Manuel da Silva Dionísio, maestro natural de Abrantes

Manuel da Silva Dionísio

Direção . Formação

“No âmbito da história da música para sopros em Portugal, podemos considerar Manuel da Silva Dionísio (1912-2000) uma das personalidades mais relevantes e influentes do século XX.”

Maestro, arranjador, promotor, professor e clarinetista, sob a sua direcção a Banda Sinfónica da Guarda Nacional Republicana (BSGNR) atingiu um dos períodos mais áureos, entre 1960 e 1973.

Pertenceu também aos quadros da F.N.A.T./INATEL (1973-1987) e foi durante a sua passagem por este organismo que o mesmo teve a fase mais profícua em termos de apoio à música amadora, particularmente às filarmónicas. Neste organismo elaborou planos de apoio, nomeadamente, ao nível da distribuição de instrumentos e reportório musical, implementou Cursos de Aperfeiçoamento de Regentes Amadores de Bandas Civis, Cursos de Aperfeiçoamento para Jovens Músicos e Cursos Regionais de Directores.

Também incrementou os Encontros Regionais de Regentes com Concertistas Profissionais, fomentou as composições musicais para bandas e coros, implementou os Festivais de Música Popular do INATEL/Festivais de Música e promoveu os Concertos Dominicais no Teatro da Trindade, inicialmente apenas com a participação da BSGNR e posteriormente com outras bandas militares.

Foi ainda responsável pela criação de um Centro de Recuperação de Instrumentos Musicais no seio no INATEL.

Silva Dionísio foi uma figura multifacetada. Além da carreira militar nas bandas do Exército e GNR e do seu percurso no INATEL, colaborou com a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), Orquestra Filarmónica de Lisboa, Orquestra Sinfónica Portuguesa, Orquestra do Instituto de Angola, Departamento de Orquestras da RDP, Fundação Casa de Bragança, Academia dos Amadores de Música, Academia de Música de Luanda, Conselho Português da Música, Comissão Permanente do Dia Mundial da Música, Montepio Filarmónico, Secretaria de Estado da Cultura (SEC), Associação Portuguesa de Educação Musical (APEM), Federação Portuguesa das Colectividades de Cultura e Recreio (FPCCR) e com bandas filarmónicas. É autor de uma vasta obra musical e literária, parte dela consultada, ou interpretada, com frequência.

Silva Dionísio teve um papel ímpar na divulgação e promoção da música portuguesa para sopros, bem como no estímulo à composição de novas obras. Em todos os concertos que dirigia, independentemente do agrupamento, incluía música portuguesa.

Em 1963, em Paris, a Radiotelevisão Francesa gravou e transmitiu um concerto da BSGNR inteiramente preenchido com obras de autores portugueses. No mesmo ano efectuou um concerto de música portuguesa na Holanda. Em 1965, com a BSGNR, deslocou-se ao Brasil para participar no IV Centenário da Fundação da Cidade do Rio de Janeiro.

Nas dezenas de concertos realizadas em diferentes cidades, ao longo de um mês e meio, apresentou quarenta e nove obras de compositores portugueses, trinta e sete de brasileiros e quarenta e seis de outros compositores, o que demonstra uma preocupação em divulgar autores portugueses no estrangeiro.

Em 1969, na Argentina, dirigiu a Banda Sinfónica Municipal de Buenos Aires em dois concertos, a convite do Maestro Mariano Drago, interpretando obras de Álvaro Cassuto, José Avelino Canongia, Luís de Freitas Branco e Ruy Coelho, e em Agosto de 1970 dirigiu, no Rio de Janeiro, a Banda de Música da 1ª Região Militar, num concerto de música luso-brasileira, com a colaboração do Coro Universitário Federal.

Além destas iniciativas, Dionísio promoveu a banda junto dos principais compositores portugueses da época. Deu-a a conhecer, por exemplo, a Álvaro Cassuto e a Joly Braga Santos. O primeiro dedicou-lhe Homenagem ao Povo, uma obra original para banda. A cantata cénica Dom Garcia, de Braga Santos (a primeira de várias obras escritas originalmente para banda) foi igualmente dedicada a Silva Dionísio e à BSGNR, tendo sido estreada em 1971 no Festival de Vilar de Mouros.

A promoção da banda junto dos compositores “eruditos” foi especialmente relevante quando, em meados da década de 1970, a S.E.C., com o objectivo de renovar o reportório das banda, encomendou uma série de obras para banda a compositores portugueses de reconhecido mérito, nomeadamente, Joly Braga Santos, Álvaro Cassuto, Frederico de Freitas, Fernando Lopes Graça, Maria de Lurdes Martins, Álvaro Salazar, Manuel Faria e Cândido Lima.

Como as bandas de música eram agrupamentos desconhecidos para estes compositores, a SEC encarregou Silva Dionísio de lhes dar a conhecer este tipo de agrupamento, mediante sugestões e conselhos técnicos ao nível, por exemplo, do tipo de formação instrumental característico das bandas da época.

Nas suas funções de colaborador e consultor para a música, na SEC, Silva Dionísio procurou também aqui promover a criação de reportório português para banda de música. Assim, com o objectivo de “fomentar o trabalho criador dos compositores, desenvolver o estudo da instrumentação de banda e proporcionar novo reportório original para banda” a SEC, com a colaboração da FPCCR, abriu um concurso anual denominado Concurso de Composição para Bandas Civis e Filarmónicas, cujo júri foi presidido por Silva Dionísio, em representação da SEC.

Foram estabelecidos dois prémios correspondentes a dois tipos de partitura: o Prémio Sousa Morais, para uma partitura com uma duração entre 12 e 18 minutos; e o Prémio Silva Marques, para uma marcha de duração máxima de 5 minutos. As partituras das obras concorrentes deveriam corresponder tecnicamente às possibilidades de execução e de formação da generalidade das bandas portuguesas, e as peças premiadas, bem como as que obtivessem menções honrosas, seriam editadas pela Direcção-geral da Cultura Popular e Espectáculos. As partituras das primeiras seriam distribuídas gratuitamente às bandas filarmónicas e as restantes ficariam disponíveis para cedência às bandas interessadas nessa Direcção-geral, na FPCCR e em todos os estabelecimentos de música.

Também ao longo das várias edições do Curso de Aperfeiçoamento de Regentes Amadores de Bandas Civis, organizados pela F.N.A.T./INATEL e coordenadas pelo próprio Silva Dionísio, os alunos eram estimulados e incentivados a compor em conjunto obras para banda. Existem, pelo menos, cinco marchas compostas pelos alunos desses cursos: INATEL I, INATEL II, INATEL III, INATEL IV e INATEL V.

No âmbito das suas funções na SEC Silva Dionísio fomentou também a criação de um Dia das Filarmónicas, com o objectivo de promover em todos os concelhos possuidores de bandas de música a concentração destas e, nas palavras do próprio, “imprimir a esse dia um carácter festivo que constitua, não só uma oportunidade de confraternização dos músicos amadores, como uma jornada de propaganda do ideal filarmónico”.

Juntamente com Humberto d’Ávila, da FPCCR, fomentou a partir de 1969 a edição anual do Concurso de Aprendizes de Música, destinado aos aprendizes das bandas com idades compreendidas entre 10 e 18 anos. Numa primeira fase um júri itinerante apurou os mais aptos e na fase final, em Lisboa, foram seleccionados os melhores, num júri presidido por Silva Dionísio em representação Direcção-geral da Cultura Popular.

Silva Dionísio também teve um papel valioso na mudança de atitude relativamente ao trabalho de um maestro de banda, isto porque, considerava a má preparação técnica dos regentes e o seu défice de formação musical um dos maiores entraves ao desenvolvimento qualitativo das bandas amadoras. Assim, fez da formação de regentes uma das suas prioridades, tendo sido responsável pela realização dos primeiros cursos de formação, em Portugal, destinados a regentes de bandas civis. Com a duração de três e quatros meses, respectivamente, foram organizados pela FCG em 1962 e 1963.

Silva Dionísio também foi responsável pela organização de vários cursos de regência em diversas localidades, em colaboração com a APEM e, entre Março e Abril de 1980, orientou um curso de Regência de Banda integrado nos XVIII Cursos Internacionais de Música da Costa do Estoril.

Todavia, a actividade mais sólida e bem-sucedida ao nível da formação de regentes de bandas foi aquando da sua passagem pelo Departamento Cultural do INATEL. A partir de 1972 este serviço, liderado por Silva Dionísio, implementou anualmente, com a duração de um mês, cursos de regência de bandas e também de regência de Coros, nos quais participaram centenas de regentes amadores provenientes de todas as regiões nacionais.

Fonte: A Nossa Música, Universidade de Aveiro

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