GUILHERMINA SUGGIA

Durante o último trimestre de 2006 e primeiro trimestre de 2007, na Casa-Museu Guerra Junqueiro, a Câmara Municipal do Porto apresentou uma exposição sobre a grande violoncelista portuguesa Guilhermina Suggia (1885-1950), tendo por título “Suggia, o violoncelo”.

A sua vida e carreira foram evocadas através de cartas, fotografias, programas de concertos, livros, desenhos e aguarelas, partituras musicais, jóias e condecorações, um dos seus vestidos de gala e alguns dos seus violoncelos, com destaque para o “Montagnana”, que quis deixar à sua cidade do Porto.

1. PRIMO TEMPO

Nascida perto do rio Douro, na Rua Ferreira Borges, a 27 de Junho de 1885, criada junto ao mar, em Matosinhos/Leça, Guilhermina era filha de Elisa e de Augusto Suggia, violoncelista e professor de Lisboa, com origens espanholas e italianas. A infância e a juventude foram passadas com os pais e a única irmã, Virgínia, que, tantas vezes, com grande talento, a virá a acompanhar ao piano. As marcas do ambien­te familiar e dos primeiros lugares não mais se apagarão. Em memó­ria do pai deixará, um dia, ao Conservatório Nacional, um dos seus amados violoncelos.

2. MODOS DE APRENDER

Augusto Suggia é, desde a infância, o professor e “orientador de carreira” da filha. Pablo Casais, em Espinho, o primeiro mestre de fora, em 1898. Em Leipzig, em 1901, graças a uma bolsa de estudo e por sugestão de Óscar da Silva, Julius Klengel prosseguirá a sua orientação técnica e artística no Conservatório, onde a extraordinária discípula se vem a formar com grande brilho. E continuará a aprender mais e mais pela vida fora, com professores, maestros, pianistas, com públicos que sempre a adoravam.

3. COMEÇAR UM PERCURSO

A primeira apresentação pública dá-se em Matosinhos, em 1892, acompanhada ao piano pela irmã. Em Lisboa, tocando diante da Família Real, abre-se-lhe outro rumo, que Guilhermina decididamente sabia bem estar-lhe destinado. Parte com o pai para Leipzig, graças também ao apoio de músicos de Lisboa, seus amigos – Micnel’Angelo Lambertini, António Lamas. Na cidade natal, o trabalho feito e as actuações públicas com o Quarteto Moreira de Sá e a sociedade de concertos Orpheon Portuense contribuíram largamente para o seu prestígio artístico.

4. UMA CARREIRA EUROPEIA

Os pólos onde irradia o seu talento são vários – Portugal, Espanha, França (Paris, com Casais), a Inglaterra – para sempre – e um pouco toda a Europa Central e mesmo Oriental, numa carreira que se re­ vela fulgurante. Quase por todos considerada um talento extraordi­nário: um dos melhores violoncelistas ou a maior violoncelista de todos os tempos. Começa a construir-se um mito. A projecção in­ternacional não a deixa nunca esquecer o País, aqui actuando com o maior êxito. Já no fim dos anos, sentirá o fascínio pela América, onde, por falta de saúde, não chegará a ir.

5. TEMPOS DE GUERRA

A 2ª Guerra Mundial (1939-1945) vem interromper, de modo abrupto e quase por completo, a carreira. A violoncelista acolhe-se ao seu Porto natal, daqui viajando, uma e outra vez, para fora do País. É o tempo da dedicação, como que em exclusivo, à actividade docente. Entre portugueses e estrangeiros contam-se por muitos os seus discípulos. Toca em público, praticamente só em Portugal, sobretudo acompanhada por Ernestina da Silva Monteiro ou por Maria Adelaide de Freitas Gonçalves. Vive na sua casa da Rua da Alegria, n. 2665, espaço de que tanto gostava.

6. UMA MULHER DE CAUSAS

Não apenas durante a guerra, Suggia revela-se uma mulher de muitas causas humanitárias e culturais: Cruz Vermelha, Fundo de Assistência aos Músicos, Sociedade Protectora dos Animais. Essas preocupações estarão presentes na hora de fazer o testamento. Para além dos maiores amigos e “servidores”, não esquece os legados a favor de instituições religiosas e filantrópicas. Lembremos que a participação em acções de beneficência já nesse tempo era, de uma forma geral, apanágio dos músicos e os membros da família Suggia (o pai, a madrinha) não eram excepção.

7. APOGEU

Tal como em jovem merecera o apreço, que se revelou decisivo em termos de carreira, da Família Real portuguesa, é a Família Real inglesa quem a acolhe, já em plena fase de apogeu. Recorda-se o concerto no Royal Albert Hall, em 1948.0 magistral retrato por Augustus John predissera já, de certo modo, em 1923, esses tempos de glória. Os maiores espectáculos em Portugal realizam-se no Porto e em Lisboa. Em Inglaterra, entre rosas, jóias, sedas, ouvem-se, em apoteose, os sons divinos do violoncelo…

8. O CAMINHO DAS MUSAS

A doença, de modo forte, começa a atingi-la. Também a irmã, os pais e o marido a deixaram mais e cada vez mais só. Assistida pêlos melhores médicos, tenta ainda uma intervenção em Londres. Regressa, porém, ao seu lugar de abrigo, o seu Porto, triste e conformada, despedindo-se da vida, aos 65 anos – 30 de Julho de 1950. Parece excessiva e quase divina a fama que ganha; a sua figura vai-se, cada vez mais, transformando em mito, que arrasta e atrai e intriga, um nome que permanece alto na História da Música e, com grande afecto, na nossa memória colectiva.

Suggia, o Violoncelo. Exposição Casa-Museu Guerra Junqueiro. Câmara Municipal do Porto 2006. ISBN 972-9147-73-6.

violoncelista Guilhermina Suggia

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