tenor José Manuel Araújo

JOSÉ MANUEL ARAÚJO

ENTREVISTA

Doutorado em Música pela Universidade de Aveiro, José Manuel Araújo frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde cursou Filologia Clássica, e o Conservatório Nacional, onde estudou Piano, Violoncelo, Composição, Cravo, Clavicórdio, Interpretação de Música Antiga e Canto, tendo terminado o curso superior desta disciplina com a máxima classificação, assim como a licenciatura em Canto, na Escola Superior de Música de Lisboa.

Como começou a sua descoberta da arte dos sons?

Em criança. Desde muito cedo comecei a escrever correctamente, pelo que, ainda na primeira classe, a professora me encarregava de corrigir os ditados da quarta classe. Lembro-me perfeitamente de cantar peças imaginadas por mim, aos seis anos.

Que música ouvia na juventude?

Na infância, ouvia o que passava na televisão ou na Rádio. A primeira coisa que cantei, segundo o que a minha Mãe me contou, foi um êxito do Festival de S. Remo, de Domenico Modugno, “Volare!” Teria uns três anos nessa altura. Desde muito cedo comecei a ouvir apenas música erudita, graças aos concertos de Ano Novo da Filarmónica de Viena, transmitidos em directo na televisão. Pelos onze, doze anos, já tinha as minhas preferências bem definidas: a quarta de Beethoven, a abertura Egmont, a quarta de Schumann, o duplo concerto para violino e violoncelo, o poema sinfónico “Aus Italien” de Strauss. Um dia, ouvi Mahler pela primeira vez, a sinfonia Nº. 1, Titan. Foi o início de uma relação fortíssima, que ainda hoje dura, e que me levou a outra das minhas figuras tutelares, Bruckner.

Sempre achei muito estranho que os meus colegas não ouvissem a mesma música que eu, que não suportava a que eles ouviam. Para mim, a Música já era um aspecto da Filosofia, sob a forma de um ritual religioso, capaz de evocar níveis superiores de consciência.

Estudou Violoncelo, Piano, Cravo, Clavicórdio… Como descobriu que o canto lírico seria a sua profissão?

Por mero acaso. O meu objectivo original era a composição, a direcção de orquestra e o órgão. Como, na época, tinha que começar pelo piano (só com o terceiro ano concluído poderia estudar órgão), assim fiz. Podia escolher outro instrumento; como gostava muito do som do violoncelo, matriculei-me na classe da D. Isaura Pavia de Magalhães. Foi aí que conheci uma colega, a minha querida amiga Lia Altavilla, que me pediu para a acompanhar nas aulas de canto. Numa semana estudei dois Lieder de Strauss, Morgen e Zueignung. Fui cantor por acaso, sempre preferi acompanhar Lied. Em casa de um amigo, acompanhei um tenor, e fiquei fascinado com a sua potência vocal. Cheguei a casa e experimentei, também conseguia fazer o mesmo. Ainda antes de ter a idade legal na época para me matricular em canto, comecei a estudar com a professora da minha colega.

Conheceu grandes nomes do canto lírico, como Carlo Bergonzi e Alfredo Kraus. Que professores foram mais marcantes na sua vida artística?

Em primeiro lugar, o grande barítono Gino Bechi, figura carismática. Com setenta anos, cantava tudo, mesmo as árias de tenor, com uma voz de juventude e potência impressionantes. A sua maneira de declamar o texto sobre o legato da linha de canto era perfeita. A forma como conseguia transmitir a expressão do texto em cada palavra, em cada sílaba, deixava-nos profundamente emocionados. Nos ensaios do Rigoletto em que Bechi foi o encenador e a minha Esposa (a grande cantora Elvira Ferreira) cantou a Gilda, quando o barítono não estava, cantava ele o protagonista. O director saía do seu gabinete, vinha toda a gente assistir, ficava tudo em lágrimas. Recordo uma outra produção, da Traviata, em que, num ensaio com coro e orquestra em que o barítono não estava, cantou toda a cena final do segundo acto. Ao terminar, coro, orquestra, cantores, todos aplaudiram de pé, numa ovação tão intensa como nunca tinha ouvido.

Depois, sem dúvida a grande mestra Lola Aragón, no Palácio de Mateus e em sua casa de Madrid. Mais tarde, tive a possibilidade de frequentar a Accademia Verdiana, em Busseto, sob a orientação do grande mestre Carlo Bergonzi. Aí tive a possibilidade de conhecer Alfredo Kraus como professor, numa masterclass.

Além do curso superior de Canto e o doutoramento em Música pela Universidade de Aveiro, cursou Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. De onde lhe vem o interesse pelos estudos clássicos?

O interesse na cultura clássica foi-me despertado por Nietzsche, que comecei a ler muito cedo, e por Vergílio Ferreira, com quem tive Latim e Grego no Liceu Camões. Passei dois anos a sós com ele, praticamente todos os dias, pois era o único aluno de Grego.

Desde criança que tive a noção clara de que existe uma relação entre a expressão verbal dos conceitos e das suas relações e a própria realidade. Mais tarde, já na Faculdade, nunca aceitei as teorias que nos tentavam impingir, oriundas do estruturalismo. Hoje continuo a estudar profundamente essa relação.

Como é a sensação de pisar pela primeira vez um grande palco?

Curiosamente, talvez por ter uma auto-estima muito grande, nunca tive qualquer problema. É-me mais difícil cantar um recital de Lied para uma audiência reduzida do que uma ópera ou um concerto para um público muito numeroso.

Como era a sua relação com a personagem que vestia? Vivia o papel?

Tentava fazê-lo, sempre que possível. Em termos cénicos, tinha que seguir as indicações dos encenadores. Quando tinha alguma autonomia, oscilei sempre entre uma abordagem técnica e uma vivencial, mas, para mim, o essencial era a transmissão da expressividade e do sentido por via vocal. Mesmo quando vejo ópera, não consigo levar a sério um cantor que se mexe demasiadamente, ou que faz trejeitos imbecis. A expressão vocal é a forma mais elevada de comunicação.

Como nasceu o livro “O cantor, a voz e a emoção”?

Após a conclusão do doutoramento, achei que poderia aproveitar as minhas pesquisas e conclusões para um pequeno livro onde as apresentasse numa forma mais acessível. Foi um trabalho interessante.

Qual considera ter sido o momento mais alto da sua carreira de cantor?

É difícil dizê-lo, pois nunca me levei muito a sério como cantor. A minha actividade principal nunca foi esta. Cantei, porque todos, Bechi, Bergonzi, incluídos, me diziam que tinha uma grande voz e que cantava muito bem. Bergonzi, por exemplo, apresentou-me a Kraus dizendo: “José è un tenore di colore, come c’era ai nostri tempi”. Cada vez que eu tinha aula em Busseto, todos os meus colegas iam ouvir, e muitas vezes ouvi grandes aplausos. Mas sempre achei que o cantor, tal como o poeta, é um grande fingidor.

Refiro duas ocasiões, de que me orgulho particularmente: o meu primeiro Requiem de Verdi, em Tarragona, para um público de muitos milhares de pessoas, e uma ópera que não queria fazer, por motivos ideológicos, éticos e estéticos – Ascensão e Queda da Cidade de Mahagónny, de Kurt Weill, compositor que está nos antípodas da minha estética, sobre um texto de Brecht, que abomino. Quando respondi ao Dr. Serra Formigal, o director do Teatro de S. Carlos, que não aceitava o convite, a minha mulher e um maestro italiano muito nosso amigo, pediram ao director que saísse e obrigaram-me a aceitar o papel. No final dos espectáculos, fiquei sempre muito surpreendido por ver tanta gente a querer cumprimentar-me, com os olhos ainda em lágrimas.

Qual dos numerosos papeis que representou, nomeadamente no Teatro Nacional de São Carlos, foi mais marcante?

Considerando que poucos papéis cantei em S. Carlos (ou fora) de que gostasse verdadeiramente, talvez o Pollione, da Norma, o único que se enquadrava um pouco nos meus padrões estéticos. A maior parte das vezes, cantei apenas por motivos profissionais.

Foi dirigido por numerosos maestros. Fale-nos de Silva Pereira.

Só tive o prazer de cantar uma vez sob a direcção do Maestro Silva Pereira. Encontrava-o muitas vezes no saudoso restaurante Monte Carlo, onde almoçávamos amiúde. Convidava-nos para a sua mesa e comentava de forma particularmente sagaz e verrinosa alguns dos nossos “colegas” que procuravam fazer carreira, utilizando todos os meios, quando as qualidades vocais e musicais não eram suficientes…

O maestro português com quem mais cantei foi Manuel Ivo Cruz, com quem me estreei e cantei numerosas óperas e concertos, no S. Carlos e fora.

Também tive o prazer de cantar com o maestro Gunther Arglebe, infelizmente muito poucas vezes, mas guardo a grata memória de algumas aulas privadas de direcção de orquestra, na mais pura tradição germânica.

Recorda-se de alguma deceção musical?

Perfeitamente. Foram muitas as decepções que experimentei no mundo profissional da ópera, mas, essencialmente, quando tive que trabalhar com maestros que nada entendiam de música, apenas sabiam (e mal) marcar compassos. Ouvem as gravações dos maestros promovidos pelos media e estudam ao espelho… Se, por um lado, me dava vontade de dar meia volta e deixá-los a gesticular, por outro divertia-me interiormente com a sua ignorância erigida em conhecimento. Mas isso, infelizmente, não se passa apenas no mundo da música.

A tradição cristã tem alguma influência na sua vida?

A minha área principal de estudo tem que ver essencialmente com a ética e a consciência, pelo que a resposta não poderia ser senão afirmativa.

Que entidades destaca pelo seu contributo musical nos últimos 50 anos em Portugal?

Preferia não responder a esta pergunta, mas não posso deixar de referir grandes mestres do piano, como Sequeira Costa ou Maria João Pires, ou o compositor Joly Braga Santos, de quem tive o grato prazer de cantar a Trilogia das Barcas, em S. Carlos. Não falarei de cantores, pois são muitos e iria seguramente esquecer-me de alguns, embora não possa deixar de referir a minha esposa, a grande cantora Elvira Ferreira, sem a qual jamais teria seguido a carreira de cantor.

Quais lhe parecem as maiores dificuldades e vantagens que se colocam aos cantores líricos portugueses na atualidade?

Não estou minimamente dentro do assunto para poder exprimir qualquer opinião.

É professor na Escola de Música do Conservatório Nacional. O que pensa do ensino da música no País?

Tenho um orgulho muito particular em ser professor desta instituição, onde se encontram alguns dos melhores músicos do país. O nível do ensino deixa-me angustiado, sobretudo quando estive a leccionar mestrados em Canto, numa instituição de ensino superior. Felizmente, já tinha deixado o ensino do português há muitos anos (quando entrei para o Teatro de S. Carlos, nos inícios dos anos 80). O choque de ter que ler trabalhos escritos e orientar teses de mestrado foi enorme. Com muito poucas excepções, não compreendo como é possível alguém terminar a instrução primária com o nível de escrita que é, aparentemente, considerado normal no ensino superior. Em conversa com amigos de outras áreas académicas (Direito, por exemplo), apercebi-me de que a música não é caso isolado. Por outro lado, tenho alunos de outras áreas académicas como a Engenharia que escrevem primorosamente.

Acha que a ópera está centralizada em Lisboa, ou nota alguma evolução nos últimos 40 anos?

Antes de 1974 era normal o Teatro de S. Carlos apresentar as suas produções pelo país. Penso que agora haverá mais produções autónomas, pelo menos no Porto.

Na sua perspetiva, como evoluiu a apresentação de óperas portuguesas no País?

A minha estreia no S. Carlos foi, precisamente, numa ópera portuguesa, “O Amor Industrioso” de Sousa Carvalho. Não tenho acompanhado a programação de ópera nos últimos vinte anos ou mais.

Quem é Verdi para si?

Giuseppe Verdi, em cuja terra natal estudei, é um gigante da Música e um génio da Humanidade, que deu voz às mais profundas aspirações do Homem. Com o grito de Viva Verdi, os patriotas italianos uniram-se pela afirmação da Itália em torno do seu rei, Vittorio Emanuele II. Aconselho toda a gente a ouvir a gravação do Nabucco no Teatro S. Carlo de Nápoles, em 20 de Dezembro de 1949, com Callas e Bechi. No momento do coro dos escravos hebreus, a reacção do público, acabado de sair de uma época terrível de guerra, só seria possível numa ópera de Verdi. Os gritos de Viva Italia! são a expressão mais pura do orgulho de uma nação ferida.

Como encara a música na sua vida?

Poderia citar Nietzsche ou Cioran para responder a essa pergunta. Sem a Música, não sei se valeria a pena a vida. No entanto, não vou a espectáculos de ópera há muitos, muitos anos, e frequento apenas alguns concertos, de forma muito pontual. Prefiro guardar na memória os momentos sublimes que vivi com os grandes cantores e maestros que tive a sorte de poder ver e ouvir no palco. Tenho todos os grandes espectáculos de ópera ao vivo pelos grandes mestres anteriores ao meu tempo.

Se não pudesse ser músico, o que acha que podia ser?

Como disse anteriormente, a minha área de actividade principal não é o canto, mas o estudo das artes marciais tradicionais japonesas, que iniciei aos dez anos de idade, o que me obriga a um estudo profundo nos domínios da história, religião e línguas orientais.

Em três adjetivos, como se caracteriza a si mesmo?

Não tenho esse poder de síntese, pelo que não utilizarei adjectivos. Sou incansável na defesa dos meus princípios, preferindo ter uma vida social muito reduzida. Sou extremamente exigente com a qualidade do meu trabalho, o que me obriga a passar todo o meu tempo em estudo, pesquisa e escrita. Sou um homem feliz, pois tenho uma família que me deixa profundamente orgulhoso…

18 de fevereiro de 2018