Júlia d’Almendra

Gregoriano

Musicóloga, pedagoga e violinista, Júlia d’Almendra nasceu em Samões, Vila Flor, em 3 de Outubro de 1904 e morreu em Lisboa, a 22 de Setembro de 1992. Estudou Violino com Laura Cronner e Alexandre Bettencourt, em Lisboa, onde iniciou os estudos musicais. No final dos anos trinta abandonou a carreira de violinista e começou a interessar-se pela música da Idade Média e Renascimento. Esta viragem foi decisiva, devendo-se, essencialmente, à influência da musicóloga francesa Solange Corbin.

Nos primeiros anos da década de quarenta, esta eminente musicóloga esteve em Portugal onde iniciou uma importante pesquisa sobre as fontes documentais mais antigas da música gregoriana nos arquivos de igrejas e conventos. Júlia d’Almendra passou então a estudar com Solange Corbin e com os padres Inácio Aldassoro e Pascal Piriou, ambos professores no Seminário dos Olivais, em Lisboa. Em 1946, a convite do Instituto Francês, partiu para Paris como bolseira do governo francês. Estudou Musicologia na Sorbonne e concluiu os cursos do Instituto Gregoriano de Paris da Universidade Católica. Aqui obteve não só a licenciatura, mas também o título de “Mestre de Capela”.

A sua tese de licenciatura, “Les Modes Grégoriens dans l’Oeuvre de Claude Debussy”, foi apresentada no Instituto Gregoriano em 1948 e publicada em Paris, em 1950. A crítica internacional foi unânime em considerá-la uma importante contribuição para o conhecimento mais profundo do compositor francês. Até então, ninguém tinha realizado um trabalho de investigação de tal envergadura que exigiu, por um lado, a capacidade de análise musical das complexas construções harmónicas de Debussy e, por outro, um profundo conhecimento da linguagem e expressionismo modal do canto gregoriano. A interessante tese de J. d´Almendra passou a ser uma obra de referência obrigatória para os estudiosos de Debussy e foi adoptada em Escolas e Conservatórios, nomeadamente, o Conservatório de Música Elisabeth da Universidade de Hiroshima, no Japão.

Em 1950, ao regressar a Portugal, iniciou por todo o País uma importante acção para a defesa, difusão e ensino do canto gregoriano, criando, no mesmo ano as “Jornadas Gregorianas Regionais”, em todas as capitais de província e as “Semanas Gregorianas de Fátima”. Estas Semanas contribuiram para a formação alunos. Nelas ensinaram eminentes mestres nacionais e estrangeiros de renome internacional, nomeadamente, os Cónegos Doutores Manuel Faria, José Augusto Alegria e Mário Brás, o musicólogo Manuel Joaquim, os maestros e compositores Frederico de Freitas e Ivo Cruz (pai), Auguste le Guénnant, Pierre Carraz, Dom Joseph Gajard, Jos Lennards, Jacques Chailley. Em 1951, J. D’Almendra criou a Liga dos Amigos do Canto Gregoriano e em 1953, sob o patrocínio do Instituto de Alta Cultura, o Centro de Estudos Gregorianos que foi a primeira e única Escola de Música Sacra de nível superior em Portugal. Seguindo o modelo do Instituto Gregoriano de Paris, o Centro integrava no seu currículo, cursos regulares de Canto Gregoriano, Polifonia, Paleografia Musical, Direcção Coral, Modalidade, Latim Litúrgico, Harmonia, Composição Superior (Contraponto e Fuga), Pedagogia Musical segundo o Método Ward, Piano, Órgão e Improvisação.

Paralelamente ao movimento gregoriano, desenvolveu o estudo do Órgão como instrumento não apenas de litúrgico, mas também artístico. Os estudos históricos de Santiago Kastner, Gerhard Doderer e do Padre Manuel Valença provam que a tradição organística em Portugal estava quase perdida. J. D’Almendra, conhecendo bem o ambiente artístrico parisiense, convidou os mais eminentes mestres franceses que contribuiram para o renascimento da arte do Órgão em Portugal – Gaston Litaize, Jean Guillou, Édouard Souberbielle e Antoine Sibertin-Blanc. Para além da intensa actividade como concertistas, prepararam várias gerações de jovens organistas portugueses.

Foi também a introdutora do Método Ward em Portugal, tendo concluido em Paris o Curso Ward, orientado pelo pedagogo holandês Jos Lennards. Ainda nos anos cinquenta, J. d’Almendra criou as primeiras classes Ward nos Parques Infantis da poetisa Fernanda de Castro. Em 1967, introduziu no Centro de Estudos Gregorianos classes infantis de formação musical segundo este Método. Durante quase uma década organizou, anualmente, em Lisboa, as Jornadas Infantis Ward que congregaram milhares de crianças de escolas primárias e colégios de Lisboa, Tomar e outros locais do País. Dedicou-se igualmente à organização de concertos espirituais de canto gregoriano, polifonia e Órgão, tendo fundado o Coro Infantil ward, a Schola, o Coro Palestrina e a Capela Gregoriana.

Para além da sua actividade pedagógica, J. D’Almendra criou, em 1956, a revista “Canto Gregoriano”, publicação trimestral da especialidade que dirigiu durante três décadas. Publicou inúmeros artigos em revistas e jornais nacionais e estrangeiros, proferiu conferências em Portugal, França e Brasil.

Colaborou em vários Colóquios Internacionais, nomeadamente, nas comemorações do centenário do nascimento de Claude Debussy e do cinquentenário da morte de Gabriel Fauré, a convite do Centro Nacional de Investigação Científica (C. N. R. S). Foi membro honorário da Sociedade Internacional de Musicologia da Basileia e delegada em Portugal da Consociatio Internacionalis Musicae Sacrae.

Pela sua meritória acção científica, pedagógica e artística que enriqueceu o universo da música em geral e da música sacra, em particular, J. d’Almendra foi agraciada, pelo governo francês em 1958, com a Cruz de Cavaleiro das Palmas Académicas. Em 1974, a Santa Sé condecorou-a com a Medalha Pro Eclesia e em 1984, recebeu do governo português a Medalha de Instrução Publica. Já postumamente, foi homenageada em 1992, em Coimbra, pela Associação dos Amigos do Órgão de Igreja.

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