Luiz Costa, compositor português natural de Barcelos

Luiz Costa

Compositor

Luiz Costa – Um mestre compositor musical, por João-Heitor Rigaud

A observação da música de Mestre Luiz Costa revela, à partida, uma constante e cuidada atenção aos aspectos de ordem formal, entendidos como base estruturante da entidade circunscrita que é a peça musical. A forma, na concepção manifesta na obra deste autor, é vista como elemento arquitectural indutor de coerência e delimitação, estando, por isso, muito para lá de uma fôrma onde é possível encaixar música ainda que, por seu lado, não dispense a forma. Enquanto a fôrma, como molde que é para a música que vai receber, existe por si mesma, precede a peça musical, e é aplicada sempre que alguém pretende preenchê-la com música, a forma é resultante da composição da peça e é válida só para ela por ter como elemento gerador essencial a proporcionalidade da duração do momento de tensão e da respectiva resolução que, diga-se em abono da verdade, compositores com o gabarito criativo de Luiz Costa, actuando sobre essa proporcionalidade, manipulam a forma de modo a conseguir resultados pessoais e verdadeiramente artísticos, isto é, transformando o texto musical sumária e mais ou menos habilmente redigido em obra de arte.

Em consequência da atenção dispensada a estes aspectos de natureza formal, o compositor vê-se perante a necessidade de continuar na peça seguinte a abordagem iniciada anteriormente e, deste modo, cada peça acaba por resultar da anterior e conter o ponto de partida para a seguinte, o que dá como resultado a situação muito mais vasta que é a obra do autor, isto é, a globalidade coerente e evolutiva de que fazem parte todas as peças que a constituem, pela ordem da sua composição. No caso presente, a obra de Mestre Luiz Costa é paradigmática quanto à coerência e regularidade de um percurso onde se observa, de peça para peça, a incorporação de novos elementos morfológicos e estilísticos que comprovam a mentalidade crítica e o gosto pela busca de conhecimento que caracterizavam o seu autor.

O catálogo começa com um grupo de três peças para piano que apresentam características de identidade pessoal que o decorrer da obra confirmaria, e que se notam com especial clareza na segunda peça, intitulada Canção do berço, uma peça surpreendente de originalidade e ousadia técnica e artística. Anos mais tarde, e ultrapassada uma primeira fase muito costianamente impressionista, a Sonatina para flauta e piano veio confirmar o princípio evolutivo presente na consciência do autor e a sua vontade de aprofundamento técnico, enraizada na crítica da composição tendo como objectivo a total adequação dos meios ao fim em vista: esta Sonatina, sendo um tratado sobre a utilização da apogiatura não resolvida, adquire verdadeira grandeza musical e artística ao poder ser ouvida como peça de arte musical onde as apogiaturas, regularmente presentes desde o primeiro acorde do primeiro andamento até ao último do terceiro andamento, têm um papel tímbrico conjuntural sempre ao serviço do significado estrutural do momento que, pelo doseamento da graduação da dissonância, resulta na riqueza da variedade de apogiaturas utilizadas.

O catálogo inclui ainda peças significativas da opção estilística do autor, como a canção O sobreiro, op. 4, nº 3, uma peça de grande simplicidade onde o despojamento resulta em notória eficácia dramática e musical, a robusta Sonata para piano, onde está acentuado o lado menos contemplativo da maturidade do músico, e a belíssima Fantasia para piano e orquestra, uma peça concertante que, quanto ao carácter, se poderia agrupar ao lado das Variações sinfónicas de César Franck, da 1ª sinfonia de Vincent d’Indy ou das Noites nos jardins de Espanha de Manuel de Falla, e que é, porventura, a melhor síntese do procedimento criativo do seu autor.

Ao chegar ao Porto, uma cidade onde a prática da música e o convívio com a arte eram transversais a toda a sociedade, e o público era crítico, exigente e por vezes barbaramente feroz, Mestre Luiz Costa integrou-se num meio musical maduro e organizado, onde se cultivava a qualidade técnica e artística, a pesquisa de repertório tão alargada quanto possível, a reflexão sobre o conhecimento musical a partir do que de mais recente se ia divulgando, e também se cultivava a consciência da originalidade individual e a prática do objectivo a atingir em grupo. Neste meio, o jovem Mestre foi encorajado a ser serena e responsavelmente ele próprio sem se esquecer de ouvir, e se o meio lhe favoreceu o desenvolvimento, ele mesmo veio a actuar muito construtivamente sobre ele. Deste modo, a obra composta por Mestre Luiz Costa, ao resultar pessoal mas não autocentrada, é um reflexo não servil desse meio de que o autor fez parte.

Encerramento da Mesa Redonda realizada em Barcelos (Monte Fralães), no dia 28 de Agosto de 2008, inserida nos Cursos de Música Luiz Costa.

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