maestro José Atalaya

José Atalaya

Direção de orquestra

Chefe de orquestra, compositor e musicólogo, José Atalaya (1927-2021) frequentou o Instituto Superior Técnico antes de se consagrar à música. Estudou Análise, Composição e História da Música com Luís de Freitas Branco. Concluiu os estudos de Direção de Orquestra no Conservatório de Florença com o maestro Piero Bellugi, de 1966 a 1968. Estudou também com Igor Markevitch, Hans Munch, Hans Svarovsky, Felix Prohasca.

Tendo ingressado na Emissora Nacional em 1951, veio a fundar para o Ministério da Educação, em 1966 a Orquestra Clássica IMAVE, com a qual iniciou, através da Rádio e da Televisão, um vasto projeto de divulgação do gosto pela música que incluiu concertos com outras orquestras, entre as quais a Philharmonia de Londres (num Festival Beethoven de 1974), a Sinfónica da RDP Porto e a Orquestra do Norte, ação que se concretizou através de “Música em Diálogo” e da Orquestra Atalaya-Raízes Ibéricas com uma média de cem atuações anuais por todo o País.

Foi membro fundador e diretor da Juventude Musical Portuguesa, do Grupo Experimental de Ópera de Câmara (1961). Autor da música para o ciclo de poemas de Eugénio de Andrade “As mãos e os frutos” (1951).

Em 1976 foi nomeado coordenador artístico das orquestras da Radiodifusão Portuguesa, o que lhe permitiu criar em Portugal “As Quinzenas Musicais”, as quais consistiram em festivais dedicados sucessivamente à música de países diversos, que posteriormente organizavam festivais idênticos (em público, radio e televisão) destinados à música e aos intérpretes portugueses. Foi também, na RDP, diretor da Antena 2. Aceitou posteriormente o convite para fundar para a SEC a orquestra Clássica do Porto, com base nos instrumentistas da ex-Régie Sinfonia.

Em 1994 regressou a Lisboa, igualmente a convite da SEC, para criar a antologia “Cinco Séculos de Música Portuguesa”, em colaboração com editoras nacionais e estrangeiras. Foi o introdutor em Portugal da música eletroacústica com as suas “Variantes Rítmicas sobre Quatro Sons Sinusoidais” (Florença, Maio de 68) – as quais passaram a constituir historicamente a primeira obra de autor português inteiramente elaborada com meios eletrónicos.

Em 1998 criou a Academia de Música José Atalaya, em Fafe, com o apoio da Câmara Municipal daquela cidade. Em 2001, duas autarquias – a de Oeiras (patrocinando a edição de parte das cerca de 200 crónicas publicadas nos últimos anos “Labirintos da Música”) e a de Fafe promoveram comemorações do 50º aniversário do início da sua atividade artística.

Foi diretor artístico do Festival Raízes Ibéricas, com o qual pretendeu contribuir para o conhecimento, valorização e divulgação do património musical ibérico – autores e intérpretes – da Idade Média ao séc. XXI.

Júlio Isidro, produtor da RTP, comentou no Facebook, a 22 de fevereiro de 2021:

“Nem uma linha, nem uma voz, nem um excerto musical, para informar ou recordar quem foi este maestro que aos 93 anos partiu num triste adagio. O que nós lhe devemos na divulgação da chamada música clássica, através de concertos onde o maestro explicava de modo simples o que os nossos ouvidos reactivos recusavam descobrir para depois começar a gostar.

Esteve para ser engenheiro, mas trocou a resistência de materiais pelos resistentes à música que chamavam erudita para a remeterem só para os eleitos. Nos anos 50 já estava na vanguarda, com a atracção pela obra de Joly Braga Santos ou Pierre Boulez e o seu experimentalismo electrónico.

Foi maestro fundador da Juventude Musical Portuguesa e, à frente da orquestra IMAVE – Instituto de meios Audiovisuais de Educação, percorreu escolas e universidades a cativar milhares de jovens para o fascínio e os porquês da música. O sucesso foi tão grande que os seus concertos falados e tocados, enchiam o Teatro de São Carlos e o Rivoli com transmissão pela RTP e RDP. Ainda nas emissões experimentais da RTP em 56, apresentou o programa “Música e Artistas” com a violinista Leonor Prado e a pianista Nella Maissa.

No programa Juvenil de que eu era um dos apresentadores, foi diversas vezes convidado para dar a conhecer o que andava a fazer nessa missão superior de conquistar ouvintes para a música. O que aprendi, só de o ouvir.

Criou as “Quinzenas Musicais” a partir do S. Luiz e o projecto “Música em diálogo” que deu a volta ao país. Imaginava-o um Bernstein nos seus concertos para jovens com a Filarmónica de Nova Iorque, programas que devorava e que tinham lugar em horário nobre da RTP. Sentia que o maestro Atalaya bem poderia ter sido convidado dos Concertos Promenade da BBC onde as casacas e as rabonas enfeitadas de diamantes, deram lugar aos jeans e t-shirts a gostar de música . Ainda um dia estarei num Prom se a coluna resistir a tantas horas de pé.

Calculem que foi o MFA – Movimento das Forças Armadas, em 1974 que o convidou para coordenador artístico das três orquestras da ainda Emissora Nacional. A revolução que não se esqueceu da cultura. Morreu o Maestro José Atalaya tão à frente do seu tempo como foi o caso de um concerto com um Requiem de Mozart junto às paredes xistosas das gravuras de Foz Côa.

Entrevistei-o posteriormente em mais dois ou três programas meus, mas a sua paixão pela música foi-se confinando às suas próprias recordações. O tempo foi delapidando a memória, deste senhor que é património do país e um símbolo da RTP Serviço Público. Já se recordam daquele maestro que nos ajudava a gostar de música dita séria? E nos contava histórias da vida dos grandes compositores?

Creio que desapareceu o último comunicador de uma elite fundadora da RTP, onde recordo o Padre Raul Machado e as suas Charlas Linguísticas, para aprender a falar bem a nossa língua… Pedro Homem de Mello e os seus programas de folclore… João Villaret com histórias e poemas, António Pedro e o Teatro, ou o “Se bem me lembro ” do professor Vitorino Nemésio…. apenas alguns.

Entre o desconhecimento e o desinteresse vai uma distância. Talvez que aqui vá uma ajuda para uma nota de roda-pé num noticiário. Depois de uma vida vivida em andamento Vivace, um triste Adagio na hora da partida do Maestro José Atalaya.

Júlio Isidro, produtor

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