), Ana Saragoça (serpente) e Elisa Lisboa (raposa), tendo as memórias do aviador francês sido desfiadas por Antonino Solmer];

Luiza Todi (com Carmen Dolores a discorrer as memórias – redigidas por Margarida Lisboa – da cantora sadina que, no último quartel do século XVIII, teve as principais cortes europeias a seus pés, de Londres a Sampetersburgo, passando por Paris, Turim, Veneza, Viena e Berlim);

As Memórias de Wagner (com Luís Lucas);

As Brumas de Avalon [adaptação da série de livros homónima da norte-americana Marion Zimmer Bradley, com Maria José Pascoal (Morgana), Elisa Lisboa (Viviane), Teresa Sobral (Igraine), Ana Saragoça (Morgause), Antonino Solmer (Gorlois), Fernando José Oliveira (Uther), André Maia (Gwydion ?)];

Visita a Casals [segundo a biografia do violoncelista catalão Pablo Casals escrita por Albert E. Khan, com Amílcar Botica (Pablo) e Maria José (Pilar)];

Visita a Maiorca (segundo o livro “Um Inverno em Maiorca”, de George Sand, com Isabel de Castro – e a música de Chopin interpretada por Arthur Rubinstein);

O Feiticeiro de Oz [adaptação do livro homónimo de L. Frank Baum, com Ana Saragoça (narradora e cão Toto), Marina Albuquerque (Dorothy), André Maia (espantalho), Fernando Vaz do Nascimento (homem de lata), Álvaro Faria (leão) e Amílcar Botica (feiticeiro)];

Conversas com Chaplin (com Fernando José Oliveira dando voz ao genial criador de Charlot);

O Voo de Lindbergh (evocando a primeira travessia aérea do Atlântico Norte, em escalas, empreendida por Charles Lindbergh, em 1927, com ? a dar voz ao aviador norte-americano);

Garbo & Garbo (com Elisa Lisboa personificando a dupla faceta da glamorosa e misteriosa actriz sueca Greta Garbo);

A Pequena Crónica d’ Anna Magdalena Bach (com Eunice Muñoz encarnando a segunda mulher de J.S. Bach);

A Grande Epopeia Marítima [a viagem de Vasco da Gama à Índia contada n’ “Os Lusíadas”, de Luís de Camões, com a participação de um vasto elenco de actores, entre os quais Álvaro Faria (narração), Teresa Sobral, Maria José Pascoal, Antonino Solmer e André Maia];

As Mulheres & A Música (que revelou à quase totalidade dos ouvintes da Antena 2 a obra de muitas mulheres que foram compositoras de mérito, sendo de realçar a maravilhosa e excelsa música de Hildegard von Bingen, abadessa beneditina alemã do séc. XII).

Hildegard von Bingen, acrescente-se, havia sido, em 1988, o tema do programa Uma Sinfonia para Hildegarda, que Margarida Lisboa concebeu com o propósito de entrar no Concurso de Rádio de Brnö (na então Checoslováquia), e lhe valeu o 1.º prémio.

Para desgosto do vasto e fiel auditório, a nave aterrou, para nunca mais levantar voo, a 12 de Março de 1993. Tal aconteceu não por vontade de Margarida Lisboa mas da nova direcção de programas, encabeçada pelo compositor João Paes, que entendeu – mal – que não havia lugar para ela no canal que passava a denominar-se Rádio Cultura.

Ainda assim a realizadora não ficaria a estiolar numa qualquer prateleira, como sói dizer-se na gíria da rádio. Sob a coordenação de José Domingos Moraes, responsável pelos programas de índole literária, Margarida Lisboa teve a oportunidade de assinar outra grande realização: a transposição para a rádio daquele que é, indubitavelmente, o mais singular e impressivo relato de viagens que alguma vez se escreveu em língua portuguesa: a Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, segundo a adaptação que lhe foi dada por Maria Alberta Menéres. O papel do autor/narrador foi entregue a José Mário Branco, que o desempenhou magistralmente, tendo André Maia encarnado o jovem que interpela Fernão Mendes e o leva a contar as aventuras por que passou. Outras personagens foram interpretadas pelos actores Maria José, António Semedo, Paulo Curado, Álvaro Faria, Ana Saragoça, Antonino Solmer, Carlos Santos, Elisa Lisboa, Fernando Vaz do Nascimento, Marina Albuquerque, Cristina Cavalinhos e Alexandra Leite. A selecção da música que pontuou toda a viagem e a longa deambulação do aventureiro nos mares da China e do Japão e as suas incursões pelos reinos de Pegu, do Sião e do Catai, esteve a cargo de Pedro Caldeira Cabral, um dos pioneiros da nova música antiga em Portugal. Esta memorável obra radiofónica esteve no ar desde o início de Janeiro de 1994 até finais de Junho do mesmo ano, em cadência semanal (domingos, às 18:20, com repetição nas quartas-feiras subsequentes, às 11:30).

Posteriormente, as principais realizações radiofónicas de Margarida Lisboa na Antena 2, deram-se sob as direcções de José Manuel Nunes e, sobretudo, de João Pereira Bastos, e foram:

Universos Clandestinos (de Outubro de 1994 a Julho de 1995);

Feira dos Sons (de Outubro de 1994 a Março de 1996);

A Floresta dos Espelhos (de Outubro de 1998 a Julho de 1999);

O Senhor do Anel, ciclo biográfico sobre Richard Wagner (Novembro e Dezembro de 1999); e

Quem? (de Janeiro de 2000 a Janeiro de 2003).

Neste programa, em que se fazia o esboço biográfico de uma personalidade mistério (a identidade só era revelada no final, confirmando ou não o palpite que o ouvinte fizera no decorrer da emissão), Luiza Todi teve amplo destaque ao ser-lhe consagrada, logo no primeiro ano, uma série de oito (?) episódios, com Carmen Dolores a ler um diário, imaginado por Margarida Lisboa a partir de factos comprovadamente históricos, enunciados na biografia da cantora escrita pelo médico e melómano Mário Moreau, integrante da monumental obra em três volumes “Cantores de Ópera Portugueses” (Bertrand, 1981-87), posteriormente desenvolvida e publicada autonomamente, em 2002, com chancela Hugin Editores.

Tal enfoque não é de estranhar, pois desde a aurora da década de 90 que a insigne realizadora de rádio se vinha empenhando na reabilitação da memória da mais ilustre cantora lírica portuguesa, diligenciando para que o país lhe rendesse a devida homenagem nacional, mediante a transladação, para um túmulo digno, dos restos mortais jazentes num antigo anexo da Igreja da Encarnação (à Rua do Alecrim, em Lisboa), depois transformado em loja comercial.

A Margarida Lisboa, que também trabalhou na redacção de sinopses de muitas óperas transmitidas pela Antena 2, se deve a descoberta no arquivo histórico da RDP, em finais da década de 90, da gravação (em boas condições técnicas) que fora feita pela Emissora Nacional, no Teatro Nacional de São Carlos, da histórica récita de “La Traviata”, de Verdi, por Maria Callas e Alfredo Kraus, a 27 de Março de 1958. Registo esse que o director de programas de então, João Pereira Bastos, entendeu – e bem – que merecia ser publicada e nesse sentido providenciou junto da administração da RDP, presidida por José Manuel Nunes, para que a edição em CD se concretizasse, o que aconteceu em 2000.

Ao contrário do que seria razoável e expectável, nem todas as admiráveis realizações com que Margarida Lisboa alimentou e enriqueceu o imaginário dos ouvintes da Antena 2 (e também da Antena 1 e da RDP-Internacional) foram guardadas para fruição da posteridade, o que se lamenta profundamente.

Dado ser de qualidade superior, o material que ainda existe não pode nem deve permanecer mais tempo escondido e a apodrecer nas ‘catacumbas’ da Rádio e Televisão de Portugal. Sem prejuízo da reposição em antena, urge que todo esse precioso acervo seja disponibilizado online. Porque lá onde agora está não serve a quem quer que seja, nem faz justiça à memória da autora, que é credora da gratidão do país pelo relevante contributo que deu para o enriquecimento do património radiofónico português.

Álvaro José Ferreira

Blogue A Nossa Rádio

[ Publicado na Meloteca a 20 de maio de 2020 ]

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