compositor Francisco de Lacerda

Francisco de Lacerda

Composição

Francisco de Lacerda (11 de maio de 1869 – 18 de Julho de 1934) nasceu na ilha de São Jorge, Açores. O pai, João Caetano de Sousa deu ao filho, ainda com quatro anos, as primeiras lições de música e piano. A família, uma das mais antigas e influentes da ilha, era descendente da velha aristocracia.

Na sua adolescência, Francisco foi estudar para Angra do heroísmo, na ilha Terceira. Quando concluiu o ensino secundário matriculou-se na Universidade de Medicina do Porto, mas o seu interesse pela música desviou-o da medicina. Veio assim para Lisboa, onde se matriculou no Conservatório Nacional. Aí concluiu o curso em 1891 e, no ano seguinte, contratado como professor de piano.

Em 1895, obteve uma bolsa de estudos do Estado português para aperfeiçoar os seus conhecimentos musicais em Paris. Foi em paris que fez amizade com Eça de Queiroz.

Nos arquivos da Fundação Calouste Gulbenkian, encontram-se interessantes e minuciosos relatos da relação de Francisco de Lacerda com Eça de Queiroz.
Perspicaz, vivo, mais, porventura, do que literariamente informado, Francisco de Lacerda nutria no entanto uma admiração por Eça. Por seu lado, Eça demonstrou-lhe desde o inicio disponibilidade e acolhimento afectuoso, o que o levou a pedir-lhe apoio, cuja eficácia seria garantida pela excelente relação que Eça mantinha com o poder em Lisboa.

Os mais antigos testemunhos desse relacionamento são três fotografias realizadas algures em 1897, das quais em nenhuma os chega a reunir na mesma imagem.

Francisco de Lacerda vive em Paris há cerca de dois anos trocando nesse ano de 1897 o ensino do Conservatório pelo da recém fundada Schola Cantorum. Torna-se progressivamente um elemento interveniente na colónia portuguesa em Paris, como Viana da Motta ou António Gameiro. Empenha-se como músico e organizador nas comemorações do centenário de Almeida Garrett, e no Grand Café-Restaurant Voltaire, organizou um jantar de compatriotas em homenagem a Eça de Queiroz e ao diplomata António Bartolomeu Ferreira, para o qual, com grande elogio, redigiu uma ementa em português.

O pai de Francisco, na sua remota ilha natal ia sabendo por carta de todas estas iniciativas: “… Remeto a meu pai um exemplar da Ementa que organizei exclusivamente em português o que causou a todos, viva e agradável surpresa. O Eça estava radiante… Creio que já disse a meu pai que ele patrocina a minha pretensão. Vai brevemente a Lisboa e ali tratará disso. Convidou-me para jantar amanhã em sua casa a fim de concertarmos no que há a fazer. Creio-me, pois bem pilotado…”

A pretensão de Lacerda era prolongar a sua bolsa de estudo, e Eça prontificou-se a mover as suas influências.

Dos seus primeiros tempos em Paris, Francisco de Lacerda recordaria alguns acontecimentos marcantes como um jantar em casa da famosa princesa Rattazzi, autora de um célebre retrato de Portugal e dos portugueses intitulado Portugal à Vol d’Oiseau. Lacerda encontrou-se também com artistas como Isadora Duncan e Edgar Degas.

Francisco de Lacerda tencionava regressar a Lisboa, e ao Conservatório como professor não de piano, mas de órgão, no entanto essa era uma lacuna do Conservatório que não dispunha na sua estrutura curricular o ensino deste instrumento. Pretendia ainda acumular com a actividade de docente a de organista titular da Capela Real, lugar também não existente na altura.

Influenciado pela atmosfera da Schola Cantorum, Lacerda via o seu futuro, pouco antes da viragem do século, com rumo bem diferente do que viria a ter.

Foi Vincent D’Indy, seu mestre de composição, que incentivou Francisco de Lacerda a seguir a direcção de orquestra.

Porém, as pretensões de Lacerda levaram Eça de Queiroz a escrever ao seu amigo Conde de Arnoso, que era então Secretário do rei D. Carlos:

“…Querido Bernardo,

Decerto te lembras de termos, muitas vezes, em Lisboa, falado, e com muito interesse, duma nobre ideia – a restauração da Música Religiosa em Portugal – e do artista de elevado espírito que a concebeu e dela quer fazer a obra da sua vida – O Sr. Francisco Lacerda.

Pois é o Sr. Lacerda que agora te leva e te apresenta esta carta. Ele vai a Lisboa com o fim de dar à sua ideia um começo de forma e de movimento…

É claro, Sr. Lacerda não pretende que imediatamente, em poucas semanas, comecem a ressoar todos os órgãos das nossas sés e que diante de todos os altares de Portugal se ergam os nossos velhos cantos litúrgicos…. O Sr. Lacerda deseja simplesmente, por ora, que lhe seja prolongada por mais um ano a sua estada em Paris… ”

Francisco de Lacerda não vinha a Portugal desde 1895. Decide então, em 1899 fazer umas férias na sua ilha natal, tendo para isso que ficar uns dias em Lisboa, onde empreendeu contactos importantes apoiados na recomendação do seu amigo Eça.

O pai de Francisco de Lacerda, por via das cartas que este lhe escrevia, ia ficando a par dos acontecimentos e ao mesmo tempo, mesmo sem conhecer Eça de Queiroz acabava por ter dele uma determinada ideia que reproduziu também em carta para o seu filho Francisco: “Falei na minha última dum João Pereira de Lacerda, filho natural de José de Lacerda, que veio da América com destino a ir ver a Exposição. Pediu-me uma recomendação para ti, que procuraria a tempo de seguir neste Açor. Não veio e consta-me que partirá no Peninsular que passou ontem pela Calheta. Talvez fosse melhor assim, porque não te sobra tempo para servires de cicerone a quem pouco entende de belezas artísticas… Destinava enviar-te por ele um magnífico canivete que desejava oferecesses ao Sr. Eça de Queiroz para este cavalheiro aparar as unhas que por vezes parecem agudas demais… A propósito, o doce chegou em bom estado ao termo da viagem, ou derreteu-se pelo caminho? No primeiro caso gostou dele o Sr. Eça de Queiroz, ou fez-lhe bico?”

No regresso a paris, depois de uma longa permanência nos Açores, Lacerda reencontra Eça já doente, antes de em finais de Maio seguinte o ver partir para Lisboa, e daí, acompanhado por ramalho Ortigão para a Suíça de onde regressou a Paris onde veio a morrer a 16 de Agosto de 1900.

Posto este capítulo da vida de Francisco de Lacerda, a sua vida seguiu o rumo esperado. Em 1900 fez a sua primeira aparição pública como maestro. O êxito que desde logo conquistou abriu-lhe as portas para uma carreira bem sucedida à frente de algumas das melhores orquestras europeias.

A exposição a que o seu pai aludia em carta, era justamente a exposição Universal de Paris em 1900, para a qual Francisco de Lacerda foi nomeado membro do júri, tendo participado ainda na organização da representação portuguesa naquele evento.

Em 1928, Francisco de Lacerda viu-se obrigado, por questões de saúde a regressar a Lisboa. Orientou então a representação musical portuguesa na Exposição Ibero-americana de Sevilha, e ocupou-se com a investigação sobre o folclore, e com o estudo de obras musicais portuguesas antigas.

Para além das suas obras musicais, publicou o Cancioneiro Musical Português. Foi também um poeta de mérito embora tenha publicado pouco, deixando a maior parte da sua obra inédita.

Depois de uma longa luta com a tuberculose pulmonar, Francisco de Lacerda morreu no dia 18 de Julho de 1934.

Antena 2, acesso a 10 de março de 2018

[ Músicos naturais da Calheta, São Jorge, Açores ]