MANIFESTO XXI

por Jorge Lima Barreto

Situação da ideologia da música portuguesa de hoje – é como abrir o ovo ofegante do sapo, bola translúcida peganhenta institucional, fluido ranhoso conservatório e de escarro neo universitário premiado, a envolver um feto fétido clonado de sapinho star. propaganda mediática sine sapore, projecto anacoico condecorado.

viva a nova música portuguesa viva!!!

No que respeita à Música Portuguesa de Hoje, a inventio, o experimentalismo, as novas concepções tecnosociocomunicativas, i.e., a abertura a futuros horizontes, são preteridos e desviadas por técnicas mercantis espectaculares, subjugadas à ideologia museomórfica, ampliadas no regime de alienação cultural nos mass media, especialmente na TV, com quedas para o abismo perfunctório – sincronicamente há, no entanto, o imune duma maravilhosa criatividade interveniente e construtiva da História da Música Portuguesa (historicamente ilustrada por Carlos Seixas, Viana da Mota, Luís de Freitas Branco, Lopes Graça, Peixinho, Filipe Pires, Emmanuel Nunes, Emanuel Dimas Melo Pimenta, Pinho Vargas, João Pedro Oliveira, e.a.) …

A Nova Música dos compositores, dos compositores-intérpretes e dos intérpretes portugueses é sufragada pelo poder dos musoburocratas e circunscrita aos arranjinhos dos operadores culturais.

Os laboratórios para a investigação electroacústica e cibernética da Música são inexistentes, ou tímidos e privados focos de resistência com pálida imagem económico-financeira, ilustres desconhecidos lá fora e esmolando alvíssaras cá dentro.

O Estado é o maior responsável pela afirmação da Cultura Portuguesa, o garante das suas identidade e independência; porém. a guerra esteticamente autofágica – alternativa entre os partidos políticos os e seus aliados de ocasião, ao ignorar o situacionismo da Música, é culpada da sua decadência; a política cultural, pontificada por um regime intelectual e artisticamente irrelevante, sem saber, bombardeia e censura o livre devir da Arte dos Sons, com efeitos colaterais irreparáveis.

Muitos músicos, talentos da criação interarte e com provas dadas internacionalmente, apenas por estrita sobrevivência individual e/ ou social, funcionalizam a sua actividade profissional ao gosto, na maior parte das vezes fútil, de encenadores, coreógrafos, cineastas ou capatazes do espectáculo; uma aventura alegadamente pósmoderna, limiar que põe em risco a autonomia da Arte.

Os aparelhos ideológicos votam a arte musical ao isolamento; a política do liberalismo, dita “cultural “, elege em sórdidos escrutínios, a galhofa, a bricolagem e a falsa sumptuosidade; a parasitose empresarial e industrial, caucionada pelo Governo, exorciza a criatividade não- rentável.

O projecto terrorista da globalização insinua-se nos médias (rádio, disco, TV ) injectando subprodutos da propaganda audiovisual, reduz a música à sua própria publicidade, esbate-se o brio nacional; o rosário de genuflexões dos operadores culturais portugueses ao que é estrangeiro denuncia a eleição do aparato, desculpada pela gratificação do ego americanizado.

Uma estratégia tentacular consolida-se nos palanques da festa multinacional, no sururu dos lobbies, na aparência do regionalismo e do nacionalismo; obsoleta e alienada das verdadeiras necessidades dos músicos portugueses de hoje (compositores e/ou intérpretes), superintende pequenas prestações musicográficas, rede historicista e tarefeira ampliada em jornais, dicionários & outras publicações.

O rito das músicas planetárias é manipulado por uma teoria tecnocrática com laivos de mixórdia cultural – assim se passa na discoteca, altar da hipnose aeróbica, habitat da alienação, da demissão social e da megalomania do ego transviado. Consequentemente, músicos e operadores culturais com espírito independente, que pretendem prosseguir na invenção tecnológica, na originalidade técnica e na genuinidade estética não encontram apoios económicos e afectivos, necessários à concretização da sua arte.

A cumplicidade de editores, divulgadores e organizadores dependentes dos senhores da banca e dos media, coisifica a arte musical portuguesa – faz-lhe um aceno hipócrita, mas, impõe em grande escala o consumismo compulsivo do pseudoartístico, destila a permanente inovação das músicas do mundo e a proliferação de encontros epifânicos da música portuguesa com as mais variadas tipologias, do salsa à electrónica.o reino da mescla.

A invenção musical é esganada pelos interesses das multinacionais do disco, na rádio e na TV, diluída no miasma da NET, e assombrada por uma obsoleta musicologia de gabinete, que decreta o desaparecimento da identidade da Música Portuguesa, como ousou sonegar os Lusíadas, Eça,. (fomenta uma falsa luta pelo tradicional, para gáudio capitalista no share de audiências; dispensa a preservação da espécie ou recupera-a como uma falácia, degradação cultural epitomisada no espectáculo: arremedos, plágios, regurgitações da Amália, Menano, Marceneiro, Zeca, Paredes.).

Subsidiam-se os observadores da criação musical ad lib – viagens, bolsas, salários chorudos para administradores, mais-valia das vedetas do corriqueiro, de descarada conotação politiqueira, comendas paródicas, e.a., sonegando a criatividade, a necessária interacção artística nacional e internacional.

Os eventos musicais via TV na sua maioria não têm qualquer originalidade, são modelos, pacotes empresariais, ruminações estéticas, olhares retrospectivos, liberalismo licencioso a aparentar o erudito, o jornalismo musical (imprensa, rádio e TV) é na generalidade rebarbativo, traditor, comprometido no seu pequeno mundo de vaidade e interesse súbdito multinacional; a Música Portuguesa de Hoje é nas diversas vertentes mal – protegida, tida como zona demarcada minoritária e sem rentabilidade; impondo-se o mercado estúpido de massa; a musicologia e a praxis estão minadas pela presunção e o pasmo, sobretudo cúmplices dum processo comercialóide.

Como alegadamente vivemos em democracia, o cantor de protesto, promiscuído no estocástico tacho, não encontra razões para resinar – berloque trasladado para a lufa-lufa do biscate nos media, de
preferência com rhythm section do “jazz”.

Os impostos (IRS, IVA, CIA, autárquicos, S.S., i.e. segurança social, a taxa sobre instrumentos, livros, discos, partituras, vídeos, e outras leviandades do fisco) pesam impiedosamente sobre os autores, músicos, cidadãos culturalmente produtivos que vivem o quotidiano – há a ter em máxima consideração as simples questões de alimentação, alojamento, acrescido dos custos nunca remunerados de trabalho criativo (e.g. compor, tocar, ensaiar, escrever, ler, estudar; adquirir hardware para o seu trabalho) – enquanto as vedetas da “estupidez em dó maior” (ápodo atribuído por Jorge Peixinho) e os seus padrinhos ostentam sumarentas contas bancárias, tipo lux-vivenda & chofer & iate & avioneta – pluma sintética de avestruz, surda cabeça enterrada na areia; embargo sem o mínimo conhecimento e /ou audição de música decente; idolatria de religião feiticista / peep show; o kitsch, o socialmente imoral e o artisticamente ignóbil.

A indústria da cultura aventada como um valor de troca capitalista visita as catacumbas do irrisório, no limiar da pornofonia; funcionaliza a música ad extremis, em passarela da moda, telenovela, talk show, ou decoração desportiva; esgar terceiro- mundista ressuma a catinga, faz-se vedeta virtual, mostra a face do senso comum, protege a aparência da criatividade; é papona e paranóica ao vomitar a música aparvalhada.

A ópera, que na sua veracidade era cantada pelo povo, é para o contribuinte um dispendioso mamute que se destina ao yuppie e ao espavento bilheteiro e mecenático da classe média e/ou da pseudo-aristocrática, de consequência eruditona. O conservatório reitera a conserva; a programação clássica espectacular é sectária, nivela o anódino e o genial; o catálogo confunde o simulacro com o ícone.

Comecemos pelo que nos é dado ouvir, em disco e/ou ao vivo: Não querendo fazer uma compilação de questões de rescaldo do final do século anterior, pensamos ser oportuna uma pequena observação sobre o situacionismo da música em Portugal, especialmente referenciando a sua divulgação e o seu regime de criatividade.

O nível dos nossos festivais é no critério estético, deveras coerente tendo em conta a exiguidade de meios financeiros e estratégicos para o levantamento de acontecimentos culturais de tal monta. Concertos episódicos de artistas portugueses e internacionais magnificaram as programações de algumas instituições. Vulgarmente, um discurso estereotipado é extrapolado por alegorias nacional-regionalistas, ou então miscelânea epigonal relativa à lusofonia, o dejá vu etno- promocional desfraldando a bandeira da “música portuguesa”.

Sabemos muito bem que Portugal é a única nação europeia onde a Música não faz parte das disciplinas do ensino primário e secundário. Na escolástica, os tirocinantes são predestinados na generalidade dos casos à servidão na TV e escarrados na música ligeira; em departamentos da musicologia oficial, a criação é produto ideológico, conceito etnomusical espúrio, incumbência de aprendizes, tratado sem consciência estético-cultural, serve quando muito para preparar operadores e críticos nos media, sem grandes perspectivas neste campo praxiológica, histórico e sociomusical.

Em Portugal – na imprensa, na rádio e na TV, fundamentalmente nos espectáculos ao vivo – a divulgação da Música de Arte foi progressivamente massmediatizada e conheceu conspícuos produtores, independentemente da incontornável polémica. Na imprensa há um punhado de críticos; uma bibliografia que é escassa, isolada e sem qualquer apoio á sua tradução tão necessária.

A pedagogia é tepidamente administrada por alguns peripatéticos, mentores classicistas, neomodernistas e in extremis alegados vanguardistas; fulcros da perpetuação do conhecimento paralógico da música; o sentido persistente da educação e preparação de compositores e intérpretes – o Ministério da Cultura, que tem obrigação de apostar neste tópico musical não procede para favorecer o seu progresso, não implementa o curriculum interactivo internacional – pelo contrário dá alento à mais-valia pimba, contra- reforma piscando o olho à populaça e benzendo a corruptela “cultural” nos media.

Ignorando o Mundo da Música, exulta-se a infracultura; barbaridades género touros de morte, cumplicidade com assassinos de massa, TV Shows, sionismo, derrames de grude, mafia, rebarbativa mea culpa colonial, cóboiada, cartoons maometanos, militarismo made in USA, logos piroso e terrorista, tonitruante míssil genocida.

A produção dos músicos portugueses é esteticamente irregular, com abrasonadas edições ao vivo ou em disco, despontou uma nova e generosa geração de compositores/intérpretes a qual sobrevive à míngua da institucionalização político-administrativa da música, nas sombras da mendicância e da incompreensão; o laudatório inter pares distrai a necessidade duma luta contínua pela Arte musical, impedida na sua sociocomunicação, arredada pela mediocracia, enganada por estratégias meritocráticas, censurada pelo convencional e execrada na sua possibilidade de realização prática; sancionada estatalmente pelo alibi da exiguidade de meios financeiros, aventada por um regime cultural perdulário votado ao provinciano e à rememoração festivaleira de santinhos & 25 de Abril; no que respeita ao Jazz, é uma aparência, conjunto de estereotipos, é uma fasquia vistosa da pequena burguesia populista, rosário de clichés a penhorar a “antiga senhora negro-americana”, sem fazer nada de melhor ou actualizador.

Safados musoarcanos, portas fechadas à criatividade musical num tempo inopinado – a acção de compositores, intérpretes e compositores/ intérpretes, (interarte, considerando a privilegiada relação da Música e a poesia portuguesa) – reivindica a Música Portuguesa Viva e o conceito prospectivo como Obra Aberta é um projecto futurista e triunfal.

Em Portugal, a Música está, como no título do filme de Pierre Brasseur, em “situação desesperada mas não grave”.

A Arte Musical está sempre avançada à artimanha política – a sua pluralidade espectacular e imaginária é a superação do senso comum totalitário e globalizante; utopista, realiza na própria beleza a verdadeira democracia; reúne todos os povos no prazer universal; inventa um enlevo dialéctico e sentimental com a tecnologia; dissipa qualquer preconceito racista, nacionalista ou imperialista – sobretudo, MÚSICA é significado de PAZ e AMOR.

Jorge Lima Barreto

Jorge Lima Barreto