António Carrilho

António Carrilho

António Carrilho nasceu em Lisboa a 5 de setembro de 1972. Concertista, criador conceptual, professor e director musical, apresenta-se num repertório que vai desde o Trecento italiano até à música mais recente passando ainda pela interpretação e transcrição da música do século XIX.

ENTREVISTA

Como começou a sua paixão pela música? Herdou uma tradição musical da família?

Tive uma professora no 2.º ano do ciclo preparatório que fez com que me apaixonasse pela música, tinha eu 12 anos. Desta paixão surgiu nesse mesmo ano o convite para cantar num coro infantil na cidade em que vivia com a minha família e, desde então, não mais parei de dar concertos.

A flauta de bisel foi o seu primeiro instrumento?

O meu primeiro e único instrumento a sério. Apaixonei-me pela flauta graças a um anúncio na televisão cuja música era o segundo andamento dum concerto de Vivaldi para flauta.

Entre 1986 e 1991 estudou no Conservatório Nacional onde concluiu o curso com a máxima classificação. Quem foram os seus professores nesta fase da sua formação?

Fui aluno de flauta da Professora Catarina Latino, de música de câmara de Fernando Eldoro, de composição de Jorge Peixinho e Eurico Carrapatoso, de Formação musical de Gabriela Canavilhas, Carmo Norton e Ana Domingues.

Como foi o seu percurso enquanto estudante do ensino básico ao secundário? Dava prioridade à música, ou valorizava todas as disciplinas?

Dei sempre prioridade à música. Para além do meu percurso estudantil e assistir a todos os concertos e óperas que podia (graças aos bilhetes oferecidos então aos estudantes pelo Teatro Nacional de São Carlos e pela Fundação Calouste Gulbenkian), frequentava ainda os Cursos Internacionais de Música Antiga da Casa de Mateus (sendo actualmente co-director dos mesmos) todos os verões. Tocava com o Quarteto de Flautas de Lisboa.

Qual foi o primeiro momento em que se lembra de ter tido consciência de que flautista seria a sua profissão?

Posso dizer em que momento tive consciência que não seria, pois esse foi o momento mais marcante. Passo a explicar: na minha primeira aula de flauta, sendo a minha professora ainda muito jovem,  foi na presença do director pedagógico da escola em que estudei entre 1985-1986. Naquela primeira aula foi dito pelo director pedagógico à minha professora que não perdesse tempo comigo, pois nunca iria ser músico.

Após este primeiro impacto tremendamente negativo e nada pedagógico, a minha paixão pela música foi mais forte e eis-me músico afinal de contas.

Que música ouvia na sua juventude?

Ouvia e ouço todo o tipo de música de qualidade.

Que professores foram mais marcantes na sua vida artística?

A Anabela Simões que foi a minha primeira professora de música no ciclo preparatório por incutir-me a fruir da música; a Catarina Latino pelo seu apoio e incentivo; o Sebastian Marq pela inspiração e ensinamentos.

É Professor Adjunto na Escola Superior de Artes Aplicadas, foi professor no Instituto Gregoriano de Lisboa e no Conservatório de Caldas da Rainha. Tem havido uma grande evolução no ensino da música em Portugal?

Para além de leccionar na Escola Superior de Artes Aplicadas, lecciono ainda na Escola Superior de Música da Extremadura/ Espanha.

O ensino tem melhorado a olhos vistos. Temos professores mais capazes e a par da realidade internacional. No entanto o ambiente escolar tem regredido desde que as instituições obrigam os professores a deixar de trabalhar com música e a pensar apenas em preencher papéis e relatórios inúteis por ninguém lidos, fazendo da vida dos docentes um verdadeiro mar burocrático e a na exigir aos professores trabalhar horas extraordinárias a pagamento zero. Não falo da minha situação pessoal, mas estou inteiramente solidário com os professores do ensino secundário que estão sujeitos à vontade de más administrações e direcções escolares.

Lecionar, tocar e dirigir beneficiam-se mutuamente?

Em cada uma das vertentes, não obstante toda a minha larga experiência (foi há mais de 30 amos que fiz o meu primeiro concerto profissional pago…), considero sempre ser um aprendiz. Ao leccionar aprendo ferramentas para dirigir, tocar ensina-me a dirigir e a ensinar, ensinar dá-me mais vontade ainda de tocar.

Que instituições mais têm contribuído para a evolução da música no País nas últimas décadas?

As escolas profissionais de música. Nestas instituições os alunos trabalham arduamente, tendo aulas de instrumento várias vezes por semana. É ainda e, muito justamente, dada a máxima importância ao trabalho de conjunto, constituído a música de câmara a área na qual o aluno aprende a ouvir, a reagir e a interagir fazendo música de conjunto.

Tem um repertório predileto?

Tenho. Sempre o que trabalho no momento em que me preparo para um concerto.

Foi premiado nos concursos internacionais Recorder Moeck Solo Competition (Inglaterra) e Recorder Solo Competiton of Haifa (Israel). De que modo são os prémios importantes para si?

Não são. Ganhar um concurso não é sinónimo de qualidade, nem de longevidade numa carreira de sucesso no mundo da música. E temos sempre a questão da parcialidade do júri.

Tem uma carreira internacional consolidada. Como se constrói uma carreira duradoura de sucesso?

Disciplina e qualidade no estudo para manter e melhorar as capacidades musicais (não dissocio a técnica da musicalidade). Ouvir muita música de vários quadrantes, de forma a encontrar inspiração e motivação extra para formular projectos inovadores. Saber falar línguas estrangeiras; sendo que domino vários idiomas, tenho tido a oportunidade de fazer músico com músicos extraordinários, pois falando o seu idioma, a comunicação verbal é fluente. Ser uma pessoa de bem e aceitar que também outros músicos merecem ter sucesso.

Cria projetos pluridisciplinares envolvendo músicos, atores, bailarinos e apresentações multimédia. Como se formou o seu gosto por esse ecletismo?

Antes de ir estudar para a Holanda, o meu gosto musical incidia na música antiga, sendo que tocava um instrumento “antigo”. Com os concertos contemporâneos da Acarte, vislumbrei novas possibilidades para o meu percurso.

Chegando à Holanda, deparei-me com o estudo intensivo de musica do século XX como parte integrante do plano de estudos e comecei a interessar-me por esta linguagem. Pouco tinha feito durante os meus estudos em Portugal, pelo que achei fascinante todos os recursos técnicos e musicais que esta nova abordagem me proporcionaram. Ainda como aluno tive a oportunidade de participar em projectos com outros instrumentos e bailarinos. Daí surgiu um dos meus agrupamentos, o ensemble “Ciudate”, com o qual estreei obras de compositores reconhecidos da Holanda, Alemanha, Roménia e Dinamarca. Com este grupo fui representar a Holanda aquando das comemorações dos 300 anos da fundação da cidade de São Petersburgo. Ao longo dos anos tenho encontrado parceiros musicais em diversas áreas e estilos musicais, encontrando pontos de encontro comuns. A título de curiosidade menciono a minha parceria com um ensemble japonês de música tradicional com o qual colaboro no Japão ou na minha dupla com o artista plástico Bruno Gaspar, aliando a música e a pintura num só espectáculo.

Gravou para as etiquetas Encherialis, Numérica, Naxos, Secretaria de Estado de Cultura do Estado do Amazonas e mpmp, entre outras. O que falta à música portuguesa para se afirmar em termos de edição discográfica a nível internacional?

As mesmas oportunidades de apoio financeiro que são dadas ao futebol.

Já deu “masterclasses” em Portugal, Holanda, Alemanha, Itália, Índia, Japão e Brasil. Além da excelência, de que precisam os músicos portugueses para darem formação a esse nível?

Ser pessoas de bem.

A nível de música antiga, há agrupamentos em Portugal ao nível dos melhores a nível internacional?

Um dos grandes problemas nos grupos portugueses de música antiga é o facto de em todos participarem os mesmos músicos. Há muita qualidade, muda apenas a direcção musical.

Há muitos músicos do passado e do presente que não têm o reconhecimento que merecem. Na música erudita, Portugal nem homenageia os mortos nem reconhece os vivos?

Se Portugal tiver uma política cultural idêntica aos apoios e incentivos dados ao futebol,  teremos evidência da existência de músicos de excelência. Para haver reconhecimento em casa, precisamos de trabalhar no estrangeiro.

Quais lhe parecem as maiores dificuldades e vantagens que se colocam em Portugal aos executantes de flauta de bisel na atualidade?

A falta de oportunidades de trabalho enquanto professor. A maior parte dos flautistas precisa de trabalhar noutra área que não a da música para sobreviver. Esta dispersão baixa o nível doe execução quando há uma oportunidade de tocar em concerto, fazendo com que os organizadores não vejam o instrumento de forma igualitária.

Há também o caso de quem tem de trabalhar tantas horas a leccionar em condições de extrema tensão com a chefia, que acabam por perder-se talentos para o mundo burocrático.

Qual considera ter sido, até à data, o momento mais alto da sua carreira?

Cada vez que saio de um concerto exausto, mas com um sorriso nos lábios.

Já teve uma grande deceção musical?

Muitas.

Quais os compositores da história da música que mais o marcam e inspiram?

S. Bach, G de Machaut, C. Monteverdi, R. Strauss, I. Stravinsky…

Como é a sua relação com o público e com os músicos que dirige?

De felicidade em poder fazer música.

Quais as qualidades essenciais para ser um bom concertista?

Ser humilde, mas confiante e ter frescura no discurso musical.

Lembra-se de algum momento embaraçoso ou cómico em palco?

Este ano na Austrália, enquanto tocava numa igreja com as portas abertas, vejo vários vultos a aproximarem-se e a movimentarem-se aos saltos: uma família de cangurus veio ouvir-me a tocar um recital dedicado à família Bach…

Qual a sua relação com a flauta: profissão e necessidade?

Necessidade/prazer.

Foi (é?) diretor musical de La Nave va, Azizi, Banchetto Musicale Lusitânia… Qual a missão e atividade destes agrupamentos? 

Estes agrupamentos já não funcionam. Em todos tocava o meu amigo Kenneth Frazer. Com a sua morte não houve razão para mim para continuar estes projectos.

Tocou com o Pianola Lisboa e Ensemble Barroco do Chiado. Estes agrupamentos continuam ativos?

Já não. Foram agrupamentos muito importantes no meu percurso.

Se não fosse músico, em que profissão acha que teria sucesso?

Nunca pensei não ser músico.

Já tocou com importantes músicos nacionais e estrangeiros. Há algum grande músico com que gostaria de tocar?

Maria João Pires!

Que é que a música lhe dá?

Alegria de viver.

De que é que a música o priva?

De nada.

Quais os seus passatempos não musicais?

Cozinhar, fazer caminhadas, brincar com os meus gatinhos.

Em três adjetivos, como se caracteriza a si mesmo?

Musical, honesto, directo.

[ Publicada a 12 de março de 2019 ]